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És a nossa Fé!

O Sporting de Rúben Amorim (parte 2)

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Quase dois meses depois do meu primeiro post (10/09/2020), já com o mercado fechado e um arranque de época deveras atribulado, muito marcado pela pandemia, e uma pré-eliminatória que resultou numa derrota humilhante em casa com austríacos que nos custou a Liga Europa e um percurso até agora quase impecável na 1.ª Liga, torna-se interessante rever a minha análise de então e perspectivar o que virá aí.

A primeira observação é que com Rúben Amorim, e dentro dos condicionalismos existentes, o Sporting teve um dos melhores mercados de verão de sempre, conseguindo vender alguns por quase 50 milhões de euros e emprestar outros com pagamento de vencimentos, ao fim e ao cabo um conjunto de jogadores, alguns com vencimentos inflacionados pelo assalto a Alcochete, que duma forma ou de outra tinham chegado ao fim do ciclo em Alvalade, não representando uma clara indispensabilidade.

E assim sairam definitamente Matheus Pereira, Acuña, Wendel, Vietto, Mané, Dala, e quase definitivamente Misic, Battaglia, Diaby e Pedro Mendes. Por cerca de metade desses 50M€, entrou um misto de jogadores, entre os experientes para consolidar o balneário e "educar" os jovens, Adán, Feddal e Antunes, e as apostas sérias na competividade do plantel, Pedro Gonçalves, Nuno Santos, Tabata, Porro e João Mário.

Ficou claramente a faltar o tal ponta de lança, tão farto estou de falar no assunto que não vou insistir. Ficou também a faltar a colocação de alguns excendentes, alguns verdadeiras "mulas" que se recusaram a sair por muito que o Sporting lhes acenasse com empréstimos, mas estão no seu pleno direito. Quem contratou por alguns milhões de euros nulidades como Bruno Gaspar ou Ilori, é que tem a culpa. Quando alguém contrata uma nulidade destas um par de dias antes de ser destituído, então devia pagá-los por inteiro.

 

Em segundo lugar vem a capacidade de liderança de Amorim, a exigência colocada no desempenho e na atitude em campo, o espírito de grupo que se pretende inculcar, que faz com que a equipa lute e acredite, e parta ao encontro do sucesso.

Em terceiro, vem a construção a partir de trás, que enfastia muitos e expõe a equipa a perigos óbvios, algo que vi a cores e ao vivo a Juventus em Turim fazer muito bem, e um Belenenses com o treinador espanhol ainda em Belém e Silas no Jamor a fazer muitíssimo mal e nos dois casos levar uma cabazada. Um destes dias, a fazer zapping de canais, deparei-me com Carlos Carvalhal, o tal que chegou ao Sporting e pôs o Miguel Veloso a extremo direito, agora treinador do Braga, a explicar a forma de jogar do Rio Ave do ano passado, a explicar a desmontagem do sistema de marcações do adversário através da circulação paciente da bola desde trás e a de saber chegar a bola com qualidade a zonas onde a aceleração para golo seria efectuada.

 

Carvalhal e Amorim têm um entendimento similar do jogo e bem diferente dos treinadores mais "clássicos", como os últimos que tivemos: Leonardo Jardim, Marco Silva, Marcel Keizer, e mesmo Jorge Jesus, este com uma ideia muito própria e intransmissível. Enquanto, por exemplo, com Keizer era um 4-3-3 "Kiss" (Keep it simple and stupid) que apenas se fugia do trivial pelos extremos de pé trocado, este sistema de Amorim não é nada fácil e requer inteligência e muito treino dos interpretes. A começar pelos defesas.

Por vezes os erros acontecem, sofrem-se golos e perdem-se pontos. Ainda agora o Rio Ave entregou o jogo ao Benfica a tentar jogar "by the book" Carvalhal. Estando o sistema bem afinado, alternando a construção com a solicitação em profundidade, e a lateralização com o passe em rotura, este 3-4-3 que está a ser trabalhado por Amorim é um sistema moderno com muito para dar ao Sporting.

 

Por último, e em quarto, vem a tão falada rigidez táctica de Amorim. Nestes dois últimos jogos, contra adversários tão diferentes como o Porto em casa e o Santa Clara fora, não falando das condições dos relvados, o Sporting alinhou com o mesmo onze e na mesma disposição táctica, um 3-4-3 com um falso ponta de lança que recua e convida à entrada em velocidade dos dois interiores na grande área, qualquer deles com apetência para atirar ao golo. Nos dois casos marcou primeiro, mas não conseguiu evitar, muito pelos tais erros defensivos evitáveis, a recuperação do adversário, indo para o intervalo a ter que pensar em correr atrás do prejuízo.

Quando as pernas já vão pesando e a equipa começa a engasgar-se, Amorim mexe na equipa de forma eficaz. Sai o defesa central direito e toda a defesa roda à esquerda,  Coates à direita, Feddal ao centro e Nuno Mendes à esquerda. Com isso, a equipa começa desde trás a ter um futebol muito mais directo, com solicitações em profundidade.

Mais à frente, sai o tal falso ponta de lança para vir um verdadeiro, e toda a equipa continua no tal 3-4-3 mas com uma dinâmica bem mais ofensiva. A troca do médio box-to-box por um médio mais organizador, de Matheus Nunes por João Mário, permitiu também ter finais de partida com futebol de qualidade e ocasiões de golo que chegaram para conseguir o empate num caso (Vietto falhou a vitória) e a vitória noutro. Por outro lado, e eu não esperava tanto, Palhinha veio efectivamente trazer uma mais-valia crucial à equipa, dando-lhe o poder de choque e a capacidade de desarme a tempo inteiro que faltavam ao meio-campo. 

 

Agora vou falar daquele que considero o calcanhar de Aquiles deste Sporting de Amorim, muito mais do que a propalada falta de qualidade do trio de defesas (claro que com 20M€ compra-se um melhor defesa central do que com 3M€):

Para mim uma grande equipa não tem de jogar sempre bem, tem é que ganhar quase sempre, mesmo a jogar mal. E para isso acontecer tem de não cometer erros na defesa, e de aproveitar muito bem todas as situações atacantes, em particular os remates de meia-distância, as situações de bola parada, cantos, livres e lançamentos de linha lateral. Para isso precisa de ter movimentos estudados, mas de ter também jogadores com essas características.

Sendo assim, pensando nos golos que se vão sofrendo e nos golos que não se vão marcando, não vejo ainda neste Sporting de Amorim essa grande equipa.

Mas está no bom caminho e, como diz aqui o Pedro Correia, o caminho faz-se... caminhando.

SL

Pódio dos pontos: Jardim, Keizer e Marco

Analisando o desempenho dos últimos dez treinadores que prestaram serviço ao comando da equipa principal do Sporting, encontramos a lista escalonada de forma surpreendente na relação entre jogos disputados e pontos conquistados.

Tiago Fernandes (só com três jogos) e Leonel Pontes (com apenas quatro) figuram aqui para "cumprir calendário", como se diz na gíria do futebol. Um está no topo, outro está no fundo.

O que realmente interessa é a radiografia estatística dos restantes oito, que cumpriram jogos suficientes para poderem ser avaliados com algum rigor. No pódio estão os dois únicos treinadores que conquistaram a Taça de Portugal para o Sporting na última década: não há coincidências. E também o primeiro (e até agora único) técnico que exportámos com lucro para os cofres da SAD leonina.

O "mestre da táctica", que acaba de ser recebido no mais velho rival do Sporting como se fosse o Tom Cruise em dia de estreia de Top Gun, fica-se pelo meio da tabela. E, dos treinadores de Frederico Varandas, José Peseiro é o que apresenta melhor média a seguir ao holandês. 

Silas, sem novidade, anda lá por baixo. E o seu sucessor, Rúben Amorim, ainda não conseguiu muito melhor. Decepcionante é a prestação estatística de Jesualdo Ferreira, outra surpresa revelada por estes números.

 

Tiago Fernandes: 2,33 (só três jogos)

Leonardo Jardim: 2,20

Marcel Keizer: 2,14 (dois títulos)

Marco Silva: 2,08 (um título)

Jorge Jesus: 2,07 (um título e um troféu)

José Peseiro: 2,00 

Rúben Amorim: 1,91

Silas: 1,86

Jesualdo Ferreira: 1,83

Leonel Pontes: 0,25 (só quatro jogos)

 

Fonte: Transfermarkt

Isto é uma loucura

Texto de V. Guerreiro

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Em Maio de 2018 era treinador do Sporting Jorge Jesus. Depois dele vieram mais uns quantos.

Fica aqui a lista:

- Jorge Jesus
- Sinisa Mihajlovic
- José Peseiro
- Tiago Fernandes
- Marcel Keizer
- Leonel Pontes
- Jorge Silas
- Rúben Amorim

 

Este último entrou ao serviço em Março de 2020. Vinte e dois meses entre Jesus e Amorim.

Oito treinadores em 22 meses: dá uma média de 2,75 meses.

 

O que pensa um jogador que passa por uma experiência alucinante como esta?

Oito cabeças, cada uma com os seus métodos, as suas tácticas, as suas ideias de jogo, a sucederem-se em catadupa.

Ainda falam mal dos jogadores do Sporting? Ainda os assobiam por jogarem mal? É verdade que vão jogando mal, mas quem não jogaria? Grandes jogadores é o que são, que isto fritava a cabeça de qualquer um.

 

E depois, quanto dinheiro se gastou em treinadores e equipas técnicas?

 

Isto é uma loucura, mas quanto mais espernearmos contra a loucura, mais ela vai continuar.

É preciso parar, respirar, aprender a andar outra vez. Estamos na disposição disso ou vamos continuar a rodar no vórtice?

 

Texto do leitor V. Guerreiro, publicado originalmente aqui.

Três momentos-chave

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Na avaliação do desempenho de vários presidentes do Sporting tem havido momentos-chave que condicionam a rota posterior dos seus mandatos, marcando-os pela negativa. Todos dominados pela relação conflituosa com treinadores. Em diversos casos, pode hoje concluir-se, nunca mais se recompuseram. 

Só para assinalar dois exemplos flagrantes, talvez mesmo os mais dolorosos, basta recordar o afastamento compulsivo de Malcolm Allison, em 1982, quando o técnico britânico acabara de conquistar com brilhantismo a penúltima dobradinha dos Leões, vencendo e convencendo no campeonato e na Taça, e o despedimento sumário de Bobby Robson, em 1993, a pretexto de uma derrota na Liga Europa, quando a nossa equipa liderava o campeonato.

Nem João Rocha, no primeiro caso, nem Sousa Cintra, no segundo, voltariam a recompor-se. 

 

Mais recentemente, outros três presidentes cometeram erros lapidares na relação com os treinadores ao ponto de a partir daí terem andado a pôr remendos, em fuga para diante: de cada vez que pareciam encontrar uma solução, só arranjavam um novo problema. 

Três pontos de viragem que estão aqui documentados por terem ocorrido já com este blogue em funcionamento. O primeiro, ocorrido após um ano de mandato presidencial. O segundo, quando estavam decorridos pouco mais de dois anos. O terceiro, quando ainda nem se haviam completado dois meses depois da posse.

Passo a recordá-los, pedindo-vos que me perdoem as autocitações. Creio ser por uma boa causa: só o permanente exercício da memória nos previne contra a repetição de erros semelhantes e sucessivos no futuro.

 

13 de Fevereiro de 2012: Godinho despede Domingos

«O sinal interno que se deu foi profundamente errado. Basta dezena e meia de energúmenos, gritando frases típicas de qualquer reles arruaceiro contra os jogadores e a equipa técnica no aeroporto de Lisboa, para fazer tremer a direcção, levando-a a afastar o treinador e tornar letra morta todos as garantias de continuidade proferidas nos últimos meses. Isto incentiva o pior dos populismos. Energúmenos deste género já levaram outras direcções a rescindir com Bobby Robson e José Mourinho, entre outros técnicos de indiscutível craveira. Se a moda pega, noutro dia qualquer os mesmos indivíduos voltarão a gritar impropérios com o objectivo de atrair as câmaras televisivas e fazer cair o presidente praticamente em directo nos telejornais. E talvez até tenham sucesso.»

 

15 de Maio de 2015: Carvalho afasta Marco Silva

«Parece cada vez mais evidente que Marco Silva não permanecerá no Sporting após 31 de Maio. Se vencer a Taça de Portugal, como todos desejamos, a sua saída será um erro colossal da direcção leonina, aparentemente pronta a afastar o único técnico que se prepara para nos dar um título em futebol profissional desde o já longínquo ano de 2008 (quando Paulo Bento conquistou igualmente a Taça de Portugal, seguida da Supertaça). Um erro somado a tantos outros. (...) O experimentalismo contínuo, que não permite sedimentar processos de jogo e modelos tácticos nem criar verdadeira empatia entre adeptos e equipas técnicas, tornou-se lei comum em Alvalade. A instabilidade não vem de fora, vem de dentro.»

 

1 de Novembro de 2018: Varandas despede Peseiro

«Não sendo ingrato, deixo aqui uma palavra de apreço pessoal ao único treinador que na hora mais difícil se dispôs a encabeçar uma missão quase impossível enquanto outros assobiavam para o lado. Sai como bode expiatório da primeira etapa do pós-brunismo, agora encerrada. A que vai abrir-se - sem atenuantes nem desculpas - é toda do presidente, já sem o treinador de Cintra a servir-lhe de pára-choques. Lenços nas bancadas, haverá sempre - ao menor pretexto. Faz parte da autofagia leonina, reforçada pelo contexto em que emergiu o actual elenco directivo no Sporting. Talvez num futuro próximo possam até multiplicar-se, encorajados pelo que sucedeu na madrugada de hoje, pouco depois de uns quantos acenos de despedida num estádio quase vazio para uma prova que nos é praticamente indiferente.»

A pior equipa técnica de sempre !!! (Parte 4)

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Não fazia conta de voltar a este tema, agora que ultrapassámos esse pesadelo e temos, não direi uma equipa técnica excelente mas pelo menos um jovem treinador de grande potencial, mas a triste entrevista do adjunto José Pedro vem forçar-me a voltar ao tema,

Confessa o adjunto que algum incompetente ou coisa bem pior do Sporting, fascinado pela brilhante táctica dos três centrais que os levou a enfardar 8-1 pelo Sporting de Marcel Keizer, e face às recusas de Pedro Martins, Abel Ferreira (só pensar neste já constitui um atestado de idiotice) e Leonardo Jardim, convenceu o presidente do Sporting a apostar nestes jovens.

Jovens estes que, mal entrados, se lembraram nada mais nada menos de deixar as duas maiores estrelas da companhia, Bruno Fernandes e Acuña, sentadinhos no banco, para sermos eliminados da taça pelo Alverca. E logo depois da derrota, veio o jovem chefe dizer que "Não precisamos de heróis, mas sim de uma equipa. Vai demorar, mas vamos conseguir". E agora vem o jovem adjunto dizer que havia resistência de alguns do plantel,  que "outra coisa pontual que acontecia no treino, nós chamávamos à atenção no final do treino ao Hugo Viana e ao Varandas e perguntávamos se eles tinham visto. Eles diziam que sim e nós dizíamos que achávamos que eles deviam agir de determinada maneira, punir o infractor e não falávamos mais sobre isso. Mas as coisas continuavam a correr da mesma forma e assim não dá."

Mas qual infractor, Zé Pedro? O Bruno Fernandes ou o Acuña? O Coates ou o Mathieu? Castigados para os sub-23? E que se passou exactamente no intervalo do jogo para a Taça da Liga com o Gil Vicente quando (dizem) foram forçados pelos capitães a mudar tudo e um par de botas?

A entrevista está aí, demonstra a total incompetência destes jovens para o lugar que ocuparam, mas na foto falta o tal incompetente director do futebol que tornou tal facto possível.

O mesmo que pelos vistos está a envidar os melhores esforços para rechear o banco do Sporting de coxos e desvalidos.

SL

Olha a bola, Manel

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No dia 29 de Abril de 2020 nasceu o Manuel, filho de Maria e de Bruno (na imagem), precisamente, no dia em que o bebé completava dois meses, o pai foi despedido da maneira que todos pudemos ver.

Não me vou alongar, Pedro Correia já falou numa posta anterior da forma ignóbil como Bruno foi despedido, não está em causa se é bom ou mau treinador mas como ser humano merecia ter sido tratado com respeito, na hora da despedida.

Luís Filipe Vieira fez aquilo que se fazia, nos tempos pré-PAN, a um cão vadio, enxotou Bruno Lage.

Um abraço solidário para Bruno Lage e felicidades para a carreira.

Uma sucessão de trapalhadas

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Há nove meses, chegou a ser aposta de Frederico Varandas para orientar a equipa principal. Agora nem serve para treinar a equipa B, cujo regresso continua a ser dado como garantido. E acaba de receber guia de marcha do presidente, que deixará de contar com ele, apesar de ter contrato até Junho de 2021. Sai lançando nas redes uma mensagem enigmática: «Uma pessoa terá mais probabilidades de aceitar uma ideia e de lutar por ela, se o contexto onde está inserida estiver a fazer o mesmo.»

Uma mensagem que talvez não devesse ter divulgado. Nestas coisas ou se fala com clareza ou mais vale manter o silêncio. As entrelinhas não esclarecem quem lê nem valorizam quem escreve.

 

Leonel Pontes contaria com tudo menos isto quando há quase um ano veio treinar os sub-23 do Sporting, a convite de Varandas, após alguns anos de experiência no futebol estrangeiro. Deu indicações iniciais positivas naquelas funções, mas cometeu o erro de aceitar um desafio suplementar numa péssima ocasião: o presidente leonino apostou nele quando decidiu despedir Marcel Keizer, o holandês que designara como sucessor de José Peseiro - e que, convém lembrar, em Alvalade conquistou duas taças em apenas sete meses.

Tudo isto assentou numa escalada de equívocos que consolidou a má fama do Sporting como cemitério de treinadores: a precipitada saída de Peseiro quando não havia sequer alternativa para o dia seguinte, a contratação de um estrangeiro desconhecido, o afastamento de Keizer já com a época em curso e a proposta lançada a Pontes para pegar na equipa principal numa «missão sem prazo», como na altura declarou o presidente. 

 

O técnico recém-promovido dos sub-23 não era o homem certo para o lugar, como rapidamente se viu. Esteve ao leme do onze principal em quatro jogos oficiais, com registo negativo: um empate e três derrotas -- uma delas, aliás tangencial, contra o PSV para a Liga Europa em partida disputada na Holanda. 

A expressão «sem prazo», no caso dele, significava um mês. Até chegar Silas, que também não aqueceu o lugar. Pontes regressou então aos sub-23, com percurso interrompido pela pandemia. Somou 31 jogos oficiais, com balanço pouco memorável: 14 vitórias, cinco empates e 12 derrotas. A equipa seguia em terceiro na Liga Revelação, a cinco pontos do líder Rio Ave, quando a prova foi interrompida. Agora virá outro treinador, aguardando-se igualmente alguém de novo para orientar a equipa B.

 

Vale a pena meditar nesta sucessão de trapalhadas para se concluir que no futebol profissional é pouco avisado embarcar em experimentalismos. Neste aspecto, a época 2019/2020 tem fornecido ao Sporting abundante matéria de reflexão. Como exemplo do que não deve ser feito, em consecutivas acumulações de erros. 

Leio agora no Record que a saída de Pontes se deve à «degradação da relação entre o técnico e a direcção desportiva» do Sporting. Não é grande novidade. Seria bom, aliás, que esta direcção desportiva não se tornasse - ela também - num foco de instabilidade. Que pode garantir emoção em sessões contínuas a quem vê de fora, mas não é nada gratificante para todos nós, os que estamos dentro.

O contraste não podia ser maior

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AUGUSTO INÁCIO:

«O Sporting tem um plantel muito fraco e só pode lutar pelo quarto, quinto lugar. O Braga vai ficar à frente do Sporting.»

Ex-treinador do Sporting em entrevista ao programa de Youtube O Espartano

«A pergunta que se coloca agora é: "vai para lá o treinador e não é milagreiro." Ok, mas tem que lhe dar jogadores para fazer uma equipa a sério. Será que o Sporting terá dinheiro? Houve gente que não gostou quando eu disse que o Braga tem melhor plantel que o Sporting. Não disse mal do Sporting. E é verdade.»

«O Sporting tem de lutar pelo terceiro lugar. No campo das hipóteses, e se o Sporting não conseguir apanhar o Braga? Que força, que imagem, que impacto terá o treinador que custou 10 milhões?»

«É uma loucura pagar esse valor por um treinador, mas é uma decisão de quem gere o clube e certamente tem mais informação do que eu para poder falar sobre a parte financeira.»

Ex-treinador do Sporting, em entrevista à rádio Observador

 

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PAULO BENTO:

«É público aquilo que o Sporting significou, significa e significará para mim, em termos pessoais e profissionais. Foi um clube onde acabei uma carreira de 15 anos de jogador e iniciei outra de treinador. Primeiro na formação, depois na equipa principal.»

«Espero e desejo, por ser um clube que me diz muito, que o Rúben Amorim tenha essa estabilidade e essa pontinha de sorte que é preciso ter e que as pessoas de uma vez por todas tenham paciência para poder suportar um projecto a longo prazo. Por isso estarei eternamente grato a pessoas que trabalharam comigo e me deram essa estabilidade. Nada disso teria acontecido se o Carlos Freitas não se tivesse lembrado de mim para treinar a equipa do Sporting e não tivesse pessoas como Soares Franco e Ribeiro Telles. Pessoas que nos momentos em que as coisas não correram bem tiveram a capacidade de acreditar em mim. Sem isso não teria estado tanto tempo no Sporting.»

«Não será o facto de [Amorim] ter custado 10 milhões de euros que o vai segurar no Sporting. O que verdadeiramente o vai suportar será o trabalho que vai desenvolver e a capacidade e crença de quem manda. O que será decisivo é a coragem do presidente - que já demonstrou ter para lidar com outras coisas - para segurar um treinador de uma vez por todas.»

Ex-treinador do Sporting, em entrevista ao jornal Record

Merci et bon voyage, Anti

Em tempo de "desconfinamento" acelerado no Sporting, foi agora a vez de Thierry Anti anunciar que vai embora. Alegando "questões familiares"

O francês, que chegara há menos de um ano, oriundo do Nantes, foi um dos treinadores com melhor currículo que passaram em tempos recentes pelas modalidades leoninas. Vai fazer muita falta ao nosso andebol, que deixou em lugar de disputa pelo título quando o campeonato foi suspenso em definitivo, à 26.ª jornada.

Lamento muito que parta. E lamento ainda mais este clima de desagregação que parece estar a ocorrer em Alvalade - com demissões, abandonos e saídas em fluxo contínuo.

Já vi este filme noutras ocasiões. Posso avisar, portanto, que o desfecho não será feliz.

O Sporting faz milionários

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Contratar um treinador sérvio desempregado - sem um título de campeão no currículo, fluente apenas em italiano e servo-croata, desconhecedor em absoluto do futebol português - a cinco dias de uma assembleia geral do clube convocada para a sua própria destituição (que não tardaria a consumar-se), foi um dos actos mais danosos que tenho guardados na minha longa memória de sportinguista. "Como se o Edifício Visconde Alvalade fosse o cofre-forte do Tio Patinhas", escrevi aqui nesse mesmo dia.

Com esta tresloucada decisão, a última do seu mandato, Bruno de Carvalho lesou os cofres leoninos, transferindo para quem lhe sucedia o ónus de ficar com um técnico que não escolhera, pagando-lhe quatro milhões de euros por temporada, ou denunciar um generosíssimo contrato com validade de três anos, até 2021, sujeitando-se a desembolsar uma choruda indemnização por quebra unilateral do vínculo laboral entretanto assumido.

Sousa Cintra, sucessor de Carvalho, optou pela segunda via. Frederico Varandas, sucessor do sucessor de Carvalho, viu-se agora forçado a pagar - num momento em que o clube deixou de ter receitas devido aos brutais efeitos da pandemia que nos fustiga há dois meses. Cerca de três milhões de euros acabam de sair de Alvalade para a conta bancária do senhor Mihajlovic, que já nem deve lembrar-se da localização do nosso estádio. 

Espero que o novíssimo milionário ofereça ao presidente destituído um opíparo jantar regado a champanhe: nada é tão bonito como um gesto de gratidão.

Leonardo Jardim

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Para mim, neste momento, não poderia haver melhor solução do que Leonardo Jardim à frente da equipa técnica do Sporting.

Gostava muito que parte da receita conseguida na transferência de Bruno Fernandes fosse aplicada na contratação de Jardim. Por três anos, com plenos poderes da SAD para construir um projecto ambicioso e vencedor.

Claro que isso implicaria mudanças drásticas na estrutura do futebol leonino. Mudanças que só poderão ser bem-vindas.

O exemplo do Barcelona

Tudo bem que o Barcelona tem argumentos que o Sporting não tem - dificilmente algum treinador recusaria um convite do Barcelona (consta que só o Pochettino recusou). É mais fácil arranjar um treinador para o Barcelona que para o Sporting. Mesmo assim, a substituição de Ernesto Valverde foi exemplar de como deve ser feita uma substiuição de treinador a meio da época (vulgo uma "chicotada"). Foi anunciada a sua saída, e imediatamente a seguir foi anunciado o treinador substituto. Um treinador que é uma primeira e efetiva aposta, e não uma solução experimental interna "a ver se funciona". O Barcelona é um clube com ambições e que não tem tempo (e dinheiro, e pontos) a perder com Oceanos, Leonéis Pontes e Tiagos Fernandes (a propósito: alguém sabe o que é feito deste rapaz que, nas suas próprias palavras, percebia tanto de futebol?).

As substituições de treinador a meio da época são sempre de evitar. Se a situação está mesmo insustentável, mais vale mesmo assim ir aguentando o treinador enquanto se procura uma alternativa a sério do que estar a mandá-lo embora, devido a um estado de alma, para entregar a equipa a alguém sem capacidade.

2019 em balanço (2)

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TREINADOR DO ANO: PAULO FREITAS

As modalidades leoninas vivem um dos melhores momentos de sempre, dando incontáveis alegrias aos adeptos. Incluindo aquelas que durante anos permaneceram adormecidas em Alvalade, como sucedeu com o hóquei em patins, uma das mais populares entre os portugueses. Há cinco anos, em boa hora, Bruno de Carvalho decidiu recuperá-la. Na presidência de Frederico Varandas, o nível tem-se mantido e até acentuado. Graças a um timoneiro exímio na orientação da equipa: Paulo Freitas, oriundo do Óquei de Barcelos - onde venceu duas Taças CERS - e nosso treinador pela terceira época completa consecutiva.

Com ele ao leme, logo em 2017/2018, o Sporting sagrou-se campeão nacional. Mas as maiores proezas ocorreram já este ano. Primeiro, a 12 de Maio, com a conquista da Liga Europeia, máximo troféu da modalidade ao nível de clubes, reeditando a façanha de 1977, quando fomos campeões europeus com um elenco titular de luxo: Ramalhete, Rendeiro, Sobrinho, Chana e Livramento. Depois a 29 de Setembro, com o inédito triunfo na Taça Continental, ao derrotarmos o FC Porto num vibrante Pavilhão João Rocha com casa cheia.

Mais duas páginas inesquecíveis no vasto historial de êxitos de um clube fundado em 1906 para ser tão grande como os maiores da Europa. Páginas a que este treinador de 51 anos ficará para sempre ligado ao comandar uma equipa onde brilham Ângelo Girão, Pedro Gil, Caio, Ferran Font e Gonzalo Romero. Paulo Freitas confirma-se assim como o homem certo no lugar certo. Levando o Sporting não apenas a vencer mas também a convencer pela qualidade do hóquei que pratica, tanto na construção ofensiva como na segurança defensiva.

Honrando da melhor maneira o lema do nosso fundador.

 

 

Treinador do ano em 2012: Domingos Paciência

Treinador do ano em 2013: Leonardo Jardim

Treinador do ano em 2014: Marco Silva

Treinador do ano em 2015: Jorge Jesus

Treinador  do ano em 2016: Fernando Santos

Treinador do ano em 2017: Jorge Jesus

Treinador do ano em 2018: Nuno Dias

O elo mais fraco

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Depois de José Peseiro, Tiago Fernandes, Marcel Keizer, Leonel Pontes e Silas, não me admirava nada que estivesse a ser equacionada a vinda do sexto técnico do futebol profissional leonino nesta era Varandas.

Um sinal de que o processo de substituição poderá já estar em marcha foi a notícia publicada na edição de ontem do Record, com chamada de capa, dando nota de que os jogadores «fizeram saber que não se sentiam cómodos com constantes alterações» introduzidas pela actual equipa técnica.

Na mesma página, outra janela aberta sobre o Sporting, sob este título: «Técnico e capitão dissonantes». E em complemento, outra estocada em Silas: «Seis sistemas em 11 encontros.» Pormenoriza o jornal que o ex-treinador do Belenenses SAD já experimentou no Sporting o 4x4x2 clássico, o 4x4x2 losango, o 4x2x3x1, o 3x5x2 e o 3x4x3, além do 4x3x3 mais tradicional. «Balneário pressiona para que a equipa estabilize em 4x3x3.»

 

Qualquer mediano decifrador de circuitos noticiosos perceberá de onde foi soprada a notícia para o jornal desportivo mais conotado com o Sporting: da administração da SAD. O jornalista não inventou, os jogadores concentrados desde o fim de semana no norte do País não andaram certamente a telefonar para o diário e Silas seria o último interessado em ver coisas destas impressas.

Irá a corda partir novamente pelo aparente elo mais fraco, transformado em bode expiatório de todos os desaires? Não me admirava nada. Num clube que teve 21 treinadores nos últimos 19 anos, se existe tradição solidamente enraizada em Alvalade é a da chicotada psicológica. Na dúvida, enxota-se o treinador e depois logo se vê.

Neste século XXI, entre nós, isto nunca produziu efeitos positivos. Mas funciona como momentânea cortina de fumo, desviando as atenções e distraindo os incautos. Ganhar tempo, seja como for, parece ser a palavra de ordem no edifício Visconde de Alvalade. Resta saber para quê.

Convém ter memória

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Demasiados erros nas contratações, gestão caótica do mercado de Verão, saída de jogadores essenciais que descapitalizaram o plantel leonino. Começando por Nani, prosseguindo com Bas Dost, culminando em Raphinha. Tudo foi criticado aqui, sem reticências nem meias palavras, em cima da hora.

Somando a isto, que já seria muito, a política igualmente errática de gestão das equipas técnicas. Desde a chegada da actual administração da SAD, Alvalade parece uma porta giratória: sai treinador, entra treinador.
Para tudo permanecer na mesma. Ou pior.

 

Em boa verdade, estamos hoje francamente pior do que estávamos há 13 meses, quando Frederico Varandas decidiu correr com José Peseiro - o técnico em quem  manifestara confiança durante a campanha eleitoral desenrolada pouco antes. «Peseiro será o meu treinador», garantiu aos sportinguistas.
Imitando o pior da política, mal foi eleito apressou-se a dar o dito por não dito com inaceitável deselegância. Esquecendo que aquele havia sido o único treinador a prestar-se a vir para Alvalade no Verão negro de 2018.


Peseiro saiu com o Sporting em todas as frentes desportivas (duas das quais viriam a ser conquistadas) e apenas a dois pontos do líder do campeonato já depois de termos jogado em Braga e na Luz.

Num cenário muito mais favorável do que o actual, quando estamos 13 pontos abaixo do Benfica e 11 atrás do FC Porto no campeonato, fomos eliminados da Taça de Portugal por uma equipa do terceiro escalão e aguardamos um milagre para prosseguir na Taça da Liga. Isto a mais de três semanas do Natal.

Infelizmente, recordo bem, na altura 90% dos adeptos aplaudiram o presidente do Sporting. Insultando Peseiro de "pé-zero" para baixo. Em muitos casos, são os mesmos que agora insultam o presidente. Como previ aqui.

Convém ter memória.

 

 

Leitura complementar: Não é possível (texto que aqui publiquei a 4 de Novembro)

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