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És a nossa Fé!

Memórias de Peyroteo (29)

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« PORTUGAL - ESPANHA

Das vinte vezes que fui convocado para representar Portugal em jogos internacionais de futebol, cinco foram contra a Espanha.

1.º - Em Lisboa, a 12 de Janeiro de 1941. Resultado: Empate 2-2;

2.º - Em Lisboa, a 11 de Março de 1945. Resultado; Empate 2-2;

3.° - Na Corunha, a 6 de Maio de 1945. Resultado: Derrota 2-4;

4.° - Em Lisboa, a 26 de Janeiro de 1947. Resultado: Vitória 4-1;

5.° - Em Lisboa, a 20 de Março de 1949. Resultado: Empate 1-1.

 

Nestes cinco encontros marcaram-se 21 golos, sendo 11 de Portugal e 10 da Espanha.

É curioso notar que embora se trate de número ímpar, cada equipa averbou 1 vitória, 3 empates e 1 derrota, ficando Portugal com a vantagem de 1 golo, pois marcou 11 e sofreu 10. Decerto, não será levado à conta de vaidade dizer que dos 11 tentos, 7 foram marcados por mim.

Se, quando eu era um rapazola de 13 ou 14 anos e jogava futebol na equipa dos miúdos da minha terra angolana, alguém me dissesse que ainda um dia vestiria a camisola dás quinas para um encontro internacional contra Espanha, eu duvidaria do estado mental do… bruxo! No entanto, a minha reacção ao escutar previsão semelhante mas referente a jogos contra quaisquer outras nações, como, por exemplo, a Itália, Alemanha, Suíça, etc., não seria a mesma que contra “nuestros hermanos”. É que, em Angola, mormente em Moçâmedes, não só a rapaziada adepta do-futebol mas todo o povo da terra, vibra intensamente com a realização dos jogos entre Portugal e a Espanha. Pode a equipa portuguesa jogar contra qualquer outra de categoria muito superior à dos espanhóis, que o caso não assume aspecto de acontecimento nacional.

Naquele tempo, as notícias referentes ao futebol metropolitano só chegavam a Moçâmedes quase um mês depois dos factos consumados, já quando, na Metrópole, o caso havia passado à história e ninguém se lembrava das “burrices” cometidas pelo seleccionador quando escolhera os jogadores, nem dos golos “perdidos infantilmente” ou da incapacidade de certo jogador “que já está velho mas tirou assinatura para a selecção…”. Em Angola líamos as notícias referentes ao jogo com tanto interesse como se ele se tivesse realizado na véspera, e daqui se conclui que, lá como cá, o Portugal - Espanha em futebol é sempre um grande acontecimento desportivo.

 

A 12 de Janeiro de 1941 disputar-se-ia em Lisboa mais um jogo de futebol entre as equipas representativas de Portugal e da Espanha. O bruxo de que eu duvidaria, acertou na previsão e a minha estreia neste grande encontro era, agora, uma realidade.

Nas duas ou três semanas que o antecederam não se falava noutra coisa; a procura de bilhetes era extraordinária e o campo das Salésias seria pequeno para acomodar quantos desejavam assistir ao prélio.

O seleccionador escolheu um lote de jogadores com o qual formaria a nossa selecção. Havia dúvidas na inclusão deste ou daquele elemento e alguns jornalistas da especialidade entregavam-se ao trabalho de discordar com o seleccionador quanto a escolha dos jogadores, mas o certo é que, no que me dizia respeito, todos estavam de acordo, felizmente…

Perturbado e enervado por ir jogar contra os nossos vizinhos espanhóis? Não, francamente não. Para mim, tratava-se simplesmente de um jogo internacional, com todas as responsabilidades inerentes a tais encontros sem, contudo, esquecer que perder ou ganhar são consequências lógicas do próprio jogo. No entanto, se é certo que o jogo em si não constituía razão suficientemente forte para me enervar, a verdade é que o público entusiasta do futebol, ao exigir, descabida e incompreensivelmente, do jogador aquilo que ele muitas vezes não pode dar, preocupava-me um tanto. De resto, sobre este assunto, já disse o que penso.

Afinal, o jogo disputado em 12 de Janeiro de 1941 não teve história, assinalando-se apenas que, ao contrário do habitual, em vez de perdermos, empatámos a duas bolas - dois tentos marcados por mim. E já que do encontro pouco ou nada resultou digno de registo, julgo oportuno aproveitar o ensejo para exteriorizar o que sempre pensei acerca do tão decantado complexo de inferioridade da equipa portuguesa quando em jogo contra o grupo nacional espanhol.

Matematicamente, o problema pode ser posto deste modo: em futebol, Portugal está para a Espanha assim como o Olhanense está para o Sporting.

Em primeiro lugar teremos de encontrar o motivo principal, justificativo dos desaires sofridos pela equipa algarvia quando jogava contra o Sporting e que era, sem dúvida, a comprovada diferença de categoria futebolística existente entre as duas equipas.

Que o Olhanense possuía, no meu tempo, alguns jogadores de grande valia é incontestável, mas a verdade manda que se diga que o Sporting estava melhor apetrechado. Ora, se são os bons jogadores que formam as boas equipas, não restam dúvidas de que a do Sporting era em muito superior à do Olhanense e, portanto, sem a menor hesitação, encontro a chave do problema: o Olhanense perdia com o Sporting porque o primeiro era inferior ao segundo.

Poderá argumentar-se que o Olhanense vencera equipas tão boas ou melhores que a do Sporting, mas esta observação não destrói, por completo, o meu ponto de vista e a finalidade a que pretendo chegar.

Reconhecido e provado que a turma algarvia era inferior à dos “leões”, procuremos outros factores concorrentes para inferiorizar a equipa de Grazina frente à de Álvaro Cardoso. Os jogos que os algarvios disputavam perante o público, na sua terra, ou os que realizavam em Lisboa contra qualquer equipa que não a do Sporting, despertavam sempre muito interesse na massa associativa do Clube, independentemente da vontade de vencer que animava os componentes da equipa, mas não estou em erro se afirmar que todos os adeptos do Olhanense não se importariam que a sua equipa mais representativa perdesse todos os jogos de um campeonato se tivessem a certeza de vencer o Sporting Clube de Portugal… Matariam o carneiro que hoje deve estar muito velhinho!!!

Os anseios e as reacções do público olhanense quando a sua equipa defrontava o grupo leonino, eram totalmente diferentes do que sucedia quando o adversário era, por exemplo, o Benfica, o Belenenses ou o Futebol Clube do Porto. Esse ardente desejo de vitória, o prazer e alegria que a derrota do Sporting lhes proporcionaria seria de tal modo forte e grande, que os dominava, os perturbava e fazia esquecer, até, a inegável diferença de categoria existente entre a equipa de que são adeptos e a adversária. Por isso, não poucas vezes, chegaram a gozar, antes da realização do encontro, o prazer de uma vitória que, afinal, embora estivesse plenamente ao seu alcance, se transformou em amarga derrota.

O jogador sabe de tudo isso porque vive o mesmo ambiente, vive dia a dia em contacto com a massa associativa do Clube, conhece os seus desejos, sente-os, vibra com eles e… enerva-se, perturba-se, excita-se mesmo sem o desejar. O jogador sabe, também, que a derrota trará, para os amigos do Clube, um profundo desgosto, e como não lhe bastasse já a responsabilidade do jogo em si, vem ainda a “responsabilidade” de alegrar e consolar a gente da sua querida terra. Embora alguns jogadores admitam a vitória tendo em atenção o melhor apetrechamento técnico, táctico e, porventura, físico do adversário, sentem que, se perderem o jogo, os seus adeptos não lhes desculparão a derrota; a semana seguinte será um pesadelo porque, a toda a hora e a todo o momento, ouvirão falar do desaire sofrido:-”O Olhanense perder outra vez com o Sporting? Então nunca mais ganhamos? Vê lá isso no próximo domingo! Não nos dês esse desgosto; atira-te a eles sem medo! Dá cabo deles; vocês têm que ganhar desta vez…

Ora bem ; chegámos ao ponto: Não será isto o que se passa nas semanas que antecedem um Portugal - Espanha? Não será verdade que se a Equipa Nacional perder um jogo contra a Suíça, a Itália ou o Egipto, o leitor se arrelia menos com isso do que se a rapaziada sofrer uma derrota da Espanha?

Com os jogadores da Selecção Nacional passa-se a mesma coisa do que com os futebolistas olhanenses: Todos ouvem aquelas frases e procuram afastá-las do pensamento mas, por muito fortes de espírito que sejam, não conseguem alhear-se por completo da onda de tristeza - às vezes indignação! - que o grande público fará levantar contra eles se perderem um jogo que “é preciso” ganhar!!! (Como é tão mal compreendida a ideia desportiva!!!) Sendo assim - e assim é na realidade - parece-me que o público contribue, sem querer, para a inferioridade da nossa equipa em jogo contra a Espanha, por que se esquece da inegável superioridade futebolística dos nossos vizinhos e crê, seguramente, na vitória. Chega o dia do jogo, vai para o campo de bandeirinha na mão, supondo que os jogos se ganham só com gritos de incitamento… Surgem as dificuldades, a equipa nacional não dá o “rendimento que se esperava”, baixam as bandeirinhas e ouvem-se os assobios! Que os espanhóis dispõem de um campo de recrutamento de jogadores muito maior do que o nosso; que são 100% profissionais há mais de uma vintena de anos; que mercê desses factos o seu futebol progrediu incomparavelmente mais do que o nosso; que a orgânica do futebol espanhol é muito superior à nossa e, por isso, lhes possibilitou a cuidada preparação de jovens com qualidades, fazendo deles excelentes praticantes da modalidade - de tudo isto o público se esquece lamentavelmente! Quer, deseja, quase exige que os nossos seleccionados façam o milagre de ganhar aos espanhóis!

As manifestações de simpatia dispensadas aos jogadores no decorrer dos jogos são necessárias, dão coragem e os rapazes sabem apreciá-las; apoiam-se nelas para fazerem mais e melhor, mas o ambiente de segura vitória que grande parte dos entusiastas da bola cria à volta do encontro, menosprezando o real valor do adversário e a ideia desportiva, é prejudicial ao público que as criou e aos jogadores. O pensamento de ganhar o jogo está não só no espírito do público como no dos componentes da equipa, mas com uma diferença: os adeptos da bola admitem a vitória como certa, ignorando - ou fingindo ignorar - que o adversário, regra geral, nos é superior; nós, os jogadores, vamos para o campo com vontade de ganhar o encontro, lutamos pela vitória até ao limite das nossas forças, mas não olvidamos o valor da equipa que defrontamos. Se assim sucedesse, o resultado, na maioria dos casos, seria catastrófico -ainda mais desagradável quanto o foram alguns registados nos jogos contra a Espanha.

É dever de ofício nenhum jogador e, consequentemente, nenhuma equipa ignorar o valor do adversário porque, ciente dele, procurará dar-lhe luta explorando os seus pontos fracos. O futebol é um jogo e em jogo tudo é possível.

Os resultados conseguidos anteriormente pela equipa das cinco quinas, pela expressão dos números, podem considerar-se bons e confirmam a “gloriosa incerteza do desporto”, mas não atestam a nossa superioridade técnica e física (preparação atlética). Nas tácticas sim, fomos superiores e, por isso mesmo, pudemos averbar resultados lisonjeiros. Na série de cinco jogos em que tomei parte verificou-se igualdade absoluta no que respeita a vitórias, empates e derrotas, com um golo a nosso favor. Mas os números são, muitas vezes, enganadores.

 

Nasceu triste o dia 12 de Janeiro de 1941, e a tarde era cinzenta, sem sol, antes de chuva impertinente. O campo das Salésias estava completamente cheio daquele público que tinha quase por certa a vitória da equipa nacional porque, em seu entender, os espanhóis estavam a jogar menos do que nós.

A marcha dos campeonatos em Espanha foi prejudicadíssima pela guerra civil que enlutou o País vizinho e amigo, mas à data do encontro que íamos disputar, já o seu futebol se encontrava em franco ressurgimento. A regularidade dos campeonatos oficiais havia trazido aos jogadores espanhóis o indispensável poder atlético e apuramento técnico. Tudo ou quase tudo voltara à normalidade, pelo que os nossos eternos grandes rivais no desporto, estavam bem preparados.

Quais os motivos para tão exagerado optimismo?

O nosso público tinha ainda bem presente na memória a fraca exibição da equipa espanhola que nos visitara dois anos antes, menosprezando, porém, este pormenor importante: em dois anos, ou melhor, em duas épocas, os espanhóis trabalharam a fundo pelo ressurgimento do seu futebol. Organizaram os campeonatos, disputaram muitos jogos e isso trouxe-lhes o que haviam perdido durante a guerra ^civil: força física e boa execução técnica.

É curioso anotar que se julgava possível a vitória dos portugueses mais pela inferioridade momentânea dos espanhóis, do que pela melhoria ou valor do futebol português, donde se conclui que sempre se considerou o futebol espanhol superior ao nosso…

Os “optimistas”, fazendo juízos errados, anteviam a hipótese de batermos… em mortos! Admitindo que assim sucedesse, para mim, pessoalmente, uma vitória nessas circunstâncias era destituída de valor.

A verdade, porém, é que, com os espanhóis a jogarem quase o seu normal, podiamos ter ganho o encontro de 12 de Janeiro de 1941. O estado do terreno, cheio de lama, prejudicou-nos muitíssimo, beneficiando os nossos adversários que, no seu País, jogam quase sempre em campos encharcados.

Registou-se um empate a duas bolas, tendo as duas equipas jogado francamente mal, não chegando a mostrar o seu valor. Na minha opinião, este encontro não nos deu ensejo para se ajuizar do valor do futebol espanhol nesse momento, mas julgo que não estavam a jogar menos do que nós, apesar das contrariedades e desgraças por que passaram. E que, embora com o terreno enlameado e, portanto, mau para se jogar bom futebol, os espanhóis mostraram-se muito superiores aos portugueses nos pormenores físico-técnicos do jogo, só falhando, como de costume, na organização táctica da equipa, do que resultou preciosíssima vantagem para o grupo português e que permitiu aos seus componentes esconderem um tanto as suas dificuldades técnicas com a liberdade de manobra de que dispunham.

Mas um dia virá em que os espanhóis encontrem pela frente uma equipa portuguesa físico-técnica-tacticamente bem preparada. Se isso suceder, então os nossos vizinhos terão muito que contar… Assim eles se mantenham agarrados aos antiquados processos de jogo!

Para a história desse encontro ficou anotado, nas críticas e comentários, que eu marquei um golo, mas nos apontamentos que possuo acerca da minha vida de futebolista, estão registados como marcados por mim os dois golos obtidos pela equipa nacional.

No jornal “Os Sports”, n.° 2,448, de 13 de Janeiro de 1941, escreveu o meu amigo e jornalista Manuel Mota:

“Carlos Pereira marca a penalidade com um pontapé dirigido directamente às redes. Echevarria defende, atrapalha-se coro a bola e larga-a para dentro da baliza. Quando Peyroteo, aliás oportuno, deu o pontapé, já a bola tinha ultrapassado a linha de “goal”.

Ora, em apontamento à margem do meu “carnet” onde se encontram anotados todos os golos que marquei, lê-se:

“Carlos Pereira atira à baliza, o guarda-redes espanhol larga a bola que caiu sobre o risco fatal, mas não o ultrapassou porque a lama prendeu o esférico. Eu, seguindo a marcha da bola, toqueia-a para dentro da baliza e, só então, o árbitro apitou para “golo”.

Não me foi atribuído um tento que, na realidade, marquei nesse jogo em que tudo me correu mal. Paciência! É um a menos na conta de muitas centenas…

Nesse mesmo número do jornal “Os Sports” um crítico da especialidade escreveu:

“Peyroteo, muito vigiado e sem domínio de bola, não conseguiu corresponder ao que dele se esperava A luta, por vezes irregular, que lhe deram os adversários, deve tê-lo perturbado um pouco…”

Só eu sei e só eu senti essa luta, por vezes irregular, e o desgaste físico causado por ela e pela lama…

Equipa portuguesa: Azevedo; Simões e Guilhar; Amaro, Carlos Pereira e Francisco Ferreira; Mourão, Pireza, Peyroteo, A. de Sousa (Pinga) e João Cruz.»

 

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 177 – 184

Verdes são os campos…

 (Campos do Mondego após a passagem da tempestade Leslie) (*)

 

Verdes são os campos,

De cor de limão:

Assim são os olhos

Do meu coração.

 

Campo, que te estendes

Com verdura bela;

Ovelhas, que nela

Vosso pasto tendes,

De ervas vos mantendes

Que traz o Verão,

E eu das lembranças

Do meu coração.

 

Gados que pasceis

Com contentamento,

Vosso mantimento

Não no entendereis;

Isso que comeis

Não são ervas, não:

São graças dos olhos

Do meu coração.

 

(Camões, por José Afonso)

 

(*) A nossa homenagem às populações afectadas!

 

Memórias de Peyroteo (28)

«PORQUE NÃO FOMOS AO BANQUETE?

 

Na 6.ª feira ou no sábado - vésperas do jogo - o nosso bom amigo e treinador Augusto Silva, procedeu à distribuição dos convites para o banquete a realizar no Avenida Palace Hotel. Lembro-me de que ao recebê-lo, alguns jogadores, no número dos quais me incluo, disseram:

- “Esperem lá por mim! Não sei falar inglês e os dirigentes portugueses decerto não terão prazer em falar-nos. Pelo menos assim o têm demonstrado!…

Depois do jogo, já no autocarro que nos transportaria ao Rossio, apareceu um dirigente para nos “lembrar” que o banquete era às 21 horas no Avenida Palace Hotel e um dos jogadores disse-lhe;

- “Quando quisemos falar consigo, nunca estava na Federação e agora vem lembrar-nos de que há banquete! Mas não tenha dúvidas de que não vou lá!…”

O facto de termos perdido por dez a zero foi o suficiente para se pensar que os jogadores não compareceram ao banquete por terem sofrido tão pesada derrota. Afirmou-se também que a equipa combinara não comparecer 1 Aqui está outra afirmação infundamentada, injusta e, porventura, maldosa. Ninguém combinou coisa alguma a este respeito, nem a derrota influiu na decisão individual tomada pelos componentes da equipa nacional.

O que não nos pareceu acertado foi:

1- A Federação arrecadar seis ou sete centenas de contos e os obreiros dessa receita receberem cem escudos - menos do que qualquer arrumador ou alugador de almofadas.

2.° - Que nos tivessem vendido os piores bilhetes de entrada no Estádio - para as nossas famílias e amigos.

A verdade pura é esta: se os jogadores tivessem merecido um pouco de consideração a alguns dirigentes federativos; se fossem resolvidos favorável ou desfavoravelmente os seus pedidos; se, enfim, os dirigentes federativos não tivessem andado a fugir de nos falar ou de nos atender quando fomos à Federação, posso garantir que mesmo perdendo por vinte a zero, os rapazes teriam ido ao banquete.

Quando o misto “B. S. B.” perdeu por dez a quatro com o S. Lourenzo de Almagro, no final do encontro, momentos antes de entrarmos para o autocarro que nos conduziria à Baixa, estivemos em amena cavaqueira com os argentinos. E se houve banquete -não me recordo - não creio que os portugueses tivessem faltado todos.

Sei até que dois ou três jogadores portugueses acompanharam os argentinos numa autêntica noite de folia por esta nossa encantadora Lisboa.

 

Todos estes factos culminaram com um inquérito efectuado pela Direcção-Geral dos Desportos e os componentes da equipa nacional de futebol foram castigados com três jogos de suspensão pela falta de desportivismo demonstrada com a não comparência ao banquete.

Sem dúvida, a Direcção-Geral dos Desportos teve razão. Sucedesse o que sucedesse, a verdade é que os futebolistas ingleses de nada foram culpados. Por isso, e só por eles, toda a nossa equipa deveria ter comparecido ao banquete de confraternização. Mais tarde, o castigo foi anulado, servindo-nos isso de consolação para tanta… desconsolação sofrida.

Quando fui ouvido pelo instrutor do processo de inquérito, procurei desculpar-me e aos meus camaradas, mas nada consegui porque, na realidade, faltámos ao banquete.

O que aconteceria se, nesse tempo, como jogador que era, tivesse atacado alguns dirigentes do nosso futebol?

Nem quero pensar nisso!

Agora o que podem dizer é que prestei falsas declarações mas até neste ponto só me cabe meia culpa; a outra meia pertence ao Sporting onde fui aconselhado a não dizer toda a verdade e tudo quanto sabia - como medida de prudência porque eu fazia falta ao clube. Era melhor calar, compreendem?

E foi assim, meus amigos: juro que não houve exigências de dinheiro, e que não combinámos faltar ao banquete. Cada um resolveu como lhe deu na real gana e… apanhou três jogos de suspensão.

A história completa deste Portugal - Inglaterra ainda será feita - se alguém quiser ou puder fazê-la. Por minha parte, acabou-se!

No fim de contas todos nós tivemos maiores ou menores culpas, desde os jogadores ao público que impiedosamente nos assobiou!…

Seja em desconto dos nossos pecados.»

 

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 176 – 177

Memórias de Peyroteo (27)

«ITÁLIA-PORTUGAL

 Itália, 4 - Portugal, 1

Génova, 27-2-1949

 

Formada por Barrigana; Virgílio, Feliciano e Serafim; Canário e Francisco Ferreira; Lourenço, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano - a equipa nacional de futebol desceu ao rectângulo para sofrer mais uma derrota. Ao fim dos 90 minutos o marcador acusava quatro para a Itália e um para Portugal!

Vitória justa? Punição merecida?

Ao terminar este jogo contra os italianos, recordei aquele outro encontro disputado anos antes, em Milão, contra a Suíça. Em ambos, as arbitragens tiveram preponderante influência nos resultados. O Sr. Mattea, árbitro do Portugal - Suíça, fez tudo quanto podia para “liquidar” o nosso grupo e com uma arbitragem cuja nota saliente foi a flagrante parcialidade a favor dos suíços, conseguiu o seu desejo.

Agora, a 27 de Fevereiro de 1949, no Estádio de Génova, o francês Sr. Sdez, imitou muito bem o seu colega… Não dirigiu o encontro - como lhe competia - preferindo trabalhar a favor da “squadra azzurra”…

Com esta referência não procuro, de modo algum, diminuir ó valor da equipa da Itália nem ofuscar o mérito da sua vitória, mas não me custa admitir que, com uma arbitragem imparcial, o grupo português não tivesse dado melhores provas do seu valor. Remámos contra a maré, até que a descrença nos invadiu, muito embora o público e os próprios críticos desportivos não se apercebessem do nosso desânimo.

A Itália apresentou um grupo equilibrado, um conjunto de bons elementos, atlèticamente bem preparados e bons conhecedores do sistema táctico WM. É inegável terem jogado melhor do que nós, portugueses, mas o resultado poderia ter sido outro…

Ao intervalo Portugal ganhava por 1-0.

No princípio do segundo tempo Barrigana não teve sorte em dois lances - e sofremos dois golos. Feliciano magoou-se e foi “destacado” para o lugar de extremo; esta alteração e a péssima arbitragem do Sr. Sdez abalaram a moral da equipa. Depois… tudo nos correu pelo pior!

A equipa italiana foi superior à nossa, merecendo a vitória sem discussão. Esteve em tarde feliz e mesmo sem a ajuda do árbitro teria ganho a partida, porque jogou mais e melhor.

Admito, sem reservas, que qualquer árbitro cometa erros, mas do- erro involuntário à evidente parcialidade, vai um Mundo de coisas! A parcialidade, nestes casos, cheira a uma coisa muito feia; desonestidade!

 

 

PORTUGAL - INGLATERRA

Portugal, 0 - Inglaterra, 10

Estádio Nacional, 25-5-1947

 

Precisamente na época de 1946/47, quando a Selecção Nacional era constituída por um lote de jogadores em óptima condição física, formando um conjunto de boa capacidade atlética-técnico-táctica, e por isso mesmo, conseguiu as duas primeiras grandes vitórias, que ficaram como mais uma página gloriosa na História do Futebol Por- tugês-batemos a Espanha, em Lisboa por 4-1 e ganhámos à Irlanda, em Dublin, por 2-0 - foi precisamente nessa época que sofremos a mais severa punição em jogos internacionais: Inglaterra, 10 - Portugal, 0.

Uma desilusão! Era lícito esperar-se que no desafio com os mestres ingleses a nossa equipa desse melhor conta de si, ainda que não se esperasse mais uma vitória da turma lusitana porque, na craveira do futebol mundial, os ingleses estavam muito acima de nós, mas como o futebol é um jogo, esse facto permitia acalentarmos esperanças, ainda que fossem vãs, de ganhar aos futebolistas da Velha Albion. Contudo, ninguém pensava na derrota por dez golos sem resposta nem nós, jogadores, julgávamos vir a sofrê-la, muito embora reconhecessemos o valor do adversário e soubéssemos qual a diferença de categoria individual e força de equipa que existia entre as duas turmas. Mesmo assim, não descemos ao rélvado do Jamor antecipadamente batidos, pois todos quantos jogam futebol sabem que nem sempre ganha o melhor…

Está ainda vivo na memória de todos nós aquele jogo em que o Tirsense bateu o Sporting, eliminando-o da Taça de Portugal, desafio em que, felizmente, não tomei parte.

Após os 90 minutos do “Portugal - Inglaterra”, a nossa derrota foi glosada em vários tons. Os “especialistas”, na crítica ao jogo, fizeram as suas considerações, algumas acertadas e comedidas, pondo o dedo na ferida: a incontestável diferença de classe futebolítica.

Também se afirmou que os ingleses jogaram excepcionalmente bem - talvez como poucas vezes o tivessem feito - e a equipa nacional portuguesa, já de si inferior, jogara muito menos do que podia, sabia e estava ao seu alcance. Mas, como sempre acontece, a par dos comentários acertados, fervilharam os boatos tendenciosos, mal intencionados, acerca do comportamento dos jogadores no estágio, em Venda do Pinheiro, chegando ao cúmulo de se dizer que os rapazes haviam feito exigências de dinheiro e, porque a Federação os não atendera, tinham entrado no rectângulo dispostos a jogar para perder, desinteressados do resultado.

Nada há mais falso! Garanto que não houve exigências de espécie alguma. O que se passou pode considerar-se simples e natural nos nossos acanhados meios de incompreensivelmente fingido profissionalismo futebolístico, conta-se em poucas palavras:

Todos nós conhecíamos o valor era “força” da equipa adver- sária, não ignorando as nossas possibilidades. Jogador por jogador, equipa por equipa, admitindo que cada um dos contendores jogasse o seu normal, fácil seria advinhar qual viria a ganhar a partida.

Aos leigos pode parecer que só isto era o suficiente para nos considerarmos batidos no rectângulo, uma vez, que já o estávamos psicologicamente. Mas não levemos as coisas ao exagero; pensemos que os jogadores internacionais não são uns inexperientes nestas andanças da bola. Ter-se na devida conta não só valor do adversário como o nosso próprio valor, não equivale a pensar-se em derrota pura e simples.

Ora, o conhecimento da incontroversa verdade quanto à maior valia da equipa inglesa (quem ousaria negá-la?) levou-nos a pensar não ser desacertado - sem pecado ou crime - pedir ao Seleccionador a sua intervenção, de modo a conseguir que os dirigentes federativos atribuíssem à equipa um “prémio de presença” em jogo internacional e o pedido foi feito por intermédio do nosso capitão de equipa. Portanto, sem mal intencionados atropelos, foi respeitada a escala hierárquica e a ideia teria morrido à nascença se o Seleccionador não estivesse de acordo. Mais tarde disse-nos já ter falado e que os dirigentes haviam prometido “estudar o assunto”. Não se falou mais no caso e aguardámos.

Onde está, pois, a exigência?

Os jogadores sabiam só terem prémio se ganhassem ou empatassem com os mestres ingleses. Em caso de derrota - que seria o mais provável - apenas receberiam cem escudos, ou seja, o valor de uma diária. Quero dizer: os jogadores recebiam, quando em estágio, cem escudos por dia e se perdessem o jogo com os ingleses só teriam direito ao equivalente a mais de um dia de estágio!

Exigência dos jogadores ou incompreensão alheia?

Se fosse de admitir que a organização do jogo acarretaria “déficit” para a Federação, nem sequer nos atreveríamos a pedir um “prémio de presença”. Mas todos nós sabíamos que muitos dias antes do desafio já a lotação do Estádio Nacional estava esgotada; por consequência, o nosso pedido ordeiro era de considerar.

Entretanto, a Federação começou a distribuir pelos jogadores os bilhetes por eles requisitados em tempo oportuno e desde logo verificámos haver reduções de tal ordem que alguns jogadores recebiam menos de metade dos bilhetes pedidos … para pagar!

Até certo ponto concordei com os “cortes” por saber que a serem atendidos todos os pedidos, a Federação teria de reservar mais de um milhar de entradas só para os sectores denominados “cabeceiras”. Mas a verdade é que, nalguns casos, houve exagero de tesourada, embora se argumentasse, para justificar as reduções, que a lotação se esgotara rapidamente…

A rapaziada exteriorizou o seu desgosto quando recebeu quase metade dos bilhetes requisitados, não só porque desejava servir todos quantos neles depositaram confiança em conseguir a almejada entrada no Estádio do Jamor e ainda porque os que ficavam sem bilhete só admitiam a hipótese de terem sido preteridos por outros mais amigos.

E assim começou a confusão.

Os menos calmos diziam que se todos nós fizéssemos o mesmo, rejeitariam os bilhetes, mas como as opiniões se dividiam, cada um ficou com a quantidade que lhe coube, e apresentamos ao seleccionador a reclamação que julgámos ser justa.

Disse-nos ter falado com os dirigentes mas o certo é que tudo ficou na mesma, salvo um ou outro caso isolado.

Mas o pior aconteceu quando a rapaziada verificou os lugares que lhe foram distribuídos, tanto de cabeceira como de bancada central ou lateral. Apesar de pagarmos como qualquer outro comprador, os lugares eram dos piores: os da bancada central eram junto da lateral e estas o mais próximo possível das cabeceiras! Mesmo ao “avançado-centro” distribuíram bilhetes “às pontas”!

Deste modo, os jogadores pagaram autênticas bancadas laterais ao preço da central e as “quase cabeceiras” pelo custo de bancadas laterais! E pagaram - é bom não esquecer isto.

Estava provado que as famílias e amigos dos jogadores não mereciam tão bons lugares como qualquer comprador de ocasião. Além de tudo isto, ainda apareceram, no estágio, algumas pessoas exibindo bilhetes dos melhores sectores…

Para reclamarmos procurámos qualquer dirigente federativo mas nenhum aparecia, ou se aparecia dava-nos respostas evasivas como esta: “-Vamos ver o que se pode fazer, mas vai ser difícil, porque na Federação há apenas umas dúzias de bilhetes marcados por pessoas que já sabem quais os lugares que lhes foram destinados; vamos a ver…”

Entretanto, começaram a chegar ao estágio os “clientes” dos jogadores e ao saberem que os bilhetes não chegavam para todos, mostravam-se aborrecidos, não acreditando no que dizíamos. Não havia forma de os convencer, chegando-se a trocar palavras pouco amáveis que tinham influência desastrosa no espírito de alguns jogadores em vésperas de tão importante desafio.

Após um dos últimos treinos alguns seleccionados foram à Federação, mas um funcionário superior informou não estar presente qualquer director, mas quando íamos a sair entrou um que amavelmente nos cumprimentou e seguiu para o seu gabinete mostrando assim não querer demorar-se em conversa conosco. Procurámos entrar novamente em contacto com o funcionário superior que nos atendera, mas isso levou seu tempo pois mandou recado pedindo-nos para esperar. Cerca de 15 minutos depois apareceu e com a maior naturalidade perguntou:

- “O que desejam?”

- “Teríamos muito empenho em  falar com o director que entrou há pouco. De resto o senhor já sabia o que pretendíamos…

- “Pois é, mas o director quê entrou há bocadinho já saiu!

- “Então o senhor sabia que desejávamos falar-lhe e não lhe disse nada?”

- “Não; não disse, porque me passou de ideia!

Estamos todos a entender, não é verdade? Decerto não teria havido receio de sermos portadores de qualquer doença contagiosa… Verificada a impossibilidade de entrarmos em contacto com os dirigentes que tratavam da distribuição de bilhetes, resolvemos fazer o nosso rateio e atender os amigos na medida do possível, não sem nos sentirmos descontentes e vexados com a forma pouco atenciosa como estávamos sendo tratados. Numa última tentativa recorremos ao seleccionador mas este, embora dando-nos razão e querendo ajudar, nada podia fazer. Estávamos em presença de um facto consumado.

Ora este estado de coisas não podia, de modo algum, contribuir para a boa e indispensável disposição dos jogadores e foi precisamente a má disposição em que se encontravam que motivou nova diligência recordando o pedido de “um prémio de presença”. Mais uma vez o Dr. Tavares da Silva nos disse ter falado, novamente, com os dirigentes federativos mas que até ao momento nada se resolvera. Nem sim, nem não - antes pelo contrário…

Na noite de sexta-feira anterior ao jogo, Álvaro Cardoso, capitão da equipa, recomendou que não mais se falasse em bilhetes nem em dinheiro. Todos nós nos devíamos entregar apenas à ideia de que no domingo iríamos defrontar uma poderosa equipa de futebol. A camisola das quinas estava acima de todas as questões e nós como desportistas só devíamos pensar em defende-la com todas as nossas forças e saber.

Todos cumprimos, mas a verdade é que não eram boas as relações existentes, nesse momento, entre jogadores e alguns dirigentes federativos. Não era bom o estado de espírito da equipa nacional.

No entanto, todos nós teríamos ficado satisfeitos se a Federação tivesse mostrado desejo, por mais insignificante que fosse, em resolver os nossos problemas. Bastaria para tanto que nos tivessem dado uma simples explicação acerca do motivo por que aos jogadores foram distribuídos , tão maus lugares. E é possivel que nesse capítulo a razão estivesse do lado dela - Federação. Mas não se dignaram dizer-nos uma única palavra de conforto moral; não lhe merecemos a consideração de qualquer resposta aos pedidos feitos por intermédio do Seleccionador, Dr. Tavares da Silva!

É vexatório,' não é? Mas foi assim; paciência!

É necessário esclarecer - repetindo - que ao solicitarmos um “prémio de presença” para o encontro Portugal - Inglaterra, tivemos o cuidado de salientar que se tratava de uma sugestão com a qual, evidentemente, a Federação podia não concordar, e sendo assim, não falaríamos mais no caso, exactamente para que um simples pedido não fosse tomado (?) por exigência.

Mas o silêncio que se fez em volta do nosso pedido não fazia crer nem supor que alguém lhe atribuíra foros de exigência. Dou a minha palavra de honra que isso nunca esteve no espírito dos jogadores e se qualquer dirigente nos tivesse informado da interpretação (errada aliás) que estavam dando ao nosso pedido, afirmo categoricamente que os jogadores não mais falariam nele.

Daqui resultou, como não podia deixar de ser, uma frieza dos seleccionados para com alguns dirigentes federativos; e comentava-se:

- “Eles não nos nos ligaram importância e, portanto, se vierem aqui ao estágio hoje ou amanhã (véspera e ante-véspera do jogo) não falaremos nos bilhetes nem no prémio, mas também não lhes ligaremos nenhuma…”

Era este o estado de espírito dos jogadores e não se pode dizer que fossem eles os principais culpados.»

 

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 170 – 176

Para análise....

«Caros Consócios do Sporting Clube de Portugal,

Sem prejuízo de nos mantermos sempre disponíveis para, com a dignidade reposta, obter os necessários consensos em prol dos superiores interesses do Sporting Clube de Portugal, são factos irrefutáveis que:

a) apesar de termos, literalmente, dado o peito às balas e de o tribunal ter decidido a ilegalidade/extemporaneidade de qualquer ato eleitoral antes de decididas as questões disciplinares criadas pelas duas putativas comissões de JMS, nada foi capaz de evitar que as eleições acontecessem;

b) não obstante neste ultimo acto eleitoral muitos associados terem, em consciência, acabado por decidir não participar, milhares de outros votaram, - facto que lamentamos mas respeitamos -, os nossos Advogados alertam-nos que estamos juridicamente vinculados a impugnar todos os actos que decorram ou sejam tomados na sequência das ilegalidades cometidas, sob pena de impossibilitar a nossa defesa da honra, e da condição de Sócios de pleno direito do Sporting Clube de Portugal;

c) temos direito à nossa Defesa (como qualquer humano neste mundo) pelo que não abdicaremos de garantir a nossa "absolvição" total, em qualquer procedimento ou processo ilegal em que fomos ou sejamos visados;

d) a defesa da nossa honra e da nossa dignidade em face das ilegais acções/sanções disciplinares exigem, inevitavelmente, continuarem as acções judiciais em curso, pois que o seu abandono enfraqueceria substancialmente a possibilidade de êxito, na "batalha" judicial contra as referidas acções/sanções disciplinares, por conformação com actos ilegais originários naquelas.

Por outras palavras:

- nós, Bruno de Carvalho e Alexandre Godinho, que desde 2013 tanto demos ao Clube no plano financeiro, no plano patrimonial, e no desportivo devolvendo o orgulho ao Universo Sportinguista, não podemos abandonar a defesa da nossa honra e da nossa dignidade, nem podemos tolerar que ilegalidades se traduzam na humilhação e na degradação irreparável da nossa imagem pública, da nossa dignidade humana e da nossa qualidade profissional;

- e de acordo com os nossos Advogados, por nada nos pressupostos que inadvertidamente nos empurraram para este dia se ter alterado, não podemos desistir da "guerra" jurídica relativa à farsa da destituição e à farsa eleitoral que se encontra consumada, especialmente por ainda nada se saber sobre a intenção e solução que esta nova direcção tenciona implementar para solucionar as gravíssimas e tão negativamente consequentes ilegalidades e irregularidades praticadas.

Por último não podíamos deixar de dar uma palavra de extremo apreço e agradecimento a todos os Sportinguistas que apoiaram activamente ou indirectamente o Movimento "Feitos de Honra. Leais ao Sporting!" e a Onda Verde com multidões leoninas que nos receberam e acompanharam de Norte a Sul do País, bem como na Ilha de São Miguel nos Açores (não tendo sido possível em tempo útil ir à Madeira, o que lamentamos) – Vocês São o Sporting CP e o Sporting CP também é feito de Vocês!

Viva o Sporting Clube de Portugal!!!

Bruno de Carvalho, Sócio nº 14.868
Alexandre Godinho, Sócio nº 15.963»

 

In: https://www.abola.pt/nnh/Noticias/Ver/750143

Memórias de Peyroteo (26)

(retomo)

 

(cont.)

 

«NEM À HORA DA MORTE!….

 

A linha média da Selecção Portuguesa, que deveria jogar em Basileia, no encontro Suíça-Portugal, em 20 de Maio de 1945, constituía sério problema para o seleccionador nacional, Dr. Tavares da Silva.

Eis a incógnita:

O Moreira foi um dos nossos médios de ataque que melhor sabia enviar a bola aos seus companheiros da frente. Nisto não há a mínima parcela de elogio imerecido. Afirmo-o com toda a consciência do que digo e falo em nome da experiência própria.

Porém, catorze dias antes quando, na Corunha, se disputou o jogo contra a Espanha (6 de Maio de 1945) o Moreira revelou certas dificuldades na “marcação” do adversário à sua guarda.

Por isso mesmo e ainda por virtude da chuva que caira na noite anterior ao jogo e encharcara ó terreno, o Dr. Tavares da Silva considerou a hipótese de, contra a Suíça, substituir o Moreira pelo Barrosa.

A constituição definitiva da equipa só nessa noite nos foi comunicada, numa reunião em conjunto, na qual o Dr. Tavares da Silva disse:

- “A equipa de Portugal entra no rectângulo com a seguinte constituição- e citou os nomes dos jogadores, incluindo o Barrosa.

Rematou desta forma: “E joga o Barrosa, não por o considerar melhor do que o Moreira, mas porque o estado do terreno, muito escorregadio, aconselha a utilização de um elemento de carac- terísticas diferentes das do Moreira…”

Naturalmente que o Moreira não gostou, o que, aliás, sucede com todos os jogadores, porque nenhum gosta de ficar a ver o jogo I Pelo contrário, todos desejam defender as cores da camisola das cinco quinas.

Mas o seleccionador assim o decidira, não havendo, pois, mais nada a discutir. As ordens cumprem-se!

Decerto o Moreira não dormiu toda a noite, facto que se daria comigo em iguais circunstâncias. Jogador da melhor têmpera, homem que sentia o jogo, com ele vibrava e gostava, sinceramente, do futebol, não achou bem que o Dr. Tavares da Silva o substituísse pelo Barrosa.

Intimamente estava convencido de que era melhor do que o seu substituto. Ele tinha a sua opinião mas o seleccionador via o problema de maneira diferente.

Ora, na manhã do grande encontro, ainda muito cedo, o Dr. Tavares da Silva que, decerto, tal como o Moreira, não dormira bem, saiu do seu quarto a fim de dar um passeio, aproveitando a frescura da manha, mas reparou que no átrio do Hotel, sentado num “maple”, estava o Moreira, com cara de poucos amigos…

O seleccionador apercebeu-se donde provinha a sua disposição, o ar tristonho e o aborrecimento do nosso bom camarada Moreira, e resolveu ir conversar com ele, para o animar.

Dirigindo-se-lhe, disse:

- “Deixa lá isso, Moreira. Não penses mais no caso. Hoje joga o Barrosa, noutro desafio jogas tu. O futebol é assim. Não te aborreças…”

O Moreira ouviu tudo sem encarar o Dr. Tavares da Silva mas quando este acabou o “discurso”, o nosso famoso médio de ataque levantou a cabeça, fixou bem o seleccionador e tal como se falasse a um* inimigo, respondeu:

- “O senhor poderá ter muita razão mas tome bem nota disto: O Barrosa, nem à hora da morte, há-de passar tão bem a bola à linha da frente como eu! Ouviu bem? Pois é isto mesmo que lhe digo!…

Duas horas depois e quando a rapaziada apareceu no “hall” o Dr. Tavares da Silva queria mas não conseguia contar o que o Moreira lhe havia dito. Ria-se de tal maneira que pouco se entendia. Desejava contar mas o riso, as gargalhadas francas e alegres, não o deixavam articular uma palavra completa.

Só mais tarde conseguiu contar a “ocorrência”…

Não se pode negar certa graça e profundeza na imagem do Moreira:

- “O Barrosa, nem à hora da morte…

Mas o Moreira tem, ainda, melhor. Aquela dos pés elásticos em vez do “slip” é de sonho. Pena é que a não possa contar.»

 

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 169 – 170

Preocupação

Existem duas características identitárias no nosso clube que nos enche de orgulho enquanto sportinguistas:

- a formação, no futebol;

- o ecletismo das modalidades.

Nas modalidades a marca de Moniz Pereira é incontornável deixando a saudável herança de que o sucesso se obtém através de trabalho, trabalho, trabalho e não através de “compra” de atletas estrangeiros para assim atalhar o sucesso.

Esta é uma característica do Sporting.

Na formação, a imagem de marca é Aurélio Pereira. Não vou repetir muito daquilo que deve ser a orientação do clube, destaco em particular os textos de Pedro Azevedo aqui publicados que, se me permite, faço meus. Porém deixo uma interrogação.

Os tristes episódios do dia 15 de Maio e as suas consequências têm que ser motivo de profunda reflexão, principalmente ao nível do impacto que possa ter tido ao nível da formação. Recordo que de todos os jogares que rescindiram após o 15 de Maio só regressaram aqueles que não eram oriundos da formação.

Não vou questionar as razões que cada um destes jogadores tiveram para a rescisão, porém vem-me à memória episódios anteriores a estes de pessoas que se serviram da formação do Sporting como se de um salto de trampolim se tratasse.

Qual a formação que queremos para o nosso clube?

 

Deixo a pergunta para os candidatos à presidência e recordo as palavras de Manolo Vidal, a propósito de um desses “trampolinistas”: «Estamos a fazer um exame de consciência, porque de certeza absoluta que formámos um grande jogador mas não conseguimos formar uma pessoa com carácter».

Infelizmente o tempo disse que o clube não fez, para a formação, esse exame de consciência.

Já cheira! – parte 2

Aproveitando a dica do André Fernandes Nobre, recordo Liedson neste texto (Correio Verde) do João Caetano Dias.

 

“Estava o resultado em 1-2, a favor dos leões, quando aconteceu o momento do jogo. Num rápido contra-ataque Liedson apareceu isolado em frente a Moretto, contorna-o e faz o 3-1 final.

Há jogadas de combinação magníficas, remates imparáveis, toques de génio, jogadas individuais que nunca se esquecem. Há golos que resolvem desafios, golos que nos fazem avançar em eliminatórias, golos que esvaziam a ansiedade e a adrenalina acumulada. Este golo de Liedson não tem nada disso. É apenas um bom golo, mas o que o faz especial passa-se atrás da baliza.

Nos painéis luminosos que circundam o rectângulo de jogo há publicidade dinâmica. Os CTT publicitam um novo produto. No momento em que Liedson contorna Moretto pode ler-se nos painéis "É só enviar". Liedson envia. E assim que a bola entra na baliza, no preciso momento em que cruza a linha de golo, o texto nos painéis muda para "Correio Verde". Melhor, só por encomenda.

(…)

No vídeo, a entrega de Liedson começa aos 3:05.”

 

 

Futebolices

“O HOLOCAUSTO

 

Sou muito amante da verdade, mas em caso nenhum do martírio.

Voltaire

 

A verdade, para Voltaire, tem um limite prático: a pele. Voltaire foi sempre muito conservador e sensato. Se os árbitros de futebol fossem mais voltarianos e precavidos conseguir-se-ia desterrar, de uma vez para sempre, o feio costume de enforcar árbitros de futebol (uso que tanto destoa do espírito olímpico de jogadores, massa associativa e adeptos em geral, casados ou solteiros), mas quando, por assinalar penáltis [sic], se corre o notório risco de terminar enforcado, o árbitro deve abster-se de assinalar penaltis, castigo que pode ser substituído pelo livre ou até pelo deixar jogar, conforme as circunstâncias. O regulamento precisa de uma revisão muito urgente; não há dúvida que foi ficando velho e inútil.

- E o senhor acha que se conseguirá que o revejam?

- Vá-se lá saber! As pessoas estão muito agarradas aos costumes, as pessoas são muito rotineiras e pacóvias, muito resignadas e acomodadas; as pessoas não gostam que as coisas mudem e preferem que continuem como estão, mesmo, estando mal. As pessoas são assim!

Minervino Caeymaex Cabrillas, mais conhecido por Gazapo, árbitro de futebol, foi enforcado pela populaça na forca municipal, na forca levantada por subscrição dos eleitores pais de família. Minervino Caeymaex Cabrillas, mais conhecido por Gazapo, árbitro de futebol, assinalou um penálti [sic] contra a equipa da casa e pagou e pagou a sua ousadia com a vida. Se calhar, se tivesse lido a tempo Voltaire, a esta hora andaria por aí impávido e sereno: gozando de uma existência normal, de uma existência de boticário ou de inspector fiscal, e fazendo de tudo – disso pode ter a certeza! -, menos apontar penalties. Olhe que, às vezes, as pessoas são mesmo maníacas! Dizem que Minervino Caeymaex Cabrillas, mais conhecido por Gazapo, nada sofreu no patíbulo – antes assim! -, e que morreu como um bom atónito, sem dizer ai, ou como um passarinho analfabeto, sem abrir o bico. Pobre Minervino Caeymaex Cabrillas, mais conhecido por Gazapo, que saltava sempre ao relvado tão repenteadinho e asseado!

O seu colega e substituto Belarmino Galán Carlota, mais conhecido por Goyito, vai ser enforcado pelos jogadores (de acordo com alguns sintomas) na bandeira da porta dos vestiários, a forca de emergência apenas usadas em casos muito extremos. Belarmino Galán Carlota, mais conhecido por Goyito, armou-se em carapau de corrida e a primeira coisa que fez mal transpôs a porta do touril, foi assinalar um penálti [sic]. Belarmino Galán Carlota, mais conhecido por Goyito, gostava mais do martírio do que qualquer outra coisa: da verdade, por exemplo, ou do lento e acompanhante palpitar do coração. Quem ama o perigo, nele perece. Belarmino Galán Carlota, mais conhecido por Goyito, foi pensando últimas frases solenes, enquanto o arrastavam no caminho para o suplício. O pior foi que, no fim, está visto que por causa dos nervos, se esqueceu.

Holocausto, etimologicamente, significa queimar totalmente, queimar sem deixar sequer o rabo. A Minervino e a Belarmino não os queimaram, enforcaram-nos. A verdade é que, para os devidos efeitos, acaba por dar no mesmo.

- Pois não pense, meu bom amigo, não pense! Não é a mesma coisa ser viúva de presunto ou de churrasco. Nisto da exactidão da linguagem o senhor devia ser mais preciso e correlativo. Olhem-me só os académicos que temos!

- O senhor desculpe!

Minervino e Belarmino, os dois sujeitos do surdo holocausto (com gritos, mas sem chamas), julgaram, na sua infinita soberba, poder desafiar o respeitável, esse monstro de respeitos que corta a direito tido o que se nega à sua deliberada enfermidade. Minervino e Belarmino, pendurados pelo pescoço, pagam as culpas da deformante educação que receberam. Na hora do pranto já é tarde para a serena recapitulação.

- E o senhor acha que as gerações do futuro vão aprender?

- Pois não; eu acho que não. Nisto sou um pouco céptico, por muito que me custe. Eu só queria era ver o futuro cor-de-rosa.

Minervino Caeymaex Cabrillas, mais conhecido por Gazapo, era árbitro internacional. O seu colega, o Goyito, ainda não; ao Goyito já lhe faltava pouco para o ser, mas ainda não; ao Goyito já lhe faltava pouco para o ser, mas ainda não o era. É mais fácil chegar a jogador internacional do que a árbitro internacional; também é mais dura a vida do árbitro, de cara para a multidão que ruge, assobia, deita pela boca e pede (indefectivamente) a cabeça de alguém (regra geral, a do árbitro).

Minervino Caeymaex Cabrillas, mais conhecido por Gazapo (e também por Tabiano da D. Clara), teria preferido morrer na guerra do Boers. Em contrapartida, Belarmino Galán Carlota, mais conhecido por Goyito (e também por Jurel da Poetisa Núñes), teria gostado mais de morrer na praça de Ronda, pela cornada de um burro. Com a morte, como bem se sabe, passa-se a mesma coisa que com a carta muda no póquer, apresenta-se quando lhe apetece e sem avisar. Às vezes tira-nos as castanhas do lume do pecado, mas outras vezes (está-se mesmo a ver que é para não nos fiarmos) o pez a arder do caldeirão de Lúcifer, esse malvado sem remorsos negro como um carvão.

Os solteiros da cidade pediram autorização ao senhor presidente da Câmara para erguerem a sua forca e não terem de estar sempre a depender da forca dos pais de família (uma forca arcaica e valentudinária onde cantava a sua velha polonesa o aborrecido violino do gorgulho). Apesar de ainda não terem recebido uma resposta, correm boatos de que o senhor presidente da Câmara acabará por lhes dizer que não, que a cidade já tem o suficiente com uma forca e que, em caso de aperto, a peçam emprestada aos casados (ou pendurem o réu da bandeira da porta dos vestiários, como se tem vindo a fazer até agora).

Minervino e Belarmino não sabiam que a verdade tem as suas fronteiras como tudo. Nas ilhas, a fronteira é mais fácil de determinar. Se calhar a verdade é uma ilha rodeada de conveniência por todos os lados (a conveniência de livrar a pele, à cabeça de tudo). Minervino e Belarmino, se tivessem lido Voltaire, não teriam sido teimosos e mártires.”

 

CELA, Camilo José - Onze contos de futebol. 1ª ed. Porto : Asa, 1994. p. 55-58

A representação mais precisa do caos

As recentes (como hei-de chamar?) peripécias protagonizadas pelo presidente-demitido Bruno de Carvalho não surpreendem, pois para o clube, para o Sporting, ele pretende o caos.

A propósito de caos…

 

Prokofiev, Concerto para Piano n.º 2, Finale

Evgeny Kissin, Piano

 

Serguei Prokofiev foi um dos grandes revolucionários do mundo da música. Compôs a sua primeira ópera aos nove anos, e quando era adolescente e frequentava o Conservatório de São Petersburgo já era considerado um dos grandes enfants terribles da música, compondo peças virtuosas e ferozmente dissonantes que deitavam por terra as convenções existentes relativas à tonalidade e conduziam inexoravelmente a música para um novo rumo.

Aprecio-o ainda mais porque recebeu críticas como esta no New York Times: «Os grilhões das relações entre acordes normais são ignorados. Ele é um psicólogo das emoções mais pérfidas. Ódio, desprezo, fúria – sobretudo fúria -, repulsa, desesperança, escárnio e provocação servem legitimamente de modelos para os estados de espírito.»

Genial.

Em 1912-1-1913 Prokofiev compôs um concerto para piano em memória de um amigo que se suicidou depois de lhe enviar uma carta de despedida. A música é tão surpreendente, tão irada tão irresistivelmente insana que, aquando da estreia, muitos dos presentes pensaram que ele estava a troçar deles. Continua a ser umas peças musicais mais difíceis do seu repertório, havendo apenas um punhado de pianistas suficientemente corajosos para a interpretar. Um chegou a partir um dedo ao interpretá-la ao vivo.

É a representação musical mais precisa do caos que jamais ouvi.”

 

In: RHODES, James - Instrumental. 1ª ed. [S.l.] : Alfaguara, 2017. p. 37

 

 

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