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És a nossa Fé!

Memórias de Peyroteo (11)

(cont.)

 

«MUITO OBRIGADO, “MISTER” SEZABO!

 

Para iniciar a minha carreira desportiva no Sporting Clube de Portugal, fui entregue, como já se sabe, aos cuidados do grande treinador que é José Sezabo.

Tal como acontece a todos os futebolistas no momento do primeiro contacto com o Mestre, ouvi a sua prelecção habitual:

- “O senhor, para mim, quando entra em campo a fim de jogar futebol, não é o Peyroteo mas sim o número 9. Claro está que seria despropositado chamar: ó n.º 9! Não estamos na tropa, a chamar os magalas pelo seu número, mas, quando estamos a trabalhar, não interessam os nomes mas apenas os jogadores, o que eles fazem, como treinam e como jogam. Aqui não há amizades! Que me importa que o senhor se chame Peyroteo, se não jogar nada? O nome não conta, o que conta é o jogo, o seu interesse e respeito pela camisola que veste, a amizade com os camaradas da equipa, respeito pelo público e pelo adversário. O nome de cada um não tem valor quando não há bom jogo. Será melhor não ter nome e jogar bom futebol…”

Mestre José Sezabo repetia estas suas considerações sempre que algum dos seus pupilos - geralmente o Manuel Marques, mais conhecido pelo “Manecas” - dizia prever dificuldades porque o adversário à sua guarda se chamava fulano ou beltrano.

O Mestre, servindo-se do seu mau português mas dos seus profundos conhecimentos do futebol, dizia:

- “Sinhor Monecas, não brincar. Nem quê jogue Sinhor Presidente! Sinhor Monecas tem quê ir! Não dizer um coisa dê isso. Nome dê gajo não interessar; jogar bem, sinhor Monecas, jogar bem e ver como méter advérsário na algibeira dê colete. Espérteza, sinhor Monecas, sempre espérteza!”

Ora os treinos começavam às 8 da manhã mas, às 7,45, já toda a rapaziada devia estar equipada, em condições de entrar no rectângulo e a essa hora, Mestre Sezabo, de fato de treino e de boina na cabeça, devidamente equipado enfim, chegava à nossa cabine, pegava no apito que trazia pendurado ao pescoço, suspenso por um cordel bastante sujo, aliás, dava três estridentes apitadelas e exclamava:

- “Bom dia, sinhores. Vamos trabaiar. Qui está está ; qui non está non está e dar-se dez-per-cente para ele…”

Este “dar-se dez-per-cente”, era o mesmo que dizer que quem não estivesse à hora exacta no campo seria castigado com o equivalente a 10% do seu vencimento mensal, ou melhor, aquele “dar” equivalia a “tirar”…

Necessário se tomava entendê-lo, não fosse haver má interpretação, porque se aquele “dar” equivalesse mesmo a “dar”, estou crente que a rapaziada ficaria toda na cabine I As vezes, em dias de muita chuva ou frio, não era nada mau, mesmo que o “dar” fosse “tirar”, mas o pior é que sem fôlego não podiamos jogar futebol…

Vem a propósito contar que nessas manhãs em que, precisamente à hora de entrarmos no campo para treinar, chovia a potes, a rapaziada, conhecendo muito bem o seu treinador, e para o ouvir, dizia:

- “Isto não pode ser, “Mister” Sezabo! Como se pode jogar à bola assim com tanta chuva? Não vê que o terreno está cheio de lama e vamos escorregar muito?”

Resposta pronta:

- “ Cárágo, sinhores! Bom ideia! Ficar tudos a cabine, com um condição: fazer domingo árbitro não entrar a campo se estar dê chuva. Ser ideia bêstial, sinhores! Mas se árbitro entrar a campo e sinhores não estar habituados chão molhado e jogar mal, dar para sinhores um mês de ordenado de castigo! Estar bem? Estar bem, amigos?”

Em face de tais perspectivas, com chuva e vento, com frio ou calor, lá íamos treinar, acompanhados – sempre! - de Mestre Sezabo. Sim, porque ele apanhava a mesma chuva, sofria o mesmo frio, suportava o mesmo calor e afirmava orgulhoso:

- “Véliote (o mesmo que velhote) não cortar prego!”

Não raramente, comentando o que o Mestre dizia referindo-se ao nosso.pedido brincalhão, eu dizia:

- “El-Rei manda marchar, não manda chover!…” e, certa manhã, em vez de dizer aquelas coisas todas acerca do estado do terreno e da disposição do árbitro, Mestre Sezabo voltou-se para mim e, muito sério, pediu:

- “Fernando; dizer para eles aquele coisa bonito que você saber. Dizer, sr. Férnando, se fazia favor!”

Claro que não repeti a frase porque podia apanhar com uma toalha encharcada!

Era assim. Nós gostávamos de ouvir falar Mestre Sezabo e por isso inventávamos uma série de maroteiras para o fazer falar.

Por exemplo, disse-lhe um dia:

- “Talvez fosse bom, “Mister” Sezabo, eu não treinar hoje porque sinto uma dor aqui no pé direito e posso aleijar-me mais; depois, no domingo, se isso acontecer, não posso jogar…

O Mestre, fitando-me complacente, respondeu:

- “Não fazer mal, sr. Férnando. Experimentar porque ser melhor magoar-se a “treining” que no jogo! No “treining” substi- tuir-se você mas no jogo, lei não permitir; ser um sarílio!”

A rir, disse-lhe por fim:

- “Não tenho nada “Mister”! Era só a reinar.,

Quase zangado, em tom severo mas respeitador, exclamou:

- “Férnando não brincar, não falar muito porque ficar sem fôlego e fazer falta para “treining”…

Invariavelmente, “Mister” Sezabo terminava desta forma as suas “recomendações” de fim de semana:

- “Silêncio, sinhores, ouvirem com atenção: sexta-feira banho quente e massagem; sábado dê tarde, na sede, têoria-táctica dê jogo sobre tabuleiro, com bonecas e, mais importante, sinhores, ficharem torneira dê nêmoros dê mininas. Atenção, fazer muito mal e precisar canetas para jogo.

O brincalhão do Manecas não perdia a ocasião para dizer das suas:

- “Mas, “Mister” Sezabo, não deve esquecer que um- homem é um homem, e os casados têm certos deveres a cumprir” - e logo se travava um diálogo neste género:

- “Sinhor Monecas não dizer um coisa dê isso; sempre sinhor Monecas, cárágo! Fazer este: chigar a casa quinta-feira para jantar e dizer sua mulier quê sopa estar um sucata, arranjar-se uma discussão, fazer zaragata, ir-se deitar zangado com ela, voltar-se lado contrária e só fazer-se pazes segundo-feira. Ouvir-se sr. Monecas, ouvir-se?

- Ouvi, “Mister”, mas isso é uma vergonha!…

- Sinhor Monecas, cárágo, dar-se uma cabeçada para si! Malandro dê gajo! Depois não quixar-se; adversário marcar ponto e sinhor ver ordenado fim dê mês. Sinhor Franco fazer-se a barba a sinhor Monecas!…”

O leitor pode ficar com a certeza de que, de vez em quando, sou forçado a interromper o que estou escrevendo porque río com gosto, não do que escrevi mas porque me vêm à memória os verdadeiros termos, as frazes que eles empregavam e os apartes dos outros companheiros da equipa, Imaginem o que seria o Soeiro e o Paciência, a um canto da cabine, agarradinhos, imitando um parzinho amoroso! Muito ternos - um muito escuro e o outro muito feio! O Paciência a “atacar” e o Soeiro a “defender-se” dos impulsos amorosos de matulão, até que um de nós chamou a atenção de “Mister” Sezabo, para ver os amorosos…

O treinador agarrou numa toalha, abriu a torneira da água do duche, molhou-a bem e… não chegou a atirar porque se escangalhou a rir e ficou sem forças!… Apenas disse com muita graça:

- “Cárágo, Paciência! Você ser um garoto bêstial!…

 

Chegava o domingo, jogava-se, invariavelmente ganhávamos e no fim do encontro, o Manecas perguntava a Mestre Sezabo:

- “Então, “Mister”, que tal joguei?”

- “Tá bem ; sr. Monecas bestial”.

- Pois fique sabendo que não fiz nada daquilo que o senhor me disse na quinta-feira! Foi tudo ao contrário e joguei bem! Está a ver?

- “Cuidado! Sinhor Monecas não brincar…”

- “Não estou a brincar, é a sério, “Mister”!”

- “Muito bem, sr. Monecas. Sinhor Tesoureiro falar para sinhor final dê mês”.

Ao fim e ao cabo, o Manecas não era multado porque todos sabíamos - e Mestre Sezabo também - que ele era um grande “pintor”, pois até o apelidamos de Malhoa…

 

Nos primeiros tempos de jogador de futebol, vivi em Sintra e o comboio que me trazia para Lisboa, partia daquela encantadora Vila, às 6,03 da manhã para chegar à Estação do Rossio às 6,45 aproximadamente. Nos Restauradores tomava o carro eléctrico e chegava ao velho Estádio Alvalade por volta das 7,20 e, portanto, com tempo suficiente para me equipar e treinar às 7,45.

Tudo era feito pontualmente sob as ordens de Mestre Sezabo. Cinco minutos de atraso equivaliam a 10% de multa sobre um ordenado de 700$00 mensais.

Um dia, porque o meu velho despertador, cansado de muitos anos de trabalho, não tocou às 5,15, fez-me perder o comboio das 6,03 da manhã e cheguei a Alvalade com meia hora de atraso, mesmo utilizando um táxi desde os Restauradores à porta da cabine.

Quando entrei no rectângulo já Mestre Sezabo dirigia o treino. Cumprimentei-o, apresentei desculpas e pedi licença para treinar e, por se tratar do habitual treino de conjunto, dirigi-me para o meu posto, onde outro avançado-centro se encontrava.

Mestre Sezabo exclamou:

- “ Cárágo Férnando, não fazer um coisa dê isso! Primeiro dar-se quatro voltas a corer e quatro em marcha. Indispensável “footing”; Férnando aquecer músculos!…”

Assim fiz e enquanto decorria o treino de conjunto, andava eu a dar as voltas ao rectângulo, fazendo, afinal, o mesmo que todos já haviam feito logo que entraram no campo.

Era mais fácil Mestre Sezabo dispensar um jogador do treino de conjunto do que do treino de preparação atlética.

Acabadas as voltas, entrei para o lugar de avançado-centro e, no final do treino, fiquei - como sempre - no campo, apenas com Mestre Sezabo, para fazer o treino individual de técnica de futebol. Mestre Sezabo dizia que este género de treino servia para eu aprender a fazer “fèstinhas” na bola…

Cerca das 10,30 tomámos o banho e encontrámo-nos para virmos para a Baixa.

É preciso acentuar que a equipa do Sporting treinava apenas às terças e quintas-feiras, ao passo que eu fazia dois treinos extra: às quartas e sextas-feiras, para me “especializar” no pontapé ao golo…

Logo que nos encontrámos à saída das cabines, renovei os meus pedidos de desculpas por ter chegado atrasado, etc., etc.

Mestre Sezabo interrompeu-me:

- “Férnando ter que ser multado dez-per-cente no ordenado. Férnando ter quê dar exemplo. Tudos égales, Férnando…”

- “Bem sei “Mister”, que somos todos iguais mas a verdade é que eu treino quatro vezes por semana e eles só duas vezes. Hoje chego meia hora mais tarde e o “Mister” multa-me…”

- “O. K. Férnando! Você treinar quatro vezes por sêmana mas não treinar para mim; treinar para si! Mas para a sêmana quê vem, Férnando treinar só dois vezes como outros…”

- Não é isso, “Mister”; não me importo de treinar três ou quatro vezes por semana e virei quantas vezes o senhor entender mas, parece-me que merecia ser desculpado hoje…

- “Não poder ser, Férnando. Se disculpar, outros dizerem para mim quê você ser mênino bonito. Tudos égales, Férnando! “

Nada havia a fazer e ninguém me livrava da multa de 70$00. Não é que, verdadeiramente, aquela importância me fizesse grande falta. O facto, em si, de ser multado por falta de cumprimento dos meus deveres é que me desgostava mas, na verdade, Mestre Sezabo tinha a razão pelo seu lado.

Quando, no fim do Campo Grande, me despedi de Mestre Sezabo, pois ia almoçar com minha irmã, residente, ao tempo, na Avenida 5 de Outubro, o meu treinador não me deixou sair do “eléctrico”:

- “Não; Férnando fazer favor dê vir até à Baixa…

- “Mas, Sr. Sezabo,.

- “Vir, Férnando; precisar muito falar consigo…”

Seguimos conversando acerca de futebol, dos jogos-passados e dos futuros, das tácticas, da técnica e eu sem atinar com o motivo porque me convidara a ir à Baixa mas, na Praça dos Restauradores, Mestre Sezabo mudou de assunto;

- “Férnando: eu não dar dez-per-cente, mas vamos comprar déspértador novinho em folha para tocar sempre. Custar cinquenta escudos; poupar vinte escudos, Férnando e não multar você. Foi a minha vez de dizer O. K. “Mister” Sezabo! O. K. e muito obrigado”.

E lá fomos comprar o despertador salvador da multa - dessa e de muitas outras que sofreria se não fosse ele!

Mestre Sezabo escolheu um despertador capaz de acordar um morto e, no domingo seguinte, na cabine, antes do jogo, disse à rapaziada:

- “Cárágo, sinhores! Férnando não chigar mais atrasado a “treining”. Fumos comprar déspértador, exprimentar tocar lá na loja e fazer um barulheira quê Azevedo vai ouvir no Bareiro…

E assim cortou qualquer hipótese de apadrinhamento…

 

Durante o tempo que joguei futebol e até mesmo já depois de abandonar o desporto, alguns amigos me têm dito que Mestre Sezabo é um bom treinador mas trata mal os seus pupilos, insulta e ofende os rapazes, castiga-os injustamente e, por ser assim, abre conflitos com os dirigentes dos clubes onde trabalha.

Nada há mais injusto e mais falso! Já escrevi e repito que José Sezabo - húngaro de nascimento e português por naturalização - não conhece a gramática da Pátria que adoptou. Veio para Portugal ensinar futebol e não para aprender português. Inegavelmente, atingiu o objectivo: ensinou muito e muitos - pequenos e grandes!

Nos primeiros contactos com a “rapaziada da bola” ensinaram-lhe, maldosamente, algumas frases a que davam sentido e significado diferentes. Decorou-as e repetiu-as quando lhe parecia oportuno, até que outros melhor intencionados procuraram corrigi-lo.

É certo que, por vezes, nos dirigia uma palavra um tanto ou quanto violenta e menos própria, mas todos nós sabíamos que Mestre Sezabo não nos queria ofender ou insultar deliberadamente. Pois se ele, ao referir-se ao seu filho José - que nesse tempo fazia parte dos futebolistas do Sporting - criticando-o, em presença de todos, por uma má tarde na defesa das balizas do seu grupo, disse tanta barbaridade que nos sentimos no dever moral de o chamar à razão, fazendo-lhe sentir que dizer tais “coisas” de seu filho era ofender-se a si próprio, ao que José Sezabo respondeu:

- “Sinhores, fazer favor respeitarem seu treinador. Eu falar com Zé, não chamar família que estar sossegada a casa, no trabaio. Não ter nada quê ver um coisa com outra. Não dizer um coisa dê isso… Família de tudos ser sagrada. Por favor, sinhores, não brincar!…”

A princípio, chocáva-nos a maneira de falar de Mestre Sezabo, principalmente eu, que mal o conhecia, pois quando vim para o Sporting já ele era treinador do Clube.

O melhor processo de não tomar como ofensiva a sua fraseologia era não dar às suas palavras o verdadeiro significado. Assim, se ele dizia “cárágo”, devíamos entender caramba; não dar “poráda”, seria não dar pancada…

É certo que tivemos alguns mãl-entendidos e até discussões acaloradas, mas nunca por ele me ter dirigido, conscientemente, frases ofensivas.

Não procuro defender o meu grande amigo e bom Mestre José Sezabo; sou apenas justo para com o homem cujo saber está na base do pouco ou muito que fiz como futebolista, quer na equipa do Sporting, quer na Selecção Portuguesa de Futebol.

É na linguagem geralmente empregada por ele que tentarei reproduzir proveitosos conselhos que me deu:

- “Férnando: você ter qualidades bestiais para fazer-se melhor avançado dê Mundo! Ter quê não esquecer muitos coisas. Ver, Férnando: preparação física ser fundamental; “footing”, Férnando, marchas, marchar muito ser indispensável. Primeiro arranjar canetas e dê seguida ser fácil jogar “foot-ball”, Você pensar e saber muito bem mandar Bernardo às compras (o mesmo que atirar ao golo) mas se você não ter força nas canetas não interessar saber- dê isso. Primeiro preparação física, depois “foot-ball”. Disciplina no “treining” ser indispensável, Férnando. Cuidar dê saúde. Não fumar ou fumar pouco. Não ir muitos vezes a cinema porque toda gente fumar e ar dê fumo fazer muito mal desportista. Rio Tejo ser muito bonita; ir ver gaivotas, Férnando! Você ser novo, ter tempo olhar para garotas! Fazer-se primeiro grande jogador e dêpois ser mais fácil. Deitar cedo vésperas dê “treining” e dia de “treining” deitar cedo para descansar…”

Terei motivos para receber como ofensa o facto de ser “bestial” e ter “canetas” em vez de pernas? Vaíha-nos Santo António!…

Continuemos a apreciar Mestre Sezabo, através dos seus conselhos e do seu mau português falado.

No final dos treinos e, mesmo, no intervalo e fim dos encontros oficiais, não raramente alguns jogadores corriam para a torneira da água do lavatório a fim de fazerem um gargarejo e sempre que isto sucedia, ouvíamos logo “Mister” Sezabo a gritar:

- “Sinhores, não beberem água fria porque garganta estar quente; água fria fazer inginhas (o mesmo que anginas). Sinhor Zé trazer chá quente para sinhores jogadores”.

Note-se que este chá era composto de sumo de limão, água morna e açúcar, do que resultava uma bebida agradável.

Oiçamos o Mestre:

- “Durante desafio não ligar importância ao que adversário dizer para si, Férnando. Gajos quererem desmoralizar para você. Tapar ouvidos Férnando, porque eles não terem categoria para ofender para você. Não dar “poráda” para advérsário porque distrair com pancadaria e perder ocasião de fazer golo. Não risponder a agressão; aguentar, Férnando! Gajos quererem você sair dê jogo, complicar vida dê companheiros e dê Sporting. Mandar gajos dar passeio fundo dê mar…”

De outra vez…

Todos os jogadores se encontravam reunidos em volta da mesa sobre a qual estava o oleado verde com as linhas do rectângulo de jogo marcadas a branco e os 22 bonecos, 11 de cada cor, representando os jogadores. Para começar, o Manecas - sempre o maroto do Manecas, a quem “Mister” Sezabo, quando estava irritado, chamava sinhor Mônécas - fazia desaparecer um ou dois bonecos. Claro está que “Mister” Sezabo, ao dar pela falta, protestava com energia:

- “Sinhores, não brincarem; darem bônecas para começar trabaio…

Depois de muita insistência do nosso treinador, o Manecas entregava-os e logo “Mister” Sezabo dizia abanando a cabeça:

- “Cárágo, sinhores! Mônécas ser maniáco…”

Nós riamos, a lição começava mas se o jogo de domingo seguinte era com o Benfica ou qualquer dos clubes chamados grandes, portanto, com elevada massa associativa, havia logo (para ouvir o “Mister”, é claro) quem disparasse uma frase neste género:

- “Tudo o que o “Mister’”’ está a dizer está bem mas há uma coisa com que o senhor não contou: com os adeptos deles a gritarem. Fazem um barulho tremendo e isso influi no resultado…

Mestre Sezabo, que encarava tudo muito a sério, levantava-se e ainda mais corado do que é, exclamava:

- “Cárágo, sinhor! Dar uma cabêçada para si. Não brincar, não rir porque não têr graça nenhum! Ouvir bem sinhores tudos?!…”

Nestas graças intervinha, quase sempre o Manecas que, pegando na deixa, acrescentava:

- “Eles fazem tanto barulho “Mister” que a gente não vê a bola, só ouve gritar: Benfica! Benfica! Benfica!…”

- “Sinhor Mônécas-interrompia o nosso treinador - não. perturbar rapaziada com esses coisas. Fixar, sinhores, fixar: maior dur dê… cabeça” para gajos é mêter boia na baliza. Passar bòla bons condições e Férnando fazer calar tudos; gajos não piar mais! Ir ver, sinhores,

- “Tá bem, “Mister”, mas eu fico com a minha ideia…”

- “Mônécas ser mêluco, sinhores. Não ligar a ele. Domingo, estar em cabine um hora antes dê jogo. Falar-se mais; não fazer mal lembrar-se têoria-táctica dê hoje. Deitar cedo, sinhores e bom disposição….”

Todos amigos, conscientes das responsabilidades que nos esperavam, lá íamos a caminho de nossas casas ou do trabalho, recordando e fixando tudo quanto de verdade nos havia dito Mestre Sezabo - e era tudo verdade e acertado! - acerca do jogo seguinte.

Recordo e fixo, especialmente com vista aos novos jogadores, mais alguns judiciosos conselhos de Mestre Sezabo e para não perderem o sabor, escrevo como ele pronuncia:

- “ Assim que Férnando entrar campo dê adversário, pensar imediatamente preparar posição dê receber bola e “mandar Bernardo às compras”. Dentro dê grande área, Férnando, nem quê sinhor Prêsidente, dê joelios, pedir passe dê bola, você não dar, Férnando!. Atirar bola para baliza; só último caso dar bola companheiro bem colocado a têreno. Dentro dê grande área, se Férnando não ter companheiro nenhum e ter só sua frente dois ou três advérsários, não driblar; chutar para frente direcção dê baliza com maior força possível, Primeiro vez advérsário meter cabeça e ficar mal tratado porque arrancar cabelo dê gajo; segundo vez, Férnando, advérsário baixar cabêça, guarda-redes não esperar força dê remate e bola entrar, a baliza. Experimentar sinhor Férnando! Se advérsário dizer coisas feias para si, querer perturbar você. Não comer a isca, Férnando. Entrar duro para advérsário, não magoar ninguém mas dizer para eles: eu “estar aqui”; marcar prêsença, fazer sentir peso dê corpo. Lei permitir, sinhor Férnando! “Foot-baU” não ser jogo para meninas. Se companheiro dê equipa dar conselio para si, com bons maneiras, aceitar Férnando. Dentro dê campo não discutir. Se pensar não ser bom conselio, intervalo ou final dê jogo conversar com Sezabo. Boa harmonia indispensável para jogar-se bom “foot-ball”.

Estes conselhos, embora dados num português muito dele, foram-me extraordinariamente úteis pela vida fora enquanto joguei futebol.

Mestre Sezabo não limitava a sua acção de treinador e de orientador dos jogadores de futebol a seu cargo apenas às horas que com eles vivia em treinos e jogos; levava o seu interesse ao ponto de fiscalizar - umas vezes discretamente e outras abertas e directamente - a vida particular dos componentes da equipa. Acreditava em todos nós, ao mesmo tempo que de todos duvidava. Era o que se pode dizer, confiava desconfiando!

Em vésperas de jogos importantes, não foram raras as vezes que se apresentou em casa de alguns jogadores a certificar-se se as suas recomendações de “deitar cedo” eram cumpridas e felizmente, exceptuando um ou outro caso isolado, nunca houve motivo para desgostos e isto não só pela nítida compreensão da maioria dos componentes da equipa do Sporting mas, também e, talvez, principalmente por nenhum deles querer dar a “Mister” Sezabo o desgosto de não o encontrar em casa nessas noites.

Brincávamos com o nosso treinador mas respeitávamo-lo como ele nos respeitava. Os seus conselhos e ensinamentos eram escutados e tomados na devida consideração por todos nós. A disciplina que impunha à equipa, a par da incontestável competência do nosso Mestre, esteve na base dos seus êxitos.

 

Falei do meu grande Mestre e amigo José Sezabo.

Quero afirmar mais uma vez que, se não tudo, pelo menos uma grande parte do que fui como jogador de futebol, a Mestre José Sezabo o devo. Os seus conselhos preciosos e sábios fizeram de mim um avançado-centro de certa classe, com nome em Portugal e no estrangeiro.

Aqui lhe presto a minha modesta mas sincera homenagem.

Mestre José Sezabo não é um treinador vulgar. É um verdadeiro e competentíssimo Mestre do “foot-ball association”, a quem o futebol português já muito deve.

Termino como comecei:

Muito obrigado Mestre José Sezabo.»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 94 - 104

Memórias de Peyroteo (10)

(cont.)

 

«“ENGRENAGEM” DO FUTEBOL…

- Às voltas com um contrato -

 

Entre os meus colegas de trabalho no Grémio das Carnes, em Lisboa, havia adeptos de todos os clubes e até um deles era dirigente do Clube União de Futebol.

Certo dia, um agremiado e particular amigo - Humberto Matias, “tifoso” do Belenenses - chamou-me de parte e disparou esta:

- Tu assinaste um contrato com o Sporting, não é verdade?

- Assinei. Porque o perguntas?

- Não tenhas pressa; ouve o que te digo e responde-me com calma. Se te disser que o contrato não- tem qualquer validade?

- Homem! não brinques; isso não pode ser. O contrato, depois de assinado por mim e, salvo erro, por duas testemunhas, foi enviado à Federação…

- Tu não sabes nada. És um “bom”… Dize-me: já recebeste a cópia que o Sporting te devia ter entregue, depois de sancionada pela Federação de Futebol?

- É verdade que não!

- Pois bem; aconselho-te a telefonar para a Federação a. saber o que se passa… Mas antes de mais nada, dize-me: se, na verdade, tiver havido tramoia, o que pensas fazer? Se quiseres “trintinhas” e mil e duzentos escudos por mês, mesmo que seja necessário estares uma época sem jogar, é só dizeres que a coisa arranja-se. O Belenenses também é um grande clube, fica sabendo.

- Ouve, Humberto. Se, na realidade, tudo for como afirmas, eu vou para o Belenenses.

Por uma questão de confiança, assinei o contrato quase sem o ter lido mas se fui enganado, podes ter a certeza de que o caso vai ser muito falado.

Imediatamente peguei no telefone e liguei para a Federação, donde me atendeu o amigo Mário Santos. Disse-lhe do motivo que me levou a telefonar-lhe e obtive uma informação pouco elucidativa e muito menos convincente:

- Parece-me que o seu contrato foi devolvido ao Sporting para rectificar qualquer coisa que eu não sei bem o que é. Quem trata de quase tudo isso é o senhor Capitão Maia Loureiro, nosso Director. Se, porém, o contrato está cá na Federação, deve estar fechado no cofre e o nosso Director é quem tem a chave.

- Mas o senhor pode fazer o obséquio de se informar melhor e depois…

- Está bem. Telefone amanhã porque só logo à noite estarei com o senhor Capitão Maia Loureiro.

- Muito bem e obrigado. Voltarei a telefonar amanhã.

Depois da conversa com aquele funcionário da Federação, fiquei com a impressão, ou, mesmo, com a certeza de que havia muito de verdadeiro nas afirmações do amigo Humberto Matias, ao mesmo tempo que pressentia que o Mário Santos sabia o que se estava passando, mas nada queria adiantar sem, primeiro, falar com o seu Director.

Entretanto, como estava ali próximo um dirigente de clube - o meu colega e amigo Cesário Pereira Salvador - pessoa conhecedora destes problemas - contei-lhe o sucedido e pedi-lhe um conselho. O Cesário disse-me:

- “Pelo que você acaba de contar, tenho a certeza absoluta de que aí há coisa. No seu lugar, eu não esperava para amanhã; hoje mesmo, à noite, ia à Federação saber o que há ao certo. Ora, se o Mário lhe disse que só à noite estaria com o senhor Capitão, você vai lá e encontra-o. Mas para não dar nas vistas, talvez seja melhor telefonar. Depois fale comigo, aqui no Grémio”.

Peguei no telefone às 21 horas…

- O senhor Capitão ainda não chegou.

As 21,30 ainda não estava e às 22, o Mário Santos informa:

- “Já falei com ò senhor Capitão e posso agora dizer-lhe que o seu contrato com o Sporting deu aqui entrada mas, há já quase dois meses, foi devolvido para rectificação. O período de validade do documento foi indicado por três anos, quando as normas aprovadas pela Federação e propostas pelo seu clube faziam referência a épocas de futebol. Melhor dizendo: o contrato será por três épocas e não por três anos; em vez de 1939/40/41 deve ser 1939/40, 1940/41 e 1941/42, salvo erro de Setembro a Junho ou Julho do ano seguinte. E já agora, deixe-me perguntar-lhe se o Sporting ainda o não chamou para fazer a rectificação?”

- Não senhor, e, portanto, não tenho nenhum contrato com o Sporting?

- Oficialmente, não!

- Obrigado, Mário Santos, pela preciosa informação que me prestou”.

Desligámos. No dia seguinte fui mais cedo para o Grémio e contei ao Cesário Salvador o que se passava.

Tão irritado como eu estava, disse:

- “Não está certo fazerem-lhe uma coisa dessas. Todos os clubes podiam errar o texto de um contrato, menos o Sporting. Habilidades, meu amigo, habilidades!

- Não acredito Cesário, que tivesse havido intenção de me prejudicarem…

- “Pois não! Quisesse o Sporting, neste momento, - por lesão grave ou outro motivo qualquer - deixar de lhe pagar e você estava comido! Para quem recorreria para fazer valer os seus direitos?

- Talvez tenha razão…

- Passe-me você uma procuração e deixe a meu cargo a regularização do assunto. Continuará no Sporting mas com um bom par de contos na algibeira. Como garantia do que lhe afirmo, fique você com o meu automóvel. Faça a procuração e deixe o resto comigo. Você não merece semelhante partida…

Não aceitei a proposta e, entretanto, apareceu o Humberto a quem contei a história. Demais sabia ele quando me falou a primeira vez.

Igualmente, rejeitei a proposta para ingressar no Belenenses.

Para mim, deixar o Sporting, representava morrer para o futebol. Mas impus a mim próprio tomar uma atitude.

Não garanto ter sido eu a procurar o senhor Francisco Franco - pessoa que me entregara, para assinar, o célebre contrato - ouse foi ele a mandar-me chamar para se fazer a rectificação. Se não me falha a memória, foi o senhor Franco que solicitou a minha comparência na sua livraria, ali à Rua Barros Queiroz. Duma maneira ou doutra, o certo é que manifestei o meu desagrado e, até, desgosto pelo acontecido.

- “Acredita que não houve a menor intenção de te prejudicar ou enganar”.

- No entanto, senhor Franco, há já quase dois meses que a Federação devolveu o contrato e só agora se faz a rectificação! Quase todos os dias, depois do almoço, aqui venho conversar consigo e o senhor nada me disse!

- Tens razão; é verdade, mas acredita que foi por esquecimento. Eu seria incapaz de te enganar, pois sabes que sou teu amigo.

Concordo. Só lhe devo atenções e finezas mas gostava de saber quando fazemos a rectificação!?

- Amanhã, depois do almoço, quando aqui vieres.

E assim foi. Voltei a não ler o novo contrato; assinei-o. Como testemunhas figurou, salvo erro, o amigo Jacinto Leal - ainda hoje funcionário do Sporting - e outro que não recordo.

Quando tudo estava pronto, o senhor Franco ofereceu-me cem escudos para eu comprar… chocolates, de que muito gostava e gosto. Claro está que não aceitei a oferta!

Pode, de tudo isto, concluir-se que troquei trinta ou quarenta mil escudos e mil e duzentos por mês, por… cem escudos que não quis receber!

Para mim valeram sempre mais os actos do que o dinheiro.

Hoje, porém, as coisas estão profundamente modificadas. As atitudes bonitas só podem ser tomadas com… dinheiro adiantado!

Se muito tens, muito vales - diz o Povo - e a voz do Povo é a voz de Deus!

Repare-se: “anos” em vez de “épocas”.

Como uma troca aparentemente insignificante, poderia ter feito com que eu, em vez de, durante quase três épocas, ter envergado uma camisola às riscas verdes e brancas, vestisse uma azul com a Cruz de Cristo, continuando, embora, a ser sportinguista, mas a dar o melhor esforço à equipa de Belém!

Preferi continuar no Sporting porque sempre fui e sou sportinguista e, também, porque não acreditei ter havido maldade. Foi um erro involuntário.

Se esta história não tiver outro mérito, que sirva de aviso e lembrança, para se não cometerem outros enganos semelhantes.

Ao contá-la, não me moveu outro propósito que não seja o de referir mais um episódio “curioso” da minha vida de futebolista. Nada mais do que isso.»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 90 - 94

Saudade

Usando palavras, do nosso leitor Jorge Santos, que faço minhas / nossas:

 

«(… ) Permitam-me uma última nota (mais em jeito de lamento e de saudade): mesmo sem nunca ter assistido a uma grande conquista europeia, tenho IMENSAS saudades das "grandes noites europeias" que vivi no antigo Estádio José Alvalade, onde o Sporting (pelo menos em casa) se batia com qualquer equipa e raramente perdia. Sei muito bem que os tempos eram outros e totalmente diferentes, as equipas só podiam jogar primeiro com 2, depois com 3 estrangeiros e a diferença para os "monstros europeus" não era tão grande como actualmente [é] (…)»

Análise geo-política

«(..) espero que a crise no Sporting termine o mais rápido possível, pois, em termos de tempo de antena, Bruno de Carvalho está claramente a bater Putin e Trump. Talvez, no futuro, os livros de história universal venham a rezar: "A crise na Síria, que ocorreu no tempo em que BC era Presidente do Sporting, em 2018, terminou com uma cimeira russo-americana

 

José Milhazes

O meu / nosso Sporting (cont.)…

Recentemente, Carlos Carvalhal referiu-se a José Mourinho como o melhor treinador de sempre do futebol português, não só pelos títulos que ganhou mas, principalmente, por aquilo que representa para a mudança de paradigma da imagem do português na sua generalidade.

Diz Carvalhal: «As novas gerações estão mais bem preparadas, já temos no estrangeiro arquitetos, engenheiros informáticos… Mas mudar a imagem do português continua a ser difícil e o Mourinho foi um dos que fez acelerar todo o processo, contribuindo para modernizar a imagem de Portugal».

Concordo!

 

Curiosamente, Carlos Carvalhal e José Mourinho, dois técnicos, de formas distintas, do universo leonino: o primeiro treinou a nossa equipa, o outro… não o quisemos - literalmente. Somos, realmente, um clube muito esquisito!

Passando à frente.

 

Se Mourinho é o melhor técnico de futebol de sempre do futebol português, na minha opinião não o é do desporto português (peço desculpa pela repetição). Esse lugar pertence a

Mário Moniz Pereira.

 

E do futebol sportinguista, qual o treinador que guardam melhores recordações?

 

Para mim, o primeiro treinador que aparece no meu imaginário é Malcolm Allison.

O meu / nosso Sporting...

Nunca duvidei do amor que Bruno de Carvalho sente pelo clube. Reconheci os seus méritos, assim como escrevi que não entendia a razão de Bruno Carvalho sentir necessidade de fazer oposição a ele próprio.

Todo este crescendo, que ultimamente – enquanto sportinguistas – vivemos, deixa-me profundamente triste e magoado. Não quero reviver os tristes tempos de final mandato das persidências de Jorge Gonçalves e Godinho Lopes.

Não sou sportinguista por causa de nenhum presidente que o clube teve, sou, em primeira razão, por via do maior sportinguista que conheci – o meu pai. Na minha infância, as figuras do clube que tinha como referências eram duas, por esta ordem:

- Manuel Fernandes;

- Carlos Lopes.

Nenhum presidente pode “eucaliptar” (peço desculpa pela palavra) o clube.

 

E vocês, lanço o convite, quais foram as figuras do Sporting, que, em crianças, tinham como referência?

(por certo não foi nenhum presidente)

Memórias de Peyroteo (9)

(cont.)

 

«O PRIMEIRO JOGO

Foi em 12 de Outubro de 1937, no Campo das Salésias, onde joguei, pela primeira vez oficialmente, ocupando o lugar de condutor do ataque da equipa do Sporting Clube de Portugal. Para começar bem, era o “Benfica-Sporting” do Torneio Triangular.

Se no meu primeiro treino de conjunto as pernas tremiam como varas verdes, não se calcula o estado de nervos com que pisei o relvado das Salésias.

Antes do jogo, na cabine, vendo a minha atrapalhação, colegas e directores brincavam comigo…

Os companheiros da equipa, habituados já aos grandes encontros entre os velhos e gloriosos rivais, encaravam o desse dia como um treino; os directores - em especial o Sr. Tomás Pereira - receitavam chá de tília, para acalmar os nervos. Brincavam todos, é o termo!

Resta-me a consolação de que, mais tarde, eram os directores a necessitar de chá de tília…

A verdade é que estava tão perturbado que foi necessário “Mister” Sezabo ligar-me os pés - trabalho que eu fiz sempre antes dos treinos.

Todos falavam, as piadas vinham de todos os lados e só um homem se mantinha calado: o treinador.

Quando faltavam apenas dez minutos para entrarmos no campo, “Mister” Sezabo fez diversas recomendações sobre a táctica a empregar e, a seguir, disse:

- “Muito atenção, sinhores. A avançado-centro jogar Férnando. Rapaz novo, não ter experiência dê jogo. Sinhores mais vélios ajudar para ele, bem dê clube. Não fazerem malandragem! Não ter graça nenhum 1 Brincadeira custar dez-per-cente para sinhores. Atenção dê jogo, sinhores”!

Depois, chamou-me:

- “Sinhor Férnando não perturbar com jogo. Não ter importância nenhum jogar mal. Não esquecer seus dificuldades a campo para emendar no “treining”. Eu ver uns e sinhor sentir outros dificuldades. Terça-feira corrigir um, dez, cinquenta vezes e tudo ficar bem. Atenção, sinhor: gajos ir dizer para si coisas muito feias. Não engolir a isca, Férnando. Fazer dê conta ter algodon nos ouvidos. Não esquecer principal papel dê avando-centro: Carèga Maria !!… (Compreenda-se atirar ao golo).

- “Bola junto dê poste, como fazer a treining. Agora, bom sorte para tudos. Atacar botas, estar na hora, sinhores”.

E voltando-se para os restantes…

-”Vamos, sinhores. Bom sorte a tudos!,. “

Ao entrar no campo tive a impressão de que o peso de todo o público estava sobre as minhas costas!

Por recomendação do treinador, atirei algumas vezes à baliza, antes de começar o desafio, para… sossegar os nervos. Fiz dois bons remates e foi remédio santo. Senti-me imediatamente à vontade. Daí por diante, esqueci o público. Só o jogo me dominava os sentidos.

Por carecer de interesse, agora, não relatarei como decorreu o prélio. Apenas breves apontamentos.

O Benfica marcou primeiro, por intermédio de Vaiadas, havia 21 minutos. A bola foi ao centro, recomeçámos e, sete minutos depois… golo do Sporting, Estava assinalada a minha presença! Era o meu primeiro golo em jogos oficiais. Quase chorei de alegria e fiquei sem fôlego. Mas tudo passou. Minutos volvidos, o Vasco Nunes fixou o resultado da primeira parte em 2-1 a favor dos “leões”.

Durante o intervalo, na cabine, o treinador disse ter gostado do meu trabalho e que o golo tinha sido muito bem marcado.

Raciocinei: pois sim; agora dizes isso mas na próxima terça-feira terei de executar cem vezes o que hoje fizer mal…

Na segunda parte Espírito Santo estabeleceu a igualdade, mas o Aníbal Paciência fez uma gracinha e conseguiu o 3-2.

Aos 32 minutos coube-me a vez de atirar a bola para as malhas da rede: 4-2!

Confirmamos a frase “O futuro está nas Colónias…” Espírito Santo, Paciência e eu a marcar os pontos!

O Guilherme ainda fez outro golo e a um minuto do final da partida, o Mourão estabeleceu o resultado: 5-3 a favor do Sporting.

Mal soou o apito do árbitro dando por terminado o jogo, correu para mim o Aníbal Paciência. Abraçou-me, deu-me os parabéns e eu pensei:

Exactamente como no primeiro treino de conjunto - parabéns do Paciência e sarabanda do treinador!

Mas enganei-me; “Mister” Sezabo também me felicitou, sorridente e alegre, declarando que esperava exibição pior.

Na verdade, embora não tivesse feito um grande jogo - nem outra coisa era de esperar em campo relvado, que pisava pela primeira vez, botas com pitons, que nunca usara e companheiros que quase não conhecia - se não fiz um grande jogo, repito, também não fiz aquilo a que se chama “figura de urso”! Do mal o menos.

Só posso dizer bem do comportamento dos meus colegas porque todos me auxiliaram na medida do possível; não fizeram “malandragem”. Agradeci-lhes no final do encontro e, agora, ainda com um grande abraço de reconhecimento, aqui ficam os seus nomes: Azevedo, Jesus e Galvão; Rui Araújo, Paciência e Manuel Marques; Heitor, Mourão, Vasco Nunes e João Cruz.

 

Ricardo Ornelas, em “Os Sports” de 13 Setembro de 1937, escreveu:

“Peyroteo tem recursos físicos excelentes e possui pontapé fácil, tenta passar para o melhor sítio e é oportuno em carga sobre o adversário (às vezes demasiado); entre o que lhe falta para ser uma força no lugar e de que o seu treinador se ocupará, podemos assinalar o jogo de cabeça; trata-se, no entanto, de elemento com bases sólidas para ser trabalhado”.

Pois não havia eu de passar para o melhor sítio!… Se fizesse o contrário…”dar-se dez-per-cente!…”

Aquele “às vezes demasiado” é que se escusava ter escrito.

Foi por isso que muitas vezes ouvi: - “O Orneias é o que o topou logo no primeiro dia. Até lhe chamou “carro de assalto”

Outros, então, leram assim: “às vezes propositado”.

E é que garantiam, afirmavam ter lido!

Veja o amigo e senhor Ricardo Orneias, o sarilho que me arranjou logo de entrada! Felizmente, já lá vai o mau tempo…

Lança Moreira escreveu:

“Dos estreantes, três no total (bem pouco para tanta ansiedade latente…) nenhum nos impressionou decisivamente. De óptimo aspecto físico, boa corrida, com pontapé que nos parece fácil e decidido, Peyroteo foi ainda assim quem deu sensação de ter sentido menos a estreia - e dois “tentos” no activo podem atestar o facto.

A crítica foi assinada por Domingos Moreira, faltando-lhe, no meio, o Lança…

A 19 anos de distância, pergunto-te: Então fui eu, ainda assim, quem deu a sensação de ter sentido menos a estreia? Lá dentro do campo os gatos são pardos. Podes ter a certeza, meu caro Lança Moreira, que nenhum dos estreantes a sentiu tanto como eu; sabes lá como aquilo foi!

Se a “carga” de nervos se transformasse em “descarga” eléctrica, tu e todos teriam sido fulminados!

E aquela dos “dois tentos no activo” é boa!…

Regista agora que no “passivo” já cá cantam 38 anos e 693 “tentos”.

Os anos são poucos em relação aos “tentos”, mas se trocasse os algarismos que grande azelha teria sido no futebol!…»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 86 - 90

"Dar o tilt"

Leio, Jaime Marta Soares, n'A Bola:

«Não entendemos, porque não conseguimos entender, como é que de um momento para o outro há uma inversão tão grande de práticas e atitudes. Será uma situação de cansaço ou de instabilidade emocional que às vezes acontece ao mais forte dos cidadãos»

Nem nós entendemos.

Porém, eu diria de outra forma, acho mesmo que o presidente está a "dar o tilt".

 

 

 

Séries televisivas

Ontem, na RTP1, passou mais um episódio de uma série escrita por Nuno Markl, cuja acção decorre no ano de 1986 (ano que dá nome à série).

Recuar, na memória, às séries televisivas dos finais dos anos ’80 e início dos '90 seria um desenrolar de um novelo muito extenso, porém recordo uma:

 

 

Peço desculpa por não ter falado do Sporting…

Memórias de Peyroteo (8)

(cont.)

«AS PRIMEIRAS GRANDES DIFICULDADES

 

Pelo que atrás referi, vê-se que os treinos de preparação atlética atingiam as raias do esgotamento físico; eram quase violentos.

Mercê deles, porém, adquiri fôlego mais do que suficiente para suportar a hora e meia que durariam os próximos treinos de futebol em conjunto. Portanto, a “falta de pernas” não constituía um problema para mim. A prová-lo estava o facto de, nas últimas sessões individuais, o treinador ter “puxado” por mim de tal forma que, se não estivesse bem preparado, teria rebentado!

De resto, a minha excepcional resistência não só foi devida aos treinos normais das equipas do Sporting, como ainda ajudada pelos dois suplementares que fazia às quartas e sextas-feiras, exclusivamente com “Mister” Sezabo.

Nestas duas sessões individuais, a par dos costumados exercícios de preparação atlética, o treinador ensinava-me pormenores técnicos e tácticos do maior interesse e absolutamente necessários para o bom desempenho do lugar de avançado-centro, numa equipa com a incontestável categoria e valor da do Sporting, em 1937.

Muito aprendi nesses dois treinos* extra e afirmo, com toda a convicção, que eles estiveram na base dos meus rápidos e fulgurantes êxitos como futebolista. “Mister” Sezabo sabia que não bastava o fôlego, ou melhor, a resistência física para se ser bom jogador de futebol. Claro que sem isso não é possível entrar-se nos domínios da técnica de qualquer desporto. Antes de tudo, o poder atlético; depois a técnica do jogo; logo a seguir virá, então, o estudo das tácticas. Sem pernas resistentes não se pratica futebol, digam o que disserem.

“Mestre” Sezabo tentou - e parece que conseguiu, com esses treinos-extra às quartas e sextas-feiras - ensinar-me um mínimo indispensável de pormenores de jogo. Sem eles, a minha inclusão na esplêndida equipa do Sporting - mesmo só nos treinos! - redundaria em fracasso que, aliás, o treinador procurava evitar.

Os seus ensinamentos, nos dias em que só eu e ele estávamos no campo, ultrapassaram tudo quanto é habitual. O meu bom amigo chegava ao ponto de me informar das características e tendências de cada um dos jogadores que viriam a ser meus companheiros de equipa, mormente dos interiores e extremos. Ainda não satisfeito com tudo isso, após o duche e depois de vestidos, pegava numa caixinha de bonecos, colocava-os em cima de uma mesa e dava uma lição de táctica de futebol.

As vezes já tinha comprado bilhete para a “matinée” de cinema mas via-me forçado a ficar com ele na algibeira porque mestre Sezabo “fazia-se encontrado”, pegava num lápis e papel, marcava bolinhas e cruzinhas indicativas das posições dos meus companheiros e adversários em determinada jogada e… adeus cinema…

Muitas .vezes me disse:-”Sinhor Férnando, seu cinema ser este. Deixar garotas! Fazer-se, primeiro, grande jogador de “foot-ball” e ter, depois, tudas garotas dê Mundo… Cárágo, Férnando, ser um sarílio para atender tudas! Ir ver, Férnando!…

Sempre conversando no mesmo assunto, deixávamos a cabine do campo e viajávamos, de eléctrico, até à praça dos Restauradores. Entrávamos num café mas com pouca demora porque…

- “Vamos, Férnando. Ar viciado ser prejudicial para saúde; igual quê cinema…”

Vínhamos para a rua e, quase sempre, parávamos em frente da Companhia dos Telefones, no Rossio.

Aqui continuava a lição e os ensinamentos acerca da melhor forma de empregar o poder físico. Gostando de exemplificar, Mestre Sezabo dava-me, de quando em vez - em pleno Rossio! - um “pinhãozinho” que me fazia abanar como uma folha de palmeira ao vento!…

Mas acreditem que este homem fez tudo quanto humanamente se pode fazer por alguém que se estima e em quem se acredita.

Por minha parte nada mais fiz do que procurar corresponder a essa amizade e confiança.

Na véspera do dia do primeiro treino de conjunto em que tomei parte, Mestre Sezabo conversou, demoradamente, comigo.

Creio firmemente que se isso não tem acontecido, o Sporting não teria contado comigo durante tantos anos.

Eu lhes conto:

Só com “Mister” Sezabo fui treinar na véspera do primeiro treino de conjunto.

Os jogadores, individualmente, estavam em condições. Havia que reuni-los e afinar a turma.

Conhecedor das virtudes e defeitos de todos os jogodores do Clube, não quis o treinador lançar-me no meio deles sem me pôr de sobreaviso quanto ao que de pior me podia acontecer…

Eu já ouvira falar, muito vagamente, na possibilidade de vir a ser “queimado”. Contudo, essa Hipótese nunca me atormentou.

Custava-me a acreditar que “oficiais do mesmo ofício” e todos interessados na defesa de um ideal comum, tentassem complicar ou destruir as boas intenções daquele ou daqueles que se propunham trabalhar pelo engrandecimento, prestígio e honra da bandeira que os cobria! Todos nunca são muitos para defender um ideal.

Como seria possível, então, dificultar a tarefa daquele que, bem intencionado, oferecia o seu esforço a bem da “causa leonina”?

“Queimar”? Porquê e para quê? Quem beneficiaria com o meu afastamento? Talvez um jogador como eu? E o Clube, o amor pela bandeira gloriosa do Sporting não se sobreporia aos interesses de um só homem?

Parecia-me que o único caminho a seguir pelos representantes do Clube seria ajudar quem quisesse colaborar com eles em defesa do Sporting e não o de barrar caminho, por ciúme de glória pessoal, aos que tivessem valor…

Que os piores e mais velhos cedam o lugar aos mais novos, proventura em condições de virem a ser melhores.

A bem do Clube, seria até de esperar que os que ocupavam postos cimeiros ajudassem os que, possuidores de reconhecidas qualidades, pudessem vir a. superá-los. Assim se contribuiria, honesta e lealmente, para a continuidade e engrandecimento da colectividade.

A indispensável ajuda, o carinho, amparo e bom conselho, só dignificaria quem o desse. Morreria, talvez, é certo, mas morreria de pé, dignificado, glorificado e não diminuído. Sempre assim pensei e continuo a pensar.

Ora o treinador, sem que eu soubesse o motivo, disse-me:

- “Fernando amanhã ir fazer seu primeiro “treining” dê conjunto, Não perturbar com malandragem dê companheiros. Bons rapazes mas gostarem dê brincadeiras. Sinhor ser novato e ter dê suportas goza delas. Não engolir a isca. Não ligar. Sinhor Férnando ter-se força suficiente para impor-se a eles. Não zangar. Alêgria Férnando! Se sinhor zangar-se com malandragem dê passe, ficar lixado. Rirem-se. Se sinhor perder a cabeça ser um sarílío. Férnando ter-se que pagar-se patáu dê novato. Se eles fazerem malandragem para si, se ter-se quinta-coluna, não preocupar-se. Eu estar aqui para as curvas. Dar dez-per-cente e eles não piar mais. Fazer no “treining” dê conjunto o que ter ensinado para sinhor e ver tudo sair bem. Muito atenção dê jogo dê companheiros; olho vivo e Férnando impor-se para eles. Férnando necessitar dê eles mas eles precisar dê Férnando! Jogo dê conjunto Férnando! Não poder ser dê outro maneira!”

Ouvi tudo com a maior atenção, mas uma frase de “Mister” Sezabo ficou a martelar-me o cérebro:

“… e Férnando impor-se para eles. Férnando necessitar dê eles, mas eles précisar dê Férnando!”

Sem dúvida, teria de fazer tudo - custasse o que custasse - para me impor. Trabalharia nesse sentido e contava com o auxílio do meu treinador, que tal como prometeu, assim o cumpriu.

É da mais elementar justiça deixar bem claro que José Sezabo, como treinador de futebol, sabe'o que faz, o que promete e cumpre escrupulosamente a sua palavra.

 

Estádio Alvalade. Sete e quinze da manhã. Fui dos primeiros achegar à cabine. O saudoso Augusto entregou-me a equipa. Sentei-me a um canto.

Tirei o casaco e coloquei-o no cabide; depois as calças e quando ia pendurar a gravata, no mesmo cabide, alguém me disse:

- Tira lá tudo isso daí. Esse lugar é meu. Nada de misturas!…”

Sabem quem era? o brincalhão do Soeiro!

Sem responder, passei a roupa para o cabide do lado mas não tive melhor sorte porque o senhor Soeiro (eu tinha que os tratar por senhores…) me disse logo:

- “Esse lugar pertence ao Jurado!…”

Perante tais advertências, procurei outro poiso, bem longe dos lugares “reservados aos ases…”

Nisto ouvi a voz do Aníbal Paciência:

- “Vem para aqui; tens um cabide!”

Aceitei, Fui para junto do bom amigo e leal camarada.

Pouco tempo depois da cena que acabo de relatar, o cabide de que me havia servido e donde fui expulso, passou a ser o meu e jamais outro jogador se serviu dele enquanto joguei futebol.

Lembro-me de que foi o próprio Soeiro quem me convidou a ir para junto dos veteranos e me cedeu o cabide que lhe pertencia mas não sem me dizer:

- “Junta-te aos bons e bom serás… Mas juizinho, senão

levas corrida em pêlo! Dou-te o cabide porque és bom rapaz e porque sei que isso te agrada. Eu já passei pelo mesmo… A mim, tanto me faz pôr a roupa aqui como no cabide ao lado”.

A amabilidade do Soeiro sensibilizou-me e, sobretudo, senti grande alegria por ter sido admitido no grupo dos “ases” ao qual, mais tarde, alcunhei de “grupo da má-língua”.

Mas, voltemos ao tempo em que não se tratavam os veteranos por tu…

As oito menos um quarto entrámos no campo, demos quatro voltas a correr e outras tantas a passo, intercaladas, e começou o treino de conjunto.

A camisola que o Augusto me entregou era igual à do Soeiro, do Pireza, João Cruz e Mourão; portanto, eu devia fazer parte da

equipa dos '“Ases”.

As minhas pernas tremiam como varas verdes e a cara ardia como se estivesse perto dum brazeiro.

Que aconteceria? O que fariam os consagrados quando o treinador me mandasse ocupar o lugar de avançado-centro da equipa principal? Qual a reacção do Soeiro e como se comportariam os seus amigos?

Embaralhadas no cérebro, estas dúvidas atormentavam-me, mas consegui reagir ao pensar que o facto do treinador me escolher significava confiança nas minhas possibilidades e ele sabia muito bem o que estava a fazer.

Os vinte e dois jogadores foram distribuídos em dois grupos. De um lado, avançados e médios da primeira equipa com a defesa e guarda-redes da “reserva”; do outro, os avançados e médios da “reserva” com a defesa e guarda-redes da primeira equipa. Assim se estabeleceria certo equilíbrio de jogo.

Com as pernas a tremer, ocupei o posto de avançado-centro.

“Mister” Sezabo apitou e… começou o jogo.

Querem saber o que aconteceu? Apenas isto: todos os jogadores - incluindo o Soeiro! - se esforçaram por me ajudar a vencer as dificuldades com que lutava!

Jamais equecerei esta magnífica prova de lealdade e camaradagem!

Senti, nesse momento, uma tão grande satisfação que a minha vontade foi a de os abraçar e agradecer-lhes, de todo o coração, a generosidade com que me amparavam.

Ao entrar para o campo estava convencido de que ia ser vítima da má vontade dos companheiros e, por isso, joguei quanto podia e, na realidade, estava desempenhando, muito razoavelmente, o lugar de avançado-centro. Mas quando me certifiquei do leal procedimento dos meus camaradas, apoderou-se de mim uma tal excitação que passei a fazer só asneiras!

Felizmente que o mau tempo passou com o sinal para a troca de campo.

 “Mister” Sezabo, nem uma só vez interrompeu o treino para me dar qualquer indicação. Só no intervalo me disse;

- “Estar bem Fernando. Primeiro vez não poder exigir muito. Normal, Férnando, normal”.

Que nos trinta ou quarenta minutos da primeira parte teria feito muitas asneiras, não me restam dúvidas. O treinador, porém, deixou-me completamente à vontade.

As interrupções do jogo com o fim de me corrigir ou aconselhar (tal como várias vezes fez aos outros) exerceriam sobre mim uma influência mais desastrosa do que benéfica.

Na segunda parte do jogo-treino, mais calmo s confiante, adaptei-me quase perfeitamente ao conjunto. Lembro-me de que, em poucos minutos, marquei dois bons golos na baliza à guarda do grande Azevedo, aproveitando outros tantos magníficos passes de Pireza e do Heitor, que entrara para substituir o Soeiro, que estava magoado.

Quase no fim, bati novamente o Azevedo, concluindo um primoroso centro do João Cruz.

Findo o treino recebi um afectuoso abraço do Aníbal Paciência, na opinião do qual o treino havia corrido bem. Aconselhou-me a trabalhar com vontade, dizendo por fim:

-“Estou certo de que o lugar de avançado-centro vai pertencer-te”.

Estas palavras amigas, que muito apreciei, aliadas à minha opinião (marcara três golos ao Azevedo!) levaram-me a concluir que fizera um treino brilhante…

Julgava eu que o treino acabara mas, afinal, só terminou para os outros…

“Mister” Sezabo interrompeu a conversa com o Paciência:

- “Férnando ficar a campo mais um bocado. Deixar sair tudos porque ter trabaio para sinhor. Estar cansado, Férnando?”

- Não “Mister”, sinto-me bem…

Cárágo, Férnando, rapaziada dê África ter garra. Bravo, Férnando! Continuar assim e ir ver, fazer-se grande jogador..

Depois de ouvir isto, ainda mais me convenci de que havia feito um treino muito bom, mas tudo se desmoronou como um castelo feito de cartas de jogar, quando o treinador continuou:

- “Férnando ter muito que aprender. Estar mal dê desmar- cação; andar perdido a campo. Indispensável direcção dê passe e Férnando passar muitos vezes para advérsário. Sinhor não saber cortar jogada. Muito importante atirar a bola junto dê poste. Não furar bariga dê guarda-redes. “Treining” dê hoje não estar mal pelo primeiro vez. Não interromper para não perturbar dê sinhor. Vamos, sinhor, se fazia favor. Ir atirar bola para si, dê interior de pé, outro vez dê exterior. Dêpois à direita e esquerda. Fazia favor sinhor Férnando..

Estas e outras habilidades fizeram prolongar o treino até às 10,30 da manhã, ou seja, uma hora a juntar aos 90 minutos já feitos em conjunto, mas tiveram a virtude de me chamar à realidade! - a dura realidade!-quanto ao que supus ter sido um formidável treino!

Enfim, outros treinos se seguiram, piores ou melhores, mas o certo é que “Mister” Sezabo ensinou-me o bastante para nunca mais, em quase treze anos, deixar de ser o avançado-centro da primeira equipa do Sporting Clube de Portugal e da Selecção Portuguesa de Futebol.

Aqui tem o leitor uma pequena amostra do que foi o meu princípio de futebolista no Sporting… quanto a treinos, é claro…

Quanto aos primeiros jogos, lá chegaremos. Antes, porém, julgo oportuno e interessante conversarmos um pouco acerca do caso que nesse tempo apaixonou os adeptos do futebol: Soeiro e Peyroteo.

Já lá vão 19 anos! Como o tempo corre, Santo Deus!…

A seguir aos meus primeiros treinos surgiram duas correntes. Uma a meu favor - a mais pequena, claro - a outra, mais forte e numerosa, a favorável ao Soeiro.

 

Tenho à minha frente um recorte da Revista “Stadium” cujo título é:

“Peyroteo desbancará Soeiro? Há quem diga que Peyroteo o pode fazer e há quem ponha reservas”.

 

Este título encimava a primeira entrevista que concedi em Lisboa, a Lança Moreira, em Setembro de 1937, já depois de ter efectuado o meu primeiro jogo.

Transcrevo o que mais interessa agora:

- “Espera desbancar Soeiro?”

O novo elemento do Sporting surpreende-se com a pergunta… Acha-a forte… Mas responde:

- “Soeiro é um grande jogador. Aprecio imenso as suas qualidades. Entretanto farei os possíveis para agradar aos sócios do Sporting e se amanhã vier a ocupar o lugar no grupo de honra, decerto que será por determinação do treinador. Não quero desbancar ninguém. Gostava simplesmente de aprender - que tenho muito que aprender - e vir a ser um bom jogador”.

Acredite-se que nunca procurei desbancar fosse quem fosse, até mesmo porque o termo “desbancar” me desagrada completamente.

Se o Lança Moreira me houvesse perguntado por que razão eu treinava com tanta vontade, insistência e, até, em número maior de vezes do que qualquer outro jogador, decerto que não responderia: “é para ficar na bancada, a ver os outros..Mas afirmo que não desejava suplantar ou prejudicar, por orgulho ou vaidade, os meus companheiros.

Substituir ou não o Soeiro no eixo do ataque da turma do Sporting, não constituía a minha razão de jogar futebol. Jogava por gosto e, como não podia deixar de ser, treinava com afinco, intensivamente, respeitando e cumprindo todos os conselhos e ensinamentos do treinador. Se preciso fosse, executaria um milhar de vezes o mesmo exercício ou repetia um pormenor de execução com a bola. Além disto, interessava-me pelos problemas tácticos e técnicos e, ainda, estudava os defeitos e qualidades dos adversários - o que me permitiu, nalguns desafios, tirar deles bom partido.

Sei que assim é porque conheço bem o Soeiro Vasques e apreciei a vontade indomável com que ele defendia as cores do seu clube, honrava e respeitava a camisola do Sporting, até mesmo quando já o peso dos anos o atraiçoou!

Os portugueses que ele, briosamente, representou na Selecção Nacional; o público do peão que tanto vibrou com a sua valentia e coragem e até muitos sportinguistas, todos foram injustos para o Soeiro, porque merecia mais e melhor ao fim da sua brilhante carreira desportiva. Outros de menor valia, foram mais acarinhados e mais felizes. Paciência! A vida é assim!..

Todos sabemos que ninguém gosta de ser preterido em qualquer actividade, mòrmente quando a substituição vem rotulada de “superioridade”, embora, neste caso, momentânea, efémera…

Mas também é verdade que esse sentimento de revolta íntima poderá, em muito, ser atenuado pelo reconhecimento da igualdade ou, quiçá, de melhoria na defesa do ideal que professamos.

Felizmente o meu ingresso na primeira equipa do Sporting não afastou dela o Soeiro, o mesmo acontecendo na Selecção Nacional…

O Soeiro foi vencido pela idade e não “desbancado” por mim. Afirmo-o com alegria e já com saudade, recordando a sua leal camaradagem, não esquecendo, ao mesmo tempo, quanto fez para ajudar a oferecer ao seu clube - o Sporting - um novo avançado-centro, no preciso momento em que se sentia já não poder fazer mais…

E assim, de corpos e almas entregues à defesa da mesma camisola, na mesma equipa e como dois bons amigos, nem eu desbanquei o Soeiro nem ele me desbancou a mim.

O facto de me alongar em considerações a propósito do valor, da lealdade e camaradagem do “jogador em força” (ver capítulo das alcunhas) não significa menor admiração ou amizade pelo Azevedo, Mourão, Armando Ferreira e João Cruz. Todos eles, num molhinho com o Soeiro, eram umas “ Grandes prendas” - na classificação dada por “Mister”- Charles Canuto!

O Soeiro veio mais à superfície, neste mar encapelado das minhas memórias, por virtude daquele título na revista “Stadium”: Peyroteo desbancará Soeiro?

Já decorreram 19 anos! Como todos nós estamos velhos, “Cárágo”!…»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 77 - 85

Assobiador encartado (*)

Leio que no último fim-de-semana o presidente do Benfica, a propósito das notícias que envolvem este clube, proferiu algumas afirmações sobre essa mesma realidade, das quais destaco duas frases:

"O que sei é pelos jornais"

"Acabou a paródia instalada neste país à custa do Benfica"

 

Não duvidando da veracidade destas afirmações, ocorre-me o que Luís Miguel Pereira, no último capítulo do livro biográfico Missão benfica : Luís Filipe Vieira, escreve a propósito desta personagem: «Orlando Dias [o secretário ] desvenda outra faceta de todo desconhecida: "Ele é um exímio ‘assobiador’" (…) Apesar dos esforços, Orlando ainda não conseguiu descortinar a melodia, “não sei se é música clássica, ligeira, fado… Mas que é bem interpretada, é.”»

 

(*) Titulo do último capítulo do livro:

PEREIRA, Luís Miguel - Missão benfica : Luís Filipe Vieira. 1ª ed. Carcavelos : Prime Books, 2012. p. 253-255

Se o Pedro me permite...

... recordo.

Os melhores golos do Sporting (63)

(Pedro Correia)

 

 

Golo de TELLO

FC Porto - Sporting, 0-1

17 de Março de 2007, Estádio do Dragão

 

Foi a anterior vitória do Sporting antes da que registámos sábado passado no reduto portista. Já vão decorridos nove anos, na 22ª jornada do campeonato 2006/07. Um golo monumental, obtido de livre directo bem longe da grande área da equipa de azul e branco. Autor: o internacional chileno Rodrigo Tello, que jogava na posição de lateral-esquerdo, com o nº 11 na camisola, e custara 7,5 milhões de euros aos cofres de Alvalade, onde jogou sete épocas e venceu um campeonato, duas Taças de Portugal e uma Supertaça.

Iam decorridos 71 minutos e o resultado teimava em permanecer como estava quando soou o apito inicial. O árbitro, Pedro Henriques, não teve dúvida em assinalar falta a mais de 20 metros da baliza. Encarregado de cobrá-lo, Tello cumpriu a missão de forma exemplar. Do pé esquerdo dele saiu não um remate mas um autêntico míssil incapaz de ser travado pelo guardião Helton.

Foi uma partida muito disputada e muito suada, que devia ter terminado com mais golos. Só da nossa parte, Tello já tinha tentado abrir o marcador com um excelente remate aos 44'. O mesmo sucedera com Alecsandro e Romagnoli nesse desafio em que Nani brilhou. O nosso guarda-redes, Ricardo, também fez uma boa exibição, tal como o central Polga. Do meio-campo para a frente terminámos o jogo com seis jogadores formados em Alcochete: Miguel Veloso, João Moutinho, Custódio, Pereirinha, Nani e Djaló.

Hoje com 36 anos, Tello integra a equipa do Audax Italiano, que disputa o campeonato do seu país. Lembra-se certamente muito bem daquele grande golo que marcou ao FC Porto, que comandava a Liga com nove pontos de diferença em relação a nós. Os portistas viriam a sagrar-se campeões, mas só com mais um ponto do que o Sporting, nessa segunda época com Paulo Bento ao comando da equipa. Terminámos com 68 pontos, só menos um que eles, e garantindo a qualificação directa para a Liga dos Campeões.

São tempos que já nos fazem sentir saudades. Mas há que reconhecer: o rugido do Leão não se desvaneceu - fiel à tradição de sempre.

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