Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

És a nossa Fé!

Fernando Peyroteo

Tenho andando, neste espaço, a dar a conhecer em vários excertos, através das suas memórias, a vida de uma das nossas maiores glórias, Fernando Peyroteo, que este ano celebraria o seu centenário.

Mémórias de Peyroteo é o livro.

Contudo, tendo em conta o triste momento, único, que o nosso clube está viver, não compatível com a grandeza que esta figura impar merece, suspendo esses textos.

Este Sporting, digo antes, os dirigentes do actual Sporting não são dignos de Fernando Peyroteo... e de todos os outros "peyroteos, azevedos, travassos, jesus-correias, albanos, vasques, stromps, jorge-vieiras, jordões, manueis fernandes, hilários, damas, carlos-xavieres, etc., etc., etc. ..." que teve.

 

Memórias de Peyroteo (25)

 

(cont.)

 

«O V Portugal - Suíça em futebol, disputado em Basileia a 21 de Maio de 1945, terminou com a vitória dos suíços por 1-0- Perdemos bem e os nossos adversários ganharam melhor.

Analisando e comparando sector por sector, fomos inferiores no ataque e iguais na defesa. A meio campo ainda trocámos passes interessantes e fizemos algumas jogados de mérito, mas próximo da área suíça tudo se embaralhava… O “ferrolho suíço” perturbou a avançada portuguesa. De resto, a equipa suíça jogou quase toda ela sobre a defesa, procurando contra-ataques rápidos, de surpresa.

A nossa defesa, sim, trabalhou muito e jogou bem, cometendo, apenas, um erro, ou melhor, teve um momento de hesitação e sofreu o golo que ditou o resultado: na marcação de um livre, os nossos defesas hesitaram em qual deles devia guardar o interior suíço; entretanto a bola partiu e ele, sozinho, com um ligeiro toque, fez o golo - um tanto sem brilho mas que contou como se tivesse nascido de uma óptima jogada…

De resto, há sempre um pormenor que nos leva a perder a maioria dos jogos internacionais: a falta de classe, a falta de verdadeira categoria internacional da maior parte dos elementos que formam a equipa nacional portuguesa. Por carência de intuição para o futebol? Não! Muito têm feito os rapazes escolhidos para defenderem as cores da bandeira nacional no respeitante a competições desportivas internacionais, especialmente em futebol. O mal é outro, vem de longe, é o problema de sempre: as deficiências de “orgânica”.

 

Ainda há bem pouco tempo tive o prazer de conversar com o Francisco Ferreira - o grande “ Chico” do Benfica - e, como não podia deixar de ser, recordámos os grandes desafios entre o seu e o meu clube, os maus resultados da nossa equipa nacional - do nosso tempo é claro - e até o “penalty” que o “Chico” falhou no jogo contra a Espanha, na Corunha. Contristado, como se o caso se tivesse passado ontem, o “Chico” disse: “Se eu tivesse marcado aquela “batata”, os espanhóis, daí por diante, eram “canja”… Atirei para fora e levámos 4 “batatas” contra 2! Mas eles eram melhores do que nós!!!”

Recordámos várias peripécias dos nossos jogos internacionais e, entre eles, o que disputámos em Basileia - não propriamente acerca do jogo, mas sobre o regresso da equipa nacional. Eu conto: Como já disse, para a Suíça fomos de avião e muito embora o “Chico” e outros nossos camaradas tivessem vomitado quase as tripas à chegada a Genebra - no momento em que o “piloto” fez inclinar o avião ora para a esquerda, ora para a direita, de modo a melhor podermos apreciar a vista aérea da linda cidade de Genebra - ambos estávamos de acordo em que a viagem de regresso foi muitíssimo pior! Setenta horas de comboio chegam para arrasar qualquer valentão, mas como se isso não bastasse, lutamos com dificuldade de alojamento e até passámos fome!!! Admiram-se? Ora vejamos.

De Basileia a Paris tudo foi normal, mas de Paris a Lisboa as coisas correram o pior possível para os jogadores - e digo para os jogadores porque os dirigentes não sentiram tanto…

Não foi possível arranjar camas para todos e as poucas que se conseguiram destinaram-se, e muito bem, aos rapazes do Belenenses que teriam de jogar um desafio no dia seguinte ou dois dias depois da chegada a Lisboa. Conseguiu-se, pois, arranjar algumas camas, uns tantos lugares de l.ª classe e outros de 2.ª. Os dirigentes - cansados dos banquetes e consequentes discursos - ocuparam os lugares de primeira classe e nós, os jogadores, que apenas havíamos perdido com os suíços - sem esforços nem canseiras - fomos para a 2.a classe… Pois não são eles quem leva as “gentes” aos campos da bola? Não são eles a ocupar os postos cimeiros? Daí a razão e o direito de ocuparem, também, os melhores lugares nas longas, enfadonhas e maçadoras viagens!

O leitor perguntará: “mas todos os dirigentes são assim? Todos procedem da mesma maneira?” - Não, felizmente!

Os jogadores passaram noites sem dormir e muitas horas sem comer. O comboio não trazia a carruagem-restaurante e os nossos dirigentes, na estação, em Paris, compraram, para nós, uma merenda composta de 2 “sandwiches”, 2 bananas, 2 laranjas e uma garrafa de laranjada ou cerveja. Comido o lanche, a rapaziada pensou em comprar, em qualquer estação de caminho de ferro onde o comboio parasse, os alimentos de que necessitava. Mas, qual quê? Pois se os franceses não tinham quase que comer, como poderiam vender aos outros o que precisavam para eles?

A certa altura da viagem, o Teixeira - lembram-se do “gasogénio” do Benfica? - o Teixeira, dizia, apareceu-nos com uma lata na mão, a qual continha, no fundo, uns restos de sardinhas e molho de tomate, acompanhando o repasto com um pouco de pão! A rapaziada logo quis saber a proveniência do petisco, mas o “gasogénio” negou-se terminantemente a indicá-la, e só coagido sob ameaça de ser atirado pela janela fora, indicou o compartimento de l.ª classe onde obtivera aqueles restos de sardinhas e de pão. Para lá nos encaminhámos mas encontrámos a porta fechada e as cortinas corridas!

Silêncio absoluto!… Batemos uma, duas vezes e só depois de o Amaro e o Chico Ferreira declinarem as suas identidades, a porta do compartimento se abriu o suficiente para verificarmos que havia ali um autêntico “simpósio” - no verdadeiro sentido da palavra!… Não faltavam as latas de conserva, compotas, pão, frutas, etc.!!! Todo aquele “material comestível” havia sido levado de Lisboa para a Suíça, pensando-se já na eventualidade de a equipa nacional vir a precisar de alimentação suplementar, admitindo-se, por natural e evidente, que a guerra teria criado graves dificuldades, especialmente em França.

Tudo foi previsto cautelosamente, mas o certo é que, na Suíça, nada nos faltou. Do que leváramos só da compota comemos um pouco aos pequenos-almoços; as restantes provisões adquiridas em Lisboa, eram agora saboreadas pelos ocupantes dos lugares de 1ª classe…

Como é de calcular, o facto provocou uma barulheira dos diabos, mas os jogadores nada ganharam com isso! Logo a seguir a este incidente, o Ruben - funcionário da Federação e que já dera a um jogador o lanche que lhe coubera em Paris - desceu do comboio, na primeira estação, em busca de mantimentos, mas só conseguiu comprar dois ou três quilos de cerejas, que distribuiu por alguns rapazes, pois nem todos aceitaram a oferta! De resto, já alguns jogadores, noutras estações anteriores, haviam ido em busca de comida, mas nem cerejas encontraram…

Se a memória não me falha, pretendeu-se, logo a seguir à distribuição da fruta, distribuir pelos jogadores certa quantidade de “francos” para tentarem, ainda, comprar qualquer coisa de comer noutra ou noutras estações. Um dos internacionais recebeu essa meia dúzia de “francos” e, acto contínuo, atirou-os pela janela fora… É que de dinheiro não tínhamos nós falta; o que não encontrávamos em parte nenhuma era “o que comprar para comer”… A não ser que fôssemos à “loja” que estava instalada num dos compartimentos de 1.ª classe, cuja denominação comercial e privada era a de dirigentes.

E aqui tem o leitor a história resumida da fome por que passou a equipa nacional de futebol quando regressava da Suíça, onde fora disputar o V Suíça-Portugal em futebol.

É bonita a história, não é?

O futebol deu-me de tudo: algum dinheiro, boas passeatas, muita pancadaria e… fome!

Dos fracos nso reza a história, não é verdade? Mas por muito estranho que pareça, continuo a ter saudades… da bola!

 

Na nossa terra há muito boa gente que só vai ao futebol quando 0 Sol brilha nas alturas! Se o tempo ameaça chuva, ficam em casa ouvindo o relato pela telefonia, ou vão ao cinema e lêem o jornal da noite. Futebol em dia de chuva não lhes agrada…

Ora, na semana que precedeu a realização do VI Portugal -  ‘Suíça, disputado em Lisboa no dia 5 de Janeiro de 1947, nem todos os dias choveu e, por isso, a tal “boa gente” dos dias primaveris, tratou de arranjar, com a devida antecedência, os bilhetinhos para assistir ao jogo, sabido como é que, para os desafios internacionais, nem sempre se conseguem os bilhetes de entrada no campo.

Eu fui sempre uma vítima dos carolas que julgam ser^ muito fácil aos jogadores conseguirem quantos bilhetes querem. É certo que a Federação teve sempre em conta a nossa qualidade de jogadores da Selecção Nacional e, por isso, nos reservava uma razoável quantidade de bilhetes - pagos, é claro - e nos oferecia três ou quatro entradas de “circulação superior”, mas assim mesmo, os bilhetes-' reservados nunca chegavam para atender os pedidos, o que dava ocasião a zangas, aborrecimentos, etc., etc… Sucedeu, porém, que para este encontro arranjei tantos bilhetes quantos os necessários para satisfazer os interessados que, com uma semana de antecedência, me haviam assediado, mas por que na ante-véspera do dia do jogo choveu torrencialmente, a maior parte dos pedinchões não tornou a aparecer, e eu fiquei com quinhentos e tal escudos de bilhetes na algibeira!!! Fiz constar, depois disto, que não mais requisitaria bilhetes à Federação, por não estar disposto a gastar dinheiro inutilmente mas, mais tarde, achava graça aos que, embora mal os conhecendo, me pediam bilhetes e diziam logo: . “Olhe que eu sou daqueles carolas que aguentaram o Portugal - Suíça até ao fim e, como recordação, guardei este bocado de bilhete!…- Claro que, para esses, só quando foi totalmente impossível é que não os satisfiz, mas estou em crer que nenhum deixou de ir ao futebol! Aliás, mereciam a atenção de serem atendidos.

A chuva diluviana que caiu no sábado e no dia do jogo não impediu que 30 mil pessoas fossem ao Estádio Nacional assistir ao VI Portugal - Suíça e, quanto a mim, esta foi a faceta mais curiosa: num momento em que o jogo estava interrompido, o defesa suíço Steffen, chamou a minha atenção para o invulgar espectáculo que nos ofereciam os milhares de chapéus de chuva abertos. Era, de facto, muito interessante e nunca julguei que o conjunto resultasse tão curioso.

Quanto ao jogo, pouco há a dizer. Tanto a nossa equipa como a suíça jogaram abaixo das suas possibilidades. O campo encharcado, com verdadeiros lagos sobre o relvado, não era propício à execução de bom futebol. Quase não tínhamos força para levantar a bola que, pesando no inicio 425 gramas, pesava 675 no dia imediato ao jogo - peseí-a eu!

O resultado deste jogo, apenas memorável pela chuva torrencial que caiu, cifrou-se num empate a duas bolas, marcadas por Rogério e Moreira.

Foi este o último jogo que fiz contra a sempre vigorosa e boa equipa Suíça.»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 164 - 169

 

Memórias de Peyroteo (24)

(cont.)

 

«PORTUGAL -SUIÇA

Em jogos internacionais, cinco vezes defrontei a equipa da Suíça: primeiro, em Milão -no dia 1 de Maio de 1938; segundo; em Lausana, a 6 de Novembro de 1938; terceiro, em Lisboa, a 2 de Janeiro de 1942; quarto, em Basileia, no dia 21 de Maio de 1945 e o quinto jogo, novamente em Lisboa, a 5 de Janeiro de 1947.

Tive a sorte e a ventura de visitar a Suíça três vezes, na primeira das quais atravessei, de Norte para Sul, esse país de beleza incomparável, cuja extensão territorial, observada num mapa, se esconde sob a palma da mão de uma criança. Sendo dos mais pequenos países da Europa, a Suíça oferece-nos os mais ricos e deslumbrantes espectáculos de beleza que podemos imaginar. Os tapetes verdejantes dos seus campos, em contraste com a alvura imaculada do gelo que cobre os píncaros dos montes altíssimos - erguidos majestosamente como dedos de gigantes apontando o céu, as águas tranquilas dos seus lagos onde se espelham as cristãs das montanhas-, tudo nos encanta, deslumbra, seduz e nos transporta a um país de sonho!

Mas não se julgue que, por ser pequenina a Suíça, não se fazem, dentro dela, grandes e encantadoras viagens, que jamais se apagarão dá memória de quem as fizer tal como sucede comigo. Ver um lago da Suíça, não é ver todos porque não há semelhança entre eles; as paisagens, como as gentes, mudam, são diferentes de cantão para cantão: a maneira de falar, de vestir, os usos e costumes do povo, são tão diferentes quanto curiosos, A afinidade que os une e caracteriza o povo suíço, é apenas uma: gentileza, correcção, disciplina, cortesia e afabilidade para quem os visita! Isto, porém, só é possível, em tão larga escala, porque entre o povo suíço quase não há distinção de classes são todos iguais. Irmanam-se pobres e ricos; a vaidade e o luxo são contrários à educação do povo suíço. Dignificam-se pelo trabalho ordeiro, metódico, disciplinado e pela sobriedade elegante das suas palavras, dos seus gestos e do seu patriótico orgulho.

O suíço, na sua terra, é um “gentleman” para o forasteiro. Modestamente, sem exuberâncias enfatuadas, o suíço mostra a sua terra e abre as portas da sua casa com a maior das naturalidades, mas sabe que, ao fazê-lo, grava no coração do visitante recordações inapagáveis.

Há quem viaje muito e veja pouco, mas também há quem procure fazer o contrário. Nas três vezes que estive na Suíça, vi o que o tempo e as obrigações de futebolista me permitiram. Através das páginas deste livro, o leitor saberá que conheço, embora um tanto superficialmente, quase toda a Europa. Vi muito, conheci muito do bom e do mau que há no estrangeiro, mas se quiser fazer comparações, não há paralelo a estabelecer: a Suíça vence e convence em todos os pormenores! Por isso, quando as circunstâncias da minha vida permitirem uma viagem de recreio, voltarei á Suíça - o país que me encantou e prendeu para sempre.

E a vós - jovens internacionais portugueses - recomendo-lhes que, quando tiverem oportunidade de visitar a Suíça e quando saírem do hotel, abram bem os olhos, respirem fundo e digam como eu: Deus abençoe a Suíça para que aos homens de todo o Mundo não falte, em realidade, a essência das histórias de fadas e terras encantadas que lhes contaram quando eram pequeninos.

 

O jogo em Frankfurt, contra a Alemanha, foi a um domingo e, na 3.a feira seguinte, partimos a caminho da Itália, a fim de, em Milão, defrontarmos o grupo helvético. Chegámos ao Lago de Como na noite de 3,a feira, esperando-nos, na estação do caminho de ferro, apenas um empregado do hotel para onde íamos, o qual nos ofereceu, como transporte, uma pequena camioneta tipo 1900…

A equipa nacional descansou durante três dias. Nada se passou digno de registo, a não ser um magnífico passeio de barco, de uma ponta á outra do “Laco di Como”, cuja beleza me impressionou verdadeiramente (paredes meias com a Suíça) e tanto assim é que não resisti á tentação de, com Cândido de Oliveira e Mourão, fazer outras passeatas no lago, servindo-me de barcos a motor que ali se alugavam,

Lembro-me de que, primeiro Filipe Pereira - bom camarada que acompanhou como “mirone” a nossa equipa e, depois, Cândido de Oliveira, gastando apenas 40 liras cada um, deram um belo passeio de avioneta por cima do Lago. Quis imitá-los (nunca perco o ensejo de ver e admirar o que é belo) mas o seleccionador negou-me autorização por recear um “desastre” que, evidentemente, a verificar-se, o colocaria em muito maus lençóis…

Do Lago de Como seguimos para Milão onde chegámos na 6.* feira, dia 29 de Abril de 1948.

Numa das paredes da entrada do hotel, em Milão, estava afixado um grande cartaz anunciando um espectáculo de ópera no mundialmente conhecido “Scala” de Milão. Ora, como eu já planeara visitar aquele teatro, pensei logo em ir, nessa noite, á ópera e, assim, depois do pequeno treino que efectuámos, falei com Cândido de Oliveira, para conseguir dele a indispensável autorização, não só para mim como para o Espírito Santo e o massagista Dionísio Hipólito, que, infelizmente, a morte já roubou ao nosso convívio. O seleccionador não via inconveniente e estava, até, interessado em ir à ópera, mas pôs como condição que teria de ir toda a equipa, prometendo que, ao jantar, consultaria a rapaziada. Desde logo se me afigurou comprometida a minha vontade, mas lutaria por ela secundado pelo Guilherme e pelo Dionísio, e ainda escudado no interesse de Mestre Cândido. Assim, durante a tarde, o “quarteto” fez “torcida” junto dos outros camaradas da equipa no sentido de os convencer a acompanhar-nos ao teatro, mas cedo verifiquei que a ideia não tinha a menor possibilidade de êxito, porque um “malfadado” componente da equipa, ao regressar do treino, viu que num cinema se exibia o filme “FURACÃO”, com a esbelta Dorothy Lamourir a O tal “malfadado” deu o alarme e a maioria dos rapazes queria… o cinema, mas, como prometera, o seleccionador pôs, durante o jantar, as duas hipóteses: ou “Scala” ou o “Furacão”, lembrando, no entanto, que o filme era uma película vulgar, já exibida em Lisboa, ao passo que a um espectáculo de Ópera no “Scala” de Milão talvez jamais nenhum dos componentes da equipa viesse a ter oportunidade de assistir. Além disso, vale” ria a pena, quanto mais não fosse, para ver o “ambiente” e o célebre teatro por dentro, em dia de espectáculo. Infelizmente, nada conseguiu

e lá fomos todos para o cinema, onde eu dormi como um justo, porque já tinha visto o filme em Lisboa e, francamente, não merecia ser visto duas vezes…

Mas eu não desisti de ver, por dentro, o famoso “Scala”; não seria em noite de espectáculo, mas teria de ser noutra ocasião. E foi no próprio dia do jogo contra a Suíça!

Como sempre, em dia de jogo, a rapaziada almoçou cedo e, logo a seguir, sem que ninguém soubesse dos meus planos, à excepção de Cândido de Oliveira, sorrateiramente saí do hotel, acompanhado pelo Dionísio e o Espírito Santo e por um amável funcionário do Consulado de Portugal em Milão, e lá fomos, a 100 à hora, direitinhos ao “Scala”. Tivemos sorte porque o empregado do teatro, informado pelo nosso “diplomata” acerca da “personalidade” dos visitantes, prontificou-se, gentilmente, a mostrar-nos os interiores do teatro, levando a sua amabilidade ao ponto de fazer tantas quantas mutações de luz se fazem no decorrer do espectáculo e nos intervalos! Pôs em funcionamento os elevadores do interior do palco, fez subir e descer alguns cenários, mostrou-nos os camarins normalmente ocupados por cantores célebres como Gigli, Caniglia, Bechi e tantos outros, enfim, vimos tudo! Ficámos a fazer uma ideia do que seria o “Scala de Milão” em noite de ópera, e só não assistimos ao espectáculo porque a maioria dos componentes da equipa preferiu ir ver o “Furacão”… Que pena o vento - do filme - não ter chegado à plateia!…

E para terminar o que lhes conto sobre a nossa visita ao “Scala de Milão”, quero dizer-lhes que tive o prazer de me Sentar na mesma cadeira que já havia sido ocupada pelos grandes senhores da Itália - no camarote de Honra!

De automóvel voltámos ao Hotel, trazendo connosco a sensação de um grande desejo satisfeito; valeu a pena a luta que travamos e Cândido de Oliveira soube compreender-nos. Obrigado ao Seleccionador e amigo.

Poucas horas depois a equipa nacional entraria no rectângulo para defrontar a Suíça em jogo a contar para o Campeonato do Mundo. No centro do ataque português estaria eu ou Espírito Santo? De positivo, nada se sabia mas, agora, estava convencido de que seria eu porque conhecia bem a opinião do seleccionador: equipa que não perde e joga bem, não se deve modificar. Além disso, Mestre Cândido aproveitou todas as ocasiões para, em conversa, me dar ensinamentos sobre a táctica a adoptar, e muitas vezes se referiu à extraordinária classe do defesa Minelli, na sua dureza, etc., etc.

Foi, talvez, duas horas antes do jogo que o seleccionador me disse que jogaria contra a Suíça, notícia que, aliás, recebi com toda a calma, possivelmente por já a esperar… Ao contrário do que sucedeu em Frankfurt, o facto de ir jogar contra a Suíça não me perturbou.

Sentia-me com forças suficientes para tomar parte na luta e só desejava que chegasse o momento para o demonstrar, É evidente que a responsabilidade do jogo que a nossa equipa ia disputar, causava-me apreensões, mas o caso para mim não tomou um aspecto quase dramático como sucedeu no dia da primeira internacionalização.

O grande Minelli que faria? Lutaria por vencê-lo! Estava naqueles dias em que vemos tudo pelo melhor, com optimismo e boa disposição.

Jogámos e no fim dos 90 minutos verificou-se a derrota da equipa portuguesa: 2-1.

O árbitro italiano F. MATTEA prejudicou-nos - ia a escrever roubou-nos! - escandalosamente! Foi tão velhaco e tão “suíço” que no final do encontro um seu compatriota lhe atirou uma garrafa quando se dirigia para a cabine. Por pouco não lhe atingiu a cabeça; caiu-lhe aos pés e desfez-se em cacos. Assobiaram-no, chamaram-lhe quantos nomes feios sabiam. Poucas vezes assisti a tão ruidosas manifestações de antipatia por um árbitro em jogos internacionais, com a agravante de este ser insultado pelos seus próprios com' patriotas italianos, após uma arbitragem parcial, imprópria de um homem que é chamado a dirigir uma competição desportiva internacional!

Na grande área, cargas fora da lei, encontrões, rasteiras, tudo passou sem castigo! Minelli era duro, violento mesmo, embora bom jogador. Fez tudo quanto quis. Uma vez, a bola esteve dentro da baliza suíça; o ferro que segura a rede devolveu-a para o campo e o árbitro F. Mattea, fez vista grossa! E se ordenou a marcação de uma grande penalidade - desperdiçada, infelizmente, por João Cruz - foi porque a irregularidade cometida era tão flagrante que outro remédio não teve senão apitar… Era tão grande a excitação do público italiano e dos jogadores portugueses que se o árbitro não marcasse aquele “penalty” corria o risco de ser linchado! '

Foi um péssimo árbitro o sr. F. Mattea. Não foi a equipa suíça que nos venceu, mas sim o árbitro é que nos fez perder este jogo internacional; o senhor Mattea foi o décimo segundo e o melhor jogador suíço.

Se alguma vez, nos 16 anos da minha vida desportiva, senti vontade de bater em alguém, foi ao árbitro italiano F. Mattea. No final do encontro olhei-o provocadoramente e ele não reagiu porque se o fizesse… talvez lhe tivesse deitado as mãos ao pescoço-passe o exagero…

A equipa nacional portuguesa merecia ganhar o jogo porque, mesmo contra todas as dificuldades que o árbitro nos criou, jogámos muito melhor do que o nosso adversário; fizemos um golo que o árbitro não validou; fui brutalmente carregado dentro da grande área; tanto eu como os meus companheiros da Unha atacante portuguesa, fomos agarrados, rasteirados, etc., etc., e o Sr. F. Mattea a tudo assistiu impassível! Não seria mal intencionado o Sr. Mattea? Ter-se-ia descontrolado por qualquer motivo? Mas se assim tivesse acontecido, teria sido mau árbitro, cometendo erros, em suma, mau para ambas as equipas, não é isso verdade? Não sei o que lhe aconteceu, mas sei que nos tirou uma vitória merecida, certa, irrefutável. Enfim, o que lá vai, lá vai, e nada ganho em carpir mágoas agora!

Quanto à minha actuação, pareceu-me que foi, pelo menos, aceitável. Marquei o meu primeiro golo em jogos internacionais, lutei quanto as forças permitiram, falhei um golo quase certo e, no final do encontro, Cândido de Oliveira, Gustavo Teixeira, Espírito Santo, Mourão, Soeiro e outros companheiros, felicitaram-me. Parece, pois, que as coisas não me correram mal de todo, e a justificar esta minha opinião, transcrevo o que disse um dos maiores técnicos do futebol europeu, que durante largos anos foi seleccionador nacional italiano -

Victtorio Pozzo, à revista “Stadium”, de 4 de Maio de 1938, n.° 325, Ano VII:

“Portugal fez uma grande partida de futebol, do melhor futebol. Não merecia perder, de forma alguma. O resultado é injusto. Os portugueses meteram duas bolas autênticas. Apreciei a classe do médio-centro, interior esquerdo e do avançado-centro. Na Suíça só houve defesa. Ataque não existiu.”

 

Lança Moreira, jornalista e crítico desportivo de reconhecidos méritos, escreveu, na Revista “Stadium”, de que foi enviado especial a Frankfurt e Milão:

“Jantou-se meia hora depois da chegada ao Hotel. Tristeza e rostos macerados. João Cruz, desde o balneário, chora perdidamente, como uma criança. Os companheiros querem animá-lo, mas estão quase como ele. No fim do jantar, o Capitão Maia de Loureiro falou aos rapazes: Todos os factores podiam ser culpados da nossa derrota, menos eles, jogadores. Levantaram-se vivas frenéticos a Portugal.

“Fala a seguir Dionísio Hipólito. Entoa-se a “Portuguesa” ouvida com respeito por todos os comensais que estão noutras mesas. No final, não há um único português que não chore. Vaiadas, Soeiro, Cruz, Peyroteo, soluçam convulsivamente. O momento é único, emocionante, grandioso, inesquecível. A bandeira de ' Portugal vem à nossa presença e é beijada! É a Pátria, é a terra querida, é Portugal.

“Perdemos mas não nos convencemos. Bravo, rapazes! Um “hurrah”, saido do fundo da alma, pelos jogadores de Portugal!!! Bem merecem do público o mais formidável dos acolhimentos!”

Depois do jogo, a caminho do hotel, as manifestações de simpatia que o povo italiano nos dirigiu foram extraordinárias. Sobre este pormenor, Lança Moreira escreveu:

“Após o jogo, o público tributou uma colossal ovação aos jogadores, reconhecendo o seu esforço e infelicidade, vitoriando-os freneticamente, erguendo vivas a Portugal e à Itália, com “abaixos” a Mattea. A emoção foi indizível. Deviam ser mais de cinco mil pessoas! A porta do hotel juntou-se ainda muita gente vitoriando Portugal!!!”

Sim, foi verdade. Lança Moreira não exagerou. Desde o campo até ao hotel, ao longo das ruas, o grito do povo italiano era este: Portogalo, Portogalo! Viva Portogalo! Gritos, vivas e palmas ecoavam por todas as ruas.

Obrigado, desportistas de Milão. Seria injusto se através das páginas deste livro não lhes enviasse um abraço de reconhecimento.

Quando chegámos a Milão, só dois ou três dirigentes do futebol italiano nos esperavam na Estação Central dos caminhos de ferro, mas após o desafio, muitos milhares de pessoas nos acarinharam e vitoriaram.

Perdemos o jogo de futebol, mas conquistámos o coração do bom povo milanês, o que constituiu uma grande vitória para nós jogadores e para Portugal!

Os desportistas portugueses - os que ficaram na nossa terra - aceitaram a derrota da nossa equipa e compreenderam-na, felizmente. Por isso, ao chegarmos a Lisboa, assistimos à mais extraordinária e grandiosa manifestação. Na gare da Estação do Rossio, em todos os salões, na rua, a massa de povo era compacta. Sem saber como, senti-me agarrado e, aos ombros de entusiastas, desci as escadas da Estação; tanto puxaram que me rasgaram o casaco e um tacão do sapato… desapareceu! Vi-o, mais tarde, na mão de um entusiasta que me disse guardá-lo como recordação…

Quando cheguei ao último degrau da escada, pretextando estar magoado, consegui pôr os pés no chão; fugi, meti-me no elevador, e fui outra vez para cima. Estava tonto e cansado de tantas “palmadas amigas” que me deram nas costas, nos ombros e na cabeça, mas de nada me valeu a fuga, porque outro grupo de sportinguistas, vendo-me à saída do elevador, agarrou-me e, novamente aos ombros de amigos, desci outra vez as escadas e, assim, fui até à sede do Sporting, na Praça dos Restauradores. À porta do Clube pedi-lhes que me deixassem ir cumprimentar os dirigentes do Sporting, mas os camaradas preferiram levar-me, daquele modo, à presença da Direcção!

Estive uns minutos refugiado no gabinete da Direcção, esperando que os ânimos acalmassem um pouco mas, na Praça dos Restauradores, os vivas a Portugal, ao Sporting e a Peyroteo não cessavam ; tive que aparecer à janela para agradecer à rapaziada a manifestação de simpatia que me dispensavam.

Ao contrário do que se possa supor, nunca me senti tão pequeno! As palmas e os vivas não me pertenciam exclusivamente, mas sim à Selecção Portuguesa de Futebol de que fiz parte e à qual, como todos os outros, dei o melhor do meu esforço para honrar a camisola que envergara. Nunca me envaideci e, talvez por isso mesmo, consegui ir um pouco mais longe do que tantos outros rapazes, porventura com melhores qualidades futebolísticas do que eu mas que em breve se julgam ídolos, transbordam de vaidade e não passam de estrelas de segunda grandeza no firmamento do desporto nacional. É pena,

[p. 156]

realmente, que muitos se tenham perdido de braço dado com a vaidade, ficando ao princípio da estrada que os conduziria à glória - embora efémera - do desporto.

 

Para início da nova época, a Associação de Futebol de Lisboa organizou o seu Torneio de Preparação. A minha equipa - a do Sporting, bem entendido - entra em função num jogo contra o Benfica, no dia 11 de Setembro de 1938, o qual terminou com empate a três bolas; a 25 do mesmo mês, defrontámos o Belenenses, nas Salésias, cujo resultado foi 6-3 favorável aos “leões”. O Sporting ganhou o Torneio. Eu marquei cinco golos nestes dois jogos, Sendo um ao Benfica e quatro ao Belenenses. Classifiquei-me como o melhor marcador do Torneio e cometi a proeza de fazer quatro golos num só jogo - contra o Belenenses. Para começo de época não era mau, mas estes factos viriam a ter influência na consolidação do meu lugar como avançado-centro da Selecção Nacional.

Acabado o Torneio de Preparação, começámos a disputar, a 2 de Novembro de 1938, o Campeonato de Lisboa, interrompido, depois de quatro jogos, a fim de a equipa nacional seguir para a Suíça, na manhã do dia 31 de Outubro.

Chegámos a Paris na 3.ª feira cerca da meia noite; partimos dali na 4.a feira de manhã e chegámos a Lausana na 5.a feira, salvo erro, após uma viagem magnífica.

Desta vez, quando saímos de Lisboa, já sabia que jogaria no posto de avançado-centro da equipa portuguesa; o lugar era já meu e, portanto, jogador efectivo do grupo nacional de futebol!

Por temperamento, o povo suíço não é expansivo. O futebol Interessa-o, gosta até muito deste desporto, mas as manifestações não são de molde a entusiasmar-nos. Por isso, chegámos a Lausana e ficámos com a impressão de que ninguém sabia da realização do encontro.

A cidade vivia numa calma impressionante até à hora da saída dos empregos; depois, o trânsito aumentava e pelas ruas circulavam centenas de bicicletas montadas por homens e mulheres, raparigas e rapazes. Em grupos, pedalando serena e ordeiramente, iam a caminho do almoço.

Admirável povo este! Sempre que nós, transeuntes ignorados, tínhamos necessidade de qualquer informação ou esclarecimento, atendiam-nos com tanta amabilidade e mostravam-se de tal maneira atenciosos e prestáveis, que nos sentíamos confundidos, embaraçados!!

No Hotel aparecia-nos, de quando em vez, um jornalista. Impressionantemente calmo, dirigia-se, em primeiro lugar, a um nosso dirigente federativo ou ao seleccionador, solicitando-lhe autorização para nos falar. Feitas as apresentações, perguntava-nos se gostávamos da Suíça, mormente da Cidade de Lausana, indagava, com visível interesse, se estávamos bem instalados no Hotel, se a comida nos agradava; indicava-nos os locais mais aprazíveis da Suíça, recomendava-nos uma visita a este ou àquele local e, por fim, quase a medo - o suíço é educado e, portanto, receia a indiscrição - falava um pouco de futebol: “Bem dispostos para o jogo? Óptimo, óptimo. Eu lá estarei para os aplaudir!” - Oferecia os seus préstimos e, com a mesma leveza de palavras e gestos, delicado e correcto, abandonava o Hotel.

Por vezes cheguei a duvidar que os jornalistas soubessem que estávamos ali para jogar futebol; não nos confundiriam com turistas? Perguntar como alinharia a equipa portuguesa, vaticínios sobre o resultado, quais os jogadores mais em evidência, o que pensávamos sobre a equipa e o futebol do seu País? Não! O suíço teme fazer perguntas sobre assuntos em que se não quer ou não deve falar. O jornalista, visitando-nos, marcava a presença, era portador de uma mensagem de boas-vindas, e não como alguns jornalistas que conheço que levam o descaramento ao ponto de perguntarem coisas sobre os planos tácticos da nossa equipa e quais os nossos melhores jogadores…

O ambiente de calma e tranquilidade era sempre o mesmo e até nós, os portugueses - homens de falas altas, de gestos largos e de palmadinhas nas costas dos amigos! - nos sentíamos contagiados. Evitávamos falar muito alto e “suspendemos os gestos”, porque os suíços que presenciavam tais manifestações de alegria e camaradagem “à portuguesa”, dificilmente compreenderiam, ou aceitariam, que tudo aquilo era “reinação”. O curioso é que, sem darmos por isso, as “chulipas no fófó”, os “cachações” e â algazarra nas ruas, acabaram-se como por encanto! A rapaziada adaptou-se com relativa facilidade, o que nos indica que o portuguesinho irreverente, de sangue na guelra, pode modificar-se, embora seja difícil fazê-lo perder, de todo, o seu temperamento irrequieto.

Nos dias que precederem o encontro, a maioria dos componentes da caravana portuguesa pouco falou de futebol. Na verdade o que nos levou a Lausana foi o futebol e a responsabilidade e dificuldade do encontro estavam bem dentro do nosso espírito, de forma que, falar-se muito acerca do caso, era reavivar apreensões e aumentar o nervosismo. Por outro lado, a encantadora cidade de Lausana possuía todos os atractivos capazes de nos distrair: a beleza dos seus prédios, o verde dos campos, a imponência das montanhas que a

rodeiam, a ordem, o asseio das ruas, educação e cortesia do seu povo, tudo nos encanta.

Na véspera do desafio e logo a seguir ao pequeno almoço, fui procurado, no Hotel, por um homem bastante novo, que pediu para me sentar à sua frente. Tinha, nas mãos, um bloco de papel e um lápis. Sentámo-nos, olhou para mim duas ou três vezes, rabiscou no papel e, depois, levantou-se, apertou-me fortemente a mão e disse: - “Obrrigado sinhôrre Peyrrôteo”. Retirou-se. À porta, antes de sair, voltou-se, fez uma vénia e repetiu: - “Obrrigado”.

Li algures, que Henry Ford dizia ter-se habituado a conhecer o carácter, a educação e valor dos pretendentes a seus empregados, através do aperto de mão que trocavam no dia da apresentação! Este rapaz teria, decerto, conseguido emprego nas casas “Ford”!

Na manhã do dia do desafio, o jovem suíço voltou ao Hotel para me oferecer a interessantíssima caricatura que reproduzo.

Que habilidoso rapaz!

E com mais esta bela recordação da Suíça - obra de um seu filho, artista engenhoso - cheguei ao local onde, dentro de uma hora e meia, se travaria renhida luta desportiva.

Nas ruas de acesso ao campo, cá fora e junto do rectângulo, nada indicava que ali se realizaria um jogo internacional de futebol! As bilheteiras abertas - um polícia e mais cinco ou seis pessoas! Receei que nos tivéssemos enganado no campo!!! Como admitir tanta indiferença, tanta frieza, uma hora antes do jogo? Desgostosos, entrámos nas cabinas para nos equiparmos. Perdemos todo o contacto com o exterior e às catorze horas e cinquenta minutos entrámos no rectângulo. Surpresa geral! Tudo cheio! Não havia um lugar vago! Vinte e tal mil pessoas emolduravam o rectângulo! Mais uma prova eloquente da calma, da ordem que reina nesta maravilhosa Suíça.

E depois de tudo isto não é natural que me enamorasse da Suíça?

A assistência acolheu-nos com simpatia mas… palmas sem calor, embora sinceras. Manifestação calorosa, com palmas de estalar, gritos e vivas a Portugal nos tributou a meia dúzia de portugueses, estudantes na Suíça, que vieram assistir ao prélio. A Lausana deslocaram-se esses rapazes portugueses para nos dizerem da saudade da Pátria, para nos afirmarem que Portugal está em todo o Mundo e que os seus filhos se unem sempre que a bandeira das quinas surge num mastro! Empunhavam pequeninas bandeiras verde e encarnado, agitavam-nas freneticamente e, a toda a força dos seus pulmões, revigorados pelo ar puro das montanhas suíças, gritavam Portugal! Portugal! Meia dúzia de portugueses faziam mais barulho do que quase trinta mil suíços!

O jogo começou e acabou sem história. Perdemos por 1-0. Poderíamos ter ganho? Sim, talvez! Merecíamos a vitória? Não! Os suíços foram-nos superiores ; jogaram para merecer a vitória pela diferença mínima e conseguiram-na com justiça. Nós jogámos muito menos do que em Milão, quando seria de esperar precisamente o contrário. O futebol é um jogo e, como tal, umas vezes se joga bem e outras mal; umas vezes se ganha e outras se perde… Mas não fizemos má figura. Perdemos o jogo mas ganhámos, mais uma vez, em brio, em coragem, correcção e lealdade. Fomos verdadeiramente desportistas, e isso é o que mais interessa, afinal. Orgulho-me de ter pertencido a equipas que sempre - mas sempre, acentue-se - levantaram bem alto a bandeira de Portugal. Deslizes de um ou de outro sempre os houve e haverá. Mas o conjunto foi sempre digno de si, próprio e da Nação. Ninguém, com justiça, o poderá contestar ou negar, felizmente.

Depois do encontro, o habitual banquete de confraternização, no decorrer do qual nos “esprememos” a falar um francês-mímica… Os dirigentes suíços ofereceram-nos - sempre gentis - umas lembranças e… até à vista “mon cher amis”!…

 

De facto, voltámos a ver-nos e a medir forças, em Lisboa, no dia 2 de Janeiro de 1942, ou seja, três anos e dois meses mais tarde.

Não conto, evidentemente, com o III PortugaJ-Suíça disputado em Lisboa a 12 de Fevereiro de 1939, no qual a-nossa equipa foi derrotada por 4-2; não tomei parte nesse jogo, tendo alinhado no posto de avançado-centro o meu amigo Guilherme Espírito Santo.

O IV Portugal - Suíça a que me vinha referindo - 2 de Janeiro de 1942.- foi um grande jogo! Portugal venceu, merecidamente, por 3-0. A nossa equipa mereceu ganhar e a vitória teve tanto maior valor quanto é certo que os suíços não jogaram mal. Talvez um pouco menos do que sabiam e podiam, mas sem fazerem má exibição.

Foi a minha primeira vitória em desafios internacionais, guardando dela grata recordação porque batemos uma equipa muito considerada nos meios futebolísticos europeus e que vinha obtendo óptimos resultados em jogos com equipas de países onde o futebol atingira altíssima craveira.

Quanto ao meu trabalho no conjunto nacional, não foi ele de molde a impressionar favoravelmente o público que encheu o campo das Salésias - e parte da crítica da especialidade… Dos jogadores portugueses, fui o que menos vezes esteve em contacto com a bola e isto porque uma arreliadora lesão no pé esquerdo - contraída num jogo de clube que antecedeu o encontro - quase me ia obrigando a não alinhar, tanto assim que, antes de entrar no rectângulo, o grande massagista Manuel Marques fez, no meu pé doente, dezoito infiltrações de anestésico e, seguidamente, aplicou-me uma ligadura apertada, de modo que eu quase não sentia o pé, sendo isso, aliás, o que se pretendia conseguir. E o seleccionador nacional, Cândido de Oliveira, sabia do meu estado e, por isso, me perguntou se me julgava capaz de aguentar os noventa minutos de jogo.

Foi mais ou menos nestes termos que o seleccionador expôs à equipa o seu ponto de vista:

- “Os dois meias pontas - além da tarefa que lhes cabe e de que já falámos - vão tentar, logo nos primeiros minutos, preparar uma boa passagem de bola ao Fernando, de modo que ele possa atirar ao golo rapidamente, sem preparação e com toda a força possível, mesmo de longe. Conseguindo-se esta jogada e atendendo à fama que tem de bom rematador, a defesa suíça concentrará a melhor atenção no nosso avançado-centro e os interiores actuarão com maior liberdade. Ora, como são dois bons rematadores (Pinga e Alberto Gomes) poderão complicar a vida à defesa suíça… - atirando à baliza e lançando os extremos…

Assim foi; logo nos primeiros minutos disparei um grande tiro à baliza de Ballabio; a bola seguiu a meia altura para o lado esquerdo do guarda-redes, que executou uma defesa espectacular. Creio ter sido um dos meus melhores remates de sempre e deu-me ensejo de ver, também, uma das melhores, mais difíceis e bonitas defesas de quantos guarda-redes vi actuar! A bola foi socada e… marcou-se um pontapé de Canto. Não foi preciso mais nada para os defesas Minelli e Lehmann já meus conhecidos - não me largarem durante os noventa minutos de jogo. Confirmou-se, portanto, a previsão do seleccionador e deu o resultado que se esperava: a defesa suíça preocupava-se comigo e eu movimentava-me de forma a “chamá-los”… Como resultado desta manobra táctica, Mourão marcou dois golos, Alberto Gomes outro… e o público não se impressionou com o meu trabalho!

Pela força do hábito, o público atribuía-me a obrigação, o dever inalienável de marcar golos em todos os jogos! Se jogava pelo Sporting, eram os adeptos do Clube; se pela Selecção Nacional, era quase todo o público. Este dever, esta obrigação sem apelo, era-me atribuída, ao que parece, em regime de exclusividade, pois a nenhum outro jogador avançado se exigia tanto! Qualquer jogava bem sem meter golos, mas o Peyroteo, esse, tinha de os meter! Às vezes, até, fazia dois golos e dizia-se: “Peyroteo “apenas” marcou dois golos e… nada mais fez”! - Como se isso fosse pouco…

O futebol é um jogo de conjunto e, por isso, há que sacrificar, às vezes, uns em proveito de outros para se atingir a finalidade, o bom rendimento da equipa de que todos fazemos parte. De outra vez, no Portugal - Espanha dos 4-1, passou-se quase o mesmo: fui sacrificado para bem da turma nacional, não marquei golos e grande parte do público não gostou do meu trabalho!… Na linguagem dos amadores da pesca, o Peyroteo era o isco! Contudo, será bom não esquecer que nem todo o “isco” serve aos pescadores nem aos peixes… Bem diz o nosso povo: - “num lado se põe o ramo e noutro se bebe o vinho!…” Referido a traços largos, assim foi o IV Portugal - Suíça.

Os rapazes fazem, às vezes, coisas do arco da velha: ir para um jogo internacional com dezoito picadas de anestésico - “Midalgan-Midi” (?) - num pé, já é gostar muito de jogar futebol! Mesmo assim, quantas saudades tenho desses bons tempos de rapaz!

 

Numa linda. manhã de Maio de 1945, o avião rolou na pista do aeroporto de Lisboa e lançou-se no espaço, transportando a equipa nacional de futebol. Uma hora e cinquenta minutos depois chegámos a Madrid, onde almoçámos - no aeroporto - e donde partimos com rumo a Barcelona; aqui, uma hora para reabastecimento do aparelho e novamente no ar, a caminho de Genebra, onde aterrámos ao fim da tarde.

No dia seguinte, viajámos de comboio entre Genebra e Basileia. Parámos em Neuchatel, cuja moderníssima e encantadora praia artificial nos deixou extasiados. Tomámos um pouco demorado mas esplêndido banho, almoçámos à sombra de lindas e frondosas árvores, e seguimos para Basileia.

Ah! A Suíça!!! Já tantos homens ilustres, poetas, escritores, jornalistas, diplomatas, cientistas, etc., se referiram elogiosamente à Suíça, que ela dispensa a modéstia das minhas palavras, o apreço em que a tenho, a paixão que me desperta. Não faço reclame à espera de me ser oferecido um passeio a essas terras de maravilha e sonho. Faço-o, apenas, para que o leitor cujas disponibilidades financeiras o permitam, não deixe, algum dia, de visitar esse País encantador! O turista, para ficar maravilhado, não tem de escolher esta ou aquela cidade, porque a Suíça, de lés-a-lés, quilómetro a quilómetro, oferece-lhe paisagens de beleza surpreendente. No Inverno ou no Verão? É indiferente, porque a Suíça é sempre linda em qualquer estação do ano. Vá à Suíça, leitor amigo, e acredite, que não perderá o seu tempo nem gastará inutilmente o seu dinheiro !»

 

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 147 - 163

Memórias de Peyroteo (23)

(cont.)

 

«II IRLANDA-PORTUGAL

Portugal 2 -Irlanda 0

Dublin - 4/5/941

 

Tenho à minha frente o jornal “A Bola”, datado de 5 de Maio de 1947, onde leio:

1.° golo de Portugal:

“… o médio português passou a Peyroteo que, á entrada da grande área, a entregou a Jesus Correia. O extremo português desceu velozmente, bateu os adversários na corrida e, com um belo remate, obteve o primeiro golo de Portugal. Eram passados 13 minutos.”

2.° golo de Portugal:

“… Aos 33 minutos, Moreira apossou-se da bola e lançou Peyroteo que serviu Jesus Correia. A bola foi novamente a Peyroteo e Araújo recebendo-a do avançado-centro português fuzilou a baliza com um remate certeiro…”

 

Desta feita não marquei golos mas com dois “passes de morte” dei dois a marcar. E foi também neste jogo que tive o maior “falhanço” da minha vida futebolística.

Impressionou-me deveras:

Dois ou três minutos depois do jogo ter começado, Jesus Correia centra primorosamente; bola a meia altura, passa em frente do defesa central que me guardava. Corri na direcção oposta ao nosso extremo direito, fiquei sozinho, a bola veio ter comigo e eu, calmamente (?) levanto o pé para atirar à baliza mas o esférico passou-me… por entre as pernas!…

Que falhanço e que arrelia! Foi um fiasco mas a seguir, dois “passes mortais” e dois golos de Portugal serviram-me de consolação.

Este jogo representou a primeira vitória da equipa Nacional no estrangeiro. Vencemos jogando bem, mas 2-1 talvez traduzisse melhor a justeza do resultado.

 

Anoto, a título de curiosidade: nas duas memoráveis vitórias da nossa equipa - em Lisboa, contra a Espanha (4-1) e fora de casa, contra a Irlanda (2-0), não marquei nenhum golo. Quer dizer: só marquei quando a equipa portuguesa necessitava não perder por muitos golos de diferença ou precisava de um empate. Noutros jogos, marquei o golo da vitória, facto que me enchia de orgulho mas não de vaidade porque o golo é o produto do trabalho do conjunto. Sempre reconheci esta verdade e não estou arrependido.

 

Para a Irlanda tivemos a felicidade de viajar na agradável companhia de Cândido de Oliveira e Ricardo Orneias, distintos jornalistas, antigos seleccionadores nacionais de futebol e meus bons amigos.

De Lisboa a França de comboio; atravessamos, de barco, o Canal da Mancha, entre Calais e Dover, e o Mar da Irlanda até Dublin.

Viagem magnífica que Mestre Cândido de Oliveira aproveitou para nos contar algumas histórias do seu tempo de caçador de elefantes brancos e de dentista do Gandhi. A riqueza de pormenores e o ar de convicção com que nos contava os. episódios da sua vida, eram de modo a fazer acreditar quem o não conhecesse mas eu, minha mulher e Ricardo Orneias, sabíamos bem com que brincalhão estávamos conversando. Mas se nós não o levávamos a sério, o certo é que não aconteceu o mesmo com o farmacêutico duma localidade bem próximo de Lisboa que, na noite de um domingo, foi atacado de fortes dores de dentes tendo procurado o”dentista” Cândido de Oliveira! O nosso amigo bem tentou convencer o farmacêutico de que nada percebia de prótese dentária mas o doente tanto insistiu que Cândido de Oliveira foi obrigado a ver-lhe a boca, onde lobrigou um grande abcesso quase a rebentar. Tocou-lhe e foi o suficiente para o crédulo farmacêutico sentir imediato alívio. Desinfectada a. boca do doente, este lá se foi embora, não sem que Cândido de .Oliveira lhe recomendasse a necessidade absoluta e urgente de, no dia seguinte, procurar o dentista da terra porque, disse ele:” “o meu curso de dentista foi tirado na índia e não serve para exercer o “mister” em Portugal!”

Tudo isto resultou das histórias contadas, para entreter, ao serão, na farmácia da aldeia, conseguindo convencer o próprio farmacêutico de que fora o dentista de Gandhi e de outros homens célebres, na índia, onde, ao mesmo tempo, se dedicava, por desporto, à caça de elefantes brancos!…

Não sei se já nessa altura Mestre Cândido de Oliveira possuía carta de condutor de automóveis, mas a verdade é que o nosso antigo Seleccionador Nacional se entregou, durante toda a viagem, desde Lisboa a Paris e a Calais, a estudar mecânica automobilística. Munido de vários livros sobre a matéria, fechava-se no seu compartimento da carruagem-cama e até altas horas da noite estudava… estudava… Depois, de manhã cedo, ao pequeno almoço ou quando nos encontrávamos a cavaquear, pedia-me que o interrogasse sobre mecânica. Dava-me o livro para eu fazer perguntas e verificar se as respostas eram acertadas. Devo confessar que em questões de mecânica podia considerar-se um “ás” mas quanto à condução a coisa não lhe era tão fácil. Vejamos:

Se não estou em erro, o Sporting ia jogar às Salésias e Mestre Cândido de Oliveira era o orientador técnico da nossa equipa. Aproximava-se a hora do encontro e o Mestre não aparecia, facto que nos contrariava muito por conhecermos de sobejo a sua matemática pontualidade. Mas desta vez creio que chegou ao campo já depois de o jogo ter principiado, pelo que só o vimos durante o intervalo.

Procuramos saber o que se teria passado mas a resposta foi apenas esta: “nada de especial…

Contudo, após o jogo resolveu-se a contar-me o sucedido:

- “Vinha de Algés para Belém e para chegar mais depressa, meti o “Peugeot” (de série antiga) por um atalho. A certa altura tive necessidade de cuspir e cuspi sem reparar que o vidro estava corrido para cima; acto contínuo, tirei da algibeira o lenço para limpar o vidro, e quando procedia a este trabalhinho esqueci-me do volante! Claro que sucedeu o inevitável: atirei o carro contra um muro. Aqui está porque cheguei atrazado.”

Agora estudava mecânica automobilística e até chegou a fazer projectos acerca da possibilidade de fabricar pneus que dispensassem as câmaras de ar. Hoje já existem mas desconheço até que ponto o nosso Mestre de futebol contribuiu para a realização de tais fabricos…

Mestre Cândido de Oliveira - o homem que me deu a honra de me convocar, pela primeira vez, para fazer parte da turma nacional - é, embora não pareça, um brincalhão cheio de fina graça, espirituoso e óptimo cavaqueador.

 

A travessia do Canal Mancha foi encantadora, num bom barco e mar-chão. Outro tanto não podemos dizer da travessia do Mar da Irlanda.

Embarcámos cerca das 4 horas da manhã, no Cais do porto inglês de Holyhead. Madrugada fria; soprava forte ventania e o mar estava bastante agitado fazendo balouçar o barco como berço de criança.

Ao contrário de mim, que gosto de viajar com mar encrespado e não enjoo, Cândido de Oliveira sentia-se um tanto mal disposto, motivo por que procurou abrigo no compartimento mais ao fundo do navio, quase encostado à quilha, por lhe parecer que aí o balanço era menor!…

Eu, minha mulher e Ricardo Orneias fomos para o tombadilho superior, à frente da ponte de comando, sentámo-nos num banco, agazalhados até às orelhas. O vento frio ajudava a desenjoar…

E o caso é que estivemos entretidos, ao frio e ao vento, cantando as cantiguinhas mais em voga nesse tempo, contando anedotas e, de espaço a espaço, falando um pouco em futebol, até ao romper da manhã. Mestre Cândido só apareceu já com dia claro, à hora do pequeno almoço e contou-nos que durante a noite tinha visto peixes- voadores do tamanho de tubarões muito grandes! Claro que não procurámos “desmenti-lo” porque o enjoo podia muito bem tê-lo perturbado um pouco. Sim porque o enjoo é uma “doença” que transtorna o maior valente e os doentes não devem ser contrariados…

Nós, que não íamos no conto do… dentista, também não comemos a “isca” dos enormes peixes-voadores!…

 

O Seleccionador, Dr. Tavares da” Silva, atendendo às dificuldades criadas pela guerra, resolveu levar, acautelando possíveis faltas de géneros alimentícios, uma razoável quantidade de açúcar, compotas e vinhos engarrafados, tudo destinado a reforçar a alimentação dos jogadores, em caso de necessidade.

Não se enganou o nosso bom amigo e Seleccionador Nacional, porque, de facto, as refeições que nos serviam eram… insuficientes. Por isso, após o almoço e jantar, mandava distribuir pela rapaziada uma dose de compota e, ao café, racionava-se o açúcar, por ser pouco.

Havia duas pessoas encarregadas da distribuição. Da compota era o Ruben, funcionário da Federação Portuguesa de Futebol, e do açúcar, o Inspector dos Desportos, Sr. Capitão António Cardoso - por isso lhes chamávamos o “compoteiro” e o “açucafeiro”.

Os géneros alimentícios eram guardados pelo Ruben, no seu quarto fechado a “sete chaves”, mas o certo é que alguns rapazes conseguiram arranjar uma “oitava chave” e, de vez em quando, iam ao quarto do zeloso funcionário da Federação, “escamotear” um pouco de doce. O Ruben fazia um barulho dos diabos, irritava-se mas nunca chegou a saber quem eram os gulosos.

O mais curioso, porém, passou-se na Alfândega, em Dublin.

Quando os componentes da nossa equipa chegaram ao Aeroporto, houve que mostrar as “mercadorias” que faziam parte da bagagem. Tudo estava bem excepto este pormenor: as garrafas estavam empalhadas e logo o funcionário da alfândega, em óptimo francês, advertia:

- “Tenho muita pena mas as garrafas não podem sair, a não ser que os senhores deixem ficar a palha que as envolve”.

Alguém ali ao lado, comentou com um sorriso:

- “Se nos dão as garrafas é o essencial. Nós não comemos a palha…”

Amável e sorridente mas carregando o sobrolho, o funcionário alfandegário retorquiu, compassadamente:

- “Sim; nós também não comemos palha, mas se ela não for queimada imediatamente qualquer animal a pode comer. Temos de evitar que tal se dê pois ninguém nos garante que essa palha não seja portadora de micróbios nocivos à saúde dos animais!”

O portuguesinho espirituoso meteu a viola no saco! Embatucou!

Sairam as garrafas e a palha ficou para ser queimada em seguida.

E digam lá que os irlandeses não são cuidadosos até com a higiene alimentar dos seus gados!

 

A fechar estas notas que constituem para mim recordações inolvidáveis, lembro-me de que as horas que estivemos em Londres foram aproveitadas em magnífico passeio pela cidade, no automóvel de Ribeiro Carvalho, locutor da B. B. C. que, por fim, nos levou a falar para os ouvintes portugueses em programa especial daquela importante emissora oficial inglesa.»

 

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 143 - 147

Memórias de Peyroteo (22)

(cont.)

 

« I PORTUGAL - IRLANDA

Portugal 3 - Irlanda 1

Estádio Nacional -16-6-46

 

Azevedo, Cardoso e Serafim; Amaro e Francisco Ferreiro: Lourenço, Araújo, Peyroteo, Caiado e Rogério

 

Com este jogo terminava a Campanha Internacional do Futebol Português na época de 1945/46.

Da equipa Irlandesa pouco ou nada se sabia. Seria boa? Má? Ignorávamos.

Contudo, alguns dos componentes da equipa que íamos ter como adversária eram tidos como grandes jogadores e, assim, todas as cautelas seriam poucas.

Ganhámos o desafio jogando melhor, muito melhor mesmo, do que a equipa adversária.

A nossa defesa e linha média tiveram períodos de puro brilhantismo. Quanto aos atacantes, pode dizer-se que jogaram bem e fizeram os golos necessários para que a vitória não oferecesse dúvidas.

Assim é que está bem: jogar melhor do que o adversário e ganhar o encontro. Foi o que sucedeu, felizmente. Poucas vezes terá sido assim, mas desta vez a lógica não se pareceu em nada com uma batata…

A equipa Irlandesa era boa; sabia o que queria e para onde ia. Gostei, até, mais do grupo Irlandês do que da equipa Gaulesa que nos visitou anteriormente.

O seleccionador nacional, Tavares da Silva, escreveu no “Diário de Lisboa” de 17-6-946:

“PEYROTEO: - Mais ágil e melhor preparado fisicamente fez uma excelente partida, porventura a melhor que temos visto no capítulo de desmarcação. Soube atrair os jogadores contrários, dar a bola e desmarcar-se. O seu golo de cabeça fica para a história.”»

 

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 142 - 143

Memórias de Peyroteo (20)

(cont.)

 

«VIII FRANÇA-PORTUGAL

França 1 - Portugal 0

 

Equipa de Portugal: - Azevedo; Cardoso, Feliciano e Serafim ; Amaro e Francisco Ferreira; Jesus Correia, Araújo, Peyroteo, Travassos e Rogério.

Em Paris, no Estádio de Colombes, a 23 de Março de 1947, perdemos o VIII França-Portugal.

Perder, fora de casa, por 1-0 não é derrota que deslustre; contudo, neste caso, bem melhor teria sido perder por dois ou três golos de diferença mas termos dado ao público e à crítica a sensação de que a equipa portuguesa, no seu conjunto e individualmente, sabia e podia fazer mais e melhor do que demonstrou nos 90 minutos de jogo.

Se pelos números do resultado se pode concluir que o grupo português deve ter jogado de modo semelhante ao adversário, o certo é que, quem assistiu ao jogo, ficou com a impressão de não possuírem os jogadores portugueses, mormente os avançados, categoria futebolística internacional. Isto, quanto mim, foi muito pior do que se tivéssemos perdido por maior diferença.

Esperava-se que a turma portuguesa jogasse de modo a conseguir um bom resultado e que a linha avançado fosse capaz de contrariar o sistema defensivo gaulês, batendo o esplêndido guarda-redes que era Da Rui. Afinal, a nossa defesa jogou razoavelmente e a ela e ao Azevedo se ficou devendo o magro resultado de 1 0. O sector atacante falhou rotundamente! Fez uma exibição confrangedora!

A propósito deste jogo, Ricardo Orneias escreveu no jornal parisiense “Record”, entre outras coisas, o seguinte:

“A nossa equipa não se impôs e causou enorme decepção. Apresentámos cinco estreantes, quer dizer, cinco internacionais que nunca tinham jogado no estrangeiro. E eles encararam este desafio com uma timidez terrível, da qual se não puderam libertar. Mas, em minha opinião, existem dois grandes responsáveis - os interiores. Durante toda a primeira parte eles foram quase inexistentes. E quando o nosso grupo teve a vantagem do vento não souberam organizar o jogo, salvo em raras ocasiões. Os dois extremos, Rogério e Jesus Correia, sofreram-lhes as consequências…”

E mais adiante…

“… Peyroteo foi o único a lutar.”

Enfim. Uma tarde cinzenta para o futebol nacional, e para Azevedo, Cardoso e Feliciano; Amaro Francisco Ferreira e Serafim; Jesus Correia, Araújo, Peyroteo, Travassos e Rogério.

Noutros jogos fomos mais felizes. Jogo é jogo. Paciência!

 

Que este jogo me tenha deixado só más recordações? Não. Há sempre uma faceta hilariante, um caso curioso a recordar… com saudade.

Viajando de comboio na companhia de Cândido de Oliveira, Ricardo Orneias e do Inspector dos Desportos, capitão António Cardoso, chegámos a Paris três dias antes da nossa equipa, que seguiu de avião,

Na 5.ª feira anterior ao jogo, fiz um treino. O Sr. Capitão António Cardoso quis acompanhar-me para assistir e fiscalizar. Entrou comigo para o relvado de Colombes e enquanto eu dava, a correr, umas voltas para aquecer os músculos, o “inspector” passeava de um lado para o outro…

Acabadas as voltas, fiz uns exercícios de ginástica, e depois, trabalhei com a bola: correr, parar rapidamente, controle do esférico, etc.

Entretanto, o Sr. Capitão continuava no seu passeio mas a certa altura pareceu-me ouvir a sua voz. Perguntei: - Disse alguma coisa, senhor Capitão?

Resposta: - Não ; não disse nada!

Continuei a treinar e momentos depois, ouvi, novamente, alguém falar alto. Ora se ali só estávamos os dois… inquiri:

- Falou comigo, Sr. Capitão?

- Não ; não falei consigo Peyroteo.

- Mas como se entende isto? Estou a ouvir falar alto!!!

O nosso bom amigo e Senhor Capitão António Cardoso aproximou-se um pouco e disparou esta, com a maior naturalidade deste Mundo:

- Deixe-me cá! Estou a estudada discursata que terei de fazer no banquete de domingo à noite!…

Ambos estávamos a treinar no Estádio de Colombes e, afinal, eu sempre ouvi falar alto!

Em abono da verdade se diga que todos os jogadores da equipa nacional encontraram sempre no ilustre Inspector dos Desportos, senhor Capitão António Cardoso, o mais leal amigo, o melhor camarada e o bom conselheiro. Sabendo impôr-se e colocando cada um no seu lugar, foi para nós, em todas as circunstâncias, um grande e bom amigo.

Recordo ainda um diálogo travado entre o Sr. Capitão Cardoso e Mestre Cândido de Oliveira, à nossa chegada a Paris. Ri a bom rir mas, infelizmente, por vários motivos, não posso contar, embora, também, não o possa esquecer.

Paris!… Paris!… Oh! França dos meus amores…

Chama-se um taxi que vai a passar e diz-se ao motorista:

- Leve-me à Rue de la Paix…

Resposta pronta:

- Chame outro. Essa rua fica-me para trás e eu não volto o carro. Não vê que vou em sentido contrário?

Nada ganharíamos em chamar o “Senhor Guarda” que, de resto, seria difícil encontrar!!!

Estas peripécias aborreciam o nosso companheiro, senhor Capitão Cardoso mas divertiam Mestre Cândido de Oliveira. E então, era ouvi-los e ríamos a bandeiras despregadas

Oh! Paris … Oh! França dos meus amores…

Bons tempos. Que saudades, meu Deus!…»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 136 - 138

Memórias de Peyroteo (17)

(cont.)

 

«ESPÍRITO SANTO E EU EM PARIS

 

Guilherme Espírito Santo e eu fomos companheiros inseparáveis. É um rapaz inteligente, de bom carácter, delicado e atencioso, lê muito e procura, sempre que pode, aprender e cultivar-se.

Conhecemo-nos em Luanda e ficámos para sempre amigos, embora a força das circunstâncias nos houvesse colocado, muitas vezes, frente a frente, como adversários no desporto.

Este facto, porém, nunca impediu ou prejudicou a sincera amizade que nos une.

Quando a Selecção Nacional de Futebol foi à Alemanha, viajámos no mesmo compartimento, tivemos lugar à mesma mesa no vagão restaurante e ficámos sempre juntos nos hotéis onde os jogadores portugueses se hospedaram.

A caminho da Alemanha, chegámos a Paris cerca da meia noite. Recolhemos ao Hotel Bayard, na Rue du Conservatoire e, no dia seguinte, de manhã, fomos, a pé, dar um passeio pela grande e maravilhosa cidade.

O Grupo parava aqui e ali, para ver as montras e… os parzinhos que se beijavam, descaradamente, em plena via pública ou nas estações do “Metro”.

Quando deparávamos com tal espectáculo, era um caso sério e as piadas e ditos de espírito fervilhavam - em português está bem de ver, porque se fossem em francês, não haveria jogo na Alemanha! Metade dos componentes da nossa Selecção ficaria no “Governo Civil” de Paris!…

Os parzinhos que estavam aos beijinhos, interrompiam a cena, olhavam-nos sem nos compreender - felizmente! - esboçavam um sorriso - especialmente a garota porque o moço deitava-nos olhares furibundos - e a brincadeira continuava…

Nós… seguíamos em busca de novas sensações!

Para os franceses, aquilo era trivial a todas as horas e em quase todos os locais, por isso nem sequer olhavam para os amorosos. Era o caso: agora és tu, logo serei eu.

Os portugueses miravam, intrigados, porque, geralmente, só se via metade de cada um e nós, claro está, procurávamos descobrir a outra metade. Mas adiante…

O passeio continuou e as sensações repetiram-se até que, a certa altura, eu e o Guilherme reparamos num grupo de “matulões” a espreitarem por um buraco de uma caixa de forma cónica.

Os “garotos” pareciam entusiasmados com o que viam.

- Que será aquilo, ó Fernando? - interrogou o Espírito Santo.

- Não sei, mas não há nada como “efectivamente”. Vamos ver.

Esperámos pela nossa vez, metemos na ranhura da caixa uma moeda de cinco francos… e começou a fita.

Via-se, como em cinema, uma esguia e alta montanha contornada por uma estrada em espiral e, pela estrada acima, corria uma linda rapariga, perseguida por um não menos “guapo” rapagão…

Ela, a primeira vez que nos aparece, está “elegantemente” vestida ; desaparece na curva da estrada e surge, mais acima, já sem o vestido. Na outra volta falta-lhe a “combinação” e assim sucessivamente.

Por sua vez, o rapagão veste um elegante fato de verão. À medida que vai correndo e subindo, vai-se despindo também.

Tantas voltas dão que, a certa altura, ela só tem calcinhas. Ele… em cuecas 1 Depois, a “garota” chega ao cimo da montanha e fica muito atrapalhada porque já não tem para onde fugir. Entretanto, chega o esbelto rapaz, em cuecas. Desaparecem os dois e logo a seguir, a rapariga espreita e diz:

- “Meta mais cinco francos e verá o fim do filme!… “

- O, Guilherme, tens aí cinco francos f

- Espera, deixa procurar…

Por detrás de nós, uma voz adverte-nos:

- Então que é isso?

Olhámos. Era o seleccionador Cândido de Oliveira!

- Vamos meter mais uma moeda para vermos o fim do filme… Já vimos o princípio…

- Vamos mas é embora! Estão todos à vossa espera. No regresso da Alemanha venham ver o resto…

- Não pode ser, senhor Cândido de Oliveira. Tem de ser agora… Para a semana mudam o programa…

- Pois sim, vamos embora e acabou-se o espectáculo.

Pronto! Acabou-se, mas foi uma pena. Estávamos interessadíssimos em ver como a fita acabava porque, a avaliar pelo que víamos nas ruas, nos cafés, nos táxis e nos cinemas - aqui é que é bonito! - não duvido de que o filme acabasse… bem!

Que o leitor vá a Paris e depois verá a dificuldade que terá em contar certas coisas no seu livro de memórias…»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 127 - 129

Memórias de Peyroteo (16)

(cont.)

 

« FRANÇA-PORTUGAL

Resultado: 3-2

Paris - 28-1-1940

 

Quando a equipa nacional partiu de Lisboa a caminho de Paris, em 24 de Janeiro de 1940, não se sabia, ao certo, quais os jogadores que alinhariam neste VI França-Portugal.

O Seleccionador Nacional, Cândido de Oliveira, só considerava “indiscutíveis” três jogadores: Azevedo, João Cruz e Peyroteo; ele próprio o afirmou no n.º 108 - página 18 - de “O Século Ilustrado”. Faço esta referência apenas para salientar que, naquele tempo, ser “indiscutível” na selecção portuguesa, não era qualquer coisa simples e sem valor, e ainda por ter conseguido o lugar à custa de muito trabalho, sacrifício, vontade, persistência e… muito suor. Sinto verdadeiro orgulho em afirmá-lo.

Cândido de Oliveira, conversando comigo acerca do jogo, disse-me:

- “Espírito Santo tem “cartel” em França e nós procuraremos, através da imprensa, chamar a atenção sobre ele. Suponho que assim e por isso, a atenção da defesa se fixará no Guilherme, de modo que tu ficarás com um pouco de folga, mas se esta táctica não resultar, entrará o Mourão. Quanto ao resto da equipa, veremos o que ditará o estado do terreno no dia do encontro, etc., etc.”

Os cálculos de Mestre Cândido de Oliveira saíram furados por que o Guilherme adoeceu.

Como sempre que era possível, ficámos os dois no mesmo quarto do hotel, e na noite da ante-véspera do jogo, o Guilherme começou a gemer; acordei e vendo-o a tremer de frio perguntei:

- “Que é isso, rapaz? Que tens tu?”

- “Estou cheio de frio e, certamente, com febre”.

Levantei-me de um salto e fui chamar o Dr. Virgílio Paula, dirigente federativo, “o homem da massa” e médico da equipa, o qual, observando o doente, diagnosticou um ataque de paludismo, e medicou convenientemente. Voltou ao seu quarto recomendando, no entanto, que voltasse a chamá-lo se o meu camarada e amigo continuasse com as tremuras.

Encontrei na mala do Guilherme uma camisola de lã encarnada - ou ele não fosse do Benfica - que lhe vesti; tirei da minha cama um forte cobertor e, com ele, reforcei os da cama do doente. Disse-lhe: Agora, amigo, vamos dormir que depois de amanhã há jogo. Respondeu-me: “Para mim não; estou liquidado. O Sr. Cândido, depois deste febrão todo, não me deixará jogar nem eu estarei em condições de o fazer”.

Com quanta tristeza, com que mágoa essas palavras foram pronunciadas! Sinceramente, tive pena do meu amigo. Durante a noite ainda fui tapá-lo duas ou três vezes ; suava por todos os poros e porque sentia calor, punha os pés de fora.

No dia seguinte, de manhã, acordou quase bem disposto mas fraco, debilitado pelos quarenta e um graus de febre. Levantou-se mais tarde e ao despir a camisola, notei que tinha o corpo todo encarnado. De princípio assustei-me, mas logo deduzi ser tinta da camisola que desbotou (bem se vê que não foi comprada na Casa Peyroteo!) Quanto à sua inclusão na equipa, o Guilherme não se enganou e compreende-se que assim fosse.

 

Os parisienses, entusiastas do futebol, viviam horas de emoção e expectativa, porque o VI França-Portugal despertara neles verdadeiro entusiasmo, e todos os jornais e revistas da especialidade faziam largas referências ao grande jogo a realizar no dia 28 de Janeiro de 1940. Onde estavam os jogadores portugueses encontrava-se, sempre, uma dúzia de jornalistas desportivos, fotógrafos e muitos curiosos. Em Paris, sim, todos sabiam da nossa presença, pediam-nos vaticínios sobre o resultado do jogo, tiravam-nos fotografias, solicitavam autógrafos e, à hora do almoço ou do jantar, lá estavam os fotógrafos com as provas para as vermos, escolhermos e… pagarmos, claro está!

No cinema, no Folies Bergère, no Casino de Paris, nos cafés, etc., quase toda a gente nos conhecia pelo grande grupo que formávamos e pelo “barulho” que fazíamos onde quer que chegássemos.

Antes e depois do jogo, os franceses foram de uma amabilidade cativante.

Chegou o dia do encontro. O Parque dos Príncipes - assim se denominava o Estádio parisiense - estava quase cheio e se não esgotou a lotação foi apenas por que as autoridades militares só permitiram a entrada a vinte ou vinte e duas mil pessoas. A França estava em guerra e receava-se um ataque aéreo; assim, quanto menos lá estivessem menos morreriam… Quer dizer: estivemos com as “bombas” por cima da cabeça sem de nada sabermos… Foi melhor assim e compreende-se bem porquê…

A nossa equipa entrou em campo dez minutos antes da hora marcada para início do jogo e recebeu uma grande ovação. O terreno estava horrível! Sentíamos os pitons das botas partirem a camada de gelo que se formara junto à relva… que quase não existia. Fazia um frio de rachar; frio que chegava até aos ossos, e nós com uma camisolinha de algodão mercerizado, com meia manga, branquinha como a neve que, aos montes, se via junto das pistas do campo. Fomos fotografados antes de entrarmos no rectângulo, foto que se reproduz nestas páginas. Repare* se bem em todos nós e, especialmente, no João Cruz e Albino, e veja-se se não estamos com caras de… três graus abaixo de zero!!!

Demos uns pontapés de ensaio para aquecer (seria possível?) e eu só pensava que, dentro de momentos, estaria três vezes em pé e quatro no chão… Pensava, por isso, na sensação “agradável” que sentiria quando, pela primeira vez, caísse de chapa sobre a água gelada que ficara no terreno depois dos pitons das botas quebrarem o gelo… Se alguém, fora do campo, pensou nessa hipótese, eu não fiquei em “hipóteses”; fui mesmo ao chão e quedei-me molhado e gelado…

Entra em campo a equipa francesa. Sobre os ombros trazem os jogadores uma capa de couro e, por baixo, uma camisola de lã - eu sei que era de lã porque, no final do prélio, troquei a minha pela do defesa francês Van Dooren.

Como nós, os franceses deram uns pontapés de ensaio e só quando formaram junto à tribuna para os habituais cumprimentos às entidades oficiais, é que se abeiraram da linha lateral e tiraram as capas com que se cobriam.

Começado o jogo, fora e dentro do campo, o entusiasmo era indescritível. Já ninguém sentia frio e, quanto a mim, o Van Dooren e o Jordan - defesas duros como ferro - encarregaram-se de me aquecer as costelas. E que bem eles o fizeram! De resto, também levaram a sua conta… Parece-me, até, que foi neste jogo que o Jordan levou uma “ombrada” tão insignificante que andou três metros para o lado, chocou com o árbitro, atirou-o ao chão e ele caiu também! O jogo prosseguiria - pois não houve falta - mas eu atirei a bola para fora e fui ajudar o árbitro a levantar-se e pedir-lhe desculpa do sucedido. Um aperto de mão entre os três protagonistas da cena e… vamos à luta.

O jogo prosseguia com bola cá, bola lá e foi numa dessas vezes de “bola cá” que sofremos o primeiro golo, havia 15 minutos. Foi o primeiro “calor” desde a nossa chegada a Paris. O segundo chegou aos 22 minutos e, portanto, 2-0!… A coisa prometia, mas a rapaziada lusitana, lutava, atirava-se aos franceses como gato a bofe - jogo duro, enérgico, viril mas correcto, não violento. Tivemos algumas “perdidas” mas não estávamos a jogar mal de todo e a prova é que a defesa francesa e o seu guarda* redes não estavam inactivos. E o intervalo chegou com o resultado de 2-0 contra nos.

Regressados à luta, nenhum lusitano pensava entregar-se porque se os adversários haviam feito 2 golos em 45 minutos, nós também poderíamos marcar dois tentos no mesmo espaço de tempo. Coragem, espírito de sacrifício, camaradagem, enfim, força de equipa não nos faltava. Mas ai que aos 34 ou 35 minutos sofremos terceiro golo! Perdidos nós, naquele momento? De maneira nenhuma! Lutar até ao apito final que é quando termina o jogo! Assim, aos 39 minutos, João Cruz recebe a bola, centra, Alberto Gomes capta-a, atira-a em profundidade e lá vou eu como um leão; luto com os dois defesas, levo a melhor, o remate parte e… golo de Portugal! Nada de cumprimentos, nada de abraços; continuamos a lutar porque não havia tempo a perder! Bola ao centro. Recomeçado o jogo o esférico chega ao Azevedo que o segura bem, corre, atira-o para um seu companheiro, vai de uns para os outros, chega aos meus pés, entro em corrida desenfreada para a baliza; trambulha um defesa francês, o outro nem tempo tem de me acompanhar, parte o remate com quanta força eu tinha e a bola embrulha-se nas redes: Go-o-o-o-lo de Portugal!

Foi o delírio. O público levantou-se como que impelido por uma mola; aplaude os portugueses, grita; estava francamente conosco. A equipa lusitana mandava rio terreno e a bola girava de uns para os outros sem os adversários lhe tocarem, mas a defesa francesa sabia do seu ofício e não era para brincadeiras! Atirava-se como doida e nós atacávamos em força, dentes cerrados. Embaraçada, receosa, vendo fugir-lhes a vitória com que já contavam, a defesa gaulesa começou a “queimar” tempo atirando a bola para fora. Nós íamos buscá-la, a correr, fazíamos os lançamentos sem perda de tempo e o público, compreensivo, aplaudia-nos, dava palmas, acenava, gritava incitando-nos.

 

Os minutos passaram e soou o apito para o final da “peleja”, como dizem os nossos irmãos brasileiros. Mais cinco minutos e sairíamos vencedores, estou certo disso.

Os jogadores franceses vêm ao nosso encontro, abraçam-nos e felicitam-nos. Van Dooren dá-me um grande abraço e pede para trocarmos as camisolas; dei-lhe a minha e tapei-me com a dele.

Jordan, - o outro defesa - abraça-me também. O público, de pé aplaude ainda, delira. Tinha assistido a um grande desafio de futebol e à nossa brilhante recuperação.

Perdemos, é certo, mas saímos do rectângulo de cabeça erguida, com a consoladora certeza do dever cumprido. A equipa portuguesa foi uma grande e boa equipa de futebol. Com terreno encharcado, temperatura a vários graus negativos, perder fora de casa pela diferença mínima, em jogo com a poderosa equipa da França, foi um bom resultado. Quem me dera que, à falta de melhor, assim pudesse ser sempre…!

 

Já falei da equipa. Quanto a mim, transcrevo algumas opiniões sobre a minha actuação que, aliás, teve reflexo pelo tempo adiante, na minha carreira desportiva:

Jornal “República” de 29-1-940:

“Peyroteo esteve ontem fortemente vigiado, mas, se pudéssemos ter o milagre de cinco avançados com as características do avançado-centro nacional, outro galo cantaria ao futebol cá da terra.”

Jornal parisiense “L’Auto”, de 29-1-940-por Lucien Gamblin, antigo capitão da equipa nacional francesa de futebol, agora jornalista desportivo e técnico de futebol:

“Du côté portugais, on eut plaisir à suivre les evolutions faciles de l’ailier droit Mourão qui avait la lourde tâche de remplacer Santo, le travail de Tarrière Pereira promu demi-centre, le l’arrière Simões, et surtout de l’athétique avant-centre Peyroteo, footballeur de grande classe qui ne s’avoue jamais battu et marqua les deux buts réussis par son équipe.”

“Diário de Lisboa” de 13-2-40, por Tavares da Silva:

“… Ao que parece, o mal é geral. Lemos outro dia acerca do desafio entre os exércitos da Inglaterra e da França que aqueles dominaram em todo o encontro, verificando-se o empate, por causa da ineficácia do seu sistema. Nós, a julgarmos, que os ingleses eram os mestres incontestados do “foot-ball”, superiores em todos os aspectos, os melhores do Mundo, e afinal sucede apenas isto: Peyroteo, o nosso famoso jogador, fez falta no “team” do exército de Inglaterra…”

Do jornal “Diário de Notícias” de 13-2-940:

Faltou um Peyroteo aos ingleses, diz a crítica do encontro França-Inglaterra, ontem disputado em Paris e que terminou empatado a uma bola:

“Paris, 11 - No conjunto o “foot-ball” britânico falhou, mais uma vez, junto às redes. Nas “blocagens” da bola, nas marcações dos jogadores e no jogo raso, os ingleses foram maravilhosos no meio campo, mas diante das redes faltou-lhes precisão e iniciativa no remate. Se contassem entre os seus avançados um Peyroteo o resultado poderia ter sido diferente. (E. T.).”»

 

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 120 - 126

Memórias de Peyroteo (15)

(cont.)

 

« O DIONÍSIO FOI BUSCAR LÃ E… VEIO TOSQUIADO!!!

 

Por ter relação com a minha primeira internacionalização, parece-me ser este o lugar apropriado para colocar o curioso episódio que vou contar.

O saudoso Dionísio Hipólito foi, como já ficou dito, o massagista, da Selecção Nacional de Futebol que jogou na Alemanha e Itália. Também ele estava interessado em saber qual de nós - eu ou o Espírito Santo - ocuparia o posto de avançado-centro no encontro de Frankfurt. Por isso nos dizia a cada passo: - “Vocês vão ver como hei-de ser eu o primeiro a saber qual de vocês joga… Tenho cá os meus “planos”. Amanhã conversaremos”.

Desconhecíamos quais eram esses “planos” do Dionísio, mas tanto eu como o Guilherme não acreditávamos muito na hipótese do nosso massagista vir a saber algo de positivo sobre o assunto. No entanto, podia ser que ele tivesse as suas razões.

Sexta-feira; na sala de entrada do Hotel “Excelsior”, em Frankfurt, estava eu, o Guilherme, mais dois ou três jogadores e Cândido de Oliveira - que se encontrava um tanto desviado de todos, sentado à secretária escrevendo qualquer coisa. De repente entra o Dionísio, olha para mim e Espírito Santo, chama-nos e diz-nos: - “Agora é que é a ocasião de atacar o “homem”… Vou falar ao Cândido e Vocês vão ver como ele me dirá quem joga depois de amanhã”. Veja lá o que vai fazer, dissemos-lhe! Mas o Dionísio, muito senhor do seu “plano de ataque”, respondeu: - “Não se apoquentem ; a minha ideia vai dar resultado, essa lhes garanto eu; já sou rata velha II!”- E pode saber-se qual é a “táctica” que vai empregar para “levar no rol” o Sr. Cândido? O Dionísio, em surdina, disse: - “O plano é este: Tenho que massajar os jogadores, mas só os que jogarem… porque os suplentes não precisam, e assim terei menos trabalho. Portanto, perguntando ao Cândido quais são os jogadores que devo massajar, ele dirá: fulano, beltrano e tal… e eu fico a saber quem jogará no domingo!!!” Veja se os seus cálculos lhe saem furados, retorquimos… - “E- garantido, vocês vão ver” - afirmou o Dionísio, e dirigiu-se ao nosso Seleccionador.

A conversa entre Cândido de Oliveira e o massagista não demorou mais do que dois minutos. Mais vermelho do que a camisola do seu clube - o Benfica, claro - veio o Dionísio ter comigo e com o Guilherme e contou-nos o resultado da conversa:

- “Por esta é que eu não esperava!!! Que grande maroto me saiu o Cândido… Estou aqui pior do que uma fera!” - Conte lá, conte lá o que lhe respondeu o nosso Mestre… E o Dionísio, coçando os poucos cabelos que lhe restavam, disse:

- “Fiz-lhe a pergunta: quais os jogadores que devo massajar, Sr. Cândido de Oliveira, para o jogo de domingo, e ele respondeu-me apenas isto: “Massaje todos, porque todos são jogadores da equipa…

Entre estrondosas gargalhadas, o Dionísio ainda teve forças para dizer: “E o pior de tudo é que tenho mesmo que tratar de todos…

Cândido de Oliveira, do cantinho da sala onde se encontrava, olhava-nos e sorria maliciosamente…

E o Dionísio massajou todos os jogadores da equipa, incluindo os suplentes…»

 

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 119- 120

Memórias de Peyroteo (14)

(cont.)

 

« PRIMEIRA INTERNACIONALIZAÇÃO

O Manuel Soeiro era, ao tempo, um magnifico avançado-centro mas, com a sua passagem para o lugar de interior direito, ocupei, definitivamente, digamos, o eixo do ataque dos “leões”.

Lutei, esforcei-me, trabalhei muito, mas não desejava, de modo algum, prejudicar fosse quem fosse, “destronar” ou “desbancar” este ou aquele jogador e, por isso, regozijei-me com o facto de o Soeiro actuar com tanto acerto que alguns críticos chegaram a afirmar ser ele melhor jogador a interior do que fora no lugar de avançado-centro.

Vencido o primeiro obstáculo - luta que muita tinta fez gastar aos jornalistas da especialidade e esgotou a saliva aos adeptos do futebol, mormente aos simpatizantes do Soeiro e de Peyroteo - a luta continuou…

Lembram-se daquelas tardes em que o Guilherme Espírito Santo, só por si, constituía um magnifico espectáculo de futebol? Que fino jogo, pensado, inteligente; que subtileza, que arte! Dava gosto ver, no campo, este excelente jogador, bom camarada e um dos meus melhores amigos - que o é ainda hoje.

Pois bem; era no Guilherme que eu tinha os olhos postos ou, melhor dizendo, no avançado-centro da Selecção Nacional. Neste ponto creio estarmos todos de acordo e não se pode levar a mal que se trabalhe afincadamente para este fim: o futebolista inicia a sua carreira e logo começa a pensar na primeira equipa; uma vez conseguido o seu objectivo, toma alento e trabalha para merecer a honra de vestir a camisola da Selecção Nacional. Nisto não há deslealdade. Portanto eu, como qualquer outro, com lugar firme na primeira equipa do Sporting, trabalhei para chegar ao grupo do País. Era natural.

Estávamos em Fevereiro de 1938 e falava-se já no Campeonato do Mundo de Futebol, ao qual Portugal concorreria. Entretanto, como jogo preparatório, chamemos-lhe assim, os dirigentes do nosso futebol combinaram um encontro entre as selecções da Alemanha e Portugal, a realizar em Frankfurt.

Certa manhã, ao entrar no eléctrico que me levaria ao Campo Grande para treinar, vi o senhor Sezabo, que veio sentar-se a meu lado. Pediu-me, para ver, a Revista “Stadium” que eu trazia na mão; ao reparar na minha fotografia a toda a altura da primeira página, exclamou:

- “Cárágo ; Fernando ter de comprar muitos jornais dê estes para mandar seu família que estar a África!…”

Achei graça ao conselho e pedi-lhe para ler o que estava escrito ao lado da foto:

- “Peyroteo, o homem das 19 bolas das “Ligas”, aguerrido e indomável, cuja candidatura à turma nacional, ganha domingo a domingo, maior consistência”.

Mestre Sezabo leu, olhou muito sério para mim e disse:

- “Natural, sinhor Fernando! Não cortar prego, sinhor. Se dedicar-se a “treining” e ouvir bem meus palavras, garantir para sinhor ir Selecção. Não envaidecer, Fernando! Trabaiar com vontade, sacrificar-se e ir ver não ser nada difícil”.

Receoso, sentindo um abismo entre mim e o Guilherme, perguntei:

- “E o Espírito Santo, “Mister”, que bom jogador ele é”?

- “Cárágo, Férnando, não dizer um coisa dê isso. Sinhor ser africano, não cortar prego. Espírito Santo ter dois pernas como Férnando! Continuar ouvir meus bons palavras e ir ver qui bem ficar-se!…”

Conforme os dias iam passando, os treinos eram intensificados até que, certa manhã, recebi um postal do Sporting convocando-me para o treino da Selecção Nacional, pois assim o havia comunicado a Federação ao meu Clube. Acredite-se que julguei tratar-se de uma brincadeira e, sem perda de tempo, fui à Sede, onde obtive a confirmação de que se tratava, na verdade, de uma ordem do seleccionador Cândido de Oliveira.

Não me recordo se dormi bem na véspera do treino, mas sei que a “comoção” me provocou um desarranjo intestinal, pormenor que não esqueci porque, quando cheguei ao campo, no dia do primeiro treino, apressei-me a comunicar o facto ao seleccionador, pois gostaria de atribuir à doença dos intestinos as asneiras que porventura fizesse - e fiz muitas! - Sempre era uma desculpa, até certo ponto aceitável…

Treinei dessa vez, tornei a ser chamado, até que do Sporting me pediram as fotografias para o passaporte, mas não se julgue que, mesmo assim, acreditei fazer parte da caravana que se deslocaria a Frankfurt. É que até à última hora podia ser substituído…

 

O “Sud-Express” abalou da Estação do Rossio levando consigo a Equipa Nacional de Futebol da qual, graças a Deus, eu fazia parte. Como efectivo? Como suplente? Nesse momento o que importava era estar incluído no lote dos que seguiam a caminho de Paris, dali para Frankfurt e, seguidamente, para Milão - Itália - onde defrontaríamos a Suíça, em jogo a contar para o Campeonato do Mundo.

Desse alegre conjunto de rapazes fazia parte, também, o Guilherme Espírito Santo, mas nem ele nem eu sabíamos qual de nós jogaria na Alemanha e na Itália.

Logo que o comboio se pôs em andamento, fomos, ambos, pedir ao Sr. Capitão Maia Loureiro - comandante da caravana – para nos destinar o mesmo compartimento, no que fomos atendidos. Ao ver as duas camas, uma por cima da outra, o Guilherme “determinou” que o lugar superior seria ocupado por ele, justificando-se deste modo:

- “Tu ficas cá em baixo, não vá partir-se este zangarelho que segura a cama e eu ficar esborrachado com esses 80 quilos bem pesados!…

Concordei e dei-lhe esta resposta: Acho bem, mas recomendo-te cuidado, porque como tu és um grande dorminhoco, se não acordares quando chegarmos a Paris, eu não te chamo ; ficas para aí a ressonar, perdes a ligação do comboio para a Alemanha e, então, quem joga sou eu!… Vê lá o sarilho que arranjas…

Raramente trocámos impressões a sério, se jogaria eu ou ele; falámos, sim, acerca da responsabilidade dos jogos que a Selecção Nacional ia fazer e brincávamos em diálogos deste género:

- “Estou com um medo que me escolham para jogar que nem calculas… Dizem que os alemães não são para brincadeiras; são duros como pedras! É melhor jogares tu porque tens mais físico para comeres do coco…

- “Olha para ele! Vais lá tu que te esquivas melhor; até consegues passar entre os pingos da chuva sem te molhares… Eu sou mais gordo, sou melhor alvo…”

- “Pois é, mas se me apanham uma vez que seja, não tenho os ossos numerados e arrumam-me de uma vez para sempre!”

Os restantes companheiros eram uns marotos, como se pode ver por estas gracinhas:

- “Estes dois andam tão juntinhos que até parecem um só, mas a verdade é que estão ambos com vontade de se envenenarem um ao outro, para jogar na Alemanha o que ficar vivo!…

Se ao jantar ou ao almoço, no comboio, o Guilherme, por gentileza, me servia o vinho, logo alguém comentava:

- “Isso, isso, dá-lhe vinho, embebeda-o, dá cabo dele, porque só assim é que jogas tu…

Era um nunca acabar de piadas e graças que aceitávamos sem melindre porque, na verdade, todos éramos amigos.

Entre os “indiscutíveis” da equipa, as opiniões dividiam-se quanto a jogar eu ou o Espírito Santo, embora todos viessem a aceitar de bom grado um ou outro. Mas, nenhum jogador sabia, ao certo, qual de nós alinharia contra a Alemanha, e estou mesmo em crer que, quando ainda em viagem, nem o próprio seleccionador nacional, meu amigo e senhor Cândido de Oliveira, tinha absolutamente formada opinião de utilizar o benfiquista ou o sportinguista.

No dia seguinte ao da nossa chegada a Frankfurt, fizemos um pequeno treino no rectângulo onde se realizaria o jogo com a Alemanha e eu alinhei a avançado-centro. Seria indício de que estaria resolvida a minha inclusão na equipa? Mestre Cândido já teria decidido? Ninguém se atrevia a afirmá-lo e muito menos a perguntar ao seleccionador.

Depois do treino, ao comentarmos o facto de ter ocupado o lugar de avançado-centro, o Guilherme afirmava, com toda a convicção, que eu jogaria contra a Alemanha. Que saberia ele para falar assim? Teria ouvido alguma conversa com Mestre Cândido de Oliveira? Não, nada disso. Espírito Santo é um rapaz inteligente e educado, bom desportista e conhecedor dos problemas do futebol. Entendia que, considerando o poder atlético da defesa alemã, eu estava mais indicado para jogar e, em reforço da sua opinião, formulou várias considerações justificativas do seu ponto de vista, donde se conclui, que acima dos seus interesses pessoais, o Guilherme colocou os da Selecção Nacional. Aparte ser leal e bom camarada, Guilherme Espírito Santo possui qualidades de carácter que fizeram dele um desportista como poucos. Ele sabe que desporto é, antes de mais nada, competir e não triunfar. E como se tudo quanto disse não fosse suficiente para demonstrar, de maneira iniludível, a sua lealdade e camaradagem, o Guilherme, na cabine, antes do início do jogo, esteve sempre - mas sempre! - junto de mim, dando-me conselhos, animando-me, procurando, por todas as formas, afastar do meu espírito a preocupação e o receio que me dominavam. As suas palavras amigas tinham para mim tanto valor quanto eu acreditava na sua sinceridade, e sentia-me feliz por verificar que encontrara no meu rival o carinho e amizade tão necessários àqueles que vão fazer o seu primeiro jogo internacional. Ele, o meu rival, aquele que perderia para sempre o posto que conquistara, sem favores de ninguém, na Selecção Nacional, foi esse magnífico atleta, aprumado, leal e correcto quem procurou ajudar-me *a conquistar o lugar que até então lhe pertencia! Era de homens assim que o desporto português precisava às mãos cheias…

E no intervalo do encontro, lá estava ele, junto de mim, incitando-me a fazer mais e melhor. É certo que Cândido de Oliveira me dispensou toda a sua atenção e deu preciosíssimas indicações e conselhos; os companheiros de equipa muito me ajudaram mas, para mim, aquele que mais me impressionou e a quem prestava mais atenção - excluindo o seleccionador, claro está - era ao Guilherme.

Até ao momento em que o seleccionador mandou reunir todos os jogadores para lhes indicar a táctica a adoptar - e isso aconteceu, no hotel, poucas horas antes do início do jogo - ninguém sabia se o posto de avançado-centro seria ocupado pelo Espírito Santo, se por mim e posso, talvez, afirmar que, até esse momento, o seleccionador hesitou na escolha. Ora vejamos:

Pouco antes de nos reunir, Cândido de Oliveira “auscultou” o capitão da equipa, Gustavo Teixeira, perguntando-lhe quem, em sua opinião, deveria jogar no eixo do ataque português contra a equipa alemã, e Gustavo Teixeira disse que, em seu entender, nesse jogo, deveria alinhar o Peyroteo. Não ouvi a conversa; foi o saudoso Dionísio Hipólito, nosso massagista, quem me contou o que acabo de referir.

Prova-se assim que, mais uma vez, Mestre Cândido de Oliveira não se arvorou em senhor absoluto de ideias e saber, preferindo conhecer a opinião do capitão da equipa - homem bom conhecedor das coisas da bola e tão honesto que, pondo de parte o seu “benfiquismo” - optava pela inclusão de um “leão” na equipa Nacional.

A expectativa arrazou-me os nervos e sabe Deus em que estado de espírito fui para o campo! Desta vez não “desarranjei” os intestinos, mas sentia-me mais cansado antes do jogo do que depois de ele terminado. Mais me apetecia ficar na cabine, acredite se! Era o meu primeiro jogo internacional e poderia vir a ser o último, pelo menos durante algum tempo…

Entrei no campo; as pernas tremiam, procurava reagir mas em vão. Sessenta mil pessoas saudaram, com o maior entusiasmo, a entrada da equipa portuguesa. A banda de música tocou o nosso Hino Nacional mas muito mal, como quase sempre acontece no estrangeiro - a compasso de marcha fúnebre e não alegre, vivo, empolgante, bonito como ele é. Mesmo assim, ouvir, lá fora, o Hino da nossa querida Pátria, tem um sabor diferente; lembra-nos a nossa terra, a terra portuguesa. Ao mesmo tempo que, ao ouvi-lo, nos comovemos, dá-nos. coragem para lutar até ao limite das nossas forças.

Seguidamente, a banda tocou o Hino Alemão. Foi o fim do Mundo I As mesmas sessenta mil pessoas, de pé, cantaram tão afinadas como se fosse um orfeão ensaiado! Que maravilhoso espectáculo! Que pequeninos nos sentimos nós - aquela dúzia de portugueses! É verdadeiramente impressionante e… enervante. Faz-nos pensar que esses mesmos homens e mulheres que agora cantam, dentro de momentos gritarão incitando a equipa da sua Pátria. Mas, ao contrário do que se possa supor, uma vez o jogo iniciado, tudo passa; quase não os ouvimos, embora façam muito barulho, porque o jogo, em si, domina-nos por completo, e a vontade de bem cumprir o nosso dever, faz-nos olvidar, quase por completo, o que se passa fora do rectângulo. De resto, manda a verdade dizer que os alemães tanto se manifestaram a favor dos seus compatriotas como aplaudiram os portugueses, assim uns e outros fossem merecedores de aplauso. Povo correcto e desportista, tributou à equipa portuguesa a maior ovação que me foi dado ouvir em todos os jogos em que tomei parte, quer no estrangeiro, quer, mesmo, em Portugal.

Assim que o encontro começou, como por encanto, senti-me com força suficiente para “tragar” quantos adversários se me deparassem ; nada de nervos ou medo! Apenas o peso da responsabilidade e confiança que o seleccionador depositara em mim, estavam em causa. Havia, portanto, que corresponder a essa confiança. Lutei quanto me foi possível e se mais não fiz, foi unicamente porque a defesa alemã não deixou. Travei com ela uma luta feroz!… Eram umas verdadeiras torres de Belém. Duros, enérgicos mas correctos e leais adversários.

Neste jogo, a equipa alemã não foi superior à nossa; jogámos de igual para igual, tanto sob o ponto de vista técnico como táctico, porque o nosso “team” dispunha de bons elementos, tão bons como os melhores do conjunto adversário: Pinga, Albino - que grande jogo ele fez! - Azevedo, Gustavo Teixeira, Mourão, João Cruz, Soeiro, Pireza, Simões, Amaro, Carlos Pereira e Madueño, formavam um lote de jogadores de categoria. Quem não se lembrará deles e… com saudade?

Portugal foi o primeiro a marcar e ouvimos tão vibrante e entusiástica ovação que nos pareceu estarmos a jogar na nossa terra. Se no Estádio Nacional marcássemos um golo que ditasse a nossa vitória contra a Espanha, a ovação não seria maior! Os entusiastas alemães aplaudiram-nos como se da sua equipa se tratasse. Honra lhes seja feita.

 

Resumindo: Em Frankfurt a equipa nacional portuguesa fez um dos seus melhores jogos de sempre - pelo menos enquanto eu joguei.

No que respeita ao meu primeiro jogo internacional, penso que não joguei nem muito bem nem muito mal, e creio que a minha actuação não comprometeu a equipa portuguesa; tanto assim é que, no jogo seguinte contra a Suíça, em Milão, a contar para o Campeonato do Mundo, voltei a ocupar o posto de avançado-centro.

Não quero terminar este apontamento sobre o Alemanha-Portugal sem dizer que o povo alemão recebeu a Selecção Nacional Portuguesa, em Frankfurt, como nenhum outro em qualquer parte do Mundo onde se exibiu a equipa das quinas. De uma maneira geral, nas estações e aeroportos, esperavam a nossa equipa dois, três ou quatro dirigentes, uns da Federação e outros, talvez, da Comissão de Recepção, e uns tantos curiosos… Em Frankfurt esperavam-nos na estação de caminho de ferro, além de uma dezena de dirigentes do futebol, alguns milhares de pessoas duma amabilidade extraordinária; simpáticos, cumulando-nos de atenções e isto não só no dia da chegada como durante todo o tempo em que estivemos na Alemanha. Onde quer que estivéssemos ou chegássemos, sempre nos apareciam meia dúzia de alemães dispostos a pagar a cerveja que bebíamos e as magníficas salsichas de… Frankfurt. Tudo isto - é bom acentuar! - nos dias em que podíamos comer e beber, embora, assim mesmo, com conta, peso e medida, não vá supor-se que na antevéspera do jogo à rapaziada eram permitidos tais devaneios (…como se isso fosse possível suceder sob as vistas de dirigentes disciplinados e disciplinadores como o Cap. Maia de Loureiro e Cândido de Oliveira; onde estava a equipa lá estavam eles…)

Como último apontamento a realçar a gentileza alemã, lembro-me de que, na véspera da partida da equipa nacional a caminho da Itália, estivemos, à noite, num grande “restaurant-dancing” de Frankfurt, onde assinámos centenas de autógrafos, comemos e bebemos, e quando nos preparávamos para seguir para o hotel pedimos a conta. Um criado, muito cortês e simpático, disse… em francês:

- “Muito obrigado pela vossa amável Visita; está tudo pago”.

Como não fizera despesa, resolvi gastar os marcos que tinha na algibeira comprando umas lindas caixas de bons cigarros…

Alegres e contentes, saímos do restaurante ao som de vivas a Portugal! E como nunca é tarde para agradecer, aqui estou a enviar um abraço de gratidão e reconhecimento a todos aqueles - desportistas ou não - que em Frankfurt tão amáveis foram para com os componentes da Selecção Portuguesa de Futebol que ali jogou em 24 de Abril de 1938. A última Grande Guerra vitimou, decerto e infelizmente, muitos daqueles que nos acarinharam. PAZ às suas almas.»

 

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 112-119

Memórias de Peyroteo (13)

(cont.)

 

« Em quase treze anos consecutivos tomei parte em centenas de jogos e marquei muitos golos pela equipa do Sporting e pela Selecção Nacional. O leitor curioso ou admirador de estatísticas, encontrará nos mapas que elaborei, os números que atestam o resultado de tantos anos em contacto permanente com a bola. Foram tantos os jogos (os golos em maior número) que não é possível., falar de todos eles. Recordarei, apenas, os que, em meu entender, merecem referência especial, entre os quais, claro está, se encontram os jogos internacionais. Vamos, a eles, portanto.

 

Os meus apontamentos - que poderão não ser exactos, diga-se desde já - registam como primeiro encontro internacional, o desafio Espanha-Portugal disputado em Madrid a 18 de Dezembro de 1921, e que foi, também, a nossa primeira derrota (3-1). A lista fecha com o 95.° jogo - Portugal - Hungria, disputado em Lisboa, e que empatamos por 2-2. Pela análise de tais apontamentos, concluiremos, na sua frieza confrangedora, pela pouca valia do futebol português, quando em confronto com as selecções de alguns países. E se não vejamos:

Em 87 jogos sofremos 46 derrotas, obtivemos 17 empates e conseguimos ganhar 24, o que representa 28% de vitórias nos 87 encontros disputados.

Ainda que pese ao nosso orgulho, temos de concordar que é muito pouco, não me escusando sequer a esclarecer que tomei parte em 20 desses jogos internacionais, tendo sofrido 9 derrotas, 5 empates e ajudado a conquistar 6 vitórias…»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). p. 111

Memórias de Peyroteo (12)

(cont.)

 

«SOMA E… SEGUE

 

Pode dizer-se que foi depois do primeiro jogo oficial que começou, verdadeiramente, a minha carreira futebolística como avançado-centro do Sporting Clube de Portugal. Os primeiros treinos de conjunto, os jogos preparatórios que antecedem os campeonatos são em número suficiente para darem ao estreante um conhecimento tanto quanto possível exacto das qualidades e defeitos dos seus companheiros de equipa, ao mesmo tempo que estes se identificam com as tendências, qualidades e defeitos do estreante.

Sendo eu novato, as dificuldades estavam mais do meu lado do que dos restantes elementos da equipa, que já se entendiam perfeitamente, ao passo que o “novel avançado-centro” nem a si próprio se conhecia tanto quanto seria necessário para se enquadrar no conjunto sem alterar ou prejudicar o trabalho daqueles que, anterior- mente à sua inclusão, formavam uma equipa homogénea, possuidora de um padrão de jogo valioso, baseado em esquemas de jogadas estudadas e postas em prática durante anos consecutivos, e na variedade de tácticas adoptadas consoante a maneira de jogar dos adversários, também já deles conhecidos.

Para mim tudo era novo, desde a responsabilidade inerente ao desempenho do lugar de avançado-centro numa das nossas melhores equipas de futebol, até ao cuidado de actuar de modo a não prejudicar o bom rendimento individual dos meus companheiros. A todo o custo procurei evitar que a minha inclusão na equipa fizesse baixar a eficiência e o nível técnico do conjunto, e se é certo que nem sempre consegui o meu objectivo, não posso deixar dê dizer, por ser verdade, que pouco tempo foi necessário para -desempenhar a minha tarefa a contento de todos quantos directamente estavam ligados à equipa.

Com dificuldades? Sem dúvida! Quem as não teria í Mas estudei e trabalhei muito para as vencer! A par dos ensinamentos do treinador, sempre que se deparava ocasião propícia, conversava com os meus colegas acerca dos motivos por que se adoptara este ou aquele processo táctico, trocávamos impressões sobre a maneira de jogar dos nossos próximos adversários, estudávamos a melhor forma de os “bater” ou “anular”, enfim, procurei “instruir-me”, pedindo conselhos àqueles que sabiam mais do que eu, os quais, sempre de boa vontade, me ajudaram a levar de vencida as dificuldades que experimentei.

O Soeiro, o Mourão, Pireza, João Cruz, Rui Araújo, Aníbal Paciência, Jurado e mais tarde Armando Ferreira, estes foram os companheiros que, no princípio, mais directamente me auxiliaram. Citar os seus nomes é expressar-lhes a minha gratidão e reconhecimento pela leal amizade e camaradagem de que sempre deram as melhores provas, e acredite-se que, infelizmente, não é vulgar encontrar-se, numa só equipa, tão elevado número de sinceros, leais e bons camaradas.

Um facto que considero ter influído muito no êxito da minha vida desportiva, foi o de me interessar mais pelos adversários do que, propriamente, com os problemas relacionados com os jogadores da equipa de que fazia parte. Todos nós sabemos que o valor de um “team” de futebol não é mais do que o resultado do valor individual dos jogadores que o compõem; boas equipas sem bons jogadores, parece-me que não existem. Daí a minha atenção incidir mais sobre o valor individual do jogador ou jogadores com quem teria de lutar por virtude da nossa colocação no terreno, do que sobre a força global da equipa adversária, e isto porque cada jogador tem uma tarefa a desempenhar. Ora, mercê do estudo profundo que sempre fiz dos meus mais directos adversários, procurando conhecer os seus pontos fracos, muitas vezes os contrariei de modo a não permitir que dessem às suas equipas a colaboração que eles próprios e os seus treinadores esperavam e, com isso, não só cumpri melhor a minha missão, como prejudiquei um tanto o plano táctico da defesa contrária.

Mestre Sezabo, na sua inconfundível linguagem, expressava-se assim: “cada, cada, sinhores”, o que significava “cada um ao seu adversário”.

Os treinadores competentes, conhecedores, portanto, dos segredos do futebol, ao imporem aos seus pupilos a táctica a utilizar neste ou naquele encontro, não deixam de lembrar, também, que o estudo desse processo de jogo foi baseado, claro está, na habitual maneira de agir do antagonista. Ora, no decorrer do jogo tudo se poderá passar de modo diferente, pelo que os jogadores devem estar à altura de mudar de táctica se as circunstâncias de momento o aconselharem. Assim, se os seus pupilos, por sua vez, se entregarem ao estudo das tácticas do jogo e das características dos jogadores adversários, as dificuldades serão altamente atenuadas e o trabalho do treinador completa-se. Muitas vezes, com inteligência e saber, a nossa equipa foi buscar forças às fraquezas dos adversários e, quanto a mim, temos nestas simples considerações a explicação de muitas vitórias do “team” do Sporting, quando eu jogava no eixo do seu ataque: todos nós trabalhávamos com o corpo, com o cérebro e com a alma:

Corpo: - Persistência física, adquirida nos treinos intensivos a que nos submetíamos;

Cérebro; - Ouvir, compreender, interpretar e cumprir as instruções do treinador, além do estudo que fazíamos para bem conhecermos os nossos antagonistas;

Alma: - Vontade, abnegação, espírito de luta, orgulho, amor-próprio (brio), dignidade desportiva, respeito pela camisola que vestíamos.

Voluntariamente amarrado a esses princípios, fiz todo o possível por não os esquecer até final da minha carreira de futebolista. E tê-lo-ia conseguido? Suponho que sim, descontando-se, claro está, pequenas faltas cometidas e que são, afinal, próprias dos… homens.

Mas voltemos aos meus adversários…

Ao começar um jogo contra equipa mais ou menos estranha, a minha preocupação era a de experimentar o defesa que me cabia defrontar. Seria ele dos tais que me acompanhariam até fora do rectângulo se, no decorrer do encontro, me apetecesse beber uma laranjada no “bufete” do campo? Seria rápido na antecipação? Saltaria bem na disputa da bola pelo ar? Teria dois bons pés, ou um melhor do que o outro? Seria dos que fecha os olhos quando vai à bola? Jogará em subtileza ou em força?

Lutava com ele procurando “descobri-lo”, conhecê-lo e tentava explorar as suas fraquezas possíveis, sistema este que, por não se me afigurar mau, segui enquanto joguei futebol. Foi-me útil, e não só a mim como também aos meus companheiros de equipa, que, por seu lado, procediam de igual modo.

Resumindo; eu estudava o adversário ou adversários que me “guardavam” e a táctica de jogo da equipa, observando, também, a manobra dos outros jogadores quando em luta com os meus companheiros ; estes, necessariamente, faziam o mesmo relativamente ao que se passava comigo e com os meus opositores. Deste conjunto de circunstâncias resultava um melhor entendimento entre todos os sectores da nossa equipa e uma maior possibilidade de se jogar bem. Acentue-se, no entanto, que não é fácil, em dois ou três jogos, ficarmos a conhecer bem um jogador de futebol, quando ele, claro está, possui boa classe, sendo, até, possível nunca chegarmos a entendê-lo nas suas qualidades e defeitos. Mas essa verdade não deixa, por isso, de ser arma aproveitável para o jogador que com ele tiver de lutar. É de grande classe o nosso adversário? Pior para o desempenho da nossa tarefa. Há, então, que pôr na luta todas as nossas forças, de inteligência e saber, tentando ganhar alguns lances o que, com maior ou menor dificuldade, sempre se consegue. A questão está, depois, no aproveitamento desses deslizes do antagonista, que são, muitas vezes, mais provocados do que consentidos. Não esqueçamos que um e outro podem muito bem ser jogadores de classe semelhante…

Mesmo depois da minha longa carreira futebolística, reconheço não ter conseguido aprender tudo; muito ficou por saber! Ao contrário do que muita gente possa pensar, o futebol é um jogo difícil, como difícil é, também, conhecê-lo sob o ponto de vista técnico e táctico.»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 108- 111

Memórias de Peyroteo (11)

(cont.)

 

«MUITO OBRIGADO, “MISTER” SEZABO!

 

Para iniciar a minha carreira desportiva no Sporting Clube de Portugal, fui entregue, como já se sabe, aos cuidados do grande treinador que é José Sezabo.

Tal como acontece a todos os futebolistas no momento do primeiro contacto com o Mestre, ouvi a sua prelecção habitual:

- “O senhor, para mim, quando entra em campo a fim de jogar futebol, não é o Peyroteo mas sim o número 9. Claro está que seria despropositado chamar: ó n.º 9! Não estamos na tropa, a chamar os magalas pelo seu número, mas, quando estamos a trabalhar, não interessam os nomes mas apenas os jogadores, o que eles fazem, como treinam e como jogam. Aqui não há amizades! Que me importa que o senhor se chame Peyroteo, se não jogar nada? O nome não conta, o que conta é o jogo, o seu interesse e respeito pela camisola que veste, a amizade com os camaradas da equipa, respeito pelo público e pelo adversário. O nome de cada um não tem valor quando não há bom jogo. Será melhor não ter nome e jogar bom futebol…”

Mestre José Sezabo repetia estas suas considerações sempre que algum dos seus pupilos - geralmente o Manuel Marques, mais conhecido pelo “Manecas” - dizia prever dificuldades porque o adversário à sua guarda se chamava fulano ou beltrano.

O Mestre, servindo-se do seu mau português mas dos seus profundos conhecimentos do futebol, dizia:

- “Sinhor Monecas, não brincar. Nem quê jogue Sinhor Presidente! Sinhor Monecas tem quê ir! Não dizer um coisa dê isso. Nome dê gajo não interessar; jogar bem, sinhor Monecas, jogar bem e ver como méter advérsário na algibeira dê colete. Espérteza, sinhor Monecas, sempre espérteza!”

Ora os treinos começavam às 8 da manhã mas, às 7,45, já toda a rapaziada devia estar equipada, em condições de entrar no rectângulo e a essa hora, Mestre Sezabo, de fato de treino e de boina na cabeça, devidamente equipado enfim, chegava à nossa cabine, pegava no apito que trazia pendurado ao pescoço, suspenso por um cordel bastante sujo, aliás, dava três estridentes apitadelas e exclamava:

- “Bom dia, sinhores. Vamos trabaiar. Qui está está ; qui non está non está e dar-se dez-per-cente para ele…”

Este “dar-se dez-per-cente”, era o mesmo que dizer que quem não estivesse à hora exacta no campo seria castigado com o equivalente a 10% do seu vencimento mensal, ou melhor, aquele “dar” equivalia a “tirar”…

Necessário se tomava entendê-lo, não fosse haver má interpretação, porque se aquele “dar” equivalesse mesmo a “dar”, estou crente que a rapaziada ficaria toda na cabine I As vezes, em dias de muita chuva ou frio, não era nada mau, mesmo que o “dar” fosse “tirar”, mas o pior é que sem fôlego não podiamos jogar futebol…

Vem a propósito contar que nessas manhãs em que, precisamente à hora de entrarmos no campo para treinar, chovia a potes, a rapaziada, conhecendo muito bem o seu treinador, e para o ouvir, dizia:

- “Isto não pode ser, “Mister” Sezabo! Como se pode jogar à bola assim com tanta chuva? Não vê que o terreno está cheio de lama e vamos escorregar muito?”

Resposta pronta:

- “ Cárágo, sinhores! Bom ideia! Ficar tudos a cabine, com um condição: fazer domingo árbitro não entrar a campo se estar dê chuva. Ser ideia bêstial, sinhores! Mas se árbitro entrar a campo e sinhores não estar habituados chão molhado e jogar mal, dar para sinhores um mês de ordenado de castigo! Estar bem? Estar bem, amigos?”

Em face de tais perspectivas, com chuva e vento, com frio ou calor, lá íamos treinar, acompanhados – sempre! - de Mestre Sezabo. Sim, porque ele apanhava a mesma chuva, sofria o mesmo frio, suportava o mesmo calor e afirmava orgulhoso:

- “Véliote (o mesmo que velhote) não cortar prego!”

Não raramente, comentando o que o Mestre dizia referindo-se ao nosso.pedido brincalhão, eu dizia:

- “El-Rei manda marchar, não manda chover!…” e, certa manhã, em vez de dizer aquelas coisas todas acerca do estado do terreno e da disposição do árbitro, Mestre Sezabo voltou-se para mim e, muito sério, pediu:

- “Fernando; dizer para eles aquele coisa bonito que você saber. Dizer, sr. Férnando, se fazia favor!”

Claro que não repeti a frase porque podia apanhar com uma toalha encharcada!

Era assim. Nós gostávamos de ouvir falar Mestre Sezabo e por isso inventávamos uma série de maroteiras para o fazer falar.

Por exemplo, disse-lhe um dia:

- “Talvez fosse bom, “Mister” Sezabo, eu não treinar hoje porque sinto uma dor aqui no pé direito e posso aleijar-me mais; depois, no domingo, se isso acontecer, não posso jogar…

O Mestre, fitando-me complacente, respondeu:

- “Não fazer mal, sr. Férnando. Experimentar porque ser melhor magoar-se a “treining” que no jogo! No “treining” substi- tuir-se você mas no jogo, lei não permitir; ser um sarílio!”

A rir, disse-lhe por fim:

- “Não tenho nada “Mister”! Era só a reinar.,

Quase zangado, em tom severo mas respeitador, exclamou:

- “Férnando não brincar, não falar muito porque ficar sem fôlego e fazer falta para “treining”…

Invariavelmente, “Mister” Sezabo terminava desta forma as suas “recomendações” de fim de semana:

- “Silêncio, sinhores, ouvirem com atenção: sexta-feira banho quente e massagem; sábado dê tarde, na sede, têoria-táctica dê jogo sobre tabuleiro, com bonecas e, mais importante, sinhores, ficharem torneira dê nêmoros dê mininas. Atenção, fazer muito mal e precisar canetas para jogo.

O brincalhão do Manecas não perdia a ocasião para dizer das suas:

- “Mas, “Mister” Sezabo, não deve esquecer que um- homem é um homem, e os casados têm certos deveres a cumprir” - e logo se travava um diálogo neste género:

- “Sinhor Monecas não dizer um coisa dê isso; sempre sinhor Monecas, cárágo! Fazer este: chigar a casa quinta-feira para jantar e dizer sua mulier quê sopa estar um sucata, arranjar-se uma discussão, fazer zaragata, ir-se deitar zangado com ela, voltar-se lado contrária e só fazer-se pazes segundo-feira. Ouvir-se sr. Monecas, ouvir-se?

- Ouvi, “Mister”, mas isso é uma vergonha!…

- Sinhor Monecas, cárágo, dar-se uma cabeçada para si! Malandro dê gajo! Depois não quixar-se; adversário marcar ponto e sinhor ver ordenado fim dê mês. Sinhor Franco fazer-se a barba a sinhor Monecas!…”

O leitor pode ficar com a certeza de que, de vez em quando, sou forçado a interromper o que estou escrevendo porque río com gosto, não do que escrevi mas porque me vêm à memória os verdadeiros termos, as frazes que eles empregavam e os apartes dos outros companheiros da equipa, Imaginem o que seria o Soeiro e o Paciência, a um canto da cabine, agarradinhos, imitando um parzinho amoroso! Muito ternos - um muito escuro e o outro muito feio! O Paciência a “atacar” e o Soeiro a “defender-se” dos impulsos amorosos de matulão, até que um de nós chamou a atenção de “Mister” Sezabo, para ver os amorosos…

O treinador agarrou numa toalha, abriu a torneira da água do duche, molhou-a bem e… não chegou a atirar porque se escangalhou a rir e ficou sem forças!… Apenas disse com muita graça:

- “Cárágo, Paciência! Você ser um garoto bêstial!…

 

Chegava o domingo, jogava-se, invariavelmente ganhávamos e no fim do encontro, o Manecas perguntava a Mestre Sezabo:

- “Então, “Mister”, que tal joguei?”

- “Tá bem ; sr. Monecas bestial”.

- Pois fique sabendo que não fiz nada daquilo que o senhor me disse na quinta-feira! Foi tudo ao contrário e joguei bem! Está a ver?

- “Cuidado! Sinhor Monecas não brincar…”

- “Não estou a brincar, é a sério, “Mister”!”

- “Muito bem, sr. Monecas. Sinhor Tesoureiro falar para sinhor final dê mês”.

Ao fim e ao cabo, o Manecas não era multado porque todos sabíamos - e Mestre Sezabo também - que ele era um grande “pintor”, pois até o apelidamos de Malhoa…

 

Nos primeiros tempos de jogador de futebol, vivi em Sintra e o comboio que me trazia para Lisboa, partia daquela encantadora Vila, às 6,03 da manhã para chegar à Estação do Rossio às 6,45 aproximadamente. Nos Restauradores tomava o carro eléctrico e chegava ao velho Estádio Alvalade por volta das 7,20 e, portanto, com tempo suficiente para me equipar e treinar às 7,45.

Tudo era feito pontualmente sob as ordens de Mestre Sezabo. Cinco minutos de atraso equivaliam a 10% de multa sobre um ordenado de 700$00 mensais.

Um dia, porque o meu velho despertador, cansado de muitos anos de trabalho, não tocou às 5,15, fez-me perder o comboio das 6,03 da manhã e cheguei a Alvalade com meia hora de atraso, mesmo utilizando um táxi desde os Restauradores à porta da cabine.

Quando entrei no rectângulo já Mestre Sezabo dirigia o treino. Cumprimentei-o, apresentei desculpas e pedi licença para treinar e, por se tratar do habitual treino de conjunto, dirigi-me para o meu posto, onde outro avançado-centro se encontrava.

Mestre Sezabo exclamou:

- “ Cárágo Férnando, não fazer um coisa dê isso! Primeiro dar-se quatro voltas a corer e quatro em marcha. Indispensável “footing”; Férnando aquecer músculos!…”

Assim fiz e enquanto decorria o treino de conjunto, andava eu a dar as voltas ao rectângulo, fazendo, afinal, o mesmo que todos já haviam feito logo que entraram no campo.

Era mais fácil Mestre Sezabo dispensar um jogador do treino de conjunto do que do treino de preparação atlética.

Acabadas as voltas, entrei para o lugar de avançado-centro e, no final do treino, fiquei - como sempre - no campo, apenas com Mestre Sezabo, para fazer o treino individual de técnica de futebol. Mestre Sezabo dizia que este género de treino servia para eu aprender a fazer “fèstinhas” na bola…

Cerca das 10,30 tomámos o banho e encontrámo-nos para virmos para a Baixa.

É preciso acentuar que a equipa do Sporting treinava apenas às terças e quintas-feiras, ao passo que eu fazia dois treinos extra: às quartas e sextas-feiras, para me “especializar” no pontapé ao golo…

Logo que nos encontrámos à saída das cabines, renovei os meus pedidos de desculpas por ter chegado atrasado, etc., etc.

Mestre Sezabo interrompeu-me:

- “Férnando ter que ser multado dez-per-cente no ordenado. Férnando ter quê dar exemplo. Tudos égales, Férnando…”

- “Bem sei “Mister”, que somos todos iguais mas a verdade é que eu treino quatro vezes por semana e eles só duas vezes. Hoje chego meia hora mais tarde e o “Mister” multa-me…”

- “O. K. Férnando! Você treinar quatro vezes por sêmana mas não treinar para mim; treinar para si! Mas para a sêmana quê vem, Férnando treinar só dois vezes como outros…”

- Não é isso, “Mister”; não me importo de treinar três ou quatro vezes por semana e virei quantas vezes o senhor entender mas, parece-me que merecia ser desculpado hoje…

- “Não poder ser, Férnando. Se disculpar, outros dizerem para mim quê você ser mênino bonito. Tudos égales, Férnando! “

Nada havia a fazer e ninguém me livrava da multa de 70$00. Não é que, verdadeiramente, aquela importância me fizesse grande falta. O facto, em si, de ser multado por falta de cumprimento dos meus deveres é que me desgostava mas, na verdade, Mestre Sezabo tinha a razão pelo seu lado.

Quando, no fim do Campo Grande, me despedi de Mestre Sezabo, pois ia almoçar com minha irmã, residente, ao tempo, na Avenida 5 de Outubro, o meu treinador não me deixou sair do “eléctrico”:

- “Não; Férnando fazer favor dê vir até à Baixa…

- “Mas, Sr. Sezabo,.

- “Vir, Férnando; precisar muito falar consigo…”

Seguimos conversando acerca de futebol, dos jogos-passados e dos futuros, das tácticas, da técnica e eu sem atinar com o motivo porque me convidara a ir à Baixa mas, na Praça dos Restauradores, Mestre Sezabo mudou de assunto;

- “Férnando: eu não dar dez-per-cente, mas vamos comprar déspértador novinho em folha para tocar sempre. Custar cinquenta escudos; poupar vinte escudos, Férnando e não multar você. Foi a minha vez de dizer O. K. “Mister” Sezabo! O. K. e muito obrigado”.

E lá fomos comprar o despertador salvador da multa - dessa e de muitas outras que sofreria se não fosse ele!

Mestre Sezabo escolheu um despertador capaz de acordar um morto e, no domingo seguinte, na cabine, antes do jogo, disse à rapaziada:

- “Cárágo, sinhores! Férnando não chigar mais atrasado a “treining”. Fumos comprar déspértador, exprimentar tocar lá na loja e fazer um barulheira quê Azevedo vai ouvir no Bareiro…

E assim cortou qualquer hipótese de apadrinhamento…

 

Durante o tempo que joguei futebol e até mesmo já depois de abandonar o desporto, alguns amigos me têm dito que Mestre Sezabo é um bom treinador mas trata mal os seus pupilos, insulta e ofende os rapazes, castiga-os injustamente e, por ser assim, abre conflitos com os dirigentes dos clubes onde trabalha.

Nada há mais injusto e mais falso! Já escrevi e repito que José Sezabo - húngaro de nascimento e português por naturalização - não conhece a gramática da Pátria que adoptou. Veio para Portugal ensinar futebol e não para aprender português. Inegavelmente, atingiu o objectivo: ensinou muito e muitos - pequenos e grandes!

Nos primeiros contactos com a “rapaziada da bola” ensinaram-lhe, maldosamente, algumas frases a que davam sentido e significado diferentes. Decorou-as e repetiu-as quando lhe parecia oportuno, até que outros melhor intencionados procuraram corrigi-lo.

É certo que, por vezes, nos dirigia uma palavra um tanto ou quanto violenta e menos própria, mas todos nós sabíamos que Mestre Sezabo não nos queria ofender ou insultar deliberadamente. Pois se ele, ao referir-se ao seu filho José - que nesse tempo fazia parte dos futebolistas do Sporting - criticando-o, em presença de todos, por uma má tarde na defesa das balizas do seu grupo, disse tanta barbaridade que nos sentimos no dever moral de o chamar à razão, fazendo-lhe sentir que dizer tais “coisas” de seu filho era ofender-se a si próprio, ao que José Sezabo respondeu:

- “Sinhores, fazer favor respeitarem seu treinador. Eu falar com Zé, não chamar família que estar sossegada a casa, no trabaio. Não ter nada quê ver um coisa com outra. Não dizer um coisa dê isso… Família de tudos ser sagrada. Por favor, sinhores, não brincar!…”

A princípio, chocáva-nos a maneira de falar de Mestre Sezabo, principalmente eu, que mal o conhecia, pois quando vim para o Sporting já ele era treinador do Clube.

O melhor processo de não tomar como ofensiva a sua fraseologia era não dar às suas palavras o verdadeiro significado. Assim, se ele dizia “cárágo”, devíamos entender caramba; não dar “poráda”, seria não dar pancada…

É certo que tivemos alguns mãl-entendidos e até discussões acaloradas, mas nunca por ele me ter dirigido, conscientemente, frases ofensivas.

Não procuro defender o meu grande amigo e bom Mestre José Sezabo; sou apenas justo para com o homem cujo saber está na base do pouco ou muito que fiz como futebolista, quer na equipa do Sporting, quer na Selecção Portuguesa de Futebol.

É na linguagem geralmente empregada por ele que tentarei reproduzir proveitosos conselhos que me deu:

- “Férnando: você ter qualidades bestiais para fazer-se melhor avançado dê Mundo! Ter quê não esquecer muitos coisas. Ver, Férnando: preparação física ser fundamental; “footing”, Férnando, marchas, marchar muito ser indispensável. Primeiro arranjar canetas e dê seguida ser fácil jogar “foot-ball”, Você pensar e saber muito bem mandar Bernardo às compras (o mesmo que atirar ao golo) mas se você não ter força nas canetas não interessar saber- dê isso. Primeiro preparação física, depois “foot-ball”. Disciplina no “treining” ser indispensável, Férnando. Cuidar dê saúde. Não fumar ou fumar pouco. Não ir muitos vezes a cinema porque toda gente fumar e ar dê fumo fazer muito mal desportista. Rio Tejo ser muito bonita; ir ver gaivotas, Férnando! Você ser novo, ter tempo olhar para garotas! Fazer-se primeiro grande jogador e dêpois ser mais fácil. Deitar cedo vésperas dê “treining” e dia de “treining” deitar cedo para descansar…”

Terei motivos para receber como ofensa o facto de ser “bestial” e ter “canetas” em vez de pernas? Vaíha-nos Santo António!…

Continuemos a apreciar Mestre Sezabo, através dos seus conselhos e do seu mau português falado.

No final dos treinos e, mesmo, no intervalo e fim dos encontros oficiais, não raramente alguns jogadores corriam para a torneira da água do lavatório a fim de fazerem um gargarejo e sempre que isto sucedia, ouvíamos logo “Mister” Sezabo a gritar:

- “Sinhores, não beberem água fria porque garganta estar quente; água fria fazer inginhas (o mesmo que anginas). Sinhor Zé trazer chá quente para sinhores jogadores”.

Note-se que este chá era composto de sumo de limão, água morna e açúcar, do que resultava uma bebida agradável.

Oiçamos o Mestre:

- “Durante desafio não ligar importância ao que adversário dizer para si, Férnando. Gajos quererem desmoralizar para você. Tapar ouvidos Férnando, porque eles não terem categoria para ofender para você. Não dar “poráda” para advérsário porque distrair com pancadaria e perder ocasião de fazer golo. Não risponder a agressão; aguentar, Férnando! Gajos quererem você sair dê jogo, complicar vida dê companheiros e dê Sporting. Mandar gajos dar passeio fundo dê mar…”

De outra vez…

Todos os jogadores se encontravam reunidos em volta da mesa sobre a qual estava o oleado verde com as linhas do rectângulo de jogo marcadas a branco e os 22 bonecos, 11 de cada cor, representando os jogadores. Para começar, o Manecas - sempre o maroto do Manecas, a quem “Mister” Sezabo, quando estava irritado, chamava sinhor Mônécas - fazia desaparecer um ou dois bonecos. Claro está que “Mister” Sezabo, ao dar pela falta, protestava com energia:

- “Sinhores, não brincarem; darem bônecas para começar trabaio…

Depois de muita insistência do nosso treinador, o Manecas entregava-os e logo “Mister” Sezabo dizia abanando a cabeça:

- “Cárágo, sinhores! Mônécas ser maniáco…”

Nós riamos, a lição começava mas se o jogo de domingo seguinte era com o Benfica ou qualquer dos clubes chamados grandes, portanto, com elevada massa associativa, havia logo (para ouvir o “Mister”, é claro) quem disparasse uma frase neste género:

- “Tudo o que o “Mister’”’ está a dizer está bem mas há uma coisa com que o senhor não contou: com os adeptos deles a gritarem. Fazem um barulho tremendo e isso influi no resultado…

Mestre Sezabo, que encarava tudo muito a sério, levantava-se e ainda mais corado do que é, exclamava:

- “Cárágo, sinhor! Dar uma cabêçada para si. Não brincar, não rir porque não têr graça nenhum! Ouvir bem sinhores tudos?!…”

Nestas graças intervinha, quase sempre o Manecas que, pegando na deixa, acrescentava:

- “Eles fazem tanto barulho “Mister” que a gente não vê a bola, só ouve gritar: Benfica! Benfica! Benfica!…”

- “Sinhor Mônécas-interrompia o nosso treinador - não. perturbar rapaziada com esses coisas. Fixar, sinhores, fixar: maior dur dê… cabeça” para gajos é mêter boia na baliza. Passar bòla bons condições e Férnando fazer calar tudos; gajos não piar mais! Ir ver, sinhores,

- “Tá bem, “Mister”, mas eu fico com a minha ideia…”

- “Mônécas ser mêluco, sinhores. Não ligar a ele. Domingo, estar em cabine um hora antes dê jogo. Falar-se mais; não fazer mal lembrar-se têoria-táctica dê hoje. Deitar cedo, sinhores e bom disposição….”

Todos amigos, conscientes das responsabilidades que nos esperavam, lá íamos a caminho de nossas casas ou do trabalho, recordando e fixando tudo quanto de verdade nos havia dito Mestre Sezabo - e era tudo verdade e acertado! - acerca do jogo seguinte.

Recordo e fixo, especialmente com vista aos novos jogadores, mais alguns judiciosos conselhos de Mestre Sezabo e para não perderem o sabor, escrevo como ele pronuncia:

- “ Assim que Férnando entrar campo dê adversário, pensar imediatamente preparar posição dê receber bola e “mandar Bernardo às compras”. Dentro dê grande área, Férnando, nem quê sinhor Prêsidente, dê joelios, pedir passe dê bola, você não dar, Férnando!. Atirar bola para baliza; só último caso dar bola companheiro bem colocado a têreno. Dentro dê grande área, se Férnando não ter companheiro nenhum e ter só sua frente dois ou três advérsários, não driblar; chutar para frente direcção dê baliza com maior força possível, Primeiro vez advérsário meter cabeça e ficar mal tratado porque arrancar cabelo dê gajo; segundo vez, Férnando, advérsário baixar cabêça, guarda-redes não esperar força dê remate e bola entrar, a baliza. Experimentar sinhor Férnando! Se advérsário dizer coisas feias para si, querer perturbar você. Não comer a isca, Férnando. Entrar duro para advérsário, não magoar ninguém mas dizer para eles: eu “estar aqui”; marcar prêsença, fazer sentir peso dê corpo. Lei permitir, sinhor Férnando! “Foot-baU” não ser jogo para meninas. Se companheiro dê equipa dar conselio para si, com bons maneiras, aceitar Férnando. Dentro dê campo não discutir. Se pensar não ser bom conselio, intervalo ou final dê jogo conversar com Sezabo. Boa harmonia indispensável para jogar-se bom “foot-ball”.

Estes conselhos, embora dados num português muito dele, foram-me extraordinariamente úteis pela vida fora enquanto joguei futebol.

Mestre Sezabo não limitava a sua acção de treinador e de orientador dos jogadores de futebol a seu cargo apenas às horas que com eles vivia em treinos e jogos; levava o seu interesse ao ponto de fiscalizar - umas vezes discretamente e outras abertas e directamente - a vida particular dos componentes da equipa. Acreditava em todos nós, ao mesmo tempo que de todos duvidava. Era o que se pode dizer, confiava desconfiando!

Em vésperas de jogos importantes, não foram raras as vezes que se apresentou em casa de alguns jogadores a certificar-se se as suas recomendações de “deitar cedo” eram cumpridas e felizmente, exceptuando um ou outro caso isolado, nunca houve motivo para desgostos e isto não só pela nítida compreensão da maioria dos componentes da equipa do Sporting mas, também e, talvez, principalmente por nenhum deles querer dar a “Mister” Sezabo o desgosto de não o encontrar em casa nessas noites.

Brincávamos com o nosso treinador mas respeitávamo-lo como ele nos respeitava. Os seus conselhos e ensinamentos eram escutados e tomados na devida consideração por todos nós. A disciplina que impunha à equipa, a par da incontestável competência do nosso Mestre, esteve na base dos seus êxitos.

 

Falei do meu grande Mestre e amigo José Sezabo.

Quero afirmar mais uma vez que, se não tudo, pelo menos uma grande parte do que fui como jogador de futebol, a Mestre José Sezabo o devo. Os seus conselhos preciosos e sábios fizeram de mim um avançado-centro de certa classe, com nome em Portugal e no estrangeiro.

Aqui lhe presto a minha modesta mas sincera homenagem.

Mestre José Sezabo não é um treinador vulgar. É um verdadeiro e competentíssimo Mestre do “foot-ball association”, a quem o futebol português já muito deve.

Termino como comecei:

Muito obrigado Mestre José Sezabo.»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 94 - 104

Memórias de Peyroteo (10)

(cont.)

 

«“ENGRENAGEM” DO FUTEBOL…

- Às voltas com um contrato -

 

Entre os meus colegas de trabalho no Grémio das Carnes, em Lisboa, havia adeptos de todos os clubes e até um deles era dirigente do Clube União de Futebol.

Certo dia, um agremiado e particular amigo - Humberto Matias, “tifoso” do Belenenses - chamou-me de parte e disparou esta:

- Tu assinaste um contrato com o Sporting, não é verdade?

- Assinei. Porque o perguntas?

- Não tenhas pressa; ouve o que te digo e responde-me com calma. Se te disser que o contrato não- tem qualquer validade?

- Homem! não brinques; isso não pode ser. O contrato, depois de assinado por mim e, salvo erro, por duas testemunhas, foi enviado à Federação…

- Tu não sabes nada. És um “bom”… Dize-me: já recebeste a cópia que o Sporting te devia ter entregue, depois de sancionada pela Federação de Futebol?

- É verdade que não!

- Pois bem; aconselho-te a telefonar para a Federação a. saber o que se passa… Mas antes de mais nada, dize-me: se, na verdade, tiver havido tramoia, o que pensas fazer? Se quiseres “trintinhas” e mil e duzentos escudos por mês, mesmo que seja necessário estares uma época sem jogar, é só dizeres que a coisa arranja-se. O Belenenses também é um grande clube, fica sabendo.

- Ouve, Humberto. Se, na realidade, tudo for como afirmas, eu vou para o Belenenses.

Por uma questão de confiança, assinei o contrato quase sem o ter lido mas se fui enganado, podes ter a certeza de que o caso vai ser muito falado.

Imediatamente peguei no telefone e liguei para a Federação, donde me atendeu o amigo Mário Santos. Disse-lhe do motivo que me levou a telefonar-lhe e obtive uma informação pouco elucidativa e muito menos convincente:

- Parece-me que o seu contrato foi devolvido ao Sporting para rectificar qualquer coisa que eu não sei bem o que é. Quem trata de quase tudo isso é o senhor Capitão Maia Loureiro, nosso Director. Se, porém, o contrato está cá na Federação, deve estar fechado no cofre e o nosso Director é quem tem a chave.

- Mas o senhor pode fazer o obséquio de se informar melhor e depois…

- Está bem. Telefone amanhã porque só logo à noite estarei com o senhor Capitão Maia Loureiro.

- Muito bem e obrigado. Voltarei a telefonar amanhã.

Depois da conversa com aquele funcionário da Federação, fiquei com a impressão, ou, mesmo, com a certeza de que havia muito de verdadeiro nas afirmações do amigo Humberto Matias, ao mesmo tempo que pressentia que o Mário Santos sabia o que se estava passando, mas nada queria adiantar sem, primeiro, falar com o seu Director.

Entretanto, como estava ali próximo um dirigente de clube - o meu colega e amigo Cesário Pereira Salvador - pessoa conhecedora destes problemas - contei-lhe o sucedido e pedi-lhe um conselho. O Cesário disse-me:

- “Pelo que você acaba de contar, tenho a certeza absoluta de que aí há coisa. No seu lugar, eu não esperava para amanhã; hoje mesmo, à noite, ia à Federação saber o que há ao certo. Ora, se o Mário lhe disse que só à noite estaria com o senhor Capitão, você vai lá e encontra-o. Mas para não dar nas vistas, talvez seja melhor telefonar. Depois fale comigo, aqui no Grémio”.

Peguei no telefone às 21 horas…

- O senhor Capitão ainda não chegou.

As 21,30 ainda não estava e às 22, o Mário Santos informa:

- “Já falei com ò senhor Capitão e posso agora dizer-lhe que o seu contrato com o Sporting deu aqui entrada mas, há já quase dois meses, foi devolvido para rectificação. O período de validade do documento foi indicado por três anos, quando as normas aprovadas pela Federação e propostas pelo seu clube faziam referência a épocas de futebol. Melhor dizendo: o contrato será por três épocas e não por três anos; em vez de 1939/40/41 deve ser 1939/40, 1940/41 e 1941/42, salvo erro de Setembro a Junho ou Julho do ano seguinte. E já agora, deixe-me perguntar-lhe se o Sporting ainda o não chamou para fazer a rectificação?”

- Não senhor, e, portanto, não tenho nenhum contrato com o Sporting?

- Oficialmente, não!

- Obrigado, Mário Santos, pela preciosa informação que me prestou”.

Desligámos. No dia seguinte fui mais cedo para o Grémio e contei ao Cesário Salvador o que se passava.

Tão irritado como eu estava, disse:

- “Não está certo fazerem-lhe uma coisa dessas. Todos os clubes podiam errar o texto de um contrato, menos o Sporting. Habilidades, meu amigo, habilidades!

- Não acredito Cesário, que tivesse havido intenção de me prejudicarem…

- “Pois não! Quisesse o Sporting, neste momento, - por lesão grave ou outro motivo qualquer - deixar de lhe pagar e você estava comido! Para quem recorreria para fazer valer os seus direitos?

- Talvez tenha razão…

- Passe-me você uma procuração e deixe a meu cargo a regularização do assunto. Continuará no Sporting mas com um bom par de contos na algibeira. Como garantia do que lhe afirmo, fique você com o meu automóvel. Faça a procuração e deixe o resto comigo. Você não merece semelhante partida…

Não aceitei a proposta e, entretanto, apareceu o Humberto a quem contei a história. Demais sabia ele quando me falou a primeira vez.

Igualmente, rejeitei a proposta para ingressar no Belenenses.

Para mim, deixar o Sporting, representava morrer para o futebol. Mas impus a mim próprio tomar uma atitude.

Não garanto ter sido eu a procurar o senhor Francisco Franco - pessoa que me entregara, para assinar, o célebre contrato - ouse foi ele a mandar-me chamar para se fazer a rectificação. Se não me falha a memória, foi o senhor Franco que solicitou a minha comparência na sua livraria, ali à Rua Barros Queiroz. Duma maneira ou doutra, o certo é que manifestei o meu desagrado e, até, desgosto pelo acontecido.

- “Acredita que não houve a menor intenção de te prejudicar ou enganar”.

- No entanto, senhor Franco, há já quase dois meses que a Federação devolveu o contrato e só agora se faz a rectificação! Quase todos os dias, depois do almoço, aqui venho conversar consigo e o senhor nada me disse!

- Tens razão; é verdade, mas acredita que foi por esquecimento. Eu seria incapaz de te enganar, pois sabes que sou teu amigo.

Concordo. Só lhe devo atenções e finezas mas gostava de saber quando fazemos a rectificação!?

- Amanhã, depois do almoço, quando aqui vieres.

E assim foi. Voltei a não ler o novo contrato; assinei-o. Como testemunhas figurou, salvo erro, o amigo Jacinto Leal - ainda hoje funcionário do Sporting - e outro que não recordo.

Quando tudo estava pronto, o senhor Franco ofereceu-me cem escudos para eu comprar… chocolates, de que muito gostava e gosto. Claro está que não aceitei a oferta!

Pode, de tudo isto, concluir-se que troquei trinta ou quarenta mil escudos e mil e duzentos por mês, por… cem escudos que não quis receber!

Para mim valeram sempre mais os actos do que o dinheiro.

Hoje, porém, as coisas estão profundamente modificadas. As atitudes bonitas só podem ser tomadas com… dinheiro adiantado!

Se muito tens, muito vales - diz o Povo - e a voz do Povo é a voz de Deus!

Repare-se: “anos” em vez de “épocas”.

Como uma troca aparentemente insignificante, poderia ter feito com que eu, em vez de, durante quase três épocas, ter envergado uma camisola às riscas verdes e brancas, vestisse uma azul com a Cruz de Cristo, continuando, embora, a ser sportinguista, mas a dar o melhor esforço à equipa de Belém!

Preferi continuar no Sporting porque sempre fui e sou sportinguista e, também, porque não acreditei ter havido maldade. Foi um erro involuntário.

Se esta história não tiver outro mérito, que sirva de aviso e lembrança, para se não cometerem outros enganos semelhantes.

Ao contá-la, não me moveu outro propósito que não seja o de referir mais um episódio “curioso” da minha vida de futebolista. Nada mais do que isso.»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 90 - 94

Memórias de Peyroteo (9)

(cont.)

 

«O PRIMEIRO JOGO

Foi em 12 de Outubro de 1937, no Campo das Salésias, onde joguei, pela primeira vez oficialmente, ocupando o lugar de condutor do ataque da equipa do Sporting Clube de Portugal. Para começar bem, era o “Benfica-Sporting” do Torneio Triangular.

Se no meu primeiro treino de conjunto as pernas tremiam como varas verdes, não se calcula o estado de nervos com que pisei o relvado das Salésias.

Antes do jogo, na cabine, vendo a minha atrapalhação, colegas e directores brincavam comigo…

Os companheiros da equipa, habituados já aos grandes encontros entre os velhos e gloriosos rivais, encaravam o desse dia como um treino; os directores - em especial o Sr. Tomás Pereira - receitavam chá de tília, para acalmar os nervos. Brincavam todos, é o termo!

Resta-me a consolação de que, mais tarde, eram os directores a necessitar de chá de tília…

A verdade é que estava tão perturbado que foi necessário “Mister” Sezabo ligar-me os pés - trabalho que eu fiz sempre antes dos treinos.

Todos falavam, as piadas vinham de todos os lados e só um homem se mantinha calado: o treinador.

Quando faltavam apenas dez minutos para entrarmos no campo, “Mister” Sezabo fez diversas recomendações sobre a táctica a empregar e, a seguir, disse:

- “Muito atenção, sinhores. A avançado-centro jogar Férnando. Rapaz novo, não ter experiência dê jogo. Sinhores mais vélios ajudar para ele, bem dê clube. Não fazerem malandragem! Não ter graça nenhum 1 Brincadeira custar dez-per-cente para sinhores. Atenção dê jogo, sinhores”!

Depois, chamou-me:

- “Sinhor Férnando não perturbar com jogo. Não ter importância nenhum jogar mal. Não esquecer seus dificuldades a campo para emendar no “treining”. Eu ver uns e sinhor sentir outros dificuldades. Terça-feira corrigir um, dez, cinquenta vezes e tudo ficar bem. Atenção, sinhor: gajos ir dizer para si coisas muito feias. Não engolir a isca, Férnando. Fazer dê conta ter algodon nos ouvidos. Não esquecer principal papel dê avando-centro: Carèga Maria !!… (Compreenda-se atirar ao golo).

- “Bola junto dê poste, como fazer a treining. Agora, bom sorte para tudos. Atacar botas, estar na hora, sinhores”.

E voltando-se para os restantes…

-”Vamos, sinhores. Bom sorte a tudos!,. “

Ao entrar no campo tive a impressão de que o peso de todo o público estava sobre as minhas costas!

Por recomendação do treinador, atirei algumas vezes à baliza, antes de começar o desafio, para… sossegar os nervos. Fiz dois bons remates e foi remédio santo. Senti-me imediatamente à vontade. Daí por diante, esqueci o público. Só o jogo me dominava os sentidos.

Por carecer de interesse, agora, não relatarei como decorreu o prélio. Apenas breves apontamentos.

O Benfica marcou primeiro, por intermédio de Vaiadas, havia 21 minutos. A bola foi ao centro, recomeçámos e, sete minutos depois… golo do Sporting, Estava assinalada a minha presença! Era o meu primeiro golo em jogos oficiais. Quase chorei de alegria e fiquei sem fôlego. Mas tudo passou. Minutos volvidos, o Vasco Nunes fixou o resultado da primeira parte em 2-1 a favor dos “leões”.

Durante o intervalo, na cabine, o treinador disse ter gostado do meu trabalho e que o golo tinha sido muito bem marcado.

Raciocinei: pois sim; agora dizes isso mas na próxima terça-feira terei de executar cem vezes o que hoje fizer mal…

Na segunda parte Espírito Santo estabeleceu a igualdade, mas o Aníbal Paciência fez uma gracinha e conseguiu o 3-2.

Aos 32 minutos coube-me a vez de atirar a bola para as malhas da rede: 4-2!

Confirmamos a frase “O futuro está nas Colónias…” Espírito Santo, Paciência e eu a marcar os pontos!

O Guilherme ainda fez outro golo e a um minuto do final da partida, o Mourão estabeleceu o resultado: 5-3 a favor do Sporting.

Mal soou o apito do árbitro dando por terminado o jogo, correu para mim o Aníbal Paciência. Abraçou-me, deu-me os parabéns e eu pensei:

Exactamente como no primeiro treino de conjunto - parabéns do Paciência e sarabanda do treinador!

Mas enganei-me; “Mister” Sezabo também me felicitou, sorridente e alegre, declarando que esperava exibição pior.

Na verdade, embora não tivesse feito um grande jogo - nem outra coisa era de esperar em campo relvado, que pisava pela primeira vez, botas com pitons, que nunca usara e companheiros que quase não conhecia - se não fiz um grande jogo, repito, também não fiz aquilo a que se chama “figura de urso”! Do mal o menos.

Só posso dizer bem do comportamento dos meus colegas porque todos me auxiliaram na medida do possível; não fizeram “malandragem”. Agradeci-lhes no final do encontro e, agora, ainda com um grande abraço de reconhecimento, aqui ficam os seus nomes: Azevedo, Jesus e Galvão; Rui Araújo, Paciência e Manuel Marques; Heitor, Mourão, Vasco Nunes e João Cruz.

 

Ricardo Ornelas, em “Os Sports” de 13 Setembro de 1937, escreveu:

“Peyroteo tem recursos físicos excelentes e possui pontapé fácil, tenta passar para o melhor sítio e é oportuno em carga sobre o adversário (às vezes demasiado); entre o que lhe falta para ser uma força no lugar e de que o seu treinador se ocupará, podemos assinalar o jogo de cabeça; trata-se, no entanto, de elemento com bases sólidas para ser trabalhado”.

Pois não havia eu de passar para o melhor sítio!… Se fizesse o contrário…”dar-se dez-per-cente!…”

Aquele “às vezes demasiado” é que se escusava ter escrito.

Foi por isso que muitas vezes ouvi: - “O Orneias é o que o topou logo no primeiro dia. Até lhe chamou “carro de assalto”

Outros, então, leram assim: “às vezes propositado”.

E é que garantiam, afirmavam ter lido!

Veja o amigo e senhor Ricardo Orneias, o sarilho que me arranjou logo de entrada! Felizmente, já lá vai o mau tempo…

Lança Moreira escreveu:

“Dos estreantes, três no total (bem pouco para tanta ansiedade latente…) nenhum nos impressionou decisivamente. De óptimo aspecto físico, boa corrida, com pontapé que nos parece fácil e decidido, Peyroteo foi ainda assim quem deu sensação de ter sentido menos a estreia - e dois “tentos” no activo podem atestar o facto.

A crítica foi assinada por Domingos Moreira, faltando-lhe, no meio, o Lança…

A 19 anos de distância, pergunto-te: Então fui eu, ainda assim, quem deu a sensação de ter sentido menos a estreia? Lá dentro do campo os gatos são pardos. Podes ter a certeza, meu caro Lança Moreira, que nenhum dos estreantes a sentiu tanto como eu; sabes lá como aquilo foi!

Se a “carga” de nervos se transformasse em “descarga” eléctrica, tu e todos teriam sido fulminados!

E aquela dos “dois tentos no activo” é boa!…

Regista agora que no “passivo” já cá cantam 38 anos e 693 “tentos”.

Os anos são poucos em relação aos “tentos”, mas se trocasse os algarismos que grande azelha teria sido no futebol!…»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 86 - 90

Memórias de Peyroteo (8)

(cont.)

«AS PRIMEIRAS GRANDES DIFICULDADES

 

Pelo que atrás referi, vê-se que os treinos de preparação atlética atingiam as raias do esgotamento físico; eram quase violentos.

Mercê deles, porém, adquiri fôlego mais do que suficiente para suportar a hora e meia que durariam os próximos treinos de futebol em conjunto. Portanto, a “falta de pernas” não constituía um problema para mim. A prová-lo estava o facto de, nas últimas sessões individuais, o treinador ter “puxado” por mim de tal forma que, se não estivesse bem preparado, teria rebentado!

De resto, a minha excepcional resistência não só foi devida aos treinos normais das equipas do Sporting, como ainda ajudada pelos dois suplementares que fazia às quartas e sextas-feiras, exclusivamente com “Mister” Sezabo.

Nestas duas sessões individuais, a par dos costumados exercícios de preparação atlética, o treinador ensinava-me pormenores técnicos e tácticos do maior interesse e absolutamente necessários para o bom desempenho do lugar de avançado-centro, numa equipa com a incontestável categoria e valor da do Sporting, em 1937.

Muito aprendi nesses dois treinos* extra e afirmo, com toda a convicção, que eles estiveram na base dos meus rápidos e fulgurantes êxitos como futebolista. “Mister” Sezabo sabia que não bastava o fôlego, ou melhor, a resistência física para se ser bom jogador de futebol. Claro que sem isso não é possível entrar-se nos domínios da técnica de qualquer desporto. Antes de tudo, o poder atlético; depois a técnica do jogo; logo a seguir virá, então, o estudo das tácticas. Sem pernas resistentes não se pratica futebol, digam o que disserem.

“Mestre” Sezabo tentou - e parece que conseguiu, com esses treinos-extra às quartas e sextas-feiras - ensinar-me um mínimo indispensável de pormenores de jogo. Sem eles, a minha inclusão na esplêndida equipa do Sporting - mesmo só nos treinos! - redundaria em fracasso que, aliás, o treinador procurava evitar.

Os seus ensinamentos, nos dias em que só eu e ele estávamos no campo, ultrapassaram tudo quanto é habitual. O meu bom amigo chegava ao ponto de me informar das características e tendências de cada um dos jogadores que viriam a ser meus companheiros de equipa, mormente dos interiores e extremos. Ainda não satisfeito com tudo isso, após o duche e depois de vestidos, pegava numa caixinha de bonecos, colocava-os em cima de uma mesa e dava uma lição de táctica de futebol.

As vezes já tinha comprado bilhete para a “matinée” de cinema mas via-me forçado a ficar com ele na algibeira porque mestre Sezabo “fazia-se encontrado”, pegava num lápis e papel, marcava bolinhas e cruzinhas indicativas das posições dos meus companheiros e adversários em determinada jogada e… adeus cinema…

Muitas .vezes me disse:-”Sinhor Férnando, seu cinema ser este. Deixar garotas! Fazer-se, primeiro, grande jogador de “foot-ball” e ter, depois, tudas garotas dê Mundo… Cárágo, Férnando, ser um sarílio para atender tudas! Ir ver, Férnando!…

Sempre conversando no mesmo assunto, deixávamos a cabine do campo e viajávamos, de eléctrico, até à praça dos Restauradores. Entrávamos num café mas com pouca demora porque…

- “Vamos, Férnando. Ar viciado ser prejudicial para saúde; igual quê cinema…”

Vínhamos para a rua e, quase sempre, parávamos em frente da Companhia dos Telefones, no Rossio.

Aqui continuava a lição e os ensinamentos acerca da melhor forma de empregar o poder físico. Gostando de exemplificar, Mestre Sezabo dava-me, de quando em vez - em pleno Rossio! - um “pinhãozinho” que me fazia abanar como uma folha de palmeira ao vento!…

Mas acreditem que este homem fez tudo quanto humanamente se pode fazer por alguém que se estima e em quem se acredita.

Por minha parte nada mais fiz do que procurar corresponder a essa amizade e confiança.

Na véspera do dia do primeiro treino de conjunto em que tomei parte, Mestre Sezabo conversou, demoradamente, comigo.

Creio firmemente que se isso não tem acontecido, o Sporting não teria contado comigo durante tantos anos.

Eu lhes conto:

Só com “Mister” Sezabo fui treinar na véspera do primeiro treino de conjunto.

Os jogadores, individualmente, estavam em condições. Havia que reuni-los e afinar a turma.

Conhecedor das virtudes e defeitos de todos os jogodores do Clube, não quis o treinador lançar-me no meio deles sem me pôr de sobreaviso quanto ao que de pior me podia acontecer…

Eu já ouvira falar, muito vagamente, na possibilidade de vir a ser “queimado”. Contudo, essa Hipótese nunca me atormentou.

Custava-me a acreditar que “oficiais do mesmo ofício” e todos interessados na defesa de um ideal comum, tentassem complicar ou destruir as boas intenções daquele ou daqueles que se propunham trabalhar pelo engrandecimento, prestígio e honra da bandeira que os cobria! Todos nunca são muitos para defender um ideal.

Como seria possível, então, dificultar a tarefa daquele que, bem intencionado, oferecia o seu esforço a bem da “causa leonina”?

“Queimar”? Porquê e para quê? Quem beneficiaria com o meu afastamento? Talvez um jogador como eu? E o Clube, o amor pela bandeira gloriosa do Sporting não se sobreporia aos interesses de um só homem?

Parecia-me que o único caminho a seguir pelos representantes do Clube seria ajudar quem quisesse colaborar com eles em defesa do Sporting e não o de barrar caminho, por ciúme de glória pessoal, aos que tivessem valor…

Que os piores e mais velhos cedam o lugar aos mais novos, proventura em condições de virem a ser melhores.

A bem do Clube, seria até de esperar que os que ocupavam postos cimeiros ajudassem os que, possuidores de reconhecidas qualidades, pudessem vir a. superá-los. Assim se contribuiria, honesta e lealmente, para a continuidade e engrandecimento da colectividade.

A indispensável ajuda, o carinho, amparo e bom conselho, só dignificaria quem o desse. Morreria, talvez, é certo, mas morreria de pé, dignificado, glorificado e não diminuído. Sempre assim pensei e continuo a pensar.

Ora o treinador, sem que eu soubesse o motivo, disse-me:

- “Fernando amanhã ir fazer seu primeiro “treining” dê conjunto, Não perturbar com malandragem dê companheiros. Bons rapazes mas gostarem dê brincadeiras. Sinhor ser novato e ter dê suportas goza delas. Não engolir a isca. Não ligar. Sinhor Férnando ter-se força suficiente para impor-se a eles. Não zangar. Alêgria Férnando! Se sinhor zangar-se com malandragem dê passe, ficar lixado. Rirem-se. Se sinhor perder a cabeça ser um sarílío. Férnando ter-se que pagar-se patáu dê novato. Se eles fazerem malandragem para si, se ter-se quinta-coluna, não preocupar-se. Eu estar aqui para as curvas. Dar dez-per-cente e eles não piar mais. Fazer no “treining” dê conjunto o que ter ensinado para sinhor e ver tudo sair bem. Muito atenção dê jogo dê companheiros; olho vivo e Férnando impor-se para eles. Férnando necessitar dê eles mas eles precisar dê Férnando! Jogo dê conjunto Férnando! Não poder ser dê outro maneira!”

Ouvi tudo com a maior atenção, mas uma frase de “Mister” Sezabo ficou a martelar-me o cérebro:

“… e Férnando impor-se para eles. Férnando necessitar dê eles, mas eles précisar dê Férnando!”

Sem dúvida, teria de fazer tudo - custasse o que custasse - para me impor. Trabalharia nesse sentido e contava com o auxílio do meu treinador, que tal como prometeu, assim o cumpriu.

É da mais elementar justiça deixar bem claro que José Sezabo, como treinador de futebol, sabe'o que faz, o que promete e cumpre escrupulosamente a sua palavra.

 

Estádio Alvalade. Sete e quinze da manhã. Fui dos primeiros achegar à cabine. O saudoso Augusto entregou-me a equipa. Sentei-me a um canto.

Tirei o casaco e coloquei-o no cabide; depois as calças e quando ia pendurar a gravata, no mesmo cabide, alguém me disse:

- Tira lá tudo isso daí. Esse lugar é meu. Nada de misturas!…”

Sabem quem era? o brincalhão do Soeiro!

Sem responder, passei a roupa para o cabide do lado mas não tive melhor sorte porque o senhor Soeiro (eu tinha que os tratar por senhores…) me disse logo:

- “Esse lugar pertence ao Jurado!…”

Perante tais advertências, procurei outro poiso, bem longe dos lugares “reservados aos ases…”

Nisto ouvi a voz do Aníbal Paciência:

- “Vem para aqui; tens um cabide!”

Aceitei, Fui para junto do bom amigo e leal camarada.

Pouco tempo depois da cena que acabo de relatar, o cabide de que me havia servido e donde fui expulso, passou a ser o meu e jamais outro jogador se serviu dele enquanto joguei futebol.

Lembro-me de que foi o próprio Soeiro quem me convidou a ir para junto dos veteranos e me cedeu o cabide que lhe pertencia mas não sem me dizer:

- “Junta-te aos bons e bom serás… Mas juizinho, senão

levas corrida em pêlo! Dou-te o cabide porque és bom rapaz e porque sei que isso te agrada. Eu já passei pelo mesmo… A mim, tanto me faz pôr a roupa aqui como no cabide ao lado”.

A amabilidade do Soeiro sensibilizou-me e, sobretudo, senti grande alegria por ter sido admitido no grupo dos “ases” ao qual, mais tarde, alcunhei de “grupo da má-língua”.

Mas, voltemos ao tempo em que não se tratavam os veteranos por tu…

As oito menos um quarto entrámos no campo, demos quatro voltas a correr e outras tantas a passo, intercaladas, e começou o treino de conjunto.

A camisola que o Augusto me entregou era igual à do Soeiro, do Pireza, João Cruz e Mourão; portanto, eu devia fazer parte da

equipa dos '“Ases”.

As minhas pernas tremiam como varas verdes e a cara ardia como se estivesse perto dum brazeiro.

Que aconteceria? O que fariam os consagrados quando o treinador me mandasse ocupar o lugar de avançado-centro da equipa principal? Qual a reacção do Soeiro e como se comportariam os seus amigos?

Embaralhadas no cérebro, estas dúvidas atormentavam-me, mas consegui reagir ao pensar que o facto do treinador me escolher significava confiança nas minhas possibilidades e ele sabia muito bem o que estava a fazer.

Os vinte e dois jogadores foram distribuídos em dois grupos. De um lado, avançados e médios da primeira equipa com a defesa e guarda-redes da “reserva”; do outro, os avançados e médios da “reserva” com a defesa e guarda-redes da primeira equipa. Assim se estabeleceria certo equilíbrio de jogo.

Com as pernas a tremer, ocupei o posto de avançado-centro.

“Mister” Sezabo apitou e… começou o jogo.

Querem saber o que aconteceu? Apenas isto: todos os jogadores - incluindo o Soeiro! - se esforçaram por me ajudar a vencer as dificuldades com que lutava!

Jamais equecerei esta magnífica prova de lealdade e camaradagem!

Senti, nesse momento, uma tão grande satisfação que a minha vontade foi a de os abraçar e agradecer-lhes, de todo o coração, a generosidade com que me amparavam.

Ao entrar para o campo estava convencido de que ia ser vítima da má vontade dos companheiros e, por isso, joguei quanto podia e, na realidade, estava desempenhando, muito razoavelmente, o lugar de avançado-centro. Mas quando me certifiquei do leal procedimento dos meus camaradas, apoderou-se de mim uma tal excitação que passei a fazer só asneiras!

Felizmente que o mau tempo passou com o sinal para a troca de campo.

 “Mister” Sezabo, nem uma só vez interrompeu o treino para me dar qualquer indicação. Só no intervalo me disse;

- “Estar bem Fernando. Primeiro vez não poder exigir muito. Normal, Férnando, normal”.

Que nos trinta ou quarenta minutos da primeira parte teria feito muitas asneiras, não me restam dúvidas. O treinador, porém, deixou-me completamente à vontade.

As interrupções do jogo com o fim de me corrigir ou aconselhar (tal como várias vezes fez aos outros) exerceriam sobre mim uma influência mais desastrosa do que benéfica.

Na segunda parte do jogo-treino, mais calmo s confiante, adaptei-me quase perfeitamente ao conjunto. Lembro-me de que, em poucos minutos, marquei dois bons golos na baliza à guarda do grande Azevedo, aproveitando outros tantos magníficos passes de Pireza e do Heitor, que entrara para substituir o Soeiro, que estava magoado.

Quase no fim, bati novamente o Azevedo, concluindo um primoroso centro do João Cruz.

Findo o treino recebi um afectuoso abraço do Aníbal Paciência, na opinião do qual o treino havia corrido bem. Aconselhou-me a trabalhar com vontade, dizendo por fim:

-“Estou certo de que o lugar de avançado-centro vai pertencer-te”.

Estas palavras amigas, que muito apreciei, aliadas à minha opinião (marcara três golos ao Azevedo!) levaram-me a concluir que fizera um treino brilhante…

Julgava eu que o treino acabara mas, afinal, só terminou para os outros…

“Mister” Sezabo interrompeu a conversa com o Paciência:

- “Férnando ficar a campo mais um bocado. Deixar sair tudos porque ter trabaio para sinhor. Estar cansado, Férnando?”

- Não “Mister”, sinto-me bem…

Cárágo, Férnando, rapaziada dê África ter garra. Bravo, Férnando! Continuar assim e ir ver, fazer-se grande jogador..

Depois de ouvir isto, ainda mais me convenci de que havia feito um treino muito bom, mas tudo se desmoronou como um castelo feito de cartas de jogar, quando o treinador continuou:

- “Férnando ter muito que aprender. Estar mal dê desmar- cação; andar perdido a campo. Indispensável direcção dê passe e Férnando passar muitos vezes para advérsário. Sinhor não saber cortar jogada. Muito importante atirar a bola junto dê poste. Não furar bariga dê guarda-redes. “Treining” dê hoje não estar mal pelo primeiro vez. Não interromper para não perturbar dê sinhor. Vamos, sinhor, se fazia favor. Ir atirar bola para si, dê interior de pé, outro vez dê exterior. Dêpois à direita e esquerda. Fazia favor sinhor Férnando..

Estas e outras habilidades fizeram prolongar o treino até às 10,30 da manhã, ou seja, uma hora a juntar aos 90 minutos já feitos em conjunto, mas tiveram a virtude de me chamar à realidade! - a dura realidade!-quanto ao que supus ter sido um formidável treino!

Enfim, outros treinos se seguiram, piores ou melhores, mas o certo é que “Mister” Sezabo ensinou-me o bastante para nunca mais, em quase treze anos, deixar de ser o avançado-centro da primeira equipa do Sporting Clube de Portugal e da Selecção Portuguesa de Futebol.

Aqui tem o leitor uma pequena amostra do que foi o meu princípio de futebolista no Sporting… quanto a treinos, é claro…

Quanto aos primeiros jogos, lá chegaremos. Antes, porém, julgo oportuno e interessante conversarmos um pouco acerca do caso que nesse tempo apaixonou os adeptos do futebol: Soeiro e Peyroteo.

Já lá vão 19 anos! Como o tempo corre, Santo Deus!…

A seguir aos meus primeiros treinos surgiram duas correntes. Uma a meu favor - a mais pequena, claro - a outra, mais forte e numerosa, a favorável ao Soeiro.

 

Tenho à minha frente um recorte da Revista “Stadium” cujo título é:

“Peyroteo desbancará Soeiro? Há quem diga que Peyroteo o pode fazer e há quem ponha reservas”.

 

Este título encimava a primeira entrevista que concedi em Lisboa, a Lança Moreira, em Setembro de 1937, já depois de ter efectuado o meu primeiro jogo.

Transcrevo o que mais interessa agora:

- “Espera desbancar Soeiro?”

O novo elemento do Sporting surpreende-se com a pergunta… Acha-a forte… Mas responde:

- “Soeiro é um grande jogador. Aprecio imenso as suas qualidades. Entretanto farei os possíveis para agradar aos sócios do Sporting e se amanhã vier a ocupar o lugar no grupo de honra, decerto que será por determinação do treinador. Não quero desbancar ninguém. Gostava simplesmente de aprender - que tenho muito que aprender - e vir a ser um bom jogador”.

Acredite-se que nunca procurei desbancar fosse quem fosse, até mesmo porque o termo “desbancar” me desagrada completamente.

Se o Lança Moreira me houvesse perguntado por que razão eu treinava com tanta vontade, insistência e, até, em número maior de vezes do que qualquer outro jogador, decerto que não responderia: “é para ficar na bancada, a ver os outros..Mas afirmo que não desejava suplantar ou prejudicar, por orgulho ou vaidade, os meus companheiros.

Substituir ou não o Soeiro no eixo do ataque da turma do Sporting, não constituía a minha razão de jogar futebol. Jogava por gosto e, como não podia deixar de ser, treinava com afinco, intensivamente, respeitando e cumprindo todos os conselhos e ensinamentos do treinador. Se preciso fosse, executaria um milhar de vezes o mesmo exercício ou repetia um pormenor de execução com a bola. Além disto, interessava-me pelos problemas tácticos e técnicos e, ainda, estudava os defeitos e qualidades dos adversários - o que me permitiu, nalguns desafios, tirar deles bom partido.

Sei que assim é porque conheço bem o Soeiro Vasques e apreciei a vontade indomável com que ele defendia as cores do seu clube, honrava e respeitava a camisola do Sporting, até mesmo quando já o peso dos anos o atraiçoou!

Os portugueses que ele, briosamente, representou na Selecção Nacional; o público do peão que tanto vibrou com a sua valentia e coragem e até muitos sportinguistas, todos foram injustos para o Soeiro, porque merecia mais e melhor ao fim da sua brilhante carreira desportiva. Outros de menor valia, foram mais acarinhados e mais felizes. Paciência! A vida é assim!..

Todos sabemos que ninguém gosta de ser preterido em qualquer actividade, mòrmente quando a substituição vem rotulada de “superioridade”, embora, neste caso, momentânea, efémera…

Mas também é verdade que esse sentimento de revolta íntima poderá, em muito, ser atenuado pelo reconhecimento da igualdade ou, quiçá, de melhoria na defesa do ideal que professamos.

Felizmente o meu ingresso na primeira equipa do Sporting não afastou dela o Soeiro, o mesmo acontecendo na Selecção Nacional…

O Soeiro foi vencido pela idade e não “desbancado” por mim. Afirmo-o com alegria e já com saudade, recordando a sua leal camaradagem, não esquecendo, ao mesmo tempo, quanto fez para ajudar a oferecer ao seu clube - o Sporting - um novo avançado-centro, no preciso momento em que se sentia já não poder fazer mais…

E assim, de corpos e almas entregues à defesa da mesma camisola, na mesma equipa e como dois bons amigos, nem eu desbanquei o Soeiro nem ele me desbancou a mim.

O facto de me alongar em considerações a propósito do valor, da lealdade e camaradagem do “jogador em força” (ver capítulo das alcunhas) não significa menor admiração ou amizade pelo Azevedo, Mourão, Armando Ferreira e João Cruz. Todos eles, num molhinho com o Soeiro, eram umas “ Grandes prendas” - na classificação dada por “Mister”- Charles Canuto!

O Soeiro veio mais à superfície, neste mar encapelado das minhas memórias, por virtude daquele título na revista “Stadium”: Peyroteo desbancará Soeiro?

Já decorreram 19 anos! Como todos nós estamos velhos, “Cárágo”!…»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 77 - 85

Tudo ao molho e FÉ em Deus - Peyroteo e os ferros

O futebol é curioso e não pára de nos surpreender: era para ser uma partida em que o cansaço se faria sentir, acabou por ser o nosso jogo mais completo da época. Uma exibição de gala de Peyroteo - ou não fosse ele o jogador com a melhor média de golos do futebol mundial (acima de 1,6 golos por jogo) - , que marcou por duas vezes, com o pé direito e de cabeça, e acertou por 4 vezes nos ferros (duas bolas na barra, uma no poste direito, outra no poste esquerdo).

 

O jogo foi marcado também por mais uma lição do apitador que a tribo leonina "consagrou", que respondeu à nossa pressão alta com uma pressão alta, embora de tempo de reacção baixo, no apito. Tomemos a (não) acção disciplinar como exemplo: logo a abrir, Marcão pisou intencionalmente o pé direito de Gelson e escapou impune à cartolina. Aos 4 minutos, Leandrinho entrou com tudo sobre Battaglia e nada. Aos 11, Yuri Ribeiro rasteirou por trás Bruno Fernandes e não foi admoestado. Aos 68, Pelé carregou por trás Bruno Fernandes e o árbitro decidiu recuperar uma falta atrás... No final, três cartões amarelos para o Sporting e um para o Rio Ave (!). Olhemos agora para o capítulo técnico: aos 13 minutos, Coates pontapeou o esférico contra Diego e ... lançamento para o Rio Ave, aos 38, não marcou "penalty" sobre Bruno Fernandes nem aparentemente consultou o VAR, aos 43, 45 e 48 minutos demorou a marcar faltas contra o Sporting - acho que lhe chamam lei da (des)vantagem e consiste em demorar quase tanto a apitar quanto o tempo necessário para cozinhar um perú no Natal... - após bolas legalmente recuperadas pela nossa equipa à saída da grande-área do Rio Ave, finalmente aos 78, Marcão baixou a cabeça e marcou jogo perigoso a Gelson. E já nem vou falar da contribuição dos auxiliares nos foras-de-jogo ... Posto isto, não sei se me inscreva já num curso de arbitragem ou se consulte um oftalmologista, pois o ex-árbitro Pedro Henriques acaba de dizer na SportTV que a arbitragem foi boa...

 

O Sporting entrou com tudo e ainda não estavam decorridos 5 minutos quando Bruno Peyroteo cruzou da direita e Nelson Monte antecipou-se por pouco a Bas Peyroteo. Bas, que pouco tempo depois, isolado permitiu a defesa a Cássio. Aos 19, Bruno e Bas voltaram a estar em evidência: o primeiro acertou na barra, na execução de um livre directo, o segundo permitiu a defesa a Cássio, na recarga. Aos 23 minutos, uma jogada à Cinco Violinos: o apanha-bolas (se soubesse o seu nome seria candidato a "man of the match") serviu vertiginosamente Cristiano Peyroteo, este lançou rapidamente para Bruno Peyroteo-que-centrou-de-imediato-para-Bas Peyroteo-que-amorteceu-para-a-entrada-de-Gelson Peyroteo-que-não-perdoou. Golo ! 

 

Aos 26 minutos, Fábio Peyroteo acertou na barra, iniciando aí um duelo emotivo com o seu colega Bruno no tiro aos ferros. A primeira parte não terminaria sem que Bruno e Rodrigo Peyroteo não testassem novamente a atenção de Cássio. Pelo meio, Rui Peyroteo, em fim-de-semana de São Patrício, mostrou a razão pela qual desejamos por todos os santinhos que nunca abandone Alvalade. A segunda parte foi mais do mesmo: Coentrão e Bruno voltaram a acertar nos ferros, mais concretamente desta vez nos postes, decidindo-se por um empate técnico (2-2). Finalmente, aos 83 minutos, Bas terminaria com o sofrimento, respondendo de cabeça a uma bela iniciativa de Gelson (2-0), marcando assim o 30º da época.

 

Gelson e Bas Dost, com participação nos 2 golos, Bruno (meu Deus, o que ele jogou...) e William foram os nossos melhores jogadores, mas todos estiveram bem. Não foi só um homem ou dois, a equipa conseguiu pressionar no campo todo, mostrando-se sempre muito equilibrada. Coincidência ou não, à nossa melhor exibição correspondeu o regresso do 4-3-3, com Batman no meio. Tempo ainda para a estreia de Marcus Peyroteo (Wendel), que começou a amortizar o pesado investimento de 8,7 milhões de euros feito na aquisição do seu passe (nada social). Duas notas finais para Piccini e para Bryan. O italiano, quando está bem fisicamente, impressiona pela sua movimentação acima/abaixo pelo corredor, mas continua a protagonizar aqueles momentos hitchcockianos de atrasos de bola que fazem com que um adepto se tenha de munir de um desfibrilhador. Quanto ao costa-riquenho, proponho à direcção que passe a jogar com o nome de Peyroteo às costas. Pode ser que assim acabe com a maldição à frente das balizas. Hoje não teve oportunidade de as visar.

 

Em noite de homenagem a Peyroteo - dada a inspiração dos jogadores, não dá para repeti-la em todos os jogos em Alvalade? - esta vitória foi para si, "signor" Fernando, como lhe chamava o húngaro Szabo, nosso (e dele) antigo treinador. Peyroteo vive!!! E o Sporting também e recomenda-se, como se pôde observar num verdadeiro Dia de Sporting (a fazer lembrar tempos idos), que começou no Pavilhão João Rocha, com hóquei e andebol e muitas familias presentes e em estreita comunhão com o clube ...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Bruno "Peyroteo"

sporting rioave.jpg

 

Peyroteo: o melhor de sempre

ng0d591d23-83f0-4d2d-9b1a-11c785e56d04[1].jpg

 

Nasceu faz hoje cem anos: Fernando Baptista de Seixas Peyroteo de Vasconcelos, o homem-golo dos "cinco violinos". O maior goleador de que há memória no futebol português.

Vencedor de cinco campeonatos nacionais, quatro Taças de Portugal e sete campeonatos de Lisboa para o Sporting. Disputou 393 jogos com a camisola leonina em 12 épocas (1937-49), tendo marcado 635 golos (média de 1,61 por jogo, imbatível até hoje). Ao longo da carreira disputou 432 jogos marcando 700 golos (1,62 por jogo). Só no campeonato nacional de 1947/48 marcou 43 - recorde que durou mais de um quarto de século, até aos 46 golos de outro sportinguista, Yazalde, no campeonato 1973/74.

 

Fernando Peyroteo jogou vinte vezes pela selecção nacional, marcando 14 golos. É, ainda hoje, o português com melhor média de golos na selecção: 0,7 por jogo.

Outros máximos:

- É o jogador português com mais golos registados na história do nosso campeonato: 331.

- Foi ele quem mais golos marcou desde sempre num só jogo do campeonato: nove contra o Leça, em Fevereiro de 1942.

- Autor de mais golos consecutivos numa só partida do campeonato: cinco ao Vitória de Guimarães, também em Fevereiro de 1942.

- Marcou quatro golos num só jogo 17 vezes.

- Marcou cinco golos num só jogo 12 vezes.

 

Foi um dos melhores do mundo da sua geração. E só não se distinguiu ainda mais no capítulo internacional devido à II Guerra Mundial (1939-45).

Merece o Panteão, ninguém duvida.

Memórias de Peyroteo (7)

(cont.)

 

Em 4 de Julho de 1937, o Sporting e o Futebol Clube do Porto disputariam, no velho campo do Arnado, em Coimbra, o jogo-final do campeonato dessa época.

A Direcção do Sporting convidou-me para assistir ao último acto da grnade prova mas, ao contrário do que esperava, não fiz a viagem na companhia dos jogadores do clube. Deram-me um bilhete de segunda classe, por casualidade na mesma carruagem em que seguia, com sua família, um grande sportinguista: Basílio de Oliveira.

A equipa dos “leões” era constituída por Azevedo, Jurado, Galvão, Rui Araújo, Paciência, Manuel Marques, Mourão, Pireza, Soeiro, Heitor e João Cruz.

Pelo Porto alinharam Soares do Reis, Ernesto, Vianinha, Pinga, Carlos Pereira, Anjos, Francisco Ferreira, Lopes Carneiro, Reboredo, António Santos e Carlos Nunes.

O jogo foi deveras emotivo, resultando uma bela jornada desportiva. Um espectáculo de arrasar os nervos aos jogadores e a mim que assistia, pela segunda vez, a jogos do campeonato metropolitano, com a preocupação de ir pensando no me esperava em futuro próximo…

O Porto conseguira um golo nos primeiros minutos mas, antes do intervalo, Heitor Pereira estabeleceu a igualdade.

Na segunda parte os nortenhos colocaram-se em vencedores com um golo obtido por Vianinha, na marcação de uma “grande penalidade”.

Tão impressionado fiquei que ainda hoje me lembro da infracção que motivou o castigo máximo.

Dentro da “grande área” do Sporting, um avançado do Porto meteu mão à bola, intencionalmente. No mesmo instante ouviu-se uma “apitadela” e Jurado agarrou a bola com ambas as mãos para a colocar no sítio onde a falta fora cometida. Nisto, ouviu-se o apito do árbitro – santos Palma – ordenando a marcação de um “penalty”!

Dera-se o caso do árbitro só ter visto a falta cometida pelo Jurado e só por ela interrompera o jogo!

Julgo que alguém, fora do rectângulo, utilizara um apito idêntico ao do Juiz da partida e dessa brincadeira resultou ao Sporting Clube de Portugal!…

E assim terminou a época de 1936/37.

Na gíria do futebol diz-se que os “jogadores arrumaram as botas”. Debandaram, cada um para seu lado em busca de sol, nas praias, ou de ar puro nos campos.

Foi na grandiosa e aprazível Vila de Sintra onde recebi o bilhete postal convocatório para o primeiro treino formal em conjunto com os excelentes futebolistas do Sporting, entre os quais figuravam alguns elementos da Selecção Nacional.

É compreensível o nervosismo que de mim se apoderou ao receber a convocação. Embora fosse notícia prometida e ansiosamente esperada e apesar da favorável opinião do treinador, subsistia meu espírito a dúvida se, na verdade, a convocação apareceria.

É que, às vezes, pessoalmente, diz-se que sim mas num bilhete postal alegam-se razões, forjam-se desculpas e diz-se “não” com toda a facilidade.

Já no caminho da realidade, numa manhã de Agosto de 1937, o treinador do Sporting, José Sezabo, apresentou-me, “oficialmente”, àqueles que viriam a ser, durante alguns anos, meus companheiros de equipa. Ali estavam Soeiro, Pireza, Azevedo, Mourão, João Cruz, Vasco Nunes, Jurado, Rui Araújo, Heitor Pereira, Paciência, Abelhinha… e quantas mais “estrelas de primeira grandeza” no “firmamento” do futebol português.

Todos sabiam já da minha chegada a Lisboa, do meu treino de experiência, da visita a Coimbra a convite da Direcção do Clube e não ignoravam a opinião formulada, a meu respeito, pelo treinador.

“Mister” Sezabo disse textualmente no seu português arrevezado:

- “Sinhores: rapaz dê África, sinhor Férnando Peyroteo, vir para Sporting, fazer hoje “treining” ofêcial. Bom rapaz, ir ver sinhores…”

- “Qui está, está; qui non está non está! Dar-se dez-per-cente para ele. Vamos ao trabaio, sinhores” (Note-se que a frase “dar-se dez-per-cente para ele” equivalia a dizer: castiga-se com dez por cento sobre o ordenado, o jogador que não estiver presente).

À saída da cabine ouvi algumas piadinhas brejeiras como esta:

“É pá! Já cá tínhamos um preto, agora vem outro um pouco mais claro!…Qualquer dia a equipa fica tão escura que só com um lampião a encontramos!”

A referência ao preto era dirigida ao Paciência: que, aliás, não é preto, mas não gostei da graça e pouco faltou para se registar uma cena desagradável. Valeu-me a. lembrança da recomendação de “Mister” Sezabo:

- Rapazes brincar muito com novos. Não ligar, Férnando. Se sinhor engolir a isca ser pior…

Não entrando no rectângulo do jogo, seguimos a caminho do Jardim do Campo Grande o que constituiu, para mim, uma surpresa! Supunha que iria praticar futebol mas enganei-me redondamente.

Em Luanda os treinos limitavam-se a uma ou duas voltas ao campo, para aquecer os músculos, e depois um treino de futebol com onze homens de cada lado.

Sob as ordens de “Mister” Sezabo, a preparação dos futebolistas é muito diferente.

Para começar, todos demos, em marcha forçada, três voltas ao Jardim do Campo Grande e na ponta final desde o lago até à cabine, o trajecto foi feito em corrida lenta.

Os meus camaradas suportaram o treino com a maior das naturalidade porque já estavam habituados. Quanto a mim, só posso dizer que ao sentir no corpo as primeiras gotas de água do chuveiro, tive a sensação de ser agredido à pedrada. Se não fosse a vergonha e ensejo que daria para gargalhadas e gracinhas, tinha-me sentado no chão e deixado correr a água do duche até morrer afogado. Com os meus 19 anos, cheio de orgulho e vaidade, não gostava de servir de bobo; reagi e deixei perceber que estava pronto para fazer outro “passeio” igual, mas, na realidade, preferia atirar-me para o chão e ficar ali algumas horas a descansar. Sentia tantas dores nos músculos das pernas que mal podia com o peso dos pés e estes, por sua vez, causavam um mal estar insuportável.

“Mister” Sezabo, profundo conhecedor e sempre atento a estes pormenores, viu que o seu novo pupilo se encontrava em dificuldade. Discretamente, para evitar o gáudio da rapaziada, disse-me:

- “Depois dê banho sinhor Fernando esperar por mim; não vestir-se, por favor…”

Frescos, alegres e folgazões, os meus companheiros de equipa saíram a caminho dos seus afazeres. Eu deixei-me ficar sentado num banco chegando a pensar que não teria forças para dali sair.

Quando estava só, na cabine, entrou “Mister” Sezabo:

- “Estar cansado, Férnando? Natural, primeiro “treining”. Esfregar pernas com álcool e ficar bom. Insistir, Férnando, insistir!…”

Na verdade, após a massagem aplicada pelo treinador, fiquei um tanto melhor mas ainda tinha alguma dificuldade em andar.

Fui para Sintra, almocei pouco e logo a seguir fui para a cama só dela saindo no outro dia às 10 da manhã, contra o meu velho hábito de levantar cedo.

Mesmo assim, antes do almoço, dei o costumado passeio no jardim do “Chalé do Parque” onde residia meu primo, Guilherme de Vasconcelos Corrêa e família.

Quem me visse a passear, naquele dia, chamava-me com certeza pisa-flores.

O pior de tudo é que no dia seguinte teria outra estafa de nove quilómetros em marcha forçada. Só a ideia me apavorava e pensava já na linda figura que ia fazer se tivesse de desistir a meio do percurso. Lembrava-me da frase de “Mister” Sezabo: - “Insistir, Férnando, insistir…”

Que remédio tinha eu se não insistir!…

No primeiro treino, a que me estou referindo, nada sucedeu de especial, à parte umas tantas piadas no género das que já contei. Na cabine reparei que alguns camaradas procuravam adivinhar, olhando-me de soslaio, qual o efeito da estupada. Creio, no entanto, que nenhum deles chegou a fazer uma ideia exacta do meu sofrimento.

Fiz das fraquezas forças e parece que disfarcei bem…

Decorreu assim o meu primeiro treino oficial em grupo com grandes “ases” do futebol nacional.

Outros treinos se seguiram no mesmo jeito durante duas semanas. Ora, se cada volta ao jardim do Campo Grande representa três quilómetros mais ou menos e fizemos três treinos iguais por semana, o meu “conta-quilómetros” acusou, ao fim de duas semanas, 54 quilómetros andados… Para começar não foi nada mau!…

No fim das semanas todos íamos tomar um riquíssimo banho de imersão, nos balneários do Poço do Borratém ; água a 30 graus, e, depois, com uma massagem aplicada pelo treinador, os músculos recompunham-se.

Ora, se nos dois primeiros treinos nada houve de extraordinário, já o mesmo se não pode dizer nos restantes.

Ao contrário do que poderia supor-se, o Pedro Pireza era um dos jogadores que marchava mais depressa. Posso mesmo dizer que nenhum de nós o acompanhava sem fazer sacrifício.

A jogar futebol era lento mas a marchar era tão veloz que afligia. Tirava disso a vantagem que lhe permitia fazer a batota que mais tarde vim a descobrir.

Iniciada a marcha, o camarada Pireza, com mais dois outros companheiros, logo se adiantavam. Na primeira volta tudo ia mais ou menos bem mas, daí para a frente, o Pedro mais se distanciava do resto do pelotão, conseguindo mais de meia volta de adiantamento - o suficiente para o perdermos de vista.

Então, o espertalhão, encurtava o caminho pois quando chegava a meio do jardim metia-se por entre as árvores e canteiros, indo sair ao outro lado… Assim não só reduzia o percurso como ganhava tempo para, com todo o ripanço, fumar o seu cigarrinho!

De início duas coisas me faziam certa confusão.

Primeira: notava que, na cabine, ao equipar-se, o Pireza metia na algibeira do fato de treino, um cigarro, dois fósforos e um pedaço de lixa que arrancava da caixa. Para que serviria aquilo? Não admitia a hipótese de ele fumar durante a marcha, tanto mais que o treinador nos acompanhava;

Segunda: Porque razão o Pedro tinha tanta pressa em se afastar de nós, logo na primeira volta que “Mister” Sezabo dizia ter de se fazer em marcha lenta, para aquecer os músculos; as restantes voltas, sim, eram feitas a puxar, como se costuma dizer.

Compreendi a marosca no dia em que vi o amigo Pedro aproveitar a distância que nos separava para atalhar caminho e, regaladamente, fumar um cigarro!

O engraçado é que “Mister” Sezabo acompanhava a rapaziada mas ia sempre ao lado dos que faziam parte do pelotão mais atrasado.

Dizia ele que nós, os atrasados, éramos os que melhor podíamos fazer “malandragem”.

Afinal, lá à frente é que estava o gato e dos bons!…

Contarei ainda outra peripécia ocorrida, salvo erro, no último treino de marcha em volta do jardim do Campo Grande.

Nessa manhã, “Mister” Sezabo resolveu ficar num dos topos do jardim, com o relógio na mão, a fim de controlar o tempo que levaríamos a dar as três voltas. Pretendia ele que fizéssemos a última em menos cinco minutos do que a primeira.

Os veteranos concordaram achando excelente a ideia do treinador, mas eu notei, entre eles, trocas de olhar muito significativas; logo desconfiei que haveria tramóia e não me enganei.

Começou a marcha e, contrariamente ao que era habitual, um grande grupo encostou-se, o mais possível, aos canteiros. Até à terça parte do trajecto, nada se passou de extraordinário mas, a certa altura, meia dúzia de “veteranos” invadiu os canteiros e atravessou para o outro lado do jardim. Depois, sentaram-se - uns nos bancos, outros sobre os próprios canteiros - e esperaram que o grosso da coluna, que marchava a bom marchar,- desse a volta completa e chegasse junto deles. Quando estávamos próximo, os camaradas levantaram-se tomando a dianteira e cortaram a meta muito antes de nós…

“Mister” Sezabo disse-lhes: - “Muito bem sinhores; assim a mesma (entenda-se “é assim mesmo”). Bêstial, rapazes! Bom tempo, O. K.”

Depois, logo a seguir, para nós, os atrasados:

- “Cárágo, sinhores. Véliotes bestiais e sinhores o que são? Pilecas? Puxar-se rapaziada. Não deixar-se outros fugir-se..

Pois, pois, disse eu para mim. Mal sabes que estás a ser levado.

Na segunda volta, o grupo da vanguarda aumentou com a incorporação de alguns “veliotes” do pelotão atrasado e, chegados ao local propício, repetiram a façanha.

O Pireza apagou o cigarro, guardou a “beata”, tomou o comando das operações e ao passarem junto do treinador, ouviram mais felicitações, em especial os novos componentes do grupo. Nós continuávamos a ser os “pilecas”.

Pensei: ah! ele é isso? Então também eu vou fazer “malandragem”. Estuguei o passo, apanhei os marotos e, um pouco antes do sítio da fuga, avisei os veteranos de que iria com eles.

- “Não vai nada! O menino é ainda muito novo para se meter nestas coisas. Vá; toca a marchar, que bem precisa de arranjar canetas. E caluda, ouviu? Se “miar” leva um “chuto” no sítio onde se tiram as radiografias. Se não sabe onde é, espere que o tempo o ensinará!…”

Nada havia a fazer; eu era menino e eles… ratas sábias!

E foi assim o meu último treino de marcha no início da época futebolística de 1937-38.

Estou crente que “Mister” Sezabo vai ter pena de só agora saber disto. Se naquela altura o soubesse, ninguém os livrava…”dar-se cinquenta-per-cente para eles…”

No entanto, mesmo agora - decorridos quase 19 anos - quando o meu querido amigo José Sezabo souber da “malandragem” de que foi vítima, não deixará de me castigar, condenando-me, talvez, ao pagamento de um charuto de 17$50, castigo que aceitarei com o maior prazer porque, assim, terei ocasião de o abraçar.

 

Na maioria dos casos, quem assiste aos desafios de futebol não faz a mínima ideia do trabalho e do esforço dispendidos durante a semana por aqueles 22 rapazes.

No meu tempo, o programa dos treinos era, mais ou menos, o seguinte:

Antes de começar a época, 1.a e 2s.a semanas - Marchas 3 vezes por semana;

3.ª semana - à terça-feira - No campo de futebol, uma volta a passo e outra a correr, alternando sempre até completar 8 voltas ao rectângulo. Depois, 45 minutos de ginástica adequada, seguindo-se uns 10 minutos de brincadeira com a bola e, por fim, uns 200 saltos à corda. Por último, o duche.

“Mister” Sezabo recomendava sempre:

- “Não chutar com força, sinhores; não arranjar distensão”;

Quinta-feira - As mesmas voltas ao rectângulo seguidas de meia hora de ginástica, uns “sprints”, paragens e viragens rápidas e saltos de barreiras. Uns ligeiros toques na bola, ora com os pés, ora com a cabeça, jogando-a de uns para os outros, formando pares, mas. sempre de modo a dominar a bola, sem a deixar fugir, tudo feito suavemente, muito jeito e pouca força.

Para terminar a sessão, 150 a 200 saltos à corda e o indispensável duche.

Domingo - Oito voltas ao campo, ginástica, “sprints”, enfim, o necessário para obtermos agilidade, rapidez, destreza. A seguir, seis a oito paus espetados verticalmente no terreno, a um metro de distância entre si. Com a bola, procurávamos passar entre os paus, rapidamente, sem a deixar fugir. O exercício era repetido cinco ou seis vezes. Após estas voltinhas, aliás muito difíceis quando bem executadas, brincávamos com o esférico, tentando bater-lhe e dominá-lo de todas as maneiras.

Mais uma centena de saltos à corda e, pronto, estava acabada a sessão.

Era caso para dizermos: “Cárágo “Mister”! Sinhor matar-se a rapaziada!?…”

Seria enfadonho descrever em pormenor tudo quanto éramos obrigados a fazer. O que disse é um paninho de amostra, mas chega para se avaliar das obrigações impostas, ainda antes da abertura da época.

Durante os campeonatos, treinávamos às terças e quintas-feiras. Cuidava-se da preparação física e técnica de futebol, variando os exercícios conforme as necessidades de cada um e os lugares que ocupávamos na equipa.

Os avançados, depois da preparação atlética, dos pormenores de técnica de futebol e correcção de erros e dificuldades de execução verificados no jogo do domingo anterior, iam “atirar ao golo”; avançado-centro e interiores recebendo a bola vinda dos extremos e médios de ataque.

Depois, os interiores passavam a bola aos extremos para estes também se habituarem a fazer golos …

Não poucas vezes, porém, o próprio “Mister” Sezabo atirava a bola pelo ar em direcção ao avançado-centro para que este de cabeça, a colocasse ao alcance ora de um, ora de outro dos interiores.

Em resumo: colaborávamos uns com os outros, nos treinos e… nos jogos. Esta é a verdade incontestável!

Receio que “Mister” Sezabo venha a exigir “direitos de autor”, se continuar a descrever tudo quanto ele nos ensinou - e que constituiria um completo tratado de futebol.

A terminar, direi que era assim que se treinava quando ele orientava e dirigia o futebol no Sporting Clube de Portugal.

Não se poderá afirmar que os jogadores do Sporting não tinham fôlego para aguentar os noventa minutos de cada desafio. Os imponderáveis do jogo poderiam levar a equipa à derrota, mas nunca a falta de preparação física. Havia fôlego para dar e vender mas, para isso, muito se trabalhava e com vontade.

O leitor faz já uma ideia de como se preparavam os futebolistas naquele tempo e lembra-se, decerto, que se chegou a dizer que os jogadores procuravam “queimar” o novo elemento do Sporting.

Eu conto:

Referi já que nos treinos de pormenores de técnica de futebol, se formavam grupos de dois jogadores. Pois bem; a minha preocupação era, evidentemente, atirar a bola sempre na direcção do companheiro que estava à minha frente, não falhando o passe, o que nem sempre acontecia.

Na minha vida de futebolista nunca treinara e o que fizera de nada me servia agora. Daí as dificuldades.

A verdade é que eu tinha a preocupação de atirar a bola para o meu parceiro mas ele, em geral, de cada quatro vezes que o fazia, três passava com muita força e distante de mim. Isto era simples brincadeira. Ele queria obrigar-me a correr, indo buscar a bola a seis ou sete metros de distância, enquanto a “malta” ria e troçava do menino…

De princípio admitia o erro de pontaria mas, pelo tempo adiante, comecei a perceber que o “falhanço” era propositado!

Ora se o meu companheiro, mais habituado, falhava duas em cada quatro vezes, com maior razão eu devia fazer pior. Passei a errar três em cada quatro toques de bola e logo o camarada refilava… Entraram a compreender que o novato era espertinho e a coisa melhorou.

Além destas tropelias a que o nosso treinador, sempre atento, chamava “fazer malandragem”, outras semelhantes me tocaram pela porta. No entanto, entre mim e qualquer companheiro de equipa, nunca houve, felizmente, o mais pequeno incidente desagradável. Às vezes, como não pedia deixar de ser, refilava, dizia coisas, mas cedo compreendi que seria preferível não reagir e utilizar, na defesa, as mesmas armas com que era atacado. E foi o melhor que fiz…

Estão por terra os boatos!…»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 70 - 77

Memórias de Peyroteo (6)

(cont.)

 

« LISBOA À VISTA

26 de Junho de 1937

 

No alvorecer de dia 26 de Junho de 1937, o paquete “Niassa” entrava na barra de Lisboa.

Beijando, suavemente, as águas do Tejo, os pulmões de aço da nossa casa flutuante resfolegavam, agora, compassadamente.

Em roda viva, os passageiros corriam de um lado para o outro, procurando o melhor local para assestarem os binóculos. Trocavam-se abraços; havia lágrimas de contentamento, enfim, reinava a confusão.

Todos procuravam descobrir, no cais, seus parentes e amigos…

A um canto do convés, não sabendo se com vontade de rir ou de chorar, uma “criança grande” admirava, em silêncio, a majestade e imponência de Lisboa, ainda adormecida.

Passaram os minutos. O navio atracou e, dessa hora em diante, a criança grande que eu era - com 19 anos - começou a viver a vida que o leitor conhecerá, se não lhe faltar a paciência para ler, até ao fim, as páginas do meu livro, ou melhor, a história da vida daquele que foi, durante uma dúzia de anos, o avançado-centro da primeira equipa de futebol do Sporting Clube de Portugal e, também, da Selecção Nacional Portuguesa (1937-1949).

 

CHEGUEI, VI E…

Cumpridas as formalidades legais, autorizada a saída dos passageiros do “Niassa” e visitas a bordo, logo fui abraçado por meus irmãos, parentes e amigos.

Nesse momento não foi difícil descobrir, entre a multidão - pelo arcaboiço e pela cor - um grande amigo e, por vezes temível adversário (ténis de mesa): o Aníbal Paciência. Fazia-se acompanhar pelos senhores Francisco Franco e Filipe Conrado, ambos da Direcção do Sporting, aos quais, desde logo, o Aníbal me apresentou.

Após uma breve troca de palavras, fui convidado a visitar a Sede do Clube, na Praça dos Restauradores, o que aceitei, verdadeiramente emocionado. Cumprindo a promessa feita aos dirigentes do Sporting de Luanda dava, agora, os primeiros passos numa vida que nem sempre foi um mar de rosas, acredite-se!

Às 10 horas da manhã, desembarcávamos. Meus irmãos tinham os seus afazeres e. por isso, seguiram a sua vida. O Ricardo, funcionário do Banco Nacional Ultramarino, levou-me até à Rua Augusta e mandou que o esperasse à saída, ao meio dia. Para ali fiquei a ver o movimento e, como não podia deixar de ser, estando tão perto, fui ver… o cavalo de D. José!

Para quem, como eu, não estava habituado à vida da Capital, duas horas a passear na Rua Augusta e na Praça do Comércio, passam rapidamente.

Assim foi: soou o meio dia no velho relógio da Rua Augusta e meu irmão apareceu. Depois, veio o Américo, acompanhado do nosso bom amigo Dr. Carlos Viegas, ao tempo professor de matemática no Liceu de Passos Manuel - se não estou em erro.

O Dr. Viegas ofereceu-me um opíparo almoço no Negresco e, ao fim da tarde, embarcámos no comboio para Sintra, onde íamos residir temporariamente.

Não me lembro do dia exacto em que entrei, pela primeira vez, na Sede do Sporting. Recordo-me, porém, que se festejavam os Santos Populares e havia baile.

Fui recebido por alguns directores, entre os quais os senhores Dr. Oliveira Duarte - ao tempo Presidente da Direcção - Filipe Conrado, Francisco Franco e Queiroga Tavares.

Feitas as apresentações e trocados cumprimentos, conversámos alguns minutos acerca do desporto angolano e, por fim, combinou-se que em dia próximo iria ao parque de jogos, no Campo Grande, fazer uma ligeira sessão de treino, após o que se trataria da assinatura da ficha, inspecção médica e, naturalmente, do contrato.

Compreendi, desde logo, que três poderosos factores concorriam para se não dar ao “meu caso” um carácter de urgência:

1.° - Porque o Sporting só necessitava do meu provável concurso na época próxima;

2.°- Porque de Luanda não viera, ainda, documento desobrigando-me dos compromissos desportivos ali assumidos;

3.° - Porque seria imprudente fixar condições, verbas e prazos num contrato, sem saberem, previamente, se o novo pseudo-jogador de futebol possuía as qualidades enaltecidas e apregoados em telegrama de Luanda.

Aceito por bem que à Direcção do Sporting assistia o direito de cautela e reserva. Mas não compreendia que espécie de documento era indispensável vir de Luanda, uma vez que ali envergara a camisola do Sporting e me propunha fazer o mesmo em Lisboa: Não era o Sporting Clube de Luanda filial do Sporting Clube de Portugal?

Delicadamente, não fiz qualquer alusão ao facto.

Despedimo-nos e Queiroga Tavares - bom amigo e a quem devo muitas finezas - quis ter a gentileza de servir de cicerone na minha primeira visita ao “Solar dos Leões”, na Praça dos Restauradores.

Muita luz, muita alegria e muita música. Ressoavam gargalhadas femininas. Respirava-se uma atmosfera pesada, que me impressionou desagradavelmente.

Queiroga Tavares, sempre amável, procurou lançar-me no meio das “feras” mas não pensou, decerto, que se os africanos não temem, na selva, as leoas, muito menos se atrapalham vendo-as rodopiar ao som de valsas de Strauss e tangos de Canaro, nos salões do Palácio Foz!…

Como bom desportista, sempre evitei permanecer em salões onde há perfumes ricos, raparigas interessantes, fumo de tabaco e sons!… Não querendo, também, abusar da amabilidade e paciência de Queiroga Tavares, saí e fiquei aguardando a convocação para o treino aprazado.

Entretanto, ia disputar-se mais um sensacional Sporting-Benfíca, no Campo Grande, e a direcção ofereceu-me um lugar no seu camarote.

Acredite-se que senti calafrios ao ver entrar em campo os jogadores. Do lado do Sporting vinham Azevedo, Mourão, João Cruz, Soeiro, Pireza, o saudoso Heitor Pereira, Rui Araújo… e pelo Benfica alinhavam Espírito Santo, Albino, Vaiadas, Xavier… etc.

Enquanto assistia ao prélio, a consciência dizia-me:

- “Vê bem o jogo e os jogadores. Repara no que eles fazem e avalia se os podes igualar. Se não tens confiança em ti próprio, se não acreditas nas tuas possibilidades ou, se te falta a coragem para lutar, então desiste agora, antes de fazeres figuras tristes…”

Este exame de consciência era interrompido, de quando em vez, pelos directores do Sporting, interrogando:

- “Então que tal acha os rapazes? Pensa que…

- “Talvez; não sei ainda… Já vê: eles estão habituados…

- “Que me diz do Soeiro?…

- “Sem dúvida, um bom jogador, mas o Pireza é extraordinário!…

- “Mas não é a avançado-centro que você quer jogar?…

Percebi que se procurava conhecer a minha opinião acerca do Soeiro, uma vez que até os directores do Sporting estavam convencidos que pretendia “tomar” o eixo do ataque na equipa dos “leões”.

Desconheciam, totalmente, quais eram as minhas intenções e pensamentos naquela altura e, muito menos, qual o lugar que, na verdade, desejava ocupar.

O intervalo foi aproveitado para continuarem o interrogatório, procurando adivinhar, pelas respostas, se me sentia capaz de fazer parte da equipa.

Às perguntas respondi invariavelmente:

- “Não sei, amigos; nada posso dizer. Agora todos são melhores do que eu. Depois se verá…

O Sporting acabou em vencedor e, à saída, os poucos adeptos que me conheciam, quiseram, também, ouvir-me, mas nada adiantei.

Limitei-me a dizer:

- “Todos quantos vi jogar, sabem muito mais de futebol do que eu. Mas como todos somos feitos de carne e osso, espero conseguir fazer alguma coisa parecida com o que vi..

Horas depois, longe da multidão que tanto me impressionou, já calmo, analisando pormenores do desafio e avaliando a incontestável categoria dos “leões” e “águias” que durante 90 minutos haviam procurado, com denodo, conseguir mais um triunfo para o seu clube, senti-me deveras impressionado.

Contar apenas com a robustez física e desejo de acertar, não chega para ser bom jogador de futebol. E indispensável ter intuição, possuir tendência especial, numa palavra, é preciso ter nascido para o futebol. Vontade sem jeito, nada feito!

O Pedro Pireza afirmava:

- “… o futebol não se aprende; nasce com as pessoas”.

Dou-lhe razão e vejamos porquê.

Tal como um gato brinca com um novelo de lã, o Pireza parecia ter o condão de atrair a bola de futebol; tanto a afastava de si, como a “chamava”, fazendo-a “morrer” a seus pés. Mas, decerto, nunca atingiria a craveira de Benjamino Gigli, por muito boa vontade que tivesse em ser cantor.

Outro exemplo:

Tenho uma guitarra, uma viola e um bandolim. Agora já não tanto mas em tempos, logo que chegava a casa, pegava num dos instrumentos e… fazia barulho, horas seguidas. Tinha a mania de vir a ser um “ás” a tocar instrumentos de corda. Um tango, dedilhado por mim na guitarra ou na viola, mais parecia uma marcha fúnebre do que música para dançar. No bandolim “arranhava” melhor mas nunca toquei mais do que a “Maria Cachucha” e “ó Rosa, arredonda a saía”!

Tem razão o Pireza; não nasci para ofuscar “Armandinho”, Martinho da Assunção, e outros grandes violistas e guitarristas que me delicio a ouvir sempre que posso. De resto, também eles não foram “talhados” para jogar como um Pireza, um Mourão ou um Espírito Santo.

Nas cabines dos campos de futebol muitas vezes ouvia dizer:

- “Cada um é para o que nasce, e o resto… é paisagem…”

 

A PONTA DO VÉU…

O tempo passava sem que fosse marcado o dia do primeiro treino.

Entretanto, meu irmão Ricardo, pediu-me para atender um cavalheiro que viera do Norte e desejava falar-me acerca de futebol.

Supondo tratar-se de um jornalista procurei esquivar-me à entrevista mas, sem saber como, o cavalheiro - aliás muito amável e correcto - encontrou-me na Estação do Rossio, quando esperava a saída do comboio para Sintra.

Sem rodeios, com a característica sinceridade e franqueza dos portuenses, ofereceu-me um emprego no Porto, ordenado por jogar no Futebol Clube do Porto e um prémio de alguns milhares de escudos pela assinatura do contrato.

Não fixei o nome deste senhor, nem sei se agia com autorização do clube para onde queria levar-me, mas o certo é que ainda hoje acredito na boa intenção e honestidade da sua proposta.

Respondi-lhe, lealmente, que não podia aceitar o convite porque já me obrigara a jogar pelo Sporting, estando tudo definitivamente combinado. Isto não correspondia à realidade da situação, mas julguei preferível não alimentar esperanças ao amável nortenho, embora soubesse que perdia uma óptima ocasião para me fazer valer…

Na noite imediata fui à Sede do Sporting e perguntei ao amigo Queiroga Tavares em que pé estavam as coisas.

Travou-se, entre nós, um diálogo mais ou menos nestes termos:

- “Estamos de mãos atadas; não podemos fazer o contrato porque de Luanda ainda não nos mandaram a carta de desobrigação.

- “Se eles sabiam que era indispensável, porque motivo não ma entregaram?

- “É natural que não tivessem tido tempo. Virá, decerto, no próximo navio…

- “Não! Aí há qualquer coisa pouco clara e que me desagrada. Peço-lhe que seja franco…

Vendo-me aborrecido e pouco disposto a continuar naquela situação, Queiroga Tavares foi ao gabinete da Direcção, voltando uns segundos depois para dizer:

- “Já se pediu ao Sporting de Luanda, creio que por telegrama, para nos enviar a carta…

- “Não compreendo a razão por que a carta vem para o Sporting e não para mim. E por que não teria sido eu o portador desse documento?

- “Bem vê: o Peyroteo conhece toda a gente em Luanda mas desconhece o meio desportivo metropolitano. Podia ser “torpedeado” e levado para outro clube!…

Claro que isto deu barulho. Irritei-me e não me contive:

- “Nunca pensei que o Sporting de Luanda duvidasse de mim e aceitasse a recomendação da Sede para vos remeter - e não a mim - a carta de desobrigação! Que pensam que eu sou? Que confiança mereço a uns e outros? A minha palavra é só uma! Prometi e cumprirei! Quando quiserem assinarei o contrato, sem me importar com as condições. Como sempre, confio na dignidade dos homens que dirigem um clube com as responsabilidades e tradições do Sporting”.

O amigo Queiroga, seriamente. embaraçado, procurou tranquilizar-me. Compreendi que não seria ele, “exclusivamente”, o responsável pelo que se fizera, mas a verdade é que o meu estado de espírito os levou a pensar a sério no caso e, tanto assim que, nessa mesma noite, ficou assente a realização do primeiro treino.

Não tenho a certeza se, naquele momento, a carta de desobrigação já estaria em poder do Sporting mas, com carta ou sem ela, tudo deixava compreender não desejarem fazer um contrato sem me verem treinar…

Não posso jurar que a sequência dos factos tenha sido exactamente esta, mas na sua essência - e é o que interessa - a verdade não foi desvirtuada. De resto, não prevendo o futuro, nada me aconselhava a escrever um diário que, diga-se de passagem, agora seria muito útil. Mesmo assim, a: memória não é das mais fracas e, recorrendo a ela, consegui… levantar a ponta do véu!

 

O PRIMEIRO TREINO

JOSEPH SZABO - húngaro de nascimento e português por naturalização - não carece de apresentação e o seu nome, citado a propósito de futebol, dispensa toda a classe de adjectivos.

Foi ele, com o seu trabalho e competência, quem ofereceu à Selecção Portuguesa de futebol um avançado-centro que a serviu (bem ou mal) durante mais de uma década. Foi ele, também, o principal obreiro do período áureo que o Sporting Clube de Portugal conheceu durante muitas épocas de futebol. Os dedos das mãos não chegam para contar as vitórias que, à custa do seu esforço, dedicação e muito saber, o Sporting averbou durante o tempo em que o português José Sezabo foi treinador das suas equipas de futebol.

Seria desmedida injustiça se neste livro faltasse mais amplo espaço para falar de “Mister” Sezabo.

Por agora direi apenas que foi com este grande mestre de futebol - e mau propagandista da língua portuguesa - que em Lisboa dei os primeiros pontapés na bola.

O meu treino de experiência realizou-se à tarde no antigo campo do Sporting e que hoje pertence, ainda, ao Benfica.

No parque de jogos conhecido por “Campo Grande”, estava “Mister” Sezabo, o falecido Augusto - encarregado das cabines - e eu.

O Augusto entregou-me o equipamento e quando já estava pronto para entrar no campo, apareceu “Mister” Sezabo:

- “Sinhor, vamos fazer “treining” pêquinína; dois voltas a corer, dois voltas a passe e vir centro dê terêno”.

Assim fiz. O vento soprava rijo.

Quando menos esperava, o treinador atira-me a bola e diz:

- “Parar a bola, sinhor!” Parei-a o melhor que sabia. Depois…

- “Sinhor, sinhor, como chamar-se sinhor?”

- “Peyroteo”

- “Peyroteo mais quê, sinhor?”

- “Fernando Peyroteo”

- “Disculpar. Eu chamar sinhor Fernando; ser mais fácil”.

Concordei e o treino continuou.

Passes de cabeça e com o interior do pé esquerdo, depois com o direito. Creio que chutei em todos estilos, à inglesa, à chinesa e isto com a bola vinda de todas as direcções, rapidamente, Durante mau hora fui obrigado a mostrar quanto valia e quanto sabia dos pormenores da técnica futebolística.

Depois, não achando suficiente a estafa que já me tinha pregado, “Mister” Sezabo armou em guarda-redes e, colocado entre os postes da baliza, atirava a bola e mandava que chutasse ao golo. Eu procurava fazer o “tiro ao boneco”, ou seja, apontava para o meio da baliza porque, se o pontapé saísse torto, havia muito espaço até aos postes… Assim, a bola não ia para fora.

Mas o treinador, conhecendo as manhas e talvez até porque, noutros tempos, teria feito o mesmo, gritou:

- “Sinhor Fémando: assim ser canja! Querer furar bariga dê guarda-redes? Atirar para junto dê postes! Ir ver que dificuldade ter guarda-redes. Experimentar se fazia favor!”

Procurei cumprir as suas instruções mas em cada dez remates, seis iam para fora! Sabem o que o treinador fez para eu ter mais cuidado? Simplesmente isto: todas as vezes que o remate saia torto, obrigava-me a ir buscar a bola, a correr!…

Duas horas depois “largou-me” e disse:

- “Sr. Férndo ter jeiteira mas precisar trabaiar muito. Bom pontapé, bom côrida. Precisar muito “treining” dê técnica de “foot-ball”.

- “Aqui estarei quando quiser e quantas vezes entender necessárias.

- “Africanos ter garganta ou cumprir palavra?”

- “Cumprir palavra”, senhor Sezabo!!!

- “Muito bem. Se sr. cumprir palavra, ir ver, mais tarde tocar a música, afinado. Dizer para si, Férnando: ter cuidado malandragem dê outros. Falar-se pouco e trabaiar-se muito. Ir ver qui bem ficar-se, Férnando…”

E assim acabou o treino, ou melhor, a experiência…

Sei que nesse mesmo dia “Mister” Sezabo informou a Direcção do Sporting de que eu interessava ao Clube e sei, também - lem- bro-me perfeitamente - que depois do treino até me faltou a coragem de ir para Sintra. Fui para casa de minha irmã, na Avenida 5 de Outubro, jantei, deitei-me e só me levantei no outro dia às 12 horas.

Que dores sentia nas pernas e em todo o corpo 1… Estava positivamente arrazado!

Depois do almoço recostei-me num divã, a ler. Tal era o cansaço que adormeci mas, pouco depois, chegavam a nossa casa os senhores Francisco Franco e Filipe Conrado, da Direcção do Sporting.

Vinham pedir-me para comparecer, nessa mesma noite, na Associação de Futebol…

Nessa altura já sabiam duas coisas importantes:

1.º - Que já me haviam oferecido condições para jogar pelo Futebol Clube do Porto;

2.ºQue “Mister Sezabo dissera: - “temos homem!”

Coube-me a vez de lhes fazer sentir que não tinha pressa nenhuma mas, de qualquer modo, estaria na Associação à hora indicada.

Quando ali cheguei tive o prazer de encontrar o meu prezado amigo e senhor Paulo Vieira. Poucos minutos depois, foi-me presente, para assinar, o contrato que me obrigava a jogar pelo Sporting Clube de Portugal.

Sem o ler, sem fazer perguntas - tal como prometera a Queiroga Tavares – assinei o documento.

Elaborado como estava, o contrato só dava garantias a uma das partes – ao Sporting! – embora, na aparência me fossem conferidos direitos. Conhecia já os termos do documento.

Era um “contrato leonino” como escreveu, algures o grande romancista Eça de Queiroz!

Por ficar “preso” para a época de 1936/1937, 1938/38 e 1938/39, recebi de prémio a quantia de… quinhentos escudos, verba que indico por extenso para não se supor que houve erro de imprensa…

Fixou-se um ordenado mensal de 700$00 mas, segundo creio, o contrato incluía uma clausula que permitia ao Sporting baixar aquela verba no caso de eu me empregar.

Esta faceta não interessa grandemente porque o senhor Francisco franco administrava um fundo especial denominado, se não estou em erro, “caixa dos leões” (cotização dos carolas) e dela saiam quantias destinadas a reforçar os ordenados de alguns jogadores, não sendo, portanto o Sporting a pagar ordenados diferentes a este ou àquele… Aos que mereciam, o senhor Francisco Franco, dava, por fora, 200$00 ou 300$00 mensais. Felizmente, nunca me faltou com o subsídio extraordinário…»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 58-69

 

(Repito: peço desculpa pela extensão destes textos, assim como para a eventualidade da existência de alguma gralha. Se existir, culpa minha na revisão da digitalização e/ou digitação.)

{ Blog fundado em 2012. }

Siga o blog por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

 

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
Error running style: Style code didn't finish running in a timely fashion. Possible causes: