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És a nossa Fé!

Bruno de Carvalho não tem razão, dizem os juízes

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O líder [suspenso, note-se] do Sporting perdeu esta sexta feira as duas providências cautelares que apresentou. E desistiu de outras duas já homologadas.

 

Certo, os defensores de BdC virão dizer que a justiça e o Estado português estão combinados com todos os tantos e imensos que estão a fazer esta campanha contra o Sporting. Os juízes, a justiça, o Estado, as empresas, os bancos, os políticos, os ex-presidentes (vivos e mortos), os croquettes, os rissóis, as empadas (as de massa areada e as de massa folhada), os pastéis de bacalhau, as chamuças, e sabe-se lá mais o quê, tudo combinado para roubar o Sporting, dar cabo do Sporting, apropriar-se do Sporting, espoliar o Sporting, esfolar o Sporting. Malandros ....

 

Entretanto, só para dizer, para repetir, para que aqueles que ainda não sabem ou ainda não perceberam, que hoje mesmo dois juízes disseram que as providências cautelares que Bruno de Carvalho colocara para declarar a ilegalidade dos órgãos dirigentes vigentes do Sporting foram consideradas incorrectas. E que Bruno de Carvalho desistiu de outras duas providências cautelares, porque iriam ter o mesmo resultado. Ou seja, leia-se bem, atente-se, o que a Justiça portuguesa diz, nesta vésspera de tão importante Assembleia-Geral, é que a ilegalidade está em Bruno de Carvalho, as manobras manipuladoras estão em Bruno de Carvalho. Foi o que disse a justiça. Espero que seja isso o que dirão amanhã os sócios do Sporting.

 

A incompetência

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Poucos terão ainda alguma dúvida sobre se deverá cair esta direcção ou se deverá manter-se. E pouco me parece ser possível dizer a quem, ao fim deste tempo, ainda defende Bruno de Carvalho. Mas resta-me, para esses, uma questão: há muito que BdC e seus defensores clamam que o clube está a ser alvo de uma "cabala", de uma "campanha" adversa conduzida por inúmeros agentes. (Estes em cada vez maior número, pois à medida que as pessoas se foram afastando de BdC passaram a ser considerados integrantes dessa "campanha"). Tudo tem servido para difundir esse argumento, todas as insinuações. Factos nenhuns, mas insinuações bastantes. E isto não é uma questão de opinião (minha), é pura realidade: não se leu nem ouviu um único facto sobre essa "campanha". Ouvimos e lemos imensas insinuações. Normalmente as pessoas avisadas reflectem nisso, e ponderam o peso que as insinuações têm face à realidade dos factos conhecidos. Mas aceitemos, por agora e em abstracto, a existência dessa campanha. Adversa ao clube.

 

A minha questão é simples: se foi essa malévola campanha que conduziu o clube a esta situação terrível (desportiva, moral, económica, financeira) que competência mostrou esta direcção e o seu presidente para a combater? Que competência mostrou ao deixar o clube tão exposto à tão malvada campanha? É isto um líder competente?

 

Os indefectíveis de BdC dirão que o Sporting é muito apetecível e que não haveria modo de evitar a tal "campanha". Por esse mundo fora há dezenas de grandes clubes, centenas de médios clubes, milhares de pequenos clubes. Todos eles "apetecíveis" para alguém, associados, capitalistas, bancos, empresários, governos. Têm ouvido falar de muitas situações semelhantes? Que tenham chegado a este ponto? Clubes apetecíveis haverá muitos, mas têm direcções que os protegem de interesses ilegítimos. E no Sporting, que competência tem mostrado esta direcção na protecção do clube contra os tais "interesses" maldosos que são anunciados?

 

Insistirão, "as gentes do Sporting são únicas", conduziram o clube até aqui como em nenhum outro clube do mundo poderia acontecer. Será? Serão os sportinguistas os piores adeptos do mundo? Os que pior fazem ao próprio clube? Ok, aceitemos a hipótese. Insisto, que competência mostrou Bruno de Carvalho e a sua direcção face a essa característica horrível dos sportinguistas? Que deveriam conhecer, pois não só sportinguistas como na direcção há já 5 anos. Que competência mostraram para combater essa "auto-maldade" sportinguista? Que fizeram para evitar esta exposição do clube?

 

Caramba, será assim tão difícil perceber o grau de monumental desatino a que esta direcção chegou? As pessoas vivem numa outra realidade?

Chenófabo

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1. Surpreende-me que Bruno de Carvalho não vá à Assembleia-Geral, afirmando que está suspenso de sócio, e que continue a actuar como presidente do Sporting, neste caso esquecendo que está suspenso do cargo. É possível que tenha sido suspenso de sócio, ou disso informado - o que, a ter acontecido, será mais uma das incongruências saídas da gaguez dos órgãos dirigentes do clube. Mas dá-me a sensação que há aqui um caso típico de malandrice, aquilo dos dois pesos e duas medidas: "À assembleia não vou, estou suspenso de sócio; sou presidente, posso contratar um tipo para os próximos três anos". Enfim, mais uma brunice ...

 

2. Mihajlovic chega e assina por três anos. Francamente, acho um pouco desajustado, imprudente até. Ok, vamos pensar como um defensor de Bruno de Carvalho: ele é o presidente, democraticamente eleito, tem direito e dever de trabalhar e preparar a próxima época. Mas é verdade que no próximo sábado (4 dias) há uma assembleia-geral que o pode destituir. A assembleia é uma "golpada"? Poderá ser, mas foi o tribunal que mandou. Não seria mais prudente assinar o contrato no domingo? A bem do Sporting (e de hipotéticas indemnizações que possam vir a ser pedidas)? Ok. O Bruno é o maior, os verdadeiros sportinguistas não discutem as suas decisões?

 

3. Mihajlovic chega e assina. Não cria, até pelo contexto, grande ânimo. Mas logo é chamado de fascista, racista e machista. Até por associação com as atitudes autocráticas do actual presidente. Vamos lá a ver, as críticas só são produtivas se forem ponderadas. Proponho que se leiam estes dois artigos sobre o homem: Artigo de 2003. E outro artigo, de 2013. Ele não é uma flor de estufa, certo. Mas tem contexto: nascido jugoslavo, filho de sérvio e de croata (um casal "misto", como tantos na Jugoslávia). Até por razões da sua situação profissional aquando da explosão da terrível guerra assumiu-se sérvio. A família, a tal "mista", estava encerrada num local croata, cercada pelos terríveis combates. Um chefe de guerra, sérvio, amigo de amigo e seu admirador, foi-lhe evacuar os parentes da zona. Ele ficou amigo e grato. Eu nem estou a tecer loas ao novo treinador, mas conviria ter algum contenção quando se acusam as pessoas. Principalmente quando nada ou pouco se sabe sobre o que elas passaram - já agora, digo eu que por lá andei a trabalhar naqueles tempos, as pessoas por cá têm uma ideia muito serbiófoba e muito croatófila do que se passou na guerra na ex-Jugoslávia. Sendo certo que ambas as partes faziam coisas horríveis. Por efeito da (inconsciente) adesão aos católicos e germanófilos croatas contra os ortodoxos e eslavófilos sérvios. Guardem lá o argumento do "fascista" até ele fizer alguma que o provoque.

Outra é que é racista. Insultou Patrick Vieira. Bem, "bocas" dentro de campo são muitas, e naquele tempo ainda seriam mais. E, já agora, não só adeptos como jogadores o chamam "cigano". Não será então também de o chamar "vítima de racismo". E a outra é que é machista, disse que as mulheres não percebem de futebol. Crime? Disse-o quando a mulher de um seu ex-jogador o veio criticar. Respondeu assim, pondo-a no sítio devido. Vamos lá com calma nas críticas.

Estou a gostar dele? Não. Nada. O sacana chega a Lisboa, no meio desta confusão no clube. Dramática para os adeptos, extremamente ansiosos. No aeroporto os jornalistas acercam-se dele e o homem responde "venho às compras"? A gozar connosco? A mandar bocas aos sportinguistas, através dos jornalistas, a menosprezar o nosso interesse, a nossa urgência de novidades? Isso sim, a falta de respeito pelo "Universo Sporting" é que é, e muito, criticável. Começou muito mal - com o "pé esquerdo" diria, não fosse ele canhoto.

 

4. Vai haver uma assembleia. Entre os que leio e com quem falo há a sensação de que a direcção cairá por voto dos associados. Não estou tão seguro. Recordo que o ano passado BdC foi eleito nas maiores eleições de sempre com 86%. E que ganhou uma concorridíssima assembleia-geral em Janeiro passado com cerca de 90% de votos. Nestas coisas há muito a tendência de avaliarmos o real pelo naco do real que temos debaixo do nariz. Os meus amigos sportinguistas estão avessos ao BdC, os meus co-bloguistas também. E grande parte dos leitores e comentadores deste blog também parecem ir nesta linha: o número de leitores do blog não para de aumentar. Mas os comentários dos apoiantes de BdC reduziram-se muito. Mas isso pode significar que foram pregar para outra freguesia (secção). E decerto que os amigos de outros gostam do BdC.  E a assembleia não será apenas preenchida com os meus amigos sportinguistas e os meus co-bloguistas. Diz-se até, rumores, que haverá já excursões de apoiantes de BdC e que se vestirão de branco, para firmar a sua organicidade. Porventura serão boatos, mas sinaliza o impacto desta assembleia. 

Há um ponto que julgo importante. Sei que escrevê-lo vai levar a que muitos passantes me digam "elitista" ou croquette. Avanço já que não sou: cresci nos Olivais, bairro muito peculiar em Lisboa, vivi 20 anos em África, em Maputo os arrumadores de carro, furiosos porque eu não lhes pagava, chamavam-me "maguerre" ("branco do mato", "tuga do mato", a velha figura do cantineiro, o que cá poderá ser dito por "rústico", "parolo"), a minha própria (infelizmente ex-)mulher me dizia que eu cada vez estava mais rude. E praguejo como o caraças, também no meu blog e sou acusado de "violência verbal" no meu mural de FB (por razões políticas, não da bola). Portanto fica já avisado quem venha aqui comentar chamando-me "croquette" que o mandarei, em puro e explícito vernáculo, não ter nascido. Não me importando que o blog seja colectivo. Gosto muito mais de croquetes do que de coiratos, mas isso não faz de mim um "queque", nem nunca fez.

Qual é o ponto? Tenho visitado a página-FB do Bruno e outros sítios onde abundam os seus apoiantes. Ainda há imensa gente a apoiá-lo. É até surpreendente, com tantos dislates que vem cometendo nos últimos meses. Passados 35 anos o grande presidente João Rocha ainda é criticado pelo erro histórico de ter perdido Paulo Futre. Este BdC desbarata a equipa sénior do clube e ainda é apoiado ...! A questão é simples e ele potencia-a muito bem, no seu "contra tudo e contra todos", acossado - como na recente entrevista à SIC. Que alguns não gostaram mas que me pareceu excelente. Para ele, claro, na sua teatralização de personagem vítima de uma conspiração generalizada. 

Há, neste momento do clube, um conflito de classes. Lendo os seus inúmeros apoiantes (alguns podem ser perfis falsos mas nem todos o serão), o que é imensamente notório é o paupérrimo domínio do português escrito. É avassalador. Eu não digo que quem faz erros ortográficos (ou de sintaxe) tem menos direitos do que quem os não faz. (Até porque também os faço). O que digo é que quem faz imensos erros ortográficos lê muito pouco, tem menos informação (as palavras aprendem-se lendo-se) e reflecte menos sobre a informação que colhe (ouve-se a correr na TV e na rádio e ... pimba, já se sabe). O exemplo que meto no título do postal é típico, li-o num comentário hoje aqui, um furioso defensor do Bruno falando de um qualquer "chenófabo" - é a ditadura da fonética coligada com o radical exílio da leitura. É, desculpar-me-ão a franqueza, a ditadura da ileitura. Dos discursos de gente com escassíssimo "capital cultural".

Quem faz erros pensa pior? Não obrigatoriamente. Mas tem menos artefactos para pensar o real. O que este paupérrimo português escrito praticado por tantos dos apoiantes do BdC - cada período, cada borregada - mostra, ou aparenta mostrar, uma clivagem sociológica dentro do clube. Há neles a ideia de que com o "Bruno" o clube "é nosso" (é deles). Não dos ricos, dos doutores, dos "croquettes". Mas deles. E esse é o "sucesso" suficiente. Já não é particularmente relevante se vai ganhar taças ou troféus. A grande Taça, a grande Liga, o grande troféu é o clube ele mesmo. E como tal toda a estratégia brunista, de se afirmar e mostrar acossado por "tudo e todos", por todos os malvados poderes que dão cabo da vida das pessoas (a EPAL, a EDP, a EMEL, as finanças, o Costa, os não-Costa, o BES bom e o mau, o poder angolano e os empresários globalizados, a AutoEuropa e isso) e pela imprensa que apoia e depende desses poderes (a CNN, a Fox, a Cofina, a Al-Jazeera), é muito produtiva. Reforça o sentimento de osmose entre a base social que se sente fodida pelo mundo todo e o presidente que julgam que todo o mundo quer foder.

Distraiam-se, e vão ver quem ganha. Na assembleia-geral. E depois da assembleia-geral.

(Para quem se incomodar com os "palavrões" recordo que nunca estive num recinto desportivo, fechado ou aberto, onde não se dissessem, e com imensa profusão, estes e outros. Até nos campeonatos de xadrez.)

Etebo

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Etebo, jogador do Feirense em 2017/18. Licença desportiva vendida ao Stoke City por 7,2 milhões de euros (!) - um clube como o Feirense num negócio destes, mesmo que os empresários fiquem com um naco substancial, é mesmo sinal dos tempos ...

Nesta madrugada estive a ver o que escrevi aqui no "És a Nossa Fé" nestes meses. Muita parvoíce, apertado entre a vontade que o "Bruno" fosse Bruno e a consciência de que o Bruno é "Bruno". Muita parvoíce mesmo. Enfim, cá se escrevem cá se pagam ...

Mas ficam-me dois textos à bloguista "da bola", contentam-me. No dia 2 de Outubro um postal a que chamei "O Muro de Lisboa" pois "o Rui Patrício foi o Muro de Lisboa a que nos vem habituando". Aliás, se eu fosse da administração de alguma construtora civil com negócios do estrangeiro, tipo construções de barragens ou grandes vias, contratá-lo-ia para uma campanha publicitária.

O outro? A 9 de Setembro, fazendo uma espécie de rescaldo após a 5ª jornada, botei "Entretanto eu, aqui da praia, fico-me a pensar que aquele rapaz Etebo, que vive em Santa Maria da Feira, tem ar de quem seria um bom grumete para a nossa equipagem". Pena que não tivesse tido o eco que eu desejaria.

Espero que compensem, um pouco, outras coisas por aqui deixadas.

 

Apocalipse Já

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(É um texto longo, que me desculpem, mas é catarse da tristeza. E forma de suspender o blogar. Pelo menos por uns tempos. Não quero escrever em público neste meu "estado de alma" abalado, sempre propenso a exageros intimistas).

 

Eu era adolescente mas ainda me lembro, de modo algo vago. Há quase 40 anos surgiu uma das melhores campanhas políticas, o dístico “Eu não tenho culpa, não votei AD”. Pois, de repente, no meio daquela crise, ninguém assumia ter apoiado o governo maioritário. Certo, houve uma réplica, o “Eu sou AD, eu trabalho”, outro dístico – antes das redes sociais as pessoas afixavam nas roupas, usando-as como “murais” -, pujante, mas com menos sucesso.

 

O que se passa no Sporting Clube de Portugal é um pouco o mesmo. A “crise” não o é mas sim um descalabro. Um Apocalipse, Já. E todos nós vamos organizando a nossa amnésia, numa espécie de “Je ne suis pas Bruno”. Mas a realidade é que Bruno de Carvalho foi reeleito o ano passado, nas eleições mais concorridas do centenário clube, com a maior percentagem de votos de sempre, se em eleições com listas concorrenciais. Foi sufragado pelos sócios, aclamado pelos adeptos. Alguns desgostosos com o seu estilo. Mas poucos, muito poucos, opondo-se ao conteúdo. Crentes, lúcidos, que “a forma é conteúdo” – e refiro o meu querido amigo Miguel Valle de Figueiredo, sportinguista profundo, meu co-bloguista, que desde o surgimento de BdC me causticou pelo meu estuporado apoio à personagem.

 

Explicações para a ascensão do “brunismo” serão várias. As internas ao agora dito “Universo Sporting” são óbvias: o apoucamento do clube nas últimas décadas, a míngua de títulos no desporto-rei, a redução das suas modalidades, e também o desbaratar do património fundiário e a profunda crise económica. E um dado sociológico: num clube popular (e pouco importa se o mais popular, como inventou Sousa Cintra, se o segundo ou o terceiro do país), o “único clube “de Portugal”” como tanto fazemos questão de dizer, notou-se que esta decadência fosse gerida (gerada?) por uma auto-reclamada elite social, os agora ditos “croquettes” (de preferência com os dois “tt”s), a panóplia de “notáveis”, uma espécie de plutocracia, transumante entre o clube e o eixo construção civil-banca. E os efeitos da crise económica, o estrondo na banca nacional e a aflição na construção, apontaram (e devidamente, na minha opinião) o quanto de espantalho tem essa aparente elite, a sua “solidez”, “competência” e “seriedade”. No país, e muito em particular no clube. Daí a ascensão de Godinho Lopes (que, de facto, não pertence a esse meio social). E logo de seguida, ruptura ainda mais radical, o “Bruno”, homem das massas. Ou seja, homem das claques, para falar em termos clubísticos.

 

Tudo isto catapultado pela vontade, até insana, de ganhar títulos. Os quais, o que tanto piora a coisa, tão habituais são nos “outros”, os vizinhos, benfiquistas e portistas, esses sempre “ferindo-nos” com a sua festa cíclica, a sua alegria esfuziante. Invejamo-los, o que nos apouca, amesquinha. Mesmo que não o confessemos.

 

Títulos que são o corpo do ideal de “sucesso”, tão difundido nos finais de XX. E que é desesperante, pois a esmagadora maioria de nós não consegue ter “sucesso”, palpável, festejável, “trofeuizável”, que seja reconhecível, saudado, até invejado pelos outros. Aguentamos a merda do dia-a-dia, uma ou outra alegria, uma festarola, uma pequena promoção, um bónus no salário, uma bela refeição, a praia na Tailândia ou um escaldão na Manta Rota. E, quanto muito, uns laivos de felicidade, um filho que cresce, um neto que encanta, uma mulher que sorri, no acto ou mais ao longe, um qualquer feito, naqueles que gostam do que trabalham ou vão com hóbi. Ou alguma placidez, talvez. Por isso este anseio de títulos da “bola”. Não para esconder algo. Mas para celebrarmos este algo, e que parece pouco, que nos coube.

 

E mais o são num país que se futebolizou, desde os “a geração de oiro” do prof. Queiroz, do Euro-04, tudo catapultado no frenesim da imprensa multiplicada (rádios privadas nos 80s, jornais desportivos diários, televisões privadas nos 90s) e agora histriónica pois moribunda. E a explosão da internet, e das redes sociais (como este blog). Quem vive ou viveu no estrangeiro perceberá bem melhor que tudo isto, todo este futebolismo, não é a regra nem o hábito generalizado.

 

Enfim, tudo isto e muito mais nos trouxe ao “Bruno”. Ao nosso apoio, ao meu apoio, de anos, até há alguns poucos meses. Cri que no clubismo (que não na política) este afrontar, em modo populista, da plutocracia seria positivo. E serviria até como exemplo, aviso, para essa tal política. Para um bem geral, do clube, e português. Engano total. Erro crasso, de avaliação, de reflexão. De cumplicidade, estratégica que tenha sido, com o mal. Pois Bruno de Carvalho é tudo aquilo que anunciava ser, personagem típica que é. Ainda mais ilógico do que será de esperar deste tipo de líderes, populistas abrasivos. Pois em formato incompetente, agora feito cinzas pelas chamas que ateou.

 

O resultado económico e desportivo deste desgraçado período será abissal. As perdas são (e serão) brutais, em cima das enormes dificuldades que o clube vivia. Pior ainda nesta nova era de futebol-negócio. Acabadas de mudar as regras de redistribuição de rendimentos na Liga dos Campeões, algo inserido nesta lenta marcha para uma Liga Europeia de clubes. O fosso entre participantes e não-participantes, entre elite e “pequenos”, cada vez será maior. Ao colapsar agora, ao perder terreno (e tanto) neste preciso momento, o clube compromete, talvez definitivamente, para sossego dos rivais, a entrada nesse universo clubístico. É a estocada final na decadência.

 

Mas ainda maiores serão as perdas morais. Os clubes, mais do que todos os outros grupos, são “comunidades imaginadas”. Porque a nossa adesão, a dos simples milhões de adeptos, é desinteresseira, deles nada queremos para nós próprios, nem remissão de pecados, nem orientações para a vida, nem entreajudas, e muito menos benesses, remunerações. Queremos comungar, participar, “torcer” por um bem que imaginamos comum, “nosso”. E que é “etéreo”, nada palpável – para além de umas taças e umas medalhas, acumuláveis como mero arquivo -, feito de símbolos, heróis quase divinos (Peyroteo, Agostinho, Lopes, Chana, Theriaga) de que ouvimos os mais-velhos falar ou recordamos de um desvanecido passado.

 

E é essa comunhão imaginada que arde agora. Não só por causa de Bruno e seus sequazes. Mas ao ler os seus inúmeros apoiantes, no seu mural de FB (muito censurado) e em tantos outros locais. Imensa gente, com um português escrito muito básico (o que não é maldade mas é característica), vociferando, repetindo até à náusea teorias da conspiração, teses de campanhas urdidas por um feixe ilimitado de agentes maléficos contra o Sporting, e seu presidente (agora suspenso).

 

Vinte anos de África, e a minha profissão, fizeram-me conviver com ideias muito parecidas: o mal, a falha, a perda, se (a)parece imponderável, inescrutável, inopinado, é dito efeito de feitiço alheio, acção maldosa de algum “vizinho”. Entre nós, séculos e séculos de cristianismo queimaram (literalmente) as crenças no feitiço. Elas subsistem, mas não dominam o quotidiano. Mas esse modo de explicar o indesejável inesperado tem este formato, a crença não num vizinho feiticeiro mas numa panóplia, difusa, esconsa, de agentes coligados para fazerem(-nos) o mal. Não “Foi Deus”, muito menos “o Demo”, nem o “feiticeiro” ou “os espíritos antepassados”. Foram “Eles”, homens vivos, agindo na sombra.

 

E penso, que “comunhão imaginada” posso ter com esta gente? Que assim pensa? Como partilhar símbolos, valores, emoções, se os entendemos tão diferentemente? A estes e, decerto, que a tudo o mais que seja significante. Como manter a ficção, a imaginação? E como manter, ainda mais difícil o é, qualquer comunhão com os nazis, os claqueiros, os boçais holigões, que ululam “Sporting” durante as suas verdadeiras missas de adoração ao Demónio, fazendo do estádio o seu perverso templo. Para nosso gáudio, animados com a encenação e o apoio “à equipa”. Que comunhão ter? Como continuar a imaginá-la? Como crer, aceitar, naqueles que me dizem neste momento de crise, “somos todos sportinguistas”, “há que manter a união”. Em nome de quê?

 

Nestes dias tenho-me lembrado de um homem que conheci vagamente, amigo de amigos. Moçambicano luso-descendente, pertencente àquele núcleo de jovens portugueses que optaram por ficar no país após a independência, tantos deles cheios de esperanças voluntariosas, as próprias da juventude, dos homens e dos países. Há alguns anos, ele já sexagenário, doente e com alguns problemas económicos, segundo me disseram, há muito distante da família, recolheu-se em casa. Estendeu a bandeira na cama, não a moçambicana, não a portuguesa, nem a de algum partido político ou igreja, ou  algum estandarte militar, estes tão típicos daquela geração. Estendeu na sua cama a bandeira do Sporting, sobre ela se deitou, e fez-se adormecer para sempre.

 

É por isto, por este quase indizível, que há clubes, as tais comunidades imaginadas. Porque são imagináveis. E são-no porque existem, porque são reais. E por serem reais nelas nem todos cabem.

 

E é esta consciência que o “Bruno”, Bruno de Carvalho, me trouxe. E o não ter  percebido tão antes é-me um verdadeiro Apocalipse. Já!

 

O da minha razão, capacidade afinal tão incapaz, coisa para outros pouco importante. E o do clube. No molde que o conheci. O que imenso me entristece.

A comunicação social

Como sabemos a comunicação social em geral, e em particular o agrupamento COFINA, tem feito uma campanha contra o Sporting. Em particular (não só, mas muito mais) no último mês. Durante o qual tem publicado um conjunto de factos falsos e de anúncios irreais, e não concretizados, relativos à equipa sénior de futebol do clube. Ainda há algumas semanas tive prova mais chegada disso. Tendo lido num diário desportivo lisboeta, ao que depois me disseram pertencente ao tal COFINA, que o capitão e guarda-redes do Sporting, Rui Patrício, tinha rescindido o contrato, tive a candura de nisso acreditar e de aqui ter colocado um postal sobre o assunto. Fui, de imediato, e durante algumas horas, alertado por comentadores para a "inverdade" da pseudo-notícia (fake news, diz-se agora), e para que não me deixasse enganar por órgãos desse grupo, maliciosamente conspirativos contra o clube e o seu presidente. Acolhi e agradeci as informações e deixei de crer na comunicação social, em particular os pertencentes ao tal COFINA, quando se referem ao Sporting. 

Cruzei agora sítios informáticos de jornais. Vários anunciam que alguns dos jogadores do Sporting que rescindiram o contrato, e referem Gelson e Bruno Fernandes, estão próximos de assinar pelo Benfica. E até que o presidente do Benfica, sem o seu assessor jurídico por perto, por razões que julgo óbvias, deixou entender que isso iria acontecer. Estou absolutamente sossegado quanto a isso pois, como me informaram tantos comentadores, isto são falsidades da comunicação social, em especial dos órgãos pertencentes ao grupo COFINA, em conluio com aquilo da Holdimo, para perturbarem o funcionamento do Sporting e do seu presidente. Ainda bem que temos comentadores esclarecidos. E avisados.

Há limites

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Por antipático que isto pareça no âmbito deste blog, não "É ao Sporting que devo lealdade e fidelidade", como exaltadamente (e quem não está exaltado nestes dias?) diz o Pedro Bello Moraes. Devo "lealdade ..." indiscutível à Pátria, à minha família, ao meu parentesco espiritual (os meus amigos). E devo lealdade a quem me rodeia, como ser humano, e de forma mais explícita no âmbito das relações laborais. [E junto, tipo nota de rodapé, que abomino o conceito de fidelidade, que entre pessoas é o refúgio dos medíocres - deixemos agora de fora a vida conjugal, que cada um a viva como quer].

 

O Sporting é um clube, uma associação desportiva, e estas grandes proclamações muito absolutas e grandiloquentes casam bem com a tal exaltação, nos eventos desportivos e nestes difíceis momentos. Mas não, nada mesmo, na normalidade do dia-a-dia. Pois, de facto, confundem valores, mostram até algum vazio de valores. Alguns contestarão isto, reclamarão a sua paixão imorredoira pelo clube. Mas se lhes aparecer um vizinho a dizer, com grande ênfase, jorrando perdigotos, como se falasse de um qualquer Padroado, "eu devo lealdade e fidelidade ao Olivais e Moscavide" ou a um outro qualquer "Santa Marta de Penaguião Futebol Clube" decerto que sorrirão, tal o descabido, até ridículo, da afirmação. Mas é exactamente a mesma coisa com qualquer associação desportiva. Que cada um exerça a paixão clubística à sua maneira, mas que se lhe exija um tino de cidadania, uma perspicácia sobre a relevância relativa daquilo que nos rodeia.

 

Avanço isto na sequência do texto do Filipe Moura, com o qual concordo em quase tudo. O que se passa no Sporting ultrapassa em muito a questão clubística - ainda que esta seja tão sonante e premente que nos monopolize a atenção. No clube, grande instituição nacional, de enorme influência formativa entre os seus adeptos e em toda a sociedade, predomina uma soez cultura anti-democrática.  Bruno de Carvalho despreza a liberdade e pluralidade de opiniões internas (veja-se o miserável trabalho do sector informativo interno), a diversidade da sociedade ("bardamerda para os que não são do Sporting"), e o primado da lei (a rábula das assembleias e dos órgãos dirigentes).

 

 

Mais repugnante do que isso, mas inserível no mesmo modo de "ver o mundo", é como olha as relações laborais. BdC entende-se patrão, numa concepção que atribui ao patronato o direito ao assédio ("assédio" não é apenas "assédio sexual", essa questão actual) aos trabalhadores, a sobre-pressão, o desrespeito, moral e profissional. O relevo dado ao futebol mostra-a, mas a recente publicação da vergonhosa mensagem do presidente aos jogadores de hóquei ainda a explicita mais. O assédio laboral é um crime, ilegal e imoral. Quem o pratica é indigno, não merece respeito. No que discordo de Filipe Moura (da letra do seu texto, julgo que não do seu espírito) é que o assédio não é só indesculpável por ser público (como o vem sendo no Sporting) mas é indesculpável, ilegal e imoral, em privado e em público. E também discordo quando diz que quem o sofre e não reage é imerecedor de respeito. Pois, ainda que haja procedimentos legais, enquadramentos sindicais, judiciais e associativos, que protegem os trabalhadores, muitos têm constrangimentos que os levam a aceitar inaceitáveis comportamentos de patronato ou de hierarquias laborais. 

 

Alguns dirão que jogadores de futebol muito bem pagos não são credores da nossa simpatia num caso destes. Não é essa a questão. O que se passa é que BdC tem uma visão da realidade, do mundo laboral, do seu papel de administrador (que entende como de patrão "à antiga"), que é inadmissível. E, repito, ilegal e imoral. Retrógada, contrária ao desenvolvimento do país nas últimas décadas, à sua democratização - com todos os defeitos e insucessos que se lhe queiram assacar. Adversa aos valores sociais, jurídicos, religiosos, políticos, dominantes. E, como tal, inadmissíveis na figura de um presidente de uma instituição com o peso do Sporting, com a sua dimensão formativa. Independentemente dos triunfos nas modalidades desportivas, futebol incluído. Independentemente dos hipotéticos sucessos económico-financeiros. Pois Bruno de Carvalho, com a visão de sociedade que tem, é uma persona non grata num país democrático e civilizado. 

 

É lamentável o apreço que muitos ainda têm, ou tiveram até há pouco, por este seu entendimento. Mas é analisável. Neste blog vejo um pequeno excerto deles, alguns com grande iliteracia (talvez fingida no aspecto gramatical, mas óbvia na dimensão intelectual). E na imprensa encontra-se o seu eco. Os adeptos desta maneira de ver o mundo, do destratamento nas relações laborais, será gente que está fora das relações laborais institucionalizadas, geridas sob direitos e deveres regulamentados, com instâncias de recurso. Muitos, os tais "jovens" de que se falou aquando das prisões entre-claques, integrarão nichos de economia paralela, marginal até, subterrânea. Reforçada no desemprego que grassou no país. Que funciona(rá) com relações laborais, vínculos operacionais, estabelecidos sobre relações pessoalizadas, discricionárias, essas sim apelando à tal "fidelidade". E assim desconhecedores das culturas laborais institucionalizadas. Muito menos violentas, e saudavelmente protectoras dos trabalhadores. Também para obstar a esta pobre visão da sociedade, para compreensão dos direitos dos indivíduos, é importante que grandes clubes não reproduzam os pérfidos valores sociais que gente como Bruno de Carvalho assume.

 

Por tudo isto, por apreço ao país, ao seu desenvolvimento, a todos nós, às nossas liberdades individuais, tem que haver limites. Que são éticos. Escrever em blogs colectivos - como o faço há uma década - presume sempre uma solidariedade entre co-bloguistas, na expressão de valores e opiniões diferentes. Acontece que isto se me suspende diante da notícia das rescisões dos jogadores de futebol, trabalhadores do Sporting, na sequência do inadmissível, anti-democrático, repugnante e continuado assédio (bullying) praticado pelo presidente. Quando numa situação destas leio Edmundo Gonçalves, que tem aqui escrito imensa coisa sobre o clube com a qual discordo, chamar, com tudo de pejorativo que no seu português isso explicita, "refractários" aos jogadores, isso cruza a linha do admissível. Mostra uma vil concepção de sociedade, de trabalho, de responsabilidade individual. Mostra o quão anti-democrático é o locutor. O (um) clube não une quem tem tão diferentes valores, tão diferentes ideias de sociedade, de "lealdade". E, estou certo, não é no meu lado que habita a abjecção moral. É no dele, e no de quem, seja lá qual for o clube com que simpatiza, com ele concorda.

 

Que os jogadores do Sporting, que tantas alegrias e expectativas me deram (podiam ter sido mais ...) sigam as suas carreiras com sucesso e saúde. Exercendo o seu livre-arbítrio. E que, se ainda for possível, regressem em muito breve ao Sporting. Se salvaguardadas as condições para o seu exercício profissional, respeitados, enquadrados pelo espírito da lei laboral e do bom viver democrático.

 

E que os meus caros co-adeptos (aqueles que sabem da dignidade humana, não os energúmenos fanatizados, que põem o clube acima da Pátria)  não repitam a espantosa patetice de tantos benfiquistas, há alguns anos autênticas baratas-tontas porque um trabalhador legitimamente saído do seu clube decidiu, pelo "sagrado" (se há coisa que é sacralizável é isso mesmo) livre-arbítrio vir trabalhar para o rival. Tino, é o que nos tem faltado. A mim, e a pelo menos 86% dos votantes na maior eleição de sempre no Sporting. Recuperemos o tino. E apartemo-nos dos refractários à decência civilizada.

Li bem?

"Nunca me demitirei", disse BdC há pouquíssimos dias (umas dezenas de horas, para ser preciso). "Demito-me se os jogadores ...", acaba de dizer, face às esperadas rescisões, que, aliás, tinha desafiado.

Isto tem algum cabimento? Alguma lógica, rumo, pertinência, qualquer-coisa? Ainda há quem defenda este desatino total? 

Já agora, ó Quintela e 5 parceiros: demitam-se e vão a eleições, a proposta que o BdC acaba de fazer, é o que anda tudo a dizer que é necessário, desesperadamente necessário, há umas largas semanas. Estás (estão) à espera de quê, caralho? 

 

Aos apoiantes de Bruno de Carvalho

Rescindiram contratos seis jogadores (o Bas Dost enquanto eu escrevia este texto), quatro deles da formação do clube, quatro na nossa selecção, provavelmente valorizáveis desportiva e economicamente neste Rússia 18 que vai já começar. É possível que outros sigam o mesmo passo. 

 

A relação com o presidente é obviamente um factor para tudo isto. Este, no estratégico desempenho das suas funções, de defesa do clube, publicou no fim-de-semana no FB (depois de várias vezes ter afirmado que não escreveria lá), e à revelia do seu novo porta-voz, um desafio para que os jogadores rescindam. À provocação presidencial eles reagem. E rescindem. Vocês acham mesmo que o rumo do presidente é bom, dizem "que bela estratégia! G'anda Bruno".?

 

Ok. Pode ser que daqui a uns tempos os tribunais não lhes atribuam razão. E que assim o Sporting nada tenha que lhes pagar. E que ainda receba compensações pelas rescisões. Mas estas nunca serão tão chorudas como se os jogadores tivessem transferidos normalmente (a la Adrien, a la João Mario, a la Slimani). Para mais, nunca o Sporting venderia seis titulares num defeso (e recordo que Podence começou o ano como titular, até se lesionar). Seis ou mais, porque me parece que outros sairão. Prejuízos econômicos monumentais, angústia moral entre todos os sportinguistas, cisão entre sócios e adeptos. Época 18/19 mais do que comprometida.

 

Vocês ainda acham que o rumo, a estratégia, do presidente é boa. Ainda  dizem "Ah, G'anda Bruno!"?

 

Que "caraças", que mais será preciso para perceberem. "Isto" acabou . Chega. 

O escrito do juiz

É pacífico dizer que a interpretação de um texto depende da cultura (no sentido de quantidade e qualidade de conhecimento) de cada leitor. Eu leio cinco línguas, coisa normal num português da minha geração que tenha completado o liceu, uma das quais tão mal, o italiano, que não lhe percebo os sentidos variados, e perco imenso do conteúdo apresentado. Talvez com excepção de textos técnicos sobre coisas que conheço relativamente bem (e mesmo assim ...). Assim a minha interpretação dos escritos depende da abrangência do meu conhecimento das línguas. O mesmo se passa com a interpretação de uma acção alheia, um gesto, por exemplo - deixo ligação para pequeno texto sobre algumas diferenças do peculiar "polegar ao alto".

 

Não tão pacífico é dizer que a interpretação de um texto (e de uma acção) depende fundamentalmente de uma decisão, prévia. E é (cada vez mais, ao longo da vida) isso que julgo. Ou seja, partimos para uma interpretação com pressupostos que conduzem e balizam a nossa apreciação e a nossa avaliação. Assim estas independem, em grande parte, do que está dito, escrito ou feito, mas sim de como nós decidimos, previamente, avaliá-los, consoante quem escreveu, falou, actuou. Por exemplo, eu tendo a concordar, logo de início, com o que aqui escreve o Pedro Azevedo, e discordo logo à primeira palavra, com desagrado, com o aqui bota o comentador "Rebelo". Mesmo que, por absurdo, dissessem a mesma coisa (uma impossibilidade cosmológica, avançarei).

 

Esta é uma realidade com que quem vive da escrita deve conviver, e antecipar. É evidente que os textos de índole profissional têm, em muitas profissões, uma dimensão técnica que se impõe. No sentido de dar fundamento ao que está escrito. Mas também no sentido de o fazer compreender a quem não é, exactamente, do mesmo pelouro profissional - por exemplo, um oftalmologista que queira comunicar com um optometrista. Fazer-se compreender por escrito não é uma "arte", é um dever de ofício (nos ofícios que o requerem), é uma competência. Sei do que falo: há pouco tempo um bom amigo, historiador, disse-me, simpaticamente, que eu escrevo como "os franceses". Entendi-o, escrevo mal, confuso. Um outro querido amigo, colega de profissão, está sempre a dizer-me que eu "ligo o complicómetro": uma avaliação letal da minha escrita. E, como tal, do meu raciocínio e da minha competência. 

 

Esta necessidade de clareza, de limpidez, na escrita é ainda maior em profissões que se dedicam a escrever sobre situações conflituais. Que dão, obrigatoriamente, azo a interpretações textuais concorrenciais, "rivais". Por maioria de razão, quando centrados em temáticas de amplo impacto social, que se repercutem em sectores da população que não detêm o conhecimento sobre a temática abrangida e a linguagem dos especialistas. 

 

A que propósito vem isto? Um juiz bota um texto sobre uma problemática que afecta um grande clube português, e que tem imenso impacto mediático. Claro que tem que o fazer numa linguagem que recorra à tecnicidade exigível. Mas, caramba, não deverá ter logo em mente que vai ser alvo de uma "luta interpretativa" por aqueles que não têm o conhecimento técnico? E por aqueles que têm interesses envolvidos, materiais ou espirituais? Não deverá pensar que isso, a provável "confusão" gerada, afecta não só as ideias gerais sobre este caso mas, acima de tudo, sobre a instituição a que ele pertence, a "justiça"? 

 

Não deve ser claro? Liminarmente claro? Para que todos nós, que não somos daquela área profissional, sejamos obrigados a suspender as nossas decisões interpretativas prévias? Ou seja, não deve ele "desligar o complicómetro"?

Errático

Não vi mas dizem-me que ontem, após uma emissão documental de um juiz sobre o Sporting, Bruno de Carvalho contactou duas estações televisivas. E nelas esteve a dar a sua interpretação, dos factos e do parecer emanado do tribunal.

 

Tudo bem? Enfim, o que surge de imediato é mais esta demonstração de comportamento errático. Legítimo no cidadão, inapropriado num presidente de um grande clube desportivo. Pois o Sporting anunciou, há pouquíssimo tempo, a contratação do conhecido jornalista Fernando Correia. Para ser porta-voz do presidente. E exactamente para anunciar uma nova era comunicacional, constatação de que a exposição pública de Bruno de Carvalho estava defeituosa. 

 

15 dias depois nota-se o quão incongruente foi essa contratação. Sai  decisão jurídica? Lá acorre o presidente à TV para vozear. E o porta-voz, para que serve, afinal? Tal como em quase tudo, este pequeno exemplo mostra como o actual rumo de Bruno de Carvalho é errático. 

 

E os que o rodeiam, por lealdade, deviam - pois mais vale tardíssimo do que nunca - perceber isso. Isso de que sinuoso é uma coisa, talvez estratégica, mesmo que titubeante. Mas errático é bem diferente. E sempre infértil. 

Um duche

de democracia, é o que o clube precisa. Está é uma coisa simples, mas tão complexa: a mescla do voto universal com o primado da lei. Suavemente enlaçada pela razão, como tempero subjectivo.

 

Com estes inaceitáveis 7 "magníficos", mais o nazi a querer-se líder da claque, mais o doutor militarão ("a cadeia de comando é sagrada", ainda as remelas me tremem), e a gritaria holiganesca dos comentadores internéticos, um tipo pergunta-se ... sei lá o quê.

 

O futuro? . O tal duche urge. Qu'isto fede.

Os sonsos

É um exemplo: são 17.30, visito o sítio do "A Bola" para ver como tratam ali esta actualidade. Tem um friso de dez destaques, encabeçado pela notícia de que "a UEFA deu nega ao Sporting no assunto dos vales" (na linguagem javarda do jornal e daquele tipo de gente diz-se "vouchers") do Benfica. Nos outros nove destaques vários se referem ao Sporting (presumíveis rescisões, as brunices). Nem uma palavra sobre o acontecido hoje nas investigações sobre o vieirismo. 

 

Sobre o "A Bola" está tudo dito, já sabemos do que aquilo gasta. Mas o que me irrita mesmo são os outros sonsos, no meio desta demência toda. Os que acham tudo bem, que BdC está todo bem, e ele que ocupe o espaço a esbracejar porque tem razão (alguém que candidata um homem a presidente da AG por duas vezes, pode dele dizer o que disse, hoje?). Que esta capacidade de queimar tudo  em sua volta, e de capear a extrema dificuldade porque passa o polvo no futebol e no clubismo, seja esquecida.  Com a enorme sonsice do "coitado, que foi apanhado em Faro...". 

E que tem razão formal, dizem - não a tem, mas ainda que a tivesse. A sonsice é asquerosa, um vício de atitude. Quando se diz uma verdade destas há sempre gente que leu mal alguns livros e que nada pensou sobre eles, que vem grasnar o que julga que aprendeu, que temos que respeitar as opiniões alheias. Grasnam desafinados: o que nós temos, os que não são holigões de claque, é de respeitar o direito a exprimir livremente as opiniões. Não temos de respeitar as opiniões. Por isso todo este meu desprezo pelos sonsos. Igualzinho ao que tenho pelos subordinados do Vitor Serpa, a aldrabarem o real para protegerem o vieirismo.

Pequeno apontamento

O Bryan falha um golo decisivo, de baliza aberta? O meu padrinho lampião, tal como o meu cunhado, e os meus afilhados, também doentes de Carnide, além de um outro, que vai de pastel, o meu irmão, andrade sabe-se lá porquê, mais amigos aqui vizinhos nos Olivais, colegas (que não da tropa, claro, verdadeiros mesmo), e outros camaradas amigos das andanças, tantos lá em Moçambique, e até aqueles que apenas partilham o balcão da pastelaria, tantos vieiristas, menos os só alguns pintocostistas, um ou outro Belém dos sem SAD, e há um do Estoril, outro do Braga, e até do Boavista vêm dois, coisas de nascimento, local e famílias, e, dizia eu, falha o Bryan o golo decisivo, com a baliza escancarada?, dá o Coates uma de Polga e abre a Avenida Paulista, como o Duilio fazia?, borrega o Jesus nas substituições, como se Paulo Sergio, Vercauteren, Venglos ou Júlio Cernadas Pereira?, contrata o Sporting mais um qualquer Zandonaide, milhões e manchetes, que afinal nada joga?, corre mais um Natal letal, dos tantos que já tradição?, lá vêm eles todos, e ainda mais, que nisto há sempre mais alguém que aparece, em dichotes, "bocas", gozo puro, no "esfrega as mãos que para o ano é que é!", gargalham, sádicos, impiedosos, entre-imperiais ou uísques, ou telefonemas, SMS, ou grafitos de leões murchos, chegados no email, FB, whatsapp, sei lá mais o quê. 

 

É sempre assim. E noto tanto, tanto mesmo, nestas últimas semanas, a grande diferença, a propósito de todo este "caso Bruno". Nenhum goza, nem uma "boca", apenas uma soturna solidariedade, nuns ombreares "isso não está nada bem, pá", "o que é que vai acontecer?".

Este meu meio, os meus queridos, não é, aviso alguns doentes de patetice que por aqui costumam passar, feito de funcionários da Cofina, contratados do Jorge Mendes, avençados do "gabinete de crise", sucedâneos do "Guarda Abel". É gente com as suas simpatias clubisticas, mais ou menos acesas, e que percebe bem que isto, a minha simpatia, o nosso clube, chegou a um descalabro tal que não é o momento para o registo habitual, ritual, rival jocoso. E é esse um grande barómetro, para medir o triste estado a que chegámos. E também, porque não há senão sem bela, o quão decentes são as pessoas que me rodeiam.

Texto a ler

Francamente tenho alguma dificuldade em entender o que defendem os ainda apoiantes do comportamento dos 7 membros da direcção do Sporting que continuam em funções, alguns dos quais presentes neste blog dizendo coisas que são, se racionalmente interpretadas, de um teor tétrico.

Abaixo transcrevo o texto do presidente da assembleia geral da SAD do Sporting, em funções. E transcrevo-o, apesar de estar livremente disponível no jornal "Record", porque há gente sportinguista cuja teoria da conspiração entende que tudo o que vem desse jornal (e da comunicação social, em geral) é fruto de uma "conspiração" anti-sportinguista - uma crescente mania da perseguição que é uma patologia -, e que como tal não se deve acreditar (como ontem de manhã, quando a notícia da rescisão de Rui Patrício foi aqui - e não só - várias vezes comentada como sendo mentira pois oriunda "da Cofina").

Fica aqui o texto, apesar, repito, de estar publicado no "Record". E a dúvida, a de como é possível não entender a total pertinência do que aqui está escrito? 

 

"LINHA VERMELHA

A discrição a que obriga o cargo de PMAG da SCP SAD tem justificado o meu silêncio sobre o momento atual da Sociedade, apenas interrompido no domingo (dia 20) para revelar as razões pelas quais decidi manter-me em funções.

Essa decisão não se alterou, por várias razões, mas sobretudo porque os mandatos não são direitos, são deveres que se exercem perante e em homenagem aos eleitores.

O momento do Clube é demasiado grave para permanecer em silêncio e são os meus deveres de sócio do Clube há 47 anos – e de cidadão - que impõem que quebre esse silêncio, ultrapassados que estão todos os limites.

O despojamento com que a realidade (?!) do Clube tem sido revelada, com relatos parciais de reuniões internas, com porta-vozes de um dos órgãos sociais e a degradação evidente das relações entre membros dos órgãos sociais são, obviamente, intoleráveis.

Intolerável é, também, a afirmação pública, por parte de um órgão social, de que não colaborará - logo, obstaculizará - com a MAG na organização logística da assembleia geral que aquela Mesa anunciou.

E, para agravar, eis que o Conselho Diretivo anuncia a substituição da Mesa da Assembleia Geral e a nomeação de uma Comissão Transitória da MAG que, ufana, se apressou a nomear uma Comissão de Fiscalização, convocar duas assembleias gerais (uma delas eleitoral!) e anunciou que "não se realizará qualquer assembleia geral no dia 23 de junho". Tudo para que não restem dúvidas, decisões flagrantemente ilegais e que implicam um profundo desrespeito pelos Estatutos do Clube e, portanto, pelos Sócios.

É, pois, uma exigência urgente afirmar que, tal como o CD, o PMAG e a MAG também foram eleitos pelos sócios, pelo que, independentemente de estes se terem demitido ou não, conservam toda a sua legitimidade e poderes. 

A legitimidade dos titulares dos órgãos tem exatamente as mesmas fontes: os estatutos e os sócios.

O CD pode, evidentemente, ter opiniões, as melhores ou as piores, sobre as decisões da MAG; mas não deve, em momento algum, usar o dever de gerir o Clube - e de, por isso, dispor do livro de cheques e do poder sobre os funcionários - para impedir outro órgão social de exercer os seus poderes, decidindo nomear outros membros dos órgãos para substituir aqueles que ainda se mantêm em funções.

Essa é a linha vermelha.

João Sampaio

Sócio 4.352"

A rescisão

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As estratégias directivas são o que são, o anúncio do golpe palaciano de ontem nem é surpresa. Hoje de manhã a notícia da rescisão de contrato de Rui Patrício (ainda por confirmar, e espero que venha a ser desmentida) - depois de tudo o que aconteceu o capitão, veterano atleta do clube, ele não rescindiu, negociou a saída com contrapartidas consideradas aceitáveis para o clube, cuja direcção o tinha evidentemente afrontado. E, ao que parece, à última hora, mais uma manobra dilatória de Bruno de Carvalho, o habitual errático. A cortar, definitivamente, as pontes com alguém que é, e decerto que mais do que bloguistas e comentadores de redes sociais, Sporting. 

Os apoiantes desta deriva absurda continuarão a sê-lo. Pois, com tudo isto que já aconteceu, só não vê o real quem não quer. Pois todos podem. Apenas há alguns que não querem.

Rússia 18

Isto depois do Portugal-Tunísia, ali no meio dos "verdadeiros" adeptos, daqueles a la Bruno e a la Zé Quintela, deverão estar a dizer entre eles "é melhor que a rapaziada faça uma "visitinha" à selecção, a ver se eles animam, não é?". 

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