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És a nossa Fé!

Memórias de Peyroteo (30)

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PORTUGAL - ESPANHA

Estádio Nacional 11-3-94

Resultado: 2-2

 

A 11 de Março de 1945, fiz o meu segundo jogo contra a Espanha e o sétimo na ordem cronológica de internacionalizações. Novamente empatámos a duas bolas mas, desta vez, não houve dúvidas e registou-se, justamente, que fui eu o autor dos dois golos da equipa portuguesa.

Este jogo Portugal - Espanha seria o primeiro encontro internacional a disputar no nosso magnífico Estádio Nacional e, como sempre, a população dos dois países viveu mais um grande acontecimento desportivo. Duas semanas antes do desafio já não havia bilhetes e os próprios jogadores se viram embaraçados para conseguir satisfazer as “encomendas” dos amigos. Para servir pessoas amigas que não acreditariam na minha impossibilidade de arranjar bilhetes, fui obrigado a socorrer-me de um contratador “amigo” que, por muito favor, me vendeu duas bancadas a cem escudos cada uma!…

O mesmo entusiasmo e espectativa dominavam os adeptos do futebol.

A nossa selecção perdeu uma boa oportunidade de ganhar à Espanha porque, desta vez, realmente, os espanhóis' nos enviaram uma equipa de fracos recursos, embora no país vizinho se dissesse que ela estava em óptimas condições, composta por elementos de classe e categoria comparáveis aos grandes Zamora, Langara, Regueiro, Quincoces, etc. Viriam a Lisboa jogadores capazes de realizar uma exibição demonstrativa do incontestável valor do futebol espanhol. Felizmente para nós tais afirmações não correspondiam à verdade, e digo felizmente porque, se assim fosse, teríamos sofrido uma das maiores derrotas. A nossa equipa não estava convenientemente preparada, bastando di2er que, em quase três meses de pseudo-preparação, nem uma só vez fizemos um treino no qual tivessem tomado parte os jogadores que defrontaram os espanhóis! E isto mais por culpa dos clubes a que pertenciam os jogadores convocados, do que por culpa do seleccionador. Assim foi e assim continua a ser. Mas adiante.

Empatámos um jogo que poderíamos ter ganho. Os espanhóis, jogando a medo, chegaram a estar a ganhar por 2-0! Calcule-se, pois, o que nós valíamos!!! Depois, mais pontapé, menos pontapé, mais corrida, menos corrida, lá conseguimos empatar… ,

Para alguns, joguei mal mas… fiz os dois golos da nossa equipa, cabendo-me ainda a sorte - que se transformou em glória inapagável dos anais do futebol português - de marcar o primeiro golo contra estrangeiros no Estádio Nacional.

Não quero alongar-me em considerações acerca da forma como a nossa equipa foi preparada para este jogo, já porque o tempo decorrido lhe fez perder o interesse, como também porque, referindo tudo em seus pormenores, teria de escrever um livro só para recordar os meus vinte jogos internacionais. Darei a vez aos jornalistas, transcrevendo o que alguns deles escreveram a meu respeito, a propósito do XV Portugal - Espanha em futebol:

 

Diário de Lisboa de 11-3-45:

“O avançado-centro com uma “cabeça” magistral fez o “goal”, o mais lindo “goal” da tarde. Uma ovação espantosa premeia o lance”

E mais adiante:

…”O avançado-centro leonino, num remate estupendo, conse guiu o 2,° golo e, com ele, o empate, sem quê a estirada de Eiza' guirre salve a situação.”

O jornal “O Século”, pela pena do seu redactor desportivo, ofereceu aos leitores o balanço dos meus sete jogos internacionais começando por escrever em título:

Sele jogos internacionais com oilo golos é o aclivo do popular avançado-centro Peyroteo, que neles foi o único português a marcar

“Fernando Peyroteo, avançado-centro do Sporting, autor das duas bolas marcadas no XV Portugal - Espanha é, hoje, sem dúvida alguma, o jogador verdadeiramente indispensável à equipa nacional. Sobre este assunto, não há a menor discordância nos meios futebolísticos.

É o avançado-centro ideal, no jogo moderno, em que a primeira missão ou mais alta qualidade a exigir do eixo do ataque é a de ter um grande poder de realização na zona de remate,

“Avançado-centro atlético, duro, combativo, com espírito de sacrifício para o choque insistente com os defesas e, sobre tudo isto, marcador de bolas, é, na verdade, uma exigência do futebol moderno, em todos os países. Zarra, Mundo, Campanal, Langara e outros grandes jogadores valorizaram-se por essas características. Em Portugal porém, depois de dois avançados-centro estilistas, de grande nomeada, Vítor Silva e Espírito Santo, apareceu um avançado-centro de tipo moderno, - verdadeira máquina de marcar bolas. E não tem sido pequena a sua tarefa na equipa do Sporting-e sobretudo na equipa de Portugal. Sem Peyroteo, tanto aquele clube como a equipa nacional perdem, com qualquer formação, sessenta a oitenta por cento do seu poder de ataque, a despeito de, hoje, ser lugar comum, em todas as equipas contrárias, este conceito: é preciso anular Peyroteo se queremos vencer…

“Realmente, tanto nos jogos de clube, como nos jogos internacionais, a preocupação dominante está em “marcá-io” estreitamente, de modo a evitar que ele consiga atirar à baliza. Nos jogos recentes, com o Atlético Aviación e com a equipa de Espanha, foi visível que o popular avançado-centro jogou sempre com “sentinela à vista” I Por vezes, a barreira de oposição era formada por dois ou três adversários. E isto, compreende-se bem, dificulta em extremo a sua missão, donde não ser difícil concluir-se, quando não marca, que nesse dia, Peyroteo se apagou um pouco… Mas, isso, nada tém de extraordinário. Aquilo que afinal surpreende é que, apesar de tão vigiado, de tão marcado e, às vezes, tão mal tratado pelos adversários, ele consiga ainda marcar tão elevado número de bolas.

“Anteontem foi autor dos dois pontos da equipa portuguesa - as duas bolas que fizeram o resultado. Mas a sua colaboração à equipa nacional espelha-se melhor nos sete jogos internacionais em que tomou parte.

A sua estreia de internacional realizou-se em Frankfurt, no jogo com a Alemanha, em que se empatou a uma bola - marcada por Fernando Peyroteo, Na semana seguinte, jogou-se em Milão o Suíça-Portugal, para o Campeonato do Mundo, em que se perdeu por 2-1 -sendo ele o marcador da única bola dos portugueses. No Portugal - França, em Paris, venceram os franceses por 3-2 - sendo as duas bolas marcadas por ele. Nos dois últimos Portugal - Espanha em que se empatou por 2-2, no domingo, e em 1941, das duas vezes foi ainda Peyroteo o único marcador. Dos sete jogos contra a Suíça - em Lausana e em Lisboa, - não marcou uma única vez, devendo, ainda, estar lembrada a severa marcação de que ele foi alvo por parte do famoso Minelli.

“Peyroteo é, assim, a pequena máquina de marcar bolas para o Sporting - e para a equipa nacional. Mas esta qualidade está ainda valorizada pela circunstância deste jogador nunca recorrer ao jogo violento ou irregular para marcar, É, ao mesmo tempo, um jogador correctíssimo e, tanto, assim que, há anos, recebeu o prémio da sua correcção desportiva, tendo sido enviado pelo “Século” a Londres para assistir ao maior espectáculo futebolístico do Mundo: a final da Taça de Inglaterra. Os desportistas portugueses, nessa altura, prestaram homenagem ao seu espírito desportivo, elegendo-o como <o jogador mais digno do magnífico prémio que este jornal instituiu para premiar o culto da ética desportiva. E agora, não há motivo algum para se dizer que ele não tem conservado as mesmas .excelentes qualidades desportivas.

“Peyroteo, em verdade, é um bom desportista e um magnífico avançado-centro, como já tivemos ocasião de verificar no jogo de anteontem.”

Penso que esta interessante resenha se deve a um grande mestre de futebol, cujo nome é de todos nós bem conhecido e que, ao tempo, tinha a seu cargo a secção desportiva do grande jornal O “Século”. Mas o mestre, falível como todos os homens, enganou-se ao afirmar que fui eu o marcador do golo português no nosso jogo contra a Alemanha, em Frankfurt; na verdade, esse golo foi marcado pelo Pinga. Tais enganos acontecem sem maldade, e por eles não vem mal ao Mundo!…

 

Cerca de dois meses depois deste jogo no nosso magnífico Estádio Nacional, seguimos para Espanha a fim de disputarmos novo prélio a 6 de Maio de 1945.

Não conhecia a cidade de La Coruna nem podia supor que o povo dessa linda terra era tão acolhedor, tão amigo dos portugueses e tão hospitaleiro. Os futebolistas que compunham a equipa nacional, atendendo à sua popularidade, foram alvo de carinhosas manifestações dé simpatia, mas o povo de La Coruna envolveu, no mesmo fraterno abraço, todos quantos acompanharam os nossos jogadores,

La Coruna estava em festa! Houve feira e touradas, nas quais tomaram parte os maiores matadores de Espanha. Respirava-se alegria, boa disposição, felicidade, Que boa gente, que bons amigos foram ali encontrar os portugueses nesta digressão por terras de Cervantes! Jamais a esquecerei, por tantas amabilidades e gentilezas que recebemos. Não me faltasse o espaço e muito teria de recordar, mas a finalidade deste livro é a de falar em futebol…

Perdemos por 4-2 o XVIII Portugal - Espanha em futebol.

A nossa equipa poderia ter vencido o encontro? É verdade que sim. Mas se o resultado nos tivesse sido favorável, seria lógico acreditar na nossa superioridade futebolística? Não e não! O futebol espanhol foi sempre e continua a ser superior ao nosso, e o facto de, neste jogo, as coisas poderem ter sido, talvez, resolvidas a nosso favor nos primeiros trinta minutos, em que os portugueses, jogando bem, perderam algumas ocasiões de fazer golos e, mesmo, depois do intervalo, quando o. marcador acusava 2-1 e F. Ferreira não transformou uma grande penalidade que nos daria o empate, tudo isso não chega para negar a incontestável superioridade dos nossos adversários.

Daqui não há que fugir: os espanhóis cedo compreenderam que o profissionalismo é indispensável ao progresso do jogo; sem jogadores inteiramente profissionais - orientados, claro está, por orgânica futebolística capaz - o futebol não passará de uma brincadeira de rapazes mais ou menos jeitosos para darem pontapés na bola. O problema- no país vizinho - foi encarado a sério e os resultados surgiram naturalmente - nem podia ser doutra maneira. Pena foi, porém, que na ilusão de que os modernos processos de jogo destruiriam a tradicional “fúria espanhola”, os técnicos espanhóis não tivessem acompanhado os progressos da táctica do jogo. Erro incompreensível e que Jevou a equipa nacional espanhola a sofrer tremendos desaires…

Por cá, a quando da realização do XVIII Portugal - Espanha, que jogámos na Corunha em 6 de Maio de 1945, continuava a pensar-se, como num sonho, que a guerra civil havia destruído o futebol espanhol e dava-se, como amostra, a fraca exibição da equipa que defrontámos dois meses antes no Estádio Nacional!!

Depois do jogo, vá de nos lembrarmos dos remates a razar a trave ou a bater nela, as defesas de sorte do guardião espanhol, uma grande penalidade que se perdeu e mais algumas que o maroto do árbitro não marcou, etc., etc… O costume… Quando, afinal, perdemos em La Coruna porque a equipa adversária nos foi superior e porque o futebol do País que defrontámos era e é - não tenhamos dúvidas nem ilusões! - melhor do que o nosso.

No que respeita à minha exibição nesse jogo, limito-me a dizer que, mais uma vez, fui o autor dos dois golos da equipa nacional portuguesa, e a transcrever parte de um artigo escrito por Cândido de Oliveira:

- “…Quem esteve na Corunha pôde confrontar, durante os 90 minutos, a classe dos cinco avançados espanhóis e dos cinco avançados portugueses e concluir: a diferença é flagrantemente favorável aos espanhóis. Peyroteo é, entre os portugueses, o único que pode ombrear com os espanhóis; os restantes, não”.

Javier Barroso, presidente da Federação Espanhola, afirmou: “Peyroteo simplesmente espantoso!” (Revista “Stadium”)

 

Portugal, 4 - Espanha, 1

 

Pela primeira vez na história do futebol dos dois países, Portugal venceu a Espanha ein jogo oficial por 4-1, em Lisboa, no dia 26 de Janeiro de 1947.

É certo que em encontros anteriores, o nosso grupo representativo poderia ter batido o da Espanha, mormente nos dois jogos realizados em Lisboa, empatados a duas bolas e, mais recentemente, no que se disputou na linda cidade de La Coruna, do qual os espanhóis sairam vencedores por 4-2. Mas, se de qualquer desses encontros a nossa equipa tivesse saído vencedora, não seria acertado atribuir a vitória à maior valia do futebol lusitano em confronto com o espanhol. Os nossos adversários apresentaram-se nesses encontros melhor preparados física e tecnicamente do que a grande maioria dos jogadores portugueses, e já me referi às razões que justificaram essa superioridade. Apenas num só ponto os portugueses deram clara indicação de supremacia: na táctica do jogo.

As equipas espanholas utilizaram processos tácticos antiquados, semelhantes aos que quase todas as equipas do Mundo adoptaram antes do advento do WM, apenas com a “variante” de fazerem recuar o médio centro e um médio lateral, entregando-se ambos à permanente vigilância ao avançado-centro português; no respeitante à tarefa imposta aos restantes componentes da equipa, o sistema táctico assentava em processos que o moderno WM destronara. Quer dizer: enquanto os médios, interiores e extremos espanhóis sofriam as consequências de uma marcação cerrada, imposta pelos modernos sistemas tácticos - quando se defende a própria baliza, claro está - os nossos interiores, alternadamente, os médios e extremos gozavam de relativa liberdade, o que, evidentemente, causava dificuldades à equipa espanhola. Só a comprovada inferioridade técnica e atlética de grande parte dos nossos jogadores em relação à dos espanhóis impediu a derrota destes.

Poderá agora objectar-se que, tendo as nossas equipas beneficiado de certa liberdade de movimentos, mercê das deficiências tác- ticas dos nossos adversários, não_ seria ilógico pensar-se e admitir-se a vitória da equipa portuguesa! É exacto; e por isso mesmo já disse que poderíamos ter ganho alguns dos jogos disputados imediatamente a seguir ao fim da guerra civil, quando os espanhóis estavam já mais ou menos bem preparados técnica e atlèticamente, mas inferiores a nós quanto aos sistemas tácticos baseados no moderno WM que os portugueses praticavam com razoável acerto e conhecimento. Mas a verdade é que a táctica está em tudo dependente do maior ou menor apetrechamento técnico dos jogadores, e os espanhóis, à maior capacidade táctica dos portugueses, opuseram sempre um muito superior conhecimento dos pormenores da técnica do jogo - boa finta, bom toque e domínio de bola, óptimo jogo de cabeça e, a culminar, remate fácil, rápido, fulgurante - tudo isto assente numa capacidade físico-atlética impressionante: boa corrida, bom tempo de entrada à bola (antecipação), bons no jogo alto e… fôlego de gato!

Sendo assim, aceite-se, com verdadeiro sentido das realidades futebolísticas, que a maior capacidade técnico-atlética dos jogadores espanhóis, anulava e vencia a melhor táctica dos portugueses, só não acontecendo isso quando a sorte e tantos outros imponderáveis do jogo penderam para o nosso lado.

As considerações que acabo de fazer acerca dos encontros disputados anteriormente pelas equipas de Portugal e da Espanha podem, à primeira vista, parecer descabidas neste momento em que mais apropriado seria apreciar o que se passou no XIX Portugal - Espanha, até mesmo porque, ao referir-me, a seu tempo, aos anteriores prélios, deveria ter abordado, também, e com maior clareza, o único ponto em que chegámos a ser superiores aos espanhóis: táctica de jogo. Porém, julguei ,mais aconselhável guardá-lo para agora, evitando, tanto quanto possível, repetições escusadas e, até, para que os elementos que me ajudarão a estabelecer certos pontos de contacto entre os jogos de então e os actuais, estejam mais vivos na memória de todos nós.

Ficou dito e, quanto a mim, sobejamente provado, que o futebol espanhol, no respeitante ao poder atlético e capacidade técnica dos seus jogadores, era muito superior ao nosso, superioridade que vinha sendo notada desde os tempos dos Zamoras, dos Regueiros, Langaras e tantos outros grandes futebolistas.

Durante muitos anos as duas equipas adoptaram processos tácticos idênticos, e como os espanhóis eram tecnicamente mais perfeitos, aliando à técnica, ou seja, à execução, um superior poder atlético, o prato da balança tinha, fatalmente, de pender para o seu lado. Mas à medida que o tempo foi passando e o futebol evoluindo, começou a notar-se que a anterior supremacia espanhola não era tão acentuada como em épocas mais distantes. É que os espanhóis acompanharam a evolução técnica do jogo e sempre cuidaram da preparação física dos seus atletas, mas mantiveram os mesmos processos tácticos, ao passo que os portugueses, melhorando um pouco no capítulo técnico do jogo, embora esbarrando com dificuldades de toda a ordem, não podendo, por isso, atingir o mesmo grau de perfeição técnica, valiam-se, de mistura com vontade e querer, de sistemas tácticos para dificultar a acção dos seus eternos rivais.

O futebol deu um grande passo em frente quando da alteração dás suas leis, relativamente ao “fora de jogo”, alteração que motivou o estudo e adopção do célebre WM de Chapman.

 

Abro aqui um parêntesis para esclarecer os leitores menos conhecedores, de que David Jack, antigo”jogador inglês e autor do livro intitulado “ Soccer”, afirma ter sido Buehatt o criador do WM e que Chapman apenas o passou dá teoria à prática.

Retomemos o fio da meada.

Algum tempo depois de já noutros países o WM ser um facto, os nossos orientadores técnicos e treinadores apadrinharam-no e as nossas equipas (qual delas a primeira?) passaram a utilizá-lo. A partir desse momento -com os espanhóis ainda arreigados às antigas tácticas - a selecção nacional portuguesa começou a impor-se e a baixar o nível de supremacia espanhola.

Cada equipa com suas qualidades e defeitos, entrámos no relvado do Estádio Nacional na tarde de 26 de Janeiro de 1947 para disputarmos o XIX Portugal - Espanha.

A Espanha perdeu e perdeu bem! O resultado de 4-1 dispensaria comentários ao jogo se os números, em futebol, não fossem, muitas vezes, enganadores, e, neste encontro, assim aconteceu. Derrotámos o adversário por 4-1, mas se no final do jogo o marcador acusasse um saldo a nosso favor de 6 ou 7 golos, não havia razão para se reclamar da justeza do resultado!

A turma espanhola era muito melhor do que as que defrontámos nos jogos empatados a duas bolas e, porventura, um tanto superior à apresentada na Corunha. Todos os jogadores se mostraram óptimos no controle da bola, no passe curto, jogo de cabeça, bom toque de bola e bons atletas. Mas num pormenor a equipa espanhola foi confrangedoramente inferior - pior até do que nos jogos anteriores: na “ Tácticà”. Começaram o jogo com a formação WM mas a breve trecho compreenderam não estarem à altura de prosseguir. Tentaram, depois, enquadrar-se no sistema táctico do adversário, o que de nada lhes valeu, evidentemente.

Em Espanha nenhuma equipa de clube utilizara, ainda, o WM e, sabido como é que as selecções nacionais são constituídas por elementos vindos das equipas de clube, como poderiam os jogadores espanhóis - por muito bons executantes que fossem - adaptar-se, em poucos minutos, a um processo de jogo que para eles era, apenas, conhecido em teoria? De maneira nenhuma - é a resposta. Foi um erro indesculpável do seleccionador espanhol.

Na meia dúzia de treinos que a equipa representativa da Espanha realizou, experimentou - ao que parece com bons resultados - o nosso já muito conhecido WM, impondo-o à equipa como se fosse para defrontar um conjunto desconhecedor do sistema ou de baixa valia!!! Os nossos amigos erraram no prognóstico, porque encontraram pela frente onze rapazes perfeitamente identificados e integrados no sistema que eles vinham experimentar!

O futebol não permite nem admite improvisações; os nossos adversários para este XIX encontro, não pensaram como nós e, por isso, desceram ao relvado com um sistema táctico improvisado, não tendo em consideração que os antagonistas, por mais experimentados, melhor saberiam tirar partido dessa improvisação… Uma táctica não pode assimilar-se de um momento para ó outro nem dela se tirará pleno rendimento, senão depois de um longo período de experiência e adaptação, maior ou menor conforme a inteligência e condição técnica dos jogadores da equipa.

Vistos os factos, analisados e ponderados à luz do que se passou neste Portugal - Espanha, provou-se a grande vitória dos modernos processos tácticos - WM e suas possíveis variantes - em contraposição aos antigos sistemas defensivos e atacantes. Este um dos aspectos curiosos do prélio de que vimos tratando.

E chegámos ao momento de tirar conclusões acerca dos jogos anteriormente disputados. Não é difícil concluir-se, pois, que os resultados conseguidos pela “equipa de todos nós” -e que não podem considerar-se maus de todo - não assentaram na maior valia do futebol português em relação ao do País vizinho, relativamente aos pormenores físico-atlético-técnicos do jogo. Apenas nos servimos de melhor processo de jogo e com ele pudemos disfarçar um pouco a nossa inferioridade atlético-técnica, mas daí a pensar-se em igualdade ou superioridade do nosso futebol em confronto com o dos espanhóis, vai um grandíssimo passo… Esta é a verdade, que suponho não poder sofrer contestação, pelo menos contestação séria…

Ora, ao referir-me a um anterior encontro entre as duas selecções, escrevi: Mas um dia virá em que os espanhóis encontrem pela frente uma equipa portuguesa atlético-técnico-tacticamente bem preparada. Se isso suceder, então os nossos vizinhos terão muito que contar… assim eles se mantenham agarrados aos antiquados processos de jogo!

Tal pensamento tornou-se, felizmente, em realidade, e a equipa de Espanha perdeu por 4-1, resultado lisongeiro para o nosso adversário, como já disse.

Pois é verdade; para este XIX Portugal - Espanha, foi possível, mercê de excepcional forma em que se encontravam os jogadores, formar-se uma selecção capaz de praticar bom futebol e de levar de vencida o nosso antagonista. Resumindo: Se em encontros anteriores a superioridade da equipa portuguesa foi notória no capítulo táctico do jogo, contra a superioridade atlético-técnica dos espanhóis, donde resultava, muito naturalmente, a supremacia do futebol do País vizinho em relação ao nosso, e uma vez a nossa equipa constituída por jogadores em óptima condição atlético-técnica comparável à dos adversários e tàcticamente a eles superiores, não foi algo difícil vencer por 4-1 essa equipa espanhola. E não foi só vencer: foi vencer e convencer, tanto os espanhóis como todos quantos assistiram a este encontro, da justeza do resultado conseguido pela nossa equipa nacional.

Desta feita pelo menos, o nosso futebol foi algo superior ao espanhol.

E assistiu-se, também, a uma esmagadora vitória dos modernos processos de jogo sobre os antigos…

 

E, agora, falemos um pouco de outros pormenores de equipa que, sem dúvida nenhuma, muito contribuíram para a boa exibição do conjunto português e que, por outro lado, destroçaram a equipa antagonista.

Desde há muito que os grupos espanhóis vinham adoptando o sistema de recuar um dos médios de ataque com o objectivo de reforçarem a guarda ao avançado-centro contrário, já de si confiada ao médio-centro. Por isso, não seria descabido admitir-se que, neste XIX Portugal - Espanha, o processo se manteria, muito embora estivéssemos prevenidos contra a hipótese de o adversário utilizar o WM como base de movimentação e colocação dos seus elementos no terreno. Mesmo assim, quanto a este pormenor, estávamos certos de que os espanhóis não confiariam a um só jogador o “policiamento” do eixo do ataque português e, por via disso, além do estudo e ponderação das forças e fraquezas do adversário, estudámos jogadas que facilitassem, quando bem executadas, a missão do ataque português. Assim, tendo em atenção o recuo do defesa central e de um dos médios de ataque da selecção espanhola, pensou-se em tirar todo o proveito possível da liberdade que tal plano de jogo daria, alternadamente, a cada um dos nossos interiores.

Os esquemas seguintes dão uma mais perfeita noção de como esperávamos que os espanhóis actuassem e do aproveitamento dessa circunstância:

o quadro n.° 1 indica-nos que toda a linha atacante da equipa portuguesa tem guarda à vista, excepto o nosso interior direito, que dispõe de liberdade total; vê-se, também, que o avançado-centro tem atrás de si o defesa-central e à frente o médio esquerdo adversários.

O quadro n.° 2 mostra-nos que o interior esquerdo português de posse da bola, a endossou ao seu companheiro da direita que correu na direcção da baliza contrária, ao mesmo tempo que o interior esquerdo, depois de ter passado o esférico ao seu companheiro, tomou, igualmente, o caminho das redes, deixando atrás dele o médio que o guardava. Entretanto, mais adiantado, o avançado-centro, no intuito de deixar terreno livre para a manobra do interior direito, desmarcou-se para este lado levando consigo o defesa-central - seu guarda permanente.

Por último, o quadro n.° 3, dá-nos o resultado final da jogada: vê-se que o médio esquerdo veio ao encontro do nosso interior direito e que este entregou a bola, rapidamente, ao seu colega da esquerda, mantendo o avançado-centro a mesma posição no flanco direito, obrigando o defesa central a não interferir na jogada, sob pena de falhar na missão que lhe foi imposta; e se o fizesse, deixaria o centro-avançado ém condições de receber o passe e alvejar a baliza.

Deste modo, ora Travassos, ora Araújo, dispuseram da liberdade suficiente para iniciarem e concluírem os ataques da equipa portuguesa, marcando, cada um, dois golos, mas toda a liberdade que lhes foi dada nasceu da preocupação da defesa espanhola que destacou os seus melhores elementos defensivos (2) para anularem a acção do avançado-centro português.

A ideia dos espanhóis, ao recuarem um dos seus médios, tinha como objectivo tirar ao avançado-centro adversário toda a possibilidade de rematar à baliza, contando e esperando que neste jogo, como nos outros, ele recebesse dos seus interiores passes longos, em profundidade que, invariàvelmente, seriam interceptados. Mas se já por três vezes caíramos nesse erro, não era de admitir a repetição e, por isso, se estudou o processo, aliás simples, de contrariar as intenções dos nossos adversários.

Os espanhóis sacrificaram dois elementos da defesa, pondo-os como sentinelas ao avançado-centro português; nós sacrificámos o nosso avançado-centro, impondo-lhe a tarefa de desorientar a defesa espanhola, desmarcando-se e levando atrás de si os seus dois guardas e deixando, por consequência, o terreno livre a Travassos e Araújo - autores dos quatro golos de Portugal. Tanto assim foi que, no final do encontro, o seleccionador, Dr. Tavares da Silva e o treinador Augusto Silva - dois bons amigos - felicitaram-me pela vitória e acrescentaram: - “Cumpriste o teu dever é certo, mas por teres sacrificado as tuas qualidades de bom rematador em favor do plano táctico da equipa, sem azedume nem egoísmo, aqui estamos a dar-te os merecidos parabéns. Da tua actuação resultou o óptimo rendimento dos nossos dois interiores (Travassos estava presente) que permitiu à equipa levar de vencida os espanhóis”.

Sem dúvida, cumpri o meu dever, esforçando-me por colaborar no bom rendimento da equipa; sabe bem, no entanto, verificar que que o nosso sacrifício é compreendido e apreciado.

O distinto jornalista José Olímpio - que não tenho o prazer de conhecer pessoalmente - escreveu o seguinte no jornal “A Bola” de, salvo erro, 27-1-947:

- “Olhe-se, por exemplo, os casos particulares de Zarra e de Peyroteo. Ao primeiro lance de olhos, ambos “fracassaram” (deixai o pobre do galicismo!) na sua missão especial: “marcar tentos”. No entanto, pondere-se nos diferentes resultados que a sua ida ao choque, deliberadamente, deu para suas equipas. Enquanto Zarra não conseguiu libertar, no verdadeiro instante, os seus interiores, graças à relativa perfeição “estratégica” do conjunto português, Peyroteo arrastou consigo toda a defesa espanhola. E disso beneficiaram os interiores”.

Depois, noutro lugar, o mesmo jornalista pergunta:

-”Onde estavam os interiores quando Peyroteo precisou deles?”

Pelo que ficou exposto, verificou-se que os interiores portugueses gozaram, alternadamente, de plena liberdade de manobra, e isso porque o médio espanhol a quem deveria caber a missão de guardar um dos nossos meias pontas, veio reforçar o “bloqueio” ao avançado-centro lusitano. Ora, dessa movimentação livre de Araújo e de Travassos nasceu a marcação dos quatro golos da nossa equipa. Deu resultado, portanto, o sistema táctico do conjunto da equipa das quinas, mas era lógico admitir, também, que os defensores espanhóis, mormente o médio que recuara, se apercebesse de que deveria cuidar um pouco mais do que até aí do nosso interior!!! E, na verdade, isso sucedeu. Assim, por ter sido hipótese prevista e esperada, assentou-se em que, a partir desse momento, melhor seria começar a utilizar-se o passe em profundidade ao avançado-centro, para terreno apropriado, visto dispor ele agora de maior liberdade. Esta uma hipótese, e, entre outras, mais esta: os interiores e médios lançariam os extremos e estes procurariam enviar a bola para o terreno central de modo a permitir a entrada do avançado-centro de frente para o esférico. Enfim, em tais circunstâncias, seria aconselhável procurar-se uma maior troca de passes de bola entre os cinco da frente, uma vez que os dois interiores já não dispunham da liberdade inicial de manobra. Por outras palavras: seria acertado procurar a colaboração do centro dianteiro de modo diferente daquele que em princípio se fez. E o que sucedeu? A esta pergunta respondeu já, por mim, José Olímpio. No entanto, quero acrescentar que, dentro do campo - e cá fora também - se começou cedo de mais a “viver”, a antegozar a certeza da vitória e se esqueceu o normal seguimento do jogo… É natural que assim tivesse acontecido; pois não era a primeira vez que se ganhava à Espanha?… E de que maneira!!!

Enfim, o que lá vai, lá vai, e o que é preciso é fazer desporto. Tudo o resto são… cantatas e paisagem…

A terminar, um episódio curioso: A Federação Portuguesa de Futebol, que estabelecera um prémio de 3.000$00 (três mil escudos) em caso de vitória da nossa equipa, acabou por aumentá-lo para 5.000$00 (cinco mil escudos)… Não teria sido por iniciativa própria, mas demonstrou boa vontade em atender uma “torcidazinba” feita pelos jogadores junto do Inspector dos Desportos Sr. Capitão António Cardoso, e deste nosso amigo - muito particularmente - aos dirigentes federativos… E ao fim e ao cabo, foram cinco mil escudos -o maior de todos os prémios que recebi em dezasseis anos de futebol! E sabem o que aconteceu? Para satisfazer os pedidos de bilhetes para este memorável XIX Portugal - Espanha, levantei na Federação a bagatela de quatro mil e quinhentos escudos de “papelinhos” de entradas no Estádio; depois, os amigos foram aparecendo, fui entregando os bilhetes e recebendo o dinheiro de cada um dos “clientes” - fora algumas borlas - escudos que fui gastando sem dar por isso… Quando me preparava para receber o chorudo prémio de cinco mil escudos, lembrei-me de que tinha de lá deixar quatro mil e quinhentos escudos. Quer dizer: o prémio não me serviu de proveito. 6 dinheiro recebido por “conta-gotas”, desaparece cómo o fumo dum cigarro. Não tive o prazer de receber, inteirinhos, os famigerados cinco mil escudos de prémio.

Sempre os bilhetes, meu Deus! Malvados bilhetes!!!»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 185 – 203

Em Tondela foi amargo…

Faz por esta altura 25 / 26  anos, andava eu no 2º ou 3º ano da faculdade, fui almoçar a casa de uma pessoa amiga a Tondela. Tinha sido imposto a essa amiga a ideia de que eu gostava particularmente de coisas doces. Fomos muito bem recebidos, por ela, pelos pais, o almoço foi agradável até à altura da sobremesa: mousse de chocolate.

Esta amiga gabava particularmente a mousse de chocolate que a sua mãe fazia e, tendo-lhe sido imposta essa ideia sobre mim, disse para a senhora sua mãe ser generosa da dose. E foi!

Confesso que nunca uma mousse de chocolate me foi tão intragável como aquela e, sentindo-me na obrigação de não fazer desfeita alguma aos anfitriões, lá fui comendo a contra-gosto e mentindo… dizendo que sim a mousse de chocolate era saborosa!!!

Memórias de Peyroteo (29)

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Das vinte vezes que fui convocado para representar Portugal em jogos internacionais de futebol, cinco foram contra a Espanha.

1.º - Em Lisboa, a 12 de Janeiro de 1941. Resultado: Empate 2-2;

2.º - Em Lisboa, a 11 de Março de 1945. Resultado; Empate 2-2;

3.° - Na Corunha, a 6 de Maio de 1945. Resultado: Derrota 2-4;

4.° - Em Lisboa, a 26 de Janeiro de 1947. Resultado: Vitória 4-1;

5.° - Em Lisboa, a 20 de Março de 1949. Resultado: Empate 1-1.

 

Nestes cinco encontros marcaram-se 21 golos, sendo 11 de Portugal e 10 da Espanha.

É curioso notar que embora se trate de número ímpar, cada equipa averbou 1 vitória, 3 empates e 1 derrota, ficando Portugal com a vantagem de 1 golo, pois marcou 11 e sofreu 10. Decerto, não será levado à conta de vaidade dizer que dos 11 tentos, 7 foram marcados por mim.

Se, quando eu era um rapazola de 13 ou 14 anos e jogava futebol na equipa dos miúdos da minha terra angolana, alguém me dissesse que ainda um dia vestiria a camisola dás quinas para um encontro internacional contra Espanha, eu duvidaria do estado mental do… bruxo! No entanto, a minha reacção ao escutar previsão semelhante mas referente a jogos contra quaisquer outras nações, como, por exemplo, a Itália, Alemanha, Suíça, etc., não seria a mesma que contra “nuestros hermanos”. É que, em Angola, mormente em Moçâmedes, não só a rapaziada adepta do-futebol mas todo o povo da terra, vibra intensamente com a realização dos jogos entre Portugal e a Espanha. Pode a equipa portuguesa jogar contra qualquer outra de categoria muito superior à dos espanhóis, que o caso não assume aspecto de acontecimento nacional.

Naquele tempo, as notícias referentes ao futebol metropolitano só chegavam a Moçâmedes quase um mês depois dos factos consumados, já quando, na Metrópole, o caso havia passado à história e ninguém se lembrava das “burrices” cometidas pelo seleccionador quando escolhera os jogadores, nem dos golos “perdidos infantilmente” ou da incapacidade de certo jogador “que já está velho mas tirou assinatura para a selecção…”. Em Angola líamos as notícias referentes ao jogo com tanto interesse como se ele se tivesse realizado na véspera, e daqui se conclui que, lá como cá, o Portugal - Espanha em futebol é sempre um grande acontecimento desportivo.

 

A 12 de Janeiro de 1941 disputar-se-ia em Lisboa mais um jogo de futebol entre as equipas representativas de Portugal e da Espanha. O bruxo de que eu duvidaria, acertou na previsão e a minha estreia neste grande encontro era, agora, uma realidade.

Nas duas ou três semanas que o antecederam não se falava noutra coisa; a procura de bilhetes era extraordinária e o campo das Salésias seria pequeno para acomodar quantos desejavam assistir ao prélio.

O seleccionador escolheu um lote de jogadores com o qual formaria a nossa selecção. Havia dúvidas na inclusão deste ou daquele elemento e alguns jornalistas da especialidade entregavam-se ao trabalho de discordar com o seleccionador quanto a escolha dos jogadores, mas o certo é que, no que me dizia respeito, todos estavam de acordo, felizmente…

Perturbado e enervado por ir jogar contra os nossos vizinhos espanhóis? Não, francamente não. Para mim, tratava-se simplesmente de um jogo internacional, com todas as responsabilidades inerentes a tais encontros sem, contudo, esquecer que perder ou ganhar são consequências lógicas do próprio jogo. No entanto, se é certo que o jogo em si não constituía razão suficientemente forte para me enervar, a verdade é que o público entusiasta do futebol, ao exigir, descabida e incompreensivelmente, do jogador aquilo que ele muitas vezes não pode dar, preocupava-me um tanto. De resto, sobre este assunto, já disse o que penso.

Afinal, o jogo disputado em 12 de Janeiro de 1941 não teve história, assinalando-se apenas que, ao contrário do habitual, em vez de perdermos, empatámos a duas bolas - dois tentos marcados por mim. E já que do encontro pouco ou nada resultou digno de registo, julgo oportuno aproveitar o ensejo para exteriorizar o que sempre pensei acerca do tão decantado complexo de inferioridade da equipa portuguesa quando em jogo contra o grupo nacional espanhol.

Matematicamente, o problema pode ser posto deste modo: em futebol, Portugal está para a Espanha assim como o Olhanense está para o Sporting.

Em primeiro lugar teremos de encontrar o motivo principal, justificativo dos desaires sofridos pela equipa algarvia quando jogava contra o Sporting e que era, sem dúvida, a comprovada diferença de categoria futebolística existente entre as duas equipas.

Que o Olhanense possuía, no meu tempo, alguns jogadores de grande valia é incontestável, mas a verdade manda que se diga que o Sporting estava melhor apetrechado. Ora, se são os bons jogadores que formam as boas equipas, não restam dúvidas de que a do Sporting era em muito superior à do Olhanense e, portanto, sem a menor hesitação, encontro a chave do problema: o Olhanense perdia com o Sporting porque o primeiro era inferior ao segundo.

Poderá argumentar-se que o Olhanense vencera equipas tão boas ou melhores que a do Sporting, mas esta observação não destrói, por completo, o meu ponto de vista e a finalidade a que pretendo chegar.

Reconhecido e provado que a turma algarvia era inferior à dos “leões”, procuremos outros factores concorrentes para inferiorizar a equipa de Grazina frente à de Álvaro Cardoso. Os jogos que os algarvios disputavam perante o público, na sua terra, ou os que realizavam em Lisboa contra qualquer equipa que não a do Sporting, despertavam sempre muito interesse na massa associativa do Clube, independentemente da vontade de vencer que animava os componentes da equipa, mas não estou em erro se afirmar que todos os adeptos do Olhanense não se importariam que a sua equipa mais representativa perdesse todos os jogos de um campeonato se tivessem a certeza de vencer o Sporting Clube de Portugal… Matariam o carneiro que hoje deve estar muito velhinho!!!

Os anseios e as reacções do público olhanense quando a sua equipa defrontava o grupo leonino, eram totalmente diferentes do que sucedia quando o adversário era, por exemplo, o Benfica, o Belenenses ou o Futebol Clube do Porto. Esse ardente desejo de vitória, o prazer e alegria que a derrota do Sporting lhes proporcionaria seria de tal modo forte e grande, que os dominava, os perturbava e fazia esquecer, até, a inegável diferença de categoria existente entre a equipa de que são adeptos e a adversária. Por isso, não poucas vezes, chegaram a gozar, antes da realização do encontro, o prazer de uma vitória que, afinal, embora estivesse plenamente ao seu alcance, se transformou em amarga derrota.

O jogador sabe de tudo isso porque vive o mesmo ambiente, vive dia a dia em contacto com a massa associativa do Clube, conhece os seus desejos, sente-os, vibra com eles e… enerva-se, perturba-se, excita-se mesmo sem o desejar. O jogador sabe, também, que a derrota trará, para os amigos do Clube, um profundo desgosto, e como não lhe bastasse já a responsabilidade do jogo em si, vem ainda a “responsabilidade” de alegrar e consolar a gente da sua querida terra. Embora alguns jogadores admitam a vitória tendo em atenção o melhor apetrechamento técnico, táctico e, porventura, físico do adversário, sentem que, se perderem o jogo, os seus adeptos não lhes desculparão a derrota; a semana seguinte será um pesadelo porque, a toda a hora e a todo o momento, ouvirão falar do desaire sofrido:-”O Olhanense perder outra vez com o Sporting? Então nunca mais ganhamos? Vê lá isso no próximo domingo! Não nos dês esse desgosto; atira-te a eles sem medo! Dá cabo deles; vocês têm que ganhar desta vez…

Ora bem ; chegámos ao ponto: Não será isto o que se passa nas semanas que antecedem um Portugal - Espanha? Não será verdade que se a Equipa Nacional perder um jogo contra a Suíça, a Itália ou o Egipto, o leitor se arrelia menos com isso do que se a rapaziada sofrer uma derrota da Espanha?

Com os jogadores da Selecção Nacional passa-se a mesma coisa do que com os futebolistas olhanenses: Todos ouvem aquelas frases e procuram afastá-las do pensamento mas, por muito fortes de espírito que sejam, não conseguem alhear-se por completo da onda de tristeza - às vezes indignação! - que o grande público fará levantar contra eles se perderem um jogo que “é preciso” ganhar!!! (Como é tão mal compreendida a ideia desportiva!!!) Sendo assim - e assim é na realidade - parece-me que o público contribue, sem querer, para a inferioridade da nossa equipa em jogo contra a Espanha, por que se esquece da inegável superioridade futebolística dos nossos vizinhos e crê, seguramente, na vitória. Chega o dia do jogo, vai para o campo de bandeirinha na mão, supondo que os jogos se ganham só com gritos de incitamento… Surgem as dificuldades, a equipa nacional não dá o “rendimento que se esperava”, baixam as bandeirinhas e ouvem-se os assobios! Que os espanhóis dispõem de um campo de recrutamento de jogadores muito maior do que o nosso; que são 100% profissionais há mais de uma vintena de anos; que mercê desses factos o seu futebol progrediu incomparavelmente mais do que o nosso; que a orgânica do futebol espanhol é muito superior à nossa e, por isso, lhes possibilitou a cuidada preparação de jovens com qualidades, fazendo deles excelentes praticantes da modalidade - de tudo isto o público se esquece lamentavelmente! Quer, deseja, quase exige que os nossos seleccionados façam o milagre de ganhar aos espanhóis!

As manifestações de simpatia dispensadas aos jogadores no decorrer dos jogos são necessárias, dão coragem e os rapazes sabem apreciá-las; apoiam-se nelas para fazerem mais e melhor, mas o ambiente de segura vitória que grande parte dos entusiastas da bola cria à volta do encontro, menosprezando o real valor do adversário e a ideia desportiva, é prejudicial ao público que as criou e aos jogadores. O pensamento de ganhar o jogo está não só no espírito do público como no dos componentes da equipa, mas com uma diferença: os adeptos da bola admitem a vitória como certa, ignorando - ou fingindo ignorar - que o adversário, regra geral, nos é superior; nós, os jogadores, vamos para o campo com vontade de ganhar o encontro, lutamos pela vitória até ao limite das nossas forças, mas não olvidamos o valor da equipa que defrontamos. Se assim sucedesse, o resultado, na maioria dos casos, seria catastrófico -ainda mais desagradável quanto o foram alguns registados nos jogos contra a Espanha.

É dever de ofício nenhum jogador e, consequentemente, nenhuma equipa ignorar o valor do adversário porque, ciente dele, procurará dar-lhe luta explorando os seus pontos fracos. O futebol é um jogo e em jogo tudo é possível.

Os resultados conseguidos anteriormente pela equipa das cinco quinas, pela expressão dos números, podem considerar-se bons e confirmam a “gloriosa incerteza do desporto”, mas não atestam a nossa superioridade técnica e física (preparação atlética). Nas tácticas sim, fomos superiores e, por isso mesmo, pudemos averbar resultados lisonjeiros. Na série de cinco jogos em que tomei parte verificou-se igualdade absoluta no que respeita a vitórias, empates e derrotas, com um golo a nosso favor. Mas os números são, muitas vezes, enganadores.

 

Nasceu triste o dia 12 de Janeiro de 1941, e a tarde era cinzenta, sem sol, antes de chuva impertinente. O campo das Salésias estava completamente cheio daquele público que tinha quase por certa a vitória da equipa nacional porque, em seu entender, os espanhóis estavam a jogar menos do que nós.

A marcha dos campeonatos em Espanha foi prejudicadíssima pela guerra civil que enlutou o País vizinho e amigo, mas à data do encontro que íamos disputar, já o seu futebol se encontrava em franco ressurgimento. A regularidade dos campeonatos oficiais havia trazido aos jogadores espanhóis o indispensável poder atlético e apuramento técnico. Tudo ou quase tudo voltara à normalidade, pelo que os nossos eternos grandes rivais no desporto, estavam bem preparados.

Quais os motivos para tão exagerado optimismo?

O nosso público tinha ainda bem presente na memória a fraca exibição da equipa espanhola que nos visitara dois anos antes, menosprezando, porém, este pormenor importante: em dois anos, ou melhor, em duas épocas, os espanhóis trabalharam a fundo pelo ressurgimento do seu futebol. Organizaram os campeonatos, disputaram muitos jogos e isso trouxe-lhes o que haviam perdido durante a guerra ^civil: força física e boa execução técnica.

É curioso anotar que se julgava possível a vitória dos portugueses mais pela inferioridade momentânea dos espanhóis, do que pela melhoria ou valor do futebol português, donde se conclui que sempre se considerou o futebol espanhol superior ao nosso…

Os “optimistas”, fazendo juízos errados, anteviam a hipótese de batermos… em mortos! Admitindo que assim sucedesse, para mim, pessoalmente, uma vitória nessas circunstâncias era destituída de valor.

A verdade, porém, é que, com os espanhóis a jogarem quase o seu normal, podiamos ter ganho o encontro de 12 de Janeiro de 1941. O estado do terreno, cheio de lama, prejudicou-nos muitíssimo, beneficiando os nossos adversários que, no seu País, jogam quase sempre em campos encharcados.

Registou-se um empate a duas bolas, tendo as duas equipas jogado francamente mal, não chegando a mostrar o seu valor. Na minha opinião, este encontro não nos deu ensejo para se ajuizar do valor do futebol espanhol nesse momento, mas julgo que não estavam a jogar menos do que nós, apesar das contrariedades e desgraças por que passaram. E que, embora com o terreno enlameado e, portanto, mau para se jogar bom futebol, os espanhóis mostraram-se muito superiores aos portugueses nos pormenores físico-técnicos do jogo, só falhando, como de costume, na organização táctica da equipa, do que resultou preciosíssima vantagem para o grupo português e que permitiu aos seus componentes esconderem um tanto as suas dificuldades técnicas com a liberdade de manobra de que dispunham.

Mas um dia virá em que os espanhóis encontrem pela frente uma equipa portuguesa físico-técnica-tacticamente bem preparada. Se isso suceder, então os nossos vizinhos terão muito que contar… Assim eles se mantenham agarrados aos antiquados processos de jogo!

Para a história desse encontro ficou anotado, nas críticas e comentários, que eu marquei um golo, mas nos apontamentos que possuo acerca da minha vida de futebolista, estão registados como marcados por mim os dois golos obtidos pela equipa nacional.

No jornal “Os Sports”, n.° 2,448, de 13 de Janeiro de 1941, escreveu o meu amigo e jornalista Manuel Mota:

“Carlos Pereira marca a penalidade com um pontapé dirigido directamente às redes. Echevarria defende, atrapalha-se coro a bola e larga-a para dentro da baliza. Quando Peyroteo, aliás oportuno, deu o pontapé, já a bola tinha ultrapassado a linha de “goal”.

Ora, em apontamento à margem do meu “carnet” onde se encontram anotados todos os golos que marquei, lê-se:

“Carlos Pereira atira à baliza, o guarda-redes espanhol larga a bola que caiu sobre o risco fatal, mas não o ultrapassou porque a lama prendeu o esférico. Eu, seguindo a marcha da bola, toqueia-a para dentro da baliza e, só então, o árbitro apitou para “golo”.

Não me foi atribuído um tento que, na realidade, marquei nesse jogo em que tudo me correu mal. Paciência! É um a menos na conta de muitas centenas…

Nesse mesmo número do jornal “Os Sports” um crítico da especialidade escreveu:

“Peyroteo, muito vigiado e sem domínio de bola, não conseguiu corresponder ao que dele se esperava A luta, por vezes irregular, que lhe deram os adversários, deve tê-lo perturbado um pouco…”

Só eu sei e só eu senti essa luta, por vezes irregular, e o desgaste físico causado por ela e pela lama…

Equipa portuguesa: Azevedo; Simões e Guilhar; Amaro, Carlos Pereira e Francisco Ferreira; Mourão, Pireza, Peyroteo, A. de Sousa (Pinga) e João Cruz.»

 

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 177 – 184

Verdes são os campos…

 (Campos do Mondego após a passagem da tempestade Leslie) (*)

 

Verdes são os campos,

De cor de limão:

Assim são os olhos

Do meu coração.

 

Campo, que te estendes

Com verdura bela;

Ovelhas, que nela

Vosso pasto tendes,

De ervas vos mantendes

Que traz o Verão,

E eu das lembranças

Do meu coração.

 

Gados que pasceis

Com contentamento,

Vosso mantimento

Não no entendereis;

Isso que comeis

Não são ervas, não:

São graças dos olhos

Do meu coração.

 

(Camões, por José Afonso)

 

(*) A nossa homenagem às populações afectadas!

 

Memórias de Peyroteo (28)

«PORQUE NÃO FOMOS AO BANQUETE?

 

Na 6.ª feira ou no sábado - vésperas do jogo - o nosso bom amigo e treinador Augusto Silva, procedeu à distribuição dos convites para o banquete a realizar no Avenida Palace Hotel. Lembro-me de que ao recebê-lo, alguns jogadores, no número dos quais me incluo, disseram:

- “Esperem lá por mim! Não sei falar inglês e os dirigentes portugueses decerto não terão prazer em falar-nos. Pelo menos assim o têm demonstrado!…

Depois do jogo, já no autocarro que nos transportaria ao Rossio, apareceu um dirigente para nos “lembrar” que o banquete era às 21 horas no Avenida Palace Hotel e um dos jogadores disse-lhe;

- “Quando quisemos falar consigo, nunca estava na Federação e agora vem lembrar-nos de que há banquete! Mas não tenha dúvidas de que não vou lá!…”

O facto de termos perdido por dez a zero foi o suficiente para se pensar que os jogadores não compareceram ao banquete por terem sofrido tão pesada derrota. Afirmou-se também que a equipa combinara não comparecer 1 Aqui está outra afirmação infundamentada, injusta e, porventura, maldosa. Ninguém combinou coisa alguma a este respeito, nem a derrota influiu na decisão individual tomada pelos componentes da equipa nacional.

O que não nos pareceu acertado foi:

1- A Federação arrecadar seis ou sete centenas de contos e os obreiros dessa receita receberem cem escudos - menos do que qualquer arrumador ou alugador de almofadas.

2.° - Que nos tivessem vendido os piores bilhetes de entrada no Estádio - para as nossas famílias e amigos.

A verdade pura é esta: se os jogadores tivessem merecido um pouco de consideração a alguns dirigentes federativos; se fossem resolvidos favorável ou desfavoravelmente os seus pedidos; se, enfim, os dirigentes federativos não tivessem andado a fugir de nos falar ou de nos atender quando fomos à Federação, posso garantir que mesmo perdendo por vinte a zero, os rapazes teriam ido ao banquete.

Quando o misto “B. S. B.” perdeu por dez a quatro com o S. Lourenzo de Almagro, no final do encontro, momentos antes de entrarmos para o autocarro que nos conduziria à Baixa, estivemos em amena cavaqueira com os argentinos. E se houve banquete -não me recordo - não creio que os portugueses tivessem faltado todos.

Sei até que dois ou três jogadores portugueses acompanharam os argentinos numa autêntica noite de folia por esta nossa encantadora Lisboa.

 

Todos estes factos culminaram com um inquérito efectuado pela Direcção-Geral dos Desportos e os componentes da equipa nacional de futebol foram castigados com três jogos de suspensão pela falta de desportivismo demonstrada com a não comparência ao banquete.

Sem dúvida, a Direcção-Geral dos Desportos teve razão. Sucedesse o que sucedesse, a verdade é que os futebolistas ingleses de nada foram culpados. Por isso, e só por eles, toda a nossa equipa deveria ter comparecido ao banquete de confraternização. Mais tarde, o castigo foi anulado, servindo-nos isso de consolação para tanta… desconsolação sofrida.

Quando fui ouvido pelo instrutor do processo de inquérito, procurei desculpar-me e aos meus camaradas, mas nada consegui porque, na realidade, faltámos ao banquete.

O que aconteceria se, nesse tempo, como jogador que era, tivesse atacado alguns dirigentes do nosso futebol?

Nem quero pensar nisso!

Agora o que podem dizer é que prestei falsas declarações mas até neste ponto só me cabe meia culpa; a outra meia pertence ao Sporting onde fui aconselhado a não dizer toda a verdade e tudo quanto sabia - como medida de prudência porque eu fazia falta ao clube. Era melhor calar, compreendem?

E foi assim, meus amigos: juro que não houve exigências de dinheiro, e que não combinámos faltar ao banquete. Cada um resolveu como lhe deu na real gana e… apanhou três jogos de suspensão.

A história completa deste Portugal - Inglaterra ainda será feita - se alguém quiser ou puder fazê-la. Por minha parte, acabou-se!

No fim de contas todos nós tivemos maiores ou menores culpas, desde os jogadores ao público que impiedosamente nos assobiou!…

Seja em desconto dos nossos pecados.»

 

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 176 – 177

Memórias de Peyroteo (27)

«ITÁLIA-PORTUGAL

 Itália, 4 - Portugal, 1

Génova, 27-2-1949

 

Formada por Barrigana; Virgílio, Feliciano e Serafim; Canário e Francisco Ferreira; Lourenço, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano - a equipa nacional de futebol desceu ao rectângulo para sofrer mais uma derrota. Ao fim dos 90 minutos o marcador acusava quatro para a Itália e um para Portugal!

Vitória justa? Punição merecida?

Ao terminar este jogo contra os italianos, recordei aquele outro encontro disputado anos antes, em Milão, contra a Suíça. Em ambos, as arbitragens tiveram preponderante influência nos resultados. O Sr. Mattea, árbitro do Portugal - Suíça, fez tudo quanto podia para “liquidar” o nosso grupo e com uma arbitragem cuja nota saliente foi a flagrante parcialidade a favor dos suíços, conseguiu o seu desejo.

Agora, a 27 de Fevereiro de 1949, no Estádio de Génova, o francês Sr. Sdez, imitou muito bem o seu colega… Não dirigiu o encontro - como lhe competia - preferindo trabalhar a favor da “squadra azzurra”…

Com esta referência não procuro, de modo algum, diminuir ó valor da equipa da Itália nem ofuscar o mérito da sua vitória, mas não me custa admitir que, com uma arbitragem imparcial, o grupo português não tivesse dado melhores provas do seu valor. Remámos contra a maré, até que a descrença nos invadiu, muito embora o público e os próprios críticos desportivos não se apercebessem do nosso desânimo.

A Itália apresentou um grupo equilibrado, um conjunto de bons elementos, atlèticamente bem preparados e bons conhecedores do sistema táctico WM. É inegável terem jogado melhor do que nós, portugueses, mas o resultado poderia ter sido outro…

Ao intervalo Portugal ganhava por 1-0.

No princípio do segundo tempo Barrigana não teve sorte em dois lances - e sofremos dois golos. Feliciano magoou-se e foi “destacado” para o lugar de extremo; esta alteração e a péssima arbitragem do Sr. Sdez abalaram a moral da equipa. Depois… tudo nos correu pelo pior!

A equipa italiana foi superior à nossa, merecendo a vitória sem discussão. Esteve em tarde feliz e mesmo sem a ajuda do árbitro teria ganho a partida, porque jogou mais e melhor.

Admito, sem reservas, que qualquer árbitro cometa erros, mas do- erro involuntário à evidente parcialidade, vai um Mundo de coisas! A parcialidade, nestes casos, cheira a uma coisa muito feia; desonestidade!

 

 

PORTUGAL - INGLATERRA

Portugal, 0 - Inglaterra, 10

Estádio Nacional, 25-5-1947

 

Precisamente na época de 1946/47, quando a Selecção Nacional era constituída por um lote de jogadores em óptima condição física, formando um conjunto de boa capacidade atlética-técnico-táctica, e por isso mesmo, conseguiu as duas primeiras grandes vitórias, que ficaram como mais uma página gloriosa na História do Futebol Por- tugês-batemos a Espanha, em Lisboa por 4-1 e ganhámos à Irlanda, em Dublin, por 2-0 - foi precisamente nessa época que sofremos a mais severa punição em jogos internacionais: Inglaterra, 10 - Portugal, 0.

Uma desilusão! Era lícito esperar-se que no desafio com os mestres ingleses a nossa equipa desse melhor conta de si, ainda que não se esperasse mais uma vitória da turma lusitana porque, na craveira do futebol mundial, os ingleses estavam muito acima de nós, mas como o futebol é um jogo, esse facto permitia acalentarmos esperanças, ainda que fossem vãs, de ganhar aos futebolistas da Velha Albion. Contudo, ninguém pensava na derrota por dez golos sem resposta nem nós, jogadores, julgávamos vir a sofrê-la, muito embora reconhecessemos o valor do adversário e soubéssemos qual a diferença de categoria individual e força de equipa que existia entre as duas turmas. Mesmo assim, não descemos ao rélvado do Jamor antecipadamente batidos, pois todos quantos jogam futebol sabem que nem sempre ganha o melhor…

Está ainda vivo na memória de todos nós aquele jogo em que o Tirsense bateu o Sporting, eliminando-o da Taça de Portugal, desafio em que, felizmente, não tomei parte.

Após os 90 minutos do “Portugal - Inglaterra”, a nossa derrota foi glosada em vários tons. Os “especialistas”, na crítica ao jogo, fizeram as suas considerações, algumas acertadas e comedidas, pondo o dedo na ferida: a incontestável diferença de classe futebolítica.

Também se afirmou que os ingleses jogaram excepcionalmente bem - talvez como poucas vezes o tivessem feito - e a equipa nacional portuguesa, já de si inferior, jogara muito menos do que podia, sabia e estava ao seu alcance. Mas, como sempre acontece, a par dos comentários acertados, fervilharam os boatos tendenciosos, mal intencionados, acerca do comportamento dos jogadores no estágio, em Venda do Pinheiro, chegando ao cúmulo de se dizer que os rapazes haviam feito exigências de dinheiro e, porque a Federação os não atendera, tinham entrado no rectângulo dispostos a jogar para perder, desinteressados do resultado.

Nada há mais falso! Garanto que não houve exigências de espécie alguma. O que se passou pode considerar-se simples e natural nos nossos acanhados meios de incompreensivelmente fingido profissionalismo futebolístico, conta-se em poucas palavras:

Todos nós conhecíamos o valor era “força” da equipa adver- sária, não ignorando as nossas possibilidades. Jogador por jogador, equipa por equipa, admitindo que cada um dos contendores jogasse o seu normal, fácil seria advinhar qual viria a ganhar a partida.

Aos leigos pode parecer que só isto era o suficiente para nos considerarmos batidos no rectângulo, uma vez, que já o estávamos psicologicamente. Mas não levemos as coisas ao exagero; pensemos que os jogadores internacionais não são uns inexperientes nestas andanças da bola. Ter-se na devida conta não só valor do adversário como o nosso próprio valor, não equivale a pensar-se em derrota pura e simples.

Ora, o conhecimento da incontroversa verdade quanto à maior valia da equipa inglesa (quem ousaria negá-la?) levou-nos a pensar não ser desacertado - sem pecado ou crime - pedir ao Seleccionador a sua intervenção, de modo a conseguir que os dirigentes federativos atribuíssem à equipa um “prémio de presença” em jogo internacional e o pedido foi feito por intermédio do nosso capitão de equipa. Portanto, sem mal intencionados atropelos, foi respeitada a escala hierárquica e a ideia teria morrido à nascença se o Seleccionador não estivesse de acordo. Mais tarde disse-nos já ter falado e que os dirigentes haviam prometido “estudar o assunto”. Não se falou mais no caso e aguardámos.

Onde está, pois, a exigência?

Os jogadores sabiam só terem prémio se ganhassem ou empatassem com os mestres ingleses. Em caso de derrota - que seria o mais provável - apenas receberiam cem escudos, ou seja, o valor de uma diária. Quero dizer: os jogadores recebiam, quando em estágio, cem escudos por dia e se perdessem o jogo com os ingleses só teriam direito ao equivalente a mais de um dia de estágio!

Exigência dos jogadores ou incompreensão alheia?

Se fosse de admitir que a organização do jogo acarretaria “déficit” para a Federação, nem sequer nos atreveríamos a pedir um “prémio de presença”. Mas todos nós sabíamos que muitos dias antes do desafio já a lotação do Estádio Nacional estava esgotada; por consequência, o nosso pedido ordeiro era de considerar.

Entretanto, a Federação começou a distribuir pelos jogadores os bilhetes por eles requisitados em tempo oportuno e desde logo verificámos haver reduções de tal ordem que alguns jogadores recebiam menos de metade dos bilhetes pedidos … para pagar!

Até certo ponto concordei com os “cortes” por saber que a serem atendidos todos os pedidos, a Federação teria de reservar mais de um milhar de entradas só para os sectores denominados “cabeceiras”. Mas a verdade é que, nalguns casos, houve exagero de tesourada, embora se argumentasse, para justificar as reduções, que a lotação se esgotara rapidamente…

A rapaziada exteriorizou o seu desgosto quando recebeu quase metade dos bilhetes requisitados, não só porque desejava servir todos quantos neles depositaram confiança em conseguir a almejada entrada no Estádio do Jamor e ainda porque os que ficavam sem bilhete só admitiam a hipótese de terem sido preteridos por outros mais amigos.

E assim começou a confusão.

Os menos calmos diziam que se todos nós fizéssemos o mesmo, rejeitariam os bilhetes, mas como as opiniões se dividiam, cada um ficou com a quantidade que lhe coube, e apresentamos ao seleccionador a reclamação que julgámos ser justa.

Disse-nos ter falado com os dirigentes mas o certo é que tudo ficou na mesma, salvo um ou outro caso isolado.

Mas o pior aconteceu quando a rapaziada verificou os lugares que lhe foram distribuídos, tanto de cabeceira como de bancada central ou lateral. Apesar de pagarmos como qualquer outro comprador, os lugares eram dos piores: os da bancada central eram junto da lateral e estas o mais próximo possível das cabeceiras! Mesmo ao “avançado-centro” distribuíram bilhetes “às pontas”!

Deste modo, os jogadores pagaram autênticas bancadas laterais ao preço da central e as “quase cabeceiras” pelo custo de bancadas laterais! E pagaram - é bom não esquecer isto.

Estava provado que as famílias e amigos dos jogadores não mereciam tão bons lugares como qualquer comprador de ocasião. Além de tudo isto, ainda apareceram, no estágio, algumas pessoas exibindo bilhetes dos melhores sectores…

Para reclamarmos procurámos qualquer dirigente federativo mas nenhum aparecia, ou se aparecia dava-nos respostas evasivas como esta: “-Vamos ver o que se pode fazer, mas vai ser difícil, porque na Federação há apenas umas dúzias de bilhetes marcados por pessoas que já sabem quais os lugares que lhes foram destinados; vamos a ver…”

Entretanto, começaram a chegar ao estágio os “clientes” dos jogadores e ao saberem que os bilhetes não chegavam para todos, mostravam-se aborrecidos, não acreditando no que dizíamos. Não havia forma de os convencer, chegando-se a trocar palavras pouco amáveis que tinham influência desastrosa no espírito de alguns jogadores em vésperas de tão importante desafio.

Após um dos últimos treinos alguns seleccionados foram à Federação, mas um funcionário superior informou não estar presente qualquer director, mas quando íamos a sair entrou um que amavelmente nos cumprimentou e seguiu para o seu gabinete mostrando assim não querer demorar-se em conversa conosco. Procurámos entrar novamente em contacto com o funcionário superior que nos atendera, mas isso levou seu tempo pois mandou recado pedindo-nos para esperar. Cerca de 15 minutos depois apareceu e com a maior naturalidade perguntou:

- “O que desejam?”

- “Teríamos muito empenho em  falar com o director que entrou há pouco. De resto o senhor já sabia o que pretendíamos…

- “Pois é, mas o director quê entrou há bocadinho já saiu!

- “Então o senhor sabia que desejávamos falar-lhe e não lhe disse nada?”

- “Não; não disse, porque me passou de ideia!

Estamos todos a entender, não é verdade? Decerto não teria havido receio de sermos portadores de qualquer doença contagiosa… Verificada a impossibilidade de entrarmos em contacto com os dirigentes que tratavam da distribuição de bilhetes, resolvemos fazer o nosso rateio e atender os amigos na medida do possível, não sem nos sentirmos descontentes e vexados com a forma pouco atenciosa como estávamos sendo tratados. Numa última tentativa recorremos ao seleccionador mas este, embora dando-nos razão e querendo ajudar, nada podia fazer. Estávamos em presença de um facto consumado.

Ora este estado de coisas não podia, de modo algum, contribuir para a boa e indispensável disposição dos jogadores e foi precisamente a má disposição em que se encontravam que motivou nova diligência recordando o pedido de “um prémio de presença”. Mais uma vez o Dr. Tavares da Silva nos disse ter falado, novamente, com os dirigentes federativos mas que até ao momento nada se resolvera. Nem sim, nem não - antes pelo contrário…

Na noite de sexta-feira anterior ao jogo, Álvaro Cardoso, capitão da equipa, recomendou que não mais se falasse em bilhetes nem em dinheiro. Todos nós nos devíamos entregar apenas à ideia de que no domingo iríamos defrontar uma poderosa equipa de futebol. A camisola das quinas estava acima de todas as questões e nós como desportistas só devíamos pensar em defende-la com todas as nossas forças e saber.

Todos cumprimos, mas a verdade é que não eram boas as relações existentes, nesse momento, entre jogadores e alguns dirigentes federativos. Não era bom o estado de espírito da equipa nacional.

No entanto, todos nós teríamos ficado satisfeitos se a Federação tivesse mostrado desejo, por mais insignificante que fosse, em resolver os nossos problemas. Bastaria para tanto que nos tivessem dado uma simples explicação acerca do motivo por que aos jogadores foram distribuídos , tão maus lugares. E é possivel que nesse capítulo a razão estivesse do lado dela - Federação. Mas não se dignaram dizer-nos uma única palavra de conforto moral; não lhe merecemos a consideração de qualquer resposta aos pedidos feitos por intermédio do Seleccionador, Dr. Tavares da Silva!

É vexatório,' não é? Mas foi assim; paciência!

É necessário esclarecer - repetindo - que ao solicitarmos um “prémio de presença” para o encontro Portugal - Inglaterra, tivemos o cuidado de salientar que se tratava de uma sugestão com a qual, evidentemente, a Federação podia não concordar, e sendo assim, não falaríamos mais no caso, exactamente para que um simples pedido não fosse tomado (?) por exigência.

Mas o silêncio que se fez em volta do nosso pedido não fazia crer nem supor que alguém lhe atribuíra foros de exigência. Dou a minha palavra de honra que isso nunca esteve no espírito dos jogadores e se qualquer dirigente nos tivesse informado da interpretação (errada aliás) que estavam dando ao nosso pedido, afirmo categoricamente que os jogadores não mais falariam nele.

Daqui resultou, como não podia deixar de ser, uma frieza dos seleccionados para com alguns dirigentes federativos; e comentava-se:

- “Eles não nos nos ligaram importância e, portanto, se vierem aqui ao estágio hoje ou amanhã (véspera e ante-véspera do jogo) não falaremos nos bilhetes nem no prémio, mas também não lhes ligaremos nenhuma…”

Era este o estado de espírito dos jogadores e não se pode dizer que fossem eles os principais culpados.»

 

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 170 – 176

Para análise....

«Caros Consócios do Sporting Clube de Portugal,

Sem prejuízo de nos mantermos sempre disponíveis para, com a dignidade reposta, obter os necessários consensos em prol dos superiores interesses do Sporting Clube de Portugal, são factos irrefutáveis que:

a) apesar de termos, literalmente, dado o peito às balas e de o tribunal ter decidido a ilegalidade/extemporaneidade de qualquer ato eleitoral antes de decididas as questões disciplinares criadas pelas duas putativas comissões de JMS, nada foi capaz de evitar que as eleições acontecessem;

b) não obstante neste ultimo acto eleitoral muitos associados terem, em consciência, acabado por decidir não participar, milhares de outros votaram, - facto que lamentamos mas respeitamos -, os nossos Advogados alertam-nos que estamos juridicamente vinculados a impugnar todos os actos que decorram ou sejam tomados na sequência das ilegalidades cometidas, sob pena de impossibilitar a nossa defesa da honra, e da condição de Sócios de pleno direito do Sporting Clube de Portugal;

c) temos direito à nossa Defesa (como qualquer humano neste mundo) pelo que não abdicaremos de garantir a nossa "absolvição" total, em qualquer procedimento ou processo ilegal em que fomos ou sejamos visados;

d) a defesa da nossa honra e da nossa dignidade em face das ilegais acções/sanções disciplinares exigem, inevitavelmente, continuarem as acções judiciais em curso, pois que o seu abandono enfraqueceria substancialmente a possibilidade de êxito, na "batalha" judicial contra as referidas acções/sanções disciplinares, por conformação com actos ilegais originários naquelas.

Por outras palavras:

- nós, Bruno de Carvalho e Alexandre Godinho, que desde 2013 tanto demos ao Clube no plano financeiro, no plano patrimonial, e no desportivo devolvendo o orgulho ao Universo Sportinguista, não podemos abandonar a defesa da nossa honra e da nossa dignidade, nem podemos tolerar que ilegalidades se traduzam na humilhação e na degradação irreparável da nossa imagem pública, da nossa dignidade humana e da nossa qualidade profissional;

- e de acordo com os nossos Advogados, por nada nos pressupostos que inadvertidamente nos empurraram para este dia se ter alterado, não podemos desistir da "guerra" jurídica relativa à farsa da destituição e à farsa eleitoral que se encontra consumada, especialmente por ainda nada se saber sobre a intenção e solução que esta nova direcção tenciona implementar para solucionar as gravíssimas e tão negativamente consequentes ilegalidades e irregularidades praticadas.

Por último não podíamos deixar de dar uma palavra de extremo apreço e agradecimento a todos os Sportinguistas que apoiaram activamente ou indirectamente o Movimento "Feitos de Honra. Leais ao Sporting!" e a Onda Verde com multidões leoninas que nos receberam e acompanharam de Norte a Sul do País, bem como na Ilha de São Miguel nos Açores (não tendo sido possível em tempo útil ir à Madeira, o que lamentamos) – Vocês São o Sporting CP e o Sporting CP também é feito de Vocês!

Viva o Sporting Clube de Portugal!!!

Bruno de Carvalho, Sócio nº 14.868
Alexandre Godinho, Sócio nº 15.963»

 

In: https://www.abola.pt/nnh/Noticias/Ver/750143

Memórias de Peyroteo (26)

(retomo)

 

(cont.)

 

«NEM À HORA DA MORTE!….

 

A linha média da Selecção Portuguesa, que deveria jogar em Basileia, no encontro Suíça-Portugal, em 20 de Maio de 1945, constituía sério problema para o seleccionador nacional, Dr. Tavares da Silva.

Eis a incógnita:

O Moreira foi um dos nossos médios de ataque que melhor sabia enviar a bola aos seus companheiros da frente. Nisto não há a mínima parcela de elogio imerecido. Afirmo-o com toda a consciência do que digo e falo em nome da experiência própria.

Porém, catorze dias antes quando, na Corunha, se disputou o jogo contra a Espanha (6 de Maio de 1945) o Moreira revelou certas dificuldades na “marcação” do adversário à sua guarda.

Por isso mesmo e ainda por virtude da chuva que caira na noite anterior ao jogo e encharcara ó terreno, o Dr. Tavares da Silva considerou a hipótese de, contra a Suíça, substituir o Moreira pelo Barrosa.

A constituição definitiva da equipa só nessa noite nos foi comunicada, numa reunião em conjunto, na qual o Dr. Tavares da Silva disse:

- “A equipa de Portugal entra no rectângulo com a seguinte constituição- e citou os nomes dos jogadores, incluindo o Barrosa.

Rematou desta forma: “E joga o Barrosa, não por o considerar melhor do que o Moreira, mas porque o estado do terreno, muito escorregadio, aconselha a utilização de um elemento de carac- terísticas diferentes das do Moreira…”

Naturalmente que o Moreira não gostou, o que, aliás, sucede com todos os jogadores, porque nenhum gosta de ficar a ver o jogo I Pelo contrário, todos desejam defender as cores da camisola das cinco quinas.

Mas o seleccionador assim o decidira, não havendo, pois, mais nada a discutir. As ordens cumprem-se!

Decerto o Moreira não dormiu toda a noite, facto que se daria comigo em iguais circunstâncias. Jogador da melhor têmpera, homem que sentia o jogo, com ele vibrava e gostava, sinceramente, do futebol, não achou bem que o Dr. Tavares da Silva o substituísse pelo Barrosa.

Intimamente estava convencido de que era melhor do que o seu substituto. Ele tinha a sua opinião mas o seleccionador via o problema de maneira diferente.

Ora, na manhã do grande encontro, ainda muito cedo, o Dr. Tavares da Silva que, decerto, tal como o Moreira, não dormira bem, saiu do seu quarto a fim de dar um passeio, aproveitando a frescura da manha, mas reparou que no átrio do Hotel, sentado num “maple”, estava o Moreira, com cara de poucos amigos…

O seleccionador apercebeu-se donde provinha a sua disposição, o ar tristonho e o aborrecimento do nosso bom camarada Moreira, e resolveu ir conversar com ele, para o animar.

Dirigindo-se-lhe, disse:

- “Deixa lá isso, Moreira. Não penses mais no caso. Hoje joga o Barrosa, noutro desafio jogas tu. O futebol é assim. Não te aborreças…”

O Moreira ouviu tudo sem encarar o Dr. Tavares da Silva mas quando este acabou o “discurso”, o nosso famoso médio de ataque levantou a cabeça, fixou bem o seleccionador e tal como se falasse a um* inimigo, respondeu:

- “O senhor poderá ter muita razão mas tome bem nota disto: O Barrosa, nem à hora da morte, há-de passar tão bem a bola à linha da frente como eu! Ouviu bem? Pois é isto mesmo que lhe digo!…

Duas horas depois e quando a rapaziada apareceu no “hall” o Dr. Tavares da Silva queria mas não conseguia contar o que o Moreira lhe havia dito. Ria-se de tal maneira que pouco se entendia. Desejava contar mas o riso, as gargalhadas francas e alegres, não o deixavam articular uma palavra completa.

Só mais tarde conseguiu contar a “ocorrência”…

Não se pode negar certa graça e profundeza na imagem do Moreira:

- “O Barrosa, nem à hora da morte…

Mas o Moreira tem, ainda, melhor. Aquela dos pés elásticos em vez do “slip” é de sonho. Pena é que a não possa contar.»

 

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 169 – 170

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