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És a nossa Fé!

oito é metade de 16.

Braga, Boavista, Famalicão, Rio Ave e provavelmente Guimarães. Porto, Benfica e Sporting.
Parecendo que não, conto oito equipas que entram na Liga com vantagem em ter futebol positivo, competitivo porque contam com bons jogadores. Seja para vender os jogadores, seja para ganhar taças, são equipas que entram em campo para vencer sempre (ou quase sempre).
Sinceramente não me lembro de uma coisa assim.
Creio que isto beneficia o Sporting de Amorim.

Quarto com vista para o terceiro



Resulta evidente para mim que no próximo ano vamos lutar com o Braga pelo quarto lugar.
E não vai ser nada fácil. Braga tem ambiente mais calmo, mais estrutura, é um clube empoderado por vir a crescer e a morder os calcanhares ao terceiro grande, tem bom plantel, tem um futebol físico, paga salários muitos mais baixos, não tem a imprensa e as redes 24 horas por dia em cima, tem boas individualidades que “resolvem” e terá um treinador com ideia de jogo e conhecedor do futebol português.
Ruben Amorim parte bastantes degraus abaixo em experiência, calo, quantidade e qualidade de jogadores, organização e quantidade de pressão (no Sporting é cem mil vezes maior que no Braga, um clube sem adeptos). Além disso, as nossas Finanças coiso. 
A perspetiva para a próxima época é, pois, aterradora. Doidos a fingir que somos um grande, e com o Braga sempre a soltar o bafo para cima de nós, temos é de ter cuidado com Rio Ave, Guimarães e talvez outro clube “sensação”. Até podemos ficar em quinto, digo eu.
É culpa do Varandas? Não acho. Nem acho culpa do Bruno ou sequer do Godinho. Enfim, é obviamente culpa de todos um bocadinho, mas não acho que seja culpa de ninguém especificamente. Há décadas que estamos numa trajetória descendente e a ganhar velocidade para aterrar de vez numa espécie de limbo entre o pódium e os chatos que disputam connosco o apuramento para a Liga Europa.
A solução? Sorte. Só isto, sorte. E fazer por isso, como é evidente.
Claro que precisamos de ter bons jogadores, boa equipa, boa estrutura, essas coisas, mas no nosso caso precisamos de lutar por ter sorte. Como preparamos mal a época, ficamos sem o Luiz Phellype por lesão e ficamos tão descalços que meter um golo que fosse se tornou um acontecimento. O Braga, por exemplo, sendo competente, acabou por ter sorte no último minuto com aquele pezinho que meteu o Vinícius em jogo e deu a vitória ao Benfica.
Embora possa dar essa ideia, não estou a desconversar nem com mensagens enigmáticas. Apenas a dizer que precisamos de admitir que nos falta a sorte e estarmos preparados para a reconhecer - um dia que esta apareça.

Pinheiro e chegar ao Natal

Santa Clara joga taco a taco, como o Guimarães, Tondela ou o Paços jogara connosco.
No jogo de ontem, o Benfica perdeu, mas podia ter ganho, como podia ter perdido com o Rio Ave na semana passada (em que ganhou). Nós marcamos cedo com o Tondela, mas eles podiam ter empatado se aquela do Mathieu não tivesse batido no poste. Com o Paços ganhamos porque o Jovane fez cair do céu um livre direto.
Que raio se passa? Afinal a nossa Liga é competitiva? Afinal os clubes pequenos estão a trabalhar muito melhor? Afinal não é nada disso, são os grandes que são muito piores?
E o público? Como não existe, não pressiona nem o árbitro nem o erro do adversário? Será isso? Ninguém sabe, talvez seja tudo isto e mais alguma coisa.
Cada vez que vejo estes jogos lembro-me de como Paulo Sérgio foi (e ainda é) ridicularizado por ter pedido um pinheiro. A minha intenção não é ser enigmático, mas sim perguntar-me e perguntar a todos se os três grandes (e talvez o Braga) não deviam ter um pinheiro ou dois nos plantéis. A verdade é que a dada altura – últimos dez minutos + descontos – a lógica vai-se e a fé em Deus dos cruzamentos para a área é a única tática que prevalece. 
Será que é a vaidade dos misters e dos diretores desportivos que os impede de decorar os plantéis com um pinheiro?

a whiter shade of pale

Nem os próprios Procul Harum sabem ao certo de que trata a música que dá título a este post, mas que ficou na história ficou e nunca mais ninguém se esqueceu dela.
Imagino que nem Porto nem Benfica saibam ao certo que raio se passa com as suas equipas de craques que valem dezenas de milhões (dizem), são cobiçados por toda a Europa e arredores (dizem), treinadas por equipas técnicas de excelência (dizem) e dirigidas por dirigentes com séculos de tarimba. Se este futebol de quarentena será lembrado, teremos de esperar para perceber.
Tenho assistido a algumas noites de debate no canal 11, onde descobri que Maniche sabe do que fala e sabe exprimir-se, onde a Sofia Oliveira demonstra muito arrojo e pensamento próprio, onde o jornalista brasileiro Bruno qualquer coisa demonstra que se pode ser jornalista desportivo sem se deixar de ser jornalista e onde Pedro Sousa conduz com arte e engenho a bola até à baliza, com assistências de luxo para todos os comentadores (regra geral são todos bastante bons). De todas as vezes que acaba o programa fico com a sensação de que eles não disseram tudo o que pensam. Não os censuro, afinal de contas todos nesta indústria têm interesse que seja uma indústria…
Mas fico à espera que digam coisas como (por exemplo) o nosso futebol e os nossos craques de milhões vale muito (muito mesmo) menos que diz a etiqueta com o preço, que a competitividade manhosa da nossa bola pouco ou nada tem a ver com futebol e que pelos vistos era o público (sempre adepto de um dos três grandes) quem levava o seu emblema ao colo, por um lado intimidando árbitros, fiscais, VARs e adversários com insultos e ameaças e por outro dando uns aplausos que vitaminam os seus jogadores. Como sabemos, a maioria do público de estádio quer é ganhar, nem que seja com golos com a mão. Ora não havendo público, os jogadores parecem confusos. Afinal, o que estão ali a fazer?
A minha interrogação é se Lage e Conceição tinham noção disto tudo.  
Falo de FCP e SLB porque são quem compete pelo título e porque o que vamos vendo em jogos sem público permite especular sobre que equipa e jogadores deverá ter o SCP para tentar competir pelo primeiro lugar neste nosso futebol que vai demonstrando a sua face.

Sporting blues


  1. Admito que estou surpreendido com as reações exasperadas à contratação de Ruben Amorim ao Braga. Supus que se malhasse no Varandas por ter feito mal o plantel e ter tratado mal o Silas, mas pensei (genuinamente) que a reação geral viesse a ser "Eh pá é carote, mas é bom e se não o fôssemos buscar iria parar ao Benfica ou ao Porto."

    2. Qualquer investimento ou é seguro ou é arriscado ou qualquer coisa no meio. Mas isso só se sabe a prazo. Para dizer que ainda não sabemos se estes milhões são um bom ou um mau investimento. 

    3. Demonstra desespero por parte de FV? Acho que demonstra sobretudo que ele e a administração decidiram corrigir a trajetória em geral e fazer as coisas de outro modo. Sempre achei que aquelas duas taças ganhas em penalties nos iam custar caro. A inexperiência de FV revelou-se na ilusão que criou em si mesmo. Com Amorim pode piorar? Pode. Mas também pode melhorar. 

    4. O que parece evidente é que Silas não era suficientemente amado pelo balneário (ou não teve proteção suficiente). Cometeu erros, como muitos antes dele, mas claramente, com estes jogadores e contexto, o SCP não iria lá com ele. 

    5. Acho que há mais risco para a carreira de Ruben Amorim do que para o Sporting. Bem ou mal, com mais ou menos percalços, cá estaremos daqui a dez ou vinte anos. Amorim pode ter aqui o desafio que lhe dá cabo da vida como treinador. 

    6. Em suma, se não mudasse de treinador, jamais FV seria reeleito presidente do Sporting.

    7. Ah e tal, o timing? Quase nunca há timings maus para fazer a coisa certa, nem timings bons para fazer a coisa errada. (ver ponto 2 deste post)

Caro Francisco Geraldes,

O nosso cérebro é a mais espantosa criação. Sejamos crentes numa entidade acima de nós, ou crentes no acaso cósmico, é igual: nada é mais fascinante, complexo e capaz.
O nosso cérebro processa 40 milhões de operações por segundo, é cinzento, gelatinoso e nunca dói (porque não tem terminações nervosas).
Em certa medida pertencemos ao cérebro e não o contrário. A nossa mundivisão, o que vemos, cheiramos, sentimos, as afinidades, empatias e reações que mostramos com expressões, gestos ou olhares, têm o centro de comando no cérebro.
O medo do futuro, a angústia, o que chamamos insegurança, é só mais uma criação genial do cérebro, uma arma no nosso longo e ainda não terminado processo de evolução. É fácil de perceber: entrar numa caverna escura a assobiar é um erro de avaliação se queremos continuar vivos. Pode lá estar um puma ou um urso que nos abocanha a carótida e a história acaba.  
O Francisco é uma pessoa especial, diferente e isso nota-se. Não tanto por aparecer a ler, mas pelo seu olhar, de um certo alheamento e de raras vezes parecer feliz. A ideia com que se fica é que tem pouco ou nada a ver com a tribo do futebol, os jogadores, as suas tatuagens, os seus carros, os seus penteados, piadas, partidas e outros ritos. Ou os misters, as suas pranchetas, os seus coletes, pinos, gritos, esquemas e demais instrumentos de motivação. Para não falar dos agentes, os seus telemóveis, handlers e gel no cabelo.
Sucede que para sua fortuna, o Francisco tem futebol suficiente nos pés (e no cérebro) e é demasiado bom para ser posto fora. Você vê o jogo diferente, mais belo e sofisticado, mais lúdico, melhor. O que lhe queria dizer é que a sua diferença, sensibilidade e vulnerabilidade são parte fundamental da sua inteligência e, portanto, do seu futebol.  Um futebol que você não tem conseguido impor quando sente as atenções em si. Um certo stage fright, diria.
Há qualquer coisa em si, talvez no seu cérebro, que quer que você desista da bola e se remeta a um sossego maior, mais ensimesmado, mais seguro e recolhido. Acredito que já o tenha percebido e temo que tenha por inevitável que vá passar ao lado da carreira que o seu talento prenunciava.
Só que ao longe, vendo-o como se viu neste domingo contra o Boavista, verifica-se depressa que há uma vontade ainda maior de estar ali em campo, a servir os outros. Nos passes, nas desmarcações, em especial na inteligência que o jogo acolhe como que por magia. Quando desata a correr, quem está atento nota os seus demónios a tentar apanhá-lo, mas deixe-me que lhe diga que é não é óbvio que o consigam apanhar. Só depende de si, de correr mais depressa do que os malditos.
Não lhe estou a pedir a nada, a não ser que se conheça melhor e que ensine o seu cérebro de uma vez por todas quem manda no Francisco Geraldes.

Um abraço.
Deixo-lhe esta sugestão de leitura: Pensar, Depressa e Devagar, de Daniel Kahneman (temas e debates).

Dia seguinte

Um historiador que consulte os desportivos daqui por 10 anos, concluirá que Trincão (um suplente utilizado) teve uma exibição só comparável à de Maradona naquele jogo no Mundial do México em que marcou um golo desde o meio-campo. Por outro lado, depois de meses a berrar que o SCP iria ficar muito mais fraco com a saída de Bruno Fernandes, do tipo Usain Bolt sem pernas, essa realidade já não foi tida em conta na apreciação geral à equipa do SCP ontem. Em que ficamos? Se BF era 70% a 90% da equipa, era suposto o Sporting golear o Braga em Braga? 
Quem viu o mesmo jogo que eu vi ontem, viu um Sporting a ser condicionado desde muito cedo (muito cedo mesmo) pela arbitragem e que no final merecia no mínimo o empate. Um Braga mais cansado que o SCP nunca conseguiu impor um verdadeiro domínio e nós batemo-nos bem no que foi (para mim) um dos jogos mais interessantes da época. Não se pode elogiar o Braga (justamente) e depois achar que o Sporting é o pior clube do mundo por perder contra o Braga. O Porto tem um plantel muito melhor e mais rico que o nosso e também perdeu duas vezes com o Braga nas últimas semanas.
O Sporting de Silas é a melhor equipa do Hemisfério Norte? Não. Como me parecia no arranque da época, a nossa luta já era pelo terceiro lugar. É culpa do presidente? Claro, na medida em que é ele quem manda, abençoa decisões. Que seja Varandas o bode respiratório. Mas acham mesmo que qualquer outro dos candidatos conseguiria fazer melhor? Ou seja, será que com outro presidente, e estou a incluir Bruno de Carvalho, lutaríamos pelo título? Ou sequer pelo segundo lugar?
 

Se fossem garotos de 11 anos, que nome meteriam na camisola?

Apesar de tudo, há uma diferença entre ser o último dos primeiros ou ser o primeiro dos últimos. A preocupação número um da direção do SCP deve ser manter o estatuto de clube grande. A venda de BF ao Manchester United por aqueles valores demonstra que esse objetivo estratégico é no mínimo intuído – e isso deve ser motivo de regozijo. Estamos no caminho certo porque esta parece ser uma venda que é uma venda, não uma venda que implica importar e pagar este ou aquele que está China ou na equipa B.
Achar que seremos sempre um “clube grande” só porque temos muitos adeptos é uma ideia forte, mas não serve como segurança, muito menos para sempre. Muita gente – inclusive eu – também achava que apesar de tudo, teríamos sempre a formação e olhem no que deu: neste momento temos um plantel sem qualquer craque e sem qualquer miúdo da formação que nos entusiasme como outros no passado. Se fossem garotos de 11 anos, que nome meteriam na camisola?
Culpar o Varandas ou culpar o Bruno – ou até culpar o Godinho e o Sousa Cintra - é inútil.
A venda de Bruno Fernandes e o inerente alívio de tesouraria devem servir para virar a página e desenhar um novo plano estratégico cujo título sugiro que seja:
“Daqui a dois anos, e se fossem garotos de 11 anos, que nome escolheriam na camisola de entre estes três ou quatro que temos no plantel”?  

Coisas em que acredito


Bruno Fernandes foi hábil na sua relação com os jornalistas, pelo que o seu lastro de saudade será longo. Era um jogador decisivo, fundamental e fulcral, também porque a bola ia sempre para ele e ele podia fazer o que queria com ela. Nunca vi, nem em Messi, nem em Ronaldo, tanta tolerância da crítica e comentadores – ou das bancadas - para um jogador. Vejam nesta frase um elogio à inteligência emocional de BF, que soube sempre dizer as coisas certas.
Acredito que a vida para BF em Manchester não será fácil. Como se viu, em especial desde que Nani saiu do clube, BF é melhor, muito melhor, quando é pai da bola, chefe de orquestra, o escolhido. Em Manchester, terá de conquistar esse lugar. A seu favor, tem uma disponibilidade física impressionante e uma enorme vontade e foco de visar a baliza adversária. Acredito que triunfará. Pela minha parte, voltarei a ver os jogos do MU.
A sua transferência, como a de qualquer jogador que se destaque num clube português, era esperada. Varandas e a sua equipa tiveram nervos de aço e conseguiram excelentes valores, numa altura em que a época não conta para nada e nos últimos dias de mercado.
Ficaremos em quarto (digo eu), iremos à Liga Europa porque para o ano há mais e pronto.
Acredito que o Sporting tem agora a folha mais em branco para tentar fazer uma equipa. Acredito que haverá alguns jogadores no plantel a crescer imenso, agora que não há BF a conviver com eles.
Nunca vi Silas na vida, mas acredito que há um lado (talvez pequeno, talvez médio, talvez grande) em que esteja a festejar esta notícia. Poderá finalmente ser “o” treinador. Temos plantel para isso? Talvez não, mas imagine-se que sim, que temos…
Quatro anos depois de o SCP ter sido a base da equipa que venceu o Euro, este ano é quase um facto consumado que não haverá qualquer jogador de leão ao peito na equipa. A vida é mesmo assim, como os interruptores.

Ano novo, vícios velhos

Admito que me irritam um pouco as unanimidades na nossa imprensa (e no comentarismo) acerca da Premier League fazer jogos na quadra (Natal e Ano Novo) e isso ser “bom” e “positivo” e mais não sei o quê, porque os estádios estão cheios e tal e que por cá talvez se devesse fazer a mesma coisa.
Irrita-me porque, nem que seja por momentos, estamos a colocar a nossa Liga a par com a evoluída e riquíssima Liga Inglesa, que tem, desde há muito, uma dinâmica própria assente na cultura de fairplay dos ingleses e na rule of the law que é enforced quando é necessário (por outras palavras, os ingleses têm dirigentes da Liga e da Federação com tom*tes que castigam duramente e depressa).  
Por cá, da imprensa ao comentarismo, passando por “dirigentes”, treinadores e jogadores, há zero de fairplay e tom*tes, além de termos uma massa adepta clubista e não desportiva, interessada em vencer a todo o custo.
Veja-se “o caso do soco de Conceição”, uma novela estranhíssima, onde para mim ficou claro como aguardente o que se passou, apesar dos trinta por uma linha engendrados para que ficasse tudo turvo ou mesmo opaco como o mais forte dos cafés, ou seja, sem consequências nenhumas. Ou veja-se o caso do treinador que tem a sorte de todos os jornalistas adivinharem quando chega de viagem do Brasil e estão lá à porta e que parece que conquistou Marte, enquanto resolvia os problemas do Clima, da Fome no mundo e da cura dessa doença chata que é a Zona na viagem para lá e os problemas do estacionamento em Lisboa na viagem para cá.
No país onde o clube que vence o prémio da melhor Academia do sistema solar compra a peso de ouro um alemão no primeiro dia do ano para uma posição para a qual tem vários jogadores, incluindo dessa Academia, ou onde um português que desde o Euro 2016 não faz  um jogo de jeito, com uma exceção há semanas (no Mónaco) que mereceu amplo destaque de capa (!) em vários jornais; para não falar de outro português, avançado, cujo preço do passe foi irreal e que leva três ou quatro golos mas ainda assim é o melhor jogador do mundo, um dos melhores da Europa, até é porreiro descansar da bola uns dias, sobretudo da imprensa e do comentarismo.  
Um bom e leonino 2020! 

Rally tascas

 
Oitenta a noventa por cento dos jogos dos três grandes são contra equipas galhardas, manhosas e de contra-ataque, que se atiram para o chão aos 70 minutos quando se apanham a ganhar. É uma estratégia e também não é criticável (à luz dos seus interesses). Os ditos grandes não fazem outra coisa a não ser disputar jogos de solteiros e casados e não jogos como o Sporting-PSV, o Young Boys-Porto ou o Leipzig-Benfica. Pouco importa quem ganhou. Vi os três jogos, corridos, disputados, sem manhosice e chico-espertice, além da adulta, própria do futebol de alto nível, bem filmado, vivo.
Como espetáculo desportivo, a nossa bola é televisivamente deplorável. Estádios quase todos horrendos, mal iluminados, com ervados indiscritíveis, com cornetas e bombos em cima do comentário, público que vaia o árbitro por tudo e por nada, que quer ganhar de preferência com golos com a mão, dão ao nosso futebol uma atmosfera de tasca que não se compara com as ligas inglesa, espanhola, francesa, holandesa até a grega (do que vi). É curioso que o brilho de Ronaldo tenha diminuído na Liga que tem das piores imagens televisivas destas todas, a italiana.
Dois ou três jogos por ano assim teriam graça, como tem graça comer em roulottes nos festivais, mas ser quase sempre assim puxa a nossa Liga muito lá para baixo. Acabamos por ver os jogos à espera que o nosso clube vença e o rival perca, não para ver e fruir futebol.  
Porque hoje lá estaremos em Barcelos para mais um solteiros e casados

Que treinador seria bom para o Sporting, sem recursos para ir ao mercado?

Se se verifica que Silas não funciona, vejo apenas (sublinho apenas) três possibilidades:

Paulo Bento, casmurro o suficiente para não deixar que façam dele gato sapato. Sabe armar equipas em função dos recursos que tem e detesta vedetismo.

Carlos Queiroz, idem, com a nuance de ser mais atacante, mas também mais arisco com a media.

Abel Ferreira, idem, com a nuance de ser mais moderno e conhecer melhor a realidade do futebol português. Será o que tem mais anticorpos junto dos adeptos (mas todos têm).

Como opção extra, o filho do Manuel Fernandes, que tem sangue na guelra e parece ser competente. Não sei é se não se enfarilhará depressa com a direção (seja esta qual for) 

Cheira-me que vive os dias mais felizes da sua vida.

Jorge Jesus é uma bela súmula do que é ser o português ferrabrás. Alma até Almeida, coração enorme, mas também fezada, improviso, mania das grandezas, alguma arrogância até e soberba provocatória a disfarçar a fragilidade ou (como se diz agora) autoestima lá em baixo. Português, o maior, mas mortal ainda assim.
Jorge Jesus é obcecado com o que faz, meticuloso e em constante auto-melhoramento. Sendo de geração diferente da de Mourinho, é mais da rua, da fábrica, do café, da sueca, da chicla e da caneta Parker que do Moleskine ou da Montblanc.
JJ será ainda muito persuasivo e impositivo, em especial junto daqueles que são emocionalmente frágeis como ele, como os jogadores de futebol portugueses, sul-americanos e latinos e alguns dirigentes. É aí que é Mister: Comes as sandes de courato que quiseres mas fazes como eu quero e se é para chegar todos os dias às 6 da manhã é porque é mesmo para chegar todos os dias às 6 da manhã. É homem do calduço mas também da festinha. Seria um fantástico pastor evangélico no Sul dos EUA, como seria um magnífico senador no Brasil ou um líder de agricultores em França. É um personagem com poucas dúvidas e que raramente se engana.
Como qualquer um de nós, JJ quer ser amado e admirado, e, muito à portuguesa, numa dinâmica que parece ser perpétua, vê na teimosia e na casmurrice qualidades superiores.
Fiquei muito contente com a dupla conquista brasileira de JJ porque o amadorense – homem com defeitos e qualidades – me parece ser muito grato e disponível para aqueles que o aplaudem. Ora isso é uma enorme qualidade e bastante rara. Jesus é um genuíno e entusiasta protagonista numa atividade (o futebol ao mais alto nível) que consumimos com a avidez de crianças. Não se esconde e fala, gesticula, explica, partilhando connosco o que lhe vai acontecendo. Acho esse pacto que fez connosco, os adeptos, uma coisa fantástica e por isso muitos vibramos com uma vitória que lhe caiu do céu (mas essa parte não é para dizer).
JJ é uma espécie de ator de um filme que ele próprio tem criado na carreira, desde que subiu lá acima, quando foi para o Benfica. Habilíssimo na relação com jornalistas e influencers (os mais velhos, malta do Solar dos Presuntos), passou a fase do amealhar dinheiro e aspira agora à admiração, à glória e à imortalidade. Sempre com fezada. Cheira-me que vive os dias mais felizes da sua vida.  Parabéns!

Memórias do Tottenham

A 29 de Dezembro de 1981 não havia muita gente no Estádio José Alvalade para ver o Sporting jogar, mas eu estava lá com o meu irmão e o meu pai que, do nada, nos levava de vez em quando ao estádio. Bilhete de superior para o meu pai, eu tinha 11 e o meu irmão 12 e entrávamos sem pagar. Uma torrente de chuva miúda, chata, persistente, fria como o medo encharcava-nos até aos alvéolos, até que alguém se lembrou de abrir a central – a tal da pala – e lá nos abrigamos todos. Foi a primeira vez que vi futebol no Estádio do Sporting numa central. No marcador rudimentar que havia ali pelo peão, mesmo em frente da central, quem soubesse ler ficava a saber que o Sporting jogava contra o THFC, vulgo Tottenham Hotspur.
A mim fazia-me alguma confusão que um clube equipasse de branco, mas a presença de Osvaldo Ardiles, que conhecia bem da seleção argentina campeã do mundo, é que nos entusiasmava mais. Há mais história sobre este jogo a feijões no (ótimo) livro Big Mal & Companhia, de Gonçalo Rosa, que fala dessa nossa época, uma das mais vencedoras e divertidas. Nunca mais esqueci o THFC, como nunca mais esqueci o Dínamo de Zagreb a quem Oliveira marcou três.
Agora é Zé Mourinho quem chega ao Tottenham onde, como se ouvia ontem no Canal 11, é capaz de ter um plantel melhor que aquele que havia em Manchester. Que JM faz falta ao futebol é evidente, mas o Mourinho mindgames, queixinhas e provocador faz menos falta que o Mourinho arrojado, próximo da relva e dos jogadores, que mete as equipas furiosamente à procura do golo na outra baliza. Que se abram então as portas para esse Mourinho, como se abriram as que nos levaram à central naquela noite de Dezembro. Acreditem que ficamos melhor.  


P.S. - O Sporting ganhou o jogo por 3-2.

não sei bem como dizer isto

... mas os resultados do SLB na Champions são perfeitamente lógicos. Ao obter poucos pontos na Champions, o Benfica impede que o nosso ranking suba. Ora não subindo o ranking português, as possibilidades de entradas diretas na Champions (ou quase diretas) vão diminuindo, sobretudo para quem fica em segundo no campeonato. Não indo à fase de grupos Champions, os clubes ficam sem dinheiro e etc e tal. 
Dito de outro modo, o SLB será tanto mais dominante internamente quanto menos clubes portugueses chegarem à fase de grupos da CL. 
Sim, há uns arrufos dos adeptos, umas crónicas a bater em Bruno Lage, mas em Maio lá estão todos no Marquês.
Ao português em geral, mais do que ser grande, interessa que o seu vizinho seja pequeno. 

Jordão


Morreu Rui Jordão. Vi-o jogar umas poucas vezes, no outro Alvalade e bastantes vezes na televisão, em especial no Euro 1984, em França. Era um jogador de uma elegância e uma competitividade únicas, um dos chamados goleadores no tempo em que a expressão ponta-de-lança começou a substituir a palavra avançado. mas também e sempre um solitário lá na frente. Lamento profundamente a sua morte. Sobra a certeza que será sempre lembrado pelas suas qualidades futebolísticas e por um certo mistério aristocrático que era como um manto que o envolveu mal se retirou. Os festejos únicos quando marcava golo mostravam sempre um homem feliz por poder jogar futebol, o que é próprio dos enormes. Morreu um bocadinho da nossa história. Saibamos honrar o seu exemplo. 
gesta non verba Jordão!

Novos contos da montanha

 

1. Vamos num passeio de família para um local remoto. Um passeio emocionante, pela montanha, incríveis as fotos que tiramos. São só 650 quilómetros ao nosso destino, chegamos lá pela hora de jantar, não há pressas que vamos lá dormir. Vamos mas é até àquela cascata perdida na serra que nos falaram. O carro avaria no meio de nada. O telemóvel está a ficar sem bateria. Para azar o cabo USB é antigo, não dá para carregar este modelo. Vai-se a ver e nem trouxemos nada para comer ou beber. Anoitece inesperadamente depressa e começa a ficar frio. É feriado. Véspera de fim de semana. Começamos todos a discutir e a ficar assustados. Há berros, gritos, passa culpas, medo. Há três horas que estamos ali sem que passe ninguém. Começa a chover.
No banco de trás, o garoto pergunta se podemos pedir Uber Eats.

2. Talvez o que mais me continue a espantar no nosso país – e o Sporting decorre em Portugal – é esta capacidade de manter a exigência, de querer o melhor, de estarmos alheios às circunstâncias que nos rodeiam, como o garoto no banco traseiro do ponto anterior.
Aprendamos que por vezes não dá sequer para comer umas bolachas, quanto mais pedir Uber Eats.

3. Futebolisticamente falando, o erro de Varandas foi ter acreditado que apesar do clube estar preso por arames, a equipa ter setores (defesas laterais, “trinco”, baliza) com jogadores que talvez não fossem titulares no Guimarães, podia dar-se uma fezada e ganharmos a Liga. Talvez se desse um efeito Leicester, todos remassem para o mesmo lado e a coisa talvez acontecesse.
Se não desse para UberEats, talvez desse para pedir TelePizza, quando estava à vista que não dava para pedir nada, primeiro era preciso sair dali.

4. Ao manter Bruno Fernandes cometeram-se dois erros: não se encaixou a receita e deixou-se um jogador que, pela sua especificidade, desequilibra o estado emocional do grupo. Bruno passa a bola quando quer, remata quando quer, marca os livres e cantos que quer, berra com quem quer. Não sou especialista em psicologia das organizações, mas apostaria que nem todos os colegas o veem da mesma maneira. No fundo, BF porta-se como o “Messi” ou o “CR” do Sporting, sendo que não é nenhum desses. Essa carga emocional intensa que advém do estrelato (auto)conquistado por BF será o primeiro dossier de Silas. Esperemos que BF colabore.

5. O segundo é tentar criar trincos e/ou um box to box como deve ser. Será Eduardo? Haverá alguém por lá que a malta não vê? Honestamente não estou a ver, mas também não sou treinador. Acho que resolvidos estes dois dossiers, jogo a jogo, as vitórias surgirão.

6. O mais irónico é que a época está longe de estar perdida. Ainda podemos ficar em terceiro – o nosso lugar lógico – e ainda podemos vencer as taças e até fazer um brilharete na Liga Europa. Quem sabe as coisas serão diferentes no futuro, mas por ora são assim, é isto que podemos valer.

7. A mim, enquanto sportinguista, não me custa que assim seja. Admito que com outros não seja assim, mas por mim até podemos descer de divisão que continuarei do Sporting.

 

Bons rapazes


O incrível golo de Pedro Mendes é seguido de um tipo a festejar sozinho. Durante o que me pareceu uma eternidade, o jovem jogador está sozinho no que terá sido um dos momentos mais felizes da sua vida (digo eu). Finalmente, dois ou três colegas lá lhe dão um tapa de felicitações, mas é um golo que não é festejado em equipa. Talvez Bruno Fernandes, o capitão, possa fazer alguma coisa pelo grupo fora das quatro linhas.
O jogo de ontem é o resumo do meu sportinguismo neste século. Expectativas, vamos a eles, hoje é que é, golos estúpidos sofridos, alguns repetentes, um ou outro golito nosso e no fim um mau resultado. Com exceção de fases de JJ e do Sporting aborrecido de Paulo Bento tem sido assim desde Boloni, João Pinto e Jardel.
  

ontem vi o jogo, hoje ouvi o spin

Ontem vi o Benfica perder um jogo que nunca (nunca!) esteve perto de ganhar. Os alemães, a jogar fora, com o mesmo 11 que defrontou o Bayern dias antes, foram superiores fisica, tecnica e tacticamente a uma equipa com vários jogadores novos e frescos que jogou, em casa, com o Gil Vicente. Tiveram várias oportunidades, com o GR do Benfica a ser (de longe) o melhor da sua equipa. 

Hoje fiquei a saber que:

- O Benfica lançou mais jovens que estiveram até acima das expectativas

- Tem de se compreender que o futebol alemão é mais competitivo.

- Poupar faz sentido que vem aí o Moreirense.

- O plantel do Benfica tem várias, inúmeras soluções, como ficou demonstrado. 

- O grupo é altamente competitivo



Espero que acreditem que lamento a derrota do Benfica. São menos pontos para os clubes portugueses, onde se inclui um Sporting infelizmente não tão forte como se gostaria nesta altura.  



p.s. a não "filmagem" de Lage nos adeptos (ou lá onde andou) só porque este pediu aos jornalistas é incompreensível. É objetivamente de interesse para o público em geral as reações e a fisicalidade do treinador do SLB na sua estreia na Champions. Com o seu tom simpaticão, cúmplice e metafórico, Lage consegue meter os jornalistas todos no bolso

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