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És a nossa Fé!

Jorge Sampaio em Maputo

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(Hilário, Chissano, Sampaio, ColunaAcúrsio, Eusébio, Vicente, Maputo, Abril 1997, fotografia de Jorge Brilhante)

Em 1997 o Presidente Jorge Sampaio visitou Moçambique, fazendo-se acompanhar de uma grande comitiva. A viagem foi uma assinalável sucesso, muito potenciando as relações entre os dois países, então ainda algo maceradas pelo processo de descolonização e pelos constrangimentos do subsequente processo político moçambicano. Nessa comitiva presidencial iam 4 futebolistas nascidos em Moçambique - também servindo de representantes simbólicos dos "4 grandes" clubes: Hilário, Acúrsio, Eusébio, Vicente. E, claro, logo se lhes juntou Mário Coluna, o "Monstro Sagrado" - então presidente da Federação Moçambicana de Futebol. 

Nesse momento tive o privilégio de acompanhar esse magnífico Quinteto. E desde então não só reencontrei algumas vezes o nosso Hilário e o "King", Eusébio, como tive o privilégio de criar amizade, não íntima mas bastante convivencial, com o "Monstro", Coluna. Conheci-os num almoço na popular cervejaria Piripiri, prévia a uma passeata pela Baixa da cidade na qual acompanharam o presidente Sampaio. Pude então perceber algumas das características do político: eu já vira Soares em Luanda, num notável desempenho patenteando uma extroversão verdadeiramente carismática. E viria a ver Cavaco Silva em Moçambique, num perfil público muito mais rígido, o qual sempre me pareceu muito mais o de um homem em luta com a sua timidez do que efeitos de uma concepção hierática da sua função. Sampaio era diferente, não exactamente um homem de rua ou de palco, pois não um carismático. Mas apresentando uma bonomia tão explícita que era recebida pela população como uma simpatia natural, à flor da pele. Assim encarnando a confiança.

Voltou a Maputo em 2001 para uma das cimeiras da CPLP, numa era em que estas congregavam mesmo os chefes de Estado. No nosso caso numa chefia bicéfala, pois para o efeito agregávamos o PR e o PM, naquele tempo Guterres. (Re)Vi Sampaio numa recepção à comunidade portuguesa, à qual acorreram cerca de 3000 pessoas. Enquanto ele circulava entre nós fui rodeado por vários compatriotas. Ocorrera-lhes que seria aquele o bom momento para fazer chegar ao presidente um ror de preocupações que tinham - impostos aos emigrantes, taxas de importação de veículos, apoios à comunidade, etc. E passara-lhes pela cabeça que seria eu um bom porta-voz para as colocar, dado que conhecia algumas das pessoas que ali o circundavam. Resisti, num "era só o que me faltava...", insistindo que "isso são coisas para colocar aos deputados, ao secretário de estado, ao cônsul..." mas não os consegui desiludir, insistentes num "vá lá, Zé Teixeira" e sem de mim se apartarem.

Passado algum tempo, mantendo-me eu de copo de vinho na mão e tasquinhando o queijo da serra e o presunto gentilmente disponibilizados, o Presidente Sampaio foi-se aproximando da nossa zona. Recrudesceram os patrícios nos seus incentivos à minha capacidade reivindicativa. Assim sendo, e ao estar aquele Grande Sportinguista já à distância de apenas duas braçadas roguei-lhe "dá-me licença?, Senhor Presidente, posso-lhe fazer um pedido?", ao que ele, arvorado com um sorriso aberto, logo ripostou "claro, em que lhe posso ser útil?".

"- Ó Senhor Presidente, por favor, use a sua influência para fazer as pazes entre o dr. Roquette e o dr. Luís Duque" (então desavindos na nossa Direcção). Riu-se, abertamente, elevando as mãos em sinal de impotência e ripostou "Ó Homem, isso está bem acima dos meus poderes...". E deixou-nos uma dúzia de palavras de circunstância, logo seguindo na sua ronda entre nós, aqueles milhares de convivas.

Os meus vizinhos, enfim, resmungaram um bocado comigo...

Morreu Agosto

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Antes Agosto era o mês de férias popular, nisso aquele que se sorvia devagar, que queríamos estender, prolongar, acariciando dia a dia, como se impedindo o seu escoar, no lazer avesso à angústia, ao "stress" como se diz agora a desadequação. Tudo isso terminou. Pois estamos agora condenados a pedir o rápido fim do mês, o encerramento do maldito "período de defeso", no temor que os clubes "tubarões" - financiados por empórios germinados em ditaduras e no predomínio da economia dita "paralela" - nos venham retirar os melhores jogadores, apoucar a diversão do futebol paixão de nós-povo, assim reduzindo o efeito placebo que ele tem sobre os males próprios e os do mundo.

Mas, e pois não há mal que dure para sempre, até que enfim que morreu Agosto. Regressámos à rotina, sabemos já com o que contaremos, o trabalho diário para os que têm a sorte de o ter, o saldo do cartão de crédito algo exaurido pelos excessos veraneantes, os que ainda os podem. E o plantel intocável até Janeiro, esse outro maldito "defeso" que nos acinzenta a disposição entre Natal e Dia de Reis. E assim, morto Agosto, deixo o meu sentimento sobre o que se passou:

Já por aqui o escrevi em tempos (em registo de desagravo): a qualidade da Academia do Sporting, a sua excelência em formar recursos humanos, mostra-se acima de tudo - e sem desfazer nenhum jogador, Nuno Mendes ou outros - na evolução de Varandas & Viana. Que gigantesca diferença, em termos de "maturidade técnica", "disponibilidade física", "concentração competitiva", "rigor táctico" nesta "época" (defeso) comparativamente ao que aconteceu há dois anos (o seu primeiro defeso a tempo inteiro), algo que vem na senda da excelente "prestação" do último início de época.

Quanto à transferência-espectáculo de Nuno Mendes julgo que a sair algum dos titulares da  equipa campeã - e alguém teria que sair, dados os encargos do clube com as dívidas que se foram acumulando ao longo das décadas - que fosse o nosso lateral-esquerdo, pois existem alternativas e os outros nomes falados do meio-campo seriam de mais difícil substituição. E decerto que alguém vingará, entre Vinagre, um Esgaio adaptado - ainda que um clube de topo não deva ter adaptações deste tipo -, o M. Reis, que não me parece ter a dimensão suficiente mas talvez se jogar regularmente se mostre diferente, o Nuno Santos em alguns jogos talvez, o Feddal. E fala-se num júnior da Academia e num outro miúdo oriundo do Porto, mas isto de crer num "novo Nuno Mendes" costuma correr mal, o excesso de expectativas prejudica sempre quem está a chegar. E é uma notável transferência, chegará aos 50 milhões, se se pensar nos tais 10% de futura transferência e se se perspectivar a usual taxa de empréstimo de um jogador como Saravia. 

Quanto ao resto: o plantel foi mesmo depurado dos que não contavam, não há a lista de "pendurados" que ficou no último ano. Não sei em que condições foram, se ainda se pagam salários, alguns chorudos, mas acredito que em alguns casos isso acontecerá: Camacho, no Belenenses, Ilori, no Boavista, talvez mais alguns dos emprestados a clubes nacionais, mas nesses casos com menores salários. Pena que Joelson e Plata não tenham "pegado de estaca" mas há sempre essa percentagem de "desperdícios", de jovens promessas que não se afirmam. E ficamos todos à espera que o Quaresma faça um bom tirocínio - lamento mas não espero grande coisa dos dois avançados que foram emprestados, Marques e Mendes. Que me lembre dos "excedentários" apenas ficou o Renan - que talvez tenha sido algo injustiçado, cumpriu sempre e perdeu o lugar por lesão. Ou então o seu afastamento radical também se deva a efeitos dessa entidade mágica, o "balneário". Ou seja, um bom saldo de empréstimos e rescisões com jogadores que já não contavam (a rescisão de Matheus Oliveira é uma boa notícia, foi uma contratação absurda - dinheiro deitado fora) e de empréstimos verdadeiramente para rodar (Quaresma, talvez Marques) e para valorizar (Plata, Sporar, mesmo Luiz Phellype - que talvez pudesse ter sido o 3º avançado-centro que tantos queriam -, e até Camacho se arribar). Lamento mas sobre Doumbia, apesar de ir para a suave Bélgica, já não tenho expectativas, tal como não as tenho sobre Eduardo Henrique, jogadores que decerto virão a rescindir em defeso próximo. Temos ainda o berbicacho Bruno Gaspar, outro disparate herdado, que não está resolvido - pura e simplesmente não acredito que haja quem pague milhão que seja para contratar esse lateral-direito.Terá sido bem despachado o Diaby (agradecemos a Keizer), foi bem o Rosier, Misic já era sabido.

Enfim, foi um belo defeso. E continuo na minha crença - o Virgínia terá sido uma aposta séria, ainda nos surpreenderá. É um palpite, pois nunca o vi jogar, mas a operação Max/Virgínia parece-me ser isso, a aposta numa "next big thing". No último dia li que houve troca de jogadores com o Porto - não sei se acordada, o que seria surpreendente. Positivamente surpreendente. Sobre os outros reforços pouco terei a dizer, os dois jovens do Porto, os jovens que vêm de Espanha e Itália, o jovem Ugarte? Decerto que entre eles alguém assomará na equipa, ainda para mais tendo um treinador com o perfil de Amorim. Retiro, acima de tudo, que muito terá sido reduzido o caderno de encargos, inflaccionado por décadas de contratações algo descuidadas e algumas outras pertinentes mas cujo momento actual tornam apenas onerosas (Battaglia é um caso típico disso).

Quanto ao que falta, os défices de plantel - principalmente em termos quantitativos - a que muitos aludem. Julgo que é necessária uma contratação - possível de ser feita em Setembro, dado que se trata de um "agente livre", jogador sem contrato actual. Trata-se do play-maker Calma Adepta. Pois as expectativas estão demasiado altas - e a resmunguice da massa campeã com o Paulinho já mostra isso. É normal que haja mais exigência este ano do que no anterior. Mas não é "natural" (não advém nem da genética, nem do meio ambiente nem da alimentação). Ou seja, a gente podia-se acalmar um bocadinho. E deixar correr, nisso apoiando conseguimentos e ocasionais falhanços. Este caminho, poupado, de promoção de jogadores da academia e de integração de um ou outro português ou experimentado na nossa Liga, jogo a jogo, ano a ano, é o melhor, e tanto foi desejado. E a vertigem crítica, opinativa, vai ser o principal antijogo, o penalti inexistente, o pior dos Luíses Godinhos.

O Sporting não era campeão há 20 anos. E foi. E não é bicampeão há 70. Tende calma. Ou, falando de outra forma, atinai.

Obrigado, Benfica

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Este Portugal-Irlanda ficará na história. Pelo histórico record de golos em selecções, mais uma marca fenomenal de Cristiano Ronaldo, esta particularmente significante. Mas também porque foi o início da nossa caminhada para o título mundial de 2022. É certo que não foi o início do apuramento para o Catar mas foi o primeiro jogo após a  promessa de título feita pelo seleccionador, logo após o final da insuficiente campanha no último Europeu. E sendo Fernando Santos sempre parco em promessas destemperadas foi evidente que essas afirmações significaram que o título mundial é o objectivo, e que há a consciência, tanto no seleccionador como na FPF, da sua possibilidade muito efectiva. Assim sendo, tudo o que seja menos do que a final no Catar será um insucesso.

Este acentuado "levantar da fasquia" por parte de Fernando Santos deve ter sido pensado após a análise do quadro alargado de presumíveis seleccionados para o próximo ano. Em termos de jogadores já amadurecidos - grosso modo, de Cristiano e Pepe a Ruben Dias ou Palhinha, dos quase quarentões aos que têm cerca dos 25 anos. E também dos mais jovens já algo consagrados, e que já estavam na equipa do último "Euro" ou haviam estado nas cogitações do seleccionador - como são exemplos os jovens laterais Dalot e Nuno Mendes. 

Mas decerto que essa crença de Santos na obtenção do título mundial assenta em algo mais, num conhecimento exaustivo de jogadores que irão surgir aos olhos do grande público, "explodir" por assim dizer, e que nos próximos 15 meses virão a ser lançados na selecção, porventura até substituindo alguns dos nomes agora habituais.

Neste Portugal-Irlanda tivemos o primeiro exemplo dessa renovação da selecção, que tanto a reforçará. Foi uma vitória difícil, conseguida in extremis devido à já lendária codícia de Cristiano Ronaldo. Mas muito se deveu ao contributo de um outro jogador: João Mário - capaz do passe para o golo decisivo, tão cheio de classe e calma apesar do momento tardio (51º minuto da segunda parte), quando tantas vezes já predomina o "querer" e escasseia a calma para as melhores opções.

Excelente prenúncio. Nunca vira jogar este jovem, apenas lera sobre ele. De facto, foi algo falado durante a época transacta, tendo sido titular, como uma espécie de "maestro", da equipa do Benfica sub-23, a qual tão bons resultados obteve. Se isso não foi do conhecimento do "grande público" não terá escapado à observação da equipa técnica da selecção. Pelo que anunciava então e pelo que demonstra  agora presumo que João Mário não tenha então integrado a equipa do Europeu - apesar de ser a mais extensa das convocatórias, alargada a 26 jogadores devido às temidas implicações do Covid-19 - apenas devido à sua imaturidade. Mas bem esteve o Benfica ao fazê-lo agora ascender ao plantel sénior - não o emprestando para "rodar", o que nem sempre tem bons resultados principalmente em jogadores de fino recorte técnico como este é. E assim João Mário, tendo já cumprido uma pré-época com Jorge Jesus, treinador conhecido por tanto moldar os seus jogadores, potenciando-lhes as capacidades técnicas e a argúcia táctica, demonstra estar já "mais jogador", capaz de outros voos. Porventura até já apresentando outros indíces físicos, frutos de um trabalho atlético mais exigente do que aquele a que estava sujeito na época transacta.

Nesse sentido, e por apreço à selecção, a sempre "equipa de todos nós", e sem clubismos exarcebados, cumpre-me agradecer ao Benfica este contributo da sua formação. E ao seleccionador agradeço a sua compenetrada atenção aos jogadores seleccionáveis. Sem ficar preso a estatutos ou idades. Nem aos clubes de pertença.

Portugal-França (crónica)

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Versão reduzida do texto que coloquei no meu blog, aqui amputada de trechos com alusões não especificamente futebolísticas. Fica o convite para quem quiser conhecer a versão longa deste Portugal-França (crónica).

***

(...) Do rolar do esférico todos sabem - tal é a inundação futeboleira que devasta a imprensa nacional. Ocorre-me salientar uma França inicial não tão macia assim, talvez nervosa ou mesmo abespinhada, como o demonstraram os vários cartões amarelos distribuídos pelo algo palrador árbitro. E nisso a contrastar com o já notório cavalheirismo luso, uma equipa a notabilizar-se pela extrema correcção nos relvados. A nossa alegria foi amesquinhada junto ao intervalo, naquela grande penalidade provocada pelo infeliz Semedo, a qual nos levantou um coro de injúrias ainda que convictos de que se ocorresse falta semelhante na área transpirenaica logo gritaríamos em uníssono um triunfante "Penálti!!!". Corolário do sucesso goleador do retornado Benzema foi um acentuado decréscimo na degustação nesse intervalo, no meu caso apenas preenchido com o recurso ao sempiterno amigo Amber Leaf. A segunda parte trouxe, finalmente, João Palhinha. Mas logo o golo adversário, a incrementar a angústia já promovida pelos mágicos magiares, cujo surpreendente desempenho então me impelia a estrear-me: nas vésperas dos meus 57 anos torci, o mais arreigadamente que consegui (ainda assim bem pouco, entenda-se) pela Mannschaft. Nesses frémitos, e insensível à referida vetusta idade, reforcei o recurso ao tal Amber Leaf.

Mas tudo está bem quando acaba bem! O extraordinário Cristiano Ronaldo continuou na sua lendária senda de recordes: dois golos contra o actual campeão do mundo tornaram-no o melhor marcador de sempre em fases finais de Mundiais e Europeus e, decerto que por breve ex aequo, melhor marcador de sempre em selecções nacionais. Mas a grande figura nacional do dia foi um dos três mosqueteiros que encimam o postal (os quais, como todos os leitores de Dumas sabem, são quatro - e na fotografia aposta falta Moutinho): a Grande Muralha de Marrazes. Pois se é certo que a França foi mais suave na segunda parte, gerindo-se e à sua promoção com "um olho no CR7 e um ouvido em Berlim", ainda nos causou calafrios. E assim os dois momentos do jogo foram do magno Rui Patrício: primeiro ao não seguir os conselhos de Pepe. Este, após anos a treinar e jogar com Benzema, conhece-lhe os trejeitos de ginjeira e mostrou para onde iria ele apontar o remate no penalti que lhe coube. Mas, e para seu desespero, São Patrício teve uma fezada, e estirou-se para o lado oposto. E o que seria o futebol sem fezadas? E depois, claro, na estrondosa dupla defesa ao soberbo remate de Pogba e à imediata recarga de Griezmann! 

(Pepe avisa Rui Patrício de como Benzema marcará a grande penalidade)

(Portugal-França 2021, defesa de Rui Patrício a remates de Pogba e recarga de Griezmann)

E nisso guarda-redes, e equipa, seguraram um empate precioso, com muita gestão de jogo de ambas as partes concordantes nos últimos minutos. Foi assim com muito mais alívio do que alegria que logo de seguida enfrentámos a acima aludida perna de porco caseira. Acompanhada por uma - apenas uma, dado o abatimento geral - garrafa de vinho verde. Refeição durante a qual perorei sobre este jogo e a campanha prévia, e "como é óbvio contestei com vigor e sageza veterana o pendor conservador do nosso engenheiro seleccionador, antevendo uma deslustrada campanha sob tal "motorista". E elogiei a extrema capacidade do nosso engenheiro seleccionador - sempre avesso à fugaz embriaguês do espectáculo - montando uma equipa tacticamente irrepreensível, delineada para enfrentar os gigantes que se sucederão, e clarividente nas letais e oportunas alterações que decidiu, mostrando que iremos longe sob tal "motorista"." (...)

 

Alemanha-Portugal (crónica)

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É fácil comentar a posteriori e o teor da análise depende(-me) sempre do resultado final, seja lá qual for a maneira como os nossos lá chegaram. Já sobre o jogo com a Hungria botei na minha taberna: "Como é óbvio contestei com vigor e sageza veterana o pendor conservador do nosso engenheiro seleccionador, antevendo uma deslustrada campanha sob tal "motorista". E elogiei a extrema capacidade do nosso engenheiro seleccionador - sempre avesso à fugaz embriaguês do espectáculo - montando uma equipa tacticamente irrepreensível, delineada para enfrentar os gigantes que se sucederão, e clarividente nas letais e oportunas alterações que decidiu, mostrando que iremos longe sob tal "motorista"."  Aparente oscilação devida, claro, à bem sucedida carambola de Raphael Guerreiro aos 80 e tal minutos.

Para o jogo de ontem as minhas expectativas eram sombrias. Não só devido ao tradicional poderio da Mannschaft, já teorizado por Gary Lineker: "Football is a simple game. Twenty-two men chase a ball for 90 minutes and at the end, the Germans always win". Mas também porque Carlos Manuel, notoriamente fora de forma, não foi convocado por Fernando Santos. Ainda assim, e muito devido à influência do meu personal coach Rebelo de Sousa, concentrei-me com afinco para o embate: do Lidl de Nenhures convoquei 2 caixas camarão a cinco euros cada e uma caixa de mines Argus, que se associaram ao bloco Karlsqueel chegado do rival Aldi vizinho, a um pacote de amendoins com casca e a um balde de tremoços temperados oriundos de agremiação local, seleccionados pela restante equipa técnica. Vigorosa estava a maionese mezinha caseira.

As sensações iniciais do jogo foram contraditórias. O inicial golo alemão logo azedou o ambiente, anunciando o algo já esperado, apenas adiado devido ao fora-de-jogo arrancado à unhaca do teutão marcador. Mas logo de seguida o antológico golo do CR7, com arte e engenho surgido do até então pântano luso, veio reanimar as hostes comensais e o espírito de Sérgio Conceição pairou, em tricórnio, sobre a sala. Depois... enfim, já todos o sabemos, o esquerdismo germânico irrompeu, revolucionário, devastando o nosso aburguesado "centrão": os amendoins foram ditos chochos, os tremoços apimentados em demasia, os camarões nada condignos da saudade moçambicana, as cervejas chilras. A própria mezinha afigurou-se já antiga. Ao intervalo houve inflexão táctica, passando-se a privilegiar o recurso ao muro d'Amber Leaf, antes chegado do Continente da vila, comprovando que em dia de selecção não há clubismo comercial.

A segunda parte trouxe novidades televisivas. Jogou aquele rapaz que é um bluff, uma artimanha do Jorge Mendes que o impingiu aos bávaros para favorecer o Benfica, mas que a crise nacional recentemente elevou a D. Fuas Roupinho. E que me lembre também entrou João Moutinho, que "bate bem". E, claro, "se perdermos que se foda", o que é bem verdade, pois "seja o que Deus quiser". Houve outros rapazes que entraram mas já não atentei muito, ocupado em limpar cinzeiros, deitar fora as cascas dos amendoins, tremoços e camarões, lavar a loiça e, acima de tudo, em separar o lixo, por deveres impostos pela sensibilidade ecológica. O jogo terminou e sala e cozinha estavam um brinco.

Sentei-me cá fora a bebericar um café e a minha audiência anuiu no que sentenciei: que em Roma devem ter gostado do que viram pois que grande Rui Patrício! Levou 4 e mais poderiam ter sido, não fora ele. Devem estar ansiosos para receber o verdadeiro "Muro de  Marrazes". E - o que só é novidade para deficientes profundos - que extraordinário é o CR7: um golo antológico, "para mais tarde recordar". E nisso não só igualando Klose como melhor marcador de sempre em finais de Mundiais e Europeus, como também igualando o recorde de passes para golo em Europeus, naquilo de reanimar uma bola quase defunta e dá-la ao codicioso Jota.

Depois, e já bebericando o aprazível Queen Margot adquirido em Lidl lisboeta, assisti às declarações de um ror de painelistas críticos. E, já noite longa, decidi-me a deixar curto ensaio sobre a situação nacional, seguindo a metodologia que Silas apresentou nos comentários que fez em directo ao jogo. Ou seja, professando o "como eu digo", assim fiel à omnisciência própria. Como tal começo por considerar que neste Alemanha-Portugal se notou, como eu digo [e já em 3.3.2020], que urge "Rúben Neves (se o Grande Engenheiro abrir os olhos e se deixe de Adamastores ...) nas armadas de João Félix e Diogo Jota, almirantadas pelo Cristão Ronaldo.". E isso era e é óbvio. Rúben Neves é um belo jogador, tem já enorme experiência de futebol intenso, é um excelente trinco que faz jogar e tem uma magnífica meia-distância. Como é que é possível que esteja sentado enquanto joga Danilo? E, pior, quando joga William, esse que já no Sporting me fazia careca devido ao seu constante footing? Quanto mais agora, anos passados e habitante do banco do sofrível Betis? Enfim, são os tais Adamastores a que me referi.

Fernando Santos, na sua crença mariana, não preparou a equipa para este Europeu. Levou a anterior. E isso é notório ao constatar que Palhinha e Neves nunca jogaram juntos, Palhinha, hoje em dia o homem para jogar a 6, é tipo para jogar a trinco-solo. E muito provavelmente desentender-se-á se num duplo trinco com Rúben Neves, que é homem para jogar a 8 [ou 6,5]. E pior ainda se se estreasse essa combinação num jogo decisivo diante do melhor meio-campo do mundo (Kanté é um gigante). Esta dinâmica de meio-campo (a propalada "casa de máquinas") é o crucial e Santos "achou" que não era problema, que estava tudo como em 2016. Vê-se...

Tudo isto assenta num esquecimento construído, o do verdadeiro trajecto desta selecção muito rica em jogadores mas cujos constantes tropeções fizeram que viesse a cair neste "grupo da morte" no sorteio para este Europeu. De facto a vitória de 2016 foi uma sorte espantosa, tipo a da medíocre Grécia em 2004, mas ainda mais, pois com pior futebol. Apenas a inicial euforia e o posterior e constante patrioteirismo nos impediu de sublinhar isso. O troféu seguinte, secundário, mais mascarou isso: foi conquistado com equipas jogando menos empenhadas e com Portugal muito mais solto, dada a menor responsabilidade. E já o Mundial 2020 foi uma campanha desperdiçada, um belo plantel com um futebol pobre, uma equipa equivocada, resultados cinzentos num futebol algemado. Só não viu isso não quis. Ou seja, o que está a acontecer agora não é surpresa. Certo, pode ser que tudo se arranje, uma passagem à fase seguinte, umas vitórias, e pronto de novo o relativo sucesso, e mais agradecimentos e romarias a Fátima.

Mas para que isso seja possível todos querem mudanças na equipa. Sobre as do meio-campo já resmunguei o suficiente. Mas também se clama pela mudança dos laterais. Mandar Nuno Mendes aos 18 anos, e sem experiência de selecção, para travar Mbappé? Este com Pogba nas costas e Pavard a subir que nem um louco? O miúdo é muito bom, e se calhar até arrancaria um grande jogo, mas colocá-lo agora seria um "fezada". Monta-se uma selecção nacional com "fezadas"? Também se pede Dalot - que é mais experiente mas é ainda mais excêntrico à selecção. Estrear o homem num jogo contra a França, decisivo? Mas o problema não são os laterais - por mais que Nelson Semedo não seja o jogador que anunciaram há anos -, são os alas do meio-campo (quais?, existem?). Pois não defendem, não acompanham os laterais. E nisso dá também para perceber um dado: a nossa selecção não tem extremos, não há um tipo a ir à linha. No país de Futre, Figo, Quaresma, CR7, e tantos outros, já  não há extremos. Haverá Neto, mas está lesionado. O resto são "interiores", tácticos. Que porventura fintam em raid se jogando com o Appoel ou o Tondela. Mas não num Europeu.

Enfim, passe-se ou não às fases seguintes isto é um colapso de Fernando Santos, por mais simpático que nos seja o "engenheiro do Euro". Em 2004 Scolari engoliu em seco o seu falhanço, deu a mão à palmatória, escondeu isso no discurso imbecilizador que tinha, e a partir da derrota inicial meteu o Porto de Mourinho a jogar. Só lhe faltou a sensibilidade táctica para ganhar a final aos pobres gregos - algo que Mourinho teria feito num piscar de olhos. Mas Santos não tem um bloco pronto a utilizar, devia tê-lo pensado.

Já perorei a minha irritação. E muita dela é porque temos uma escola extraordinária de treinadores e levamos com isto, esta selecção algo amarfanhada, desde há anos. Ainda assim, e porque consciente da minha sageza futebolística e do como ela pode contribuir para o sucesso in extremis da nossa selecção nesta campanha, boto a minha equipa para sacar o ponto necessário diante do campeão mundial: 1) o Grande Rui Patrício; 2) Nelson Semedo; 3) Pepe, Magno; 4) José Fonte; 5) Nuno Mendes; 6) Palhinha; 7) Bruno Fernandes (feito ala direita); 8) Ruben Neves; 9) Cristiano Ronaldo; 10) Renato Sanches (ao centro, para a frente, pois não defende e não é nestes dois dias que vai aprender); 11) Rafael Guerreiro.

Mas é claro que se Fernando Santos insistir na sua ideia e tiver sucesso aqui escreverei: "como eu digo" é de elogiar a extrema capacidade do nosso engenheiro seleccionador - sempre avesso à fugaz embriaguês do espectáculo - montando uma equipa tacticamente irrepreensível, delineada para enfrentar os gigantes que se sucederão, e clarividente nas letais e oportunas alterações que decidiu, mostrando que iremos longe sob tal "motorista"." 

O Meu Sporting

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(Matadouro, Ilha de Moçambique, Maio de 2008)

Blogo desde 2003. Ao longo dos anos fui colocando alguns textos sobre o Sporting. Há cerca de uma década o Pedro Correia convidou-me para integrar o És a Nossa Fé!. O que aumentou a minha atenção sobre o clube e o número de textos que lhe fui dedicando. Para mim o futebol é um placebo, sarando as agruras da vida. Ou seja, quanto mais ando em futebóis pior estou, isso é garantido. E não sigo muito institucional, qual adepto exemplar, mergulhado na vida associativa e no acompanhamento das actividades desportivas. Mas vou botando sobre o assunto, numa mistura entre o adepto, que finge tão completamente que chega a fingir que é clubismo o clubismo que deveras sente, e o bloguista, que julga ser o Sporting, mais do que qualquer outro clube, um verdadeiro microcosmos do país, dos processos vigentes em Portugal. Também por isso me vou deixando levar pelas várias crises directivas do clube.

Agora fiz uma colecção de 41 textos sobre o Sporting e o futebol, escritos entre 2004 e 2021. Chamei-lhe “O Meu Sporting”. Quem nela tiver interesse bastar-lhe-á "clicar" neste título e gravar o documento pdf.

Tal como todas as outras seis colecções de textos de blogs e jornais que fiz, e que fui colocando na minha conta na rede academia.edu,  esta é uma memória, dedicada à minha filha Carolina. Pois pode ser que um dia venha a ter curiosidade sobre o que o pai andou a botar em blogs e jornais, nesta escrita inútil e desinteresseira. E se outros encontrarem motivos de interesse e mesmo prazer no aqui agreguei isso ser-me-á agradável. Bastante, mesmo, digo-o desprovido de qualquer pingo desse blaseísmo que tanto abomino.

Sporting e Cabo Delgado

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Há demasiado futebol na sociedade portuguesa, omnipresente na imprensa, constante no bate-boca popular, viçoso como "futebolês" no linguajar e, assim, empobrecendo as interpretações do real. Mas isso também corresponde à competência do jogo nacional entre o espectáculo desportivo mais popular no mundo: o campeonato é o 6º europeu mais pontuado, a selecção sénior é a 5ª mundial mais cotada e actual campeã europeia, dados que muito ultrapassam a dimensão económica e a demográfica do país. Nisso treinadores, jogadores e o trio de clubes mais representativos têm uma enorme visibilidade internacional.
 
Neste quadro o Sporting conquista o tão ambicionado título após 19 anos. E assim congrega uma imensa atenção nacional e além-fronteiras. Três dias depois joga o "clássico" dos "clássicos", o Benfica-Sporting, a sempre "taça da 2ª circular" diante do eterno rival. Nas suas camisolas os jogadores trocam o seu nome de campeões pelo dístico "Cabo Delgado", convocando a atenção solidária para o drama ali vivido desde há 3 anos e meio. O qual durante tanto tempo conviveu com o silêncio da sociedade moçambicana, das suas instâncias estatais e da imprensa tradicional bem como, friso, da maioria da intelectualidade do país. E também com a "distração" internacional. Vivi 18 anos em Moçambique, e também no Cabo Delgado, região pela qual então me apaixonei. Muito por isso ontem tanto me comovi ao saber deste inesperado gesto do meu clube - naquilo do gratuito encenado e inútil que é o clubismo. (...)
 
[Deixei aqui uma versão extensa e mais abrangente, com temáticas extra-futebol]
 
 
 

Após a festa

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(O postal tem alusões políticas e por isso violento o que julgo apropriado a um blog clubístico, que deve ser isento dessas derivas pois unitário. Fica o aviso, para quem não tenha paciência para esse tipo de considerações logo o evite).

Ontem fui ao Marquês, logo após o jogo. Quando a mole começou a aumentar eu e o meu comparsa regressámos a casa, Covid oblige. Pois ainda não vacinados mas já velhotes - e vejo uma fotografia minha de ontem no metro e até me assusto com aquele Matusalém que já vou. Hoje leio muita gente incomodada com as multidões que se congregaram junto ao estádio, nas manifestações subsequentes ao jogo, com a violência ocorrida, com a hipotética indução de infecções (e até quem se queixa com os efeitos no turismo veraneante. A esses replico que melhor seria pensar em produzir algo em vez de vender vinho barato, raios de sol, peixe grelhado, sexo cálido e souvenirs reais e intangíveis aos estrangeiros, mas isso é coisa que não entendem os morcões infectados de estupidez que falam de "indústria hoteleira" e "indústria turística". Infecção estupidifadora que mata menos gerontes mas mais lixa o país do que o Covid-19).
 
Mas enfim aos ofendidos com as massas sportinguistas (com as gentes dos futebóis) convém lembrar duas coisas: nada disto foi surpresa, como não o foram as grandes ondas da Nazaré e as corridas de Portimão, quando também o povo se congregou em massa e sem futebóis, diante do estupor das autoridades. O que ontem aconteceu em Lisboa foi um estrondoso e apatetado exemplo de incapacidade, indecisão, incúria das autoridades: do governo de Cabrita, da câmara das ciclovias. E, acima de tudo, da polícia. Da PSP.
 
Os milhares de putos que se acotovelaram no Lumiar e nas avenidas novas, as dezenas de famílias, as centenas de graúdos? Somos aqueles que estamos há 15 meses (desde 2.2020) a levar com o rosário de incompetências, atrapalhações e desvario da "Super-Marta" e seus colegas. Com o Sousa e seus três jantares de Natal... Pois o campeonato acabou, nós saudámos com júbilo os tipos que foram competentes (e não corruptos, como tantos anteriores) nisto tão estrito do jogo da bola. E, também por isso, convençam-se de uma coisa indiscutível: quem esteve mal, e muito, quem foi javardo foi quem ontem andou aos tiros. Estão há 15 meses para se organizar. E ainda que os assalariados do ISCTE-IUL os digam "super" não o são. São tão maus que acabam em Maio de 2021 aos tiros sobre os putos da cidade. 
 
Finalmente, aos meus amigos: vim ontem de madrugada do para-além-do-Tejo. À saída o benfiquista que me acolhe saudou-me sorridente num "porta-te bem". Depois, já na capital, o amigo (neutral de clube) ao volante despediu-se como "diverte-te". Logo abanquei em esplanada bairrista diante de meia-dúzia de vizinhos, onde era o único sportinguista. Bebemos vinho do Porto, qual homenagem aos dignos "vices". Almocei em Marvila - e muito bem - com o meu padrinho benfiquista e meu afilhado belenense, que fizeram questão de pagar a refeição "do título". Também por isso não me mandem mais um texto desse Luís Osório, uma merda vácua e apatetada de óbvia a saudar familiares e amigos que são adeptos do Sporting, que corre por aí como se fosse exemplo de algo peculiar - quando é mera condição normal. (...)

Benfica-Porto, hoje

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O mais prestigiado clube da cidade natal do meu pai e do meu avô paterno. Agremiação com grandes sucessos e capacidade mobilizadora daquelas gentes. Faço votos dos seus bons sucessos hoje diante dos sempre malvados. E que os sucessos sportinguistas não se alimentem de trambolhões alheios ou - muito menos - de quaisquer feitos dos arrebitados de Carnide.
Força Porto!!!

O futebol é um país à parte?

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O esloveno Sporar veio trabalhar para Portugal. Durante um ano esteve na empresa SCP. Depois foi trabalhar para a empresa SCB. Presumo que naquele primeiro ano terá construído relações de companheirismo, talvez até de amizade, com os seus colegas - algo até potenciado pela sociabilidade típica da sua actividade, desporto colectivo em equipa de topo, envolvendo jovens em constantes estágios e deslocações. Ao fim deste ano e meio os seus colegas iniciais aprestam-se a uma conquista rara e muito desejada. Na qual ele participou. Isso não só lhe trará a satisfação de ver os seus pretéritos companheiros bem-sucedidos como lhe dará a ele próprio recompensas: estatutárias (tem a possibilidade de se tornar campeão). E porventura até económicas, pois admito a hipótese de ainda receber o prémio devido se tal conquista acontecer. Mais, esse hipotético sucesso da empresa SCP, com a qual Sporar ainda tem contrato laboral, nada prejudica o seu actual empregador. 

Dito tudo isto: numa rede social Sporar saúda um seu ex-colega que celebra um triunfo. E o patronato multa-o! Pode-se dizer que estes rapazes ganham muito, pode-se aventar que a multa até será simbólica, pouco relevante para as quantias que um futebolista internacional recebe. Mas isso não é o relevante. Pois isto é inacreditável. Estamos em 2021 e um homem é multado porque saúda a alegria dos colegas e o resultado do que foi também o seu trabalho. Portugal 2021. E o pessoal encolhe os ombros...

Jogo a Jogo

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(eu mesmo, jpt, durante o Europeu 2004 e o de 2016)

Em 2000, e após 18 anos de jejum, o Sporting foi campeão, o último jogo em Vidal Pinheiro. Eu vivia em Maputo, lembro-me de ter andado a apitar pelas avenidas Julius Nyerere, Eduardo Mondlane, praça Robert Mugabe e por aí afora, esfuziante. E depois ter passado horas diante da televisão a acompanhar, via RTP-África, o autocarro do clube naquele regresso ao Estádio José de Alvalade. Vendo o povo - o Universo Sporting como ainda não se dizia - orlando viadutos e rodovias, saudando os até-que-enfim campeões. Que bebedeira naquela madrugada, que saborosa ressaca no dia seguinte! Meses depois dir-me-ia a minha mulher "andaste dias com um sorriso esparvoado, feliz"... E quão difícil me estava a ser aquele 2000, por razões que nada têm a ver com isto. E que, a bem-dizer, já nem recordo.

Agora neste "jogo a jogo", em todos estes "jogo após jogo", sinto-me quase assim. Sem euforias, sem clímax precoces, sem nada mais do que a satisfação do "jogo a jogo", do gozo prolongado, requintado, destes preliminares. Mas a angústia, ansiosa, até com riscos de disfucionalidade, assoma...

Pois a minha filha telefonou-me há dias, ao ler que a minha faixa etária será vacinada até 13 de Junho. Que fazer?, logo me suspendi... acabrunhado com a tardia data. Pois, se assim, como farei num destes próximos "jogo a jogo", num qualquer deles, durante este Maio que agora começa, como poderei eu andar noite longa, apenas de calções e cachecol, abraçando e beijando conhecidos e desconhecidos, entoando coros, infindas transacções de suores e perdigotos - essas agora famigeradas "gotículas" -, que a idade já pouco convoca outras mais pudibundas interacções de fluidos? Como me desvairar nessa nem tão longínqua noite junto ao Estádio José de Alvalade (o qual nunca mudou de nome) - mas jamais no "Marquês" dos sem-abrigo? 

Mas já me decidi, ainda que não o diga à minha filha. Nesse dia, no do "apenas mais um jogo", clamarei "Que se foda o Covid"!

Rui Moreira

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São 40 anos disto. O historial das influências manipuladoras dos resultados desportivos nunca será completado, muitas esquecidas na voragem dos tempos, outras silenciadas, por falta de provas e de coragens. Modo de estar amparado por acólitos que tendiam a sovar jornalistas - ainda me recordo da impunidade com que, no Aveiro de 1988, foi agredido o grande jornalista Carlos Pinhão, aos seus 64 anos. E modo de estar catapultado pela inércia judicial e pela cumplicidade política, em particular autárquica - poucos ainda se lembrarão quando o presidente da câmara Fernando Gomes, encavalitado no clube, desceu a Lisboa arvorado em ministro e com sonhos de conquistar não o Jamor mas sim São Bento. Foi-lhe breve o enleio, logo tendo regressado, capachinho entre as pernas, para a administração do F.C. Porto entre outras sinecuras. 

Neste longo consulado de "Jorge Nuno", como o saúdam os apaniguados, o hábito de atiçar jagunços para espancar jornalistas seguiu algo viçoso nas suas duas primeiras décadas. Depois feneceu, pois a sucessão de triunfos internos desestruturou clubes rivais, amainou a competição. Nesse rumo mais favorável impôs-se a procura de respeitabilidade pública. E nisso o culto da "mística" do clube foi apelando cada vez mais a uma qualquer "alma" feita de arreganho desportivo, depurando-se da imagem de corsários em abordagem: a fleuma de Robson e a sua versão lusa, por isso algo mais arisca, em Santos, Jesualdo Ferreira, e mesmo no júnior Villas-Boas, foi-se sedimentando, apesar da alguma irascibilidade bem-sucedida de Pereira ou Mourinho.

É certo que a vigência de uma placidez - democrática - nunca foi absoluta, e que a vertigem provocatória e agressiva nunca desapareceu, com a própria conivência da imprensa. Lembro-me que há alguns anos um conhecido comentador televisivo atreito ao SLB foi "abanado" num restaurante portuense por um famigerado líder de claque portista. Como tantos deixei eco disso no meu mural de FB, lamentando o facto. De imediato recebi um bem-disposto comentário desvalorizando o abanão no sexagenário mediático, algo tipo "foi coisa pouca". Respondi-lhe, indignado, "como é possível que sendo V. o nº 1 da Lusa desvalorize uma situação destas em nome do seu clubismo?". Logo o arauto me insultou e cortou a ligação-FB. Lembro este "fait divers" para sublinhar isso da vontade agressora não residir apenas nos aprendizes de proxeneta medrados na Invicta, pois sempre seguiu robusta naquele mundo de "senhores doutores".

As décadas passaram. O natural ocaso do octogenário "Jorge Nuno" é este, o que agora acontece. O controlo do jogo algo se reduziu, devido à dança de poderes nos meandros nacionais mas também à introdução de tecnologias electrónicas na arbitragem. E nisso, no envelhecimento do prócere e no crescimento do imprevisto futebolístico, voltou-se ao culto do "pancadarismo". O rufia treinador, desde ontem cognominado "Sérgio Confusão", cujo histrionismo passa incólume, afirma-se como "imagem de marca" do clube ressuscitando a velha ideia da tal "mística" corsária. O que inclui, claro, o espancamento avulso de jornalistas - agora já não por obscuros seguranças de bordéis portuenses mas por "empresários" montados em carros de estatuto, uma óbvia gentrificação da escroqueria portista.

No meio de tudo isto, antigo exaltado porta-voz televisivo das manobras clubísticas e agora eleito figura-maior dos órgãos do clube - apesar da propalada actual renitência do poder político em associar-se aos mariolas do futebol -, qual putativo Delfim, flana Rui Moreira, o presidente da Câmara do Porto. De (quase) tudo soube, de tudo sabe, a tudo anui. E assim ... a tudo conspurca.

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