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És a nossa Fé!

Para análise....

«Caros Consócios do Sporting Clube de Portugal,

Sem prejuízo de nos mantermos sempre disponíveis para, com a dignidade reposta, obter os necessários consensos em prol dos superiores interesses do Sporting Clube de Portugal, são factos irrefutáveis que:

a) apesar de termos, literalmente, dado o peito às balas e de o tribunal ter decidido a ilegalidade/extemporaneidade de qualquer ato eleitoral antes de decididas as questões disciplinares criadas pelas duas putativas comissões de JMS, nada foi capaz de evitar que as eleições acontecessem;

b) não obstante neste ultimo acto eleitoral muitos associados terem, em consciência, acabado por decidir não participar, milhares de outros votaram, - facto que lamentamos mas respeitamos -, os nossos Advogados alertam-nos que estamos juridicamente vinculados a impugnar todos os actos que decorram ou sejam tomados na sequência das ilegalidades cometidas, sob pena de impossibilitar a nossa defesa da honra, e da condição de Sócios de pleno direito do Sporting Clube de Portugal;

c) temos direito à nossa Defesa (como qualquer humano neste mundo) pelo que não abdicaremos de garantir a nossa "absolvição" total, em qualquer procedimento ou processo ilegal em que fomos ou sejamos visados;

d) a defesa da nossa honra e da nossa dignidade em face das ilegais acções/sanções disciplinares exigem, inevitavelmente, continuarem as acções judiciais em curso, pois que o seu abandono enfraqueceria substancialmente a possibilidade de êxito, na "batalha" judicial contra as referidas acções/sanções disciplinares, por conformação com actos ilegais originários naquelas.

Por outras palavras:

- nós, Bruno de Carvalho e Alexandre Godinho, que desde 2013 tanto demos ao Clube no plano financeiro, no plano patrimonial, e no desportivo devolvendo o orgulho ao Universo Sportinguista, não podemos abandonar a defesa da nossa honra e da nossa dignidade, nem podemos tolerar que ilegalidades se traduzam na humilhação e na degradação irreparável da nossa imagem pública, da nossa dignidade humana e da nossa qualidade profissional;

- e de acordo com os nossos Advogados, por nada nos pressupostos que inadvertidamente nos empurraram para este dia se ter alterado, não podemos desistir da "guerra" jurídica relativa à farsa da destituição e à farsa eleitoral que se encontra consumada, especialmente por ainda nada se saber sobre a intenção e solução que esta nova direcção tenciona implementar para solucionar as gravíssimas e tão negativamente consequentes ilegalidades e irregularidades praticadas.

Por último não podíamos deixar de dar uma palavra de extremo apreço e agradecimento a todos os Sportinguistas que apoiaram activamente ou indirectamente o Movimento "Feitos de Honra. Leais ao Sporting!" e a Onda Verde com multidões leoninas que nos receberam e acompanharam de Norte a Sul do País, bem como na Ilha de São Miguel nos Açores (não tendo sido possível em tempo útil ir à Madeira, o que lamentamos) – Vocês São o Sporting CP e o Sporting CP também é feito de Vocês!

Viva o Sporting Clube de Portugal!!!

Bruno de Carvalho, Sócio nº 14.868
Alexandre Godinho, Sócio nº 15.963»

 

In: https://www.abola.pt/nnh/Noticias/Ver/750143

Memórias de Peyroteo (26)

(retomo)

 

(cont.)

 

«NEM À HORA DA MORTE!….

 

A linha média da Selecção Portuguesa, que deveria jogar em Basileia, no encontro Suíça-Portugal, em 20 de Maio de 1945, constituía sério problema para o seleccionador nacional, Dr. Tavares da Silva.

Eis a incógnita:

O Moreira foi um dos nossos médios de ataque que melhor sabia enviar a bola aos seus companheiros da frente. Nisto não há a mínima parcela de elogio imerecido. Afirmo-o com toda a consciência do que digo e falo em nome da experiência própria.

Porém, catorze dias antes quando, na Corunha, se disputou o jogo contra a Espanha (6 de Maio de 1945) o Moreira revelou certas dificuldades na “marcação” do adversário à sua guarda.

Por isso mesmo e ainda por virtude da chuva que caira na noite anterior ao jogo e encharcara ó terreno, o Dr. Tavares da Silva considerou a hipótese de, contra a Suíça, substituir o Moreira pelo Barrosa.

A constituição definitiva da equipa só nessa noite nos foi comunicada, numa reunião em conjunto, na qual o Dr. Tavares da Silva disse:

- “A equipa de Portugal entra no rectângulo com a seguinte constituição- e citou os nomes dos jogadores, incluindo o Barrosa.

Rematou desta forma: “E joga o Barrosa, não por o considerar melhor do que o Moreira, mas porque o estado do terreno, muito escorregadio, aconselha a utilização de um elemento de carac- terísticas diferentes das do Moreira…”

Naturalmente que o Moreira não gostou, o que, aliás, sucede com todos os jogadores, porque nenhum gosta de ficar a ver o jogo I Pelo contrário, todos desejam defender as cores da camisola das cinco quinas.

Mas o seleccionador assim o decidira, não havendo, pois, mais nada a discutir. As ordens cumprem-se!

Decerto o Moreira não dormiu toda a noite, facto que se daria comigo em iguais circunstâncias. Jogador da melhor têmpera, homem que sentia o jogo, com ele vibrava e gostava, sinceramente, do futebol, não achou bem que o Dr. Tavares da Silva o substituísse pelo Barrosa.

Intimamente estava convencido de que era melhor do que o seu substituto. Ele tinha a sua opinião mas o seleccionador via o problema de maneira diferente.

Ora, na manhã do grande encontro, ainda muito cedo, o Dr. Tavares da Silva que, decerto, tal como o Moreira, não dormira bem, saiu do seu quarto a fim de dar um passeio, aproveitando a frescura da manha, mas reparou que no átrio do Hotel, sentado num “maple”, estava o Moreira, com cara de poucos amigos…

O seleccionador apercebeu-se donde provinha a sua disposição, o ar tristonho e o aborrecimento do nosso bom camarada Moreira, e resolveu ir conversar com ele, para o animar.

Dirigindo-se-lhe, disse:

- “Deixa lá isso, Moreira. Não penses mais no caso. Hoje joga o Barrosa, noutro desafio jogas tu. O futebol é assim. Não te aborreças…”

O Moreira ouviu tudo sem encarar o Dr. Tavares da Silva mas quando este acabou o “discurso”, o nosso famoso médio de ataque levantou a cabeça, fixou bem o seleccionador e tal como se falasse a um* inimigo, respondeu:

- “O senhor poderá ter muita razão mas tome bem nota disto: O Barrosa, nem à hora da morte, há-de passar tão bem a bola à linha da frente como eu! Ouviu bem? Pois é isto mesmo que lhe digo!…

Duas horas depois e quando a rapaziada apareceu no “hall” o Dr. Tavares da Silva queria mas não conseguia contar o que o Moreira lhe havia dito. Ria-se de tal maneira que pouco se entendia. Desejava contar mas o riso, as gargalhadas francas e alegres, não o deixavam articular uma palavra completa.

Só mais tarde conseguiu contar a “ocorrência”…

Não se pode negar certa graça e profundeza na imagem do Moreira:

- “O Barrosa, nem à hora da morte…

Mas o Moreira tem, ainda, melhor. Aquela dos pés elásticos em vez do “slip” é de sonho. Pena é que a não possa contar.»

 

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 169 – 170

Preocupação

Existem duas características identitárias no nosso clube que nos enche de orgulho enquanto sportinguistas:

- a formação, no futebol;

- o ecletismo das modalidades.

Nas modalidades a marca de Moniz Pereira é incontornável deixando a saudável herança de que o sucesso se obtém através de trabalho, trabalho, trabalho e não através de “compra” de atletas estrangeiros para assim atalhar o sucesso.

Esta é uma característica do Sporting.

Na formação, a imagem de marca é Aurélio Pereira. Não vou repetir muito daquilo que deve ser a orientação do clube, destaco em particular os textos de Pedro Azevedo aqui publicados que, se me permite, faço meus. Porém deixo uma interrogação.

Os tristes episódios do dia 15 de Maio e as suas consequências têm que ser motivo de profunda reflexão, principalmente ao nível do impacto que possa ter tido ao nível da formação. Recordo que de todos os jogares que rescindiram após o 15 de Maio só regressaram aqueles que não eram oriundos da formação.

Não vou questionar as razões que cada um destes jogadores tiveram para a rescisão, porém vem-me à memória episódios anteriores a estes de pessoas que se serviram da formação do Sporting como se de um salto de trampolim se tratasse.

Qual a formação que queremos para o nosso clube?

 

Deixo a pergunta para os candidatos à presidência e recordo as palavras de Manolo Vidal, a propósito de um desses “trampolinistas”: «Estamos a fazer um exame de consciência, porque de certeza absoluta que formámos um grande jogador mas não conseguimos formar uma pessoa com carácter».

Infelizmente o tempo disse que o clube não fez, para a formação, esse exame de consciência.

Já cheira! – parte 2

Aproveitando a dica do André Fernandes Nobre, recordo Liedson neste texto (Correio Verde) do João Caetano Dias.

 

“Estava o resultado em 1-2, a favor dos leões, quando aconteceu o momento do jogo. Num rápido contra-ataque Liedson apareceu isolado em frente a Moretto, contorna-o e faz o 3-1 final.

Há jogadas de combinação magníficas, remates imparáveis, toques de génio, jogadas individuais que nunca se esquecem. Há golos que resolvem desafios, golos que nos fazem avançar em eliminatórias, golos que esvaziam a ansiedade e a adrenalina acumulada. Este golo de Liedson não tem nada disso. É apenas um bom golo, mas o que o faz especial passa-se atrás da baliza.

Nos painéis luminosos que circundam o rectângulo de jogo há publicidade dinâmica. Os CTT publicitam um novo produto. No momento em que Liedson contorna Moretto pode ler-se nos painéis "É só enviar". Liedson envia. E assim que a bola entra na baliza, no preciso momento em que cruza a linha de golo, o texto nos painéis muda para "Correio Verde". Melhor, só por encomenda.

(…)

No vídeo, a entrega de Liedson começa aos 3:05.”

 

 

Futebolices

“O HOLOCAUSTO

 

Sou muito amante da verdade, mas em caso nenhum do martírio.

Voltaire

 

A verdade, para Voltaire, tem um limite prático: a pele. Voltaire foi sempre muito conservador e sensato. Se os árbitros de futebol fossem mais voltarianos e precavidos conseguir-se-ia desterrar, de uma vez para sempre, o feio costume de enforcar árbitros de futebol (uso que tanto destoa do espírito olímpico de jogadores, massa associativa e adeptos em geral, casados ou solteiros), mas quando, por assinalar penáltis [sic], se corre o notório risco de terminar enforcado, o árbitro deve abster-se de assinalar penaltis, castigo que pode ser substituído pelo livre ou até pelo deixar jogar, conforme as circunstâncias. O regulamento precisa de uma revisão muito urgente; não há dúvida que foi ficando velho e inútil.

- E o senhor acha que se conseguirá que o revejam?

- Vá-se lá saber! As pessoas estão muito agarradas aos costumes, as pessoas são muito rotineiras e pacóvias, muito resignadas e acomodadas; as pessoas não gostam que as coisas mudem e preferem que continuem como estão, mesmo, estando mal. As pessoas são assim!

Minervino Caeymaex Cabrillas, mais conhecido por Gazapo, árbitro de futebol, foi enforcado pela populaça na forca municipal, na forca levantada por subscrição dos eleitores pais de família. Minervino Caeymaex Cabrillas, mais conhecido por Gazapo, árbitro de futebol, assinalou um penálti [sic] contra a equipa da casa e pagou e pagou a sua ousadia com a vida. Se calhar, se tivesse lido a tempo Voltaire, a esta hora andaria por aí impávido e sereno: gozando de uma existência normal, de uma existência de boticário ou de inspector fiscal, e fazendo de tudo – disso pode ter a certeza! -, menos apontar penalties. Olhe que, às vezes, as pessoas são mesmo maníacas! Dizem que Minervino Caeymaex Cabrillas, mais conhecido por Gazapo, nada sofreu no patíbulo – antes assim! -, e que morreu como um bom atónito, sem dizer ai, ou como um passarinho analfabeto, sem abrir o bico. Pobre Minervino Caeymaex Cabrillas, mais conhecido por Gazapo, que saltava sempre ao relvado tão repenteadinho e asseado!

O seu colega e substituto Belarmino Galán Carlota, mais conhecido por Goyito, vai ser enforcado pelos jogadores (de acordo com alguns sintomas) na bandeira da porta dos vestiários, a forca de emergência apenas usadas em casos muito extremos. Belarmino Galán Carlota, mais conhecido por Goyito, armou-se em carapau de corrida e a primeira coisa que fez mal transpôs a porta do touril, foi assinalar um penálti [sic]. Belarmino Galán Carlota, mais conhecido por Goyito, gostava mais do martírio do que qualquer outra coisa: da verdade, por exemplo, ou do lento e acompanhante palpitar do coração. Quem ama o perigo, nele perece. Belarmino Galán Carlota, mais conhecido por Goyito, foi pensando últimas frases solenes, enquanto o arrastavam no caminho para o suplício. O pior foi que, no fim, está visto que por causa dos nervos, se esqueceu.

Holocausto, etimologicamente, significa queimar totalmente, queimar sem deixar sequer o rabo. A Minervino e a Belarmino não os queimaram, enforcaram-nos. A verdade é que, para os devidos efeitos, acaba por dar no mesmo.

- Pois não pense, meu bom amigo, não pense! Não é a mesma coisa ser viúva de presunto ou de churrasco. Nisto da exactidão da linguagem o senhor devia ser mais preciso e correlativo. Olhem-me só os académicos que temos!

- O senhor desculpe!

Minervino e Belarmino, os dois sujeitos do surdo holocausto (com gritos, mas sem chamas), julgaram, na sua infinita soberba, poder desafiar o respeitável, esse monstro de respeitos que corta a direito tido o que se nega à sua deliberada enfermidade. Minervino e Belarmino, pendurados pelo pescoço, pagam as culpas da deformante educação que receberam. Na hora do pranto já é tarde para a serena recapitulação.

- E o senhor acha que as gerações do futuro vão aprender?

- Pois não; eu acho que não. Nisto sou um pouco céptico, por muito que me custe. Eu só queria era ver o futuro cor-de-rosa.

Minervino Caeymaex Cabrillas, mais conhecido por Gazapo, era árbitro internacional. O seu colega, o Goyito, ainda não; ao Goyito já lhe faltava pouco para o ser, mas ainda não; ao Goyito já lhe faltava pouco para o ser, mas ainda não o era. É mais fácil chegar a jogador internacional do que a árbitro internacional; também é mais dura a vida do árbitro, de cara para a multidão que ruge, assobia, deita pela boca e pede (indefectivamente) a cabeça de alguém (regra geral, a do árbitro).

Minervino Caeymaex Cabrillas, mais conhecido por Gazapo (e também por Tabiano da D. Clara), teria preferido morrer na guerra do Boers. Em contrapartida, Belarmino Galán Carlota, mais conhecido por Goyito (e também por Jurel da Poetisa Núñes), teria gostado mais de morrer na praça de Ronda, pela cornada de um burro. Com a morte, como bem se sabe, passa-se a mesma coisa que com a carta muda no póquer, apresenta-se quando lhe apetece e sem avisar. Às vezes tira-nos as castanhas do lume do pecado, mas outras vezes (está-se mesmo a ver que é para não nos fiarmos) o pez a arder do caldeirão de Lúcifer, esse malvado sem remorsos negro como um carvão.

Os solteiros da cidade pediram autorização ao senhor presidente da Câmara para erguerem a sua forca e não terem de estar sempre a depender da forca dos pais de família (uma forca arcaica e valentudinária onde cantava a sua velha polonesa o aborrecido violino do gorgulho). Apesar de ainda não terem recebido uma resposta, correm boatos de que o senhor presidente da Câmara acabará por lhes dizer que não, que a cidade já tem o suficiente com uma forca e que, em caso de aperto, a peçam emprestada aos casados (ou pendurem o réu da bandeira da porta dos vestiários, como se tem vindo a fazer até agora).

Minervino e Belarmino não sabiam que a verdade tem as suas fronteiras como tudo. Nas ilhas, a fronteira é mais fácil de determinar. Se calhar a verdade é uma ilha rodeada de conveniência por todos os lados (a conveniência de livrar a pele, à cabeça de tudo). Minervino e Belarmino, se tivessem lido Voltaire, não teriam sido teimosos e mártires.”

 

CELA, Camilo José - Onze contos de futebol. 1ª ed. Porto : Asa, 1994. p. 55-58

A representação mais precisa do caos

As recentes (como hei-de chamar?) peripécias protagonizadas pelo presidente-demitido Bruno de Carvalho não surpreendem, pois para o clube, para o Sporting, ele pretende o caos.

A propósito de caos…

 

Prokofiev, Concerto para Piano n.º 2, Finale

Evgeny Kissin, Piano

 

Serguei Prokofiev foi um dos grandes revolucionários do mundo da música. Compôs a sua primeira ópera aos nove anos, e quando era adolescente e frequentava o Conservatório de São Petersburgo já era considerado um dos grandes enfants terribles da música, compondo peças virtuosas e ferozmente dissonantes que deitavam por terra as convenções existentes relativas à tonalidade e conduziam inexoravelmente a música para um novo rumo.

Aprecio-o ainda mais porque recebeu críticas como esta no New York Times: «Os grilhões das relações entre acordes normais são ignorados. Ele é um psicólogo das emoções mais pérfidas. Ódio, desprezo, fúria – sobretudo fúria -, repulsa, desesperança, escárnio e provocação servem legitimamente de modelos para os estados de espírito.»

Genial.

Em 1912-1-1913 Prokofiev compôs um concerto para piano em memória de um amigo que se suicidou depois de lhe enviar uma carta de despedida. A música é tão surpreendente, tão irada tão irresistivelmente insana que, aquando da estreia, muitos dos presentes pensaram que ele estava a troçar deles. Continua a ser umas peças musicais mais difíceis do seu repertório, havendo apenas um punhado de pianistas suficientemente corajosos para a interpretar. Um chegou a partir um dedo ao interpretá-la ao vivo.

É a representação musical mais precisa do caos que jamais ouvi.”

 

In: RHODES, James - Instrumental. 1ª ed. [S.l.] : Alfaguara, 2017. p. 37

 

 

Variações Golberg

Leio este texto do José da Xã e parece ter sido eu escrevê-lo, pois ele retrata, igualmente, a minha forma de ver os jogos do Sporting. Quando não são ao vivo, infelizmente menos do que aqueles que eu gostaria, prefiro os relatos radiofónicos à transmissão televisiva. Assim aconteceu neste último jogo, o qual, na Antena 1, só assisti à primeira parte. Depois, no intervalo do jogo liguei a tv e deu para ver a medalha de ouro do Nélson Évora e ao nascimento de uma nova estrela mundial no atletismo, Armand Duplanti. O Concurso de salto com vara deixou-me colado à tv e, confesso, fez-me esquecer o jogo que estava a decorrer. Como o meu telemóvel não tem a mesma aplicação do José da Xã, fiquei na ignorância e algo receoso. Mais tarde vi o resultado.

Confesso que por vezes quando os resultados do Sporting não são aqueles que eu gostaria que fossem, custa-me dormir, provoca-me insónias e por vezes vezes acordo…

 

«… um pouco antes da quarto da manhã.

As quatro da manhã é a pior hora do dia. Na realidade, aquele período de tempo entre as três e meia e as quatro e as quatro e meia é uma merda. A partir das quatro e meia, está tudo bem – uma pessoa consegue dar voltas na cama até às cinco e depois levanta-se com convicção de que há outras que também se levantam a essa hora. Para fazerem uma estúpida corrida antes de irem trabalhar, para se prepararem para o turno da manhã, para meditarem, para praticarem ioga ou passarem uns maravilhoso quarenta e cinco minutos sem pensarem nos filhos ou na hipoteca.

Ou simplesmente não pensarem.

Seja para o for.

Mas se uma pessoa acorda antes dessa hora é porque, indubitavelmente, tem algum problema.

Tem de o ter. (…)

 

Bach, Variações Golberg, Ária

Glenn Gould, Piano

 

Em 1741, um conde abastado lutava contra a doença e a insónia. Tal como era costume fazer-se na época, contratou um músico para viver em sua casa a tocar cravo durante a noite enquanto ele afastava os seus demónios. Tratava-se do equivalente barroco aos programas de rádio sobre temas da actualidade.

O músico chamava-se Goldberg e o conde levou-o a J. S. Bach para ter aulas. Numa dessas aulas o conde referiu que gostava que Golberg dispusesse de novas composições para interpretar na esperança de o animar um pouco às três da manhã. O Xanax ainda não tinha sido inventado.

Como tal, Bach compôs uma das eternas e poderosas peças de música para instrumentos de teclas uma vez composta, que ficou conhecida por Variações de Golberg; um ária seguida de trinta variações e um fim, um ciclo completo, com uma repetição da ária de abertura. O conceito do tema e variações assemelha-se a um livro de contos baseado num tema unificador – uma história de abertura que descreve um tema específico, estando cada história seguinte de algum modo relacionada com esse tema.

Enquanto pianista, são as mais frustrantes, difíceis, compiladas, transcendentes, traiçoeiras e intemporais composições musicais. Enquanto ouvinte, exercem em mim um efeito que apenas os melhores produtos farmacêuticos conseguem atingir. São um prodígio ao alcance de poucos executantes e contêm em si tudo aquilo que se pode almejar saber.

Em 1955, um jovem, brilhante e iconoclasta pianista canadiano Glenn Gould tornou-se um dos primeiros pianistas a interpretá-las e a gravá-las ao piano e não ao cravo. Decidiu gravá-las no seu primeiro álbum, para horror dos executivos da editora, que queriam algo mais mainstream. Tornou-se um dos álbuns de música clássica mais vendidos de todos os tempos, e ainda hoje continua a ser um ponto de referência a que todos os pianistas aspiram. Nenhum lhe chega aos calcanhares.” (*)

(*) RHODES, James, 1975 - Instrumental. 1ª ed. [S.l.] : Alfaguara, 2017. p. 19, 25-26

Leio este ’post’…

do Edmundo, um abraço, e ocorre-me texto.

 

«Real Madrid Republicano

O meu bom amigo e óptimo colega Guillermo Cabrera Infante detesta futebol, (…), e sempre que me ouve falar dele com naturalidade ou vê que lhe dedico um artigo põe-se a mirar com aquele olhar terrivelmente destruídor e não se priva de me criticar a falta de gosto e conduta irresponsável.

Agora o clube dos meus amores de infância ridicularizou-se diante de toda a Europa. Uns machões derrubaram uma baliza, e não só havia nenhuma suplente em Chamartín, como demorou uma hora e um quarto a trazer outra, de uma forma incompetente e atoleimada. A imprensa alemã cevou-se (o adversário era o Borussia Dortmund), a europeia neutral gozou, a barcelonense deitou sal na ferida sem escrúpulos nem dissimulação. Está bem, tudo mais ou menos merecido. Que o clube dos meus amores de infância continue a sê-lo na minha idade adulta não significa que eu seja cego aos seus defeitos: a actual direcção não me inspira confiança, para falar de uma forma suave; o actual treinador, Heynckes, parece-me sem prespuicácia; e um bom número dos seus adeptos é do pior que há na nossa sociedade, com os seus cânticos e símbolos racistas e nazis e as suas bandeiras franquistas, que não espanholas. Estes iletrados deveriam saber, é claro, que meteram a pata na poça quando se tornaram adeptos do Real Madrid. Como é do conhecimento daqueles que têm memória e há pouco tempo recordou um ressabiado jornalista que dá muitos ares de «vermelho», as pessoas de esquerda e republicanas, os derrotados da Guerra Civil, preferiam o Madrid ao Atlético, apesar do adjectivo «Real» aparentemente contraditório. O Madrid tinha no seu nome o da cidade sitiada e bombardeada, enquanto o Atlético Aviación (como se chamava na sua origem o Atleti) era a equipa dos pilotos franquistas, justamente daqueles que se tinham dedicado a bombardear a capital com sanha. Entre os nossos jogadores houve não pouco «avermelhados», como Del Bosque, ou o guarda-redes Miguel Ángel, ou Breitner o abissínio, ou Pardeza, ou Valdano, e só os triunfos europeus dos anos 50 e 60 levaram o regime ditatorial, com o seu oportunismo, a aproximar-se dele e não o inverso. Que o saibam então os ultras: apoiam a equipa que foi dos perdedores bélicos, mais vale que se inscrevam todos no Frente Atlético.

Mas ao que ia: toda a gente perorou sobre a baliza mas ninguém assinalou até que ponto foi milagroso e admirável que os quase cem mil espectadores reunidos no estádio, a maioria em estado de alta tensão como eu estava em minha casa diante do ecrã quando se iniciava uma semi-final dos Campeões Europeus obrigados a esperar durante setenta e cinco minutos, muitos milhares de pé, sem ter a certeza de que o jogo acabaria por se realizar, em dia de trabalho, com a irritação e a frustração lógicas perante semelhante anticlímax; admirável, digo, é que entre essas cem mil pessoas não acontecesse nenhum incidente em tão longo e oneroso tempo; que as pessoas não se puseram a lutar nem fossem à procura dos ultra sur culpados para lhes aplicar uma sova ou expulsá-los de Chamartín de uma vez por todas; que esperassem pacientemente, limitando-se a assobiar esse fundo sul e a direcção incompetente. Em suma, que não sucedesse nenhuma desgraça como a Heysel e tantos outros lugares. Porque o que eu costumo responder a Cabrera é que o perigo não está no futebol, mas na massa enclausurada, seja qual for o espectáculo. Tendemos a assinalar o pior de nós, e nesta ocasião havia pouco. Mas também houve alguma coisa de bom, e até hoje não li um único comentário como o que agora faço, que alguém se felicitasse pelo alto grau de serenidade e civilidade demonstrado pela maioria dos adeptos da equipa dos meus mais constantes amores.

 

1998»

 

MARÍAS, Javier - Selvagens e sentimentais : histórias do futebol. 1ª ed. Lisboa : Dom Quixote, 2002. p. 109-111

Nelson Mandela

No dia em que o sócio de mérito 31118 (em 2013) festejaria 100 anos, a nossa homenagem

 

«Acima de tudo espero que as crianças não percam nunca a capacidade de alargarem os horizontes do mundo em que vivem através da magia das histórias

Nelson Mandela

 

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«Na verdade, na verdade, nem tudo o que vão ouvir corresponde à realidade.»

 

É com estas palavras que os contadores de histórias ashanti iniciam as suas narrativas e elas parecem ajustar-se a servir de introdução a uma antologia como esta, uma vez que muitas destas histórias passaram por inúmeras metamorfoses ao longo dos séculos. Quem conta um conto acrescenta um ponto, e alguns deles passaram de um povo ou grupo étnico para outro.

Uma história é uma história, e podemos contá-la de acordo com a nossa imaginação ou o ambiente que nos rodeia; e se a nossa história ganha asas não podemos impedir que outros se apropriem dela. E pode acontecer que ela um dia regresse, com novas roupagens e uma nova voz. Esta característica peculiar das histórias tradicionais pode ser ilustrada pela forma como os contadores de histórias habitualmente concluem as suas narrativas: «Esta é a minha história, tal como a contei; tenham gostado ou não, levem-na para outros lugares e tragam-ma de volta».

Nesta antologia, algumas das histórias mais antigas de África, depois de terem viajado ao longo dos séculos para lugares distantes, são devolvidas com nova voz às crianças de África. A presente recolha oferece uma mão-cheia de contos de todos os tempos, verdadeiros retalhos da alma africana, mas ao mesmo tempo plenos de universalidade naquilo que retratam dos homens, dos animais e do mundo sobrenatural.

As crianças terão oportunidade de reencontrar alguns dos temas mais acarinhados nas histórias africanas, ou, quem sabe, de os descobrir pela primeira vez. Eis a criatura manhosa que consegue ludibriar toda a gente, mesmo os adversários mais corpulentos: Hlakanyana dos Zulus e dos Xhosa, e Sankhambi dos Venda; a lebre, essa patifória astuciosa; o habilidoso chacal, frequentemente no papel de trapaceiro; a hiena (por vezes associada ao lobo) a fingir-se desprotegida; o leão no seu papel de rei a distribuir benesses aos outros animais; a cobra, que provoca medo, mas simbolizando também o poder curativo frequentemente associado ao poder da água; palavras mágicas que marcam o destino ou assinalam a liberdade, pessoas e animais que passam por metamorfoses; canibais terríveis que apavoram miúdos e graúdos.

Para complementar estes tesouros da tradição, esta recolha inclui também algumas histórias mais recentes provenientes de vários pontos da África do Sul e de outras regiões do continente africano.

Espero que a voz do contador de histórias nunca deixe de se ouvir em África. E que todas as crianças de África possam maravilhar-se com a beleza dos livros. E, acima de tudo, que as crianças não percam nunca a capacidade de alargarem os horizontes do mundo em que vivem através da magia das histórias.

 

NELSON MANDELA

 [no prefácio]

 

 

«A GATA QUE PREFERIU VIVER DENTRO DE CASA

 

Existem muitas histórias que explicam a forma como os cães foram domesticados, mas este conto shona do Zimbabué, contado originalmente na língua karanga ao musicólogo e etnólogo Hugh Tracey, explica a forma como os gatos se tomaram habitantes acarinhados das casas humanas.

 

Há muito, muito tempo existia uma gata, uma gata selvagem, que vivia sozinha no meio do mato. Cansada de viver sozinha, arranjou marido, um gato selvagem que ela considerava o animal mais esperto de toda a selva.

Um dia, seguiam eles a sua jornada por entre o capim, saltou-lhes ao caminho o Leopardo, que derrubou o marido Gato e o atirou para a poeira.

- O-oh! - exclamou a Gata. - Vejo agora que o meu marido está coberto de pó e já não é o animal mais esperto da selva. O mais esperto é o Leopardo.

E a Gata foi viver com o Leopardo.

Felizes, viveram juntos até ao dia em que, andavam eles a caçar no mato, de repente surgiu o Leão que atacou o Leopardo pelas costas e o devorou num instante.

- O-o-oh! - exclamou a Gata. - Vejo agora que o Leopardo não é o animal mais esperto da selva. O mais esperto é o Leão.

E a Gata foi viver com o Leão.

Felizes, viveram juntos até ao dia em que, andavam eles a passear na floresta, surgiu uma sombra ameaçadora por cima das suas cabeças, e - chap-chap - o Elefante pôs uma pata em cima do Leão e esmagou-o contra o chão.

- O-o-o-oh! - exclamou a Gata. - Vejo agora que o Leão não é o animal mais esperto da selva. O mais esperto é o Elefante.

E a Gata foi viver com o Elefante. Montava-se nas costas dele, agarrada ao pescoço junto às suas enormes orelhas.

Felizes, viveram juntos até ao dia em que, andavam eles por entre os canaviais à beira do rio, e - pum!-pum! - ouviu-se um estampido, e o Elefante caiu redondo no chão.

A Gata olhou à sua volta e viu um homem com uma espingarda.

- O-o-o-o-oh! - exclamou a Gata. - Vejo agora que o Elefante não é o animal mais esperto da selva. O mais esperto é o Homem.

E a Gata seguiu o Homem ao longo do caminho até à casa dele, e subiu para o telhado da sua cubata.

- Até que enfim! - exclamou a Gata. - Acabo de encontrar a criatura mais esperta da selva.

Vivia no telhado da cubata e começou a caçar os ratos e as ratazanas que havia na aldeia. Um dia, estava ela no telhado a aquecer-se ao sol, ouviu um barulho que vinha do interior da cubata. As vozes do Homem e da Mulher aumentaram de tom, até que o Homem saiu para o exterior e caiu redondo no meio da poeira.

- Ah! Ah! - exclamou a Gata. - Agora é que eu sei quem é a criatura mais esperta em toda a selva. É a Mulher.

A Gata desceu do telhado, entrou na cubata e sentou-se junto ao lume.

E aí ficou até aos dias de hoje.»

 

In: As mais belas fábulas africanas : as histórias infantis preferidas de Nelson Mandela. 4ª ed. Lisboa : Nuvem de Letras, 2017. pp. 11-13, 23-27

O Sporting – Newcastle (2004/2005)…

 

… terá sido, porventura, o melhor jogo que eu me lembro do Sporting ter feito.

O Sporting partia para o jogo em desvantagem e em desvantagem começava o jogo, tal como o treinador profetizava na véspera. A realidade não era favorável visto que alguns jogadores fundamentais, por várias razões, não estavam disponíveis. Porém, a força do querer dos restantes jogadores sobrepôs-se e o resultado foi aquele sabemos.

 

Creio que o espírito deste jogo, a vontade de vencer, seja o mote para a época 2018/2018… afinal de contas o treinador é o mesmo.

Rui Patrício…

escreveu este texto.

 

«Caros Sportinguistas

 

Após muitos ruídos e acontecimentos de que o Sporting Clube de Portugal e Eu, fomos alvo recentemente, remeti-me ao silêncio... não por ausência de sentimento, nem por falta de argumentos válidos, mas sim, por respeito ao Sporting Clube de Portugal e aos seus adeptos.

Neste momento, já existe espaço para que possa dizer, em linhas breves, aquilo que sinto e o porquê da minha atitude reservada.

Suportei e vivi muitas situações menos positivas, para poder representar o meu clube, dando sempre o máximo de mim e sendo soberana, a minha vontade de honrar a camisola que vestia desde os meus 12 anos, bem como transmitir esses valores para todos os meus colegas, enquanto um dos capitães e um dos jogadores com mais anos de casa desta equipa, que sempre me orgulhou e irá continuar a orgulhar pela sua força e determinação genuínas!

Mas também sou um ser humano... de carne e osso, igual a todos vocês, e por isso tive de tomar uma decisão.

Os motivos que me levaram a sair são hoje conhecidos por todos vós...

São de conhecimento público... as causas descritas na minha rescisão.

Nunca faltei ao respeito a ninguém nem nunca o irei fazer, pois o meu silêncio até hoje, foi exclusivamente por respeito a todos!

Até ao momento da minha rescisão, tinha-se tornado insustentável a minha continuidade, por comprometer a minha produtividade profissional perante o meu Clube, e por essa razão, não estariam jamais, reunidas as condições para exercer a minha atividade profissional no Sporting.

Esta foi a minha casa durante 18 anos, sim a minha casa!

Passei mais tempo no Sporting do que em casa dos meus Pais…

Para além dos meus Pais... Sim foi o Sporting que me formou e me transformou naquilo que sou hoje, não só enquanto Sportinguista, mas também enquanto profissional e ser humano. Foi sem dúvida uma casa que me criou a todos esses níveis!

Seria impossível da minha parte “Virar Costas” ou prejudicar esta grande Família.

Por isso respeito e vou sempre respeitar todas as opiniões por parte dos adeptos, agradecendo todo o apoio que me deram ao longo de todos estes anos...»

Os comentários…

…deixo-os à vossa consideração.

 

Leio no SapoDesporto:

«Presidente destituído do Sporting recorreu às redes sociais para fazer uma reflexão sobre os cinco anos em que esteve no comando do clube.»

 

«Hoje foi o primeiro dia em que consegui despir a camisola de Presidente do Sporting CP.

 Olhar para trás e de forma calma olhar para tudo.

 Tenho de começar logo com um primeiro agradecimento especial aos quase 30% que votaram na nossa não destituição. Nem vale mais discutir se foram mais ou não. Vale a pena agradecer, do fundo do coração, a estes Sportinguistas que mostraram toda a sua confiança, gratidão, carinho e reconhecimento pelo trabalho feito e que estava a continuar a ser realizado.

Depois um enorme agradecimento aos 6 Leais companheiros de Direcção e ao Fernando Carvalho, guerreiro resistente do CFD.

E estes 5 anos? Do popular ao populista. Do discurso - forma versus conteúdo - às tomadas de posição. Forma construtiva ou destrutiva de agir.

Nunca quis ser um Líder populista. Um demagogo de frases feitas, que age para seu benefício e que quer levar as massas por promessas ocas mas apelativas.

Pelo contrário, sempre quis ser um Líder popular, com os pés assentes na terra, com um discurso mobilizador que voltasse a devolver o orgulho e respeito a um Clube que estava adormecido, resignado e sem energia.

E aqui acho que começou um pouco a confusão entre ser popular ou populista.

Era fundamental ter um discurso forte para "acordar" os Sportinguistas e lhes devolver a crença de que podiamos de facto voltar a ser o Grande Sporting! Um discurso ambicioso, virado para dentro e para fora, demostrando ao Mundo que estávamos aqui para vencer tudo e exigir de volta o que tinhamos perdido: Respeito.

Isto abriu uma guerra geracional que não era de todo o pretendido. Temos uma geração que conseguiu ter a sorte de ver um Sporting CP a ser o crónico vencedor e sem precisar de ter um discurso de "combate". Esta geração conseguiu ver o Sporting CP vencer com a possibilidade de ter um discurso "estadista". Depois temos uma geração que pouco ou nada viu o Sporting CP ganhar. Que estava habituada a ser gozada, com o Sporting CP a ser considerado um Clube amigo e simpático. Uma geração que quer ser feliz.

Estas gerações distintas não têm de estar antagonizadas. Têm todos apenas de perceber e entender os desafios do Séc. XXI para um Clube que, dos grandes, era o mais pequeno e o mais endividado.

A minha pressa de devolver alegrias ao Universo Sportinguista pode ter sido entendida por alguns como accão de um populista e que dividiu as gerações. Mas nunca foi essa a minha intenção. Prometemos um Clube que voltasse a ser a Maior Potência Desportiva Nacional e conseguimos esta época provar isso, de forma inequívoca. Voltar a ser um Clube de ADN eclético e fizémos o Pavilhão. Que se podia ser competitivo no futebol e manter a maioria da SAD (e com lucros constantes). Isto não são tiques de um populista, são actos de uma equipa que se quis de matriz popular e que cumpriu sempre as suas promessas, conseguindo uma mobilização nunca vista no Clube, com a Missão Pavilhão, a unificação da Curva Sul no Estádio e estarmos quase na meta dos 180.000 Associados.

Mas confesso que se olhar bem, se olhar profundamente, a pressa com que tudo foi feito, o trabalho 24h/24h que não permitiu um sentido mais diplomático de actuação, pode ter deixado uma imagem errada a muitas pessoas. Fui pouco hábil na diplomacia, pois não tinha mãos a medir num trabalho e objectivo de recuperação desportiva, financeira, de imagem, que tem uma dimensão de necessidade e de empenho que ninguém imagina.

O discurso? A vontade de fazer sempre mais, e mais e mais, levou a que o discurso não fosse moderado. E era necessário ter tido a habilidade de não criar desgaste e ruptura com esse discurso. Mas a verdade é que, quanto mais sucesso mais e maiores os ataques sofridos. Quanto mais ataques mais necessidade de defender o Clube com unhas e dentes. Quanto mais se defendou o Clube com unhas e dentes mais o discurso começou a parecer destrutivo, belicista, nunca apaziguador... Um ditador arrogante mas afinal era só um Líder apaixonado e disposto a dar a vida pelo nosso Clube. Mas o discurso levou a que muitos Sportinguistas se afastassem, mesmo não percebendo o porquê... Nem eu percebi, até esta reflexão. Afinal, o conteúdo era aparentemente 100% correcto, os objectivos até estavam a ser cumpridos (excepção ao futebol sênior profissional), o sucesso ia aumentando, mas com isso também a imagem de um ditador, belicista e incapaz de se proteger. As minhas tomadas de posição nunca quiseram refletir o que sou na realidade, mas tão somente o que, dia a dia, tinha de ir superando para resolver todos os problemas herdados e os constantes obstáculos que nos eram colocados. Foco total no trabalho e foco 0 no tratamento da imagem pessoal / política / institucional do Presidente. Sempre acreditei que os resultados tudo superassem, até porque todo o discurso e tomadas de posição eram para o Clube chegar ao sucesso. O Clube chegou ao sucesso e a minha imagem pessoal ficou totalmente deturpada ao olhos de muitos. E são as pessoas que têm culpa? Algumas ajudaram, alguma comunicação social contribuiu, mas o maior culpado fui eu que, na busca constante da Glória do Clube, me esqueci de mim próprio e da forma que deveria projectar a minha imagem.

O meu desejo é simples, que se acabe com este processo disciplinar e se permita aos Sportinguistas ouvirem todos os que quiserem falar e decidirem o futuro do Clube e SAD.

E neste momento é muito importante não provocar mais fragmentações do Universo Leonino! Vamos encarar cada lista com o respeito que merece, pois querer servir o Clube não é um "crime" mas sim um acto de paixão.

Vamos ter a humildade de reconhecer as nossas virtudes e os nossos defeitos. Vamos ter a humildade de receber de braços abertos todos os que queiram apresentar o seu projecto para o Sporting CP.

Apelo novamente para que parem com os processos disciplinares em curso, e que deixem aos Sportinguistas a liberdade de se candidatarem e aos outros de poderem escolher quem querem, no próximo dia 8 de Setembro, a liderar o Clube, incluindo o último Presidente e o seu CD, se tal for a nossa decisão.

A demonstração que somos um Grande Clube em tudo é deixar todos, os que assim o quiserem, sem decisões de “secretaria” contrárias, ir a eleições e ver o seu projecto ser aprovado ou reprovado por quem manda: os Associados.

Já agora importa realçar que os Sportinguistas, no máximo, teriam decidido na última AG que queriam novas eleições e não que fossemos suspensos ou expulsos de associados, e com isso afastados das mesmas.

Somos um país livre e democrático e por isso deixemos a liberdade de candidatura e voto aos sportinguistas.

Foi bom poder fazer este exercício claro sobre 5 anos, onde afinal existiram mesmo falhas que lamento, que apesar de achar que são de pormenor a verdade é que contribuí para muitos erros de percepção e de raciocínio, que são legítimos e devem ser respeitados e devidamente ponderados.

 

Obrigado por 5 anos de puro prazer e orgulho em servirmos o Clube que amamos e a família que adoptámos como nossa: os Sportinguistas!»

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