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És a nossa Fé!

Razões para pessimismo: o Plano C

Já todos percebemos como joga o Sporting: o Plano A é o tal 4X3X3 com pressão alta e muita posse de bola, uma espécie de tiki-taka-upon-Tagus. Não me quero repetir, mas repito: isso é tudo muito bonito só que também muito cansativo. Dito claramente: a pressão alta e o tiki-taka não são para quem quer, são para quem pode. O Sporting pode? Pergunto sinceramente, porque só eles lá dentro é que sabem. Mas o que a gente vê cá fora é que para cada grande jogo (Schalke) há um ou dois horríveis - ou um e meio (Guimarães e Paços). Isto a acrescer aos golos absurdos que entram. O Leonardo, no ano passado, também jogava em 4X3X3, mas de tracção às rodas de trás. Às vezes era chato? Então não era. Mas era mais seguro.

O Plano B é o 4X4X2, também todo puxado para a frente e com a tal pressão alta, assim um bocado "à Jesus". Lá está: tudo muito bonito, mas cansativo. Repare-se: o Jesus do Benfica milionário só ganhou dois campeonatos em cinco. O primeiro só na última jornada contra o Braga, a jogar na Luz; o segundo, quando foi possível ter três equipas de qualidade idêntica rodando conforme a competição. Em todas as épocas, excepto a última, a certa altura rebentavam. O Plano B do Sporting é, por isso, tão cansativo como o A.

Não daria para arranjar um Plano C, um bocado mais descansado, para gerir a equipa depois de jogos muito intensos? Digamos, uma forma de organizar o cansaço, em vez daquela nulidade da primeira parte de ontem. Tipo o 4X3X3 do Leonardo, chato mas sólido. Evitava-se tanto golo e não era preciso tanta lufa-lufa para tentar ganhar os jogos.

Enfim, não liguem: talvez seja só a ignorância a falar.

Totaalvoetbal

 

Gosto especialmente dos jogos entre a Holanda e a Espanha (quer dizer, a Espanha dos últimos anos) e estou sempre pela Holanda. A razão é simples: a Holanda foi o meu primeiro love affair futebolístico. O primeiro campeonato do mundo que segui foi o de 1974 - infelizmente era demasiado pequeno para poder ter visto aquilo que dizem foi a maior maravilha futebolística da história, o Brasil de 1970. Foi nos anos 70 que a Holanda, um tradicional pardieiro de toscos da bola, chocou toda a gente com uma coisa chamada "futebol total" (totaalvoetbal, no original), e foi em 1974 que a selecção ganhou o famoso epíteto de "Laranja Mecânica". Seguindo o velho princípio linekeriano de que o futebol são onze jogadores para cada lado enfrentando-se durante 90 minutos e no fim ganha a Alemanha, foi o que aconteceu na final desse ano. Mas quem viu não esquece Crujiff, Neeskens, Krol, Rensenbrink et al.

 

Por essa altura, já Crujiff e o treinador Rinus Michels tinham ido para a Catalunha inventar o futebol moderno do Barcelona. Décadas e várias gerações de holandeses depois chegou-se ao apuramento final do horrível tiki-taka, uma espécie de caricatura do futebol total holandês dos anos 70. Pois foi este produto derivado (particularmente eficaz, sem dúvida) que, infelizmente, dominou o futebol nos últimos anos, no Barcelona e na selecção espanhola, que era o Barcelona menos o Messi. Desde os anos 70 que a Holanda manteve a mesma identidade de jogo, embora sem regressar ao brilho original (excepção feita, talvez, à selecção de meados de 80, com van Basten, Gullit e Rijkaard) e sem nunca ir demasiado longe. E atravessou mesmo períodos muito maus.

 

Foi com especial alegria, portanto, que assisti ao enxovalho de ontem da Holanda sobre a Espanha, uma vitória do produto genuíno sobre o derivado. Curiosamente, nem uma nem outra jogaram da forma típica. A Espanha já não joga bem o tiki-taka (como o Barcelona deste ano, aliás) mas uma coisa que não se percebe bem o que é; a Holanda parecia uma equipa inglesa, com a diferença de que tem uma data de jogadores habilidosos. Não sei se isto tem muitas pernas para andar. Estou curioso para o resto dos jogos.

Do tiki-taka à willi-tá-tika

O tiki-taka, sabemo-lo, assenta em transições prolongadas, passes curtos e posse constante de bola. No fundo, trata-se de lateralizar aqui, triangular acolá, adiantar linhas, até o rival se aborrecer de andar atrás da bola e desistir dela. Se for bem feito, esse momento de desistência ocorre já dentro da grande-área, circunstância em que qualquer um pode marcar sem se despentear. O tiki-taka é, como se sabe, uma filosofia futebolística que promove a desigualdade. A bola é um bem escasso numa partida de futebol. E o tiki-taka assenta em percentagens de posse de bola absolutamente especulativas. Sessenta, setenta, setenta e cinco por cento para um lado e o resto, quase nada, para o outro. Acumulação desmesurada para uns, pobreza para os demais. Pois bem. O sistema de jogo do Sporting representa a democratização do tiki-taka. Baseia-se, também ele, numa sucessão de passes. Mas, ao contrário do tiki-taka, em que o segredo consiste em excluir o adversário da posse de bola, no sistema do Sporting este é chamado a participar. O princípio de jogo estruturante é o passe errado. O jogador do Sporting, quando ultrapassa o meio-campo, lateraliza ou ensaia a triangulação mas, se tudo correr bem, perde a bola. A equipa contrária, por sua vez, tenta pôr em prática o seu plano de jogo, qualquer que ele seja. Mas, tarde ou cedo, chega perto de William Carvalho que fica com a bola. A progressão no terreno do Sporting faz-se assim de forma lenta mas consistente, iniciando-se invariavelmente numa perda de bola de Carrillo ou num passe errado de André Martins e na recuperação subsequente de William Carvalho. Com este eterno retorno da bola ao médio sportinguista, a equipa adversária vai desmoralizando. No mundo ideal, ao lado de André Martins e de Carrillo deve alinhar Gerson Magrão. O entusiasmo de matar uma jogada de Magrão, uma probabilidade estatística incontornável, esmorece sistematicamente com o embate posterior na muralha de William Carvalho. Esta sucessão de estados de entusiasmo e frustração rebenta completamente com a condição anímica e física do opositor. Ao fim de vinte a trinta minutos de perdas de bola e transições falhadas pelo Sporting, tentativas de lançar o ataque pelo adversário e recuperações de bola por William Carvalho, o jogo está, sem se dar por isso, nas imediações da área do opositor, com todas as condições para que que alguém possa fazer golo. Esta verdadeira guerra psicológica é mais eficaz se for permitido ao adversário adiantar-se no marcador. Os seus níveis de confiança subirão, o que tornará a queda mais dolorosa e a prostração subsequente irremediável. Ali onde o Barcelona é uma equipa especialista em açambarcar posse de bola, o Sporting leva a níveis nunca vistos a sua partilha com a equipa contrária. Entrega-a para logo de seguida a recuperar. O Barcelona pratica o monólogo, o Sporting aposta na progressão dialéctica. No Barcelona, a circulação de bola é continuada. No Sporting, o fim último da circulação é esta ser interrompida. Ali, temos o tiki-taka. Aqui, uma filosofia de jogo inovadora, democrática e inclusiva a que, à falta de melhor, chamaremos willi-tá-tika.

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