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És a nossa Fé!

O lavar dos cestos


Estar na luta até pelo menos à penúltima jornada, ter caído nas meias-finais da Taça, ter passado a fase de grupos da Champions, repetir acesso à Champions e ter vencido dois troféus, parece-me um excelente resultado para o nosso SCP. Foi uma temporada muito positiva. Há dois milhões de anos que não ficávamos em segundo depois de termos vencido um campeonato.

Creio que a revalidação do título teria sido possível num país com ambiente competitivo mais são. Este ano, terão reparado, a fraquíssima autoridade que a Liga e FPF demonstram de novo deu em quezílias permanentes, intimidações variadas e, claro, numa interpretação muito criativa e lusitana do VAR.

Portugal reescreveu as regras do jogo. Todo e qualquer contacto na área, toda e qualquer mão/braço, é passível de ser penalti e sim, obviamente, o SCP também beneficiou de penalties coiso. A nossa liga é um paraíso para os avançados mais encorajados pelas suas estruturas, que parecem estar num jogo à parte. Certas quedas podiam estar no Bolshoi, outras em museus. E sim, são quase todas penalties. Foi para isto que se inventou o futebol? Se calhar foi, que sei eu... 

SCP perdeu a liga por causa das arbitragens? Não. Mas dizer que “ah e tal não se pode falar das arbitragens porque é desculpa de mau pagador e tal” também não me convence. Achar que Amorim falhou ao não treinar suficientemente bem os seus jogadores a cair na área revolta-me, mas é difícil de rebater. Por exemplo, se a nossa malta tivesse caído na área no Benfica como as mulheres jovens do século XIX faziam para atrair a atenção dos pretendentes, talvez tivéssemos sacado uns penalties que nos tivessem metido no jogo.

No melhor país do mundo, um dos melhores da Europa, a nossa esperteza é a maior predadora da fraqueza das instituições.

Digo e repito que há coisas no nosso futebol que se mantêm há décadas, coisas essas que este ano tiveram uma bela colheita. Não tenho a certeza que os nossos jogadores – e até os nossos técnicos – não partilhem esta minha opinião. Se assim for, é admissível que desmoralizem e se distraiam, como sucedeu (digo eu, claro) no jogo em casa com o SLB.  

P.S. Na filosofia criativa do VAR, o lance de Adán baralha-me. Ou talvez não. Noutros campos, noutras fases da Liga, teria sido marcada falta. Ou seja, e para que se perceba bem o que quero dizer, infelizmente é irrelevante se é falta ou não é. O que interessa é se se pode marcar, caso seja necessário.

Palermos


No controladíssimo futebol português, a questão é se o nosso Sporting foi campeão no ano passado por mérito ou porque alguém se distraiu e achou que não íamos lá e depois acordou demasiado tarde?

A derrota com o Benfica, limpa e óbvia, decorre de banho tático ou de jogadores e equipa técnica que acreditam em bruxas porque veem televisão como nós e veem certas e determinadas coisas a acontecer noutros relvados e, compreensivelmente, perdem gás emocional e motivacional porque perceberam que façam o que fizerem, jamais vão chegar ao bi?  

O futebol português continuará assim, belicoso, cheio de incidentes, pressões, intimidações, VARs repetidos tantas vezes que todos os lances são lances de gravidade máxima, árbitros e árbitros de VARs com medo físico que façam mal às suas famílias, fanáticos engravatados orgulhosos de décadas que vão deixar os historiadores do futuro perplexos e autoridades a assobiar para o ar?

Amarelo is the new black

Voz amiga alertou-me para esta obviedade: o amarelo é a grande arma dos que apreciam e beneficiam da ambiguidade no futebol lusitano. Um amarelo nunca vai ao VAR. Um amarelinho mostrado no princípio do jogo é um limitador de capacidade do jogador. Quem diz um, diz dois, três, quatro, na primeira parte. Amarelo ali, amarelo aqui, os jogadores vão ficando tapados e suspensos.
Alguns até são expulsos com dois amarelos.

O que persiste inacreditável é a omissão de falatório das estruturas dirigentes do nossos futebol, do secretário de Estado aos da Liga e da federação, sobre os ajuntamentos constantes no final dos jogos. Sobre pessoas alheias ao jogo que agridem jogadores perante milhões de olhos, creio que será mesmo uma questão para as chamadas autoridades.

Verdadeiro ou falso


Vistas as coisas de um ângulo muito diferente, porque não vemos o Bernardo Silva de ontem, na seleção? Qual o verdadeiro Mourinho – aquele que liderou o Real e foi campeão contra a melhor equipa da história, o Barça de Guardiola; ou este de agora, meio estranho, que refila com árbitros, jornalistas e seus jogadores?

E o City? Ontem foi verdadeiro ou apesar de tudo teve a sorte cada-tiro-cada-melro?

Rúben tem um plano e não se quer desviar, sabendo ele próprio que tem muito por aprender e viver. Se a vida fosse uma série de televisão, estaríamos a meio da temporada, em que ele ganha umas mas é sempre copiosamente derrotado com os mais fortes. Qual é o verdadeiro Rúben? O que controla totalmente a coisa internamente e sofre KOs com os lá de fora, porque plano é plano, ou um Rúben paciente – porque plano é plano - que sabe que mais tarde ou mais cedo os KOs passam a decisões de juízes e, empates e, quem sabe, a vitórias?

Por falar nisso, os jogadores dele acham-se melhores do que aquilo que são ou estas derrotas, que têm muito de treinador, são também medo cénico? Contra SLB e Porto, somos hoje dominadores e até favoritos, contra Ajax e City parecíamos a equipa do bairro no torneio na cidade a enfardar goleadas atrás de goleadas. Serão os nossos três grandes assim tão piores que os colossos europeus ou são os nossos jogadores que ainda têm de sair da casca e ir para lá do plano quando é para ir para lá do plano?

O que é melhor no fim destes massacres? Pissadas públicos violentas nos jogadores ou carinho?

E o que é ser grande e o que é ser pequeno? Os adeptos tiveram razão nos aplausos no fim do jogo ou foram levados pela emoção?

 

P. S. Até agora, o Ajax sofreu 5 golos na Champions e 5 golos na liga neerlandesa. Três desses golos foram marcados pelo Sporting

Podres de espírito


Incrível como Rúben Amorim e a sua equipa técnica são tão melhores que os outros treinadores na nossa Liga. Menos incrível como a fraqueza das instituições permite que eventos pós-jogo como os de ontem se repitam. A sensação de impunidade de muitos dos indivíduos deve-se apenas e só a isso. Pensemos quem tem sido favorecido nas últimas décadas por tanta tibieza e podridão nas decisões de arbitragem, castigos e organização e chegamos depressa à resposta. Achar que um árbitro pode, sozinho, parar esta maré, é ingenuidade.

Nunca supus que o jogo de ontem viesse a ser fácil, disputado ou pacífico. Não me admira nada do que aconteceu, muito menos a simplicidade com que um fulano de colete azul, que não faz parte da ficha de jogo, dá um soco num dos jogadores. Já cá ando há muito anos e nada daquilo espanta, como não espantará que o castigo seja uma multinha ou uma interdição quando já não houver risco de afetar nada. Nada lhe vai acontecer, zero. O mais certo é estar a receber palmadas nas costas e promessas de almoços pagos. Apostaria bom dinheiro em como está a viver um dos melhores dias da sua vida, feito herói da esperteza, rei dos pobres do espírito, efémero herói da barbárie. Não ganhará centenas de milhar de euros ao longo de décadas, mas estas migalhas de importância vão valer ouro na sua existência.

Há várias razões para sermos um país pobre. Esta podridão e impunidades de décadas numa atividade tão importante para a população como é o futebol é tanto um sintoma como uma causa.   

Varanda com vista para a vitória



Frederico Varandas será justamente eleito presidente do Sporting nas eleições em março.

O principal adversário é um efeito-Medina/Moedas (ou seja, os seus apoiantes não se darem ao trabalho de passar no estádio para votar), mas a possibilidade é muito remota.

Pessoalmente, votarei nele.

Não contra ninguém, não contra o passado, mas porque acredito no que ele e a equipa fizeram, fazem e propõem.

O seu mandato é um sucesso extraordinário. Vivemos um período de abundância de títulos, temos um clube dominador em várias modalidades e no futebol em particular. Quem diria…?

Sobre contas, VMOCs, SADs, investidores e afins, abstenho-me de comentar simplesmente porque acho os clubes portugueses “too big to fail” e too big para serem vendidos a russos, chineses ou a quem for.

O que quero dizer é que seja qual for o cenário financeiro, haverá sempre aquisições, trutas, garras e craques, negócios, vendas e transferências. Além de várias versões sobre as contas do clube, claro.

Creio que malgrado alguma timidez e insegurança que atrapalham a sua mensagem e a condimentam com arrogância (que é precisamente timidez e insegurança), Varandas é um gestor de nova geração (desculpem a expressão, não me ocorre outra) e que é bom que o nosso clube seja liderado por um. Pessoas nascidas na década de oitenta e noventa e que ocupam e ocuparão (a pouco e pouco) a liderança e inerente modernização das empresas e instituições portuguesas. (Rúben é outro exemplo).

É interessante que nos últimos, largos, tempos, a principal crítica feita a FV seja acerca de uma característica na fala que faz com que pronuncie os erres de forma deficiente. Também é bom para sublinhar como, para muita gente, certos defeitos físicos possam ser usados para criticar caráter, personalidade e competência.

Ser gordo, baixo, careca, cego ou ter fala diferente não podem, não devem, ser qualificativos. Como ia dizendo, neste caso, também é sinal de que não há mais nada por onde pegar. 

Ser benfiquista.

Como se passara na Supertaça, também ontem o Sporting foi um vencedor claro, inequívoco e justo.
Sem clubites, pode dizer-se que o adversário não foi o mais complicado que encontramos este ano e que provavelmente uma enorme maioria dos que viram o jogo não ficaram surpresos de ter sido o Sporting a vencer.

Dentro de campo, o SLB mostrou que não tem plano de jogo, ideia de futebol e que está desfocado do que é o futebol contemporâneo, onde o individual se dilui no coletivo para só aparecer naqueles momentos em que é mesmo de aparecer (Porro e Sarabia no segundo golo).

Ainda assim, os jogadores do SLB não têm culpa disso, alguns mostraram muito valor (Cebolinha, Odysseias, Weigl) e todos se bateram bem no sentido de deixarem tudo em campo. O jogo pareceu-me rijo e limpo, mal arbitrado é verdade, mas porque os nossos árbitros são o elo mais fraco da nossa competitividade.

Onde o Benfica  falhou em toda a linha foi na postura fora de campo. Os adeptos estiveram bem, Cebolinha foi muito correto e decente nas declarações, mas o treinador – cuja qualidade me parece clara – esteve péssimo, incapaz de admitir a superioridade do adversário e partilhou connosco um sonho que terá tido em que as duas equipas foram equilibradas.

Pior ainda esteve o presidente do SLB, um homem que foi aplaudido em Alvalade pelos sportinguistas quando se retirou e que demonstrou de novo o nervosismo de adepto e falta de noção das implicações de se ser figura número um da instituição SLB. Não só não esteve ali, honrado, a cumprimentar o SCP, como não esteve lá, ao lado dos seus, que deram tudo em campo.

Não vale a pena clamar por uma indústria competitiva e não sei quê, quando é este o exemplo que se dá aos adeptos.  

disto ninguém fala e não deixa de ser estranho.

O Sporting-campeão e este que luta pela revalidação do título, passou aos oitavos da Champions, está na taça e na taça da liga, tem uma característica singular que vejo muito pouco referida.
Temos muito poucos jogadores no plantel com longevidade. Só Coates (desde 2015), Jovane (2017) e Neto (desde 2019) sobram dos tempos duros de Keizer e Silas (Matheus Nunes também, de certa forma).
Isto contradiz completamente o dogma "é preciso jogaodores que sintam a mística" e mais não sei quê. 
Outra Amorinice ou mistura de acasos com decisões? 

Pesadelo cor-de-grená


Um tipo que viajasse no tempo e me tivesse vindo dizer aqui há uns 10 anos (ou 8, ou 5) que, em 2021/22, a equipa de futebol do Barcelona seria uma anedota, eliminada na fase de grupos da Champions e estaria a 150 pontos do primeiro na Liga espanhola antes do final da primeira volta, seria das últimas coisas em que acreditaria. Acreditaria mais depressa que um vírus tipo gripe, mas pior, fecharia o mundo durante (pelo menos) dois anos ou que o Sporting seria campeão com uma derrota no penúltimo jogo, já depois de ter garantido o título. Ou que já teríamos pisado Marte.

Esta tragédia no Barcelona (apesar de ter Busquets, Ansu Fati, Pedri, Ter Stegen, Demeblé, Coutinho, Pique, dois De Jongs, etc etc etc) é a prova que o futebol é um jogo de equipa onde, tirando ou metendo uma pecinha, tudo pode correr bem ou tudo pode correr muito, muito mal. 

Prognósticos só no fim do caminho do Rúben



O Sporting de Rúben Amorim é muito mais que um caso de sucesso no mundo estrito do futebol. Para lá dos resultados em campo, sublinhados outra vez na sexta-feira, há todo um modo de as coisas serem feitas que estamos a testemunhar e que devemos notar para poder aprender.

Gostamos muito de falar em lideranças porque somos uma cultura que gosta de homens providenciais e isso tem sido apodado também ao jovem treinador do Sporting. Ele é um bom líder. Também gostamos de histórias bonitas de fracos que vencem fortes e por isso se repete que o Sporting tem menos dinheiro e jogadores menos valiosos. Por último, na nossa cultura e enquadramento mental coletivo, parece-nos importante sublinhar a aplaudir a cultura do trabalho e da transparência, ainda que possa não ser essa a nossa doutrina. 

É como se se o repetíssemos muitas vezes e assim também nós e os que nos rodeiam passassem a fazer mais e a falar menos, cromados pela tal dimensão de humildade e franqueza hábil que Amorim faz transparecer de cada vez que é obrigado a falar pelos regulamentos (as conferências de imprensa antes dos jogos e as declarações a seguir são obrigatórias).  Não digo que este triunvirato de qualidade não pese, mas não explica tudo.

O que temos visto ser menos referido - talvez porque nos seja estranho - é a alquimia perfeita que Amorim faz entre competência, determinação e confiança no seu processo. Para todos os efeitos, o sucesso do Sporting de Amorim até à data, onde a percentagem de vitórias é até superior à dos tempos de glória de Mourinho no Porto, não é por causa do carisma, por ele ser ungido ou porque fala bem. É a prova provada de que a competência, a determinação e a fidelidade a um modelo e uma ideia compensam. Mesmo quando corre mal, verificamos que Amorim não transige e por isso Plata ou Joelson não têm lugar nem nos suplentes. Por isso, não quer craques em fim de carreira a preço de saldo. Por isso, escrevo eu, nem sequer quereria quase todos os jogadores na nossa selecção (talvez apenas Bernardo, Cancelo e Félix).  

O que os sportinguistas devem aspirar, acima de qualquer outra coisa, é que fique qualquer coisa desta fórmula tão simples como difícil de atingir, no dia em que Amorim saia do clube.  

O Processo Amorim

Excertos de um texto que publiquei antes do jogo com os turcos.

"Até que aconteceu Rúben Amorim e, miraculosamente, pela primeira vez em muito, muito tempo, o Sporting não perde jogos que aparentam ser fáceis e vence outros, que se afiguravam complicados. Pela primeira vez desde que me lembro, o sportinguista consegue ver a equipa sem medo do descalabro habitual.

Antes de Amorim, e mesmo nas nossas melhores fases, o Guimarães de sábado passado haveria de ter marcado um golo do empate, mas não, o Sporting ganhou 1-0. Porque antes de Amorim, era como se cada bom resultado implicasse uma contrariedade de descompressão, como bónus aos deuses. Nada disso, em outubro o Sporting venceu os seis jogos que disputou.

Com Rúben Amorim no banco, o Sporting deixou de ser a equipa inconstante com o craque de serviço a fazer tudo sozinho, adeptos militantes e claques com coreografia que sofria golos estúpidos nos últimos minutos e originou a longa série de piadas natalícias. Agora, o Sporting ganha, sofre pouquíssimos golos e marca bastantes vezes nos últimos minutos. Nunca imaginei viver uma coisa assim.

(...)

O Sporting sempre foi um clube de jogadores e não de treinadores. Vencemos uma Taça das Taças, mas nenhum sportinguista que não seja autor de almanaques sabe quem treinava (era o arquiteto Anselmo Fernandez). Como não sabemos quem orientava a equipa aquando do tetra nos anos 50 (foi mais do que um). Mais depressa lembramos que foi Manuel José o treinador dos 7-1, que Queiroz levou 6-3 em casa ou que Peseiro perdeu o campeonato e a Liga Europa na mesma semana.


(...)

Tão ou mais significativo que o estranho e merecidíssimo título de campeão dezanove (!) anos depois do anterior, o inaudito é a circunstância de o Sporting estar na luta pelo campeonato seguinte e não, como sempre, a deslizar na tabela, ressacado pela vitória das vésperas.

Por algum motivo, Rúben Amorim não tem feito capas de jornal com interesse alheio; supõe-se que nem sequer tem empresário. Com o ar bem dispostão de mosqueteiro de quem esperamos a qualquer momento que meta o chapéu com as plumas na cabeça, só Rúben Amorim conhece o seu plano. A probabilidade de sair do Sporting no fim deste ano é elevadíssima, não só porque já tem o curso que lhe permite treinar em todo o lado, como também porque é esse o percurso natural de quem tem êxito nos campeonatos de países pequenos.

Pela minha parte, espero que não saia do clube. O Sporting precisa mais dele e do seu processo, do que Amorim precisa do Sporting e do seu passado de glórias raras e ressacas prolongadas. A não ser que queira aproveitar o vento e entrar na nossa história como o melhor treinador de sempre do Sporting.




versão integral: 
https://tribunaexpresso.pt/opiniao/2021-11-03-O-processo-Amorim-e04cf5e1

Deixem o Paulinho trabalhar


No ano passado, por esta altura, julgava que lutaríamos pelo terceiro lugar com o Braga. Agora, acho que lutaremos também pelo terceiro, talvez com menos incómodo vindo do Minho.

Apesar das fraquezas, Porto e Benfica continuam bem à nossa frente em termos de qualidade individual no plantel. O SLB tem pontas de lança suficientes para emprestar um a cada equipa da Liga e ainda sobra e o Porto mantém uma forma de estar em campo – em jogo, nas interrupções e demais artimanhas  - que o torna sempre perigosíssimo, com alas que nunca mais acabam e centro campista de luxo, a que se devem somar este ano os da formação, francamente bons.

Temos uma equipa com bons jogadores e uma equipa técnica que consegue extrair sangue das pedras (ou lá como é a metáfora). Na Champions, levamos um banano do Ajax e fomos insuficientes com o Dortmund e há jogadores abaixo do híper rendimento do ano passado. Pote tem jogado zero (literalmente), Vinagre tem sido encadeado pela grandeza do clube, Tiago Tomás deve estará sentir em demasia que é e será segunda escolha  (e a continuar assim, até pode ser terceira ou quarta). Esgaio começou bem, mas talvez não tenha o pico físico de clube grande, que vê os adversários agigantarem-se para se mostrarem. Feddal, Jovane estão também meio ausentes, Ugarte está em adaptação e não há Nuno Mendes.

Assim, olhando com frieza para a nossa malta e comparando com os equivalentes adversários, um a um, talvez seja mais fácil perceber a importância de um jogador como Paulinho. Sim, ele poderia marcar 15-20 golos por época, mas quem seria então o treinado em campo, o líder de equipa, o chefe de turno, o capitão de pelotão, o encarregado da obra que mete os colegas em sentido, puxa por eles e os força a olhar de frente para a responsabilidade que têm por vestir aquela camisola?

Sporting é campeão e agora está na luta, a um ponto do primeiro, depois de ter ido a Braga e ter recebido o Porto. Deixem o Paulinho trabalhar,  pode ser que consigamos melhor que o terceiro que prevejo.

skin in the game

Ontem o Sporting perdeu por quatro golos no seu estádio, com uma equipa melhor, mais arguta, mais capaz, mais rápida. Dias antes, o mesmo Sporting tinha vulgarizado o Porto, que por sua vez se bateu olhos nos olhos no estádio de um dos grandes favoritos da Campeões.

Como dizia Hemingway, ou talvez tenha sido um antigo baixista dos Pink Floyd, not so close to the ocean, not so close to the land. Aceitamos que uma cadeira não estrela um ovo ou que um tigre não serve de candeeiro, mas gostamos de acreditar que os humanos podem tudo. Porque haveria de Amorim montar uma equipa para ganhar a Champions com dois pedaços de cordel, um isqueiro e meio pacote de bolachas Oreo? Não pode ele verificar na pele que isto e aquilo não é bem assim e que talvez seja frito e cozido?  Até porque, como ele dizia, o jogo do campeonato a seguir é que é importante.

No ano passado, este grupo, esta malta e esta equipa técnica, devolveu o título de campeão nacional ao Sporting, dezanove anos depois do anterior. Pela minha parte, não me esqueço.

Polvo à Amorim


Devo dizer que Amorim é o treinador que mais me impressionou desde sempre. Pela primeira vez, verifico factualmente que é a mão de alguém exterior (ele e a sua equipa técnica) quem torna homens mais ou menos comuns numa equipa eficiente, competitiva e objetiva. Se há equipa onde se vê "treino" é nesta do Sporting. 

Também é a primeira vez que verifico que uma pré-época é mesmo para preparar - e não para mostrar, rodar, dar oportunidade a novos, velhos e assim-assim, fazer vibrar o coração do adepto ou faturar em camisolas. É ver como as substituições de ontem tiveram um propósito, não serviram para dar minutinhos a este ou aquele. É assinalar como Bragança não entrou nos descontos como "prémio" de uma coisa qualquer. É de sublinhar que Max não jogou a segunda parte para "qualquer eventualidade".

Não sei se vamos vencer a Supertaça (o sortilégio do futebol é a sua magia), mas sei que Carvalhal deve ter dormido mal esta noite. A dinâmica da equipa do SCP, o trabalho coletivo, o posicionamento de vários jogadores, a quantidade de soluções que há no banco são impressionantes. A equipa funciona como um polvo, cheia de tentáculos que pressionam, roubam bolas, passam, desmarcam, executam e se ajudam. E nada parecem temer.

A imagem que guardo de ontem é do melão de RA quando sofremos o segundo. Foi um golo bem trabalhado pelo Lyon, excelente passe, bela desmarcação de Slimani - que estava na zona morta entre a defesa e o meio campo – e boa execução do argelino, mas Amorim estava pior que estragado. Porque uma pré-epoca é para preparar e não para entusiasmar a malta.

Se estou a ver bem, este foi o adversário mais forte que o SCP defrontou em muito tempo. Certamente a melhor equipa não portuguesa. Há um ano levamos quatro de uns austríacos bem organizados. Agora foi quase ao contrário. São tempos estranhos, estes de ver o nosso Sporting tão determinado, sem que possamos dizer que temos lá um craque daqueles que valem um alqueire de dezenas de milhões e sem o qual tudo desmorona. Dentro do campo, quero dizer, porque cá fora temos.

O momento Paulinho


Era provável que um dos heróis de um título de campeão nacional do Sporting fosse o Paulinho, mas não se imaginaria que fosse o jogador que começou a época no Minho, ao serviço do Braga. O outro Paulinho, técnico de equipamentos, é uma figura carismática do desporto em Portugal, mas defendo que foi a contratação do avançado, na chamada janela de janeiro, que deu o título ao Sporting, dezanove anos depois do último.

Mais: até defendo que o Momento Paulinho entre para o léxico da gestão autóctone, para definir aquela decisão em que o CEO demonstra que confia na equipa que tem, a ponto de investir a sério. Com  o objetivo “Champions”, a gestão do Sporting já cometera uma loucura, ao contratar um treinador por (cerca de) 15 milhões de euros (mais o salário). Em futebol profissional, e espantosamente, não se costuma fazer isso, embora 15 milhões por um jogador de que nunca ninguém ouviu falar não levante o sobrolho a ninguém.

O futebol paga por executantes, mas não é costume pagar por pensantes e estrategistas. Curioso, não é?

Rúben Amorim, o treinador do Sporting, beneficiou de ser um homem de ideias fixas. A seu favor, o facto de estar bem na vida e poder aceitar os desafios profissionais que entende, impondo condições. Treinava o Braga, depois de vindo do Casa Pia, e terá aceitado o Sporting talvez porque pensasse que há comboios que não passam duas vezes, porque acreditasse que em dois ou três anos conseguiria chegar à Champions e houvesse então dinheiro para disputar a liga doméstica, ombro a ombro com os rivais.

Escudados pelos dirigentes que o compraram caro, Amorim teve a intuição certa e, na constituição do plantel, usou de uma pragmática que deveria ser óbvia. Em caso de dúvida, privilegiou os jovens da formação, que conhecem as especificidades da liga portuguesa, têm custo zero e salários muito menos pesados, em detrimento de jogadores de outros países e campeonatos, mais caros, com vencimentos superiores e que precisam de se acostumar. A somar a esses miúdos da formação, os dirigentes do Sporting, do presidente ao treinador, escolheram meia dúzia de jogadores mais velhos que aportassem calo, sabedoria, manha e experiência ao grupo. Sendo o Sporting um clube pobre, nenhum dos jogadores que chegaram era propriamente disputado pelos potentados europeus.   

A meio do trajeto, mais ou menos por janeiro, o Sporting liderava por larga margem, mas ainda era possível soçobrar e contrata Paulinho, um português de Barcelos, que fará 29 anos em novembro. Os adeptos não exultaram e muitos acharam que não fazia falta nenhuma.

Discreto, com ar de boa pessoa, sem pinta de futebolista mediático, nem lento, nem veloz, joga na posição mais ingrata de todas (ponta de lança) e tornou-se no jogador mais caro de sempre para o Sporting. A contratação do internacional português ao Braga foi vista como uma exigência do treinador, a que a direção finalmente anuiu, supostamente com travo amargo.

O que me parece que não se percebeu foi que este momento Paulinho marca o instante em que dirigentes e treinador compreendessem e aceitassem mutuamente que estavam mesmo comprometidos a ser campeões. A direção comprou Paulinho para o treinador e este deixou de ter capital de queixa (e a comichão) de não o ter e pôde concentrar-se na conquista do campeonato. 

Que o Momento Paulinho sirva de inspiração e ilustração para duas verdades elementares. Para se vencer é preciso investir. Pode ser pouco ou muito, mas é preciso investir. E para se vencer é preciso dar condições e confiança a quem se escolhe para estar ao leme.

 

p.s. Outra dinâmica que tem passada despercebida é a alusão que Amorim faz à sua equipa técnica. Guarda-redes, linha defensiva, bolas paradas para meter golos, linha atacante, tudo isto (e por certo muito mais) tem liderança de Amorim e ciência e competência dos seus tenentes. Ninguém faz nada sozinho. 

Creio que foi isto que sucedeu...

Amorim fez o primeiro teste com um adversário tipo Champions. 

Supondo que pode perder Palhinha para o mercado e João Mário (porque está emprestado), talvez Amorim queira ter percebido se as segundas linhas estariam à altura.

 

Individualmente, o Benfica tem alguns excelentes jogadores, muito melhores que todas as outras equipas portuguesas e que fizeram gato sapato de alguns dos nossos, ali na primeira meia-hora. É evidente que se não entrassemos já resolvidos, a nossa equipa e tática teriam sido outras.

Deste modo foi possível testar um "jogo Champions", em que as duas equipas mostraram lacunas individuais e até coletivas.

 

Creio que a importância de Feddal, Palhinha e João Mário no título ficou sublinhada com tinta ainda mais grossa.

Talvez Amorim tenha convencido Varandas a lutar mais por João Mário.

Talvez Pote tenha convencido Fernando Santos.

E talvez João Mário mereça voltar a fazer parte da equipa das Quinas. 

Amorim em tempos de cólera

 

O que somos, para onde vamos, que fazemos aqui?

Também não faço ideia, mas durante os últimos dois meses consigo dizer que sou do Sporting, que somos campeões e que, para aqui chegar, sofremos juntos, no cantinho de cada um. Já acabou, somos campeões, estamos campeões.

Entre o fim do inverno e o princípio desta primavera, houve momentos em que não me apeteceu ser do Sporting, em que desejei nem sequer ligar a futebol, o disparate de passar os dias ansioso, inquieto e irritadiço, são onze homens de calções atrás de uma bola, que valor naquilo pode haver que valha a pena. Ninguém fala disso, mas ser espectador, observador, testemunha, custa e faz adoecer. Como outros, há semanas que venho dormindo mal, exausto pelo sofrimento de jogos vencidos nos últimos minutos, com a cabeça a fumegar pela aritmética de pontos e jogos que faltam e pela espionagem aos próximos adversários, nossos e deles, tudo centrifugado por otimismos, pessimismos, ilusionismos e realismos. A sportinguite, quando é aguda, toma conta de nós e não larga.

 

No princípio desta história, a ideia nem era acreditar. Não ia ser desta, naturalmente. Noutro maio, o de 2018, o clube sucumbiu à cólera e perdemos tanta coisa que ninguém justo nos exigiria mais do que sobreviver para depois sim, enrijecer. Regeneramos, mas passou tão pouco tempo que os projetos desta temporada eram projetos para o futuro. Estávamos todos de acordo que não ia ser este o maio em que seríamos campeões. É preciso ter o coração aberto à felicidade, mas não se viam nesta equipa os epígonos dos grandes jogadores que haviam de nos levar ao campeonato. Tudo bem. Estávamos preparados. Este haveria de ser mais um ano na vida do sportinguista.
Nestes anos, aconteceu-me de tudo, até coisas inimagináveis, como a tanta gente. Se isto do sportinguismo fosse de ser medido, nem sempre tive o ponteiro no máximo, em especial depois do que nos aconteceu. A única utilidade da barbárie e a violência é permitir que pensemos sobre o que andamos a fazer. Apesar da consciência da importância da pacatez, mantive-me adepto e sócio. Nunca vivi, por exemplo, a bipolaridade de ligar e desligar a Sport TV, esse termómetro de fezada, porque há mais para ver que futebol doméstico, com as suas peculiaridades, o seu caciquismo e os seus pelotões de medrosos, que obsta a modernidade e a civilidade.

Não pequei em atos e omissões, mas em pensamentos não poderei dizer o mesmo. Enquanto víamos jogos, olhei muitas vezes para o meu filho e pedi-lhe desculpa em silêncio por tê-lo feito do Sporting. Do meu sportinguismo nunca duvidei, mas queremos o melhor para os filhos e olhá-lo a sofrer, a chorar de tristeza, por vezes era demasiado. Julguei, nos momentos escuros, que eu e ele nunca seríamos, afinal, campeões juntos. Ele chegou cá em 2003, já o último campeonato ia longe. Dos pensamentos terríveis que temos sobre o futuro, este era o que mais me custava e quando me acometeu, há meia dúzia de anos, recordo ter-me sentido infinita e irremediavelmente triste.

Ganhar não é tudo, ser do Sporting chega bem e todos os anos, no verão, íamos comprar a nova camisola à loja Verde, até que deixámos de ir, porque se meteram outras coisas, novos hábitos. Aquele 2018 adubou em nós este sportinguismo não praticante e construiu a convicção de que o sofrimento de outrora jamais viria a ser sentido. Mais valia parar com isto, a vida quer-se calma, há outros desportos, outras afinidades, outras adesões, no caso dele, um mundo inteiro para viver.
Cada um tem a sua relação, a minha cinde-se entre a imensa alegria, na plenitude, no orgulho, na partilha da tradição e do legado, na memória das conquistas e a resignação enervante e prolongada, vivida como uma maldição que transformei em parte de mim. Fui adepto de posters colados no quarto, com fita cola de má qualidade, de saber o nome completo dos jogadores, de onde eram, quanto golos marcaram. Fui adepto de comprar jornais cedo no verão, para decorar o sortido de novas estrelas. Morreu há pouco tempo o Saucedo, e ainda me lembrava que vinha do Desportivo de Quito, que fora o melhor marcador no Equador. Eu era desses.

Em setembro, coisas começaram bem e continuaram bem, mas haveria de voltar a acontecer (não era?), que interesse tinha o Sporting estar à frente à quinta jornada? Ou continuar à sexta, à sétima, oitava, nona, à décima…? Ou até dobrar a primeira volta em primeiro. Não é o primeiro milho que é dos pardais? A este Sporting, com alguns veteranos e muitos miúdos e um treinador sem carta, não faltavam pardalitos. Erros nossos, má fortuna, não haveria de haver amor ardente que nos valesse. 
No princípio de março, uma vitória nas barbas do cronómetro contra o Santa Clara sucedia a um empate no campo do Porto. A seguir outra vitória escassa em Tondela, bis com o Guimarães, até que a 5 de abril, o cão morde a cauda, deixamos dois pontos em Moreira de Cónegos e mais quatro contra Belenenses e Famalicão.

O fim da ilusão está próxima, misericórdia, haveria ser como sempre tem sido.

O sportinguista aprende a ver o lado positivo, se não ganhássemos o campeonato, ao menos o sofrimento acabava. Alguns adeptos iam cantando “façam-nos acreditar”, uma das canções de apoio ao clube, tão portuguesa na sua transferência de responsabilidade, e cantavam muito bem. Caramba, o avanço ainda era grande, mas a sombra do passado era maior e, atravessando abril, terei ativado todos os mecanismos de defesa emocional conhecidos pela psiquiatria para domar o meu sportinguismo.

A 25 de abril, de noite, no fim do jogo em Braga, o Sporting marca no único remate à baliza e ameaça vencer um jogo improvável. No fim do jogo, chorei de raiva e alívio, de alegria imensa pela vitória, lágrimas e soluços de quem ou explode de vez ou sobrevive. O que nos está a acontecer é real. É justo e apropriado. Toda uma equipa a fazer-nos acreditar, liderada por Ruben Amorim, já um dos maiores heróis dos sportinguistas.

Nos tempos da cólera, para sermos campeões, era de Amorim que precisávamos.  Um homem novo, ambicioso, determinado, de ideias fixas, disposto a lutar por elas, sem tempo ou paciência para olhar para o nosso passado. Que lhe interessa a ele que o Sporting não vencesse há 19 anos? No dia em que chegou e lhe perguntaram como seria se “corresse mal”, deu a resposta que o melhor dos poetas não escreveria. “E se corre bem”, devolveu o nosso Ruben à pergunta. Meses depois, foi ele o poeta que nos ofereceu a divisa, onde vai, vão todos, só por isso merecia estátua, busto e placa. 

Se corre bem? O que sinto em mim, sem a angustiosa espera, é que se acabou a melancolia, o lamber das feridas, este ano é nosso. É dos velhos engelhados, dos que sempre acreditaram, dos moderados e excessivos, dos derrotistas e dos fanfarrões, dos céticos e dos otimistas. É dos homens e mulheres que mesmo sem acreditar sempre, nunca deixaram de ser leões, dos jovens adultos e dos adolescentes a quem o futuro pertence e dos muitos, e são tantos, miúdos que andam por aí, de camisola vestida, a gritar pelo nosso Spotingue.

Correu bem, o campeonato é nosso, Ruben, és o maior, obrigado!

 

Há muitos, muitos anos, um homem bom, numa cave, ouvia o relato de um Sporting em noite europeia. O rádio era excelente, apesar da antena entortada, um Panasonic, com botões em aço e as cidades do mundo escritas no sintonizador. Nunca se sabe se um dia não seria preciso ouvir a onda curta de Adis Abeba ou as rádios da Escandinávia. Os filhos estavam noutro país, provavelmente desinteressados do Sporting europeu, ocupados com a viagem e as maravilhas do país onde estavam.

O jogo deve ter sido emocionante, talvez um daqueles comentados pelo Alves dos Santos, dos que enchiam a capa de A Bola do dia seguinte, porque houve um tempo em que só as quartas-feiras eram europeias e só A Bola do tamanho de toalhas de banho saía no dia seguinte. Ali sozinho, com o seu Sporting, o homem lembrou-se dos filhos e gravou o relato numa cassete Sonovox que por ali havia.

Hoje, sempre que o Sporting joga, é do meu pai que me lembro e daquele relato em cassete que ele gravou. Um relato de futebol gravado numa cassete, podem imaginar uma coisa assim?

Sporting? Sporting, sempre. 

 

(Texto que publiquei na Tribuna, na quarta-feira, a seguir ao jogo com o Boavista)

Custos da oportunidade

Não sei como é convosco, mas comigo têm sido meses angustiantes.

Mal o árbitro apita, o Sporting calminho e calculista começa a fazer a teia que impede que os outros marquem, que faz por controlar as operações e procura o golito da ordem. Durante o jogo, aquela hora e meia é como a entrevista de emprego decisiva, o médico que nos vai dizer se é grave ou não é, o ponteiro da gasolina no zero enquanto estamos no meio do Alentejo, a carta registada que chegou das Finanças. Todas semanas. Quanto anos de vida foram roubados ao Fernando Mendes, que rói as unhas em direito na CMTV e que vou sempre espreitar, assim que o árbitro apita para o fim?

Isto custa muito mais do que eu me recordava, quando o João Pinto cruzava e o Jardel a metia lá dentro ou até quando Acosta se impunha jogo sim, jogo não ou o André Cruz desenhava folhas secas. Havia ali personificações de vontade. Este ano, não é assim. Os heróis são escassos, um Jovane aqui, um Pote acolá, um Coates sempre de topo, mas com aparência calma e zen. A equipa vale por todos.

O bizarro é que, custando, em momento algum se duvida que acontecerá. Confiaria a minha vida aquela defesa, aqueles técnicos, à fome que mostramos naqueles últimos dez minutos e que nos tornam numa equipa imparável.

O Sporting 2020/2021, sem vedetas nem estrelas, é mesmo a prova de que onde vai um, vamos todos. Custa, mas vamos mesmo.  

As coisas como elas são

 

1. A riqueza potencial do plantel do Sporting é francamente inferior à dos seus adversários diretos. Os três. Sempre o soubemos. Mas talvez seja de lembrar que Ruben Amorim é o mais novo e menos experiente dos treinadores. A sermos campeões, será um feito extraordinário.
O nosso oponente principal eliminou a Juventus, de Ronaldo, Dybala e outros artistas da Champions e bateu-se muito bem com o Chelsea. É a este clube que venceremos o campeonato, caso isso suceda.

2. Era bom que pelo menos esta época pudéssemos congelar a conversa sobre o TT deve coiso e o Paulinho veio coiso, porque o Nuno Santos coiso e o Jovane nem se fala.
E passássemos a falar de como as equipas portuguesas, com plantéis de meia dúzia de tostões, se armam bem, estudam os adversários e lutam pelo resultado. O Famalicão tinha jogado muito bem, ontem a B-Sad também. O Gil foi ganhar limpinho ao Benfica. E há outros resultados a citar. Olhando para a parte de baixo da Liga é impossível dizer quem vai descer. E isso é extraordinário e elucidativo de como são complicados de disputar os jogos com a ditas “equipas pequenas”.  

3. O “futebol português”, em que todos nós malhamos, parece cada vez mais competitivo. Ryan Gauld teria lugar no 11 titular de qualquer equipa, como o líbio do Braga, que jogava no Guimarães. Muitos guarda redes disputariam o lugar com Helton Leite e aquele defesa esquerdo Ruben Vinagre é também muito bom. Cito de memória, para chamar a atenção para a competitividade interna.

4. Para dizer que fico muito mais nervoso a ver jogos com os Famalicãos, Moreirenses ou B-Sad, do que com Braga, Porto ou Benfica. Nesses jogos, como ontem, a concentração do adversário e a vontade dos seus jogadores em brilhar, e terem a atenção dos empresários e dos outros clubes, quase que nivela a contenda.

5. As coisas como elas são? Já quase todos não acreditávamos, já não havia tempo, mas houve aquele cruzamento bem metido para o Jovane. Se a bola tivesse passado, Paulinho tinha-a metido lá dentro. Ora vejam as imagens.

 O Sporting parece-me, de longe, a equipa que mais acredita nela própria.

Mais respeito era capaz de ser boa ideia.


Se o SCP for campeão – e está em ótima posição para o conseguir – que dirão Porto, Benfica e Braga?

Num país tão estranho como o nosso, onde a mediocridade é tão magnética que puxa (quase) todos para baixo, será que o antigo jogador da Lazio, o antigo treinador do Flamengo ou o homem que sorria e oferecia pasteis de nata aos jornalistas ingleses, vão dar os parabéns a Tiago Tomás, Daniel Bragança, Gonçalo Inácio, Nuno Mendes, Eduardo Quaresma, Plata, e aos seus colegas mais velhos e experientes? Que dirão os grisalhos, batidos ex-jogadores desses três rivais, que estão a trabalhar nesses clubes? E os dirigentes que se perpetuam nas presidências desses emblemas?

O que se vê em campo, jornada a jornada, é uma escalada a ritmo seguro, realista, liderada por uma equipa técnica muitos furos acima das outras, que faz com plantel curto como uma mini saia, o que outros treinadores não conseguiram com planteis muito mais ricos em individualidades. O resto nem conversa é. 

No fundo, e fica claro se pensarmos nisso, Amorim está a fazer o que é suposto fazer-se desde sempre: não perder pontos com aquelas equipas com planteis mais fracos e menos história. Concentração, compromisso, taxa de erros minimizada, passos seguros.

A ideia é - e sempre foi - ouvir o apito final com pelo menos mais um golo que o adversário. 

Até agora, se pensarem bem, perdemos quatro pontos com o Porto, mas com o upside de o Porto os ter perdido também. Empatamos no campo do Famalicão (com um golo mal anulado, segundo muita gente). Só por uma vez, não se foi capaz dessa obviedade que é não desperdiçar pontos com equipas com menos meios que nós. Foi com o Rio Ave, em Alvalade.

Uma equipa com tanta gente inexperiente, incluindo técnicos, e com duas mãos cheias de jogadores (que no princípio da época) não teriam lugar nos planteis de Braga, Porto ou Benfica, tem até ao momento o melhor percurso da nossa história em vários indicadores.

Mais respeito era capaz de ser boa ideia.

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