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És a nossa Fé!

Memórias do Tottenham (parte 2)

Complemento ao texto de Pedro Boucherie Mendes

 

«Quinhentas pessoas, não mais do que isso. Uma das páginas mais sublimes do Sporting de Malcolm Allison é presenciada por escassas cinco centenas de pessoas. Chove com intensidade. Lisboa debate-se com uma tempestade de Inverno com rajadas superiores a 120 km/h e forte concentração de pluviosidade. Proíbe-se a circulação de trânsito na Marginal entre Lisboa e Cascais. Um pesqueiro francês, incapaz de controlar a força do vento, encalha no Bugio. Parte da cidade fica isolada durante algumas horas, com os acessos rodoviários cortados pela chuva e pela lama. Em contrapartida, no Estádio José Alvalade, vinte e dois jogadores e um punhado de espectadores indomáveis, aconchegados como pinguins na Antárctida, produzem um espectáculo sublime, uma espécie de récita para um clube privado.

O campeonato inglês parara por culpa da intempérie. Uma das mais graves tempestades do século imobilizara por completo a Grã-Bretanha, provocando níveis recorde de cheias e prejuízos avultados.

O futebol sofre também. O manager do Tottenham, Keith Burkinshaw [*], velho amigo de Malcolm Allison, desafia o treinador do Sporting para um jogo de preparação em Lisboa no dia 29 de Dezembro, de forma a que os seus rapazes mantenham algum tipo de competição. Por ironia, escolhe o dia da tempestade em Lisboa. Talvez ainda magoado pela eliminação face ao Neuchâtel, Allison aceita o repto de medir forças com uma das mais fortes equipas da Europa.

O Tottenham traz a Lisboa todos os pesos-pesados. Chegam os argentinos Ricky Villas e Osvaldo Ardilles, estrelas da equipa que vencera o Campeonato do Mundo de 1978. No auge da sua popularidade, Ardilles fora chamado até a participar no elenco do filme Fuga para a Vitória com Sylvester Stallone e Pelé. Ao aterrarem em Lisboa, nos últimos dias de 1981, os dois craques argentinos não adivinham que a sua vida mudará de todo quatro meses mais tarde: a Marinha do seu país invadirá as ilhas Malvinas, um protectorado britânico, e a Grã-Bretanha retaliará, iniciando um breve confronto militar que causará a morte de mais de novecentos argentinos. Assobiados em todos os estádios do país, Ardilles e Villa em breve partirão de White Heart Lane.

Na comitiva do Tottenham, chega também Ray Clemence, o guarda-redes que acaba de perder a titularidade da selecção inglesa para Peter Shilton e procura no Tottenham a fama perdida em Liverpool. Chega Glen Hoddle, de físico imponente e habilidade invulgar nos jogadores das ilhas. Arribam ainda os irlandeses Chris Hughton e Tony Galvin e o escocês Steve Archibald, figuras de proa de um conjunto que terminará a Liga Inglesa em quarto lugar, vencendo a Taça de Inglaterra e atingindo as meias-finais da Taça dos Vencedores de Taças.

«Foi um jogo sublime», lembra Nogueira. «Precisávamos daquilo, do desafio com uma equipa grande depois da eliminação com os suíços. Eu adorava jogar à chuva e acho que nunca tirei tanto prazer da minha profissão como nesse jogo. Estavam o Ardilles e o Villa do outro lado. O campo estava encharcado, mas jogámos como se fosse um pano de bilhar. Foi um jogo incrível e lembro-me de não querer que aquilo terminasse. De estar a jogar por prazer, entre amigos.»

Allison coloca em campo o seu onze de gala - estamos longe ainda da era em que os treinadores falarão em poupanças, em tempos de recuperação ou em desgaste competitivo. Habituado ao ritmo do futebol inglês, o treinador instiga provas de competição duas vezes por semana, aceitando reptos de equipas britânicas, húngaras ou de selecções já em plena preparação para o Campeonato do Mundo de Espanha. Contra o Tottenham, alinham Meszaros na baliza, Virgílio, Zezinho, Eurico e Mário Jorge, Xavier, Lito e Nogueira, Manuel Fernandes, Oliveira e Jordão. Barão, Bastos e José Eduardo serão também utilizados.

Com desfaçatez, logo aos 4 minutos, o barbudo Ricky Villa recupera uma bola no seu meio-campo e inicia um slalom estonteante, batendo em velocidade vários adversários até concretizar o primeiro golo. Villa marcara um golo semelhante em Wembley, no Verão anterior, na 100.ª final da Taça de Inglaterra (vitória por 3-2 contra o Manchester City). Repete agora o gesto em Alvalade, deslumbrando colegas e rivais.

Uma dezena de minutos mais tarde, o Tottenham amplia a vantagem após a marcação de um pontapé de canto. Poderia ter sido o canto do cisne, mas «continuámos a jogar como sabíamos», lembra Virgílio. Um autogolo reduz a desvantagem e, em cima do intervalo, Oliveira serve Manuel Fernandes para o golo do empate. A um quarto de hora do fim, os mesmos protagonistas dão corpo ao terceiro golo do jogo e a uma vitória saborosa. «Ganhámos por 3-2 a uma das melhores equipas da Europa e foi um jogo extraordinário. Épico, corajoso, aberto. Ganhámos e jogámos muito bem. Foi pena não termos disputado mais jogos com equipas poderosas. Lembro-me de que, meses depois da saída de Allison, num almoço em casa de João Rocha, o presidente disse que a nossa equipa era uma das melhores da Europa. E acho mesmo que ele tinha razão... até se começarem a destruir alguns dos alicerces», reconhece Virgílio.

No final da época, quando fizer um longo balanço a Santos Neves, Allison valorizará a exibição de António Oliveira neste encontro: «Quando rende o seu melhor, é um dos melhores do mundo! A exibição dele diante do Tottenham é inesquecível. Ardilles estava do outro lado e a actuação de Oliveira foi brilhante.» António Oliveira recorda o jogo e o aplauso de Allison com saudade: «Tive treinadores, como Bella Guttman, que me elogiavam como pretexto para obter qualquer coisa. Allison elogiava-me sem cobrar nada. Em troca, eu dava a vida pela equipa. Julgo que a chave é essa: conhecer os 24 jogadores da equipa, percebê-los e tentar tirar o máximo de cada um.»

O encontro com os ingleses serve vários propósitos: alimenta o ego, retira complexos e mantém o ritmo competitivo. Na crónica do jogo em A Bola, Aurélio Márcio sintetiza aquilo que quase todos os pupilos de Malcolm Allison ainda subscrevem mais de trinta anos depois: «Com as suas virtudes e os seus defeitos, Allison põe a jogar quem corre, retira da equipa quem não corre, não se preocupa nem choraminga por este ou aquele jogador estar doente. Pura e simplesmente, olha para o plantel e põe outro a jogar. Allison fez do Sporting a mais competitiva equipa do futebol português [... ] e também o Tottenham se rendeu a Oliveira em superforma, dando a estes ingleses uma lição de como se deve jogar à chuva e na lama.» O único contratempo do jogo particular reside no cartão amarelo mostrado a Carlos Xavier, que priva o jogador de actuar na jornada seguinte em Vila do Conde, pelas regras da época.»

 

[*] «Burkinshaw será nomeado treinador do Sporting em Fevereiro de 1987 e ganhará o seu lugar no Hall da Infâmia do futebol do clube ao validar o afastamento do capitão Manuel Fernandes do plantel da época de 1987-1988.»

 

In.: ROSA, Gonçalo Pereira - Big Mal & Companhia : a histórica época de 1981-1982, em que o Sporting de Malcolm Allison conquistou a Taça e o Campeonato. 1ª ed. Lisboa : Planeta, 2018. pp. 195-198

João Rocha...

... por Vítor Serpa.

 

«As lagostas de Nova Iorque

 

A chegada de João Rocha à presidência do Sporting foi um acaso do destino. Um momento particular, uma oportunidade que se agarra por instinto.

Poderia ter sido presidente do Vitória de Setúbal, e até chegou a preparar a candidatura. Porém, acabou por aceitar ser candidato à presidência do Sporting, e a verdade é que nos seus treze anos à frente do clube acabou por se tornar num líder histórico, o maior de sempre da história do emblema fundado pelo visconde de Alvalade.

João Rocha tinha estudado na Escola Comercial Marquês de Pombal, em Lisboa. Tinha sido colega de aula de um primo direito do meu pai, que esteve ligado ao futebol do Belenenses, Egídio Serpa. No entanto, João Rocha costumava dizer-me que tinha sido colega do meu pai e seu companheiro na equipa de futebol da escola. Fazia essa confusão, provavelmente, por se lembrar do nome Serpa e por ser verdade que o meu pai também tinha frequentado a mesma escola, embora com três anos de diferença. O meu pai nascera em 1927 e João Rocha em 1930.

Foi um presidente inovador, firme, teimoso, por vezes belicista, sempre rodeado por um conjunto de dirigentes da «velha guarda», onde sobressaía a figura inteligentíssima do Dr. Nunes dos Santos, que tinha sobre ele uma enorme influência.

Na segunda metade da década de 70, eu começava a crescer no jornalismo e no jornal A Bola. Os jornalistas mais jovens do jornal, eu e o Joaquim Rita, trabalhávamos como saltimbancos, percorríamos o país de Norte a Sul e não passávamos mais de meia dúzia de fins-de-semana em Lisboa. Depois, o Rebelo Carvalheira, um dos grandes repórteres do jornalismo português, assassinado na sua residência, no ano de 1983, em circunstâncias nunca totalmente esclarecidas, veio de Angola e também se juntou ao duo itinerante.

A pouco e pouco fui ganhando a confiança profissional de Vítor Santos, então o chefe de redacção e líder absoluto d’A Bola, e comecei a ser chamado a fazer reportagens e entrevistas no Benfica e no Sporting, que era o patamar superior do jornalismo desportivo em Portugal. É curioso recordar, hoje, como era próximo, nesse tempo, o relacionamento com jogadores de futebol, treinadores e dirigentes, incluindo presidentes de clubes.

Curiosamente, a minha relação profissional com João Rocha foi-se tornando sólida e sobrevivia com alguma facilidade aos momentos menos bons da relação institucional do jornal com o Sporting, que sempre olhou para A Bola como benfiquista, apesar do reconhecido sportinguismo de Vítor Santos.

Fui algumas vezes convidado para os célebres almoços na sua esplêndida casa, na Lapa. João Rocha adorava cozinhar para os convidados e fazia gala das suas capacidades culinárias. Eram reuniões abertas, com gente muito diversa e dispersa. Reuniões simpáticas, onde nunca alguma coisa me foi pedida que me levasse a sentir-me usado. Mesmo assim, não era um convidado muito assíduo, porque achava que tanta simpatia poderia pôr em risco a minha independência ou a minha imagem de independência. Lá d’A Bola, o convidado mais frequente era o Alfredo Farinha, de quem João Rocha muito gostava, apesar de o saber benfiquista.

Nessas reuniões, falávamos muito sobre o Sporting. O presidente tinha uma ideia muito clara e lúcida sobre o que queria para o clube. Sabia que o Benfica tinha uma base de apoio muito maior e, por isso, uma dimensão que aconselhava que fosse o Sporting a escolher o campo de luta. De forma inteligente, João Rocha optou por uma escolha baseada na valorização da importância das mais diversas modalidades, do atletismo ao hóquei em patins, da ginástica ao andebol, que deram ao clube um lugar único no desporto português.

A ginástica levou centenas, talvez milhares, de novos sócios ao Sporting. O atletismo e o hóquei deram títulos nacionais e internacionais. No andebol e no básquete, o Sporting era invencível em Portugal.

«Se queremos combater o Benfica, temos de ser nós a escolher as armas com que nos batemos», dizia Rocha, com uma noção muito lúcida e pragmática da realidade. E a verdade é que conseguia muitos sucessos nesse combate.

Talvez já poucos se lembrem, mas João Rocha foi o primeiro presidente de um clube português a pensar na mudança de paradigma de todo o edifício, velho e ultrapassado, em que assentava o futebol português. Queria gerir o Sporting, e em especial o futebol profissional do clube, como se fosse uma empresa. Criou, assim, a Sociedade de Construções e Planeamento, que seria aprovada pelo Governo de Marcelo Caetano em Março de 1974, um mês antes do 25 de Abril.

Os tempos de revolução que se seguiram inviabilizaram o projecto inovador e futurista. Tempos que não foram fáceis para João Rocha, um empresário sem especial relação com o mundo da política. Visionário e com espírito pioneiro, aproximou-se da República Popular da China, ganhou a confiança de figuras importantes do país, que, então, era para nós tão distante quanto desconhecido. Ganhou ainda maior dimensão como empresário e levou o Sporting a novas oportunidades de crescimento, através de uma parceria estratégica com os chineses.

Era, no entanto, nos Estados Unidos da América que João Rocha se sentia no «seu mundo». Acompanhava sempre o Sporting nas digressões de Verão pela América e em algumas fiz parte do grupo de jornalistas destacados para a cobertura desses torneios de fim de época, onde muitos dos clubes portugueses se financiavam para pagar ordenados no longo deserto do defeso competitivo.

Numa dessas digressões, o Nuno Ferrari, que já tinha sido submetido, em Portugal, a uma intervenção cirúrgica ao coração, foi acometido de um novo ataque cardíaco grave. João Rocha logo providenciou que ele fosse transferido para um hospital nova-iorquino de renome, mas essa decisão viria a levantar problemas com o seguro.

O Sporting terminou a digressão, voltou para Portugal, o Nuno permaneceu internado e João Rocha continuou a acompanhar, de perto, a sua recuperação. Quando o hospital deu alta ao Nuno, a questão do pagamento ainda não estava resolvida com o seguro. João Rocha nem hesitou. Pagou a despesa e ele regressou a Lisboa, em condições de segurança, com acompanhamento especializado no avião.

Não quero dar uma impressão errada da figura humana de João Rocha. Aquele que foi o mais emblemático presidente do Sporting não tinha uma personalidade fácil. A sua relação com os outros baseava-se numa ideia de mando um tanto ou quanto monárquico. Era um líder absoluto e absolutista. Governava o Sporting numa liderança forte, era crítico duro e até intransigente do poder político, que considerava incapaz de entender o que era essencial para o desenvolvimento do país, tentava dominar no território mais vasto que pudesse, em especial, na área dos negócios e no sistema desportivo.

Também procurava exercer pressões fortes sobre os jornalistas. Alguns, gente de espinha menos direita, aceitavam submeter-se aos seus desígnios e acho que chegavam mesmo a receber algumas compensações por essas fraquezas do espírito. Outros não transigiam.

Num Verão em que acompanhei o Sporting na sua habitual digressão aos Estados Unidos, a minha relação com João Rocha estava em baixa. Cumprimentávamo-nos, mas não nos demorávamos à conversa como noutras alturas.

Ora, em todas as digressões de clubes portugueses e da Selecção Nacional, era bom hábito e costume os jornalistas serem convidados para um almoço ou jantar de convívio com os dirigentes. João Rocha cumpria sempre esse ritual e convidou-me, a mim e aos outros jornalistas, para um jantar especial em Nova Iorque. Seria um jantar, só, de lagosta.

Achei o convite exibicionista e despropositado. Além do mais, poderia parecer que aceitava resolver o problema que nos distanciava pelo preço de um jantar de lagosta. Recusei, mas tive o cuidado de ter a gentileza de explicar que o fazia, apenas, por razões profissionais. A redacção, em Lisboa, esperava o meu trabalho e tinha de ficar no quarto do hotel a escrever.

João Rocha pareceu compreender a justificação. Era sabido que os jornalistas d’A Bola, então ainda um trissemanário, escreviam quilómetros de prosa em reportagem, especialmente quando eram enviados especiais ao estrangeiro. Foi aliás essa cultura jornalística uma das grandes responsáveis pelo crescimento e sucesso do jornal.

Fui, de facto, para o meu quarto e fiquei a escrever durante longas horas. Já estaria perto das dez horas da noite quando me bateram à porta. Fui abrir. Era um empregado do hotel, por sinal, português. Trazia um carrinho com uma enorme bandeja tapada e uma garrafa de vinho branco mergulhada num frappé com gelo.

«Com os cumprimentos do senhor João Rocha», disse-me o empregado, antes de sair.

Destapei a bandeja e não pude deixar de largar uma gargalhada. Não uma, mas duas lagostas de deliciosa aparência e um bilhete:

«Meu caro Vítor,

Espero que aceite este meu pequeno gesto, como homenagem à nossa amizade».

No final, a assinatura:

«João Rocha»

Na sua luta constante por um Sporting líder no futebol português, teve de suportar e de enfrentar, não raras vezes, uma surpreendente aliança entre o FC Porto e o Benfica. Era um combate desigual, que João Rocha travou sempre com enorme coragem.

Com ele, o Sporting conheceu um trajecto difícil, sim, mas consistente e coerente. Tornou maior um clube que já era grande e deu-lhe a necessária identidade para poder marcar diferenças. Em tempos de penúria, investiu dinheiro próprio. Quase sempre a fundo perdido. Sem outra recompensa que não fosse a consolidação da sua indiscutida presidência, que duraria treze anos.

Como sempre acontece, depois de uma liderança forte e muito personalizada, o seu afastamento causaria danos ao Sporting, como se de um forte abalo sísmico se tratasse, e cujas réplicas se vieram a sentir ainda por muitos anos. Acho que ainda hoje, apesar de enfraquecidas, se vão sentindo...»

 

 

In.: SERPA, Vítor - Há vida nas estrelas. 1ª ed. Lisboa : Federação Portuguesa de Futebol, 2019. pp. 79-83

Jordão

«SEM SOMBRA DE VEDETA

Aí está ele outra vez, o goleador emérito. Tem 35 anos e escolheu Setúbal para voltar aos relvados, depois de um afastamento penoso em que se disse que acabara para o futebol. Rui Jordão, angolano de Benguela, quer manter-se honesto até ao fim da carreira sem cair no vedetismo.

 

P. - Aos sete, oito anos de idade, quem era o Rui Jordão que dava os primeiros pontapés numa bola? A propósito, a bola era de borracha?
R. - Era uma bola de meia. Nessa altura dá-me a impressão de que não havia muitas bolas de borracha lã na minha zona em Benguela. A bola de meia era mais fácil, era um peúgo roubado ao irmão mais velho, ou ao pai. Jogávamos na rua, claro.
P. - A polícia não chateava?
R. - Não, a polícia não se preocupava, porque tínhamos muito espaço para jogar, não atrapalhávamos nem o trânsito nem a polícia nem ninguém. Assim era fácil os miúdos desenvolverem as suas potencialidades sem interferência. E mesmo que a polícia fosse chatear, a gente encontrava sempre outro sítio para jogar.
P. - A sua habilidade foi notada muito cedo?
R. - Penso que sim, talvez aos dez, doze anos, independentemente de não ser nada oficial. Mas a verdade é que muita gente admirava a minha forma de jogar, diziam inclusivamente que era um futebol já um bocadinho mais adulto. Aos treze, catorze entrei para um clube, o Portugal de Benguela,
para aquilo que seriam os juvenis de hoje. Treinávamos três vezes por semana, mas não tínhamos campeonato; divertíamo-nos uns com os outros, jogávamos uns contra os outros ao domingo. Só isso.
P. - Mas tinham treinador.
R. - Tínhamos treinador. O termo mais usual hoje seria uma escola de jogadores. Ele trabalhava com os miúdos na descoberta de valores para serem integrados na equipa principal.
P. - Benguela é conhecida por ser a terra dos quintalões. Nunca lá estive, explique-me como são.
R. - Ah, os quintalões. Bom, é uma casa e por trás é o quintal, um quintal enorme. Sei lá, aqui na Europa vive-se muito mais apertado. Em Benguela não tínhamos problemas de espaço. Felizmente. O quintalão dava para tudo, para jogarmos à bola inclusive, já que o assunto é esse.
P.- Você só jogava à bola? Ou corria também? Porque há quem diga que a morfologia do Jordão se aproxima da de um velocista.
R. - Por acaso tive uma experiência agradável - e desagradável também. A certa altura proporcionou-se uma ida a Luanda, para jovens, e eu, que poucas ou raras vezes saía de Benguela a não ser para o Lobito, que era a uns trinta quilómetros, pertinho, de boleia, fiquei fascinado pela ideia. E a única forma de ir era participar na corrida de 80 metros.
P. - Que você ganhou.
R. - Não. Eu não tinha a preparação adequada como sprinter. E quem ia a Luanda eram os dois melhores nos testes. A corrida começou, eu ia à frente, mas fiz uma ruptura de todo o tamanho e fiquei em terceiro. Enfim, por especial favor, porque viram que eu teria ganho se não fosse aquilo, lá fui a Luanda.
P. - Que idade tinha?
R. - Uns quinze anos.
P. - Luanda o que lhe pareceu? Uma cidade muito grande? Muito...
R. - Muito grande. Muito diferente de Benguela.
P. - Hostil?
R. - Nessa altura não me apercebi de nada disso. Apreciei foi a diferença. E a beleza de Luanda. Porque eu achava que tudo o que não fosse a minha cidade era belo, apesar de considerar Benguela muito bonita. Um arranha-céus... Nós chamávamos arranha-céus a um prédio de quatro, cinco andares! Na minha idade, jovem, que não saía de Benguela, Luanda foi uma maravilha.
P. - E depois, aos dezasseis, você entrou para o Sporting de Benguela. Para os juniores.
R. - Sporting de Benguela, exactamente, levado pelo meu irmão.
P. - Ele era também jogador ou um simples adepto do Sporting?
R. - Jogador. Fui por influência dele. Aliás a camaradagem nesse tempo dava para as pessoas serem mais unidas, e os meus amigos estavam mais no Sporting de Benguela, de onde por conseguinte a fuga. Não tinha havido nenhuma vinculação ao Portugal, dada a minha idade dos treze, catorze, de modo que fui atrás dos amigos. O ambiente normalmente é que nos puxa, e foi o que aconteceu.
P. - Quanto tempo esteve júnior no Sporting de Benguela?
R. - Duas épocas, antes de vir para o Benfica. Aliás uma época e meia.
P. - Em Lisboa instalaram-no no Lar do Benfica. Como era: uma espécie de colégio? Ou havia futebolistas bastante mais velhos do que o Jordão?
R. - Eu cheguei quase no fim do Lar. Quando chegámos já não estavam os grandes craques. Estavam alguns jogadores que por qualquer motivo não tinham ainda conseguido uma casa, mas nessa altura o Lar era praticamente só para os recém-chegados. Fiquei um ano, depois disso fomos para quartos.
P - Quartos em casas particulares? Como era a sua casa?
R. - A casa não era minha, vamos lá. Tinha uma senhora que me alugava o quarto.
P. - E a senhora sabia que tinha lá um jogador de futebol?
R. - Acho que sim. O único compromisso dela era dar-nos quarto e alimentação, o resto tratávamos nós.
R - O Jordão faz uns anos no Benfica, depois tem uma experiência em Espanha no Zaragoza, depois volta e vem para o Sporting (aquele romance tão falado na época), e agora está no Vitória de Setúbal. Sente-se bem aqui?
R. - Sinto.
P. - Vendo-o treinar, julgo ter percebido que você joga à bola com uma grande satisfação. Acertei?
R. - Satisfação, sim. Eu penso que é assim um pouco. E porquê? Porque o ambiente que eu encontro aqui é muito diferente daquele ambiente que tive no Sporting ou tive no Benfica. Não porque os de Setúbal sejam melhores, é que no Sporting, e não vamos recuar muito no tempo, havia muito mais responsabilidades, menos alegria. Vivíamos em tensão constante. A responsabilidade estava centralizada em duas ou três pessoas, e uma delas era eu. Portanto isso, parecendo que não, rouba-nos a... Rouba-nos quase alguma coisa de bom que a gente tem, que é a alegria de treinar, a alegria de viver, a alegria de mostrarmos às outras pessoas que nós somos alegres.
P. - Ouve-se dizer que o Jordão preza bastante o sentido do companheirismo.
R. - Sem dúvida nenhuma. Isso para mim é fundamental. E eu consegui sempre bons amigos nas equipas onde estive.
P. - Os treinos do Vitória de Setúbal têm uma parte de brincadeira, brincadeira séria...
R. - Sim. Mas estamos a trabalhar.
P. - Um trabalho agradável, para mim que estava de fora. E o Neno sempre a dizer piadas, que giro que é. O Neno é um elemento fundamental para o vosso ambiente, não acha? «Põe aqui os olhos, Conhé, põe aqui os olhos!», gritava ele da baliza.
R. - Realmente o Neno é uma peça fundamental nesse xadrez, chamemos-lhe assim, porque é um jogador de boa disposição e que transmite boa disposição aos outros jogadores, e isso é importante numa equipa de trabalho em que cada um tem os seus problemas e podemos vir, uns mais, outros menos, aborrecidos de, sei lá, das nossas vidas particulares, privadas. O Neno é o bálsamo para algum mal que alguém tenha.
P.-Já percebi que você defende rigorosamente a vida privada.
R. - Sim, sim. Acaba o futebol e começa a minha vida particular. No fim do jogo, chuveiro, casa... É que, depois de um jogo, depois de esforços destes, depois de darmos tudo, precisamos de descanso, independentemente da responsabilidade que a gente tem como profissionais de futebol.
P. - Nessas alturas os jornalistas são uns chatos?
R. - Os jogadores também são. Tem de haver uma compreensão mútua que por vezes não acontece, porque há jornalistas que entendem que o jogador tem de estar sempre disponível, o que por vezes não é o caso. Mas, claro, é chato o jornalista vir ter com o jogador e ir sem trabalho para casa...
P. - Depois de uma paragem de um ano e meio, chegou a pensar que era o fim da carreira, que tinha de ir fazer outra coisa?
R. - Cheguei. Estava muito defraudado com o futebol, e não era com o futebol: com as pessoas do futebol. Houve uma altura em que eu pensei abandonar completamente.
P. -As suas declarações mais solenes são no sentido de não fazer vida como treinador ou secretário técnico. Qual é a alternativa? A indústria hoteleira?
R. - É uma das hipóteses.
P. - A Gare Marítima de Alcântara como foi?
R. - O restaurante? Foi uma experiência.
P. - Por acaso não se comia propriamente mal.
R. - Mas podia-se comer melhor. Agora a Gare Marítima já acabou há muito tempo.
P. - Entretanto o Jordão tem um bar, o 10-A. Com o antigo jogador Artur e o Viana, a princípio, e depois com o Viana. Qual é o melhor «barman», você ou o Viana?
R. - O Viana, o Viana! Ele é que sabe dessas coisas.
P. - O negócio é economicamente interessante?
R. - Tudo é interessante quando a gente gosta.
P - Não é portanto uma perda de tempo o 10-A.
R. - Mesmo economicamente não é. Mas eu acho que se nós lutamos por criar qualquer coisa de que a gente goste, e se não corre financeiramente bem, há sempre aquela força que nos leva a melhorar. O 10-A não dá muito, dá o suficiente. Há muita concorrência de bares em Lisboa, e o fundamental é o 10-A funcionar para aqueles que hoje vivem do 10-A. Porque a primeira experiência, em Alcântara, não funcionou, mas há que não desistir.
P. -Você veio para o Setúbal também porque já tinha tido uma boa experiência com o treinador, o Malcolm Allison, no Sporting?
R. - Sim, foi tudo positivo.
P. - Mas ele dá-vos grandes sovas nos treinos! Hoje de manhã...
R. - Hoje de manhã nem por isso. O senhor talvez tenha ficado impressionado, mas não foi muito duro, tem havido dias piores. E a alegria que se vive a cada momento faz com que eu não sinta a carga negativa que o senhor diz.
P. - Vocês fazem estágio no Vitória?
R. - Não, porque há responsabilidades. Não é preciso.
P. - O tempo que o Jordão jogou em Espanha no Zaragoza, recordado à distância de alguns anos, foi positivo?
R. - É sempre positiva uma experiência dessas, mesmo quando foi só negativa.
P. - Houve um jogador sul-americano que o hostilizou, o Arrúa. O nome é esse?
R. - Sim, sim. Até eu era para ficar três anos e só fiquei um. No fim de três meses queria-me vir embora, só que não podia. Não encontrei lá o ambiente que esperava, portanto houve uma adaptação muito difícil, entraves de vária ordem, de forma que mostrei à direcção a minha vontade de voltar para Portugal.
P. - Ao menos a temporada espanhola deu para arredondar o pé-de-meia?
R. - Sim, um bocadinho.
P. - Hoje, não sei se você concorda, os ordenados dos futebolistas mais cotados foram inflacionados.
R. -A inflação é teórica. Não digo que ela não exista depois de 1974 ou 1975, mas a maior inflação é a inflação de fora...
P. - De fora?
R. - É que hoje o jogador ganha 500 e lá fora dizem 5 000. Se ganha 1 000, diz-se que ganha 10 000.
P. - E a vida pós-futebol?
R. - É muito difícil, e eu posso dizer isso porque estive parado um ano e meio. Acho que há uma readaptação noutro sector da sociedade...
P. - Readaptação penosa?
R. - Exacto. É como se nós fôssemos outra vez jovens de dezoito ou dezanove anos à procura de emprego. E deixar de gostar do futebol assim de repente...!
P. - O fisco vai apertar os calos aos profissionais de futebol. Qual é a sua opinião?
R. - Tem que haver moralização. Nesse sentido poderá ser benéfico até para o jogador de futebol, porque o jogador precisa de uma legalidade, precisa de ter força, de poder falar como qualquer outro cidadão. Só que eu acho que as coisas têm que ser medidas, o futebol é um bocadinho complexo para se ditarem leis que...
P. - O vosso sindicato defende-o completamente? Deveria ter mais força?
R. - O nosso sindicato infelizmente não tem força. Nós somos uma classe bastante egoísta, cada um por si. Até por isso a legalidade tem de aparecer algum dia, para bem dos futebolistas.
P. - Aflige-o o problema dos trabalhadores com salários em atraso?
R. - Isso aflige toda a gente, mesmo quem aufere importâncias muito superiores aos salários que esses trabalhadores deviam receber. Só que pouca gente faz por que isso melhore. Você pergunta se eu sinto, e eu sinto, mas não posso fazer 
nada por esses trabalhadores, não sou governante, não dito leis, não posso resolver nada.
P. - Compare o Allison com outros treinadores que teve ao longo da sua carreira.
R. - Eu direi que o Allison foi o treinador que mais me marcou, pela rectidão, pela verdade que está sempre com ele, pelos métodos de treino, pela sua conduta na vida dentro e fora do futebol. Foi o único treinador que eu considerei líder, e a liderança é muito difícil. O líder não se faz: nasce e é. Há muita gente que gostaria de sê-lo mas não tem estruturas interiores para se assumir como tal. O Allison, sem o apregoar aos quatro ventos, é-o na verdade, demonstra-o dia a dia. Neste tempo todo que eu o conheci foi sempre assim. Não se deixa influenciar pelos resultados negativos - nem positivos -, é sempre a mesma pessoa, tem sempre a mesma linha.
P - Ser vedeta é complicado?
R. - Para mim é. Eu não consigo ser a vedeta. Não consigo por exemplo dar alegrias ao jornalista que me quer entrevistar, nem aos entusiastas do clube, os indivíduos que me encontram num restaurante e são adeptos do clube que eu neste momento estou a representar, quer dizer, há ocasiões em que eu descuro isso tudo. Descuro, não por vaidade, que seria já vedetismo, mas porque defendo muito a minha privacidade. Devia talvez, como lhe disse, dar alegrias às pessoas, satisfazendo um pedido ou indo até à mesa do adepto que me chamou.
P. - Resumindo, é um homem reservado?
R. - Exacto: reservado. Mas há uma excepção, que é com as crianças, a quem continuo a dar toda a atenção, mesmo sendo contra o meu feitio. Vou-lhe arranjar um exemplo. Estou zangado, zangado a sério, um jornalista vem pedir-me uma entrevista e eu não quero falar com ninguém, digo 'não'. Não sou hipócrita. Mas se for uma criança é diferente, falo com ela e satisfaço o seu pedido.
P. - Mantém-se informado sobre o campeonato angolano, o Girabola?
R. - Sinceramente não.
P. - Nem sabe do Sporting de Benguela? Nada?
R. - Nada, nada. O ano passado ainda sabia por correspondência do meu irmão, mas depois ele foi tirar um curso à Alemanha, de treinador de futebol, e perdi um bocadinho o contacto com Angola.
P - Taça dos Clubes Campeões Africanos: acompanha a prova?
R. - Também não.
P. - Há quem sustente, talvez de forma estereotipada, que o futebol é uma selva. Acha alguma ponta de verdade nisto?
R. - Uma ponta muito grande! Muito grande! Há muitos sentimentos negativos no futebol. Como há interesses enormes, as pessoas transformam-se, e sempre para pior. Toda a gente que entra no meio do futebol torna-se egoísta, cada um quer salvar-se a si próprio. Depois de tudo o que passei ao longo da minha carreira, dou razão a quem diz que o futebol é uma selva. Coitados dos leões lã das selvas!
P. - De vez em quando uma equipa queixa-se de que foi prejudicada por um árbitro...
R. - ...o que é fácil. É sempre fácil na vida atribuir às outras pessoas os nossos erros ou as nossas carências. As massas associativas precisam de arranjar bodes expiatórios.
P. - O jogador por vezes não é também um bode expiatório?
R. - Qualquer um serve. O jogador, o treinador. E o árbitro. E não é só no futebol, mas noutros sectores da vida: gostamos de arranjar alguém que leve as nossas carências. Agora o árbitro é o alvo n.º 1. Umas vezes por incapacidade - porque há casos de incapacidade -, mas outras apenas porque errou, ele tem que decidir e é humano errar numa decisão.
P - Já cumprimentou algum árbitro por uma boa arbitragem?
R. -Já. E com satisfação, independentemente de noutras situações considerar que o árbitro errou e me prejudicou. Mas não adianta nada atirá-lo para o covil dos lobos, para o pisar, para o massacrar no dia seguinte, para ser o grande réu no meu fracasso dentro do campo.
P - Tenho estado a pensar, Jordão, em belos golos seus que depois foram inúteis. Aquele golo contra a URSS que levou Portugal a França - e Portugal não ganhou o Europeu. Depois aqueles dois golos contra a França, um muito bonito e o outro ajudado por um ressalto de bola...
R. - Ajudado, sim senhor.
P. - ... e que também inúteis porque o Platini...
R. - ... o Platini estava nos seus dias.
P - Pelo Vitória de Setúbal o primeiro golo seu, contra o Chaves, não impediu que vocês perdessem por 3-1 em casa.
R. - É, é uma sensação de que não chegámos a fazer nada. Mas os anos dão-nos estaleca para aguentar essas situações, e bem lá no fundo afinal sabemos que fizemos tudo. Depois os nossos desaires são desaires da equipa, só porque marquei um golo bonito não vou dizer que eu é que estou bem e os outros não prestam. Mas a desilusão com a França, no Europeu, foi mais que uma desilusão: foi um choque.
P - Fala dessas coisas com os seus vizinhos? Dá-se com os seus vizinhos? Eles conhecem-no?
R. - Conhecem. Mas eu não vivo num prédio, vivo numa casa independente. Tenho, chamemos-lhe assim, um vizinho do lado direito. A minha casa é uma destas casas com um quintal na parte de trás...
P. - Pronto, o quintalão de Benguela!
R. - Em Benguela, por falar nisso, conhecíamo-nos todos uns aos outros. Aqui a gente tem que se adaptar. Infelizmente. Quando cã cheguei, reparei que um vizinho, um vizinho de andar, podia não me passar cartucho. Essa mentalidade é má.
P. - Em sua casa quem é o ministro das Finanças: a sr.a Jordão, o próprio Jordão?
R. - Sou eu. Ela é o secretário de Estado... Quer dizer, eu oriento em termos gerais, mas há uma parte que pertence a ela.
P. - Qual é a sua refeição favorita?
R. - Bife.
P. - Coisa mais monótona!
R. - Eu não tenho o prazer da mesa, seria incapaz de sair de casa para ir a tal ou tal sítio comer determinada coisa. De maneira que o que lhe estou a dizer é uma habituação: bife, arroz, às vezes peixe grelhado, pouca batata. No meu caso foram dezasseis anos desta dieta. De vez em quando lá experimentamos uma feijoada, ou um cozido à portuguesa, um bacalhau, mas nada disso entra no dia a dia.
R - A culinária angolana seria impensável para a sua vida de jogador?
R. - Impensável.
P. - Recorda algum prato angolano preferido?
R. - Muamba. A que se come aqui em Portugal não é genuína, está falsificada.
R - Um caldinho de peixe, também gostava?
R. - Muzongué? Óptimo.
P. -A família que você deixou em Angola como está? Bem? Ou em situação precária?
R. - Está bem.
P. - Algum amigo seu da juventude pertence ao governo angolano?
R. - Da minha criação, não.
P. - Onde fez a tropa?
R. - Em Leiria.
P. - Como foi? Apertaram-no muito?
R. - Bem... A primeira semana tive o fim-de-semana cortado porque me desenfiei.
P. - Quais as qualidades decisivas para um jovem candidato à profissão de futebolista?
R. - Primeiro a humildade, e ela terá de continuar até ao fim da sua carreira. (Mas é humildade mesmo, não a imagem da humildade!) Depois a honestidade. Mesmo que o jogador a não encontre nas outras pessoas, é fundamental, até para a tranquilidade interior. E por fim o sentido do profissionalismo. Evidentemente que ao longo dos anos o jogador vai-se corrigindo pelos erros cometidos. Ninguém é perfeito. Porque o futebol é bastante difícil, sobretudo para essas pessoas humildes e honestas.
P. - Saltillo?
R. - O caso Saltillo veio cá para fora, mas há muitas outras situações, falo das relações clube-jogador, que nunca chegaram a ser conhecidas.
P. - Basicamente porquê?
R. - Porque o jogador está diminuído face ao patronato. É a este que continua a dar-se força. Depois o jogador, um egoísta, não tem quem o defenda. Resultado, muitas vezes defende-se calando-se.

(22.01.1988)»

 

In.: PACHECO, Fernando Assis - Retratos falados. 1ª ed. Porto : Asa, 2001.  pp. 91-105

«Em tudo havia beleza»,…

… de Manuel Vilas.

Na página 231 leio:

 

“Passei a semana inteira sozinho, no meu apartamento.

Pequenas viagens até à cozinha, até ao quarto, até à casa de banho, passeios pela divisão em que escrevo, acender o televisor. Contemplar a cozinha, os pratos, os talheres, a cafeteira. Contemplar a cama desfeita do quarto. Olhar para a agenda. Deitar-me no sofá. Irmano-me com a minha tristeza como se ela proviesse de uma terceira pessoa, é outra das coisas que me inquietam, e que me esmagam, porque acho que estou a ficar louco.

É a irmandade com tudo o que correu mal; é com isso que eu me irmano, com toda a desventura, com todo o sofrimento; mas sou ainda capaz de me irmanar com algo infinitamente superior à desventura: irmano-me com o vazio dos homens, das mulheres, das árvores, das ruas, dos cães, dos pássaros, dos carros, dos lampiões.”

Prémio Nobel da Literatura

Olga Tokarczuk e Peter Handke são os dois novos Nobel da Literatura

Escritora e activista polaca receberá o prémio relativo ao ano de 2018, o dramaturgo austríaco é o vencedor de 2019

Sobre o Prémio Nobel da Literatura de 2019

Peter Handke, escreveu:

«"O guarda-redes está a ver se descobre qual é o canto da baliza que o jogador quer atingir", disse Bloch. "Se conhece o jogador, sabe qual é o canto que ele prefere de uma maneira geral. Mas provavelmente o jogador que vai marcar o penalty pensa também que o guarda-redes está a tentar descobrir. Por isso, o guarda-redes tem de admitir que precisamente hoje a bola vai entrar pelo outro canto. Mas que é que acontece se o jogador que vai marcar o penalty  seguir o pensamento do guarda-redes e acabar por decidir atirar para o canto para o qual costumava atirar?»

 

In: HANDKE, Peter - A angústia do guarda-redes antes do penalty. Lisboa : Relógio d'Agua. 1987

Parabéns a Naide Gomes

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«Naide Gomes reviveu este sábado [28 de sentembro], por um dia, as emoções das grandes competições, quando subiu ao palco dos Mundiais de atletismo, em Doha, para receber, emocionada, uma medalha que conquistou há 10 anos.

Em Berlim2009, uma adversária dopada – como se veio a saber mais tarde – impediu-a de receber a devida medalha de bronze do comprimento, num estádio olímpico lotado. Agora, a ‘compensação’ muito pouco se aproxima, num estádio Khalifa quase deserto, ao início da tarde.»

In.: Observador

Um grande jogo europeu

Southampton - Sporting, 2-4

21 de Outubro de 1981, Southampton, Taça UEFA

(o Edmundo mostra o vídeo)

 

«O Sporting viaja para Southampton dois dias antes do jogo e instala-se em Bournemouth, num hotel com um maître galego e um empregado de mesa madeirense e sportinguista. João Rocha abre os cordões à bolsa: promete um prémio de 80 contos a cada jogador se a equipa ultrapassar o líder do campeonato inglês.

Na equipa portuguesa, vários jogadores já têm experiência de defrontar Kevin Keegan quando o jogador inglês alinhava pelo Hamburgo. O Sporting realizara um jogo particular em Paris com os alemães e perdera (0-3). «A minha missão tinha sido marcá-lo e consegui», lembra Marinho. «O treinador mandou-me segui-lo para todo o lado e não jogámos: nem ele, nem eu. Foi como se tivesse sido um jogo de 10 contra 10. Se ele fosse à casa de banho, eu ia também. Se ele fosse tomar banho, eu também ia. Allison reservou-me papel idêntico para este jogo com um dos médios deles.»

A caminho do relvado, Eurico passa por John Mortimore, seu antigo treinador no Benfica e recorda um episódio com três anos. «Ao longo da minha carreira, os avançados que me deram mais trabalho foram o Hans Müller e o Kevin Keegan porque eram morfologicamente pequenos e muito mexidos e eu tinha de os acompanhar», explica o defesa. «Antes do jogo, Allison disse-nos: “Chave do jogo: Eurico. Se o Keegan não passar por ele, não nos acontece nada.” Aquilo deu-me pele de galinha. Essa situação de 1981 repetiu quase palavra a palavra o que o próprio John Mortimore me dissera em 1978, numa palestra antes de o Benfica jogar com o Nantes que tinha um avançado temível, o argentino Victor Trossero: “Passamos a eliminatória se o Trossero não fizer golos e a chave é o Eurico”, disse então Mortimore. E o jogo correu-me bem. Desta vez, Allison disse: “Quem é o Keegan? Eles têm o Keegan e eu tenho o Eurico.”» Ao passar pelo banco de suplentes do Southampton, Eurico provoca Mortimore: «“Keegan... Zero, hoje!” Ele riu-se, mas viu que eu estava a falar a sério.»

Allison prepara uma surpresa. «Percebeu que o Southampton tinha fragilidades pelo flanco esquerdo e montou um esquema com três defesas», conta Carlos Xavier. «Escreveu a formação no quadro e alguém lhe disse: “Mister, esqueceu-se do lateral direito.” Ele riu-se e respondeu: “À direita joga o Oliveira. Faz o flanco todo.” Assim foi: os nossos golos foram todos por aí.» Oliveira lembra com gosto a noite de Southampton: «O conselho principal foi dirigido ao Meszaros», recorda. «Disse-lhe: “Mal segures a bola, coloca-a no Oli [veira]. Foi uma prova imensa de confiança nas minhas capacidades e uma leitura de jogo perfeita.»

Manuel Fernandes também recebe instruções especiais: «Disse-me que estaria mais sozinho na frente do que o costume e que me cabia prender os centrais», conta. «O Jordão e o Oliveira estavam muito móveis no nosso meio-campo e correram muito naquele jogo.»

A principal preocupação do inglês é Augusto Inácio. O defesa esquerdo chega a Inglaterra com um pico febril: «Joguei com quarenta e tal de febre», lembra o jogador. «Tinha gripe desde a véspera, mal me podia levantar. Disse ao médico: “Dê por onde der, eu tenho de jogar.” Tentaram dissuadir-me, mas eu queria mesmo jogar. Não tinha medo. Há quem sofra até com o bafo deles, mas a malta entrou naquilo com muita alma. Acabei o jogo de gatas. Estive três dias para me reabilitar.»

No programa Match of the Day em que recordou o jogo, Malcolm Allison lembrou que os jogadores lhe perguntaram também: «E Keegan, o que se faz com Keegan?» Allison foi... Allison: «Fuck Keagan! Don’t worry, lads! Eu tinha um interior direito, à antiga, que corria muito bem com a bola dominada, chamado Oliveira [Allison sempre pronunciou Oliviera], O médio esquerdo do Southampton costumava jogar muito avançado, quase como um extremo. E eu disse a Oliveira: “Vais jogar a lateral direito durante a primeira parte do jogo.” Ele recusou: “Não quero fazer isso, mister. Não quero jogar aí.” Mas eu insisti: “Vais mesmo e acabou a conversa. O Meszaros segura a bola, passa-a para ti e terás pela frente pouca oposição.” Lá se habituou à ideia.» A estratégia triturará por completo a equipa inglesa.

Os primeiros 45 minutos do jogo terão correspondido a uma das melhores exibições de sempre do Sporting nas competições europeias. Aos 2 minutos, Meszaros segura a bola, passa-a para a esquerda, Freire progride trinta metros com ela e muda de flanco para Oliveira, solto na direita. O centrocampista centra para a área e Jordão remata de cabeça, em queda para trás. «Bum! 0-1 aos 2 minutos. Oliveira virou-se para mim a celebrar e gritou com os punhos cerrados: “Mister!”», contou Allison.

É uma jogada de mestre. «Parece que ainda estou a ver o lance», conta João Marcelino, enviado especial do Record a Southampton. «A bola fora centrada ligeiramente atrasada face à posição dele, mas o Jordão curvou o tronco de uma maneira como eu só vi o João Vieira Pinto fazer mais tarde, no Europeu de 2000, frente a Inglaterra, para cabecear para a baliza. Foi um lance genial de um grande jogador de área, servido por um predestinado como o Oliveira.»

Aos 21 minutos, o movimento repete-se: solto na direita, Oliveira solicita Manuel Fernandes que ganha espaço para Freire. Em desespero de causa, Holmes tenta desarmar o jogador do Sporting e marca na própria baliza.

Vinte e um minutos depois, Nogueira recupera uma bola à entrada da área do Sporting, passa-a para Oliveira, de novo solto à direita, que não hesita em solicitar Manuel Fernandes. O avançado disputa duas bolas divididas com o defesa e com o guarda-redes e a bola, por capricho, entra na baliza do Southampton. «Estava 0-3 ao intervalo e o Southampton não sabia como deter o que estávamos a lançar na direcção deles», resumiu Allison. «E ainda tivemos mais duas hipóteses flagrantes por Oliveira.» Na crónica de jogo, Vítor Serpa escreverá: «A equipa foi um elástico: tensa quando não tinha a bola, estendendo-se quando a tinha.»

Na segunda parte, o Southampton reage. Carrega sobre a defesa do Sporting. «Nos segundos 45 minutos, quase andei à pancada com alguns colegas que já não queriam correr», lembra Eurico. «Gritei desalmadamente. Insultei-os. Eu sabia por experiência própria que os ingleses nunca desistem.» Aos 68 minutos, na única distracção de Eurico, Keegan isola-se e o defesa central tem de o derrubar dentro da área. Na grande penalidade resultante, o Southampton reduz para 1-3.

Dois minutos mais tarde, tem lugar o drama. Zezinho sofre um choque duro dentro da área do Sporting e ninguém coloca a bola fora do relvado. O jogo avança para a área inglesa, mas a posse de bola é depressa recuperada pelo Southampton. Animado pelo golo, o público local injecta confiança nos seus jogadores. O homem estendido na área não permite ao Sporting subir as linhas para colocar os adversários em fora-de-jogo. A bola é centrada para a área e Channon consegue desviar um remate na pequena área, reduzindo a desvantagem para 2-3. No banco dos suplentes do Sporting, Allison fica furioso e não esquecerá o incidente durante os meses que restam da época.

«Estávamos a ganhar por 1-3, houve uma bola dividida com o Keegan na nossa área e eu saltei com ele. O gajo deu-me uma cotovelada nas costas e eu fiquei estendido. Não conseguia sequer respirar», conta Zezinho. «Na jogada seguinte, comigo ainda estendido, eles reduzem. Dirigi-me ao treinador e avisei-o que não estava em condições de prosseguir. Minutos depois [aos 79], Allison substituiu-me. No jogo seguinte, contra o Benfica, não me convocou. E, na prelecção à equipa, disse: “Devem estar admirados por o Zezinho não ter sido convocado. Ele não foi sério com a equipa.” Na segunda-feira seguinte, fui falar com ele. Ouviu-me e quase não disse nada. Mas sabe quando voltou a convocar-me para um jogo? Na final da Taça de Portugal, seis meses depois. Passei uma época quase sem jogar.»

Quatro anos depois, já quase no fim da carreira, Zezinho volta a encontrar Malcolm Allison, agora no Vitória de Setúbal. «Nem queria acreditar no meu azar. Ao fim de alguns jogos nessa temporada, ele veio ter comigo e disse-me: “Desculpa. Naquela altura, não acreditei em ti, mas és um homem sério.” Fiquei-lhe com raiva, mas, ao mesmo tempo, valorizei aquele pedido de desculpas. E hoje, quando treino equipas de miúdos, ainda o percebo melhor. Não é fácil gerir tantas ambições.»

A gestão deste caso pelo treinador é um aviso para toda a equipa. «Acho que foi com esse episódio - até injusto para o Zezinho - que percebemos todos que Allison dava, mas também tirava», diz Freire. «Não tolerava comportamentos menos sérios. Se um atleta está lesionado, pede substituição e sai de campo; se não está, levanta-se imediatamente. Lembro-me de o ver na linha lateral pior do que estragado!»

De pé ao lado do treinador, o médico Pinto Coelho vive o incidente como uma lição. «Allison exigia tudo dos jogadores e é provavelmente por isso que alguns dos jogadores menos conceituados daquele grupo fizeram com ele a época das suas vidas», conta. «Não sei se o Zezinho simulou a lesão ou se se deixou ficar mais alguns segundos no solo para recuperar o fôlego. Sei que, na concepção do Malcolm, isso significava uma falta de honestidade para com a equipa.»

O Sporting estabiliza o jogo com o Southampton nos 10 minutos finais, apesar da pressão dos ingleses. Meszaros não treme e até provoca os adeptos rivais. «Comecei a falar com aqueles que estavam atrás da baliza e atiraram-me moedas», conta o húngaro. «Chamei o árbitro e... guardei as moedas.» A dois minutos do fim, nova arrancada de Freire permite ao extremo sportinguista receber um lançamento longo de Ademar, atraindo a marcação e soltando a bola, à entrada da área inglesa, para Manuel Fernandes. O capitão sentencia o resultado (2-4) com um toque de classe. «Foi um dos meus melhores jogos de sempre no Sporting», lembra Freire. «Ao intervalo, até pensámos que os aplausos eram para nós, mas não eram. Eram um incentivo para os rapazes deles. Que público maravilhoso! No dia seguinte, um artigo da imprensa inglesa dizia que o público tinha pago para ver um número 7 (Keegan), mas vira outro número 7 (Freire).»

Nos camarotes do estádio, cinco jovens ingleses tornam-se notados pelo público local. São os filhos de Malcolm Allison, que vêm testemunhar nos camarotes a lição de futebol do pai ao país que o viu nascer. «Foi uma bronca», contou Allison a André Pipa. «Cinco ingleses de gema vestidos à Sporting da cabeça aos pés a puxarem pelos leões na bancada VIP. Cada golo que marcávamos era uma festa para eles E as pessoas olhavam para os miúdos, muito irritadas, sem perceberem o motivo.» Menos dado a euforias, Eurico deita água na fervura: «Contra o Boavista, só quatro é que defendemos. Contra o Southampton, defendemos todos.»

A imprensa inglesa desfaz-se em elogios. Na retina, ficara o comportamento atípico de uma equipa latina que nunca recorrera ao anti-jogo e batalhara de igual para igual com o líder do campeonato inglês. No Daily Star, escreve-se: «Allison, como um exilado de guerra, regressou para reclamar o seu lugar de honra no futebol inglês.» E o manager do Southampton desfaz-se em elogios: «Oliveira pôs-nos a cabeça em água. Como ele, não há nenhum jogador em Inglaterra.» João Marcelino explica a importância da vitória naquele contexto: «Vivíamos uma fase pouco pujante do futebol português. As equipas nacionais perdiam quase sempre com as inglesas. Só quem acompanhava o futebol nessa altura consegue assimilar o significado desse triunfo.»

No voo de regresso para Lisboa, Allison volta a ser... Allison. «Na altura, viajávamos no mesmo avião dos clubes e os jogadores eram tratados como qualquer outro passageiro. Sentavam-se onde havia lugar, junto dos outros passageiros», conta João Marcelino. «Fiquei numa fila de três lugares com Allison e um veterano do jornalismo português. A certa altura, a hospedeira distribuiu as bebidas e trouxe garrafas pequenas de Magos, o espumante que eu nunca tinha visto. Allison bebeu a dele, viu que eu não tocava na minha e perguntou-me se eu a queria. Consumiu-a de seguida. Olhou depois para o nosso camarada de imprensa, que também não tocara no Magos dele. Pois também essa garrafa terminou da mesma maneira. Era um homem que bebia bem e não o escondia.»

As imagens do jogo demoram a ser difundidas em Portugal. A RTP alega que a greve da BBC atrasara o envio dos videotapes para Portugal, mas os emigrantes em França e no Luxemburgo asseguram que as imagens do jogo já tinham sido difundidas ali. João Rocha enfurece-se: o dia de glória do Sporting na Europa demora cinco dias até ser difundido em Portugal. Nas colunas do jornal do clube, José Alvarez queixa-se: «É claro que se o brilharete tivesse pertencido ao Benfica, os simpáticos zeladores da nossa televisão “desportiva” até tinham ido a pé, se não a nado, para trazer a “cassete” do jogo.»

 

In.: ROSA, Gonçalo Pereira - Big Mal & Companhia : a histórica época de 1981-1982, em que o Sporting de Malcolm Allison conquistou a Taça e o Campeonato. 1ª ed. Lisboa : Planeta, 2018. pp. 153-159

 

Da série “Porque hoje é quarta-feira” (1), (2), (3), (4) e (5)

Leitura complementar:

Os melhores golos do Sporting (58), de Edmundo Gonçalves

A “Grande Porca”

Faça-se o exercício de substituir - mentalmente - a palavra «política» (não é para aqui chamada) por «Sporting» neste desenho alegórico e caricatural de Rafael Bordalo Pinheiro. A “grande porca”, aquela onde todos mamam.

Pergunto: não será um desenho actual?

Frases eternas (13)

«Quem tem medo que faça chichi...»

Frase de Osvaldo Silva, o herói da noite mágica de 1964 em Alvalade, dirigida aos colegas, no túnel de acesso ao relvado.

No primeiro jogo da eliminatória fomos derrotados por 4-1, na segunda eliminatória, em casa, 5 - 0 a nosso favor, uma das maiores «viradas» (peço desculpa pelo brasileirismo) da história da UEFA. O adversário foi o Manchester United.

 

Leitura complementar:

Os melhores golos do Sporting (44), de Pedro Correia

Porque hoje é quarta-feira (5)

«Um SPORTING à europeia

Crónica de Rui Tovar

 

MINUTO 36.

Da meia-esquerda do seu ataque, Jordão e Oliveira arrancaram em excelente combinação, flectindo para o corredor central. O jogador-treinador, que é também goleador e é espectáculo, furtou-se, em intervenção de génio, à marcação de dois adversários, evitou superiormente o guarda-redes e, sempre em movimento, atirou, para as malhas. Um golo de antologia!

 

Alvalade ergueu-se em peso e milhares de bandeiras saudaram esfusiantes o «volte-face» da eliminatória. O Sporting vingava, assim, ao cabo de 27 anos, o desaire de Belgrado, quando a Taça dos Campeões dava ainda os seus primeiros passos.

 

Espectáculo de luxo

Foi, na verdade, um espectáculo de luxo aquele que o Sporting proporcionou aos cerca de 50 mil pagantes que demandaram Alvalade. Um espectáculo mesmo inesquecível.

Se, em Zagreb, os «leões» fizeram recair, muito naturalmente, as suas atenções sobre o seu sector defensivo (recorde-se a «promessa» do treinador jugoslavo, Blazevic, em decidir a questão a seu favor só num jogo), em Lisboa, os interesses de Oliveira e seus pupilos foram obviamente de todo opostos.

Na verdade, só um Sporting decididamente virado para o ataque poderia alimentar veleidades quanto à recuperação do 0-1 da primeira «mão» e, consequentemente, a continuar na prova. E foi exactamente nesse figurino que Oliveira apostou.

Recuperado Jordão e quase totalmente refeito Manuel Fernandes da operação a que foi sujeito, ainda antes do início das provas oficiais, pôde o Sporting contar, pela primeira vez, esta temporada, com a contribuição desta desconcertante dupla que, noutras alturas, permitiu já ao clube adregar muitos e inesquecíveis êxitos.

 

Um meio-campo sensacional

Se àqueles juntarmos um meio-campo verdadeiramente sensacional, onde pontifica o génio de Oliveira, teremos encontrado o porquê deste Sporting endiabrado que nem o mais pintado Liverpool conseguiria - estamos certos - evitar o descalabro.

E isto porque, além do «mestre», outros valores se levantam naquele «miolo»-ataque de Alvalade. Com efeito, Lito surge, esta época, numa forma extraordinária, num «new style» que lhe permite revelar ignoradas potencialidades. Lito actua, agora, mais colado à linha e em posição mais recuada que habitualmente. Contudo, tem a arte de saber vir de lá de trás com a propósito, cotando-se como um elemento imprescindível na manobra atacante.

A completar o «naipe», dois homens-força, Nogueira e Festas, a consolidarem ainda mais o já de si quase irredutível meio-campo «leonino».

Não terá surpreendido que, perante tamanha fogosidade, o Dínamo haja sentido tremendas dificuldades, praticamente, desde o início da partida. Logo aos 2 minutos, Jordão atira sobre a barra o que poderia ter sido o primeiro golo. De qualquer forma, o aviso estava dado: o Sporting estava mesmo embalado para uma noite de grande gala e a defesa jugoslava, mau grado ter demonstrado trata-se do melhor sector da equipa, denunciava francas dificuldades em anular os seus opositores.

E de tal sorte que, apenas com 20 minutos de jogo, dois jogadores visitantes haviam já visto o cartão amarelo, prova irrefutável da incapacidade jugoslava em se opor, dentro da legalidade, a todo aquele vendaval «leonino».

O primeiro golo seria o corolário do ascendente «verde e branco». Ademar (um defesa que também se integra no ataque) lançou Oliveira e este, num raide de categoria, tem a frieza para tudo: fugir à marcação, driblar o defesa e marcar o golo. Tudo muito simples!

 

Hesitações comprometedoras

Foi o pânico nas hostes jugoslavas de que o Sporting se aproveitaria para, num «pressing» inteligente, ampliar a marca, no tal lance de antologia já descrito. Só que, antes e depois, um «frisson» percorreria a assistência, face a duas hesitações da defesa do Sporting, em jogadas que estiveram quase a estragar a festa. Afinal, riscos que se correm quando uma defesa em linha, excessivamente animada em apoiar o ataque, é apanhada em contra-pé...

Daqui não se infira que, individualmente, o «quatro» recuado do Sporting haja desiludido ou sequer se aproximado de uma modesta bitola exibicional. Nada disso. Os laterais, Ademar e Virgílio, encheram o campo em deambulações ao bom estilo que hoje é norma. E no eixo da defesa, Venâncio e Zezinho não deram quaisquer tréguas ao incrivelmente atabalhoado e pouco ambicioso ataque de Zagreb.

Mas que aquela defesa em linha, vamos lá, na primeira meia hora de jogo, causou amargos de boca (poucos, é verdade, mas alguns. E um golo do Dínamo que fosse era muito...), disso também não restam dúvidas.

Mas foram apenas dois sobressaltos. Na metade complementar nem isso os jugoslavos conseguiriam originar, por força, então sim, de uma marcação verdadeiramente impecável a que foram sujeitos. Ataques do Dínamo, pode dizer-se, não houve na segunda parte, já que a colocação dos seus dianteiros em fora de jogo, por banda da defesa «leonina», foi, sem sombra de dúvidas, exemplar.

Multo mais perigoso e, pelos vistos, produtivo, parecia ser o ataque do Sporting. A confirmação não demoraria muito, quando Oliveira, em noite de franca inspiração, teve aquela simulação a longa distância, obrigando o guarda-redes a esboçar a defesa para um lado, ao mesmo tempo que enfiava, suave e calmamente, a bola pelo outro. Era o golo do descanso.

 

Ambição até ao fim

E se o avanço no marcador era de molde a convidar o Sporting a um abrandar de movimentos e consequente empertigar dos jugoslavos, assistir-se-ia, até final, a um recital sim, mas ainda do conjunto de Oliveira, que alardeava força, frescura e... muita ambição. A barra evitaria, a escassos cinco minutos do final, o 4-0, em excelente «cabeça» de Jordão, numa prova da muito salutar insatisfação «leonina».

O Sporting está mesmo à conquista da Europa!

 

 

Com 3-1 nos dois jogos

Eliminatória decidida em 6 minutos

Bastaram apenas seis minutos para o Sporting decidir a eliminatória a seu favor, recuperando da desvantagem de um golo que trouxera do primeiro jogo. Com efeito, o portentoso momento de forma por que passa Oliveira bastou para arrumar as pretensões jugoslavas, com dois tentos aos 30 e 36 minutos. Depois, aos 65, foi o fim de festa.

Aqui deixamos a síntese da eliminatória:

 

Em Zagreb

Árbitro: Aloyzi Jargus (Polónia)

DÍNAMO DE ZAGREB – lnkovic [sic]; Bracun; Zajec, «cap.» Bogdan e Z. Cvetkovic; Cerin, Muastedanagic e Hdzic; Deverin, Kranjcar e B Cvethovic.

SPORTING - Mészaros; Zezinho, Virgílio, Venâncio e Barão, (cap.», Ademar, Festas Bastos, 86m e Nogueira; Oliveira, Freire (Mário Jorge, 66m e Lito.

Golo; Gerin (71 m).

Cartão amarelo e, depois, vermelho para Barão.

 

Em Alvalade

Árbitro: Alain Delmer (França).

SPORTING - Mészaros; Zezinho, Ademar, Venâncio e Virgílio; Festas, Nogueira, Oliveira (Freire 89m) e Lito (Xavier 72m); Jordão e Manuel Fernandes.

DÍNAMO DE ZAGREB –Jukovic [sic]; Zajec; Bracun, Bogaan e C. Vetkovic; Haazic B. Cvetovic (Arsnalovic 43 m) Kranjacar e Cerin; Deverik e Bosniak (Dubovic 72 m).

Golos: Oliveira (30, 36 e 65m).

Cartões: Cartões amarelos para Zajec, B. Cvetkovic e Bosniak.»

 

In.: Off-side magazine: o desporto à sexta feira. prop. COOPEJOR- Cooperativa Editora de Jornais e Revistas ; dir. Alexandre Pais. n.º1, 1 de Outubro de 1982. p. 11

 

 

Leituras complementares:

Os melhores golos do Sporting (39) de Pedro Boucherie Mendes

Os melhores golos do Sporting (42) de Luciano Amaral

 

Porque hoje é quarta-feira (1), (2), (3) e (4)

Vamos imaginar que...

(peço desculpa por 'pensar em voz alta')

... alguém na sua actividade profissional comete actos, eventualmente, ilegais e a única beneficiária de tais actos é a sua entidade patronal.
Esses actos são descobertos e, obviamente, essa pessoa é detida e acusada. A entidade patronal, que foi, afinal, a única beneficiada, não é acusada e nada lhe acontece.

Isto não pode acontecer, pois não?

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