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És a nossa Fé!

Leonardo, Johnson e Rui Jordão na Cova da Moura

Estava a caminhar por uma das ruas mais inóspitas da Cova da Moura, onde nem a companhia de um residente prestigiado do bairro nem o desviar das câmaras dos camaradas de reportagem para o chão aplacavam os olhares desconfiados de residentes e comerciantes informais, quando me apercebi, a meio da conversa, de que partilhava um ídolo de infância com o Johnson Semedo, cujo fantástico trabalho na promoção da educação e do desporto tem ajudado a que centenas de jovens não trilhem o caminho que em tempos idos o conduziu ao crime e ao castigo da prisão.

A meio daquela rua percebemos que um miúdo da Alvalade traçada a régua e esquadro por urbanistas do Estado Novo tardio e outro miúdo da Cova da Moura em que os prédios brotam por necessidade e à revelia de qualquer noção de urbanismo se tornaram sportinguistas mais ou menos ao mesmo tempo. E em grande parte por influência do mesmo homem, de seu nome Rui Jordão, avançado elegante como um bailarino do Bolshoi e letal como um ninja. Separados por tudo e mais alguma coisa, tirando o essencial, Johnson e Leonardo, agora homens crescidos, a meio caminho entre a infância e a velhice, mantinham a admiração pelo ídolo.

Quis contar esta história ao Rui Jordão, desde há muito distanciado por vontade própria do mundo de futebol, dedicado sobretudo à pintura, mas nunca consegui convencê-lo a dar uma entrevista. Tentei as redes sociais, deixei recados no número de telemóvel arranjado por amigo em comum, sem qualquer sucesso. Ele não gostava de aparecer e muito menos de entrevistas. Agora já é tarde.

Que descanse na paz da eternidade quem partiu tão cedo e deixou tão grande marca. Pode ser que nos venhamos a encontrar noutro mundo e espero que nessa ocasião, após vencer a resistência de quem continuará a não querer aparecer, tenha tido o cuidado de verificar que o gravador tem as pilhas carregadas.

Armas e viscondes assinalados: Um filme hardcore do terceiro escalão

Alverca 2 - Sporting 0

Taça de Portugal

17 de Outubro de 2019

ERRATA: Tal como foi apontado por vários leitores, foi Luiz Phellype e não Tiago Ilori o autor moral do 2-0. Assim sendo, mantendo-se a má avaliação do central, é de elementar justiça irmaná-lo com o avançado, que desce para 2,0 para 1,5.

 

Luís Maximiano (2,5)

Uma das medidas do nível de tragédia em que o futebol leonino se encontra atolado reside no facto de o guarda-redes mais promissor da Academia de Alcochete desde o titular do Wolverhampton ainda não ter conseguido ganhar ou empatar um jogo pela equipa principal. Desta vez viu-se traído por centrais hesitantes e por um trinco fora de posição no primeiro golo e por um corte de cabeça com aspecto de assistência para golo no segundo. O Sporting foi eliminado da Taça de Portugal pelo Alverca, equipa do Campeonato Nacional de Seniores, mais conhecido por terceira divisão, mas o resultado poderia ser ainda mais humilhante não fossem as belas defesas do jovem a quem tratam por Max – não necessariamente por estar rodeado de mulas da cooperativa... –, a começar pelo desvio por instinto de um pontapé de bicicleta.

 

Rosier (2,0)

A escassa utilização de Rafael Camacho, outra das compras milionárias feitas pela mesma gerência que dispensou Nani e Montero antes de vender Bas Dost a preço de saldo, tem permitido que os sportinguistas se inquietem-se menos com o lateral-direito francês, não obstante tarde a confirmar o estatuto de última Coca-Cola de Kandahar. Assim voltou a suceder na despedida do Sporting ao troféu de que era detentor, após ter saído derrotado da traumática final disputada na época anterior a essa no Estádio Nacional: presença física quanto baste e cruzamentos mais para menos do que para mais em nada contribuíram para a felicidade da equipa e sossego dos adeptos.

 

Neto (2,0)

A sucessão de faltas duras e desnecessárias cometidas após ver o cartão amarelo fizeram temer que estivesse a conduzir uma experiência científica com o árbitro Luís Godinho. Conseguiu escapar à expulsão que o libertaria do compromisso seguinte do Sporting, mas revelou menos talento para impedir que Apolinário se acercasse da grande área até desferir o remate que inaugurou o marcador.

 

Tiago Ilori (1,5)

O alívio disparatado que permitiu ao Alverca selar o resultado final foi o enorme disparate específico que serviu de cereja no topo do bolo à quantidade habitual de pequenos e médios disparates genéricos, embora o passe errado que permitiu a primeira ocasião de golo da equipa da casa se destaque dos demais.

 

Borja (2,5)

O internacional colombiano continua a viver na linha defensiva do Sporting aquilo que uma pessoa livre e em busca de diversão,,,,, ou de algo mais, vive numa noite de sexta-feira: a sua avaliação depende do valor relativo dos amigos que tem ao lado. Sucedendo que Rosier, Neto e Ilori o acompanharam no relvado, Borja destacou-se e aproveitou a ocasião para demonstrar razoável critério a defender e mesmo a atacar, beneficiando da presença de Vietto nas imediações. Deve-se-lhe uma das primeiras das muitas ocasiões de golo do Sporting que ficaram por marcar, num fortíssimo remate de muito longa distância, mas na segunda parte foi perdendo fulgor até chegar a hora de ser trocado por Acuña.

 

Idrissa Doumbia (2,0)

Tão esforçado quanto dessincronizado, naquele seu jeito diligente-trapalhão, o jovem médio defensivo remou contra a corrente mas pouco ou nada conseguiu, mantendo-se ainda assim até ao final de um jogo ainda mais desolador do que os anteriores. E espera-se que imensamente mais do que os jogos vindouros.

 

Eduardo (1,5)

Esteve no relvado com o equipamento Stromp vestido, mantendo-se 45 minutos num registo equivalente ao da figuração especial. Velho  conhecido do novo treinador dos leões, o brasileiro tarda em justificar a sua presença mesmo que o resto do meio-campo leonino também não seja flor que se cheire.

 

Miguel Luís (2,0)

Envergou a braçadeira de capitão, o que terá parecido estranho a todos quantos não se deram ao trabalho de reparar que era mesmo ele o mais veterano de entre os titulares. Seguiu-se uma exibição marcada pela dificuldade em fazer cruzamentos, ou contribuir de forma decisiva para um desfecho diferente daquele que mostrou aos sportinguistas que continua a haver mais túnel no fundo do túnel.

 

Vietto (3,0)

Fossem os deuses do futebol clementes e um ou mais dos seus potentes e colocados remates teriam encontrado as redes, pois o argentino não só foi o jogador leonino que mais se empenhou na tentativa de marcar um número de golos superior à soma daqueles que inevitavelmente acabariam por entrar na baliza de Luís Maximiano como garantiu um toque de classe na circulação de bola e construção de jogadas que vai rareando no Sporting. Na segunda parte sentiu maiores dificuldades em manter o ritmo e em não ceder à tentação de deixar cair os braços, cedendo protagonismo para o recém-entrado Acuña.

 

Jesé Rodríguez (2,5)

Momentos houve em que o encharcado relvado de Alverca pareceu um DeLorean carburado a plutónio e capaz de devolver a eterna esperança adiada do futebol espanhol à glória que lhe esteve reservada. Tal como a persistente propaganda varandista fez saber nos últimos dias, Jesé está mais magro e consegue acrescentar alguma velocidade à qualidade inata dos pés, pelo que a defesa adversária tremeu com as suas arrancadas em drible pela direita, infelizmente desaproveitadas pelos colegas.

 

Luiz Phellype (2,0)

Na hora em que a equipa precisava de um matador resolveu assinar o perdão das redes da baliza contrária, desviando a bola para o lado errado dos postes nas duas maiores ocasiões que teve, muitíssimo bem servido pelo livre de Vietto e pelo cruzamento do recém-entrado Bolasie. Longe de ser o maior erro de entre as muitas contratações das épocas pós-Alcochete, nem sempre consegue superar as suas circunstâncias.

 

Bruno Fernandes (2,5)

O golo madrugador do Alverca retirou-lhe qualquer esperança de ficar descansado no banco de suplentes, tendo a realização da RTP mostrado um plano em que a sua expressão apreensiva era o prenúncio daquilo que estava para vir. Substituiu ao intervalo o pouco presente Eduardo, esforçando-se por construir jogadas dignas de uma equipa que não há muito tempo lutava de igual para igual com o Real Madrid ou a Juventus. Ainda enviou a bola à trave num dos seus magníficos livres directos, e tentou servir os colegas, mas não era a sua noite. Pior seria caso Luís Godinho tivesse mostrado o cartão vermelho num lance em que a frustração o levou, com ou sem intenção, a pontapear um adversário que tentava queimar mais uns segundos do tempo de compensação.

 

Acuña (2,5)

De capitão da Argentina contra a Alemanha a impedido de regressar ao Jamor por uma equipa do terceiro escalão do futebol português. Eis um resumo dos últimos dias de Acuña, colocado em campo com dois golos de desvantagem no placard e poucos minutos no cronómetro. Procurou fazer da ala esquerda uma alameda para a reviravolta, servindo-se da capacidade de drible e da atitude que falta a muitos colegas, mas os seus cruzamentos (cada vez mais disfarçados de remates) não surtiram efeito prático.

 

Bolasie (3,0)

Faltou-lhe um pouco de pontaria na melhor ocasião que o Sporting teve para marcar, mas a forma como se desenvencilhou de adversários dentro da grande área prova que poderá ser útil se algum dia a equipa estabilizar. Também na ala direita demonstrou capacidade de progressão no um contra um e muito razoável eficácia na hora de cruzar.

 

Silas (1,5)

Pouca ou nenhuma culpa tem na qualidade do plantel que aceitou treinar, mas tal como existe um motivo para Bruce Wayne e Batman não serem vistos no mesmo sítio, também há razões ponderosas que desaconselham a titularidade em simultâneo de Ilori e Miguel Luís, aliada ao fraco desempenho de Eduardo e Luiz Phellype. Chegada a hora de recorrer aos habituais titulares já pouco ou nada havia a fazer, até porque o segundo golo do Alverca serviu de coro grego, logo secundado pelo “joguem à bola” que veio substituir o “só eu sei porque não fico em casa”. Mas pior do que o resultado, e do que a eliminação precoce que deixa o Sporting praticamente sem objectivos concretizáveis nesta temporada,   foi o discurso após o jogo, abrindo caminho às piores interpretações acerca do estado do balneário leonino.

Visto que a essa hora estarei a trabalhar...

...agradeço se alguém puder perguntar por mim qual foi o benefício até agora retirado pelo Sporting daquele protocolo com o Wolverhampton que diluiu ainda mais o que sobrava da dentada de Jorge "Incobrável não consta do meu dicionário" Mendes nas verbas recebidas em troca do fim do litígio com o ex-capitão Rui Patrício.

 

Muito agradecido, como diria o Raul Solnado.

Armas e viscondes assinalados: Serviços mínimos chegaram para resultado máximo

Sporting 2 - LASK Linz 1

Liga Europa - Fase de Grupos 2.ª Jornada

3 de Outubro de 2019

 

Renan Ribeiro (3,5)

Antes de o primeiro minuto chegar ao fim já tinha impedido o golo dos visitantes duas vezes na mesma jogada. Deixado à sua sorte pela inadaptação da defesa ao esquema táctico dos três centrais, só não conseguiu chegar ao fortíssimo remate de Raguz. Teve direito à sorte dos audazes noutros lances, mas na segunda parte foram mesmo os seus braços a impedir que os austríacos retirassem do inquestionável domínio um dividendo de um ou três pontos.

 

Neto (2,5)

Convirá referir que dos três centrais até foi aquele que menos falhou. Debalde, coube-lhe ficar no balneário ao intervalo quando Silas percebeu que teria de fazer novas todas as coisas. Ossos do ofício de quem é a terceira opção, atrás de uma dupla que nesta temporada nem sequer parece estar rotinada.

 

Coates (2,5)

Conseguiu não cometer grande penalidade aos primeiros segundos de jogo, mas nem por isso demonstrou mínima concentração na tenebrosa primeira parte. Melhorou ligeiramente depois do intervalo, sem nunca deslumbrar e muito menos deixar descansados os adeptos.

 

Mathieu (2,0)

Quando ofereceu a bola para o golo do LASK Linz já levava uma série de erros ainda sem consequências graves. Poderia perfeitamente ter sido sacrificado ao intervalo, mas estatuto e rotinas com Acuña mantiveram até ao apito final um veterano que aparenta estar cansado.

 

Miguel Luís (2,5)

Encontrou algum propósito enquanto responsável por uma ala direita que tem andado inoperante e azarada desde a célebre Supertaça. Há que lhe fazer a justiça de que não fez pior do que Rosier, mantendo uma qualidade mínima garantida ao recuar definitivamente para lateral-direito.

 

Acuña (3,0)

Invejosos dirão que poderia ter sido expulso (um deles, com coluna na imprensa, experiência de apito na boca e odiozinho incontido ao Sporting, assacou-lhe um amarelo, um vermelho e um pénalti, o que chegaria para encher o cartão de bingo), mas o argentino voltou a ser a garantia de classe que vai faltando a esta equipa. Incansável na esquerda, onde foi saco de pancada dos adversários, executou cruzamentos que fizeram os adeptos suspirar por Bas Dost. Saiu  com o resultado feito, para a entrada de Borja, cansado e dorido do amor demonstrado pelas chuteiras do adversário.

 

Idrissa Doumbia (2,0)

Pareceu perdido, quando não submerso pela vaga austríaca, durante a primeira parte. Melhoraria após a saída de Wendel, mas ainda terá de tomar muitos suplementos de vitaminas para chegar aos pés outrora considerados pesados de William Carvalho.

 

Wendel (2,0)

Recuperou a titularidade sem ter recuperado a razão de ser titular. Sem grandes argumentos para travar os visitantes e ajudar a construir ofensivas lusitanas, quando saiu deixou a leve impressão de que já ia tarde.

 

Bruno Fernandes (3,0)

Ser o melhor também significa que se consegue fazer a diferença mesmo estando naquele tipo de noite que se convencionou chamar pouco sucedida. Tantas iniciativas não deram em nada, tantas bolas ficaram por casar com o destinatário desejado, mas na hora das decisões estava no lugar certo, desmarcou-se e rematou para o golo da vitória com uma frieza que mais ninguém teria naquele plantel.

 

Bolasie (2,5)

Começa a ser evidente que o franco-anglo-congolês será sempre desconcertante, tão potencialmente útil como tendencialmente desastrado. Encaremo-lo como um mistério da fé cujas aparições deixarão de ser vistas pelos pastorinhos em maio.

 

Luiz Phellype (3,0)

Assentou os pés de milhões de sportinguistas no chão ao falhar o 3-1 que tornaria os minutos derradeiros próprios para cardíacos. Isolado, e com colegas ainda mais isolados a seu lado, permitiu a defesa ao guarda-redes. Talvez nunca seja um ponta de lança de 20 ou 30 milhões de euros (facilmente conversíveis em seis ou sete desde que o negociador seja especialmente astuto), mas ninguém lhe tira o golo de cabeça que empatou o jogo e a assistência perfeita para Bruno Fernandes resolver.

 

Vietto (2,5)

Perdeu a oportunidade de fazer figura nas redes sociais ao desaproveitar o adiantamento do guarda-redes num remate de muito longe. Entrado ao intervalo para mudar o jogo, contribuiu para a melhoria na circulação de bola e para os efémeros minutos em que o Sporting dominou a pera-doce do seu grupo.

 

Eduardo (2,5)

Retomou o lugar que voltou a ser de Wendel a meio da segunda parte e o mínimo que se poderá dizer é que trouxe sorte aos colegas. E também vontade de virar o jogo, já agora.

 

Borja (2,0)

Chamado a substituir Acuña na hora do aperto, cumpriu dentro das suas limitações para que o Sporting não perdesse três pontos conquistados em serviços mínimos.

 

Silas (2,5)

Continua a fazer experiências e a contar com a relativa boa vontade dos adeptos. Na sua maioria serão capazes de perdoar-lhe o descalabro provocado pela tentativa de jogar em

3-5-2, ainda que entregar 45 minutos de jogo não conste em nenhum manual de obtenção de sucesso. Pelo menos acertou nas alterações, e na forma como mexeram com a equipa. Mas há muito caminho a percorrer antes de entrar no túnel que terá luminosidade ao fundo.

Armas e viscondes assinalados: Para acabar de uma vez por todas com o Setembro Negro

Desportivo das Aves 0 - Sporting 1

Liga NOS - 7.ª Jornada

30 de Setembro de 2019

 

 

Renan Ribeiro (3,0)

Nem terá acreditado quando não encontrou o golo (ou golos) do costume no placard quando o árbitro mandou toda a gente para casa. Há 19 jogos consecutivos (18 deles presenciados “in loco” pelo brasileiro) que o Sporting consentia golos aos adversários. Assim não foi desta vez, o que contribuiu de forma decisiva para a conquista de três pontos que havia caído em desuso entre os verdes e brancos. Por culpa das gritantes limitações do lanterna vermelha, talvez, mas também porque Renan esteve à altura sempre que o perigo rondou a sua baliza, sendo bafejado pela sorte nas raras ocasiões em que não poderia ter feito nada para evitar o habitual.

 

Rosier (2,0)

Muito limitado no contributo para o ataque do Sporting – não só a arrumação táctica decidida por Silas não ajudava, pois raros foram os momentos em que lhe apareceu alguém para combinar no flanco, como o francês pareceu conformado com a sua incapacidade. Mais eficaz a defender, mas não o suficiente para se tornar inquestionável, tem a titularidade em risco com a recuperação de Ristovski.

 

Coates (3,0)

Voltou de cabelo aparado e cabeça limpa, acumulando cortes providenciais e impondo a sua presença. Exemplo daquilo a que Bruno Fernandes chamaria atitude caso estivesse a ser gravado por um falso amigo foi o lance em que desmontou uma jogada de perigo na sua grande área, saiu com bola, combinou com o capitão e irrompeu pela direita, galgando longos metros até fazer um cruzamento magnífico a que Bolasie não deu o melhor andamento. Entre os que entraram de início foi o melhor.

 

Mathieu (2,5)

Ficou a poucos centímetros de ser o azarado de serviço, pois um ressalto nas suas costas quase traiu Renan Ribeiro. Igualmente surreal foi o momento em que se viu impedido de chegar à bola por uma obstrução do árbitro Carlos Xistra, provocando-lhe a expressão facial de “ennui” mais francesa de que há memória. Menos influente do que é seu costume, o mínimo a dizer é que também não comprometeu.

 

Borja (2,0)

Recebeu a titularidade em detrimento de Acuña e a contastação de que isso envolve uma grande de realismo mágico tolheu-lhe os movimentos, concentrando-se em não dar bronca. Sendo certo que nada fez de particularmente errado (mesmo os cabeceamentos foram menos aleatórios do que é a sua bitola), houve alívio partilhado por todos os adeptos quando cedeu o lugar ao melhor jogador em campo.

 

Idrissa Doumbia (2,5)

O duplo pivot do meio-campo teve o seu esteio mais defensivo neste jovem de assinalável potencial. Cumpriu sem brilhantismo, ao ponto de ser destacado por Augusto Inácio, treinador da equipa adversária, como um ofertador de fruta, tantas terão sido as pancadas que distribuiu aos seus jogadores. Dir-se-ia que se tratou de um ligeiro exagero, mas é assim que se vai criando uma reputação.

 

Eduardo (3,0)

Surpresa no meio-campo do Sporting, como clara aposta do treinador que já trabalhou consigo no Belenenses SAD, o brasileiro foi o autor dos dois maiores momentos de perigo conseguidos na primeira parte apática e sonolenta da equipa leonina. Enviou a bola à trave num remate de muito longe e, poucos minutos depois, perante a ausência de colegas interessados em criar linhas de passe, reincidiu na intenção, forçando o guarda-redes adversário a ceder canto. Foi perdendo fulgor e critério, acabando por ser substituído por Wendel.

 

Bruno Fernandes (3,0)

Talvez tenha sido da táctica, talvez tenha sido da divulgação das mensagens, talvez tenha sido das alterações climáticas, mas a verdade é que o capitão do Sporting perdeu protagonismo e, em simultâneo, rapidez e eficácia de execução. Também pouco feliz nos remates, invariavelmente prensados nas pernas de defesas (que desta vez foram punidos por fazerem às suas pernas o que os pica-paus fazem às árvores), e até nos “pas de deux” com Vietto, Bruno teve o condão de nunca desistir. E de mostrar ter nervos de aço na hora de marcar a grande penalidade que pôs termo a um Setembro negro em que o Sporting disse mais vezes a palavra desaire do que Frederico Varandas repetiu o primeiro nome da sua entrevistadora na SIC.

 

Jesé Rodríguez (1,5)

A azia demonstrada aquando da inevitável substituição é a prova acabada de que o avançado espanhol vive numa realidade paralela. Neste mundo em que todos os outros são obrigados a existir sucedeu o seguinte: uma promessa adiada do futebol europeu, a quem a passagem dos anos não está a ser caridosa, com excesso de peso e escassez de velocidade de arranque, nada fez para justificar a titularidade.

 

Vietto (2,5)

É um artista, o único artista capaz de ombrear com Bruno Fernandes neste plantel. Dito isto, é um artista a quem faltou acertos nas muitas ocasiões que criou e ajudou a criar, chegando a ter cravado no rosto o terror de que a fase desastrosa da equipa não terminasse ali.

 

Bolasie (2,5)

Redimiu-se de uma sucessão de erros clamorosos, incluindo uma variedade de domínios de bola que seriam inaceitáveis no INATEL, ao ser abalroado pelo guarda-redes contrário depois de fazer um chapéu na grande área avense. A força, vontade e (relativa) velocidade poderão vir a ser muito úteis, mas os remates atabalhoados estão a ser uma enorme pecha no seu desempenho. Exemplo acabado disso é o lance em que, servido na perfeição pelo cruzamento de Coates, dominou bem de peito mas perdeu uma ocasião flagrante de golo de uma forma que nem ele saberá explicar.

 

Luiz Phellype (2,0)

Esteve meia-hora em campo sem causar perigo, o que não é o melhor cartão de visitas para o único ponta de lança de raiz que o Sporting inscreveu na Liga. Reconheça-se-lhe, ainda assim, o muito trabalho em prol da equipa.

 

Wendel (2,0)

Entrou para refrescar o meio-campo e assim fez, embora tenha visto um cartão amarelo prematuro para evitar um contra-ataque. É outro caso em que a longa paragem de Outubro (depois do compromisso da próxima quinta-feira para a Liga Europa) só poderá fazer bem.

 

Acuña (3,0)

Quinze minutos chegaram para ser o melhor jogador em campo. Entrou tarde e a más horas, por motivos que talvez nem valha a pena apurar, e assumiu uma equipa que caminhava sobre brasas. Deu vida à ala esquerda como Borja nunca tinha conseguido, contaminou os colegas com a garra que esbanja em todos os lances, forçou os adversários a travá-lo em falta (dois deles foram amarelados) e quando Bruno Fernandes fez um cruzamento muito longo e de muito longe, saltou mais do que permitia a força humana, e cabeceou na direcção de Bolasie a bola que pôs termo à maldição. Qualquer caminho para o sucesso do Sporting tem de passar por ele.

 

Silas (3,0)

Nem tudo está bem quando acaba bem. Sobretudo quando o “bem” é uma vitória tangencial sobre o último classificado da Liga, obtida mesmo no final do jogo e mantida com o adversário reduzido a dez devido a uma lesão quando Inácio tinha esgotado as substituições. Sendo Silas digno do respeito e apoio de todos os sportinguistas, não só pelo seu valor intrínseco enquanto treinador e pelo potencial de evolução (o que vai muito além do curso que o presidente da Associação Nacional de Treinadores de Futebol tanto reclama...) como pela coragem de aceitar o desafio, a verdade é que a equipa não jogou particularmente melhor do que nos jogos em que foi orientado pelo infeliz Leonel Pontes,

sendo necessário um carregamento de benefício da dúvida para entender que Acuña tenha ficado no banco. Posicionamentos, combinações e atitudes terão de ser trabalhadas ao longo das próximas semanas, definindo o caminho para uma temporada melhor do que a do infame sétimo lugar. Espera-se que assim seja, a bem do Sporting, dos adeptos que merecem tudo e do próprio novo timoneiro do varandoproclamado “clube de loucos”.

Pensamento perturbador ao centésimo "ó Teresa" repetido pelo atual presidente do Sporting na entrevista à SIC...

...apesar do inconveniente que seria a imposição da "sharia" e a insistência em queimar uma bandeira dos Estados Unidos antes de "O Mundo Sabe Que", o que seria desagradável para a nossa Carlyn Baldwin nos jogos de futebol feminino (modalidade que, bem vistas as coisas, talvez fosse suspensa indefinidamente), cada vez mais me parece que nove em cada dez talibans contemporâneos de Frederico Varandas no Afeganistão fariam melhor figura enquanto presidente do Sporting.

Armas e viscondes assinalados: O Carvalhal bate sempre duas vezes

Sporting 1 - Rio Ave 2

Taça da Liga - Fase de Grupos 1.° Jogo

26 de Setembro de 2019

 

Luís Maximiano (2,5)

Demorou tanto tempo a calçar as luvas que não terá aparecido na fotografia de conjunto antes do início do jogo. Para quem fazia a estreia no plantel principal não foi o melhor presságio, e as nuvens carregadas que cobrem Alvalade acabariam por não o poupar. O que dizer de um jogo em que fez quase tantas defesas quanto viu entrar bolas na baliza? Na retina ficou a rapidez com que saiu da grande área para desfazer um atraso negligente de Ilori e o toque providencial com que atrasou por uns segundos o 1-2. Já no lance do primeiro golo foi deixado à sua sorte por dois incompetentes. É muito possível que “Max” seja o futuro, mas o presente é a versão reduzida do mini.

 

Rosier (2,0)

Fica ligado ao lance do golo inaugural do Rio Ave, que Carlos Carvalhal levou a vencer o Sporting em casa pela segunda vez no mesmo mês, pois estava em parte incerta aquando da perda de bola de Wendel e não mais conseguiu apanhar o veloz Ronan no seu rumo à baliza, e talvez também ao segundo, na medida em que alguém deveria estar a vigiar Pedro Amaral, que cruzou da esquerda para a grande área do Sporting sem ter um jogador leonino num raio de dez metros. À parte isso, verdade seja dita que o lateral francês demonstrou estar com mais energia e vontade de combinar com os colegas nas jogadas de ataque.

 

Tiago Ilori (2,0)

Teve direito aos primeiros minutos de jogo desta época e gastou alguns preciosos segundos a contemplar a forma decidida com que Ronan se acercava da baliza. No resto do tempo dedicou-se a trapalhices variadas, como o tal atraso que o guarda-redes teve de resolver, fazendo lembrar que os órgãos dirigentes que o resgataram ao esquecimento no estrangeiro foram os mesmos que venderam Domingos Duarte, emprestaram Ivanildo Fernandes e não conseguiram desarmadilhar o empréstimo de Demiral feito pela genial gerência interina de Sousa Cintra.

 

Neto (2,5)

Merece mais meio ponto por ter aceite ir à “flash interview”, durante a qual foi perdendo gradualmente a voz até deixar a impressão de estar a ser esmagado pelas circunstâncias. Perder e sofrer dois golos num jogo que esteve quase sempre controlado é o tipo de provação que, como diria Cole Porter, lhe fez ver mais céu cinzento do que qualquer peça de teatro russa poderia garantir.

 

Borja (2,5)

Há que referir que o limitado colombiano esteve tão bem quanto consegue estar, chegando a fazer circular a bola com qualidade e a ser mais do que o habitual empecilho a Acuña na ala esquerda. Mesmo o amarelo que lhe foi mostrado teve sentido, pois travou um adversário que se preparava para entrar na grande área com a bola controlada.

 

Battaglia (2,5)

Estava a continuar a reaprender a ser útil ao clube com que rescindiu e voltou a assinar contrato quando, na sequência de continuados contactos de jogadores do Rio Ave, caiu agarrado ao joelho e foi substituído antes do intervalo. Se voltar a ficar indisponível por um longo período será apenas mais uma dor de cabeça para Silas, o novo treinador do Sporting e o terceiro consecutivo com défice capilar.

 

Wendel (2,5)

Talvez seja injusto apontar-lhe responsabilidades pelo 0-1, ainda que a sua perda de bola tenha servido de ignição a uma série de infaustos eventos. Mais estranha, no entanto, foi a jogada em que se desentendeu com Bruno Fernandes e conseguiram perder a posse de bola a meias para um adversário. Mas também se deve referir que o jovem brasileiro trabalhou mais e melhor pela equipa do que tem sido seu hábito nos tempos mais recentes.

 

Acuña (3,0)

Pudesse ser clonado em série e Marcel Keizer continuaria a torturar a língua inglesa, deixando Leonel Pontes feliz a assistir a goleada após goleada dos sub-23. O argentino foi novamente incansável, tão capaz de desarmar adversários (e de nunca desistir de uma marcação) como de fazer aberturas e cruzamentos para os colegas, falhando apenas redondamente numa recarga a um remate de Jesé Rodríguez quando estava em excelente posição para fazer o 2-1. E ainda se deu o caso, perturbador tendo em conta os antecedentes, de ser visto a acalmar colegas furibundos com o árbitro Manuel Mota.

 

Bruno Fernandes (3,0)

Precisou da ajuda de um desvio em Diogo Figueiras para marcar de livre directo, mas essa foi a recompensa possível para mais uma exibição em que remou contra a maré sem ser bafejado pela sorte em mais nenhum instante. Não só foi amarelado por ser alvo de ameaças e insultos de um adversário, que o acusou de falta de “fair play” por não devolver uma bola mandada para fora para haver assistência médica, como viu o guarda-redes e a falta de pontaria resolverem cerca de uma dezena de remates de todos os géneros e feitios. De igual modo, também as suas assistências surtiram pouco efeito prático, mantendo-se crente mesmo quando recuou no campo após as alterações tácticas com que Leonel Pontes procurou desesperadamente a vitória ou, logo a seguir, pelo menos o empate.

 

Jesé Rodríguez (3,0)

Convém não lhe pedir para correr, mas quando a bola surge no raio de acção da promessa cancelada do Real Madrid podem suceder coisas espantosas. Fez duas assistências primorosas que Vietto se encarregou de desperdiçar, atirou um cruzamento-remate ao poste e lançou outras bombas que só o azar e o guarda-redes do Rio Ave impediram de abanar o resultado. Saiu a poucos minutos do fim, na hora do desespero, deixando a indicação de que poderá vir a ser útil quando localizarem a caveira de bode que está a amaldiçoar o relvado do estádio.

 

Vietto (2,5)

Torna-se cada vez mais óbvio que é a operação contabilística com melhores dotes de futebolista que anda por aí, sucedendo-se jogadas em que mostra ser capaz de fazer coisas com a bola que nem o demónio desconfia. Só é pena que tenha sido tão incrivelmente perdulário: o cabeceamento ao lado, depois de muito bem servido por Jesé Rodríguez, foi apenas o exemplo mais flagrante dos constantes desacertos do argentino, incapaz de revelar-se super-herói quando os habitantes de Alvalade City mais necessitavam de um.

 

Eduardo (3,0)

Entrou ainda antes do intervalo, devido a nova lesão de Battaglia, e conseguiu impressionar pela qualidade no controlo e circulação da bola, empenhando-se em fazer avançar a equipa no terreno. Merece mais tempo que provavelmente lhe será concedido por Silas, que já foi seu treinador na Belenenses SAD.

 

Luiz Phellype (2,0)

Regressou de lesão com pouco ritmo e mais não fez do que ser uma presença na grande área do Rio Ave que prendeu mais os centrais e dinamizou a conquista de espaços pelos colegas. Convirá voltar quanto antes à bitola jogo feito-golo feito que foi sua no final da época passada.

 

Jovane Cabral (2,0)

Esteve quase a entrar em campo com a camisola de Gonzalo Plata, o que seria o culminar perfeito para a tragicomédia em curso no Sporting. Tendo pouco tempo, certo é que se esforçou para que a bola rondasse a baliza do Rio Ave.

 

Leonel Pontes (3,0)

Sinal de que a vida foi especialmente cruel para o interino que deverá sair com o recorde negativo de um empate e três derrotas em quatro jogos ao comando do Sporting é que o Rio Ave fez dois golos em pouco mais do que duas ocasiões de golo. E, mais precisamente, que o Sporting não jogou mesmo nada mal, sucedendo-se as combinações entre Bruno Fernandes, Vietto e Jesé Rodríguez, bem municiados sobretudo por Acuña e não raras vezes por Wendel. Mesmo os pontos fracos do onze que pôs em campo não tinham grande solução - Coates e Mathieu precisavam de descanso, por motivos diferentes, e a lesão de Ristovski, a venda de Thierry Correia e a falta de inscrição de João Oliveira obrigam à utilização intensiva de Rosier até alguém reparar que o Sporting pagou uns quantos milhões pelo passe de Rafael Camacho, aquele a quem Klopp antevia futuro como lateral-direito – e o facto de os poucos milhares de adeptos que estavam nas bancadas se terem dedicado mais a confrontos físicos e cânticos contra os órgãos dirigentes do que propriamente a apoiar os jogadores também não terá dado muito jeito. Espera-se que, tendo em conta o seu anterior local de trabalho antes do Jamor, o sucessor Silas traga consigo a estrela de Belém.

Meio a sério, meio a brincar...

...a minha sugestão para assumir o comando técnico do plantel principal do futebol leonino é Bruno Fernandes.

 

Aquele que já é considerado o “treinador no relvado”, com inteira justiça, na medida em que pensa o jogo e orienta os colegas, retomaria uma tradição de jogador-treinador que traz à lembrança António Oliveira, acumulando funções e responsabilidades em troca do enorme aumento de salário que lhe está prometido.

 

Tendo necessidade de um adjunto certificado, não só por questões regulamentares mas também pelo previsível défice de formação na metodologia de treino, é certo que poderia tirar partido do profundo conhecimento que tem das virtudes e defeitos do plantel. E, sendo um espectador atento dos jogos das camadas de formação disputados em Alcochete, depressa identificaria jovens com potencial para dar o salto.

 

Além da injecção de motivação que poderia decorrer desse estatuto, seria também provável que o ajudasse a conter as reacções às recorrentes malfeitorias dos profissionais do apito.

 

É uma opção bastante melhor do que aquelas que vêm sendo aventadas. Sem orçamento para o génio autoconvencido de José Mourinho, a serena inteligência de Leonardo Jardim ou o “aispiquedatrufe” e “aispiquefrondaharte” de Vítor Pereira, Abel e Pedro Martins parecem poucochinho e mesmo assim implicariam indemnizações às entidades empregadoras.

 

Se não for Bruno Fernandes a acumular funções (avanço com Neto para jogador-treinador-adjunto) venha Silas, pois se conseguirmos vencer o Aves na próxima jornada é possível que o Braga não caia para os lugares de despromoção e Sá Pinto mantenha o posto de trabalho.

Nunca conheci quem tivesse levado porrada

(De Álvaro de Campos, dedicado a Sebastián Coates, grande profissional, digno do meu respeito e do respeito de todos os sportinguistas)

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possiblidade do soco;
Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão princípe - todos eles princípes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,
Quem confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Quem contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó princípes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo?

Então só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza

Armas e viscondes assinalados: Não há cá artista, não há cá tomba-gigantes

Sporting 1 - Famalicão 2

Liga NOS - 6.ª Jornada

23 de Setembro de 2019

Renan Ribeiro (2,5)

Deve começar a acreditar que o futebol é um jogo de onze contra onze e no final Coates marca na própria baliza. Tendo sofrido menos um golo do que na última deslocação ao relvado de Alvalade, evitou que o Famalicão inaugurasse o marcador num canto muito bem coreografado, valendo-lhe a fraca recarga que encaixou após defender o remate de longe de Fábio Martins para a sua frente. Perante o desnorte em que se tornou a segunda parte do Sporting, pouco pôde fazer para evitar o que acabou por ser inevitável.

Rosier (2,0)

Tinha pela frente Fábio Martins, de longe a estrela do inusitado líder da Liga NOS, mas começou bastante bem, ganhando várias vezes a linha com jeito e força, e parecia embalado para uma boa exibição. Mas terá dado um “estouro” que contribuiu para o arrastamento do Sporting para as cordas depois do intervalo, parecendo desaparecido em parte incerta em algumas jogadas do Famalicão.

Coates (1,5)

Há pessoas transformadas em estátuas de sal no Antigo Testamento e vítimas de maldições de filmes de terror japoneses que parecem ter uma vida airada quando comparados com o central uruguaio. Quase incapaz de se reerguer da relva após mais um autogolo, ainda por cima aquele que definiu o resultado e mais uma derrota do Sporting, Coates voltou a marcar na própria baliza para evitar que um adversário isolado o fizesse – levando a pensar que talvez deva começar a deixar passar a bola, pois pode muito bem ser que os avançados das outras equipas tenham pior pontaria do que ele próprio –, mas foi bastante menos eficaz na grande área contrária, cabeceando diversas vezes por cima ou ao lado antes de desperdiçar o que aparentou ser a execução desastrada de um livre estudado. E pensar que este foi o jogo em que não ficou longe de fazer um golo através de um pontapé de bicicleta...

Mathieu (3,0)

O compromisso que o francês coloca em cada jogada deveria levar todos os sportinguistas a cumprimentá-lo no final dos jogos. Apesar de também ter ficado perto de cometer um autogolo logo nos primeiros minutos, impôs a sua qualidade, combinou bem com Acuña para criar jogadas e foi mandão nos cortes e alívios. Na segunda parte, além de não ter evitado o golo do empate,  tornou-se penoso assistir à forma como olhava para os colegas e demorava a descobrir um único a quem valesse a pena endossar a bola.

Acuña (3,0)

O jogo de suspensão ofertado a Bruno Fernandes no Bessa transformou automaticamente o argentino no jogador leonino que melhor trata a bola. Tirou partido desse dom para fazer excelentes jogadas com Vietto e executar cruzamentos que poderiam ter aproveitamento se Bas Dost não tivesse sido vendido em saldo, Luiz Phellype não se tivesse lesionado e Pedro Mendes tivesse sido inscrito na Liga. É de justiça referir que foi o último a baixar os braços, mas também há que sublinhar que o lance que ditou a segunda derrota caseira consecutiva do Sporting nasceu na sua área de jurisdição.

Battaglia (2,5)

Regressou à titularidade após longuíssima recuperação e foi decisivo na primeira parte para equilibrar o meio-campo leonino e deixar que colegas desempenhassem outras funções. Perdeu gás no decurso do jogo, mas quando foi retirado para a entrada de Jesé Rodríguez ficou a impressão de que estava longe de ser o mais necessitado de descanso.

Miguel Luís (2,0)

Um chapéu mal calculado que poderia ter inaugurado o marcador foi a principal marca da actuação do jovem formado em Alcochete, tal como a falta fora de tempo que lhe valeu um cartão amarelo madrugador. Daquilo que fez no losango montado por Leonel Pontes, e foi fazendo cada vez menos à medida que o relógio avançava, fica a dúvida: não faria mais sentido ter Francisco Geraldes ou até Daniel Bragança no plantel?

Wendel (2,0)

Interpretou o papel do ausente Bruno Fernandes, posicionando-se entre os avançados móveis Vietto e Balosie, o que começou por confundir os adversários, algo perplexos com a energia do jovem brasileiro. Mas tudo começou a mudar na jogada em que recuperou a posse de bola à entrada da grande área do Famalicão e, em vez de rematar de pronto ou servir um colega em melhor posição, enredou-se com a bola e perdeu a oportunidade de fazer o 2-0. Na segunda parte especializou-se em ser o recorrente coveiro das raras jogadas de ataque prometedoras da sua equipa, além de voltar a demonstrar o défice físico em que Leonel Pontes insiste em não reparar (como Marcel Keizer antes dele), mantendo-o em campo enquanto retirava quem lá fazia falta.

Idrissa Doumbia (2,5)

Sair da posição mais recuada do meio-campo fez bem ao costa-marfinense. Mais solto e interventivo, ainda que nem por isso especialmente inspirado, foi um poço de energia e de entusiasmo, chegando a aparecer na zona do ponta de lança para acorrer a um cruzamento. Só lhe falta mesmo ter dotes de cabeceador.

Bolasie (3,0)

Um dos raríssimos motivos para os sportinguistas terem esperança na obtenção de objectivos possíveis, como a reconquista da Taça da Liga e o apuramento para a próxima edição da Liga Europa, é a capacidade de progressão com bola do anglo-franco-congolês. Mesmo vigiado de perto pelo árbitro Hugo Miguel, assaz diligente a apitar ao menor sinal de desconforto dos futebolistas do Famalicão, Bolasie deu literalmente o corpo ao manifesto durante o jogo inteiro.

Vietto (3,5)

Terminou o seu longo jejum de golos com uma obra de arte que o guarda-redes adversário mais não pôde do que admirar, visto que o seu remate em arco teve tanta força quanto colocação. Antes e depois disso, o artista argentino combinou bem com os colegas e nunca teve medo de visar a baliza, servindo-se da velocidade para causar quase tantos tremores aos adversários quanto o próprio sentiu quando percebeu que Leonel Pontes o iria substituir.

Jovane Cabral (2,0)

Ainda apareceu isolado e foi derrubado por Defendi, carregando a bola para a marca de grande penalidade, mas afinal tinha partido de posição irregular. É assaz significativo que esta tenha sido a maior participação que teve no jogo a que chegou tarde e num momento em que o Sporting parecia um castelo de cartas à espera de um cruzamento que Coates desviasse para a própria baliza.

Jesé Rodríguez (2,0)

Chamado a dar o seu contributo e rumar à vitória, o espanhol deu um ar de sua graça na arrancada que o fez intrometer-se na grande área do Famalicão e rematar cruzado. Pode ser que venha a ser útil, mas tal não deverá suceder tão cedo, a avaliar pela sua forma física.

Leonel Pontes (1,0)

Momentos houve em que parecia destinado a protagonizar um “tomba-gigantes” muito agridoce, pois derrotar o líder da Liga NOS em casa não teria propriamente o mesmo sabor tratando-se do Famalicão. Perante os problemas conjunturais (castigo de Bruno Fernandes e lesão de Luiz Phellype) e estruturais do plantel leonino (demasiados para caberem aqui), o treinador interino colocou no relvado um losango bastante dinâmico, capaz de disfarçar os pontos fracos do Sporting e de fazer mossa ao adversário. Pena é que o seu funcionamento fosse demasiado dependente do desempenho de Wendel, que não tardou a eclipsar-se, arrastando consigo toda a equipa. Se ainda antes do golo do empate o Sporting já estava a jogar pouco, a partir daí instalou-se o marasmo, limitando-se a ver jogar (bastante bem, por sinal) os visitantes e a tremer enquanto a bola insistia em passar ao lado da baliza de Renan Ribeiro. Mas o desfecho do jogo e o divórcio litigioso entre as bancadas e a equipa é da inteira responsabilidade de Leonel Pontes, que enveredou pelo suicídio assistido (mas não por muitos, ao ponto de o “speaker” se esquecer de dizer quantos não sabem porque não ficaram em casa) ao retirar Vietto em vez de um dos meio-campistas para a entrada de Jovane Cabral. A derrota ao cair do pano deve-se em grande parte ao descalabro do que começou por ser um bom plano de jogo, estreitando o caminho de quem volta a ter na quinta-feira, desta vez para a Taça da Liga, uma oportunidade para ouvir o apito final com três pontos amealhados.

Armas e viscondes assinalados: Nem a táctica do losango valeu aos lusitanos

PSV Eindhoven 3 - Sporting 2

Liga Europa - 1.ª Jornada da fase de grupos

19 de Setembro de 2019

 

Renan Ribeiro (2,5)

Ainda não foi desta vez que passou dois jogos consecutivos a não sofrer mais do que aquele golito da praxe. Sem grande culpa em nenhum dos três golos, como também já vem a ser hábito, ainda fez algumas defesas competentes.

 

Rosier (2,5)

Os velozes extremos da equipa da casa deram-lhe tantos afazeres que não pôde ajudar muito o ataque, não obstante aparentar maior integração com os colegas. Conviria dar baile enquanto debutante em Alvalade, na segunda-feira, frente ao Famalicão.

 

Coates (2,0)

A primeira boa notícia é que não cometeu três grandes penalidades e a segunda é que também não foi expulso. E há que reconhecer que a infelicidade do seu autogolo só impediu que Malen, jovem portento da equipa da casa, pudesse bisar. Mas o certo é que a habitual confiança do uruguaio, e o discernimento com que inicia jogadas, partiram para parte incerta.

 

Neto (2,0)

Também ficou marcado pelo azar ao não conseguir mais do que desviar a trajetória da bola, enganando Renan, quando pretendia bloquear o remate de Malen que abriu o marcador. Não  mais se encontrou.

 

Acuña (2,5)

Não raras vezes pegado com os velozes e talentosos adversários que lhe apareciam pela frente, deixou Bruma escapulir-se pela direita e centrar para o autogolo de Coates no lance do 2-0. Em compensação, a incerteza quanto ao resultado existente ao intervalo deve-se à desmarcação perfeita que levou um adversário a rasteirar Balosie na grande área.

 

Idrissa Doumbia (2,5)

Voltou a deixar a sua área de ação assaz permeável, pouco lhe valendo a adopção do meio-campo em losango. Muito se esforçou, como tende sempre a ocorrer, mais uma vez sem resultados práticos.

 

Miguel Luís (2,0)

Teve direito aos primeiros minutos oficiais nesta temporada, não sendo exagerado dizer que poderiam ter sido melhor aproveitados. Além de ficar mal na fotografia em dois dos três golos, desperdiçou a recarga a um dos mísseis de longo alcance disparados por Bruno Fernandes.

 

Wendel (2,5)

Rendilhou o jogo que conseguiu, gerindo o esforço para não estoirar tão depressa na segunda parte. Teme-se que as suas recorrentes chamadas à selecção olímpica do Brasil o façam crer que competir é mais importante do que vencer.

 

Bruno Fernandes (3,5)

Estrela televisiva da semana, à conta da divulgação de imagens em que maltratou portas e corredores do Estádio do Bessa após ser expulso, o capitão do Sporting encheu o campo num jogo que começou mal para os leões e pareceu destinado aos zero pontos que rendeu. Ainda assim, além da visão de jogo patente na interpretação do losango, revelou serenidade na cobrança da grande penalidade que resultou no 2-1 e muita vontade de dar a volta na sucessão de remates que o guarda-redes dos holandeses teve a insensatez de defender. Merecia bisar, nem que fosse no lance em que cabeceou a bola ao poste.

 

Vietto (2,0)

Pouco conseguiu fazer enquanto “avançado móvel”. Regressado de lesão, foi rapidamente poupado para aquele compromisso até altas horas da noite de segunda-feira em que a profecia de Ristovski ecoará nos ouvidos dos sportinguistas.

 

Bolasie (2,5)

Estreou-se nas competições europeias aos 30 anos, mas o sonho de ficar ligado ao resultado ficou pelo lance em que foi derrubado na grande área. É mais um que Alvalade espera vitoriar na segunda-feira.

 

Jovane Cabral (3,0)

Entrou na segunda parte para agitar o ataque do Sporting e ajudou a cumprir o objectivo. Ainda não foi o homem dos golos providenciais dos tempos de José Peseiro, mas deixou boas indicações no primeiro jogo após longa recuperação de lesão.

 

Pedro Mendes (3,0)

O goleador dos sub-23 ocupou lugar dentro das quatro linhas, recebeu a bola de costas para a linha de grande área, rodopiou o corpo, puxou a perna para trás, e fez história. Poderia ter sido ainda mais decisivo se não tivesse entrado a tão poucos minutos do final, e se o PSV Eindhoven não tivesse conseguido encostar o Sporting ao seu lado do campo, mas ficou um pouco mais claro que existe um círculo do inferno reservado para quem não inscreveu o ponta de lança na Liga NOS.

 

Rafael Camacho (-)

Voltou a entrar mesmo antes de o pano cair.

 

Leonel Pontes (3,0)

O regresso do losango foi um coelho da cartola interessante, e regista-se  a coragem de apostar na juventude e procurar um caminho por entre tamanhas adversidades. É por isso que a derrota europeia, naquele que era em teoria o encontro mais difícil para os leões em toda a fase de grupos, deve ser encarado como um passo atrás que permitirá dar dois passos em frente.

Armas e viscondes assinalados: Os desconhecidos do Norte-Expresso

Boavista 1 - Sporting 1

Liga NOS - 6.ª Jornada

15 de Setembro de 2019

 

Renan Ribeiro (2,5)

Poderia ter estado melhor posicionado no lance do golo do Boavista, pois um passo para o lado talvez permitisse defender o livre bem cobrado por Marlon. Depois disso manchou o cadastro com algumas reposições para a terra de ninguém, mas encaixou sem problemas de maior os recorrentes pontapés de longa distância com que os boavisteiros procuraram agravar ainda mais a deriva do Sporting.

 

Rosier (2,5)

A boa notícia é que pareceu refeito da lesão que lhe fez perder a pré-temporada inteira e ameaçava fazer dele o turista acidental da Academia de Alcochete. Primeira das muitas novidades de um onze que desde o funesto Sporting-Rio Ave ficou desfalcado com a venda de Thierry Correia e Raphinha, o castigo de Coates e as lesões de Vietto e Luiz Phellype, o francês demonstrou capacidade de choque e técnica. Já no que toca a entrosamento, digamos que Rosier foi mais um dos quase desconhecidos trajados de verde e branco que compareceram no Bessa com vontade de darem o seu melhor. Não chegou para um bom resultado, apesar de no caso do lateral-direito ter havido assinalável progresso na segunda parte, sucedendo-se cruzamentos que poderiam ter sido aproveitados pelo ponta de lança que não pôde confirmar a sua presença.

 

Neto (2,5)

Raras são as ocasiões em que o Sporting pós-ataque a Alcochete tem mais do que um português em campo, mas o cartão vermelho a Coates permitiu-lhe compensar a precoce saída de Thierry Correia. A experiência acumulada em terras ainda mais gélidas do que a conjuntura leonina terá sido útil, embora pudesse ter provocado o segundo golo do Boavista numa falha de comunicação com Renan.

 

Mathieu (3,0)

Cabe a um homem que vai enganando a reforma tentar aquilo que os colegas mais novos demonstram não ter capacidade de fazer. Além de cortes providenciais, um dos quais quando um avançado axadrezado procurava ficar cara a cara com Renan, o francês avançou tanto no terreno, primeiro para suprir a incapacidade de Borja e depois para permitir ludibriar a apertada marcação homem-a-homem-chuteira-a-tornozelo urdida por Lito Vidigal, que o seu “mapa de calor” no relvado intrigará decerto num futuro distante os arqueólogos das ruínas do futebol leonino.

 

Borja (1,5)

Nos sub-23 do Sporting existe um adolescente chamado Nuno Mendes que, sem ser isento de falhas decorrentes da inexperiência, poderia fazer uma “masterclass” ao internacional colombiano, notoriamente tão inapto a atacar quanto a defender. Num dos seus habituais atabalhoamentos terá tocado a bola com a mão na grande área, mas tal acção passou tão em claro ao árbitro Jorge Sousa quanto as pancadas nos tornozelos de Bruno Fernandes. Leonel Pontes teve a sabedoria de o deixar no balneário ao intervalo.

 

Idrissa Doumbia (2,0)

A recuperação de Battaglia, após quase um ano de ausência, é um dos raros sinais de esperança para a próxima jornada da Liga NOS, na qual o Sporting recebe em Alvalade o actual líder, com o apito final previsto para as onze da noite de uma segunda-feira em que a ressaca da deslocação a Eindhoven, para visitar o PSV, é capaz de ainda fazer doer cabeças. No que toca ao empate em apreço, o argentino permaneceu no banco, podendo observar o modo como o jovem médio sentiu a bola a pesar mais do que chumbo, primando pelas más recepções e ineficácia de passe. Na retina ficou uma jogada individual, ainda na primeira parte, em que galgou terreno, evitando diversos adversários, até deixar a bola sair pela linha de fundo.

 

Wendel (2,5)

Condicionado pelo amarelo que viu logo no arranque do jogo, ao fazer a falta que um desalmado chamado Marlon aproveitou para inaugurar o marcador, o jovem brasileiro ressentiu-se nas movimentações e pouco contribuiu para abrir o cadeado boavisteiro que foi tornando infrutífera a hegemonia leonina na posse de bola. Quando foi substituído pareceu pior do que estragado, estando o estragado grafado com letra F.

 

Bruno Fernandes (3,0)

Fez das tripas coração para que não se notasse assim tanto que nunca tinha jogado com não poucos dos seus colegas. Numa das tentativas de integração de recém-chegados ficou perto de oferecer o golo do empate a Bolasie, sendo que por essa altura já perdera decerto cartilagem com o festival de cacetada a que foi sujeito, sob o beneplácito régio de Jorge Sousa. Recebeu como prémio pela perseverança o desvio na barreira que lhe permitiu fazer o golo do empate num livre directo e ainda ensaiou o remate de longa distância que poderá eventualmente salvar o Sporting de si próprio em Eindhoven. Mas não na jornada seguinte, pois depois de ser massacrado pelos adversários, Bruno viu o segundo amarelo (o primeiro fora por protestos, a pedido de um fiscal de linha a quem não ensinaram que é feio ser-se queixinhas...) e assistirá na tribuna ao Sporting-Famalicão. Aquele jogo em que urge contrariar as célebres palavras de Ristovski: “Sem o nosso capitão estamos f...”

 

Gonzalo Plata (1,5)

Má estreia a titular do jovem equatoriano, colecionador de perdas de bola e de iniciativas mal calculadas. Também melhorou na segunda parte, mas Leonel Pontes terá sentido a falta dos adolescentes Bruno Tavares e Joelson Fernandes para dinamitar a defensiva adversária.

 

Acuña (2,5)

Começa a tornar-se evidente que colocar o argentino a extremo é o tipo de decisão com prazo de validade muito curto, visto que implica esse desporto radical chamado dar a titularidade a Borja. Beneficiou bastante do recuo para lateral, ainda que tenha sido penalizado pela falta de entendimento com os recém-chegados ao plantel que lhe apareceram nas redondezas.

 

Bolasie (3,0)

Frederico Varandas estava convencido que seria Jesé Rodríguez a demonstrar dotes de ponta de lança interino, suprindo a inexistência do famoso “substituto de Bas Dost”, a lesão de Luiz Phellype e a falta de inscrição de Pedro Mendes. Mas eis que Leonel Pontes contrariou o presidente do Sporting e recorreu ao franco-congolês criado em Inglaterra para interpretar uma versão móvel e espadaúda de camisola 9. Num mundo paralelo em que as coisas correm bem ao Sporting teria atirado para fora da jurisdição de Bracalli o remate que desferiu após uma desmarcação acelerada ao passe de Bruno Fernandes, recepção no peito e rotação de corpo para se focar na baliza. Não foi a única ocasião em que deu ares de poder vir a ser o “Marega a prazo” leonino, ainda que seja provável que se revele mais útil enquanto extremo.

 

Jesé Rodríguez (1,5)

Entrou ao intervalo, posicionou-se na esquerda e confirmou que não está em boa forma. Se é possível redimir o futebol que tem dentro de si é coisa que este ou o próximo treinador virão a descobrir.

 

Eduardo Henrique (1,0)

Entrou para o lugar de Wendel, supondo-se que para acelerar o meio-campo leonino rumo aos três pontos e não para deixar claro a Miguel Luís que nenhum treinador depois de Tiago Fernandes confia no seu valor. Certo é que cumpriu mais o segundo do que o primeiro objectivo.

 

Rafael Camacho (-)

Estreou-se na equipa principal de modo inglório, acumulando um punhado de minutos quando os colegas já haviam cruzado os braços.

 

Leonel Pontes (2,5)

Trouxe um ponto do Bessa ao mesmo tempo que alargou para cinco o número de pontos que separam o Sporting da liderança ao fim de seis jornadas. Sendo justo reconhecer que enfrentou uma tempestade perfeita, potenciada pelas lesões de Luiz Phellype e Vietto, valendo-se da imaginação para formar o onze titular, não menos verdade é que a equipa jogou pouco, não obstante o domínio na posse de bola. Como principal vantagem em relação ao antecessor destaca-se o facto de deixar patente que estava chateado com a desvantagem e com a incapacidade de alcançar a reviravolta. Quinta-feira, na estreia na Liga Europa, frente ao PSV Eindhoven, e na segunda-feira, na recepção ao Famalicão, joga-se o seu destino.

O enigma Pedro Mendes

Tantos são os enigmas na gestão do futebol profissional leonino que pouco se tem falado na ausência de inscrição na Liga de Pedro Mendes, promissor avançado dos sub-23 e única alternativa viável nos quadros do Sporting para a posição de Luiz Phellype.

 

Embora sucumba à tentação de catalogar esta decisão como apenas mais um caso de incompetência suicidária, a dúvida metódica instala-se: haverá algo na relação contratual de Pedro Mendes com a SAD do Sporting que esteja a cercear o potencial de sucesso (não tão improvável quanto isso) do jovem avançado?

 

Se alguém quiser esclarecer ficarei muito agradecido. Eu e mais uns quantos sportinguistas, estou em crer.

 

Novidades da Gazeta de Pyongyang

Vou num quarto de século dedicado a uma profissão que tem na primeira página a montra capaz (ou não) de atrair a atenção daqueles que asseguram o meu salário e o salário dos meus camaradas quando dão uma ou mais moedas para levarem o jornal das bancas - ou, mais recentemente, para o receberem por via electrónica. Nem todas as primeiras páginas para as quais contribuí saíram como eu desejava. Por vezes não consegui convencer quem tinha a incumbência e noutras fui mesmo eu a cometer o que na manhã seguinte eram evidentes erros de palmatória.

 

Dito isto, a exclusão de Jorge Fonseca, primeiro português campeão mundial de judô, da primeira página do “Jornal do Sporting” é especial aberrante. Não só pelo valor de notícia (que, garantem-me, não foi ignorada no interior), não só por o feito do judoca leonino não ter sido valorizado por nenhum dos cronistas residentes (mais uma vez é o que me dizem), mas também por a exclusão ter indícios de ser a consequência das declarações de Jorge Fonseca e do seu treinador, Pedro Soares, nomeadamente quanto ao estatuto de atleta do Sporting da jovem ucraniana Daria Bilodid, que também venceu o título mundial, e aos elogios públicos de Jorge Fonseca a Bruno de Carvalho.

 

Se assim tiver sucedido temo muito más consequências para a permanência destes valores do judo de leão ao peito, em linha do que já aconteceu com a valorização da liberdade de expressão que culminou no fim do programa de Rui Calafate e Samuel Almeida na Sporting TV. Quanto ao “Jornal do Sporting”, que vou comprando de forma intermitente desde a adolescência, resolvi suspender a sua retirada das bancas após os textos sobre a Supertaça terem saído amputados da ficha de jogo, numa decisão que me encheu de vergonha alheia. Mas há muito tempo que lhe reconhecia escassa mais-valia em relação ao que vai saindo nas redes sociais, também mais fracas na actual gerência... Espero que melhore o jornal e melhore a mentalidade no Sporting. Alvalade não pode parecer assim tão perto da Coreia do Norte.

Meia-dúzia de coisas boas num dia exasperante

 1. - Bruno Fernandes ficou em Alvalade. Para o Sporting almejar um objectivo mais elevado do que a terceira Taça da Liga consecutiva e uma nova viagem feliz ao Jamor (leia-se: apuramento para a próxima Champions e campanha duradoura e gloriosa na presente Liga Europa), o capitão terá estar ao melhor nível, sendo capaz de tapar os buracos que a gestão desportiva deixou no plantel.

2. - Haverá certamente que descontar os habituais “custos de intermediação”, mas receber 21 milhões de euros do Rennes pelo passe de Raphinha, um extremo tão capaz de jogos brilhantes quanto de passar 90 minutos à margem do jogo, não pode deixar de ser considerado um bom negócio.

3. – Também é de louvar o envio para a Turquia do velocista Diaby, mesmo que  a cláusula de compra de cinco milhões de euros após o final do mempréstimo represente uma enorme perda de dinheiro em relação ao investimento feito no maliano pela comissão de gestão.

-4. – Apesar dos pesares, receber sete milhões de euros do Olympiakos por Daniel Podence, um dos rescisores após o ataque à Academia de Alcochete, não é um mau cenário. Sobretudo quando o clube grego também aceitou ficar com Bruno Gaspar, ainda que só até ao fim da época.

5. – A venda do passe de Thierry Correia por 12 milhões de euros mostra que a formação pode ser rentável. Mas ainda assim deixa um amargo de boca ao ver-se sair quem não teve hipóteses para deixar marca no futebol sénior verde e branca além das lágrimas que verteu na Supertaça.

6. – O Sporting tem pela frente duas semanas de pausa para selecções que chegariam para que uma nova equipa técnica se enquadrasse com a equipa e os seus reforços de última hora: aqueles três cavalheiros que nunca marcaram mais de dez golos numa temporada.

 

Todo coberto com um véu negro

Gosto muito do final da versão antiga de “Els Segadors”, hino nacional da Catalunha, em que o bispo de Barcelona pergunta aos revoltosos contra o jugo espanhol quem é o seu capitão e qual é a sua bandeira.

Eis que os revoltosos lhe trazem uma imagem de Jesus Cristo, todo coberto com um véu negro. “Aqui está o nosso capitão, esta é a nossa bandeira. Às armas, catalães, que o rei nos declara guerra”, informam.

Tenho a dizer que se metade do que aparece nesta manhã de segunda-feira nos sites desportivos for verdade, se Thierry Correia for para o Valência num empréstimo com opção obrigatória de compra, se a escolha de avançado para disputar a titularidade com Luiz Phellype for de terceira ou quarta água, se o nosso capitão for embora, deixando a braçadeira para sabe Deus quem, acredito que os sportinguistas devem pegar nas legítimas armas que têm, as suas vozes e os seus votos em assembleia geral, e enfrentar quem, por inaptidão ou algo mais, tanto faz por apoucar o clube que nos une tanto. E que nos deveria unir ainda mais.

Armas e viscondes assinalados: Em equipa que não se mexe, e na qual não mexem, não se mantém a liderança (só não dizer que não falei dos três penáltis de Coates)

Sporting 2 - Rio Ave 3

Liga NOS 4.ª Jornada

31 de Agosto de 2019

 

Renan Ribeiro (2,5)

Num jogo em que o adversário pouco ou nada lhe deu para fazer que não passasse pela marca dos 11 metros – com a excepção da boa defesa que abriu a segunda parte –, o guarda-redes brasileiro pouco mais tem a ser apontado para lá de uma enorme quantidade de bolas despejadas para zonas do campo sem rapaziada vestida de verde e branco. Mas a alguém que já valeu taças ao Sporting em desempates por grandes penalidades exigir-se-ia (meio a sério meio a brincar) que defendesse pelo menos um dos três que foram assinalados.

 

Thierry Correia (2,0)

O cruzamento que permitiu o segundo golo leonino foi o melhor cartão de apresentação num final de tarde sombrio em Alvalade. Tendo ganho bastantes duelos, o lateral-direito pecou acima tudo pela atitude não interveniente com que contemplou a desmarcação que levou Coates a cometer o primeiro dos três pénaltis. Seria preciso mais para assegurar que Rosier poderá prosseguir a sua recuperação em suaves prestações semanais antes de assumir a titularidade justificada pelos milhões de uma contratação que talvez tenha custado mais do que rendeu a transferência de Bas Dost.

 

Coates (0,0)

Os dois autogolos que Roberto Deus Severo marcou a favor do Benfica há 20 anos, quando ainda Beto, foram superados enquanto pior pesadelo de um central leonino, pois os três pénaltis assinalados ao uruguaio – dois dos quais cometidos sem ser preciso recorrer a ângulos mágicos para confirmar a enérgica convicção do árbitro João Pinheiro – selaram a derrota, a perda da liderança (agora entregue “a solo” ao recém-promovido Famalicão) e o reacendimento da crise latente em Alvalade. Claramente em má forma, com dificuldades em chegar à bola antes dos adversários, um dos melhores defesas centrais que até hoje representaram o clube fez uma exibição para esquecer, “coroada” com o segundo amarelo que o deixa de fora do próximo jogo. Mas convém não esquecer, além do valor intrínseco de Coates, as responsabilidades que os colegas, bem como o senhor holandês que é pago para os orientar, tiveram nos lances desgraçados que fizeram a história do jogo.

 

Mathieu (2,0)

Pouco ajudou o seu infeliz colega de eixo defensivo, tendo muita culpa no lance da terceira grande penalidade, pois já não teve pernas para recuar após uma tentativa mal sucedida de lançar um contra-ataque. Teme-se que o problema se agrave quando o Sporting começar a jogar duas vezes por semana.

 

Acuña (2,5)

O cruzamento rasteiro que resultou no golo de Bruno Fernandes, com quem o argentino tinha combinado no início da jogada, destacou-se numa actuação em que Acuña deu demasiado espaço aos adversários e fez alguns centros indignos de quem tem os seus pés. Tudo compensou com ímpeto, borrando a pintura quando já estava a jogar como extremo, após a saída de Vietto e entrada de Borja para lateral-esquerdo: tendo a baliza do Rio Ave à mercê, cabeceou ao poste aquilo que poderia ter sido o 3-2. Depois foi o que se sabe.

 

Idrissa Doumbia (2,0)

A bola saiu-lhe sempre oval nos pés, tamanha foi a dificuldade para lidar com a posse do esférico, e o posicionamento também não foi brilhante, o que ajudou a que o Rio Ave fosse tomando conta das ocorrências.

 

Wendel (2,0)

Tremendamente fatigado e posicionalmente difuso, o jovem brasileiro viu-se dominado pelos adversários, o que se tornou mais gritante na segunda parte, sem que disso se compadecesse Marcel Keizer, que o manteve em campo. Ainda introduziu a bola na baliza do Rio Ave na primeira parte, mas encontrava-se fora de jogo quando recebeu a bola desviada num defesa após remate de Vietto.

 

Bruno Fernandes (3,0)

Melhor do Sporting em campo, mais uma vez, merecia melhor cenário para a homenagem pelos 50 golos marcados ao serviço do Sporting do que adeptos descontentes a abandonarem as bancadas, um coro de assobios à equipa e as claques a ensaiarem o apelo à queda de Frederico Varandas. Fez tudo por manter o Sporting na liderança, fuzilando as redes no lance do 1-1, a que deu início, esteve perto de garantir a reviravolta com um toque em esforço que Kiesczek defendeu, e combinou com os colegas com a classe de sempre. Mas também ele não foi alheio à tremenda quebra física na segunda parte, sucedendo-se longos minutos de adormecimento até ao que, também mais uma vez, poderá ou não ter sido o último jogo ao serviço do clube.

 

Raphinha (2,0)

A exibição de gala em Portimão não teve continuidade, pois tendeu a complicar o que poderia ser mais fácil e também não teve engenho e arte para levar a bom porto as suas iniciativas no ataque. De igual modo, pôde ser empurrado na grande área adversária, após um passe de ruptura de Bruno Fernandes, sem que João Pinheiro e o videoárbitro resolvessem dar conta da ocorrência. Mesmo assim esteve quase a contar com uma assistência para golo, mas Acuña desperdiçou o cruzamento que se destinava a Luiz Phellype.

 

Vietto (2,5)

Os dribles não lhe saíram tão bem quanto na última jornada, mas foi a eficácia de remate o busílis: além de um remate cruzado, bem encaixado por Kiesczek, faltou-lhe pontaria para fuzilar as redes num lance parecido com o do golo de Bruno Fernandes (ainda que, reconheça-se, meia-dúzia de metros mais longe da linha de golo). Contribuiu para o 2-1 com uma abordagem desastrada ao cruzamento de Thierry e depois viu-se sacrificado, sem que daí adviesse especial vantagem à equipa.

 

Luiz Phellype (3,0)

Teve uma oportunidade flagrante de golo e aproveitou-a, colocando o Sporting a vencer com um tiro à queima-roupa. Nada mau para quem tem as suas funções em campo, ainda que se tenha deixado antecipar noutro cruzamento promissor, dessa feita vindo da esquerda. Nada havendo de estruturalmente errado no jovem brasileiro, não menos verdade será que causa arrepios a ideia de que seja a única opção do Sporting para a posição 9 a dois dias do fecho do mercado.

 

Borja (1,5)

Entrou para refrescar a defesa e ficou ligado à reviravolta que deu os três pontos ao Rio Ave. No lance da terceira grande penalidade é ele quem coloca o avançado adversário em jogo, “obrigando” Coates a arriscar um corte que já seria difícil caso estivesse nos seus dias.

 

Gonzalo Plata (-)

Teve direito a estrear-se na Liga NOS (algo que o mais dispendioso Rafael Camacho ainda não teve...) quando o jogo se encaminhava para um fim cada vez mais triste. Só teve tempo para fazer duas ou três faltas e controlar mal a bola na última jogada de relativo perigo urdida pelos leões.

 

Marcel Keizer (1,0)

Perdeu a liderança do campeonato com estrondo, em contraste com o silêncio dos sepulcros com que assistiu à hecatombe física e anímica da sua equipa na segunda parte.  A hesitação do holandês no que toca a mexidas (mais uma vez nem sequer esgotou as substituições), mesmo vendo que quase todos os jogadores não podiam com uma gata pelo rabo, é uma demonstração clássica daquilo que separa o actual treinador do Sporting de alguém que possa ser campeão nacional. À falta de melhores soluções, incluindo a convocação de Pedro Mendes, o ponta de lança dos sub-23, até aquele seu antigo talismã chamado Diaby poderia ter dado algum jeito em campo. Keizer vollta a ter o lugar em perigo, por culpa própria.

Armas e viscondes assinalados: BF, PH e TT foram os três tenores

Portimonense 1 - Sporting 3

Liga NOS - 3.ª Jornada

25 de Agosto de 2019

 

Renan Ribeiro (3,0)

Ficou a centímetros de defender o pénalti que impediu hora e meio de sossego aos adeptos leoninos. À parte isso, encaixou bem um remate rasteiro em zona frontal e observou como os frequentes remates da equipa da casa atingiam as bancadas.

 

Thierry Correia (3,0)

Muito seguro a defender, apesar de ter o perigoso Boa Morte na vizinhança, também se integrou bem no ataque, tirando fruto das oportunidades para avançar no terreno, mesmo que uma dessas arrancadas tenha sido aproveitada pelo videoárbitro para sonegar um pénalti a favor do Sporting. E na única ocasião em que se viu em apuros contou com a ajuda de um cavalheiro uruguaio de elevada estatura.

 

Coates (3,5)

Resolveu com um corte perfeito no timing e na intensidade a jogada mais perigosa do ataque algarvio na segunda parte. Impediu o que poderia ter sido o empate como se fosse mais um domingo no escritório e só não merece nota mais elevada por algum desafinamento na dupla com Mathieu e pela falta de pontaria quando subiu à grande área adversária.

 

Mathieu (2,5)

Ficou marcado pela falta escusada que resultou no pénalti a favor do Portimonense, revelando-se aquém da sua enorme classe em muitos lances. Mesmo assim não se coibiu de fazer circular a bola.

 

Acuña (3,0)

Livre da companhia de Diaby, trocado no onze titular por um argentino que sabe jogar futebol, Acuña venceu a maioria dos duelos com o venenoso Tabata e recorreu ao seu bom critério para construir jogadas de ataque.

 

Idrissa Doumbia (2,5)

Algumas perdas de bola difíceis de explicar comprometeram mais uma exibição plena de esforço. Estando Battaglia a preparar o regresso aos relvados, aconselha-se-lhe que trabalhe ainda mais para aperfeiçoar o seu futebol.

 

Wendel (2,5)

Jogou mais recuado e não se deu bem com a posição, parecendo por vezes desaparecido no relvado. Mas também é verdade que o final de tarde pertenceu aos três tenores, deixando os outros colegas de equipa na sombra. E que o jovem brasileiro saiu esgotado, cedendo o lugar a Eduardo.

 

Bruno Fernandes (4,0)

Contabilizar o passe para Raphinha fazer o 0-1 como assistência tem o seu quê de exagerado, até porque o brasileiro estava colado à linha lateral, a dezenas de metros da baliza, quando recebeu a bola. Mas foi a movimentação do capitão, capaz de arrastar adversários, que permitiu ao extremo brasileiro ficar no um contra um que resultou no golo inaugural. Magnífico a desmarcar-se ao ser solicitado por Vietto, ofereceu a Luiz Phellype o 0-2 e tirou da cartola o cruzamento para Raphinha selar o 1-3. Faltou-lhe apenas o golo, pois o chapéu com que correspondeu a uma nova abertura de Vietto saiu curto e pouco ensaiou o remate de longa distância. Talvez seja a consequência da compatibilização com o argentino, que coloca dois artistas no meio-campo ofensivo leonino, mas se o capitão ficar em Alvalade após o fecho do mercado haverá muito tempo para afinar o modelo.

 

Raphinha (4,0)

Foi o melhor em campo devido à eficácia letal com que encarou as ocasiões de golo, ultrapassando o calcanhar de Aquiles das suas anteriores exibições. Perfeito na movimentação e remate cruzado do 0-1, oportuno e espectacular na abordagem da bola no 1-3, dominou primorosamente o passe longo de Vietto e ficou à beira de obter um hat-trick. Ficará para a próxima, partindo do princípio que permanece em Alvalade, rumo a sabe-se lá o quê.

 

Vietto (4,0)

Revelou-se o rei do drible, como se tivesse despertado de um encantamento de conto de fadas, mas foi mais pragmático ao juntar precisão de passe longo e visão de jogo. Deixou Bruno Fernandes duas vezes cara a cara com o guarda-redes algarvio, daí resultando o golo de Luiz Phellype e um chapéu afastado das redes por um defesa, mas ainda mais extraordinário foi o passe “coast to coast” que deixou Raphinha em condições de subir a parada para 1-4. Terceiro “tenor” dos verdes e brancos, ainda que afirme encontrar-se em adaptação ao lugar no campo, promete mais alegrias aos adeptos.

 

Luiz Phellype (3,0)

Esteve no sítio certo à hora certa, empurrando a bola ofertada por Bruno Fernandes para a baliza deserta, num daqueles “shitty goals” do ex-colega, e serviu-se da velocidade para ser derrubado no lance que começou por ser livre directo, passou a pénalti e mais tarde foi anulado. Tendo peso no resultado, não menos verdade é que demonstrou fragilidades que aconselham o Sporting a contratar alguém, mesmo que em saldos, para disputar o lugar que era de Bas Dost.

 

Eduardo (2,5)

Entrou para Wendel descansar e, ultrapassado o choque inicial, deu ares de sua graça nas incursões pelo meio-campo adversário.

 

Borja (2,0)

Jogou alguns minutos para terminar os diálogos de Acuña com a equipa de arbitragem. Nada fez de incorrecto, o que nem sempre ocorre consigo.

 

Marcel Keizer (3,0)

Recebeu o prémio por compatibilizar Bruno Fernandes e Vietto, vendo-se em vantagem desde muito cedo. As compensações entre os dois criativos, Raphinha, Acuña e Thierry funcionaram bem, sobrando a palhinha mais curta para Wendel, e pode muito bem ser que tenha ocorrido o dealbar de uma nova era em Portimão. Não deixa, no entanto, de ser preocupante o mau estado físico de uma equipa que ainda só joga uma vez por semana, o que contribuiu para que o Portimonense ganhasse ascendente na segunda parte, bem como a relutância do holandês em confiar naquelas pessoas que leva para o banco e mete a aquecer. Voltou a nem esgotar as substituições, deixando Rafael Camacho e Gonzalo Plata à espera da estreia na Liga NOS.

Armas e viscondes assinalados: Goleiro valeu por dois numa equipa que entrou a jogar com dez

Sporting 2 - Sp. Braga 1

Liga NOS - 2.ª Jornada

18 de Agosto de 2019

 

Renan Ribeiro (4,0)

Mesmo sem evitar que Wilson Eduardo voltasse a marcar ao clube que o formou, emprestou sucessivamente e pouco ou nada aproveitou antes da cedência final, o goleiro brasileiro fez o tipo de jogo em que é da mais elementar justiça atribuir-lhe os três pontos correspondentes à primeira vitória do Sporting de Marcel Keizer no espaço de três meses. Uma sucessão de grandes defesas na primeira parte foi concluída com a obra de arte que resolveu (mais uma) falha colectiva que deixou Hassan isolado frente à baliza. Capaz de concorrer com o portista Marchesín pelo título de guarda-redes mais impressionante a jogar em Portugal, Renan esteve menos certeiro nas reposições de bola, dirigindo-a repetidas vezes para zonas do terreno desprovidas de futebolistas de leão ao peito. Mas ainda assim foi mais certeiro do que um certo e determinado colega de plantel.

 

Thierry Correia (2,5)

Esforçou-se visivelmente por não cometer nenhum daqueles erros que resultam em golos do adversário. Cumpriu tal desiderato com brio, ainda que tenha beneficiado de incompetências alheias num ou noutro cruzamento. Com a bola rente ao relvado teve maiores hipóteses de impor a sua presença. Já no ataque pouco ou nada fez, até porque a sua convivência na ala com Raphinha é mais um daqueles detalhes que não devem andar a ser muito trabalhados nos treinos.

 

Coates (3,0)

Ficou bem perto de voltar a marcar, primeiro de cabeça e depois num remate cruzado desferido dentro da grande área. Falhou esse intento, tal como mais tarde faria no corte que permitiu o golo do Braga – mais clamorosa foi a má abordagem que deixou Hassan isolado na primeira parte, mas nesse momento Renan resolveu –, o que retira brilho a uma noite em que serviu de força de contenção a avançados bastante mais inspirados do que aqueles que costuma encontrar nos treinos.

 

Mathieu (3,0)

Anda um homem já próximo da “retraite” a correr pelo relvado para que um maliano estrague tudo? Assim terá decerto pensado o francês na segunda parte, vendo o seu esforço para sossegar os adeptos com um terceiro golo esfumar-se devido às más companhias a que o sujeitam no onze titular. No resto do tempo esteve à altura dos muitos apuros que os visitantes trouxeram a Alvalade até que observou impotente e resignado o ressalto que entregou a bola à chuteira pródiga de Wilson Eduardo.

 

Acuña (3,0)

Prova cabal do seu cada vez melhor feitio foi a ausência de gritos e cotoveladas no fulano que insistia em partilhar a ala esquerda consigo. Limitado pela inutilidade de Diaby, o argentino fez o que pôde, recorrendo à habitual garra e classe para resolver problemas na defesa e lançar a confusão no ataque. Imagine-se o que poderá fazer se Keizer lhe der a benesse de  lhe dar um parceiro que não suscite participações à ASAE e à APAV sempre que toca numa bola...

 

Idrissa Doumbia (3,0)

Muitas vezes atabalhoado no controlo de bola, mesmo sendo um bailarino do Bolshoi quando comparado com Diaby, regressou ao onze titular após cumprir o jogo de suspensão decorrente do duplo amarelo na Supertaça. Incansável e cheio de vontade de ajudar, deu o seu precioso contributo para o regresso do Sporting às vitórias. Ainda tem muito para aprimorar, mas nada indica que tenha atingido o topo da sua curva de aprendizagem.

 

Wendel (3,5)

Inaugurou o marcador numa excelente combinação com Luiz Phellype, esticando o pé esquerdo para rematar de biqueira. Dificilmente poderia arrancar melhor numa exibição de pleno compromisso com a equipa, excelentes movimentações no meio-campo e muita solidariedade para com os colegas da linha defensiva. Uma das chaves para que o Sporting possa ter resultados acima das suas possibilidades é a manutenção do jovem brasileiro naquele selecto grupo de jogadores capazes de garantir que a equipa pula e avança.

 

Bruno Fernandes (3,5)

Tirou um golo da cartola ao surripiar a bola a um adversário, partindo os rins ao adversário seguinte para poder fuzilar as redes e fazer o 2-0. Outras marcas poderia ter deixado, sobretudo na segunda parte, mas falhas de Luiz Phellype, Raphinha e Diaby inviabilizaram o aproveitamento das aberturas que lhe saem dos pés predestinados. Caso se mantenha em Alvalade em Setembro haverá razões objectivas para não temer o regresso dos leões aos tempos gloriosos do sétimo lugar conquistado a ferros.

 

Raphinha (2,0)

Persiste em não cumprir o potencial inegável que poderia catapultar a sua equipa para mais altos voos. Após o festival de desperdício de oportunidades frente ao Marítimo primou pela inoperância, deixando como principal marca no relvado um cruzamento mal medido que Luiz Phellype conseguiu aproveitar para uma assistência que valeu o 1-0 a Wendel. Também voltou a demonstrar uma bizarra incapacidade de combinar com Thierry Correia na direita, seja a atacar ou a defender. Talvez seja de recorrer à mediação das Nações Unidas.

 

Diaby (0,5)

Tivesse o avançado maliano falta de auto-estima e sabe-se lá o que teria feito após sair do relvado sob um coro de assobios e vaias dos trinta e tal milhares de sportinguistas que observaram uma das exibições mais nulas de que há memória no estádio. Mais de 75 minutos chegaram para que Diaby se cobrisse de vergonha à medida que falhava passes fáceis, estrangulava contra-ataques prometedores e dirigia os poucos cruzamentos que fazia para o lado errado da linha lateral. Pouco tempo demorou até os espectadores temerem os sentimentos para lá de negativos que a actuação do ilustre velocista contratado por Sousa Cintra lhes suscitava. Daí que as cinco décimas de ponto acima atribuídas recompensem a experiência psicossocial perversa, já que o desempenho futebolístico foi absolutamente nulo, como as estatísticas denunciam (tirando o caso do amarelo que lhe foi mostrado por simulação, visto que é possível que tenha sido mesmo derrubado na grande área do Braga), afastando a hipótese de Marcel Keizer ser o único imune a uma alucinação colectiva daquelas que até envolvem azinheiras. Manter Diaby no plantel principal do Sporting é um insulto àqueles que estão a ver o seu desenvolvimento cortado pela insistência do treinador holandês e um ultraje para os talentos que já envergaram a camisola verde e branca.

 

Luiz Phellype (3,0)

Menos dotado do que Bas Dost para o jogo aéreo, demonstrou igualmente escassez de “killer instinct” quando solicitado pelos colegas. Terá sido uma ocasião perdida, nos antípodas da série de jogos consecutivos a marcar no final da época passada, não fosse a engenhosa assistência para o golo de Wendel. Caso o holandês esteja mesmo de partida para Frankfurt precisará de mostrar bastante mais para justificar a titularidade. A não ser, claro está, que o orçamento não contemple alternativas para a posição 9.

 

Neto (2,0)

Entrou em campo para o regresso dos três centrais numa altura em que a equipa visitante aproveitava o “estouro” físico dos sportinguistas para tentar virar o resultado. Não conseguiu evitar o golo de honra do Braga, mas também ele contribuiu para os três pontos amealhados. E foi profusamente aplaudido aquando da entrada, até porque implicou a saída de Diaby, deixando a equipa a jogar com onze quando o cronómetro se aproximava do apito final.

 

Eduardo (2,0)

Entrou para segurar o resultado e dar merecido repouso a Wendel, destacando-se na muralha de aço erigida frente à baliza de Renan.

 

Vietto (1,0)

Apanhou a equipa completamente partida e nada conseguiu fazer para justificar o abatimento de tantos milhões na oficialização da perda de Gelson Martins para o Atlético de Madrid.

 

Marcel Keizer (2,0)

Conquistar três pontos frente a um adversário directo (pena que seja na luta pelo segundo ou terceiro lugar) deveria justificar nota positiva, mas todos aqueles que viram mais uma exibição desgarrada e à beira do precipício não puderam deixar de perguntar até que ponto o Sporting venceu apesar de Keizer. Um treinador capaz de entregar a titularidade a uma nulidade como Diaby, mantendo-o em campo contra todas as leis do mérito e da lógica, não anda longe de fazer gestão danosa. Pior ainda, como se fosse possível, foi a conferência de imprensa, repleta de elogios ao maliano e insinuações pouco veladas de total divórcio em relação aos dirigentes e aos gestores do futebol profissional do clube. Caso os seus jogadores vençam em Portimão, o Famalicão tropece e o FC Porto trave o Benfica na Luz ainda se arrisca a ser o primeiro treinador despedido quando se encontrava à frente da classificação desde “Sir” Bobby Robson.

Dutchexit

Um dos melhores pontas de lança da história do Sporting vai embora. Não por estar em má forma física e ainda pior forma digamos que espiritual, mas sim porque o seu vencimento se tornou incomportável para a realidade de um clube que aparenta ter entrado em espiral descendente.

Bas Dost deverá ir para Frankfurt, seguindo as pisadas de Balakov, também por culpa do compatriota que nada fez por encontrar um sistema de jogo que potenciasse um avançado com ética protestante do trabalho e nenhum remorso em marcar “shitty goals” por entre obras de arte como aquela com que presenteo o guarda-redes do Valencia no melhor momento do Troféu Cinco Violinos.

Talvez tudo corra melhor do que a encomenda nesta noite de domingo, mas não me espanta que a saída do grande avançado holandês, única verdadeira vítima do ataque a Alcochete (tirando, claro está, o óbito, talvez passível de ressurreição, do Sporting com ambição de vencer), seja acompanhada pela de Marcel Keizer.

Seria um verdadeiro Dutchexit em Alvalade. Mas esta temporada afigura-se, para nosso mal, pródiga em despedidas...

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