Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

És a nossa Fé!

Leituras

«[Dimitri Dmitrievich Chostakovich] gostou sempre de futebol a vida inteira. Sempre sonhara compor um hino para o jogo. Era árbitro qualificado. Tinha um caderno especial onde apontava os resultados da época. Nos dias de juventude apoiara o Dínamo e uma vez voou milhares de quilómetros até Tbilissi, para assistir a um jogo. Essa era a questão: tínhamos de lá estar quando acontecia, no meio a multidão, no meio de todas as pessoas em delírio e a gritar. Hoje em dia as pessoas viam o futebol na televisão. Para ele, era como beber água mineral em vez de vodka Stolichnaya, de qualidade extra para exportação.

O futebol era puro, por isso é que sempre lhe agradara. Um mundo construído de esforço honesto e momentos de beleza, com as questões do certo e do errado resolvidas num instante pelo apitar de um árbitro. Sempre o achara muito distante do Poder e da ideologia da linguagem vácua e do saque da alma humana. Mas – gradualmente, ano após ano – foi vendo que era só a sua fantasia, a sua idealização sentimental do jogo. O Poder servia-se do futebol, tal como se servia de tudo o resto. Logo: se a sociedade soviética era a melhor e a mais avançada da História do mundo, então esperava que o futebol soviético o refletisse. E, se não podia ser sempre o melhor de todos, então devia ao menos ser se melhor do que o futebol dessas nações que tinham desprezivelmente abandonado a verdadeira via do marxismo-leninismo.

Lembrava-se das Olimpiadas de 1952 em Helsínquia, quando a URSS defrontara a Jugoslávia de Tito, o brutamontes revisionista da Gestapo. Para surpresa e consternação geral, os jugoslavos ganharam por 3-1. Todos esperavam que ficasse abatido com o resultado, que ouviu na rádio em Komarova, logo pela manhã. Em vez disso, correra até à datcha de Glikman e juntos despacharam uma garrafa de brandy fine champagne.

Mas havia mais a dizer sobre o jogo, além do resultado; ele encerrava um exemplo da imundice que invadia tudo, sob a tirania. Bashashkin e Bobrov: ambos com menos de trinta anos, ambos bastiões da equipa. Anatoli Bashashkin, capitão e médio; Vsevolod Bobrov, garboso marcador e cinco golos nos três primeiros três desafios da equipa. Na derrota frente à Jugoslávia, um dos golos do opositor resultara de um erro crasso de Bashashkin – era verdade. E Bobrov gritara-lhe, no campo mais tarde: “Pau-mandado de Tito!”

Todos tinham aplaudido o comentário, que poderia ser brutalmente divertido, não fosse Bobrov o melhor amigo de Vassili, o filho de Estaline. O pau-mandado de Tito contra Bobrov, o grande patriota. A farsa enojara-o. O decente Bashashkin foi demitido de capitão, enquanto Bobrov acabou por se tornar um herói nacional do desporto.»

 

BARNES, Julian - O ruído do tempo. 1.ª ed. Lisboa : Quetzal, 2016. p. 171-172

O golo

 

O golo é o orgasmo do futebol. Como o orgasmo, o golo é cada vez menos frequente na vida moderna.

Há meio século, era raro um jogo acabar sem golos: Zero a zero, duas bocas abertas, dois bocejos. Agora, os onze jogadores passam o jogo agarrados à trave, dedicados a evitar os golos e sem tempo para os marcarem.

O entusiasmo que explode cada vez que a bala branca sacode a rede pode parecer mistério ou loucura, mas é preciso ter em conta que o milagre acontece poucas vezes. O golo, mesmo que seja um golinho, é sempre gooooooooooooooooooooolo na garganta dos locutores da rádio, um dó de peito capaz de deixar Caruso mudo para sempre, e a multidão delira e o estádio esquece-se de que é de cimento e desprende-se da terra e bobe no ar.

 

In.: GALEANO, Eduardo - Futebol ao sol e à sombra. 1ª ed. Lisboa : Antígona, 2019. p. 19

O estádio

«Já entrou alguma vez num estádio vazio? Experimente. Pare no meio-campo e oiça. Não há nada menos vazio do que um estádio vazio. Não há nada menos mudo do que as bancadas sem ninguém.

Em Wembey soa ainda a gritaria do Mundial de 1966, vencido pela Inglaterra, mas, apurando o ouvido, podem ouvir-se gemidos vindos de 1953, quando os hungaros golearam a selecção inglesa. O Estádio Centenário de Montevideu suspira com saudades das glórias do futebol uruguaio. O Maracanã continua a chorar a derrota brasileira de 1950. Na Bombonera de Buenos Aires trepidam tambores de há meio século. Das profundezas do estádio Azteca ressoam os ecos dos cânticos cerimoniais do antigo jogo mexicano da bola. Fala em catalão o cimento do Camp Nou, em Barcelona, e em basco conversam as bancadas do Sam Mamés, em Bilbao. Em Milão, o fantasma de Giuseppe Meazza mete golos que fazem vibrar o estádio que tem o seu nome. A final do Mundial de 1974, ganha pela Alemanha Ocidental, joga-se dia após dia e noite após noite no Estádio Olímpico de Munique. O estádio do rei Fahd, na Arábia Saudita, tem uma tribuna de ouro e bancadas almofadadas, mas não tem memória nem grande coisa a dizer.»

 

In.: GALEANO, Eduardo - Futebol ao sol e à sombra. 1ª ed. Lisboa : Antígona, 2019. p. 31

José de Alvalade...

... foi, aos 33 anos, uma das vítimas da grande pandemia do início do século XX, a gripe pneumónica - vulgarmente designada por gripe espanhola -, falecendo a 19 de Outubro de 1918. Hoje, infelizmente, vivemos uma situação pandémica similar, menos grave - é certo, os tempos são outros -, mas igualmente preocupante. O apelo que aqui deixo, olhando para o fundador do nosso clube, é que todos, sublinho TODOS, sigam as recomendações das autoridades de saúde, para que nos possamos a encontrar neste espaço e a opinar sobre este clube, que é a nossa fé. Copiando 'as gordas' de um jornal de hoje, creio que o SOL, deixo o meu conselho: Vacinem-se: não saiam de casa. Ou então limitem os seus movimentos ao exterior ao estritamente necessário - apesar do dia magnífico convidar ao contrário. Fiquem em casa, de preferência na nossa companhia, pois aqui podem encontrar uma imensidão de textos que vai, com certeza, prender a vossa atenção. Tudo de bom, para todos.

Jorge Vieira

 

Guardo na minha memória duas fotos que em garoto tirei. Uma com o meu ídolo Manuel Fernandes, na altura o capitão da equipa e outra com Jorge Vieira, na altura o sócio n.º 1. Ambas foram tiradas num jantar, que o meu pai me levou, creio que do Núcleo Sportinguista de Coimbra. Infelizmente o meu divórcio fez com que as tivesse perdido.

 

«Um cavalheiro no desporto

“Toda a actividade física com carácter de jogo, que toma forma de uma luta consigo mesmo, ou duma competição com outros, é desporto. Se esta actividade se opõe a outrem, deve sempre praticar-se num espírito leal e cavalheiresco. Não pode haver desporto sem fair play. A lealdade da competição garante a autenticidade de valores estabelecidos sobre o estádio. Confere ao mundo desportivo uma qualidade humana. O desporto favorece os encontros entre os homens num clima de sinceridade e de alegria. Permite-lhes conhecerem-se melhor e estimarem-se, desperta neles o sentido da solidariedade, o gosto da acção generosa e desinteressada; dá uma nova dimensão à fraternidade.” (Manifesto sobre o Desporto – Unesco)

Todo este feixe de virtudes do atleta de eleição – sinónimo de equilíbrio entre o músculo e o pensamento, em que o homem se aproxima de um ideal de beleza e harmonia – tem o nosso país conhecido nalgumas figuras dessa estirpe, ao longo do seu historial. Mas uma dessa presenças exemplares, que ainda se recorda – e a sua lição não feneceu na hora da retirada – esse saudoso ‘capitão’, autêntico gentleman do nosso desporto – chama-se Jorge Vieira.

Dotado de um físico esbelto, a sua presença no estádio era a melhor garantia de lealdade e cavalheirismo ao terçar armas com o adversário. Feito no Sporting Clube de Portugal e oriundo de uma família leonina, Jorge Vieira começou a nos grupos infantis e ascendeu ao mais alto posto da sua carreira desportiva envergando sempre a camisola verde-branca, que só trocou nos jogos em que foi chamado a representar as turmas de Lisboa e da selecção de Portugal. Muito cedo lhe coube a distinção de capitanear o ‘onze’ nacional. Jogando em vários países – Espanha, França, Itália, Holanda e Brasil -, nestes tempos das morosas viagens de comboio ou barco, e de raras pugnas internacionais, Jorge Vieira, o grande defesa-esquerdo, foi o perfeito embaixador do desporto português.

Nascido oito anos antes do seu clube de sempre, (…) Jorge Vieira é um símbolo inestimável, que as novas gerações devem ter como modelo.(…)

 

Romeu Correia»

 

In.: CORREIA, Romeu -  Jorge Vieira e o futebol do seu tempo. 1ª ed. [S.l.] : R. Correia, [D.L. 1981]. pp. 7-8

Mudança de paradigma

Antes.

Clube de malucos”,

foram as palavras, que o actual presidente do Sporting não se inibiu de repetir, quando um treinador português definiu o actual estado do Sporting, abordado para subsituir o treinador Marcel Keiser.

A presidência de Frederico Varandas não desmente estas palavras.

 

Depois... 10M€, dez milhões de euros, depois.

Mudança de paradigma”,

diz o mesmo presidente.

Para que sentido?

Vamos aguardar.

 

Ruben Amorim.

O sensato:

“€10 milhões era o valor que tinha na cláusula, quando o pusemos comecei-me a rir: quem iria pagar isto por mim?”, disse, com razão.

O corajoso:

Assumir este desafio, para um treinador com o seu histórico, num clube “de malucos” é um acto de coragem… ou será antes de loucura?

Quero acreditar na coragem.

 

Quero acreditar que tudo lhe irá correr bem e desejo-lhe, obviamente: boa sorte. Toda a boa sorte do treinador do Sporting, seja ele quem for, é a boa sorte do clube.

O adepto

(Dedicado ao Pedro Azevedo)

 

«Uma vez por semana, o adepto foge de casa e vai ao estádio.

Agitam-se as bandeiras, soam as matracas, os foguetes, os tambores, chovem as serpentinas e os papelinhos: a cidade desaparece, esquece-se da rotina, só o templo existe. A única religião que não tem ateus exibe as suas divindades neste espaço sagrado. Embora o adepto possa contemplar o milagre mais comodamente no ecrã da televisão, prefere fazer a peregrinação até este lugar onde pode ver os seus anjos, em carne e osso, a bater-se em duelo contra demónios de serviço.

Aqui o adepto agita o cachecol, engole em seco, glup, bebe veneno, morde o chapéu, sussurra preces e maldições e, de súbito, rasga a garganta numa ovação e salta como uma pulga, abraçando o desconhecido que grita golo ao seu lado. Enquanto dura a missa pagã, o adepto é muitos. Partilha com milhares de devotos de certeza de que somos os melhores, de que todos os árbitros estão comprados, de que todos os rivais são trafulhas.

Raras vezes o adepto diz: «Hoje joga o meu clube.» Em vez disso, diz: «Hoje jogamos.» Este jogador número doze sabe bem que é ele que sopra os ventos do fervor que empurram a bola quando ela adormece, tal como os outros onze jogadores sabem bem que jogar sem claque é como dançar sem música.

Quando termina, o adepto, que não saiu das bancadas celebra a sua vitória, que goleada, que sova lhes demos ou chora a sua derrota, roubaram-nos outra vez, o árbitro é ladrão. E então o sol e p adepto vão-se embora. Caem as sombras sobre o estádio que se esvazia. Nas bancadas ardem, aqui e ali, algumas fogueiras de fogo fugaz, enquanto as luzes e as vozes se vão extinguindo. O estádio fica só e o adepto regressa também à sua solidão, eu fui nós: o adepto afasta-se, dispersa, desaparece, e o domingo torna-se melancólico como uma Quarta-Feira de Cinzas depois da morte do Carnaval.»

 

In.: GALEANO, Eduardo - Futebol ao sol e à sombra. 1ª ed. Lisboa : Antígona, 2019. pp. 16-17

Dignos do ‘jacó’(*)

É o que, a incompetência destes senhores como dirigentes, me leva a concluir.

 

(*) «Jacó», o mesmo que caixote do lixo.

“É a proposta [de Outubro de 1929] do Dr. João dos Santos Jacob, que criou os recipientes para o lixo, logo crismados por «jacós», nomenclatura que se mantém na cidade, e que aos estranhos a ela, causa, por incompreensão, admiração”. (in: Anais do Município de Coimbra : 1920-1939. Coimbra : Biblioteca Municipal, 1971. p. 262)

Um dos grandes golos da história do futebol

«A chilena ou pontapé de bicicleta

Ramós Unzaga inventou a jogada, no campo do porto chileno de Talchuano: com o corpo no ar, de costas para o chão as pernas disparavam a bola para trás, num vaivém repentino de lâminas de tesoura.

Mas esta acrobacia só se chamou chilena alguns anos depois, em 1927, quando o Colo-Colo foi à Europa e o avançado David Arellano a exibiu nos estádios de Espanha. Os jornalistas espanhóis festejaram o esplendor daquela cabriola desconhecida e baptizaram-na assim porque tinha vindo do Chile, como os morangos e a cuenca (n.r.: dança típica chilena).

Depois de vários golos acrobáticos, Arellano morreu nesse ano, no estádio do Valladolid, devido a um choque fatal com um defesa.»

In.: GALEANO, Eduardo - Futebol ao sol e à sombra. 1ª ed. Lisboa : Antígona, 2019. p. 70

Delírios...

Muito textos descrevem, neste espaço, a inabilidade, a incompetência, da equipa directiva do Sporting. Muitos, eu incluído, pedem um novo rumo para o nosso clube, porém esse novo rumo não pode, definitivamente, ser escrito por aqueles que escreveram a nossa página mais negra. Li, hoje, uns delírios de Bruno de Carvalho a dizer que apresenta a sua candidatura à presidência do nosso clube. Delírios...

Misoginia?...

... poderemos perguntar.

Não, não acredito que seja.

Será, tão só, um caso de falta de vergonha a ausência do benfica nas finais do campeonato nacional feminino de clubes em pista coberta.

“É uma estratégia que o Benfica usa para querer denegrir a vitória dos outros: como normalmente sabem que perdem, saem de campo e isso não é desporto”, disse à agência Lusa diretor técnico do atletismo do Sporting, Carlos Silva.

 

img_920x518$2020_02_23_21_56_18_1667605.jpg

(imagem Record)

 

Parabéns às nossas atletas!

A BOLA

Lendo o texto de Pedro Correia sobre o nosso último jogo (é poesia a descrição que faz dos minutos 27, 34 e 76) um pensamento me ocorre: coitada da bola, tão mal a temos tratado.

 

«Era de couro, com recheio de estopa, a bola dos chineses. Os egípcios do tempo dos faraós fizeram-na com palha ou com cascas de grãos e envolveram-na em tecidos coloridos. Os gregos e os romanos usavam uma bexiga de boi, cheia de ar e cosida. Os europeus da Idade Média e do Renascimento disputavam uma bola oval, recheada de crina. Na América, feita de cauchu, a bola conseguiu ser saltitona como em nenhum outro sítio. Contam os cronistas da corte espanhola que Hernán Cortés pôs a pular uma bola mexicana e fê-la voar a grande altura, diante dos olhos arregalados do imperador Carlos.

A câmara de borracha, insuflada por uma bomba e coberta de couro, nasceu em meados do século passado, graças ao engenheiro Charles Goodyear, um norte-americano do Connecticut. E graças ao engenho de Tossolini, Valbonesi e Polo, tês argentinos de Córdova. Nasceu muito depois a bola sem costura de atacador. Eles inventaram a câmara co válvula, que se enchia por injecção, e desde o Mundial de 1938 tornou-se possível cabecear a bola sem se magoar com o cordão de couro que anteriormente a amarrava.

Até meados deste século. A bola foi castanha. Depois branca. Nos nossos dias, apresenta-se com diversos motivos em preto sobre fundo branco. Agora tem diâmetro de setenta centímetros e é revestida de poliuretano sobre espuma de polietileno. É impermeável, pesa menos de meio quilo e viaja mais rapidamente do que a velha bola de couro, que ficava impossível nos dias chuvosos.

Chamam-lhe muitos nomes: o esférico, a redondinha, a careca, o globo, o balão, o projéctil. No Brasil, no entanto, ninguém duvida que ela é mulher. Os brasileiros chamam-lhe gorguchinha, menina, e dão-lhe nomes como Maricota, Leonor ou Margarida.

Pelé beijou-a no Maracanã, quando marcou o seu milésimo golo, e Di Stefano erigiu-lhe um monumento à entrada de casa, uma bola de bronze com uma placa que diz: ‘Obrigado, velhota.’

Ela é fiel. Na final do Mundial de 1930, as duas selecções exigiram jogar com a sua própria bola. Sábio como Salomão, o árbitro decidiu que o primeiro tempo se disputaria com a bola argentina e o segundo tempo com abola uruguaia. A Argentina ganhou o primeiro tempo e o Uruguai o segundo. Mas a bola também tem as suas veleidades e às vezes não entra na rede porque muda de opinião no ar e se desvia. É que ela é muito melindrosa. Não suporta que a tratem aos pontapés, nem que lhe acertem por vingança. Exige que a acariciem, que a beijem, que adormeçam no peito ou no pé. É orgulhosa, talvez vaidosa, e não lhe faltam motivos: ela bem sabe que dá muitas alegrias a muitas almas quando se eleva com graça, e que são muitas as almas que ficam doridas quando ela cai mal.»

 

In.: GALEANO, Eduardo - Futebol ao sol e à sombra. 1ª ed. Lisboa : Antígona, 2019. pp. 32-33

"Rola, rola sem fim; não agarra nada..."

... assim tem sido o nosso futebol.

Talvez por Vila do Conde ser terra de pescadores, de onde muitos homens saíram para a «Faina Maior», a pesca ao bacalhau, este texto, de Bernardo Santareno (*), é a minha melhor análise sobre o último jogo do Sporting frente ao Rio Ave.

Desejamos que quinta-feira seja diferente.

 

«- How do you do, doctor?

Estendeu-me a mão molhada de cerveja, que eu apertei. Foi em Torrevieja num “bar”.

Não o esqueci: aquela cara congestionada pelo álcool e no entanto de traços delicados, a voz rouquenha e escarninha, o corpo onde a embriaguez não conseguia destruir uma elegância que, sendo natural, era também cuidada…

Informei-me: pertencia à tripulação do “David Melgueiro” e era um simples “verde” quer dizer principiante (os outros “maduros” e “homens de ofício”). Achei estranho.

Era, na verdade, diferente dos demais: Mais evoluído, família de classe superior? Até pela maneira de vestir…

Com certeza, no entanto, para mim, mais antipático: Aquela troça mal disfarçada, com que me tinha atirado o “how do you do?”…

Enfim, estava embriagado. E continuou a beber no navio.

Choviam as queixas: Indisciplinado, raro cumpria a sua parcela no trabalho. Mas os outros gostavam daquele “verde” e lá o iam protegendo, escondendo-o dos oficiais supervisores.

Vieram falar-me…

Era açoriano, não tinha pai nem mãe, nem ninguém.

Chegara a estudar.

- “Julga que é mentira, doutor? Pergunte lá em cima, ao piloto: cursei com ele os primeiros anos do liceu!...”

Mas desistira. Aliás, até hoje, não fizera outra coisa senão começar carreiras… Depois veio a vida militar. E agora para aqui estava…

- Agora sou um reles “verde” senhor doutor…

Ficara horas a contemplar o mar, debruçado na amurada do arrastão.

- Sai daí, vai trabalhar, deixa lá isso. Olha que o capitão castiga-te…”

- Não castiga. Tenho ali o mar pronto a receber-me!...”

E no seu olhar azul-sombrio, brilhava qualquer coisa de feroz, brasa onde se queimava um grito desesperado…

Dormia sempre com uma faca, entre a camisa e o peito…

- “Deixa cá ver a faca: Pra que precisas tu dela, aí no teu beliche?”

- “Não dou. É a minha noiva. E qualquer dia caso-me com ela…”

Procurei falar com o rapaz. Agreste e chocarreiro a princípio, foi depois cedendo… à medida que, em mim, ia aumentando a simpatia por aquele “verde”, bravio e orgulhoso, que procurava no álcool e nos fumos da morte, alívio para a chaga da derrota, rasgada em suas entranhas…

- “A minha vida, doutor, é como o mar: Rola, rola sem fim; não agarra nada, não para nunca!...”»

 

In: SANTARENO, Bernardo - Nos mares do fim do mundo: doze meses com os pescadores bacalhoeiros portugueses por bancos da Terra Nova e da Gronelândia. [1ª ed]. Lisboa : Ática, 1959. pp. 23-25

(*) «pseudónimo literário de António Martinho do Rosário (1920 - 1980), considerado o maior dramaturgo português do século XX. Licenciou-se em medicina em 1950 e entre 1957 e 1959 exerceu actividade médica junto da frota bacalhoeira portuguesa na Terra Nova».

O que é ser Vitória?

Não sei, mas espero que não seja nada disto:

- pioneiros a expulsar uma rádio que fazia um relato desportivo no seu estádio (ver aqui);

- pioneiros a invadir o centro de treinos do clube e agredir jogadores (ver aqui);

- ter um presidente da Assembleia Geral que recomenda uma ida ao psiquiatra ao jogador que, com “tomates de betão”, fez frente a insultos racistas proferidos por alguns energúmenos da claque deste clube!

 

Por se ter passado no Estádio D. Afonso Henriques, nome – obviamente - alheio a tudo isto, deixo um conto de Alexandre Herculano para esta gente ler: O Bispo Negro.

 

Ao jogador, todo o nosso apoio!

{ Blog fundado em 2012. }

Siga o blog por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

 

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D