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És a nossa Fé!

A estreia de Peyroteo

Com a devida vénia ao Rui Miguel Tovar, autor do livro Fome de Golo, de onde é extraído o texto seguinte:

“...Está lançado, o rapaz. E o Sporting, já agora. A estreia dá-se a 12 de Outubro de 1937, nas Salésias. É um Benfica-Sporting para o torneio triangular. Szabó liga os pés a Peyroteo com gesso e dá a receita: «Muita atenção, sinhores: a avançado-centro jogar Fernando. Rapaz novo, não ter experiência de jogo. Sinhores mais velhos ajudar para ele, bem de clube. Não fazerem malandragem. Não ter graça nenhum. Brincadeira custar dez por cento para sinhores. Atenção de jogo, sinhorés.» Resultado? Cinco-três para o Sporting, com dois golos de Peyroteo. «Embora não tivesse feito um grande jogo, nem outra coisa seria de esperar em campo relvado, que pisava pela primeira vez, botas com pitons, que nunca usara, e companheiros que quase não conhecia, também é verdade que não fiz aquilo a que se chama figura de urso.» 

Inicia-se a lenda.”

In “Fome de GOLO, Os grandes goleadores do futebol português”, de Rui Miguel Tovar

 

Post scriptum:

- o treinador do português macarrónico era József Szabó;

- uma estreia com vitória de sabor especial... como o que sentimos na passada 4.ª feira!

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Memórias de Peyroteo (32)

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«ALGUNS ESTÁGIOS DA EQUIPA NACIONAL DE FUTEBOL

 

Fui convocado vinte vezes para fazer parte da nossa Selecção Nacional de Futebol, facto que me deu tempo de sobejo para apreciar como se cuidava da preparação da nossa equipa, com vista aos jogos internacionais.

Nomeado o seleccionador, eram-lhe prometidas todas as facilidades de modo a cumprir-se o plano de trabalhos estabelecido. Porém, escolhidos e convocados os jogadores para iniciarem os treinos de conjunto, surgiam as primeiras dificuldades: alguns dos jogadores, alegando razões de vária ordem, não compareciam, e outras vezes eram os próprios clubes a não os dispensarem, receosos de que os rapazes se aleijassem ou, mesmo, para não quebrarem o ritmo de preparação e treino da equipa do clube. E se compareciam à “chamada”, antes disso eram aconselhados a não se empregarem a “fundo” a fim de evitarem qualquer lesão…

Por tudo isto e, ainda, por outros motivos que me dispenso de referir, as sessões de treino da Selecção Nacional eram efectuadas utilizando meia dúzia (?) de jogadores tidos como “indiscutíveis”, de mistura com suplentes e, não raras vezes, para se formar equipa, recorria-se a elementos do chamado “grupo treinador”.

Decorridas umas escassas semanas de treinos quase todos realizados neste jeito, a equipa nacional seguia para o estágio, que tanto importava ser num magnífico hotel do Estoril ou Sintra, como na Colónia de Férias do Pessoal das Companhias Reunidas Gás e Electricidade, na Venda do Pinheiro.

Tantas vezes fiz parte da Selecção Nacional que, afastado dela há meia dúzia de anos, não experimento a mínima dificuldade em descrever o regime seguido nesses estágios, no respeitante às sessões de preparação física, treinos de futebol, alimentação, alojamento, etc. Com ligeiras alterações de ano para ano, o programa era mais ou menos este:

Das 8 às 9 - Ginástica;

Das 9,30 às 11,30 - Passeio - marcha (footing);

Das 12 às 13, aproximadamente - Almoço;

Das 13,30 às 15,30 - Descanso;

Às 15,30 - Passeio - marcha;

As 19 - Jantar

Das 22,30 às 23 horas - Recolher (deitar e silêncio…)

E cumpria-se? - perguntará o leitor. Eu conto: nos dias de treino de conjunto, a ginástica fazia-se no próprio campo de jogo, e porque não estavam presentes todos os componentes da equipa, impossível se tornava ensaiar esquemas de jogo-de resto o grupo representativo do nosso futebol ainda não estava escolhido e entrava-se naquilo a que eu chamava “o vira da Selecção”: trocava-se o extremo direito pelo esquerdo, substituia-se agora um médio, o defesa central passava depois para a ala direita, o interior esquerdo passava para extremo por troca com um “provável”, o defesa direito “virava” para a esquerda e, terminado este magnífico treino de conjunto, “virávamos” todos para o balneário, sendo a última volta do vira dada no sentido do hotel, porque o treino havia “puxado a reacção” para o almoço e a rapaziada tinha um apetite devorador… Após o almoço, os seleccionados descansavam; das 15,30 às 19 horas davam um passeio a pé e o regresso coincidia com a hora do jantar.

Recordando os bons tempos passados, vejamos qual a constituição normal das refeições, ou melhor, qual o regime alimentar e como se comportava e o que fazia a rapaziada durante as horas… vagas.

Por estar mais vivo na memória, tomarei por exemplo o que se passava na Venda do Pinheiro, onde o Pedro - excelente rapaz e óptimo mestre de cozinha - nos deliciava com os mais saborosos e bem apresentados manjares.

Esquema do horário de trabalho, refeições e sua composição

 

8 horas da manhã; - quadradinhos de chocolate e… uma hora de corta-mato, no decorrer do qual fazíamos alguns exercícios de ginástica. A seguir, quem achava conveniente fazia a barba e tomava um duche, mas também se podia lavar simplesmente a cara e ficar prontinho para o pequeno almoço, constituído por café com leite, pão com manteiga, compota, fruta ou sumo de laranja e, se o “cliente” quisesse, podia (em vez de tudo isto ou depois de tudo isto) pedir umas fatias de carne assada ou fiambre…

Depois do pequeno almoço, organizava-se um torneio de basquetebol ou voleibol entre equipas formadas, geralmente, por elementos do Sporting, Benfica e Belenenses. Os jogadores dos outros clubes, por serem em número reduzido, não chegavam para formar conjuntos, ficando como suplentes às outras equipas e, os restantes, enquanto duas turmas disputavam o renhido jogo, ora faziam “claque*’, ora contavam anedotas brejeiras para fazer rir os mais sizudos ou, alheando-se dos jogos, passeavam, pacatamente, pelas redondezas do edifício. A paródia acabava pouco antes do meio dia, para dar tempo aos preguiçosos que ainda não tinham feito a barba e, aos outros, para lavarem as mãos.

O almoço constava, invariavelmente, de:

Peixe: assado, frito ou cozido, acompanhado de batatas ou saladas de alface, tomate, etc. Às vezes surgia a riquíssima “bacalhoada com todos”;

Carne: bifes com batatas fritas, carne guisada com batatas ou assada, ou de qualquer outra maneira - ao gosto, talvez, do nosso Pedro, e que bom gosto ele tinha!!!

Como sobremesa, salvo erro, queijo, frutas várias e, por vezes, doce. Seguidamente, um cafezinho que, ou era servido - se assim se desejasse - na sala de jantar ou, então, a rapaziada ia ao café da terra tomá-lo. Depois, cada qual fazia o que lhe desse na real gana. Uns dormiam uma soneca, outros ouviam telefonia; havia um que “arranhava” umas coisitas no piano, jogava-se o loto e, às vezes, muito às escondidas - com uma sentinela a espreitar, não viesse alguém que proibisse e castigasse - jogavam o burro americano a “feijões sonantes” ou “papéis verdes de vintes”…

As 15,30 íamos para o pinhal e, logo que podíamos, sentávamo-nos à sombra das árvores e fazíamos… crítica! Ali é que era ouvir dizer mal - e bem… pudera não! - do regime dos estágios, de alguns dirigentes do futebol, dos males de que sofria - e infelizmente ainda sofre - o nosso desporto favorito e, como diria um espanhol, “de outras cosas más... Fervilhavam anedotas, trocávamos impressões sobre jogos passados e os futuros, recordávamos os marotos dos árbitros e chegávamos quase sempre à conclusão de que todos os jogos perdidos se deviam às más actuações dos homens do apito!!!

Se do passeio voltávamos relativamente cedo, ainda havia quem, antes do jantar, bebesse um sumo de laranja, comesse uma ou duas bananas, ou então, numa visita à cozinha, o bom Pedro sempre arranjava uma “sandwich” de qualquer coisa boa e apetitosa. Entretanto, o relógio marcava as 19,30. Ao jantar tínhamos sopa, um prato de peixe e outro de carne, frutas e doce. Mas se alguém não tivesse gostado do peixe ou da carne, arranjava-se outra coisa. Ovos? Uma “tortilha”? Ordem para a cozinha e o Pedro executava-a sempre de bom grado, prontamente. Quanto ao vinho, servia-se em garrafinhas individuais de três decilitros, mas porque uns bebiam pouco ou nada, os outros - alguns, claro - aproveitavam os restos e ainda as garrafinhas dos jogadores que, por qualquer motivo, faltavam às refeições. Entenda-se, no entanto, que não se exagerava na bebida. Depois do jantar, uma nova visita ao café, tomava-se uma “bica”, acompanhada de uma bebida mais forte - por estarem habituados a isso - jogava-se uma partidinha de bilhar e… vamos embora porque já são dez e meia. Às 11 horas, mais ou menos, a rapaziada entrava nas camaratas, não para dormir porque ainda era cedo - lá em casa deitavam-se mais tarde… -e havia muito que fazer… Por exemplo: endireitar a cama, que aparecera posta ao contrário; fazê-la de novo porque o lençol estava à “espanhola”, ou colocar os ferros no seu lugar para não darmos um trambulhão, pois a cama estava posta em “sentido” !!! Aos que tinham a infelicidade de adormecer rapidamente, pintavam-se-lhe façanhudos bigodes. Aí por volta das onze e meia, estando já alguns rapazes com apetite, enviava-se um emissário ao amigo Pedro, e lá vinham umas “ Sandwiches” de carne assada (segundo se afirmava, alguns rapazes, lá em casa, estavam habituados à ceia).

Na camarata dos “sportinguistas”, o Jesus Correia era o “apaga a luz”, porque o interruptor estava junto da sua cama. Aí por volta da meia noite o Necas fazia funcionar o aparelho por ordem do nosso “capitão de equipa”, e à excepção de um travesseiro vindo do “exterior” ou do “interior” que atravessava, pelo ar, a escuridão do quarto para cair em cima de um pacato futebolista, o “resto era silêncio”…;

Passou-se um dia na Venda do Pinheiro; no outro…”vira o 'disco e toca a mesma”- como por lá se dizia!

É verdade que nem todos os estágios decorreram do mesmo modo, não sendo minha intenção criticar agora o que se fazia há meia dúzia de anos. Tudo isto serve apenas para ilustrar a minha discordância com alguns estágios da Selecção Nacional - tal como se faziam no meu tempo, não lhe encontrando outro benefício que não fosse o de permitirem a cura de mazelas físicas, o que, diga-se desde já, era muito pouco… E por não concordar com eles, fui alvo dos mais desencontrados comentários, alguns mais picantes e salgados do que os suculentos cozinhados confeccionados pelo Mestre Pedro!

A minha ausência causava engulhos não só a alguns jogadores como, também, a uns tantos dirigentes e ao público que, por ser o “Zé Pagante” dos campos da bola, se julgava no direito de criticar os meus actos, aliás sem curar de saber dos motivos do meu procedimento. Claro que os colegas, dirigentes e alguns adeptos do futebol que, directamente, me falavam no caso, ficavam completamente esclarecidos e, no geral, acabavam por me dar razão.

O pomo da discórdia resumia-se nisto: “Pois se os outros seleccionados vão para o estágio, porque não havia de ir eu?” Diziam-me em tom de conselho ou censura: “Não vês que a tua atitude pode não ser compreendida pela grande maioria dos teus companheiros de equipa e daí resultarem desentendimentos entre vocês todos? E se todos procedessem como tu, o que sucederia?”. E foi exactamente por pensar nos efeitos da reação de alguns colegas, que estive quase um mês num hotel do Estoril - um mês de almoços e jantares opíparos, porque o resto do dia era absorvido, em Lisboa, pelos meus afazeres verdadeiramente profissionais-eu e outros companheiros de equipa. Foi, ainda, pela mesma razão que estive vários dias na Venda do Pinheiro - duma vez quinze dias seguidos. De resto, ia para estágio à quarta ou quinta-feira, para “acamaradar” com a rapaziada, fazer ambiente e regressava à segunda-feira.

Se, naquele tempo, pudesse responder clara e publicamente à observação-censura…”e se todos procedessem como tu, o que aconteceria?” - responderia apenas isto: era o melhor que poderia suceder à equipa! Explico porquê: em minha modesta opinião que, claro está, poderá não ser a melhor e mais acertada, tal como decorriam alguns estágios da Selecção Nacional de Futebol, eram prejudiciais aos jogadores e, consequentemente, à equipa nacional. Seguia-se uma orientação a todos os títulos inadequada, imprópria e, por vezes, até condenável, nos capítulos da higiene alimentar e preparação atlética, independentemente de ocorrerem outros factores não menos condenáveis e que, por razoes bem compreensíveis, não desejo relembrar.

Apresentava-se como razão fundamental dessas concentrações da equipa nacional a necessidade de submeter os jogadores a uma raciona] e cuidada preparação físico-atlética, por se entender, talvez, que nos seus clubes os jogadores não eram rodeados dos cuidados indispensáveis. Mesmo que assim fosse, era lógico pensar-se que chegariam quinze ou vinte dias de estágio para se conseguir tão almejado e útil fim? Em meu entender, não. E para melhor se preparar a equipa nacional, seria benéfico sujeitar os jogadores, durante quinze ou vinte dias, a um regime de treinos inteiramente diferente daquele que lhes era imposto nos seus clubes? Creio também que não. Mesmo que os responsáveis pela preparação da equipa nacional considerassem enfermiça, defeituosa ou insuficiente a preparação dos jogadores nos seus respectivos clubes, seria aconselhável aumentar, intensificar, forçar a preparação atlética dos seleccionados nos quinze dias que durava o estágio e antecediam a realização de um jogo de futebol com a responsabilidade de um encontro internacional? Salvo melhor e mais abalizada opinião, eu discordo! Se pelo contrário, nos seus clubes os jogadores estivessem sujeitos a preparação considerada violenta - o que, na verdade, não se verificava - seria aconselhável fazê-la baixar, repentinamente, no curto prazo de quinze ou vinte dias? Creio que não. A indiscriminada higiene alimentar, a sobrecarga nesses quinze dias, não seria propícia a desequilíbrio orgânico, más digestões, aumento ou diminuição de peso - por vezes inconvenientes? Creio que sim.

Todos nós sabemos o que nos acontece quando, uma vez por outra, vamos jantar fora, num hotel ou restaurante. A mudança de ambiente, a profusão de luzes, o movimento, os pratinhos com rolinhos de manteiga espalhados sobre a mesa, a convidativa apresentação das travessas onde nos é servido o peixe ou a carne, a gentileza dos criados, tudo, enfim, contribui para que nessa noite de paródia se coma e beba mais do que é normal. Aos rapazes escolhidos para constituírem a Selecção Nacional de Futebol, acontecia a mesma coisa, quando entravam em estágio.

Ninguém se convence, nem eu quero insinuar, que os rapazes, só pelo facto de haver muito e bom, apanhavam indigestões ou bebiam em demasia. Nada disso, entenda-se. Apenas se passava com eles aquilo que acontece a qualquer cidadão pacífico que, uma ou outra vez, muda de ambiente, janta ou almoça fora de casa e, mercê de variadíssimos factores concorrentes, ultrapassa a bitola normal.

Do que não me restam dúvidas - sendo este o meu ponto discordante - é que o conjunto de circunstâncias verificado nos estágios, alterava, repentinamente, os hábitos dos jogadores, facto que, quanto a mim, não gerava benefícios. Quase se pode dizer que quando o indivíduo começava a aclimatar-se ao novo regime, quer dizer, quando desapareciam os efeitos do período transitório, realizava-se o jogo e findava o estágio. Claro que em quinze ou vinte dias muito pouca coisa útil se pode fazer e alguma coisa se fez nalguns períodos de estágio - mas, na maioria deles, a “mecha não dava para o cebo”…

Na realidade, os seleccionados disfrutavam, roesse lapso de tempo, de comodidades excepcionais, vivendo quinze dias como se lhes tivesse saído a sorte grande. Dispor de quarto com casa de banho anexa; descansar após o almoço, comodamente sentado num confortável “maple” de hotel de primeira classe, situado na maravilhosa Costa do Sol; gozar de mesa farta e, por fim, tomar o café no “hall” do hotel, servido por criados fardados, tudo isto, na nossa terra, constitui luxo dispensável, sobretudo para se atingir o fim em vista, com o estágio de atletas. É que a brusca transição prejudica em vez de beneficiar. Admite-se, porém, que aos jogadores fossem oferecidas todas essas comodidades, sobretudo no tocante a alojamentos: bom quarto e boa cama. Contudo, embora muitos jogadores saibam cuidar de si próprios relativamente à higiene alimentar, esse importante pormenor não pode, nem deve, deixar-se ao critério do atleta. Porquê? Não vejo necessidade de repetir algumas passagens do que atrás deixei escrito.

Ora, eu evitei sempre desfrutar de tantas comodidades. Preferi manter a disciplina, a regra, o método que a mim próprio impus, no meu modesto lar, durante todo o tempo em que pratiquei desporto, e confesso não estar arrependido ainda hoje.

Fui censurado e a minha atitude comentada em vários tons. Afinal, de que lado estava a razão?

Também, enquanto joguei futebol, fugi sempre dos “banquetes” logo após o jogo entre as duas equipas. Tal facto, claro, como não podia deixar de ser, deu ocasião aos mais desencontrados e azedos comentários… E por que não gostava eu de assistir a tais festanças? Di-lo-ei em poucas palavras: depois de hora e meia de esforço físico, de tanta emoção, de tanto desgaste de nervos, não me parecia aconselhável sentar-me a uma mesa e vá de comer uma sopa de camarão, uns filetes de pescada com molho de “mayonaise”, escalopes de vitela com batatas salpicadas, muito bem temperadinhos, etc., tudo isto regado a bom vinho. Depois café e conhaque; aos brindes, espumante, licores e outras bebidas que tais…

Não, amigos. Depois dos jogos… o melhor será uma refeição cuidada, higiénica, em nossa casa, em sossego, em ambiente limpo do fumo de bons cigarros e óptimos charutos…

É certo - e já o afirmei - que o jogador deve saber cuidar de si, pelo que, nos “banquetes de confraternização”, deveria limitar-se a comer pouco e beber pouco também, ou, mesmo, nada. Creio que isso seria tarefa algo difícil. É que sempre aparece quem nos convide a brindar pela Suíça - se o jogo foi com os helvéticos e… um “Arriba Espana” é inevitável… O melhor é não ir lá…»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). p 203 - 2011

Faz hoje um ano

 

Fernando Peyroteo nascera exactamente cem anos antes. Foi o maior goleador de sempre do futebol português.

Deixei aqui a evocação, nesse dia 10 de Março de 2018:

 

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«Vencedor de cinco campeonatos nacionais, quatro Taças de Portugal e sete campeonatos de Lisboa para o Sporting. Disputou 393 jogos com a camisola leonina em 12 épocas (1937-49), tendo marcado 635 golos (média de 1,61 por jogo, imbatível até hoje). Ao longo da carreira disputou 432 jogos marcando 700 golos (1,62 por jogo). Só no campeonato nacional de 1947/48 marcou 43 - recorde que durou mais de um quarto de século, até aos 46 golos de outro sportinguista, Yazalde, no campeonato 1973/74.

Fernando Peyroteo jogou vinte vezes pela selecção nacional, marcando 14 golos. É, ainda hoje, o português com melhor média de golos na selecção: 0,7 por jogo.

Outros máximos:

- É o jogador português com mais golos registados na história do nosso campeonato: 331.

- Foi ele quem mais golos marcou desde sempre num só jogo do campeonato: nove contra o Leça, em Fevereiro de 1942.

- Autor de mais golos consecutivos numa só partida do campeonato: cinco ao Vitória de Guimarães, também em Fevereiro de 1942.

- Marcou quatro golos num só jogo 17 vezes.

- Marcou cinco golos num só jogo 12 vezes.

Foi um dos melhores do mundo da sua geração. E só não se distinguiu ainda mais no capítulo internacional devido à II Guerra Mundial (1939-45).

Merece o Panteão, ninguém duvida.»

Memórias de Peyroteo (30)

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PORTUGAL - ESPANHA

Estádio Nacional 11-3-94

Resultado: 2-2

 

A 11 de Março de 1945, fiz o meu segundo jogo contra a Espanha e o sétimo na ordem cronológica de internacionalizações. Novamente empatámos a duas bolas mas, desta vez, não houve dúvidas e registou-se, justamente, que fui eu o autor dos dois golos da equipa portuguesa.

Este jogo Portugal - Espanha seria o primeiro encontro internacional a disputar no nosso magnífico Estádio Nacional e, como sempre, a população dos dois países viveu mais um grande acontecimento desportivo. Duas semanas antes do desafio já não havia bilhetes e os próprios jogadores se viram embaraçados para conseguir satisfazer as “encomendas” dos amigos. Para servir pessoas amigas que não acreditariam na minha impossibilidade de arranjar bilhetes, fui obrigado a socorrer-me de um contratador “amigo” que, por muito favor, me vendeu duas bancadas a cem escudos cada uma!…

O mesmo entusiasmo e espectativa dominavam os adeptos do futebol.

A nossa selecção perdeu uma boa oportunidade de ganhar à Espanha porque, desta vez, realmente, os espanhóis' nos enviaram uma equipa de fracos recursos, embora no país vizinho se dissesse que ela estava em óptimas condições, composta por elementos de classe e categoria comparáveis aos grandes Zamora, Langara, Regueiro, Quincoces, etc. Viriam a Lisboa jogadores capazes de realizar uma exibição demonstrativa do incontestável valor do futebol espanhol. Felizmente para nós tais afirmações não correspondiam à verdade, e digo felizmente porque, se assim fosse, teríamos sofrido uma das maiores derrotas. A nossa equipa não estava convenientemente preparada, bastando di2er que, em quase três meses de pseudo-preparação, nem uma só vez fizemos um treino no qual tivessem tomado parte os jogadores que defrontaram os espanhóis! E isto mais por culpa dos clubes a que pertenciam os jogadores convocados, do que por culpa do seleccionador. Assim foi e assim continua a ser. Mas adiante.

Empatámos um jogo que poderíamos ter ganho. Os espanhóis, jogando a medo, chegaram a estar a ganhar por 2-0! Calcule-se, pois, o que nós valíamos!!! Depois, mais pontapé, menos pontapé, mais corrida, menos corrida, lá conseguimos empatar… ,

Para alguns, joguei mal mas… fiz os dois golos da nossa equipa, cabendo-me ainda a sorte - que se transformou em glória inapagável dos anais do futebol português - de marcar o primeiro golo contra estrangeiros no Estádio Nacional.

Não quero alongar-me em considerações acerca da forma como a nossa equipa foi preparada para este jogo, já porque o tempo decorrido lhe fez perder o interesse, como também porque, referindo tudo em seus pormenores, teria de escrever um livro só para recordar os meus vinte jogos internacionais. Darei a vez aos jornalistas, transcrevendo o que alguns deles escreveram a meu respeito, a propósito do XV Portugal - Espanha em futebol:

 

Diário de Lisboa de 11-3-45:

“O avançado-centro com uma “cabeça” magistral fez o “goal”, o mais lindo “goal” da tarde. Uma ovação espantosa premeia o lance”

E mais adiante:

…”O avançado-centro leonino, num remate estupendo, conse guiu o 2,° golo e, com ele, o empate, sem quê a estirada de Eiza' guirre salve a situação.”

O jornal “O Século”, pela pena do seu redactor desportivo, ofereceu aos leitores o balanço dos meus sete jogos internacionais começando por escrever em título:

Sele jogos internacionais com oilo golos é o aclivo do popular avançado-centro Peyroteo, que neles foi o único português a marcar

“Fernando Peyroteo, avançado-centro do Sporting, autor das duas bolas marcadas no XV Portugal - Espanha é, hoje, sem dúvida alguma, o jogador verdadeiramente indispensável à equipa nacional. Sobre este assunto, não há a menor discordância nos meios futebolísticos.

É o avançado-centro ideal, no jogo moderno, em que a primeira missão ou mais alta qualidade a exigir do eixo do ataque é a de ter um grande poder de realização na zona de remate,

“Avançado-centro atlético, duro, combativo, com espírito de sacrifício para o choque insistente com os defesas e, sobre tudo isto, marcador de bolas, é, na verdade, uma exigência do futebol moderno, em todos os países. Zarra, Mundo, Campanal, Langara e outros grandes jogadores valorizaram-se por essas características. Em Portugal porém, depois de dois avançados-centro estilistas, de grande nomeada, Vítor Silva e Espírito Santo, apareceu um avançado-centro de tipo moderno, - verdadeira máquina de marcar bolas. E não tem sido pequena a sua tarefa na equipa do Sporting-e sobretudo na equipa de Portugal. Sem Peyroteo, tanto aquele clube como a equipa nacional perdem, com qualquer formação, sessenta a oitenta por cento do seu poder de ataque, a despeito de, hoje, ser lugar comum, em todas as equipas contrárias, este conceito: é preciso anular Peyroteo se queremos vencer…

“Realmente, tanto nos jogos de clube, como nos jogos internacionais, a preocupação dominante está em “marcá-io” estreitamente, de modo a evitar que ele consiga atirar à baliza. Nos jogos recentes, com o Atlético Aviación e com a equipa de Espanha, foi visível que o popular avançado-centro jogou sempre com “sentinela à vista” I Por vezes, a barreira de oposição era formada por dois ou três adversários. E isto, compreende-se bem, dificulta em extremo a sua missão, donde não ser difícil concluir-se, quando não marca, que nesse dia, Peyroteo se apagou um pouco… Mas, isso, nada tém de extraordinário. Aquilo que afinal surpreende é que, apesar de tão vigiado, de tão marcado e, às vezes, tão mal tratado pelos adversários, ele consiga ainda marcar tão elevado número de bolas.

“Anteontem foi autor dos dois pontos da equipa portuguesa - as duas bolas que fizeram o resultado. Mas a sua colaboração à equipa nacional espelha-se melhor nos sete jogos internacionais em que tomou parte.

A sua estreia de internacional realizou-se em Frankfurt, no jogo com a Alemanha, em que se empatou a uma bola - marcada por Fernando Peyroteo, Na semana seguinte, jogou-se em Milão o Suíça-Portugal, para o Campeonato do Mundo, em que se perdeu por 2-1 -sendo ele o marcador da única bola dos portugueses. No Portugal - França, em Paris, venceram os franceses por 3-2 - sendo as duas bolas marcadas por ele. Nos dois últimos Portugal - Espanha em que se empatou por 2-2, no domingo, e em 1941, das duas vezes foi ainda Peyroteo o único marcador. Dos sete jogos contra a Suíça - em Lausana e em Lisboa, - não marcou uma única vez, devendo, ainda, estar lembrada a severa marcação de que ele foi alvo por parte do famoso Minelli.

“Peyroteo é, assim, a pequena máquina de marcar bolas para o Sporting - e para a equipa nacional. Mas esta qualidade está ainda valorizada pela circunstância deste jogador nunca recorrer ao jogo violento ou irregular para marcar, É, ao mesmo tempo, um jogador correctíssimo e, tanto, assim que, há anos, recebeu o prémio da sua correcção desportiva, tendo sido enviado pelo “Século” a Londres para assistir ao maior espectáculo futebolístico do Mundo: a final da Taça de Inglaterra. Os desportistas portugueses, nessa altura, prestaram homenagem ao seu espírito desportivo, elegendo-o como <o jogador mais digno do magnífico prémio que este jornal instituiu para premiar o culto da ética desportiva. E agora, não há motivo algum para se dizer que ele não tem conservado as mesmas .excelentes qualidades desportivas.

“Peyroteo, em verdade, é um bom desportista e um magnífico avançado-centro, como já tivemos ocasião de verificar no jogo de anteontem.”

Penso que esta interessante resenha se deve a um grande mestre de futebol, cujo nome é de todos nós bem conhecido e que, ao tempo, tinha a seu cargo a secção desportiva do grande jornal O “Século”. Mas o mestre, falível como todos os homens, enganou-se ao afirmar que fui eu o marcador do golo português no nosso jogo contra a Alemanha, em Frankfurt; na verdade, esse golo foi marcado pelo Pinga. Tais enganos acontecem sem maldade, e por eles não vem mal ao Mundo!…

 

Cerca de dois meses depois deste jogo no nosso magnífico Estádio Nacional, seguimos para Espanha a fim de disputarmos novo prélio a 6 de Maio de 1945.

Não conhecia a cidade de La Coruna nem podia supor que o povo dessa linda terra era tão acolhedor, tão amigo dos portugueses e tão hospitaleiro. Os futebolistas que compunham a equipa nacional, atendendo à sua popularidade, foram alvo de carinhosas manifestações dé simpatia, mas o povo de La Coruna envolveu, no mesmo fraterno abraço, todos quantos acompanharam os nossos jogadores,

La Coruna estava em festa! Houve feira e touradas, nas quais tomaram parte os maiores matadores de Espanha. Respirava-se alegria, boa disposição, felicidade, Que boa gente, que bons amigos foram ali encontrar os portugueses nesta digressão por terras de Cervantes! Jamais a esquecerei, por tantas amabilidades e gentilezas que recebemos. Não me faltasse o espaço e muito teria de recordar, mas a finalidade deste livro é a de falar em futebol…

Perdemos por 4-2 o XVIII Portugal - Espanha em futebol.

A nossa equipa poderia ter vencido o encontro? É verdade que sim. Mas se o resultado nos tivesse sido favorável, seria lógico acreditar na nossa superioridade futebolística? Não e não! O futebol espanhol foi sempre e continua a ser superior ao nosso, e o facto de, neste jogo, as coisas poderem ter sido, talvez, resolvidas a nosso favor nos primeiros trinta minutos, em que os portugueses, jogando bem, perderam algumas ocasiões de fazer golos e, mesmo, depois do intervalo, quando o. marcador acusava 2-1 e F. Ferreira não transformou uma grande penalidade que nos daria o empate, tudo isso não chega para negar a incontestável superioridade dos nossos adversários.

Daqui não há que fugir: os espanhóis cedo compreenderam que o profissionalismo é indispensável ao progresso do jogo; sem jogadores inteiramente profissionais - orientados, claro está, por orgânica futebolística capaz - o futebol não passará de uma brincadeira de rapazes mais ou menos jeitosos para darem pontapés na bola. O problema- no país vizinho - foi encarado a sério e os resultados surgiram naturalmente - nem podia ser doutra maneira. Pena foi, porém, que na ilusão de que os modernos processos de jogo destruiriam a tradicional “fúria espanhola”, os técnicos espanhóis não tivessem acompanhado os progressos da táctica do jogo. Erro incompreensível e que Jevou a equipa nacional espanhola a sofrer tremendos desaires…

Por cá, a quando da realização do XVIII Portugal - Espanha, que jogámos na Corunha em 6 de Maio de 1945, continuava a pensar-se, como num sonho, que a guerra civil havia destruído o futebol espanhol e dava-se, como amostra, a fraca exibição da equipa que defrontámos dois meses antes no Estádio Nacional!!

Depois do jogo, vá de nos lembrarmos dos remates a razar a trave ou a bater nela, as defesas de sorte do guardião espanhol, uma grande penalidade que se perdeu e mais algumas que o maroto do árbitro não marcou, etc., etc… O costume… Quando, afinal, perdemos em La Coruna porque a equipa adversária nos foi superior e porque o futebol do País que defrontámos era e é - não tenhamos dúvidas nem ilusões! - melhor do que o nosso.

No que respeita à minha exibição nesse jogo, limito-me a dizer que, mais uma vez, fui o autor dos dois golos da equipa nacional portuguesa, e a transcrever parte de um artigo escrito por Cândido de Oliveira:

- “…Quem esteve na Corunha pôde confrontar, durante os 90 minutos, a classe dos cinco avançados espanhóis e dos cinco avançados portugueses e concluir: a diferença é flagrantemente favorável aos espanhóis. Peyroteo é, entre os portugueses, o único que pode ombrear com os espanhóis; os restantes, não”.

Javier Barroso, presidente da Federação Espanhola, afirmou: “Peyroteo simplesmente espantoso!” (Revista “Stadium”)

 

Portugal, 4 - Espanha, 1

 

Pela primeira vez na história do futebol dos dois países, Portugal venceu a Espanha ein jogo oficial por 4-1, em Lisboa, no dia 26 de Janeiro de 1947.

É certo que em encontros anteriores, o nosso grupo representativo poderia ter batido o da Espanha, mormente nos dois jogos realizados em Lisboa, empatados a duas bolas e, mais recentemente, no que se disputou na linda cidade de La Coruna, do qual os espanhóis sairam vencedores por 4-2. Mas, se de qualquer desses encontros a nossa equipa tivesse saído vencedora, não seria acertado atribuir a vitória à maior valia do futebol lusitano em confronto com o espanhol. Os nossos adversários apresentaram-se nesses encontros melhor preparados física e tecnicamente do que a grande maioria dos jogadores portugueses, e já me referi às razões que justificaram essa superioridade. Apenas num só ponto os portugueses deram clara indicação de supremacia: na táctica do jogo.

As equipas espanholas utilizaram processos tácticos antiquados, semelhantes aos que quase todas as equipas do Mundo adoptaram antes do advento do WM, apenas com a “variante” de fazerem recuar o médio centro e um médio lateral, entregando-se ambos à permanente vigilância ao avançado-centro português; no respeitante à tarefa imposta aos restantes componentes da equipa, o sistema táctico assentava em processos que o moderno WM destronara. Quer dizer: enquanto os médios, interiores e extremos espanhóis sofriam as consequências de uma marcação cerrada, imposta pelos modernos sistemas tácticos - quando se defende a própria baliza, claro está - os nossos interiores, alternadamente, os médios e extremos gozavam de relativa liberdade, o que, evidentemente, causava dificuldades à equipa espanhola. Só a comprovada inferioridade técnica e atlética de grande parte dos nossos jogadores em relação à dos espanhóis impediu a derrota destes.

Poderá agora objectar-se que, tendo as nossas equipas beneficiado de certa liberdade de movimentos, mercê das deficiências tác- ticas dos nossos adversários, não_ seria ilógico pensar-se e admitir-se a vitória da equipa portuguesa! É exacto; e por isso mesmo já disse que poderíamos ter ganho alguns dos jogos disputados imediatamente a seguir ao fim da guerra civil, quando os espanhóis estavam já mais ou menos bem preparados técnica e atlèticamente, mas inferiores a nós quanto aos sistemas tácticos baseados no moderno WM que os portugueses praticavam com razoável acerto e conhecimento. Mas a verdade é que a táctica está em tudo dependente do maior ou menor apetrechamento técnico dos jogadores, e os espanhóis, à maior capacidade táctica dos portugueses, opuseram sempre um muito superior conhecimento dos pormenores da técnica do jogo - boa finta, bom toque e domínio de bola, óptimo jogo de cabeça e, a culminar, remate fácil, rápido, fulgurante - tudo isto assente numa capacidade físico-atlética impressionante: boa corrida, bom tempo de entrada à bola (antecipação), bons no jogo alto e… fôlego de gato!

Sendo assim, aceite-se, com verdadeiro sentido das realidades futebolísticas, que a maior capacidade técnico-atlética dos jogadores espanhóis, anulava e vencia a melhor táctica dos portugueses, só não acontecendo isso quando a sorte e tantos outros imponderáveis do jogo penderam para o nosso lado.

As considerações que acabo de fazer acerca dos encontros disputados anteriormente pelas equipas de Portugal e da Espanha podem, à primeira vista, parecer descabidas neste momento em que mais apropriado seria apreciar o que se passou no XIX Portugal - Espanha, até mesmo porque, ao referir-me, a seu tempo, aos anteriores prélios, deveria ter abordado, também, e com maior clareza, o único ponto em que chegámos a ser superiores aos espanhóis: táctica de jogo. Porém, julguei ,mais aconselhável guardá-lo para agora, evitando, tanto quanto possível, repetições escusadas e, até, para que os elementos que me ajudarão a estabelecer certos pontos de contacto entre os jogos de então e os actuais, estejam mais vivos na memória de todos nós.

Ficou dito e, quanto a mim, sobejamente provado, que o futebol espanhol, no respeitante ao poder atlético e capacidade técnica dos seus jogadores, era muito superior ao nosso, superioridade que vinha sendo notada desde os tempos dos Zamoras, dos Regueiros, Langaras e tantos outros grandes futebolistas.

Durante muitos anos as duas equipas adoptaram processos tácticos idênticos, e como os espanhóis eram tecnicamente mais perfeitos, aliando à técnica, ou seja, à execução, um superior poder atlético, o prato da balança tinha, fatalmente, de pender para o seu lado. Mas à medida que o tempo foi passando e o futebol evoluindo, começou a notar-se que a anterior supremacia espanhola não era tão acentuada como em épocas mais distantes. É que os espanhóis acompanharam a evolução técnica do jogo e sempre cuidaram da preparação física dos seus atletas, mas mantiveram os mesmos processos tácticos, ao passo que os portugueses, melhorando um pouco no capítulo técnico do jogo, embora esbarrando com dificuldades de toda a ordem, não podendo, por isso, atingir o mesmo grau de perfeição técnica, valiam-se, de mistura com vontade e querer, de sistemas tácticos para dificultar a acção dos seus eternos rivais.

O futebol deu um grande passo em frente quando da alteração dás suas leis, relativamente ao “fora de jogo”, alteração que motivou o estudo e adopção do célebre WM de Chapman.

 

Abro aqui um parêntesis para esclarecer os leitores menos conhecedores, de que David Jack, antigo”jogador inglês e autor do livro intitulado “ Soccer”, afirma ter sido Buehatt o criador do WM e que Chapman apenas o passou dá teoria à prática.

Retomemos o fio da meada.

Algum tempo depois de já noutros países o WM ser um facto, os nossos orientadores técnicos e treinadores apadrinharam-no e as nossas equipas (qual delas a primeira?) passaram a utilizá-lo. A partir desse momento -com os espanhóis ainda arreigados às antigas tácticas - a selecção nacional portuguesa começou a impor-se e a baixar o nível de supremacia espanhola.

Cada equipa com suas qualidades e defeitos, entrámos no relvado do Estádio Nacional na tarde de 26 de Janeiro de 1947 para disputarmos o XIX Portugal - Espanha.

A Espanha perdeu e perdeu bem! O resultado de 4-1 dispensaria comentários ao jogo se os números, em futebol, não fossem, muitas vezes, enganadores, e, neste encontro, assim aconteceu. Derrotámos o adversário por 4-1, mas se no final do jogo o marcador acusasse um saldo a nosso favor de 6 ou 7 golos, não havia razão para se reclamar da justeza do resultado!

A turma espanhola era muito melhor do que as que defrontámos nos jogos empatados a duas bolas e, porventura, um tanto superior à apresentada na Corunha. Todos os jogadores se mostraram óptimos no controle da bola, no passe curto, jogo de cabeça, bom toque de bola e bons atletas. Mas num pormenor a equipa espanhola foi confrangedoramente inferior - pior até do que nos jogos anteriores: na “ Tácticà”. Começaram o jogo com a formação WM mas a breve trecho compreenderam não estarem à altura de prosseguir. Tentaram, depois, enquadrar-se no sistema táctico do adversário, o que de nada lhes valeu, evidentemente.

Em Espanha nenhuma equipa de clube utilizara, ainda, o WM e, sabido como é que as selecções nacionais são constituídas por elementos vindos das equipas de clube, como poderiam os jogadores espanhóis - por muito bons executantes que fossem - adaptar-se, em poucos minutos, a um processo de jogo que para eles era, apenas, conhecido em teoria? De maneira nenhuma - é a resposta. Foi um erro indesculpável do seleccionador espanhol.

Na meia dúzia de treinos que a equipa representativa da Espanha realizou, experimentou - ao que parece com bons resultados - o nosso já muito conhecido WM, impondo-o à equipa como se fosse para defrontar um conjunto desconhecedor do sistema ou de baixa valia!!! Os nossos amigos erraram no prognóstico, porque encontraram pela frente onze rapazes perfeitamente identificados e integrados no sistema que eles vinham experimentar!

O futebol não permite nem admite improvisações; os nossos adversários para este XIX encontro, não pensaram como nós e, por isso, desceram ao relvado com um sistema táctico improvisado, não tendo em consideração que os antagonistas, por mais experimentados, melhor saberiam tirar partido dessa improvisação… Uma táctica não pode assimilar-se de um momento para ó outro nem dela se tirará pleno rendimento, senão depois de um longo período de experiência e adaptação, maior ou menor conforme a inteligência e condição técnica dos jogadores da equipa.

Vistos os factos, analisados e ponderados à luz do que se passou neste Portugal - Espanha, provou-se a grande vitória dos modernos processos tácticos - WM e suas possíveis variantes - em contraposição aos antigos sistemas defensivos e atacantes. Este um dos aspectos curiosos do prélio de que vimos tratando.

E chegámos ao momento de tirar conclusões acerca dos jogos anteriormente disputados. Não é difícil concluir-se, pois, que os resultados conseguidos pela “equipa de todos nós” -e que não podem considerar-se maus de todo - não assentaram na maior valia do futebol português em relação ao do País vizinho, relativamente aos pormenores físico-atlético-técnicos do jogo. Apenas nos servimos de melhor processo de jogo e com ele pudemos disfarçar um pouco a nossa inferioridade atlético-técnica, mas daí a pensar-se em igualdade ou superioridade do nosso futebol em confronto com o dos espanhóis, vai um grandíssimo passo… Esta é a verdade, que suponho não poder sofrer contestação, pelo menos contestação séria…

Ora, ao referir-me a um anterior encontro entre as duas selecções, escrevi: Mas um dia virá em que os espanhóis encontrem pela frente uma equipa portuguesa atlético-técnico-tacticamente bem preparada. Se isso suceder, então os nossos vizinhos terão muito que contar… assim eles se mantenham agarrados aos antiquados processos de jogo!

Tal pensamento tornou-se, felizmente, em realidade, e a equipa de Espanha perdeu por 4-1, resultado lisongeiro para o nosso adversário, como já disse.

Pois é verdade; para este XIX Portugal - Espanha, foi possível, mercê de excepcional forma em que se encontravam os jogadores, formar-se uma selecção capaz de praticar bom futebol e de levar de vencida o nosso antagonista. Resumindo: Se em encontros anteriores a superioridade da equipa portuguesa foi notória no capítulo táctico do jogo, contra a superioridade atlético-técnica dos espanhóis, donde resultava, muito naturalmente, a supremacia do futebol do País vizinho em relação ao nosso, e uma vez a nossa equipa constituída por jogadores em óptima condição atlético-técnica comparável à dos adversários e tàcticamente a eles superiores, não foi algo difícil vencer por 4-1 essa equipa espanhola. E não foi só vencer: foi vencer e convencer, tanto os espanhóis como todos quantos assistiram a este encontro, da justeza do resultado conseguido pela nossa equipa nacional.

Desta feita pelo menos, o nosso futebol foi algo superior ao espanhol.

E assistiu-se, também, a uma esmagadora vitória dos modernos processos de jogo sobre os antigos…

 

E, agora, falemos um pouco de outros pormenores de equipa que, sem dúvida nenhuma, muito contribuíram para a boa exibição do conjunto português e que, por outro lado, destroçaram a equipa antagonista.

Desde há muito que os grupos espanhóis vinham adoptando o sistema de recuar um dos médios de ataque com o objectivo de reforçarem a guarda ao avançado-centro contrário, já de si confiada ao médio-centro. Por isso, não seria descabido admitir-se que, neste XIX Portugal - Espanha, o processo se manteria, muito embora estivéssemos prevenidos contra a hipótese de o adversário utilizar o WM como base de movimentação e colocação dos seus elementos no terreno. Mesmo assim, quanto a este pormenor, estávamos certos de que os espanhóis não confiariam a um só jogador o “policiamento” do eixo do ataque português e, por via disso, além do estudo e ponderação das forças e fraquezas do adversário, estudámos jogadas que facilitassem, quando bem executadas, a missão do ataque português. Assim, tendo em atenção o recuo do defesa central e de um dos médios de ataque da selecção espanhola, pensou-se em tirar todo o proveito possível da liberdade que tal plano de jogo daria, alternadamente, a cada um dos nossos interiores.

Os esquemas seguintes dão uma mais perfeita noção de como esperávamos que os espanhóis actuassem e do aproveitamento dessa circunstância:

o quadro n.° 1 indica-nos que toda a linha atacante da equipa portuguesa tem guarda à vista, excepto o nosso interior direito, que dispõe de liberdade total; vê-se, também, que o avançado-centro tem atrás de si o defesa-central e à frente o médio esquerdo adversários.

O quadro n.° 2 mostra-nos que o interior esquerdo português de posse da bola, a endossou ao seu companheiro da direita que correu na direcção da baliza contrária, ao mesmo tempo que o interior esquerdo, depois de ter passado o esférico ao seu companheiro, tomou, igualmente, o caminho das redes, deixando atrás dele o médio que o guardava. Entretanto, mais adiantado, o avançado-centro, no intuito de deixar terreno livre para a manobra do interior direito, desmarcou-se para este lado levando consigo o defesa-central - seu guarda permanente.

Por último, o quadro n.° 3, dá-nos o resultado final da jogada: vê-se que o médio esquerdo veio ao encontro do nosso interior direito e que este entregou a bola, rapidamente, ao seu colega da esquerda, mantendo o avançado-centro a mesma posição no flanco direito, obrigando o defesa central a não interferir na jogada, sob pena de falhar na missão que lhe foi imposta; e se o fizesse, deixaria o centro-avançado ém condições de receber o passe e alvejar a baliza.

Deste modo, ora Travassos, ora Araújo, dispuseram da liberdade suficiente para iniciarem e concluírem os ataques da equipa portuguesa, marcando, cada um, dois golos, mas toda a liberdade que lhes foi dada nasceu da preocupação da defesa espanhola que destacou os seus melhores elementos defensivos (2) para anularem a acção do avançado-centro português.

A ideia dos espanhóis, ao recuarem um dos seus médios, tinha como objectivo tirar ao avançado-centro adversário toda a possibilidade de rematar à baliza, contando e esperando que neste jogo, como nos outros, ele recebesse dos seus interiores passes longos, em profundidade que, invariàvelmente, seriam interceptados. Mas se já por três vezes caíramos nesse erro, não era de admitir a repetição e, por isso, se estudou o processo, aliás simples, de contrariar as intenções dos nossos adversários.

Os espanhóis sacrificaram dois elementos da defesa, pondo-os como sentinelas ao avançado-centro português; nós sacrificámos o nosso avançado-centro, impondo-lhe a tarefa de desorientar a defesa espanhola, desmarcando-se e levando atrás de si os seus dois guardas e deixando, por consequência, o terreno livre a Travassos e Araújo - autores dos quatro golos de Portugal. Tanto assim foi que, no final do encontro, o seleccionador, Dr. Tavares da Silva e o treinador Augusto Silva - dois bons amigos - felicitaram-me pela vitória e acrescentaram: - “Cumpriste o teu dever é certo, mas por teres sacrificado as tuas qualidades de bom rematador em favor do plano táctico da equipa, sem azedume nem egoísmo, aqui estamos a dar-te os merecidos parabéns. Da tua actuação resultou o óptimo rendimento dos nossos dois interiores (Travassos estava presente) que permitiu à equipa levar de vencida os espanhóis”.

Sem dúvida, cumpri o meu dever, esforçando-me por colaborar no bom rendimento da equipa; sabe bem, no entanto, verificar que que o nosso sacrifício é compreendido e apreciado.

O distinto jornalista José Olímpio - que não tenho o prazer de conhecer pessoalmente - escreveu o seguinte no jornal “A Bola” de, salvo erro, 27-1-947:

- “Olhe-se, por exemplo, os casos particulares de Zarra e de Peyroteo. Ao primeiro lance de olhos, ambos “fracassaram” (deixai o pobre do galicismo!) na sua missão especial: “marcar tentos”. No entanto, pondere-se nos diferentes resultados que a sua ida ao choque, deliberadamente, deu para suas equipas. Enquanto Zarra não conseguiu libertar, no verdadeiro instante, os seus interiores, graças à relativa perfeição “estratégica” do conjunto português, Peyroteo arrastou consigo toda a defesa espanhola. E disso beneficiaram os interiores”.

Depois, noutro lugar, o mesmo jornalista pergunta:

-”Onde estavam os interiores quando Peyroteo precisou deles?”

Pelo que ficou exposto, verificou-se que os interiores portugueses gozaram, alternadamente, de plena liberdade de manobra, e isso porque o médio espanhol a quem deveria caber a missão de guardar um dos nossos meias pontas, veio reforçar o “bloqueio” ao avançado-centro lusitano. Ora, dessa movimentação livre de Araújo e de Travassos nasceu a marcação dos quatro golos da nossa equipa. Deu resultado, portanto, o sistema táctico do conjunto da equipa das quinas, mas era lógico admitir, também, que os defensores espanhóis, mormente o médio que recuara, se apercebesse de que deveria cuidar um pouco mais do que até aí do nosso interior!!! E, na verdade, isso sucedeu. Assim, por ter sido hipótese prevista e esperada, assentou-se em que, a partir desse momento, melhor seria começar a utilizar-se o passe em profundidade ao avançado-centro, para terreno apropriado, visto dispor ele agora de maior liberdade. Esta uma hipótese, e, entre outras, mais esta: os interiores e médios lançariam os extremos e estes procurariam enviar a bola para o terreno central de modo a permitir a entrada do avançado-centro de frente para o esférico. Enfim, em tais circunstâncias, seria aconselhável procurar-se uma maior troca de passes de bola entre os cinco da frente, uma vez que os dois interiores já não dispunham da liberdade inicial de manobra. Por outras palavras: seria acertado procurar a colaboração do centro dianteiro de modo diferente daquele que em princípio se fez. E o que sucedeu? A esta pergunta respondeu já, por mim, José Olímpio. No entanto, quero acrescentar que, dentro do campo - e cá fora também - se começou cedo de mais a “viver”, a antegozar a certeza da vitória e se esqueceu o normal seguimento do jogo… É natural que assim tivesse acontecido; pois não era a primeira vez que se ganhava à Espanha?… E de que maneira!!!

Enfim, o que lá vai, lá vai, e o que é preciso é fazer desporto. Tudo o resto são… cantatas e paisagem…

A terminar, um episódio curioso: A Federação Portuguesa de Futebol, que estabelecera um prémio de 3.000$00 (três mil escudos) em caso de vitória da nossa equipa, acabou por aumentá-lo para 5.000$00 (cinco mil escudos)… Não teria sido por iniciativa própria, mas demonstrou boa vontade em atender uma “torcidazinba” feita pelos jogadores junto do Inspector dos Desportos Sr. Capitão António Cardoso, e deste nosso amigo - muito particularmente - aos dirigentes federativos… E ao fim e ao cabo, foram cinco mil escudos -o maior de todos os prémios que recebi em dezasseis anos de futebol! E sabem o que aconteceu? Para satisfazer os pedidos de bilhetes para este memorável XIX Portugal - Espanha, levantei na Federação a bagatela de quatro mil e quinhentos escudos de “papelinhos” de entradas no Estádio; depois, os amigos foram aparecendo, fui entregando os bilhetes e recebendo o dinheiro de cada um dos “clientes” - fora algumas borlas - escudos que fui gastando sem dar por isso… Quando me preparava para receber o chorudo prémio de cinco mil escudos, lembrei-me de que tinha de lá deixar quatro mil e quinhentos escudos. Quer dizer: o prémio não me serviu de proveito. 6 dinheiro recebido por “conta-gotas”, desaparece cómo o fumo dum cigarro. Não tive o prazer de receber, inteirinhos, os famigerados cinco mil escudos de prémio.

Sempre os bilhetes, meu Deus! Malvados bilhetes!!!»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 185 – 203

Memórias de Peyroteo (29)

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Das vinte vezes que fui convocado para representar Portugal em jogos internacionais de futebol, cinco foram contra a Espanha.

1.º - Em Lisboa, a 12 de Janeiro de 1941. Resultado: Empate 2-2;

2.º - Em Lisboa, a 11 de Março de 1945. Resultado; Empate 2-2;

3.° - Na Corunha, a 6 de Maio de 1945. Resultado: Derrota 2-4;

4.° - Em Lisboa, a 26 de Janeiro de 1947. Resultado: Vitória 4-1;

5.° - Em Lisboa, a 20 de Março de 1949. Resultado: Empate 1-1.

 

Nestes cinco encontros marcaram-se 21 golos, sendo 11 de Portugal e 10 da Espanha.

É curioso notar que embora se trate de número ímpar, cada equipa averbou 1 vitória, 3 empates e 1 derrota, ficando Portugal com a vantagem de 1 golo, pois marcou 11 e sofreu 10. Decerto, não será levado à conta de vaidade dizer que dos 11 tentos, 7 foram marcados por mim.

Se, quando eu era um rapazola de 13 ou 14 anos e jogava futebol na equipa dos miúdos da minha terra angolana, alguém me dissesse que ainda um dia vestiria a camisola dás quinas para um encontro internacional contra Espanha, eu duvidaria do estado mental do… bruxo! No entanto, a minha reacção ao escutar previsão semelhante mas referente a jogos contra quaisquer outras nações, como, por exemplo, a Itália, Alemanha, Suíça, etc., não seria a mesma que contra “nuestros hermanos”. É que, em Angola, mormente em Moçâmedes, não só a rapaziada adepta do-futebol mas todo o povo da terra, vibra intensamente com a realização dos jogos entre Portugal e a Espanha. Pode a equipa portuguesa jogar contra qualquer outra de categoria muito superior à dos espanhóis, que o caso não assume aspecto de acontecimento nacional.

Naquele tempo, as notícias referentes ao futebol metropolitano só chegavam a Moçâmedes quase um mês depois dos factos consumados, já quando, na Metrópole, o caso havia passado à história e ninguém se lembrava das “burrices” cometidas pelo seleccionador quando escolhera os jogadores, nem dos golos “perdidos infantilmente” ou da incapacidade de certo jogador “que já está velho mas tirou assinatura para a selecção…”. Em Angola líamos as notícias referentes ao jogo com tanto interesse como se ele se tivesse realizado na véspera, e daqui se conclui que, lá como cá, o Portugal - Espanha em futebol é sempre um grande acontecimento desportivo.

 

A 12 de Janeiro de 1941 disputar-se-ia em Lisboa mais um jogo de futebol entre as equipas representativas de Portugal e da Espanha. O bruxo de que eu duvidaria, acertou na previsão e a minha estreia neste grande encontro era, agora, uma realidade.

Nas duas ou três semanas que o antecederam não se falava noutra coisa; a procura de bilhetes era extraordinária e o campo das Salésias seria pequeno para acomodar quantos desejavam assistir ao prélio.

O seleccionador escolheu um lote de jogadores com o qual formaria a nossa selecção. Havia dúvidas na inclusão deste ou daquele elemento e alguns jornalistas da especialidade entregavam-se ao trabalho de discordar com o seleccionador quanto a escolha dos jogadores, mas o certo é que, no que me dizia respeito, todos estavam de acordo, felizmente…

Perturbado e enervado por ir jogar contra os nossos vizinhos espanhóis? Não, francamente não. Para mim, tratava-se simplesmente de um jogo internacional, com todas as responsabilidades inerentes a tais encontros sem, contudo, esquecer que perder ou ganhar são consequências lógicas do próprio jogo. No entanto, se é certo que o jogo em si não constituía razão suficientemente forte para me enervar, a verdade é que o público entusiasta do futebol, ao exigir, descabida e incompreensivelmente, do jogador aquilo que ele muitas vezes não pode dar, preocupava-me um tanto. De resto, sobre este assunto, já disse o que penso.

Afinal, o jogo disputado em 12 de Janeiro de 1941 não teve história, assinalando-se apenas que, ao contrário do habitual, em vez de perdermos, empatámos a duas bolas - dois tentos marcados por mim. E já que do encontro pouco ou nada resultou digno de registo, julgo oportuno aproveitar o ensejo para exteriorizar o que sempre pensei acerca do tão decantado complexo de inferioridade da equipa portuguesa quando em jogo contra o grupo nacional espanhol.

Matematicamente, o problema pode ser posto deste modo: em futebol, Portugal está para a Espanha assim como o Olhanense está para o Sporting.

Em primeiro lugar teremos de encontrar o motivo principal, justificativo dos desaires sofridos pela equipa algarvia quando jogava contra o Sporting e que era, sem dúvida, a comprovada diferença de categoria futebolística existente entre as duas equipas.

Que o Olhanense possuía, no meu tempo, alguns jogadores de grande valia é incontestável, mas a verdade manda que se diga que o Sporting estava melhor apetrechado. Ora, se são os bons jogadores que formam as boas equipas, não restam dúvidas de que a do Sporting era em muito superior à do Olhanense e, portanto, sem a menor hesitação, encontro a chave do problema: o Olhanense perdia com o Sporting porque o primeiro era inferior ao segundo.

Poderá argumentar-se que o Olhanense vencera equipas tão boas ou melhores que a do Sporting, mas esta observação não destrói, por completo, o meu ponto de vista e a finalidade a que pretendo chegar.

Reconhecido e provado que a turma algarvia era inferior à dos “leões”, procuremos outros factores concorrentes para inferiorizar a equipa de Grazina frente à de Álvaro Cardoso. Os jogos que os algarvios disputavam perante o público, na sua terra, ou os que realizavam em Lisboa contra qualquer equipa que não a do Sporting, despertavam sempre muito interesse na massa associativa do Clube, independentemente da vontade de vencer que animava os componentes da equipa, mas não estou em erro se afirmar que todos os adeptos do Olhanense não se importariam que a sua equipa mais representativa perdesse todos os jogos de um campeonato se tivessem a certeza de vencer o Sporting Clube de Portugal… Matariam o carneiro que hoje deve estar muito velhinho!!!

Os anseios e as reacções do público olhanense quando a sua equipa defrontava o grupo leonino, eram totalmente diferentes do que sucedia quando o adversário era, por exemplo, o Benfica, o Belenenses ou o Futebol Clube do Porto. Esse ardente desejo de vitória, o prazer e alegria que a derrota do Sporting lhes proporcionaria seria de tal modo forte e grande, que os dominava, os perturbava e fazia esquecer, até, a inegável diferença de categoria existente entre a equipa de que são adeptos e a adversária. Por isso, não poucas vezes, chegaram a gozar, antes da realização do encontro, o prazer de uma vitória que, afinal, embora estivesse plenamente ao seu alcance, se transformou em amarga derrota.

O jogador sabe de tudo isso porque vive o mesmo ambiente, vive dia a dia em contacto com a massa associativa do Clube, conhece os seus desejos, sente-os, vibra com eles e… enerva-se, perturba-se, excita-se mesmo sem o desejar. O jogador sabe, também, que a derrota trará, para os amigos do Clube, um profundo desgosto, e como não lhe bastasse já a responsabilidade do jogo em si, vem ainda a “responsabilidade” de alegrar e consolar a gente da sua querida terra. Embora alguns jogadores admitam a vitória tendo em atenção o melhor apetrechamento técnico, táctico e, porventura, físico do adversário, sentem que, se perderem o jogo, os seus adeptos não lhes desculparão a derrota; a semana seguinte será um pesadelo porque, a toda a hora e a todo o momento, ouvirão falar do desaire sofrido:-”O Olhanense perder outra vez com o Sporting? Então nunca mais ganhamos? Vê lá isso no próximo domingo! Não nos dês esse desgosto; atira-te a eles sem medo! Dá cabo deles; vocês têm que ganhar desta vez…

Ora bem ; chegámos ao ponto: Não será isto o que se passa nas semanas que antecedem um Portugal - Espanha? Não será verdade que se a Equipa Nacional perder um jogo contra a Suíça, a Itália ou o Egipto, o leitor se arrelia menos com isso do que se a rapaziada sofrer uma derrota da Espanha?

Com os jogadores da Selecção Nacional passa-se a mesma coisa do que com os futebolistas olhanenses: Todos ouvem aquelas frases e procuram afastá-las do pensamento mas, por muito fortes de espírito que sejam, não conseguem alhear-se por completo da onda de tristeza - às vezes indignação! - que o grande público fará levantar contra eles se perderem um jogo que “é preciso” ganhar!!! (Como é tão mal compreendida a ideia desportiva!!!) Sendo assim - e assim é na realidade - parece-me que o público contribue, sem querer, para a inferioridade da nossa equipa em jogo contra a Espanha, por que se esquece da inegável superioridade futebolística dos nossos vizinhos e crê, seguramente, na vitória. Chega o dia do jogo, vai para o campo de bandeirinha na mão, supondo que os jogos se ganham só com gritos de incitamento… Surgem as dificuldades, a equipa nacional não dá o “rendimento que se esperava”, baixam as bandeirinhas e ouvem-se os assobios! Que os espanhóis dispõem de um campo de recrutamento de jogadores muito maior do que o nosso; que são 100% profissionais há mais de uma vintena de anos; que mercê desses factos o seu futebol progrediu incomparavelmente mais do que o nosso; que a orgânica do futebol espanhol é muito superior à nossa e, por isso, lhes possibilitou a cuidada preparação de jovens com qualidades, fazendo deles excelentes praticantes da modalidade - de tudo isto o público se esquece lamentavelmente! Quer, deseja, quase exige que os nossos seleccionados façam o milagre de ganhar aos espanhóis!

As manifestações de simpatia dispensadas aos jogadores no decorrer dos jogos são necessárias, dão coragem e os rapazes sabem apreciá-las; apoiam-se nelas para fazerem mais e melhor, mas o ambiente de segura vitória que grande parte dos entusiastas da bola cria à volta do encontro, menosprezando o real valor do adversário e a ideia desportiva, é prejudicial ao público que as criou e aos jogadores. O pensamento de ganhar o jogo está não só no espírito do público como no dos componentes da equipa, mas com uma diferença: os adeptos da bola admitem a vitória como certa, ignorando - ou fingindo ignorar - que o adversário, regra geral, nos é superior; nós, os jogadores, vamos para o campo com vontade de ganhar o encontro, lutamos pela vitória até ao limite das nossas forças, mas não olvidamos o valor da equipa que defrontamos. Se assim sucedesse, o resultado, na maioria dos casos, seria catastrófico -ainda mais desagradável quanto o foram alguns registados nos jogos contra a Espanha.

É dever de ofício nenhum jogador e, consequentemente, nenhuma equipa ignorar o valor do adversário porque, ciente dele, procurará dar-lhe luta explorando os seus pontos fracos. O futebol é um jogo e em jogo tudo é possível.

Os resultados conseguidos anteriormente pela equipa das cinco quinas, pela expressão dos números, podem considerar-se bons e confirmam a “gloriosa incerteza do desporto”, mas não atestam a nossa superioridade técnica e física (preparação atlética). Nas tácticas sim, fomos superiores e, por isso mesmo, pudemos averbar resultados lisonjeiros. Na série de cinco jogos em que tomei parte verificou-se igualdade absoluta no que respeita a vitórias, empates e derrotas, com um golo a nosso favor. Mas os números são, muitas vezes, enganadores.

 

Nasceu triste o dia 12 de Janeiro de 1941, e a tarde era cinzenta, sem sol, antes de chuva impertinente. O campo das Salésias estava completamente cheio daquele público que tinha quase por certa a vitória da equipa nacional porque, em seu entender, os espanhóis estavam a jogar menos do que nós.

A marcha dos campeonatos em Espanha foi prejudicadíssima pela guerra civil que enlutou o País vizinho e amigo, mas à data do encontro que íamos disputar, já o seu futebol se encontrava em franco ressurgimento. A regularidade dos campeonatos oficiais havia trazido aos jogadores espanhóis o indispensável poder atlético e apuramento técnico. Tudo ou quase tudo voltara à normalidade, pelo que os nossos eternos grandes rivais no desporto, estavam bem preparados.

Quais os motivos para tão exagerado optimismo?

O nosso público tinha ainda bem presente na memória a fraca exibição da equipa espanhola que nos visitara dois anos antes, menosprezando, porém, este pormenor importante: em dois anos, ou melhor, em duas épocas, os espanhóis trabalharam a fundo pelo ressurgimento do seu futebol. Organizaram os campeonatos, disputaram muitos jogos e isso trouxe-lhes o que haviam perdido durante a guerra ^civil: força física e boa execução técnica.

É curioso anotar que se julgava possível a vitória dos portugueses mais pela inferioridade momentânea dos espanhóis, do que pela melhoria ou valor do futebol português, donde se conclui que sempre se considerou o futebol espanhol superior ao nosso…

Os “optimistas”, fazendo juízos errados, anteviam a hipótese de batermos… em mortos! Admitindo que assim sucedesse, para mim, pessoalmente, uma vitória nessas circunstâncias era destituída de valor.

A verdade, porém, é que, com os espanhóis a jogarem quase o seu normal, podiamos ter ganho o encontro de 12 de Janeiro de 1941. O estado do terreno, cheio de lama, prejudicou-nos muitíssimo, beneficiando os nossos adversários que, no seu País, jogam quase sempre em campos encharcados.

Registou-se um empate a duas bolas, tendo as duas equipas jogado francamente mal, não chegando a mostrar o seu valor. Na minha opinião, este encontro não nos deu ensejo para se ajuizar do valor do futebol espanhol nesse momento, mas julgo que não estavam a jogar menos do que nós, apesar das contrariedades e desgraças por que passaram. E que, embora com o terreno enlameado e, portanto, mau para se jogar bom futebol, os espanhóis mostraram-se muito superiores aos portugueses nos pormenores físico-técnicos do jogo, só falhando, como de costume, na organização táctica da equipa, do que resultou preciosíssima vantagem para o grupo português e que permitiu aos seus componentes esconderem um tanto as suas dificuldades técnicas com a liberdade de manobra de que dispunham.

Mas um dia virá em que os espanhóis encontrem pela frente uma equipa portuguesa físico-técnica-tacticamente bem preparada. Se isso suceder, então os nossos vizinhos terão muito que contar… Assim eles se mantenham agarrados aos antiquados processos de jogo!

Para a história desse encontro ficou anotado, nas críticas e comentários, que eu marquei um golo, mas nos apontamentos que possuo acerca da minha vida de futebolista, estão registados como marcados por mim os dois golos obtidos pela equipa nacional.

No jornal “Os Sports”, n.° 2,448, de 13 de Janeiro de 1941, escreveu o meu amigo e jornalista Manuel Mota:

“Carlos Pereira marca a penalidade com um pontapé dirigido directamente às redes. Echevarria defende, atrapalha-se coro a bola e larga-a para dentro da baliza. Quando Peyroteo, aliás oportuno, deu o pontapé, já a bola tinha ultrapassado a linha de “goal”.

Ora, em apontamento à margem do meu “carnet” onde se encontram anotados todos os golos que marquei, lê-se:

“Carlos Pereira atira à baliza, o guarda-redes espanhol larga a bola que caiu sobre o risco fatal, mas não o ultrapassou porque a lama prendeu o esférico. Eu, seguindo a marcha da bola, toqueia-a para dentro da baliza e, só então, o árbitro apitou para “golo”.

Não me foi atribuído um tento que, na realidade, marquei nesse jogo em que tudo me correu mal. Paciência! É um a menos na conta de muitas centenas…

Nesse mesmo número do jornal “Os Sports” um crítico da especialidade escreveu:

“Peyroteo, muito vigiado e sem domínio de bola, não conseguiu corresponder ao que dele se esperava A luta, por vezes irregular, que lhe deram os adversários, deve tê-lo perturbado um pouco…”

Só eu sei e só eu senti essa luta, por vezes irregular, e o desgaste físico causado por ela e pela lama…

Equipa portuguesa: Azevedo; Simões e Guilhar; Amaro, Carlos Pereira e Francisco Ferreira; Mourão, Pireza, Peyroteo, A. de Sousa (Pinga) e João Cruz.»

 

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 177 – 184

Memórias de Peyroteo (28)

«PORQUE NÃO FOMOS AO BANQUETE?

 

Na 6.ª feira ou no sábado - vésperas do jogo - o nosso bom amigo e treinador Augusto Silva, procedeu à distribuição dos convites para o banquete a realizar no Avenida Palace Hotel. Lembro-me de que ao recebê-lo, alguns jogadores, no número dos quais me incluo, disseram:

- “Esperem lá por mim! Não sei falar inglês e os dirigentes portugueses decerto não terão prazer em falar-nos. Pelo menos assim o têm demonstrado!…

Depois do jogo, já no autocarro que nos transportaria ao Rossio, apareceu um dirigente para nos “lembrar” que o banquete era às 21 horas no Avenida Palace Hotel e um dos jogadores disse-lhe;

- “Quando quisemos falar consigo, nunca estava na Federação e agora vem lembrar-nos de que há banquete! Mas não tenha dúvidas de que não vou lá!…”

O facto de termos perdido por dez a zero foi o suficiente para se pensar que os jogadores não compareceram ao banquete por terem sofrido tão pesada derrota. Afirmou-se também que a equipa combinara não comparecer 1 Aqui está outra afirmação infundamentada, injusta e, porventura, maldosa. Ninguém combinou coisa alguma a este respeito, nem a derrota influiu na decisão individual tomada pelos componentes da equipa nacional.

O que não nos pareceu acertado foi:

1- A Federação arrecadar seis ou sete centenas de contos e os obreiros dessa receita receberem cem escudos - menos do que qualquer arrumador ou alugador de almofadas.

2.° - Que nos tivessem vendido os piores bilhetes de entrada no Estádio - para as nossas famílias e amigos.

A verdade pura é esta: se os jogadores tivessem merecido um pouco de consideração a alguns dirigentes federativos; se fossem resolvidos favorável ou desfavoravelmente os seus pedidos; se, enfim, os dirigentes federativos não tivessem andado a fugir de nos falar ou de nos atender quando fomos à Federação, posso garantir que mesmo perdendo por vinte a zero, os rapazes teriam ido ao banquete.

Quando o misto “B. S. B.” perdeu por dez a quatro com o S. Lourenzo de Almagro, no final do encontro, momentos antes de entrarmos para o autocarro que nos conduziria à Baixa, estivemos em amena cavaqueira com os argentinos. E se houve banquete -não me recordo - não creio que os portugueses tivessem faltado todos.

Sei até que dois ou três jogadores portugueses acompanharam os argentinos numa autêntica noite de folia por esta nossa encantadora Lisboa.

 

Todos estes factos culminaram com um inquérito efectuado pela Direcção-Geral dos Desportos e os componentes da equipa nacional de futebol foram castigados com três jogos de suspensão pela falta de desportivismo demonstrada com a não comparência ao banquete.

Sem dúvida, a Direcção-Geral dos Desportos teve razão. Sucedesse o que sucedesse, a verdade é que os futebolistas ingleses de nada foram culpados. Por isso, e só por eles, toda a nossa equipa deveria ter comparecido ao banquete de confraternização. Mais tarde, o castigo foi anulado, servindo-nos isso de consolação para tanta… desconsolação sofrida.

Quando fui ouvido pelo instrutor do processo de inquérito, procurei desculpar-me e aos meus camaradas, mas nada consegui porque, na realidade, faltámos ao banquete.

O que aconteceria se, nesse tempo, como jogador que era, tivesse atacado alguns dirigentes do nosso futebol?

Nem quero pensar nisso!

Agora o que podem dizer é que prestei falsas declarações mas até neste ponto só me cabe meia culpa; a outra meia pertence ao Sporting onde fui aconselhado a não dizer toda a verdade e tudo quanto sabia - como medida de prudência porque eu fazia falta ao clube. Era melhor calar, compreendem?

E foi assim, meus amigos: juro que não houve exigências de dinheiro, e que não combinámos faltar ao banquete. Cada um resolveu como lhe deu na real gana e… apanhou três jogos de suspensão.

A história completa deste Portugal - Inglaterra ainda será feita - se alguém quiser ou puder fazê-la. Por minha parte, acabou-se!

No fim de contas todos nós tivemos maiores ou menores culpas, desde os jogadores ao público que impiedosamente nos assobiou!…

Seja em desconto dos nossos pecados.»

 

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 176 – 177

Memórias de Peyroteo (27)

«ITÁLIA-PORTUGAL

 Itália, 4 - Portugal, 1

Génova, 27-2-1949

 

Formada por Barrigana; Virgílio, Feliciano e Serafim; Canário e Francisco Ferreira; Lourenço, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano - a equipa nacional de futebol desceu ao rectângulo para sofrer mais uma derrota. Ao fim dos 90 minutos o marcador acusava quatro para a Itália e um para Portugal!

Vitória justa? Punição merecida?

Ao terminar este jogo contra os italianos, recordei aquele outro encontro disputado anos antes, em Milão, contra a Suíça. Em ambos, as arbitragens tiveram preponderante influência nos resultados. O Sr. Mattea, árbitro do Portugal - Suíça, fez tudo quanto podia para “liquidar” o nosso grupo e com uma arbitragem cuja nota saliente foi a flagrante parcialidade a favor dos suíços, conseguiu o seu desejo.

Agora, a 27 de Fevereiro de 1949, no Estádio de Génova, o francês Sr. Sdez, imitou muito bem o seu colega… Não dirigiu o encontro - como lhe competia - preferindo trabalhar a favor da “squadra azzurra”…

Com esta referência não procuro, de modo algum, diminuir ó valor da equipa da Itália nem ofuscar o mérito da sua vitória, mas não me custa admitir que, com uma arbitragem imparcial, o grupo português não tivesse dado melhores provas do seu valor. Remámos contra a maré, até que a descrença nos invadiu, muito embora o público e os próprios críticos desportivos não se apercebessem do nosso desânimo.

A Itália apresentou um grupo equilibrado, um conjunto de bons elementos, atlèticamente bem preparados e bons conhecedores do sistema táctico WM. É inegável terem jogado melhor do que nós, portugueses, mas o resultado poderia ter sido outro…

Ao intervalo Portugal ganhava por 1-0.

No princípio do segundo tempo Barrigana não teve sorte em dois lances - e sofremos dois golos. Feliciano magoou-se e foi “destacado” para o lugar de extremo; esta alteração e a péssima arbitragem do Sr. Sdez abalaram a moral da equipa. Depois… tudo nos correu pelo pior!

A equipa italiana foi superior à nossa, merecendo a vitória sem discussão. Esteve em tarde feliz e mesmo sem a ajuda do árbitro teria ganho a partida, porque jogou mais e melhor.

Admito, sem reservas, que qualquer árbitro cometa erros, mas do- erro involuntário à evidente parcialidade, vai um Mundo de coisas! A parcialidade, nestes casos, cheira a uma coisa muito feia; desonestidade!

 

 

PORTUGAL - INGLATERRA

Portugal, 0 - Inglaterra, 10

Estádio Nacional, 25-5-1947

 

Precisamente na época de 1946/47, quando a Selecção Nacional era constituída por um lote de jogadores em óptima condição física, formando um conjunto de boa capacidade atlética-técnico-táctica, e por isso mesmo, conseguiu as duas primeiras grandes vitórias, que ficaram como mais uma página gloriosa na História do Futebol Por- tugês-batemos a Espanha, em Lisboa por 4-1 e ganhámos à Irlanda, em Dublin, por 2-0 - foi precisamente nessa época que sofremos a mais severa punição em jogos internacionais: Inglaterra, 10 - Portugal, 0.

Uma desilusão! Era lícito esperar-se que no desafio com os mestres ingleses a nossa equipa desse melhor conta de si, ainda que não se esperasse mais uma vitória da turma lusitana porque, na craveira do futebol mundial, os ingleses estavam muito acima de nós, mas como o futebol é um jogo, esse facto permitia acalentarmos esperanças, ainda que fossem vãs, de ganhar aos futebolistas da Velha Albion. Contudo, ninguém pensava na derrota por dez golos sem resposta nem nós, jogadores, julgávamos vir a sofrê-la, muito embora reconhecessemos o valor do adversário e soubéssemos qual a diferença de categoria individual e força de equipa que existia entre as duas turmas. Mesmo assim, não descemos ao rélvado do Jamor antecipadamente batidos, pois todos quantos jogam futebol sabem que nem sempre ganha o melhor…

Está ainda vivo na memória de todos nós aquele jogo em que o Tirsense bateu o Sporting, eliminando-o da Taça de Portugal, desafio em que, felizmente, não tomei parte.

Após os 90 minutos do “Portugal - Inglaterra”, a nossa derrota foi glosada em vários tons. Os “especialistas”, na crítica ao jogo, fizeram as suas considerações, algumas acertadas e comedidas, pondo o dedo na ferida: a incontestável diferença de classe futebolítica.

Também se afirmou que os ingleses jogaram excepcionalmente bem - talvez como poucas vezes o tivessem feito - e a equipa nacional portuguesa, já de si inferior, jogara muito menos do que podia, sabia e estava ao seu alcance. Mas, como sempre acontece, a par dos comentários acertados, fervilharam os boatos tendenciosos, mal intencionados, acerca do comportamento dos jogadores no estágio, em Venda do Pinheiro, chegando ao cúmulo de se dizer que os rapazes haviam feito exigências de dinheiro e, porque a Federação os não atendera, tinham entrado no rectângulo dispostos a jogar para perder, desinteressados do resultado.

Nada há mais falso! Garanto que não houve exigências de espécie alguma. O que se passou pode considerar-se simples e natural nos nossos acanhados meios de incompreensivelmente fingido profissionalismo futebolístico, conta-se em poucas palavras:

Todos nós conhecíamos o valor era “força” da equipa adver- sária, não ignorando as nossas possibilidades. Jogador por jogador, equipa por equipa, admitindo que cada um dos contendores jogasse o seu normal, fácil seria advinhar qual viria a ganhar a partida.

Aos leigos pode parecer que só isto era o suficiente para nos considerarmos batidos no rectângulo, uma vez, que já o estávamos psicologicamente. Mas não levemos as coisas ao exagero; pensemos que os jogadores internacionais não são uns inexperientes nestas andanças da bola. Ter-se na devida conta não só valor do adversário como o nosso próprio valor, não equivale a pensar-se em derrota pura e simples.

Ora, o conhecimento da incontroversa verdade quanto à maior valia da equipa inglesa (quem ousaria negá-la?) levou-nos a pensar não ser desacertado - sem pecado ou crime - pedir ao Seleccionador a sua intervenção, de modo a conseguir que os dirigentes federativos atribuíssem à equipa um “prémio de presença” em jogo internacional e o pedido foi feito por intermédio do nosso capitão de equipa. Portanto, sem mal intencionados atropelos, foi respeitada a escala hierárquica e a ideia teria morrido à nascença se o Seleccionador não estivesse de acordo. Mais tarde disse-nos já ter falado e que os dirigentes haviam prometido “estudar o assunto”. Não se falou mais no caso e aguardámos.

Onde está, pois, a exigência?

Os jogadores sabiam só terem prémio se ganhassem ou empatassem com os mestres ingleses. Em caso de derrota - que seria o mais provável - apenas receberiam cem escudos, ou seja, o valor de uma diária. Quero dizer: os jogadores recebiam, quando em estágio, cem escudos por dia e se perdessem o jogo com os ingleses só teriam direito ao equivalente a mais de um dia de estágio!

Exigência dos jogadores ou incompreensão alheia?

Se fosse de admitir que a organização do jogo acarretaria “déficit” para a Federação, nem sequer nos atreveríamos a pedir um “prémio de presença”. Mas todos nós sabíamos que muitos dias antes do desafio já a lotação do Estádio Nacional estava esgotada; por consequência, o nosso pedido ordeiro era de considerar.

Entretanto, a Federação começou a distribuir pelos jogadores os bilhetes por eles requisitados em tempo oportuno e desde logo verificámos haver reduções de tal ordem que alguns jogadores recebiam menos de metade dos bilhetes pedidos … para pagar!

Até certo ponto concordei com os “cortes” por saber que a serem atendidos todos os pedidos, a Federação teria de reservar mais de um milhar de entradas só para os sectores denominados “cabeceiras”. Mas a verdade é que, nalguns casos, houve exagero de tesourada, embora se argumentasse, para justificar as reduções, que a lotação se esgotara rapidamente…

A rapaziada exteriorizou o seu desgosto quando recebeu quase metade dos bilhetes requisitados, não só porque desejava servir todos quantos neles depositaram confiança em conseguir a almejada entrada no Estádio do Jamor e ainda porque os que ficavam sem bilhete só admitiam a hipótese de terem sido preteridos por outros mais amigos.

E assim começou a confusão.

Os menos calmos diziam que se todos nós fizéssemos o mesmo, rejeitariam os bilhetes, mas como as opiniões se dividiam, cada um ficou com a quantidade que lhe coube, e apresentamos ao seleccionador a reclamação que julgámos ser justa.

Disse-nos ter falado com os dirigentes mas o certo é que tudo ficou na mesma, salvo um ou outro caso isolado.

Mas o pior aconteceu quando a rapaziada verificou os lugares que lhe foram distribuídos, tanto de cabeceira como de bancada central ou lateral. Apesar de pagarmos como qualquer outro comprador, os lugares eram dos piores: os da bancada central eram junto da lateral e estas o mais próximo possível das cabeceiras! Mesmo ao “avançado-centro” distribuíram bilhetes “às pontas”!

Deste modo, os jogadores pagaram autênticas bancadas laterais ao preço da central e as “quase cabeceiras” pelo custo de bancadas laterais! E pagaram - é bom não esquecer isto.

Estava provado que as famílias e amigos dos jogadores não mereciam tão bons lugares como qualquer comprador de ocasião. Além de tudo isto, ainda apareceram, no estágio, algumas pessoas exibindo bilhetes dos melhores sectores…

Para reclamarmos procurámos qualquer dirigente federativo mas nenhum aparecia, ou se aparecia dava-nos respostas evasivas como esta: “-Vamos ver o que se pode fazer, mas vai ser difícil, porque na Federação há apenas umas dúzias de bilhetes marcados por pessoas que já sabem quais os lugares que lhes foram destinados; vamos a ver…”

Entretanto, começaram a chegar ao estágio os “clientes” dos jogadores e ao saberem que os bilhetes não chegavam para todos, mostravam-se aborrecidos, não acreditando no que dizíamos. Não havia forma de os convencer, chegando-se a trocar palavras pouco amáveis que tinham influência desastrosa no espírito de alguns jogadores em vésperas de tão importante desafio.

Após um dos últimos treinos alguns seleccionados foram à Federação, mas um funcionário superior informou não estar presente qualquer director, mas quando íamos a sair entrou um que amavelmente nos cumprimentou e seguiu para o seu gabinete mostrando assim não querer demorar-se em conversa conosco. Procurámos entrar novamente em contacto com o funcionário superior que nos atendera, mas isso levou seu tempo pois mandou recado pedindo-nos para esperar. Cerca de 15 minutos depois apareceu e com a maior naturalidade perguntou:

- “O que desejam?”

- “Teríamos muito empenho em  falar com o director que entrou há pouco. De resto o senhor já sabia o que pretendíamos…

- “Pois é, mas o director quê entrou há bocadinho já saiu!

- “Então o senhor sabia que desejávamos falar-lhe e não lhe disse nada?”

- “Não; não disse, porque me passou de ideia!

Estamos todos a entender, não é verdade? Decerto não teria havido receio de sermos portadores de qualquer doença contagiosa… Verificada a impossibilidade de entrarmos em contacto com os dirigentes que tratavam da distribuição de bilhetes, resolvemos fazer o nosso rateio e atender os amigos na medida do possível, não sem nos sentirmos descontentes e vexados com a forma pouco atenciosa como estávamos sendo tratados. Numa última tentativa recorremos ao seleccionador mas este, embora dando-nos razão e querendo ajudar, nada podia fazer. Estávamos em presença de um facto consumado.

Ora este estado de coisas não podia, de modo algum, contribuir para a boa e indispensável disposição dos jogadores e foi precisamente a má disposição em que se encontravam que motivou nova diligência recordando o pedido de “um prémio de presença”. Mais uma vez o Dr. Tavares da Silva nos disse ter falado, novamente, com os dirigentes federativos mas que até ao momento nada se resolvera. Nem sim, nem não - antes pelo contrário…

Na noite de sexta-feira anterior ao jogo, Álvaro Cardoso, capitão da equipa, recomendou que não mais se falasse em bilhetes nem em dinheiro. Todos nós nos devíamos entregar apenas à ideia de que no domingo iríamos defrontar uma poderosa equipa de futebol. A camisola das quinas estava acima de todas as questões e nós como desportistas só devíamos pensar em defende-la com todas as nossas forças e saber.

Todos cumprimos, mas a verdade é que não eram boas as relações existentes, nesse momento, entre jogadores e alguns dirigentes federativos. Não era bom o estado de espírito da equipa nacional.

No entanto, todos nós teríamos ficado satisfeitos se a Federação tivesse mostrado desejo, por mais insignificante que fosse, em resolver os nossos problemas. Bastaria para tanto que nos tivessem dado uma simples explicação acerca do motivo por que aos jogadores foram distribuídos , tão maus lugares. E é possivel que nesse capítulo a razão estivesse do lado dela - Federação. Mas não se dignaram dizer-nos uma única palavra de conforto moral; não lhe merecemos a consideração de qualquer resposta aos pedidos feitos por intermédio do Seleccionador, Dr. Tavares da Silva!

É vexatório,' não é? Mas foi assim; paciência!

É necessário esclarecer - repetindo - que ao solicitarmos um “prémio de presença” para o encontro Portugal - Inglaterra, tivemos o cuidado de salientar que se tratava de uma sugestão com a qual, evidentemente, a Federação podia não concordar, e sendo assim, não falaríamos mais no caso, exactamente para que um simples pedido não fosse tomado (?) por exigência.

Mas o silêncio que se fez em volta do nosso pedido não fazia crer nem supor que alguém lhe atribuíra foros de exigência. Dou a minha palavra de honra que isso nunca esteve no espírito dos jogadores e se qualquer dirigente nos tivesse informado da interpretação (errada aliás) que estavam dando ao nosso pedido, afirmo categoricamente que os jogadores não mais falariam nele.

Daqui resultou, como não podia deixar de ser, uma frieza dos seleccionados para com alguns dirigentes federativos; e comentava-se:

- “Eles não nos nos ligaram importância e, portanto, se vierem aqui ao estágio hoje ou amanhã (véspera e ante-véspera do jogo) não falaremos nos bilhetes nem no prémio, mas também não lhes ligaremos nenhuma…”

Era este o estado de espírito dos jogadores e não se pode dizer que fossem eles os principais culpados.»

 

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 170 – 176

Memórias de Peyroteo (26)

(retomo)

 

(cont.)

 

«NEM À HORA DA MORTE!….

 

A linha média da Selecção Portuguesa, que deveria jogar em Basileia, no encontro Suíça-Portugal, em 20 de Maio de 1945, constituía sério problema para o seleccionador nacional, Dr. Tavares da Silva.

Eis a incógnita:

O Moreira foi um dos nossos médios de ataque que melhor sabia enviar a bola aos seus companheiros da frente. Nisto não há a mínima parcela de elogio imerecido. Afirmo-o com toda a consciência do que digo e falo em nome da experiência própria.

Porém, catorze dias antes quando, na Corunha, se disputou o jogo contra a Espanha (6 de Maio de 1945) o Moreira revelou certas dificuldades na “marcação” do adversário à sua guarda.

Por isso mesmo e ainda por virtude da chuva que caira na noite anterior ao jogo e encharcara ó terreno, o Dr. Tavares da Silva considerou a hipótese de, contra a Suíça, substituir o Moreira pelo Barrosa.

A constituição definitiva da equipa só nessa noite nos foi comunicada, numa reunião em conjunto, na qual o Dr. Tavares da Silva disse:

- “A equipa de Portugal entra no rectângulo com a seguinte constituição- e citou os nomes dos jogadores, incluindo o Barrosa.

Rematou desta forma: “E joga o Barrosa, não por o considerar melhor do que o Moreira, mas porque o estado do terreno, muito escorregadio, aconselha a utilização de um elemento de carac- terísticas diferentes das do Moreira…”

Naturalmente que o Moreira não gostou, o que, aliás, sucede com todos os jogadores, porque nenhum gosta de ficar a ver o jogo I Pelo contrário, todos desejam defender as cores da camisola das cinco quinas.

Mas o seleccionador assim o decidira, não havendo, pois, mais nada a discutir. As ordens cumprem-se!

Decerto o Moreira não dormiu toda a noite, facto que se daria comigo em iguais circunstâncias. Jogador da melhor têmpera, homem que sentia o jogo, com ele vibrava e gostava, sinceramente, do futebol, não achou bem que o Dr. Tavares da Silva o substituísse pelo Barrosa.

Intimamente estava convencido de que era melhor do que o seu substituto. Ele tinha a sua opinião mas o seleccionador via o problema de maneira diferente.

Ora, na manhã do grande encontro, ainda muito cedo, o Dr. Tavares da Silva que, decerto, tal como o Moreira, não dormira bem, saiu do seu quarto a fim de dar um passeio, aproveitando a frescura da manha, mas reparou que no átrio do Hotel, sentado num “maple”, estava o Moreira, com cara de poucos amigos…

O seleccionador apercebeu-se donde provinha a sua disposição, o ar tristonho e o aborrecimento do nosso bom camarada Moreira, e resolveu ir conversar com ele, para o animar.

Dirigindo-se-lhe, disse:

- “Deixa lá isso, Moreira. Não penses mais no caso. Hoje joga o Barrosa, noutro desafio jogas tu. O futebol é assim. Não te aborreças…”

O Moreira ouviu tudo sem encarar o Dr. Tavares da Silva mas quando este acabou o “discurso”, o nosso famoso médio de ataque levantou a cabeça, fixou bem o seleccionador e tal como se falasse a um* inimigo, respondeu:

- “O senhor poderá ter muita razão mas tome bem nota disto: O Barrosa, nem à hora da morte, há-de passar tão bem a bola à linha da frente como eu! Ouviu bem? Pois é isto mesmo que lhe digo!…

Duas horas depois e quando a rapaziada apareceu no “hall” o Dr. Tavares da Silva queria mas não conseguia contar o que o Moreira lhe havia dito. Ria-se de tal maneira que pouco se entendia. Desejava contar mas o riso, as gargalhadas francas e alegres, não o deixavam articular uma palavra completa.

Só mais tarde conseguiu contar a “ocorrência”…

Não se pode negar certa graça e profundeza na imagem do Moreira:

- “O Barrosa, nem à hora da morte…

Mas o Moreira tem, ainda, melhor. Aquela dos pés elásticos em vez do “slip” é de sonho. Pena é que a não possa contar.»

 

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 169 – 170

Fernando Peyroteo

Tenho andando, neste espaço, a dar a conhecer em vários excertos, através das suas memórias, a vida de uma das nossas maiores glórias, Fernando Peyroteo, que este ano celebraria o seu centenário.

Mémórias de Peyroteo é o livro.

Contudo, tendo em conta o triste momento, único, que o nosso clube está viver, não compatível com a grandeza que esta figura impar merece, suspendo esses textos.

Este Sporting, digo antes, os dirigentes do actual Sporting não são dignos de Fernando Peyroteo... e de todos os outros "peyroteos, azevedos, travassos, jesus-correias, albanos, vasques, stromps, jorge-vieiras, jordões, manueis fernandes, hilários, damas, carlos-xavieres, etc., etc., etc. ..." que teve.

 

Memórias de Peyroteo (25)

 

(cont.)

 

«O V Portugal - Suíça em futebol, disputado em Basileia a 21 de Maio de 1945, terminou com a vitória dos suíços por 1-0- Perdemos bem e os nossos adversários ganharam melhor.

Analisando e comparando sector por sector, fomos inferiores no ataque e iguais na defesa. A meio campo ainda trocámos passes interessantes e fizemos algumas jogados de mérito, mas próximo da área suíça tudo se embaralhava… O “ferrolho suíço” perturbou a avançada portuguesa. De resto, a equipa suíça jogou quase toda ela sobre a defesa, procurando contra-ataques rápidos, de surpresa.

A nossa defesa, sim, trabalhou muito e jogou bem, cometendo, apenas, um erro, ou melhor, teve um momento de hesitação e sofreu o golo que ditou o resultado: na marcação de um livre, os nossos defesas hesitaram em qual deles devia guardar o interior suíço; entretanto a bola partiu e ele, sozinho, com um ligeiro toque, fez o golo - um tanto sem brilho mas que contou como se tivesse nascido de uma óptima jogada…

De resto, há sempre um pormenor que nos leva a perder a maioria dos jogos internacionais: a falta de classe, a falta de verdadeira categoria internacional da maior parte dos elementos que formam a equipa nacional portuguesa. Por carência de intuição para o futebol? Não! Muito têm feito os rapazes escolhidos para defenderem as cores da bandeira nacional no respeitante a competições desportivas internacionais, especialmente em futebol. O mal é outro, vem de longe, é o problema de sempre: as deficiências de “orgânica”.

 

Ainda há bem pouco tempo tive o prazer de conversar com o Francisco Ferreira - o grande “ Chico” do Benfica - e, como não podia deixar de ser, recordámos os grandes desafios entre o seu e o meu clube, os maus resultados da nossa equipa nacional - do nosso tempo é claro - e até o “penalty” que o “Chico” falhou no jogo contra a Espanha, na Corunha. Contristado, como se o caso se tivesse passado ontem, o “Chico” disse: “Se eu tivesse marcado aquela “batata”, os espanhóis, daí por diante, eram “canja”… Atirei para fora e levámos 4 “batatas” contra 2! Mas eles eram melhores do que nós!!!”

Recordámos várias peripécias dos nossos jogos internacionais e, entre eles, o que disputámos em Basileia - não propriamente acerca do jogo, mas sobre o regresso da equipa nacional. Eu conto: Como já disse, para a Suíça fomos de avião e muito embora o “Chico” e outros nossos camaradas tivessem vomitado quase as tripas à chegada a Genebra - no momento em que o “piloto” fez inclinar o avião ora para a esquerda, ora para a direita, de modo a melhor podermos apreciar a vista aérea da linda cidade de Genebra - ambos estávamos de acordo em que a viagem de regresso foi muitíssimo pior! Setenta horas de comboio chegam para arrasar qualquer valentão, mas como se isso não bastasse, lutamos com dificuldade de alojamento e até passámos fome!!! Admiram-se? Ora vejamos.

De Basileia a Paris tudo foi normal, mas de Paris a Lisboa as coisas correram o pior possível para os jogadores - e digo para os jogadores porque os dirigentes não sentiram tanto…

Não foi possível arranjar camas para todos e as poucas que se conseguiram destinaram-se, e muito bem, aos rapazes do Belenenses que teriam de jogar um desafio no dia seguinte ou dois dias depois da chegada a Lisboa. Conseguiu-se, pois, arranjar algumas camas, uns tantos lugares de l.ª classe e outros de 2.ª. Os dirigentes - cansados dos banquetes e consequentes discursos - ocuparam os lugares de primeira classe e nós, os jogadores, que apenas havíamos perdido com os suíços - sem esforços nem canseiras - fomos para a 2.a classe… Pois não são eles quem leva as “gentes” aos campos da bola? Não são eles a ocupar os postos cimeiros? Daí a razão e o direito de ocuparem, também, os melhores lugares nas longas, enfadonhas e maçadoras viagens!

O leitor perguntará: “mas todos os dirigentes são assim? Todos procedem da mesma maneira?” - Não, felizmente!

Os jogadores passaram noites sem dormir e muitas horas sem comer. O comboio não trazia a carruagem-restaurante e os nossos dirigentes, na estação, em Paris, compraram, para nós, uma merenda composta de 2 “sandwiches”, 2 bananas, 2 laranjas e uma garrafa de laranjada ou cerveja. Comido o lanche, a rapaziada pensou em comprar, em qualquer estação de caminho de ferro onde o comboio parasse, os alimentos de que necessitava. Mas, qual quê? Pois se os franceses não tinham quase que comer, como poderiam vender aos outros o que precisavam para eles?

A certa altura da viagem, o Teixeira - lembram-se do “gasogénio” do Benfica? - o Teixeira, dizia, apareceu-nos com uma lata na mão, a qual continha, no fundo, uns restos de sardinhas e molho de tomate, acompanhando o repasto com um pouco de pão! A rapaziada logo quis saber a proveniência do petisco, mas o “gasogénio” negou-se terminantemente a indicá-la, e só coagido sob ameaça de ser atirado pela janela fora, indicou o compartimento de l.ª classe onde obtivera aqueles restos de sardinhas e de pão. Para lá nos encaminhámos mas encontrámos a porta fechada e as cortinas corridas!

Silêncio absoluto!… Batemos uma, duas vezes e só depois de o Amaro e o Chico Ferreira declinarem as suas identidades, a porta do compartimento se abriu o suficiente para verificarmos que havia ali um autêntico “simpósio” - no verdadeiro sentido da palavra!… Não faltavam as latas de conserva, compotas, pão, frutas, etc.!!! Todo aquele “material comestível” havia sido levado de Lisboa para a Suíça, pensando-se já na eventualidade de a equipa nacional vir a precisar de alimentação suplementar, admitindo-se, por natural e evidente, que a guerra teria criado graves dificuldades, especialmente em França.

Tudo foi previsto cautelosamente, mas o certo é que, na Suíça, nada nos faltou. Do que leváramos só da compota comemos um pouco aos pequenos-almoços; as restantes provisões adquiridas em Lisboa, eram agora saboreadas pelos ocupantes dos lugares de 1ª classe…

Como é de calcular, o facto provocou uma barulheira dos diabos, mas os jogadores nada ganharam com isso! Logo a seguir a este incidente, o Ruben - funcionário da Federação e que já dera a um jogador o lanche que lhe coubera em Paris - desceu do comboio, na primeira estação, em busca de mantimentos, mas só conseguiu comprar dois ou três quilos de cerejas, que distribuiu por alguns rapazes, pois nem todos aceitaram a oferta! De resto, já alguns jogadores, noutras estações anteriores, haviam ido em busca de comida, mas nem cerejas encontraram…

Se a memória não me falha, pretendeu-se, logo a seguir à distribuição da fruta, distribuir pelos jogadores certa quantidade de “francos” para tentarem, ainda, comprar qualquer coisa de comer noutra ou noutras estações. Um dos internacionais recebeu essa meia dúzia de “francos” e, acto contínuo, atirou-os pela janela fora… É que de dinheiro não tínhamos nós falta; o que não encontrávamos em parte nenhuma era “o que comprar para comer”… A não ser que fôssemos à “loja” que estava instalada num dos compartimentos de 1.ª classe, cuja denominação comercial e privada era a de dirigentes.

E aqui tem o leitor a história resumida da fome por que passou a equipa nacional de futebol quando regressava da Suíça, onde fora disputar o V Suíça-Portugal em futebol.

É bonita a história, não é?

O futebol deu-me de tudo: algum dinheiro, boas passeatas, muita pancadaria e… fome!

Dos fracos nso reza a história, não é verdade? Mas por muito estranho que pareça, continuo a ter saudades… da bola!

 

Na nossa terra há muito boa gente que só vai ao futebol quando 0 Sol brilha nas alturas! Se o tempo ameaça chuva, ficam em casa ouvindo o relato pela telefonia, ou vão ao cinema e lêem o jornal da noite. Futebol em dia de chuva não lhes agrada…

Ora, na semana que precedeu a realização do VI Portugal -  ‘Suíça, disputado em Lisboa no dia 5 de Janeiro de 1947, nem todos os dias choveu e, por isso, a tal “boa gente” dos dias primaveris, tratou de arranjar, com a devida antecedência, os bilhetinhos para assistir ao jogo, sabido como é que, para os desafios internacionais, nem sempre se conseguem os bilhetes de entrada no campo.

Eu fui sempre uma vítima dos carolas que julgam ser^ muito fácil aos jogadores conseguirem quantos bilhetes querem. É certo que a Federação teve sempre em conta a nossa qualidade de jogadores da Selecção Nacional e, por isso, nos reservava uma razoável quantidade de bilhetes - pagos, é claro - e nos oferecia três ou quatro entradas de “circulação superior”, mas assim mesmo, os bilhetes-' reservados nunca chegavam para atender os pedidos, o que dava ocasião a zangas, aborrecimentos, etc., etc… Sucedeu, porém, que para este encontro arranjei tantos bilhetes quantos os necessários para satisfazer os interessados que, com uma semana de antecedência, me haviam assediado, mas por que na ante-véspera do dia do jogo choveu torrencialmente, a maior parte dos pedinchões não tornou a aparecer, e eu fiquei com quinhentos e tal escudos de bilhetes na algibeira!!! Fiz constar, depois disto, que não mais requisitaria bilhetes à Federação, por não estar disposto a gastar dinheiro inutilmente mas, mais tarde, achava graça aos que, embora mal os conhecendo, me pediam bilhetes e diziam logo: . “Olhe que eu sou daqueles carolas que aguentaram o Portugal - Suíça até ao fim e, como recordação, guardei este bocado de bilhete!…- Claro que, para esses, só quando foi totalmente impossível é que não os satisfiz, mas estou em crer que nenhum deixou de ir ao futebol! Aliás, mereciam a atenção de serem atendidos.

A chuva diluviana que caiu no sábado e no dia do jogo não impediu que 30 mil pessoas fossem ao Estádio Nacional assistir ao VI Portugal - Suíça e, quanto a mim, esta foi a faceta mais curiosa: num momento em que o jogo estava interrompido, o defesa suíço Steffen, chamou a minha atenção para o invulgar espectáculo que nos ofereciam os milhares de chapéus de chuva abertos. Era, de facto, muito interessante e nunca julguei que o conjunto resultasse tão curioso.

Quanto ao jogo, pouco há a dizer. Tanto a nossa equipa como a suíça jogaram abaixo das suas possibilidades. O campo encharcado, com verdadeiros lagos sobre o relvado, não era propício à execução de bom futebol. Quase não tínhamos força para levantar a bola que, pesando no inicio 425 gramas, pesava 675 no dia imediato ao jogo - peseí-a eu!

O resultado deste jogo, apenas memorável pela chuva torrencial que caiu, cifrou-se num empate a duas bolas, marcadas por Rogério e Moreira.

Foi este o último jogo que fiz contra a sempre vigorosa e boa equipa Suíça.»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 164 - 169

 

Memórias de Peyroteo (24)

(cont.)

 

«PORTUGAL -SUIÇA

Em jogos internacionais, cinco vezes defrontei a equipa da Suíça: primeiro, em Milão -no dia 1 de Maio de 1938; segundo; em Lausana, a 6 de Novembro de 1938; terceiro, em Lisboa, a 2 de Janeiro de 1942; quarto, em Basileia, no dia 21 de Maio de 1945 e o quinto jogo, novamente em Lisboa, a 5 de Janeiro de 1947.

Tive a sorte e a ventura de visitar a Suíça três vezes, na primeira das quais atravessei, de Norte para Sul, esse país de beleza incomparável, cuja extensão territorial, observada num mapa, se esconde sob a palma da mão de uma criança. Sendo dos mais pequenos países da Europa, a Suíça oferece-nos os mais ricos e deslumbrantes espectáculos de beleza que podemos imaginar. Os tapetes verdejantes dos seus campos, em contraste com a alvura imaculada do gelo que cobre os píncaros dos montes altíssimos - erguidos majestosamente como dedos de gigantes apontando o céu, as águas tranquilas dos seus lagos onde se espelham as cristãs das montanhas-, tudo nos encanta, deslumbra, seduz e nos transporta a um país de sonho!

Mas não se julgue que, por ser pequenina a Suíça, não se fazem, dentro dela, grandes e encantadoras viagens, que jamais se apagarão dá memória de quem as fizer tal como sucede comigo. Ver um lago da Suíça, não é ver todos porque não há semelhança entre eles; as paisagens, como as gentes, mudam, são diferentes de cantão para cantão: a maneira de falar, de vestir, os usos e costumes do povo, são tão diferentes quanto curiosos, A afinidade que os une e caracteriza o povo suíço, é apenas uma: gentileza, correcção, disciplina, cortesia e afabilidade para quem os visita! Isto, porém, só é possível, em tão larga escala, porque entre o povo suíço quase não há distinção de classes são todos iguais. Irmanam-se pobres e ricos; a vaidade e o luxo são contrários à educação do povo suíço. Dignificam-se pelo trabalho ordeiro, metódico, disciplinado e pela sobriedade elegante das suas palavras, dos seus gestos e do seu patriótico orgulho.

O suíço, na sua terra, é um “gentleman” para o forasteiro. Modestamente, sem exuberâncias enfatuadas, o suíço mostra a sua terra e abre as portas da sua casa com a maior das naturalidades, mas sabe que, ao fazê-lo, grava no coração do visitante recordações inapagáveis.

Há quem viaje muito e veja pouco, mas também há quem procure fazer o contrário. Nas três vezes que estive na Suíça, vi o que o tempo e as obrigações de futebolista me permitiram. Através das páginas deste livro, o leitor saberá que conheço, embora um tanto superficialmente, quase toda a Europa. Vi muito, conheci muito do bom e do mau que há no estrangeiro, mas se quiser fazer comparações, não há paralelo a estabelecer: a Suíça vence e convence em todos os pormenores! Por isso, quando as circunstâncias da minha vida permitirem uma viagem de recreio, voltarei á Suíça - o país que me encantou e prendeu para sempre.

E a vós - jovens internacionais portugueses - recomendo-lhes que, quando tiverem oportunidade de visitar a Suíça e quando saírem do hotel, abram bem os olhos, respirem fundo e digam como eu: Deus abençoe a Suíça para que aos homens de todo o Mundo não falte, em realidade, a essência das histórias de fadas e terras encantadas que lhes contaram quando eram pequeninos.

 

O jogo em Frankfurt, contra a Alemanha, foi a um domingo e, na 3.a feira seguinte, partimos a caminho da Itália, a fim de, em Milão, defrontarmos o grupo helvético. Chegámos ao Lago de Como na noite de 3,a feira, esperando-nos, na estação do caminho de ferro, apenas um empregado do hotel para onde íamos, o qual nos ofereceu, como transporte, uma pequena camioneta tipo 1900…

A equipa nacional descansou durante três dias. Nada se passou digno de registo, a não ser um magnífico passeio de barco, de uma ponta á outra do “Laco di Como”, cuja beleza me impressionou verdadeiramente (paredes meias com a Suíça) e tanto assim é que não resisti á tentação de, com Cândido de Oliveira e Mourão, fazer outras passeatas no lago, servindo-me de barcos a motor que ali se alugavam,

Lembro-me de que, primeiro Filipe Pereira - bom camarada que acompanhou como “mirone” a nossa equipa e, depois, Cândido de Oliveira, gastando apenas 40 liras cada um, deram um belo passeio de avioneta por cima do Lago. Quis imitá-los (nunca perco o ensejo de ver e admirar o que é belo) mas o seleccionador negou-me autorização por recear um “desastre” que, evidentemente, a verificar-se, o colocaria em muito maus lençóis…

Do Lago de Como seguimos para Milão onde chegámos na 6.* feira, dia 29 de Abril de 1948.

Numa das paredes da entrada do hotel, em Milão, estava afixado um grande cartaz anunciando um espectáculo de ópera no mundialmente conhecido “Scala” de Milão. Ora, como eu já planeara visitar aquele teatro, pensei logo em ir, nessa noite, á ópera e, assim, depois do pequeno treino que efectuámos, falei com Cândido de Oliveira, para conseguir dele a indispensável autorização, não só para mim como para o Espírito Santo e o massagista Dionísio Hipólito, que, infelizmente, a morte já roubou ao nosso convívio. O seleccionador não via inconveniente e estava, até, interessado em ir à ópera, mas pôs como condição que teria de ir toda a equipa, prometendo que, ao jantar, consultaria a rapaziada. Desde logo se me afigurou comprometida a minha vontade, mas lutaria por ela secundado pelo Guilherme e pelo Dionísio, e ainda escudado no interesse de Mestre Cândido. Assim, durante a tarde, o “quarteto” fez “torcida” junto dos outros camaradas da equipa no sentido de os convencer a acompanhar-nos ao teatro, mas cedo verifiquei que a ideia não tinha a menor possibilidade de êxito, porque um “malfadado” componente da equipa, ao regressar do treino, viu que num cinema se exibia o filme “FURACÃO”, com a esbelta Dorothy Lamourir a O tal “malfadado” deu o alarme e a maioria dos rapazes queria… o cinema, mas, como prometera, o seleccionador pôs, durante o jantar, as duas hipóteses: ou “Scala” ou o “Furacão”, lembrando, no entanto, que o filme era uma película vulgar, já exibida em Lisboa, ao passo que a um espectáculo de Ópera no “Scala” de Milão talvez jamais nenhum dos componentes da equipa viesse a ter oportunidade de assistir. Além disso, vale” ria a pena, quanto mais não fosse, para ver o “ambiente” e o célebre teatro por dentro, em dia de espectáculo. Infelizmente, nada conseguiu

e lá fomos todos para o cinema, onde eu dormi como um justo, porque já tinha visto o filme em Lisboa e, francamente, não merecia ser visto duas vezes…

Mas eu não desisti de ver, por dentro, o famoso “Scala”; não seria em noite de espectáculo, mas teria de ser noutra ocasião. E foi no próprio dia do jogo contra a Suíça!

Como sempre, em dia de jogo, a rapaziada almoçou cedo e, logo a seguir, sem que ninguém soubesse dos meus planos, à excepção de Cândido de Oliveira, sorrateiramente saí do hotel, acompanhado pelo Dionísio e o Espírito Santo e por um amável funcionário do Consulado de Portugal em Milão, e lá fomos, a 100 à hora, direitinhos ao “Scala”. Tivemos sorte porque o empregado do teatro, informado pelo nosso “diplomata” acerca da “personalidade” dos visitantes, prontificou-se, gentilmente, a mostrar-nos os interiores do teatro, levando a sua amabilidade ao ponto de fazer tantas quantas mutações de luz se fazem no decorrer do espectáculo e nos intervalos! Pôs em funcionamento os elevadores do interior do palco, fez subir e descer alguns cenários, mostrou-nos os camarins normalmente ocupados por cantores célebres como Gigli, Caniglia, Bechi e tantos outros, enfim, vimos tudo! Ficámos a fazer uma ideia do que seria o “Scala de Milão” em noite de ópera, e só não assistimos ao espectáculo porque a maioria dos componentes da equipa preferiu ir ver o “Furacão”… Que pena o vento - do filme - não ter chegado à plateia!…

E para terminar o que lhes conto sobre a nossa visita ao “Scala de Milão”, quero dizer-lhes que tive o prazer de me Sentar na mesma cadeira que já havia sido ocupada pelos grandes senhores da Itália - no camarote de Honra!

De automóvel voltámos ao Hotel, trazendo connosco a sensação de um grande desejo satisfeito; valeu a pena a luta que travamos e Cândido de Oliveira soube compreender-nos. Obrigado ao Seleccionador e amigo.

Poucas horas depois a equipa nacional entraria no rectângulo para defrontar a Suíça em jogo a contar para o Campeonato do Mundo. No centro do ataque português estaria eu ou Espírito Santo? De positivo, nada se sabia mas, agora, estava convencido de que seria eu porque conhecia bem a opinião do seleccionador: equipa que não perde e joga bem, não se deve modificar. Além disso, Mestre Cândido aproveitou todas as ocasiões para, em conversa, me dar ensinamentos sobre a táctica a adoptar, e muitas vezes se referiu à extraordinária classe do defesa Minelli, na sua dureza, etc., etc.

Foi, talvez, duas horas antes do jogo que o seleccionador me disse que jogaria contra a Suíça, notícia que, aliás, recebi com toda a calma, possivelmente por já a esperar… Ao contrário do que sucedeu em Frankfurt, o facto de ir jogar contra a Suíça não me perturbou.

Sentia-me com forças suficientes para tomar parte na luta e só desejava que chegasse o momento para o demonstrar, É evidente que a responsabilidade do jogo que a nossa equipa ia disputar, causava-me apreensões, mas o caso para mim não tomou um aspecto quase dramático como sucedeu no dia da primeira internacionalização.

O grande Minelli que faria? Lutaria por vencê-lo! Estava naqueles dias em que vemos tudo pelo melhor, com optimismo e boa disposição.

Jogámos e no fim dos 90 minutos verificou-se a derrota da equipa portuguesa: 2-1.

O árbitro italiano F. MATTEA prejudicou-nos - ia a escrever roubou-nos! - escandalosamente! Foi tão velhaco e tão “suíço” que no final do encontro um seu compatriota lhe atirou uma garrafa quando se dirigia para a cabine. Por pouco não lhe atingiu a cabeça; caiu-lhe aos pés e desfez-se em cacos. Assobiaram-no, chamaram-lhe quantos nomes feios sabiam. Poucas vezes assisti a tão ruidosas manifestações de antipatia por um árbitro em jogos internacionais, com a agravante de este ser insultado pelos seus próprios com' patriotas italianos, após uma arbitragem parcial, imprópria de um homem que é chamado a dirigir uma competição desportiva internacional!

Na grande área, cargas fora da lei, encontrões, rasteiras, tudo passou sem castigo! Minelli era duro, violento mesmo, embora bom jogador. Fez tudo quanto quis. Uma vez, a bola esteve dentro da baliza suíça; o ferro que segura a rede devolveu-a para o campo e o árbitro F. Mattea, fez vista grossa! E se ordenou a marcação de uma grande penalidade - desperdiçada, infelizmente, por João Cruz - foi porque a irregularidade cometida era tão flagrante que outro remédio não teve senão apitar… Era tão grande a excitação do público italiano e dos jogadores portugueses que se o árbitro não marcasse aquele “penalty” corria o risco de ser linchado! '

Foi um péssimo árbitro o sr. F. Mattea. Não foi a equipa suíça que nos venceu, mas sim o árbitro é que nos fez perder este jogo internacional; o senhor Mattea foi o décimo segundo e o melhor jogador suíço.

Se alguma vez, nos 16 anos da minha vida desportiva, senti vontade de bater em alguém, foi ao árbitro italiano F. Mattea. No final do encontro olhei-o provocadoramente e ele não reagiu porque se o fizesse… talvez lhe tivesse deitado as mãos ao pescoço-passe o exagero…

A equipa nacional portuguesa merecia ganhar o jogo porque, mesmo contra todas as dificuldades que o árbitro nos criou, jogámos muito melhor do que o nosso adversário; fizemos um golo que o árbitro não validou; fui brutalmente carregado dentro da grande área; tanto eu como os meus companheiros da Unha atacante portuguesa, fomos agarrados, rasteirados, etc., etc., e o Sr. F. Mattea a tudo assistiu impassível! Não seria mal intencionado o Sr. Mattea? Ter-se-ia descontrolado por qualquer motivo? Mas se assim tivesse acontecido, teria sido mau árbitro, cometendo erros, em suma, mau para ambas as equipas, não é isso verdade? Não sei o que lhe aconteceu, mas sei que nos tirou uma vitória merecida, certa, irrefutável. Enfim, o que lá vai, lá vai, e nada ganho em carpir mágoas agora!

Quanto à minha actuação, pareceu-me que foi, pelo menos, aceitável. Marquei o meu primeiro golo em jogos internacionais, lutei quanto as forças permitiram, falhei um golo quase certo e, no final do encontro, Cândido de Oliveira, Gustavo Teixeira, Espírito Santo, Mourão, Soeiro e outros companheiros, felicitaram-me. Parece, pois, que as coisas não me correram mal de todo, e a justificar esta minha opinião, transcrevo o que disse um dos maiores técnicos do futebol europeu, que durante largos anos foi seleccionador nacional italiano -

Victtorio Pozzo, à revista “Stadium”, de 4 de Maio de 1938, n.° 325, Ano VII:

“Portugal fez uma grande partida de futebol, do melhor futebol. Não merecia perder, de forma alguma. O resultado é injusto. Os portugueses meteram duas bolas autênticas. Apreciei a classe do médio-centro, interior esquerdo e do avançado-centro. Na Suíça só houve defesa. Ataque não existiu.”

 

Lança Moreira, jornalista e crítico desportivo de reconhecidos méritos, escreveu, na Revista “Stadium”, de que foi enviado especial a Frankfurt e Milão:

“Jantou-se meia hora depois da chegada ao Hotel. Tristeza e rostos macerados. João Cruz, desde o balneário, chora perdidamente, como uma criança. Os companheiros querem animá-lo, mas estão quase como ele. No fim do jantar, o Capitão Maia de Loureiro falou aos rapazes: Todos os factores podiam ser culpados da nossa derrota, menos eles, jogadores. Levantaram-se vivas frenéticos a Portugal.

“Fala a seguir Dionísio Hipólito. Entoa-se a “Portuguesa” ouvida com respeito por todos os comensais que estão noutras mesas. No final, não há um único português que não chore. Vaiadas, Soeiro, Cruz, Peyroteo, soluçam convulsivamente. O momento é único, emocionante, grandioso, inesquecível. A bandeira de ' Portugal vem à nossa presença e é beijada! É a Pátria, é a terra querida, é Portugal.

“Perdemos mas não nos convencemos. Bravo, rapazes! Um “hurrah”, saido do fundo da alma, pelos jogadores de Portugal!!! Bem merecem do público o mais formidável dos acolhimentos!”

Depois do jogo, a caminho do hotel, as manifestações de simpatia que o povo italiano nos dirigiu foram extraordinárias. Sobre este pormenor, Lança Moreira escreveu:

“Após o jogo, o público tributou uma colossal ovação aos jogadores, reconhecendo o seu esforço e infelicidade, vitoriando-os freneticamente, erguendo vivas a Portugal e à Itália, com “abaixos” a Mattea. A emoção foi indizível. Deviam ser mais de cinco mil pessoas! A porta do hotel juntou-se ainda muita gente vitoriando Portugal!!!”

Sim, foi verdade. Lança Moreira não exagerou. Desde o campo até ao hotel, ao longo das ruas, o grito do povo italiano era este: Portogalo, Portogalo! Viva Portogalo! Gritos, vivas e palmas ecoavam por todas as ruas.

Obrigado, desportistas de Milão. Seria injusto se através das páginas deste livro não lhes enviasse um abraço de reconhecimento.

Quando chegámos a Milão, só dois ou três dirigentes do futebol italiano nos esperavam na Estação Central dos caminhos de ferro, mas após o desafio, muitos milhares de pessoas nos acarinharam e vitoriaram.

Perdemos o jogo de futebol, mas conquistámos o coração do bom povo milanês, o que constituiu uma grande vitória para nós jogadores e para Portugal!

Os desportistas portugueses - os que ficaram na nossa terra - aceitaram a derrota da nossa equipa e compreenderam-na, felizmente. Por isso, ao chegarmos a Lisboa, assistimos à mais extraordinária e grandiosa manifestação. Na gare da Estação do Rossio, em todos os salões, na rua, a massa de povo era compacta. Sem saber como, senti-me agarrado e, aos ombros de entusiastas, desci as escadas da Estação; tanto puxaram que me rasgaram o casaco e um tacão do sapato… desapareceu! Vi-o, mais tarde, na mão de um entusiasta que me disse guardá-lo como recordação…

Quando cheguei ao último degrau da escada, pretextando estar magoado, consegui pôr os pés no chão; fugi, meti-me no elevador, e fui outra vez para cima. Estava tonto e cansado de tantas “palmadas amigas” que me deram nas costas, nos ombros e na cabeça, mas de nada me valeu a fuga, porque outro grupo de sportinguistas, vendo-me à saída do elevador, agarrou-me e, novamente aos ombros de amigos, desci outra vez as escadas e, assim, fui até à sede do Sporting, na Praça dos Restauradores. À porta do Clube pedi-lhes que me deixassem ir cumprimentar os dirigentes do Sporting, mas os camaradas preferiram levar-me, daquele modo, à presença da Direcção!

Estive uns minutos refugiado no gabinete da Direcção, esperando que os ânimos acalmassem um pouco mas, na Praça dos Restauradores, os vivas a Portugal, ao Sporting e a Peyroteo não cessavam ; tive que aparecer à janela para agradecer à rapaziada a manifestação de simpatia que me dispensavam.

Ao contrário do que se possa supor, nunca me senti tão pequeno! As palmas e os vivas não me pertenciam exclusivamente, mas sim à Selecção Portuguesa de Futebol de que fiz parte e à qual, como todos os outros, dei o melhor do meu esforço para honrar a camisola que envergara. Nunca me envaideci e, talvez por isso mesmo, consegui ir um pouco mais longe do que tantos outros rapazes, porventura com melhores qualidades futebolísticas do que eu mas que em breve se julgam ídolos, transbordam de vaidade e não passam de estrelas de segunda grandeza no firmamento do desporto nacional. É pena,

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realmente, que muitos se tenham perdido de braço dado com a vaidade, ficando ao princípio da estrada que os conduziria à glória - embora efémera - do desporto.

 

Para início da nova época, a Associação de Futebol de Lisboa organizou o seu Torneio de Preparação. A minha equipa - a do Sporting, bem entendido - entra em função num jogo contra o Benfica, no dia 11 de Setembro de 1938, o qual terminou com empate a três bolas; a 25 do mesmo mês, defrontámos o Belenenses, nas Salésias, cujo resultado foi 6-3 favorável aos “leões”. O Sporting ganhou o Torneio. Eu marquei cinco golos nestes dois jogos, Sendo um ao Benfica e quatro ao Belenenses. Classifiquei-me como o melhor marcador do Torneio e cometi a proeza de fazer quatro golos num só jogo - contra o Belenenses. Para começo de época não era mau, mas estes factos viriam a ter influência na consolidação do meu lugar como avançado-centro da Selecção Nacional.

Acabado o Torneio de Preparação, começámos a disputar, a 2 de Novembro de 1938, o Campeonato de Lisboa, interrompido, depois de quatro jogos, a fim de a equipa nacional seguir para a Suíça, na manhã do dia 31 de Outubro.

Chegámos a Paris na 3.ª feira cerca da meia noite; partimos dali na 4.a feira de manhã e chegámos a Lausana na 5.a feira, salvo erro, após uma viagem magnífica.

Desta vez, quando saímos de Lisboa, já sabia que jogaria no posto de avançado-centro da equipa portuguesa; o lugar era já meu e, portanto, jogador efectivo do grupo nacional de futebol!

Por temperamento, o povo suíço não é expansivo. O futebol Interessa-o, gosta até muito deste desporto, mas as manifestações não são de molde a entusiasmar-nos. Por isso, chegámos a Lausana e ficámos com a impressão de que ninguém sabia da realização do encontro.

A cidade vivia numa calma impressionante até à hora da saída dos empregos; depois, o trânsito aumentava e pelas ruas circulavam centenas de bicicletas montadas por homens e mulheres, raparigas e rapazes. Em grupos, pedalando serena e ordeiramente, iam a caminho do almoço.

Admirável povo este! Sempre que nós, transeuntes ignorados, tínhamos necessidade de qualquer informação ou esclarecimento, atendiam-nos com tanta amabilidade e mostravam-se de tal maneira atenciosos e prestáveis, que nos sentíamos confundidos, embaraçados!!

No Hotel aparecia-nos, de quando em vez, um jornalista. Impressionantemente calmo, dirigia-se, em primeiro lugar, a um nosso dirigente federativo ou ao seleccionador, solicitando-lhe autorização para nos falar. Feitas as apresentações, perguntava-nos se gostávamos da Suíça, mormente da Cidade de Lausana, indagava, com visível interesse, se estávamos bem instalados no Hotel, se a comida nos agradava; indicava-nos os locais mais aprazíveis da Suíça, recomendava-nos uma visita a este ou àquele local e, por fim, quase a medo - o suíço é educado e, portanto, receia a indiscrição - falava um pouco de futebol: “Bem dispostos para o jogo? Óptimo, óptimo. Eu lá estarei para os aplaudir!” - Oferecia os seus préstimos e, com a mesma leveza de palavras e gestos, delicado e correcto, abandonava o Hotel.

Por vezes cheguei a duvidar que os jornalistas soubessem que estávamos ali para jogar futebol; não nos confundiriam com turistas? Perguntar como alinharia a equipa portuguesa, vaticínios sobre o resultado, quais os jogadores mais em evidência, o que pensávamos sobre a equipa e o futebol do seu País? Não! O suíço teme fazer perguntas sobre assuntos em que se não quer ou não deve falar. O jornalista, visitando-nos, marcava a presença, era portador de uma mensagem de boas-vindas, e não como alguns jornalistas que conheço que levam o descaramento ao ponto de perguntarem coisas sobre os planos tácticos da nossa equipa e quais os nossos melhores jogadores…

O ambiente de calma e tranquilidade era sempre o mesmo e até nós, os portugueses - homens de falas altas, de gestos largos e de palmadinhas nas costas dos amigos! - nos sentíamos contagiados. Evitávamos falar muito alto e “suspendemos os gestos”, porque os suíços que presenciavam tais manifestações de alegria e camaradagem “à portuguesa”, dificilmente compreenderiam, ou aceitariam, que tudo aquilo era “reinação”. O curioso é que, sem darmos por isso, as “chulipas no fófó”, os “cachações” e â algazarra nas ruas, acabaram-se como por encanto! A rapaziada adaptou-se com relativa facilidade, o que nos indica que o portuguesinho irreverente, de sangue na guelra, pode modificar-se, embora seja difícil fazê-lo perder, de todo, o seu temperamento irrequieto.

Nos dias que precederem o encontro, a maioria dos componentes da caravana portuguesa pouco falou de futebol. Na verdade o que nos levou a Lausana foi o futebol e a responsabilidade e dificuldade do encontro estavam bem dentro do nosso espírito, de forma que, falar-se muito acerca do caso, era reavivar apreensões e aumentar o nervosismo. Por outro lado, a encantadora cidade de Lausana possuía todos os atractivos capazes de nos distrair: a beleza dos seus prédios, o verde dos campos, a imponência das montanhas que a

rodeiam, a ordem, o asseio das ruas, educação e cortesia do seu povo, tudo nos encanta.

Na véspera do desafio e logo a seguir ao pequeno almoço, fui procurado, no Hotel, por um homem bastante novo, que pediu para me sentar à sua frente. Tinha, nas mãos, um bloco de papel e um lápis. Sentámo-nos, olhou para mim duas ou três vezes, rabiscou no papel e, depois, levantou-se, apertou-me fortemente a mão e disse: - “Obrrigado sinhôrre Peyrrôteo”. Retirou-se. À porta, antes de sair, voltou-se, fez uma vénia e repetiu: - “Obrrigado”.

Li algures, que Henry Ford dizia ter-se habituado a conhecer o carácter, a educação e valor dos pretendentes a seus empregados, através do aperto de mão que trocavam no dia da apresentação! Este rapaz teria, decerto, conseguido emprego nas casas “Ford”!

Na manhã do dia do desafio, o jovem suíço voltou ao Hotel para me oferecer a interessantíssima caricatura que reproduzo.

Que habilidoso rapaz!

E com mais esta bela recordação da Suíça - obra de um seu filho, artista engenhoso - cheguei ao local onde, dentro de uma hora e meia, se travaria renhida luta desportiva.

Nas ruas de acesso ao campo, cá fora e junto do rectângulo, nada indicava que ali se realizaria um jogo internacional de futebol! As bilheteiras abertas - um polícia e mais cinco ou seis pessoas! Receei que nos tivéssemos enganado no campo!!! Como admitir tanta indiferença, tanta frieza, uma hora antes do jogo? Desgostosos, entrámos nas cabinas para nos equiparmos. Perdemos todo o contacto com o exterior e às catorze horas e cinquenta minutos entrámos no rectângulo. Surpresa geral! Tudo cheio! Não havia um lugar vago! Vinte e tal mil pessoas emolduravam o rectângulo! Mais uma prova eloquente da calma, da ordem que reina nesta maravilhosa Suíça.

E depois de tudo isto não é natural que me enamorasse da Suíça?

A assistência acolheu-nos com simpatia mas… palmas sem calor, embora sinceras. Manifestação calorosa, com palmas de estalar, gritos e vivas a Portugal nos tributou a meia dúzia de portugueses, estudantes na Suíça, que vieram assistir ao prélio. A Lausana deslocaram-se esses rapazes portugueses para nos dizerem da saudade da Pátria, para nos afirmarem que Portugal está em todo o Mundo e que os seus filhos se unem sempre que a bandeira das quinas surge num mastro! Empunhavam pequeninas bandeiras verde e encarnado, agitavam-nas freneticamente e, a toda a força dos seus pulmões, revigorados pelo ar puro das montanhas suíças, gritavam Portugal! Portugal! Meia dúzia de portugueses faziam mais barulho do que quase trinta mil suíços!

O jogo começou e acabou sem história. Perdemos por 1-0. Poderíamos ter ganho? Sim, talvez! Merecíamos a vitória? Não! Os suíços foram-nos superiores ; jogaram para merecer a vitória pela diferença mínima e conseguiram-na com justiça. Nós jogámos muito menos do que em Milão, quando seria de esperar precisamente o contrário. O futebol é um jogo e, como tal, umas vezes se joga bem e outras mal; umas vezes se ganha e outras se perde… Mas não fizemos má figura. Perdemos o jogo mas ganhámos, mais uma vez, em brio, em coragem, correcção e lealdade. Fomos verdadeiramente desportistas, e isso é o que mais interessa, afinal. Orgulho-me de ter pertencido a equipas que sempre - mas sempre, acentue-se - levantaram bem alto a bandeira de Portugal. Deslizes de um ou de outro sempre os houve e haverá. Mas o conjunto foi sempre digno de si, próprio e da Nação. Ninguém, com justiça, o poderá contestar ou negar, felizmente.

Depois do encontro, o habitual banquete de confraternização, no decorrer do qual nos “esprememos” a falar um francês-mímica… Os dirigentes suíços ofereceram-nos - sempre gentis - umas lembranças e… até à vista “mon cher amis”!…

 

De facto, voltámos a ver-nos e a medir forças, em Lisboa, no dia 2 de Janeiro de 1942, ou seja, três anos e dois meses mais tarde.

Não conto, evidentemente, com o III PortugaJ-Suíça disputado em Lisboa a 12 de Fevereiro de 1939, no qual a-nossa equipa foi derrotada por 4-2; não tomei parte nesse jogo, tendo alinhado no posto de avançado-centro o meu amigo Guilherme Espírito Santo.

O IV Portugal - Suíça a que me vinha referindo - 2 de Janeiro de 1942.- foi um grande jogo! Portugal venceu, merecidamente, por 3-0. A nossa equipa mereceu ganhar e a vitória teve tanto maior valor quanto é certo que os suíços não jogaram mal. Talvez um pouco menos do que sabiam e podiam, mas sem fazerem má exibição.

Foi a minha primeira vitória em desafios internacionais, guardando dela grata recordação porque batemos uma equipa muito considerada nos meios futebolísticos europeus e que vinha obtendo óptimos resultados em jogos com equipas de países onde o futebol atingira altíssima craveira.

Quanto ao meu trabalho no conjunto nacional, não foi ele de molde a impressionar favoravelmente o público que encheu o campo das Salésias - e parte da crítica da especialidade… Dos jogadores portugueses, fui o que menos vezes esteve em contacto com a bola e isto porque uma arreliadora lesão no pé esquerdo - contraída num jogo de clube que antecedeu o encontro - quase me ia obrigando a não alinhar, tanto assim que, antes de entrar no rectângulo, o grande massagista Manuel Marques fez, no meu pé doente, dezoito infiltrações de anestésico e, seguidamente, aplicou-me uma ligadura apertada, de modo que eu quase não sentia o pé, sendo isso, aliás, o que se pretendia conseguir. E o seleccionador nacional, Cândido de Oliveira, sabia do meu estado e, por isso, me perguntou se me julgava capaz de aguentar os noventa minutos de jogo.

Foi mais ou menos nestes termos que o seleccionador expôs à equipa o seu ponto de vista:

- “Os dois meias pontas - além da tarefa que lhes cabe e de que já falámos - vão tentar, logo nos primeiros minutos, preparar uma boa passagem de bola ao Fernando, de modo que ele possa atirar ao golo rapidamente, sem preparação e com toda a força possível, mesmo de longe. Conseguindo-se esta jogada e atendendo à fama que tem de bom rematador, a defesa suíça concentrará a melhor atenção no nosso avançado-centro e os interiores actuarão com maior liberdade. Ora, como são dois bons rematadores (Pinga e Alberto Gomes) poderão complicar a vida à defesa suíça… - atirando à baliza e lançando os extremos…

Assim foi; logo nos primeiros minutos disparei um grande tiro à baliza de Ballabio; a bola seguiu a meia altura para o lado esquerdo do guarda-redes, que executou uma defesa espectacular. Creio ter sido um dos meus melhores remates de sempre e deu-me ensejo de ver, também, uma das melhores, mais difíceis e bonitas defesas de quantos guarda-redes vi actuar! A bola foi socada e… marcou-se um pontapé de Canto. Não foi preciso mais nada para os defesas Minelli e Lehmann já meus conhecidos - não me largarem durante os noventa minutos de jogo. Confirmou-se, portanto, a previsão do seleccionador e deu o resultado que se esperava: a defesa suíça preocupava-se comigo e eu movimentava-me de forma a “chamá-los”… Como resultado desta manobra táctica, Mourão marcou dois golos, Alberto Gomes outro… e o público não se impressionou com o meu trabalho!

Pela força do hábito, o público atribuía-me a obrigação, o dever inalienável de marcar golos em todos os jogos! Se jogava pelo Sporting, eram os adeptos do Clube; se pela Selecção Nacional, era quase todo o público. Este dever, esta obrigação sem apelo, era-me atribuída, ao que parece, em regime de exclusividade, pois a nenhum outro jogador avançado se exigia tanto! Qualquer jogava bem sem meter golos, mas o Peyroteo, esse, tinha de os meter! Às vezes, até, fazia dois golos e dizia-se: “Peyroteo “apenas” marcou dois golos e… nada mais fez”! - Como se isso fosse pouco…

O futebol é um jogo de conjunto e, por isso, há que sacrificar, às vezes, uns em proveito de outros para se atingir a finalidade, o bom rendimento da equipa de que todos fazemos parte. De outra vez, no Portugal - Espanha dos 4-1, passou-se quase o mesmo: fui sacrificado para bem da turma nacional, não marquei golos e grande parte do público não gostou do meu trabalho!… Na linguagem dos amadores da pesca, o Peyroteo era o isco! Contudo, será bom não esquecer que nem todo o “isco” serve aos pescadores nem aos peixes… Bem diz o nosso povo: - “num lado se põe o ramo e noutro se bebe o vinho!…” Referido a traços largos, assim foi o IV Portugal - Suíça.

Os rapazes fazem, às vezes, coisas do arco da velha: ir para um jogo internacional com dezoito picadas de anestésico - “Midalgan-Midi” (?) - num pé, já é gostar muito de jogar futebol! Mesmo assim, quantas saudades tenho desses bons tempos de rapaz!

 

Numa linda. manhã de Maio de 1945, o avião rolou na pista do aeroporto de Lisboa e lançou-se no espaço, transportando a equipa nacional de futebol. Uma hora e cinquenta minutos depois chegámos a Madrid, onde almoçámos - no aeroporto - e donde partimos com rumo a Barcelona; aqui, uma hora para reabastecimento do aparelho e novamente no ar, a caminho de Genebra, onde aterrámos ao fim da tarde.

No dia seguinte, viajámos de comboio entre Genebra e Basileia. Parámos em Neuchatel, cuja moderníssima e encantadora praia artificial nos deixou extasiados. Tomámos um pouco demorado mas esplêndido banho, almoçámos à sombra de lindas e frondosas árvores, e seguimos para Basileia.

Ah! A Suíça!!! Já tantos homens ilustres, poetas, escritores, jornalistas, diplomatas, cientistas, etc., se referiram elogiosamente à Suíça, que ela dispensa a modéstia das minhas palavras, o apreço em que a tenho, a paixão que me desperta. Não faço reclame à espera de me ser oferecido um passeio a essas terras de maravilha e sonho. Faço-o, apenas, para que o leitor cujas disponibilidades financeiras o permitam, não deixe, algum dia, de visitar esse País encantador! O turista, para ficar maravilhado, não tem de escolher esta ou aquela cidade, porque a Suíça, de lés-a-lés, quilómetro a quilómetro, oferece-lhe paisagens de beleza surpreendente. No Inverno ou no Verão? É indiferente, porque a Suíça é sempre linda em qualquer estação do ano. Vá à Suíça, leitor amigo, e acredite, que não perderá o seu tempo nem gastará inutilmente o seu dinheiro !»

 

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 147 - 163

Memórias de Peyroteo (23)

(cont.)

 

«II IRLANDA-PORTUGAL

Portugal 2 -Irlanda 0

Dublin - 4/5/941

 

Tenho à minha frente o jornal “A Bola”, datado de 5 de Maio de 1947, onde leio:

1.° golo de Portugal:

“… o médio português passou a Peyroteo que, á entrada da grande área, a entregou a Jesus Correia. O extremo português desceu velozmente, bateu os adversários na corrida e, com um belo remate, obteve o primeiro golo de Portugal. Eram passados 13 minutos.”

2.° golo de Portugal:

“… Aos 33 minutos, Moreira apossou-se da bola e lançou Peyroteo que serviu Jesus Correia. A bola foi novamente a Peyroteo e Araújo recebendo-a do avançado-centro português fuzilou a baliza com um remate certeiro…”

 

Desta feita não marquei golos mas com dois “passes de morte” dei dois a marcar. E foi também neste jogo que tive o maior “falhanço” da minha vida futebolística.

Impressionou-me deveras:

Dois ou três minutos depois do jogo ter começado, Jesus Correia centra primorosamente; bola a meia altura, passa em frente do defesa central que me guardava. Corri na direcção oposta ao nosso extremo direito, fiquei sozinho, a bola veio ter comigo e eu, calmamente (?) levanto o pé para atirar à baliza mas o esférico passou-me… por entre as pernas!…

Que falhanço e que arrelia! Foi um fiasco mas a seguir, dois “passes mortais” e dois golos de Portugal serviram-me de consolação.

Este jogo representou a primeira vitória da equipa Nacional no estrangeiro. Vencemos jogando bem, mas 2-1 talvez traduzisse melhor a justeza do resultado.

 

Anoto, a título de curiosidade: nas duas memoráveis vitórias da nossa equipa - em Lisboa, contra a Espanha (4-1) e fora de casa, contra a Irlanda (2-0), não marquei nenhum golo. Quer dizer: só marquei quando a equipa portuguesa necessitava não perder por muitos golos de diferença ou precisava de um empate. Noutros jogos, marquei o golo da vitória, facto que me enchia de orgulho mas não de vaidade porque o golo é o produto do trabalho do conjunto. Sempre reconheci esta verdade e não estou arrependido.

 

Para a Irlanda tivemos a felicidade de viajar na agradável companhia de Cândido de Oliveira e Ricardo Orneias, distintos jornalistas, antigos seleccionadores nacionais de futebol e meus bons amigos.

De Lisboa a França de comboio; atravessamos, de barco, o Canal da Mancha, entre Calais e Dover, e o Mar da Irlanda até Dublin.

Viagem magnífica que Mestre Cândido de Oliveira aproveitou para nos contar algumas histórias do seu tempo de caçador de elefantes brancos e de dentista do Gandhi. A riqueza de pormenores e o ar de convicção com que nos contava os. episódios da sua vida, eram de modo a fazer acreditar quem o não conhecesse mas eu, minha mulher e Ricardo Orneias, sabíamos bem com que brincalhão estávamos conversando. Mas se nós não o levávamos a sério, o certo é que não aconteceu o mesmo com o farmacêutico duma localidade bem próximo de Lisboa que, na noite de um domingo, foi atacado de fortes dores de dentes tendo procurado o”dentista” Cândido de Oliveira! O nosso amigo bem tentou convencer o farmacêutico de que nada percebia de prótese dentária mas o doente tanto insistiu que Cândido de Oliveira foi obrigado a ver-lhe a boca, onde lobrigou um grande abcesso quase a rebentar. Tocou-lhe e foi o suficiente para o crédulo farmacêutico sentir imediato alívio. Desinfectada a. boca do doente, este lá se foi embora, não sem que Cândido de .Oliveira lhe recomendasse a necessidade absoluta e urgente de, no dia seguinte, procurar o dentista da terra porque, disse ele:” “o meu curso de dentista foi tirado na índia e não serve para exercer o “mister” em Portugal!”

Tudo isto resultou das histórias contadas, para entreter, ao serão, na farmácia da aldeia, conseguindo convencer o próprio farmacêutico de que fora o dentista de Gandhi e de outros homens célebres, na índia, onde, ao mesmo tempo, se dedicava, por desporto, à caça de elefantes brancos!…

Não sei se já nessa altura Mestre Cândido de Oliveira possuía carta de condutor de automóveis, mas a verdade é que o nosso antigo Seleccionador Nacional se entregou, durante toda a viagem, desde Lisboa a Paris e a Calais, a estudar mecânica automobilística. Munido de vários livros sobre a matéria, fechava-se no seu compartimento da carruagem-cama e até altas horas da noite estudava… estudava… Depois, de manhã cedo, ao pequeno almoço ou quando nos encontrávamos a cavaquear, pedia-me que o interrogasse sobre mecânica. Dava-me o livro para eu fazer perguntas e verificar se as respostas eram acertadas. Devo confessar que em questões de mecânica podia considerar-se um “ás” mas quanto à condução a coisa não lhe era tão fácil. Vejamos:

Se não estou em erro, o Sporting ia jogar às Salésias e Mestre Cândido de Oliveira era o orientador técnico da nossa equipa. Aproximava-se a hora do encontro e o Mestre não aparecia, facto que nos contrariava muito por conhecermos de sobejo a sua matemática pontualidade. Mas desta vez creio que chegou ao campo já depois de o jogo ter principiado, pelo que só o vimos durante o intervalo.

Procuramos saber o que se teria passado mas a resposta foi apenas esta: “nada de especial…

Contudo, após o jogo resolveu-se a contar-me o sucedido:

- “Vinha de Algés para Belém e para chegar mais depressa, meti o “Peugeot” (de série antiga) por um atalho. A certa altura tive necessidade de cuspir e cuspi sem reparar que o vidro estava corrido para cima; acto contínuo, tirei da algibeira o lenço para limpar o vidro, e quando procedia a este trabalhinho esqueci-me do volante! Claro que sucedeu o inevitável: atirei o carro contra um muro. Aqui está porque cheguei atrazado.”

Agora estudava mecânica automobilística e até chegou a fazer projectos acerca da possibilidade de fabricar pneus que dispensassem as câmaras de ar. Hoje já existem mas desconheço até que ponto o nosso Mestre de futebol contribuiu para a realização de tais fabricos…

Mestre Cândido de Oliveira - o homem que me deu a honra de me convocar, pela primeira vez, para fazer parte da turma nacional - é, embora não pareça, um brincalhão cheio de fina graça, espirituoso e óptimo cavaqueador.

 

A travessia do Canal Mancha foi encantadora, num bom barco e mar-chão. Outro tanto não podemos dizer da travessia do Mar da Irlanda.

Embarcámos cerca das 4 horas da manhã, no Cais do porto inglês de Holyhead. Madrugada fria; soprava forte ventania e o mar estava bastante agitado fazendo balouçar o barco como berço de criança.

Ao contrário de mim, que gosto de viajar com mar encrespado e não enjoo, Cândido de Oliveira sentia-se um tanto mal disposto, motivo por que procurou abrigo no compartimento mais ao fundo do navio, quase encostado à quilha, por lhe parecer que aí o balanço era menor!…

Eu, minha mulher e Ricardo Orneias fomos para o tombadilho superior, à frente da ponte de comando, sentámo-nos num banco, agazalhados até às orelhas. O vento frio ajudava a desenjoar…

E o caso é que estivemos entretidos, ao frio e ao vento, cantando as cantiguinhas mais em voga nesse tempo, contando anedotas e, de espaço a espaço, falando um pouco em futebol, até ao romper da manhã. Mestre Cândido só apareceu já com dia claro, à hora do pequeno almoço e contou-nos que durante a noite tinha visto peixes- voadores do tamanho de tubarões muito grandes! Claro que não procurámos “desmenti-lo” porque o enjoo podia muito bem tê-lo perturbado um pouco. Sim porque o enjoo é uma “doença” que transtorna o maior valente e os doentes não devem ser contrariados…

Nós, que não íamos no conto do… dentista, também não comemos a “isca” dos enormes peixes-voadores!…

 

O Seleccionador, Dr. Tavares da” Silva, atendendo às dificuldades criadas pela guerra, resolveu levar, acautelando possíveis faltas de géneros alimentícios, uma razoável quantidade de açúcar, compotas e vinhos engarrafados, tudo destinado a reforçar a alimentação dos jogadores, em caso de necessidade.

Não se enganou o nosso bom amigo e Seleccionador Nacional, porque, de facto, as refeições que nos serviam eram… insuficientes. Por isso, após o almoço e jantar, mandava distribuir pela rapaziada uma dose de compota e, ao café, racionava-se o açúcar, por ser pouco.

Havia duas pessoas encarregadas da distribuição. Da compota era o Ruben, funcionário da Federação Portuguesa de Futebol, e do açúcar, o Inspector dos Desportos, Sr. Capitão António Cardoso - por isso lhes chamávamos o “compoteiro” e o “açucafeiro”.

Os géneros alimentícios eram guardados pelo Ruben, no seu quarto fechado a “sete chaves”, mas o certo é que alguns rapazes conseguiram arranjar uma “oitava chave” e, de vez em quando, iam ao quarto do zeloso funcionário da Federação, “escamotear” um pouco de doce. O Ruben fazia um barulho dos diabos, irritava-se mas nunca chegou a saber quem eram os gulosos.

O mais curioso, porém, passou-se na Alfândega, em Dublin.

Quando os componentes da nossa equipa chegaram ao Aeroporto, houve que mostrar as “mercadorias” que faziam parte da bagagem. Tudo estava bem excepto este pormenor: as garrafas estavam empalhadas e logo o funcionário da alfândega, em óptimo francês, advertia:

- “Tenho muita pena mas as garrafas não podem sair, a não ser que os senhores deixem ficar a palha que as envolve”.

Alguém ali ao lado, comentou com um sorriso:

- “Se nos dão as garrafas é o essencial. Nós não comemos a palha…”

Amável e sorridente mas carregando o sobrolho, o funcionário alfandegário retorquiu, compassadamente:

- “Sim; nós também não comemos palha, mas se ela não for queimada imediatamente qualquer animal a pode comer. Temos de evitar que tal se dê pois ninguém nos garante que essa palha não seja portadora de micróbios nocivos à saúde dos animais!”

O portuguesinho espirituoso meteu a viola no saco! Embatucou!

Sairam as garrafas e a palha ficou para ser queimada em seguida.

E digam lá que os irlandeses não são cuidadosos até com a higiene alimentar dos seus gados!

 

A fechar estas notas que constituem para mim recordações inolvidáveis, lembro-me de que as horas que estivemos em Londres foram aproveitadas em magnífico passeio pela cidade, no automóvel de Ribeiro Carvalho, locutor da B. B. C. que, por fim, nos levou a falar para os ouvintes portugueses em programa especial daquela importante emissora oficial inglesa.»

 

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 143 - 147

Memórias de Peyroteo (22)

(cont.)

 

« I PORTUGAL - IRLANDA

Portugal 3 - Irlanda 1

Estádio Nacional -16-6-46

 

Azevedo, Cardoso e Serafim; Amaro e Francisco Ferreiro: Lourenço, Araújo, Peyroteo, Caiado e Rogério

 

Com este jogo terminava a Campanha Internacional do Futebol Português na época de 1945/46.

Da equipa Irlandesa pouco ou nada se sabia. Seria boa? Má? Ignorávamos.

Contudo, alguns dos componentes da equipa que íamos ter como adversária eram tidos como grandes jogadores e, assim, todas as cautelas seriam poucas.

Ganhámos o desafio jogando melhor, muito melhor mesmo, do que a equipa adversária.

A nossa defesa e linha média tiveram períodos de puro brilhantismo. Quanto aos atacantes, pode dizer-se que jogaram bem e fizeram os golos necessários para que a vitória não oferecesse dúvidas.

Assim é que está bem: jogar melhor do que o adversário e ganhar o encontro. Foi o que sucedeu, felizmente. Poucas vezes terá sido assim, mas desta vez a lógica não se pareceu em nada com uma batata…

A equipa Irlandesa era boa; sabia o que queria e para onde ia. Gostei, até, mais do grupo Irlandês do que da equipa Gaulesa que nos visitou anteriormente.

O seleccionador nacional, Tavares da Silva, escreveu no “Diário de Lisboa” de 17-6-946:

“PEYROTEO: - Mais ágil e melhor preparado fisicamente fez uma excelente partida, porventura a melhor que temos visto no capítulo de desmarcação. Soube atrair os jogadores contrários, dar a bola e desmarcar-se. O seu golo de cabeça fica para a história.”»

 

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 142 - 143

Memórias de Peyroteo (20)

(cont.)

 

«VIII FRANÇA-PORTUGAL

França 1 - Portugal 0

 

Equipa de Portugal: - Azevedo; Cardoso, Feliciano e Serafim ; Amaro e Francisco Ferreira; Jesus Correia, Araújo, Peyroteo, Travassos e Rogério.

Em Paris, no Estádio de Colombes, a 23 de Março de 1947, perdemos o VIII França-Portugal.

Perder, fora de casa, por 1-0 não é derrota que deslustre; contudo, neste caso, bem melhor teria sido perder por dois ou três golos de diferença mas termos dado ao público e à crítica a sensação de que a equipa portuguesa, no seu conjunto e individualmente, sabia e podia fazer mais e melhor do que demonstrou nos 90 minutos de jogo.

Se pelos números do resultado se pode concluir que o grupo português deve ter jogado de modo semelhante ao adversário, o certo é que, quem assistiu ao jogo, ficou com a impressão de não possuírem os jogadores portugueses, mormente os avançados, categoria futebolística internacional. Isto, quanto mim, foi muito pior do que se tivéssemos perdido por maior diferença.

Esperava-se que a turma portuguesa jogasse de modo a conseguir um bom resultado e que a linha avançado fosse capaz de contrariar o sistema defensivo gaulês, batendo o esplêndido guarda-redes que era Da Rui. Afinal, a nossa defesa jogou razoavelmente e a ela e ao Azevedo se ficou devendo o magro resultado de 1 0. O sector atacante falhou rotundamente! Fez uma exibição confrangedora!

A propósito deste jogo, Ricardo Orneias escreveu no jornal parisiense “Record”, entre outras coisas, o seguinte:

“A nossa equipa não se impôs e causou enorme decepção. Apresentámos cinco estreantes, quer dizer, cinco internacionais que nunca tinham jogado no estrangeiro. E eles encararam este desafio com uma timidez terrível, da qual se não puderam libertar. Mas, em minha opinião, existem dois grandes responsáveis - os interiores. Durante toda a primeira parte eles foram quase inexistentes. E quando o nosso grupo teve a vantagem do vento não souberam organizar o jogo, salvo em raras ocasiões. Os dois extremos, Rogério e Jesus Correia, sofreram-lhes as consequências…”

E mais adiante…

“… Peyroteo foi o único a lutar.”

Enfim. Uma tarde cinzenta para o futebol nacional, e para Azevedo, Cardoso e Feliciano; Amaro Francisco Ferreira e Serafim; Jesus Correia, Araújo, Peyroteo, Travassos e Rogério.

Noutros jogos fomos mais felizes. Jogo é jogo. Paciência!

 

Que este jogo me tenha deixado só más recordações? Não. Há sempre uma faceta hilariante, um caso curioso a recordar… com saudade.

Viajando de comboio na companhia de Cândido de Oliveira, Ricardo Orneias e do Inspector dos Desportos, capitão António Cardoso, chegámos a Paris três dias antes da nossa equipa, que seguiu de avião,

Na 5.ª feira anterior ao jogo, fiz um treino. O Sr. Capitão António Cardoso quis acompanhar-me para assistir e fiscalizar. Entrou comigo para o relvado de Colombes e enquanto eu dava, a correr, umas voltas para aquecer os músculos, o “inspector” passeava de um lado para o outro…

Acabadas as voltas, fiz uns exercícios de ginástica, e depois, trabalhei com a bola: correr, parar rapidamente, controle do esférico, etc.

Entretanto, o Sr. Capitão continuava no seu passeio mas a certa altura pareceu-me ouvir a sua voz. Perguntei: - Disse alguma coisa, senhor Capitão?

Resposta: - Não ; não disse nada!

Continuei a treinar e momentos depois, ouvi, novamente, alguém falar alto. Ora se ali só estávamos os dois… inquiri:

- Falou comigo, Sr. Capitão?

- Não ; não falei consigo Peyroteo.

- Mas como se entende isto? Estou a ouvir falar alto!!!

O nosso bom amigo e Senhor Capitão António Cardoso aproximou-se um pouco e disparou esta, com a maior naturalidade deste Mundo:

- Deixe-me cá! Estou a estudada discursata que terei de fazer no banquete de domingo à noite!…

Ambos estávamos a treinar no Estádio de Colombes e, afinal, eu sempre ouvi falar alto!

Em abono da verdade se diga que todos os jogadores da equipa nacional encontraram sempre no ilustre Inspector dos Desportos, senhor Capitão António Cardoso, o mais leal amigo, o melhor camarada e o bom conselheiro. Sabendo impôr-se e colocando cada um no seu lugar, foi para nós, em todas as circunstâncias, um grande e bom amigo.

Recordo ainda um diálogo travado entre o Sr. Capitão Cardoso e Mestre Cândido de Oliveira, à nossa chegada a Paris. Ri a bom rir mas, infelizmente, por vários motivos, não posso contar, embora, também, não o possa esquecer.

Paris!… Paris!… Oh! França dos meus amores…

Chama-se um taxi que vai a passar e diz-se ao motorista:

- Leve-me à Rue de la Paix…

Resposta pronta:

- Chame outro. Essa rua fica-me para trás e eu não volto o carro. Não vê que vou em sentido contrário?

Nada ganharíamos em chamar o “Senhor Guarda” que, de resto, seria difícil encontrar!!!

Estas peripécias aborreciam o nosso companheiro, senhor Capitão Cardoso mas divertiam Mestre Cândido de Oliveira. E então, era ouvi-los e ríamos a bandeiras despregadas

Oh! Paris … Oh! França dos meus amores…

Bons tempos. Que saudades, meu Deus!…»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 136 - 138

Memórias de Peyroteo (17)

(cont.)

 

«ESPÍRITO SANTO E EU EM PARIS

 

Guilherme Espírito Santo e eu fomos companheiros inseparáveis. É um rapaz inteligente, de bom carácter, delicado e atencioso, lê muito e procura, sempre que pode, aprender e cultivar-se.

Conhecemo-nos em Luanda e ficámos para sempre amigos, embora a força das circunstâncias nos houvesse colocado, muitas vezes, frente a frente, como adversários no desporto.

Este facto, porém, nunca impediu ou prejudicou a sincera amizade que nos une.

Quando a Selecção Nacional de Futebol foi à Alemanha, viajámos no mesmo compartimento, tivemos lugar à mesma mesa no vagão restaurante e ficámos sempre juntos nos hotéis onde os jogadores portugueses se hospedaram.

A caminho da Alemanha, chegámos a Paris cerca da meia noite. Recolhemos ao Hotel Bayard, na Rue du Conservatoire e, no dia seguinte, de manhã, fomos, a pé, dar um passeio pela grande e maravilhosa cidade.

O Grupo parava aqui e ali, para ver as montras e… os parzinhos que se beijavam, descaradamente, em plena via pública ou nas estações do “Metro”.

Quando deparávamos com tal espectáculo, era um caso sério e as piadas e ditos de espírito fervilhavam - em português está bem de ver, porque se fossem em francês, não haveria jogo na Alemanha! Metade dos componentes da nossa Selecção ficaria no “Governo Civil” de Paris!…

Os parzinhos que estavam aos beijinhos, interrompiam a cena, olhavam-nos sem nos compreender - felizmente! - esboçavam um sorriso - especialmente a garota porque o moço deitava-nos olhares furibundos - e a brincadeira continuava…

Nós… seguíamos em busca de novas sensações!

Para os franceses, aquilo era trivial a todas as horas e em quase todos os locais, por isso nem sequer olhavam para os amorosos. Era o caso: agora és tu, logo serei eu.

Os portugueses miravam, intrigados, porque, geralmente, só se via metade de cada um e nós, claro está, procurávamos descobrir a outra metade. Mas adiante…

O passeio continuou e as sensações repetiram-se até que, a certa altura, eu e o Guilherme reparamos num grupo de “matulões” a espreitarem por um buraco de uma caixa de forma cónica.

Os “garotos” pareciam entusiasmados com o que viam.

- Que será aquilo, ó Fernando? - interrogou o Espírito Santo.

- Não sei, mas não há nada como “efectivamente”. Vamos ver.

Esperámos pela nossa vez, metemos na ranhura da caixa uma moeda de cinco francos… e começou a fita.

Via-se, como em cinema, uma esguia e alta montanha contornada por uma estrada em espiral e, pela estrada acima, corria uma linda rapariga, perseguida por um não menos “guapo” rapagão…

Ela, a primeira vez que nos aparece, está “elegantemente” vestida ; desaparece na curva da estrada e surge, mais acima, já sem o vestido. Na outra volta falta-lhe a “combinação” e assim sucessivamente.

Por sua vez, o rapagão veste um elegante fato de verão. À medida que vai correndo e subindo, vai-se despindo também.

Tantas voltas dão que, a certa altura, ela só tem calcinhas. Ele… em cuecas 1 Depois, a “garota” chega ao cimo da montanha e fica muito atrapalhada porque já não tem para onde fugir. Entretanto, chega o esbelto rapaz, em cuecas. Desaparecem os dois e logo a seguir, a rapariga espreita e diz:

- “Meta mais cinco francos e verá o fim do filme!… “

- O, Guilherme, tens aí cinco francos f

- Espera, deixa procurar…

Por detrás de nós, uma voz adverte-nos:

- Então que é isso?

Olhámos. Era o seleccionador Cândido de Oliveira!

- Vamos meter mais uma moeda para vermos o fim do filme… Já vimos o princípio…

- Vamos mas é embora! Estão todos à vossa espera. No regresso da Alemanha venham ver o resto…

- Não pode ser, senhor Cândido de Oliveira. Tem de ser agora… Para a semana mudam o programa…

- Pois sim, vamos embora e acabou-se o espectáculo.

Pronto! Acabou-se, mas foi uma pena. Estávamos interessadíssimos em ver como a fita acabava porque, a avaliar pelo que víamos nas ruas, nos cafés, nos táxis e nos cinemas - aqui é que é bonito! - não duvido de que o filme acabasse… bem!

Que o leitor vá a Paris e depois verá a dificuldade que terá em contar certas coisas no seu livro de memórias…»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 127 - 129

Memórias de Peyroteo (16)

(cont.)

 

« FRANÇA-PORTUGAL

Resultado: 3-2

Paris - 28-1-1940

 

Quando a equipa nacional partiu de Lisboa a caminho de Paris, em 24 de Janeiro de 1940, não se sabia, ao certo, quais os jogadores que alinhariam neste VI França-Portugal.

O Seleccionador Nacional, Cândido de Oliveira, só considerava “indiscutíveis” três jogadores: Azevedo, João Cruz e Peyroteo; ele próprio o afirmou no n.º 108 - página 18 - de “O Século Ilustrado”. Faço esta referência apenas para salientar que, naquele tempo, ser “indiscutível” na selecção portuguesa, não era qualquer coisa simples e sem valor, e ainda por ter conseguido o lugar à custa de muito trabalho, sacrifício, vontade, persistência e… muito suor. Sinto verdadeiro orgulho em afirmá-lo.

Cândido de Oliveira, conversando comigo acerca do jogo, disse-me:

- “Espírito Santo tem “cartel” em França e nós procuraremos, através da imprensa, chamar a atenção sobre ele. Suponho que assim e por isso, a atenção da defesa se fixará no Guilherme, de modo que tu ficarás com um pouco de folga, mas se esta táctica não resultar, entrará o Mourão. Quanto ao resto da equipa, veremos o que ditará o estado do terreno no dia do encontro, etc., etc.”

Os cálculos de Mestre Cândido de Oliveira saíram furados por que o Guilherme adoeceu.

Como sempre que era possível, ficámos os dois no mesmo quarto do hotel, e na noite da ante-véspera do jogo, o Guilherme começou a gemer; acordei e vendo-o a tremer de frio perguntei:

- “Que é isso, rapaz? Que tens tu?”

- “Estou cheio de frio e, certamente, com febre”.

Levantei-me de um salto e fui chamar o Dr. Virgílio Paula, dirigente federativo, “o homem da massa” e médico da equipa, o qual, observando o doente, diagnosticou um ataque de paludismo, e medicou convenientemente. Voltou ao seu quarto recomendando, no entanto, que voltasse a chamá-lo se o meu camarada e amigo continuasse com as tremuras.

Encontrei na mala do Guilherme uma camisola de lã encarnada - ou ele não fosse do Benfica - que lhe vesti; tirei da minha cama um forte cobertor e, com ele, reforcei os da cama do doente. Disse-lhe: Agora, amigo, vamos dormir que depois de amanhã há jogo. Respondeu-me: “Para mim não; estou liquidado. O Sr. Cândido, depois deste febrão todo, não me deixará jogar nem eu estarei em condições de o fazer”.

Com quanta tristeza, com que mágoa essas palavras foram pronunciadas! Sinceramente, tive pena do meu amigo. Durante a noite ainda fui tapá-lo duas ou três vezes ; suava por todos os poros e porque sentia calor, punha os pés de fora.

No dia seguinte, de manhã, acordou quase bem disposto mas fraco, debilitado pelos quarenta e um graus de febre. Levantou-se mais tarde e ao despir a camisola, notei que tinha o corpo todo encarnado. De princípio assustei-me, mas logo deduzi ser tinta da camisola que desbotou (bem se vê que não foi comprada na Casa Peyroteo!) Quanto à sua inclusão na equipa, o Guilherme não se enganou e compreende-se que assim fosse.

 

Os parisienses, entusiastas do futebol, viviam horas de emoção e expectativa, porque o VI França-Portugal despertara neles verdadeiro entusiasmo, e todos os jornais e revistas da especialidade faziam largas referências ao grande jogo a realizar no dia 28 de Janeiro de 1940. Onde estavam os jogadores portugueses encontrava-se, sempre, uma dúzia de jornalistas desportivos, fotógrafos e muitos curiosos. Em Paris, sim, todos sabiam da nossa presença, pediam-nos vaticínios sobre o resultado do jogo, tiravam-nos fotografias, solicitavam autógrafos e, à hora do almoço ou do jantar, lá estavam os fotógrafos com as provas para as vermos, escolhermos e… pagarmos, claro está!

No cinema, no Folies Bergère, no Casino de Paris, nos cafés, etc., quase toda a gente nos conhecia pelo grande grupo que formávamos e pelo “barulho” que fazíamos onde quer que chegássemos.

Antes e depois do jogo, os franceses foram de uma amabilidade cativante.

Chegou o dia do encontro. O Parque dos Príncipes - assim se denominava o Estádio parisiense - estava quase cheio e se não esgotou a lotação foi apenas por que as autoridades militares só permitiram a entrada a vinte ou vinte e duas mil pessoas. A França estava em guerra e receava-se um ataque aéreo; assim, quanto menos lá estivessem menos morreriam… Quer dizer: estivemos com as “bombas” por cima da cabeça sem de nada sabermos… Foi melhor assim e compreende-se bem porquê…

A nossa equipa entrou em campo dez minutos antes da hora marcada para início do jogo e recebeu uma grande ovação. O terreno estava horrível! Sentíamos os pitons das botas partirem a camada de gelo que se formara junto à relva… que quase não existia. Fazia um frio de rachar; frio que chegava até aos ossos, e nós com uma camisolinha de algodão mercerizado, com meia manga, branquinha como a neve que, aos montes, se via junto das pistas do campo. Fomos fotografados antes de entrarmos no rectângulo, foto que se reproduz nestas páginas. Repare* se bem em todos nós e, especialmente, no João Cruz e Albino, e veja-se se não estamos com caras de… três graus abaixo de zero!!!

Demos uns pontapés de ensaio para aquecer (seria possível?) e eu só pensava que, dentro de momentos, estaria três vezes em pé e quatro no chão… Pensava, por isso, na sensação “agradável” que sentiria quando, pela primeira vez, caísse de chapa sobre a água gelada que ficara no terreno depois dos pitons das botas quebrarem o gelo… Se alguém, fora do campo, pensou nessa hipótese, eu não fiquei em “hipóteses”; fui mesmo ao chão e quedei-me molhado e gelado…

Entra em campo a equipa francesa. Sobre os ombros trazem os jogadores uma capa de couro e, por baixo, uma camisola de lã - eu sei que era de lã porque, no final do prélio, troquei a minha pela do defesa francês Van Dooren.

Como nós, os franceses deram uns pontapés de ensaio e só quando formaram junto à tribuna para os habituais cumprimentos às entidades oficiais, é que se abeiraram da linha lateral e tiraram as capas com que se cobriam.

Começado o jogo, fora e dentro do campo, o entusiasmo era indescritível. Já ninguém sentia frio e, quanto a mim, o Van Dooren e o Jordan - defesas duros como ferro - encarregaram-se de me aquecer as costelas. E que bem eles o fizeram! De resto, também levaram a sua conta… Parece-me, até, que foi neste jogo que o Jordan levou uma “ombrada” tão insignificante que andou três metros para o lado, chocou com o árbitro, atirou-o ao chão e ele caiu também! O jogo prosseguiria - pois não houve falta - mas eu atirei a bola para fora e fui ajudar o árbitro a levantar-se e pedir-lhe desculpa do sucedido. Um aperto de mão entre os três protagonistas da cena e… vamos à luta.

O jogo prosseguia com bola cá, bola lá e foi numa dessas vezes de “bola cá” que sofremos o primeiro golo, havia 15 minutos. Foi o primeiro “calor” desde a nossa chegada a Paris. O segundo chegou aos 22 minutos e, portanto, 2-0!… A coisa prometia, mas a rapaziada lusitana, lutava, atirava-se aos franceses como gato a bofe - jogo duro, enérgico, viril mas correcto, não violento. Tivemos algumas “perdidas” mas não estávamos a jogar mal de todo e a prova é que a defesa francesa e o seu guarda* redes não estavam inactivos. E o intervalo chegou com o resultado de 2-0 contra nos.

Regressados à luta, nenhum lusitano pensava entregar-se porque se os adversários haviam feito 2 golos em 45 minutos, nós também poderíamos marcar dois tentos no mesmo espaço de tempo. Coragem, espírito de sacrifício, camaradagem, enfim, força de equipa não nos faltava. Mas ai que aos 34 ou 35 minutos sofremos terceiro golo! Perdidos nós, naquele momento? De maneira nenhuma! Lutar até ao apito final que é quando termina o jogo! Assim, aos 39 minutos, João Cruz recebe a bola, centra, Alberto Gomes capta-a, atira-a em profundidade e lá vou eu como um leão; luto com os dois defesas, levo a melhor, o remate parte e… golo de Portugal! Nada de cumprimentos, nada de abraços; continuamos a lutar porque não havia tempo a perder! Bola ao centro. Recomeçado o jogo o esférico chega ao Azevedo que o segura bem, corre, atira-o para um seu companheiro, vai de uns para os outros, chega aos meus pés, entro em corrida desenfreada para a baliza; trambulha um defesa francês, o outro nem tempo tem de me acompanhar, parte o remate com quanta força eu tinha e a bola embrulha-se nas redes: Go-o-o-o-lo de Portugal!

Foi o delírio. O público levantou-se como que impelido por uma mola; aplaude os portugueses, grita; estava francamente conosco. A equipa lusitana mandava rio terreno e a bola girava de uns para os outros sem os adversários lhe tocarem, mas a defesa francesa sabia do seu ofício e não era para brincadeiras! Atirava-se como doida e nós atacávamos em força, dentes cerrados. Embaraçada, receosa, vendo fugir-lhes a vitória com que já contavam, a defesa gaulesa começou a “queimar” tempo atirando a bola para fora. Nós íamos buscá-la, a correr, fazíamos os lançamentos sem perda de tempo e o público, compreensivo, aplaudia-nos, dava palmas, acenava, gritava incitando-nos.

 

Os minutos passaram e soou o apito para o final da “peleja”, como dizem os nossos irmãos brasileiros. Mais cinco minutos e sairíamos vencedores, estou certo disso.

Os jogadores franceses vêm ao nosso encontro, abraçam-nos e felicitam-nos. Van Dooren dá-me um grande abraço e pede para trocarmos as camisolas; dei-lhe a minha e tapei-me com a dele.

Jordan, - o outro defesa - abraça-me também. O público, de pé aplaude ainda, delira. Tinha assistido a um grande desafio de futebol e à nossa brilhante recuperação.

Perdemos, é certo, mas saímos do rectângulo de cabeça erguida, com a consoladora certeza do dever cumprido. A equipa portuguesa foi uma grande e boa equipa de futebol. Com terreno encharcado, temperatura a vários graus negativos, perder fora de casa pela diferença mínima, em jogo com a poderosa equipa da França, foi um bom resultado. Quem me dera que, à falta de melhor, assim pudesse ser sempre…!

 

Já falei da equipa. Quanto a mim, transcrevo algumas opiniões sobre a minha actuação que, aliás, teve reflexo pelo tempo adiante, na minha carreira desportiva:

Jornal “República” de 29-1-940:

“Peyroteo esteve ontem fortemente vigiado, mas, se pudéssemos ter o milagre de cinco avançados com as características do avançado-centro nacional, outro galo cantaria ao futebol cá da terra.”

Jornal parisiense “L’Auto”, de 29-1-940-por Lucien Gamblin, antigo capitão da equipa nacional francesa de futebol, agora jornalista desportivo e técnico de futebol:

“Du côté portugais, on eut plaisir à suivre les evolutions faciles de l’ailier droit Mourão qui avait la lourde tâche de remplacer Santo, le travail de Tarrière Pereira promu demi-centre, le l’arrière Simões, et surtout de l’athétique avant-centre Peyroteo, footballeur de grande classe qui ne s’avoue jamais battu et marqua les deux buts réussis par son équipe.”

“Diário de Lisboa” de 13-2-40, por Tavares da Silva:

“… Ao que parece, o mal é geral. Lemos outro dia acerca do desafio entre os exércitos da Inglaterra e da França que aqueles dominaram em todo o encontro, verificando-se o empate, por causa da ineficácia do seu sistema. Nós, a julgarmos, que os ingleses eram os mestres incontestados do “foot-ball”, superiores em todos os aspectos, os melhores do Mundo, e afinal sucede apenas isto: Peyroteo, o nosso famoso jogador, fez falta no “team” do exército de Inglaterra…”

Do jornal “Diário de Notícias” de 13-2-940:

Faltou um Peyroteo aos ingleses, diz a crítica do encontro França-Inglaterra, ontem disputado em Paris e que terminou empatado a uma bola:

“Paris, 11 - No conjunto o “foot-ball” britânico falhou, mais uma vez, junto às redes. Nas “blocagens” da bola, nas marcações dos jogadores e no jogo raso, os ingleses foram maravilhosos no meio campo, mas diante das redes faltou-lhes precisão e iniciativa no remate. Se contassem entre os seus avançados um Peyroteo o resultado poderia ter sido diferente. (E. T.).”»

 

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 120 - 126

Memórias de Peyroteo (15)

(cont.)

 

« O DIONÍSIO FOI BUSCAR LÃ E… VEIO TOSQUIADO!!!

 

Por ter relação com a minha primeira internacionalização, parece-me ser este o lugar apropriado para colocar o curioso episódio que vou contar.

O saudoso Dionísio Hipólito foi, como já ficou dito, o massagista, da Selecção Nacional de Futebol que jogou na Alemanha e Itália. Também ele estava interessado em saber qual de nós - eu ou o Espírito Santo - ocuparia o posto de avançado-centro no encontro de Frankfurt. Por isso nos dizia a cada passo: - “Vocês vão ver como hei-de ser eu o primeiro a saber qual de vocês joga… Tenho cá os meus “planos”. Amanhã conversaremos”.

Desconhecíamos quais eram esses “planos” do Dionísio, mas tanto eu como o Guilherme não acreditávamos muito na hipótese do nosso massagista vir a saber algo de positivo sobre o assunto. No entanto, podia ser que ele tivesse as suas razões.

Sexta-feira; na sala de entrada do Hotel “Excelsior”, em Frankfurt, estava eu, o Guilherme, mais dois ou três jogadores e Cândido de Oliveira - que se encontrava um tanto desviado de todos, sentado à secretária escrevendo qualquer coisa. De repente entra o Dionísio, olha para mim e Espírito Santo, chama-nos e diz-nos: - “Agora é que é a ocasião de atacar o “homem”… Vou falar ao Cândido e Vocês vão ver como ele me dirá quem joga depois de amanhã”. Veja lá o que vai fazer, dissemos-lhe! Mas o Dionísio, muito senhor do seu “plano de ataque”, respondeu: - “Não se apoquentem ; a minha ideia vai dar resultado, essa lhes garanto eu; já sou rata velha II!”- E pode saber-se qual é a “táctica” que vai empregar para “levar no rol” o Sr. Cândido? O Dionísio, em surdina, disse: - “O plano é este: Tenho que massajar os jogadores, mas só os que jogarem… porque os suplentes não precisam, e assim terei menos trabalho. Portanto, perguntando ao Cândido quais são os jogadores que devo massajar, ele dirá: fulano, beltrano e tal… e eu fico a saber quem jogará no domingo!!!” Veja se os seus cálculos lhe saem furados, retorquimos… - “E- garantido, vocês vão ver” - afirmou o Dionísio, e dirigiu-se ao nosso Seleccionador.

A conversa entre Cândido de Oliveira e o massagista não demorou mais do que dois minutos. Mais vermelho do que a camisola do seu clube - o Benfica, claro - veio o Dionísio ter comigo e com o Guilherme e contou-nos o resultado da conversa:

- “Por esta é que eu não esperava!!! Que grande maroto me saiu o Cândido… Estou aqui pior do que uma fera!” - Conte lá, conte lá o que lhe respondeu o nosso Mestre… E o Dionísio, coçando os poucos cabelos que lhe restavam, disse:

- “Fiz-lhe a pergunta: quais os jogadores que devo massajar, Sr. Cândido de Oliveira, para o jogo de domingo, e ele respondeu-me apenas isto: “Massaje todos, porque todos são jogadores da equipa…

Entre estrondosas gargalhadas, o Dionísio ainda teve forças para dizer: “E o pior de tudo é que tenho mesmo que tratar de todos…

Cândido de Oliveira, do cantinho da sala onde se encontrava, olhava-nos e sorria maliciosamente…

E o Dionísio massajou todos os jogadores da equipa, incluindo os suplentes…»

 

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 119- 120

Memórias de Peyroteo (14)

(cont.)

 

« PRIMEIRA INTERNACIONALIZAÇÃO

O Manuel Soeiro era, ao tempo, um magnifico avançado-centro mas, com a sua passagem para o lugar de interior direito, ocupei, definitivamente, digamos, o eixo do ataque dos “leões”.

Lutei, esforcei-me, trabalhei muito, mas não desejava, de modo algum, prejudicar fosse quem fosse, “destronar” ou “desbancar” este ou aquele jogador e, por isso, regozijei-me com o facto de o Soeiro actuar com tanto acerto que alguns críticos chegaram a afirmar ser ele melhor jogador a interior do que fora no lugar de avançado-centro.

Vencido o primeiro obstáculo - luta que muita tinta fez gastar aos jornalistas da especialidade e esgotou a saliva aos adeptos do futebol, mormente aos simpatizantes do Soeiro e de Peyroteo - a luta continuou…

Lembram-se daquelas tardes em que o Guilherme Espírito Santo, só por si, constituía um magnifico espectáculo de futebol? Que fino jogo, pensado, inteligente; que subtileza, que arte! Dava gosto ver, no campo, este excelente jogador, bom camarada e um dos meus melhores amigos - que o é ainda hoje.

Pois bem; era no Guilherme que eu tinha os olhos postos ou, melhor dizendo, no avançado-centro da Selecção Nacional. Neste ponto creio estarmos todos de acordo e não se pode levar a mal que se trabalhe afincadamente para este fim: o futebolista inicia a sua carreira e logo começa a pensar na primeira equipa; uma vez conseguido o seu objectivo, toma alento e trabalha para merecer a honra de vestir a camisola da Selecção Nacional. Nisto não há deslealdade. Portanto eu, como qualquer outro, com lugar firme na primeira equipa do Sporting, trabalhei para chegar ao grupo do País. Era natural.

Estávamos em Fevereiro de 1938 e falava-se já no Campeonato do Mundo de Futebol, ao qual Portugal concorreria. Entretanto, como jogo preparatório, chamemos-lhe assim, os dirigentes do nosso futebol combinaram um encontro entre as selecções da Alemanha e Portugal, a realizar em Frankfurt.

Certa manhã, ao entrar no eléctrico que me levaria ao Campo Grande para treinar, vi o senhor Sezabo, que veio sentar-se a meu lado. Pediu-me, para ver, a Revista “Stadium” que eu trazia na mão; ao reparar na minha fotografia a toda a altura da primeira página, exclamou:

- “Cárágo ; Fernando ter de comprar muitos jornais dê estes para mandar seu família que estar a África!…”

Achei graça ao conselho e pedi-lhe para ler o que estava escrito ao lado da foto:

- “Peyroteo, o homem das 19 bolas das “Ligas”, aguerrido e indomável, cuja candidatura à turma nacional, ganha domingo a domingo, maior consistência”.

Mestre Sezabo leu, olhou muito sério para mim e disse:

- “Natural, sinhor Fernando! Não cortar prego, sinhor. Se dedicar-se a “treining” e ouvir bem meus palavras, garantir para sinhor ir Selecção. Não envaidecer, Fernando! Trabaiar com vontade, sacrificar-se e ir ver não ser nada difícil”.

Receoso, sentindo um abismo entre mim e o Guilherme, perguntei:

- “E o Espírito Santo, “Mister”, que bom jogador ele é”?

- “Cárágo, Férnando, não dizer um coisa dê isso. Sinhor ser africano, não cortar prego. Espírito Santo ter dois pernas como Férnando! Continuar ouvir meus bons palavras e ir ver qui bem ficar-se!…”

Conforme os dias iam passando, os treinos eram intensificados até que, certa manhã, recebi um postal do Sporting convocando-me para o treino da Selecção Nacional, pois assim o havia comunicado a Federação ao meu Clube. Acredite-se que julguei tratar-se de uma brincadeira e, sem perda de tempo, fui à Sede, onde obtive a confirmação de que se tratava, na verdade, de uma ordem do seleccionador Cândido de Oliveira.

Não me recordo se dormi bem na véspera do treino, mas sei que a “comoção” me provocou um desarranjo intestinal, pormenor que não esqueci porque, quando cheguei ao campo, no dia do primeiro treino, apressei-me a comunicar o facto ao seleccionador, pois gostaria de atribuir à doença dos intestinos as asneiras que porventura fizesse - e fiz muitas! - Sempre era uma desculpa, até certo ponto aceitável…

Treinei dessa vez, tornei a ser chamado, até que do Sporting me pediram as fotografias para o passaporte, mas não se julgue que, mesmo assim, acreditei fazer parte da caravana que se deslocaria a Frankfurt. É que até à última hora podia ser substituído…

 

O “Sud-Express” abalou da Estação do Rossio levando consigo a Equipa Nacional de Futebol da qual, graças a Deus, eu fazia parte. Como efectivo? Como suplente? Nesse momento o que importava era estar incluído no lote dos que seguiam a caminho de Paris, dali para Frankfurt e, seguidamente, para Milão - Itália - onde defrontaríamos a Suíça, em jogo a contar para o Campeonato do Mundo.

Desse alegre conjunto de rapazes fazia parte, também, o Guilherme Espírito Santo, mas nem ele nem eu sabíamos qual de nós jogaria na Alemanha e na Itália.

Logo que o comboio se pôs em andamento, fomos, ambos, pedir ao Sr. Capitão Maia Loureiro - comandante da caravana – para nos destinar o mesmo compartimento, no que fomos atendidos. Ao ver as duas camas, uma por cima da outra, o Guilherme “determinou” que o lugar superior seria ocupado por ele, justificando-se deste modo:

- “Tu ficas cá em baixo, não vá partir-se este zangarelho que segura a cama e eu ficar esborrachado com esses 80 quilos bem pesados!…

Concordei e dei-lhe esta resposta: Acho bem, mas recomendo-te cuidado, porque como tu és um grande dorminhoco, se não acordares quando chegarmos a Paris, eu não te chamo ; ficas para aí a ressonar, perdes a ligação do comboio para a Alemanha e, então, quem joga sou eu!… Vê lá o sarilho que arranjas…

Raramente trocámos impressões a sério, se jogaria eu ou ele; falámos, sim, acerca da responsabilidade dos jogos que a Selecção Nacional ia fazer e brincávamos em diálogos deste género:

- “Estou com um medo que me escolham para jogar que nem calculas… Dizem que os alemães não são para brincadeiras; são duros como pedras! É melhor jogares tu porque tens mais físico para comeres do coco…

- “Olha para ele! Vais lá tu que te esquivas melhor; até consegues passar entre os pingos da chuva sem te molhares… Eu sou mais gordo, sou melhor alvo…”

- “Pois é, mas se me apanham uma vez que seja, não tenho os ossos numerados e arrumam-me de uma vez para sempre!”

Os restantes companheiros eram uns marotos, como se pode ver por estas gracinhas:

- “Estes dois andam tão juntinhos que até parecem um só, mas a verdade é que estão ambos com vontade de se envenenarem um ao outro, para jogar na Alemanha o que ficar vivo!…

Se ao jantar ou ao almoço, no comboio, o Guilherme, por gentileza, me servia o vinho, logo alguém comentava:

- “Isso, isso, dá-lhe vinho, embebeda-o, dá cabo dele, porque só assim é que jogas tu…

Era um nunca acabar de piadas e graças que aceitávamos sem melindre porque, na verdade, todos éramos amigos.

Entre os “indiscutíveis” da equipa, as opiniões dividiam-se quanto a jogar eu ou o Espírito Santo, embora todos viessem a aceitar de bom grado um ou outro. Mas, nenhum jogador sabia, ao certo, qual de nós alinharia contra a Alemanha, e estou mesmo em crer que, quando ainda em viagem, nem o próprio seleccionador nacional, meu amigo e senhor Cândido de Oliveira, tinha absolutamente formada opinião de utilizar o benfiquista ou o sportinguista.

No dia seguinte ao da nossa chegada a Frankfurt, fizemos um pequeno treino no rectângulo onde se realizaria o jogo com a Alemanha e eu alinhei a avançado-centro. Seria indício de que estaria resolvida a minha inclusão na equipa? Mestre Cândido já teria decidido? Ninguém se atrevia a afirmá-lo e muito menos a perguntar ao seleccionador.

Depois do treino, ao comentarmos o facto de ter ocupado o lugar de avançado-centro, o Guilherme afirmava, com toda a convicção, que eu jogaria contra a Alemanha. Que saberia ele para falar assim? Teria ouvido alguma conversa com Mestre Cândido de Oliveira? Não, nada disso. Espírito Santo é um rapaz inteligente e educado, bom desportista e conhecedor dos problemas do futebol. Entendia que, considerando o poder atlético da defesa alemã, eu estava mais indicado para jogar e, em reforço da sua opinião, formulou várias considerações justificativas do seu ponto de vista, donde se conclui, que acima dos seus interesses pessoais, o Guilherme colocou os da Selecção Nacional. Aparte ser leal e bom camarada, Guilherme Espírito Santo possui qualidades de carácter que fizeram dele um desportista como poucos. Ele sabe que desporto é, antes de mais nada, competir e não triunfar. E como se tudo quanto disse não fosse suficiente para demonstrar, de maneira iniludível, a sua lealdade e camaradagem, o Guilherme, na cabine, antes do início do jogo, esteve sempre - mas sempre! - junto de mim, dando-me conselhos, animando-me, procurando, por todas as formas, afastar do meu espírito a preocupação e o receio que me dominavam. As suas palavras amigas tinham para mim tanto valor quanto eu acreditava na sua sinceridade, e sentia-me feliz por verificar que encontrara no meu rival o carinho e amizade tão necessários àqueles que vão fazer o seu primeiro jogo internacional. Ele, o meu rival, aquele que perderia para sempre o posto que conquistara, sem favores de ninguém, na Selecção Nacional, foi esse magnífico atleta, aprumado, leal e correcto quem procurou ajudar-me *a conquistar o lugar que até então lhe pertencia! Era de homens assim que o desporto português precisava às mãos cheias…

E no intervalo do encontro, lá estava ele, junto de mim, incitando-me a fazer mais e melhor. É certo que Cândido de Oliveira me dispensou toda a sua atenção e deu preciosíssimas indicações e conselhos; os companheiros de equipa muito me ajudaram mas, para mim, aquele que mais me impressionou e a quem prestava mais atenção - excluindo o seleccionador, claro está - era ao Guilherme.

Até ao momento em que o seleccionador mandou reunir todos os jogadores para lhes indicar a táctica a adoptar - e isso aconteceu, no hotel, poucas horas antes do início do jogo - ninguém sabia se o posto de avançado-centro seria ocupado pelo Espírito Santo, se por mim e posso, talvez, afirmar que, até esse momento, o seleccionador hesitou na escolha. Ora vejamos:

Pouco antes de nos reunir, Cândido de Oliveira “auscultou” o capitão da equipa, Gustavo Teixeira, perguntando-lhe quem, em sua opinião, deveria jogar no eixo do ataque português contra a equipa alemã, e Gustavo Teixeira disse que, em seu entender, nesse jogo, deveria alinhar o Peyroteo. Não ouvi a conversa; foi o saudoso Dionísio Hipólito, nosso massagista, quem me contou o que acabo de referir.

Prova-se assim que, mais uma vez, Mestre Cândido de Oliveira não se arvorou em senhor absoluto de ideias e saber, preferindo conhecer a opinião do capitão da equipa - homem bom conhecedor das coisas da bola e tão honesto que, pondo de parte o seu “benfiquismo” - optava pela inclusão de um “leão” na equipa Nacional.

A expectativa arrazou-me os nervos e sabe Deus em que estado de espírito fui para o campo! Desta vez não “desarranjei” os intestinos, mas sentia-me mais cansado antes do jogo do que depois de ele terminado. Mais me apetecia ficar na cabine, acredite se! Era o meu primeiro jogo internacional e poderia vir a ser o último, pelo menos durante algum tempo…

Entrei no campo; as pernas tremiam, procurava reagir mas em vão. Sessenta mil pessoas saudaram, com o maior entusiasmo, a entrada da equipa portuguesa. A banda de música tocou o nosso Hino Nacional mas muito mal, como quase sempre acontece no estrangeiro - a compasso de marcha fúnebre e não alegre, vivo, empolgante, bonito como ele é. Mesmo assim, ouvir, lá fora, o Hino da nossa querida Pátria, tem um sabor diferente; lembra-nos a nossa terra, a terra portuguesa. Ao mesmo tempo que, ao ouvi-lo, nos comovemos, dá-nos. coragem para lutar até ao limite das nossas forças.

Seguidamente, a banda tocou o Hino Alemão. Foi o fim do Mundo I As mesmas sessenta mil pessoas, de pé, cantaram tão afinadas como se fosse um orfeão ensaiado! Que maravilhoso espectáculo! Que pequeninos nos sentimos nós - aquela dúzia de portugueses! É verdadeiramente impressionante e… enervante. Faz-nos pensar que esses mesmos homens e mulheres que agora cantam, dentro de momentos gritarão incitando a equipa da sua Pátria. Mas, ao contrário do que se possa supor, uma vez o jogo iniciado, tudo passa; quase não os ouvimos, embora façam muito barulho, porque o jogo, em si, domina-nos por completo, e a vontade de bem cumprir o nosso dever, faz-nos olvidar, quase por completo, o que se passa fora do rectângulo. De resto, manda a verdade dizer que os alemães tanto se manifestaram a favor dos seus compatriotas como aplaudiram os portugueses, assim uns e outros fossem merecedores de aplauso. Povo correcto e desportista, tributou à equipa portuguesa a maior ovação que me foi dado ouvir em todos os jogos em que tomei parte, quer no estrangeiro, quer, mesmo, em Portugal.

Assim que o encontro começou, como por encanto, senti-me com força suficiente para “tragar” quantos adversários se me deparassem ; nada de nervos ou medo! Apenas o peso da responsabilidade e confiança que o seleccionador depositara em mim, estavam em causa. Havia, portanto, que corresponder a essa confiança. Lutei quanto me foi possível e se mais não fiz, foi unicamente porque a defesa alemã não deixou. Travei com ela uma luta feroz!… Eram umas verdadeiras torres de Belém. Duros, enérgicos mas correctos e leais adversários.

Neste jogo, a equipa alemã não foi superior à nossa; jogámos de igual para igual, tanto sob o ponto de vista técnico como táctico, porque o nosso “team” dispunha de bons elementos, tão bons como os melhores do conjunto adversário: Pinga, Albino - que grande jogo ele fez! - Azevedo, Gustavo Teixeira, Mourão, João Cruz, Soeiro, Pireza, Simões, Amaro, Carlos Pereira e Madueño, formavam um lote de jogadores de categoria. Quem não se lembrará deles e… com saudade?

Portugal foi o primeiro a marcar e ouvimos tão vibrante e entusiástica ovação que nos pareceu estarmos a jogar na nossa terra. Se no Estádio Nacional marcássemos um golo que ditasse a nossa vitória contra a Espanha, a ovação não seria maior! Os entusiastas alemães aplaudiram-nos como se da sua equipa se tratasse. Honra lhes seja feita.

 

Resumindo: Em Frankfurt a equipa nacional portuguesa fez um dos seus melhores jogos de sempre - pelo menos enquanto eu joguei.

No que respeita ao meu primeiro jogo internacional, penso que não joguei nem muito bem nem muito mal, e creio que a minha actuação não comprometeu a equipa portuguesa; tanto assim é que, no jogo seguinte contra a Suíça, em Milão, a contar para o Campeonato do Mundo, voltei a ocupar o posto de avançado-centro.

Não quero terminar este apontamento sobre o Alemanha-Portugal sem dizer que o povo alemão recebeu a Selecção Nacional Portuguesa, em Frankfurt, como nenhum outro em qualquer parte do Mundo onde se exibiu a equipa das quinas. De uma maneira geral, nas estações e aeroportos, esperavam a nossa equipa dois, três ou quatro dirigentes, uns da Federação e outros, talvez, da Comissão de Recepção, e uns tantos curiosos… Em Frankfurt esperavam-nos na estação de caminho de ferro, além de uma dezena de dirigentes do futebol, alguns milhares de pessoas duma amabilidade extraordinária; simpáticos, cumulando-nos de atenções e isto não só no dia da chegada como durante todo o tempo em que estivemos na Alemanha. Onde quer que estivéssemos ou chegássemos, sempre nos apareciam meia dúzia de alemães dispostos a pagar a cerveja que bebíamos e as magníficas salsichas de… Frankfurt. Tudo isto - é bom acentuar! - nos dias em que podíamos comer e beber, embora, assim mesmo, com conta, peso e medida, não vá supor-se que na antevéspera do jogo à rapaziada eram permitidos tais devaneios (…como se isso fosse possível suceder sob as vistas de dirigentes disciplinados e disciplinadores como o Cap. Maia de Loureiro e Cândido de Oliveira; onde estava a equipa lá estavam eles…)

Como último apontamento a realçar a gentileza alemã, lembro-me de que, na véspera da partida da equipa nacional a caminho da Itália, estivemos, à noite, num grande “restaurant-dancing” de Frankfurt, onde assinámos centenas de autógrafos, comemos e bebemos, e quando nos preparávamos para seguir para o hotel pedimos a conta. Um criado, muito cortês e simpático, disse… em francês:

- “Muito obrigado pela vossa amável Visita; está tudo pago”.

Como não fizera despesa, resolvi gastar os marcos que tinha na algibeira comprando umas lindas caixas de bons cigarros…

Alegres e contentes, saímos do restaurante ao som de vivas a Portugal! E como nunca é tarde para agradecer, aqui estou a enviar um abraço de gratidão e reconhecimento a todos aqueles - desportistas ou não - que em Frankfurt tão amáveis foram para com os componentes da Selecção Portuguesa de Futebol que ali jogou em 24 de Abril de 1938. A última Grande Guerra vitimou, decerto e infelizmente, muitos daqueles que nos acarinharam. PAZ às suas almas.»

 

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 112-119

Memórias de Peyroteo (13)

(cont.)

 

« Em quase treze anos consecutivos tomei parte em centenas de jogos e marquei muitos golos pela equipa do Sporting e pela Selecção Nacional. O leitor curioso ou admirador de estatísticas, encontrará nos mapas que elaborei, os números que atestam o resultado de tantos anos em contacto permanente com a bola. Foram tantos os jogos (os golos em maior número) que não é possível., falar de todos eles. Recordarei, apenas, os que, em meu entender, merecem referência especial, entre os quais, claro está, se encontram os jogos internacionais. Vamos, a eles, portanto.

 

Os meus apontamentos - que poderão não ser exactos, diga-se desde já - registam como primeiro encontro internacional, o desafio Espanha-Portugal disputado em Madrid a 18 de Dezembro de 1921, e que foi, também, a nossa primeira derrota (3-1). A lista fecha com o 95.° jogo - Portugal - Hungria, disputado em Lisboa, e que empatamos por 2-2. Pela análise de tais apontamentos, concluiremos, na sua frieza confrangedora, pela pouca valia do futebol português, quando em confronto com as selecções de alguns países. E se não vejamos:

Em 87 jogos sofremos 46 derrotas, obtivemos 17 empates e conseguimos ganhar 24, o que representa 28% de vitórias nos 87 encontros disputados.

Ainda que pese ao nosso orgulho, temos de concordar que é muito pouco, não me escusando sequer a esclarecer que tomei parte em 20 desses jogos internacionais, tendo sofrido 9 derrotas, 5 empates e ajudado a conquistar 6 vitórias…»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). p. 111

Memórias de Peyroteo (12)

(cont.)

 

«SOMA E… SEGUE

 

Pode dizer-se que foi depois do primeiro jogo oficial que começou, verdadeiramente, a minha carreira futebolística como avançado-centro do Sporting Clube de Portugal. Os primeiros treinos de conjunto, os jogos preparatórios que antecedem os campeonatos são em número suficiente para darem ao estreante um conhecimento tanto quanto possível exacto das qualidades e defeitos dos seus companheiros de equipa, ao mesmo tempo que estes se identificam com as tendências, qualidades e defeitos do estreante.

Sendo eu novato, as dificuldades estavam mais do meu lado do que dos restantes elementos da equipa, que já se entendiam perfeitamente, ao passo que o “novel avançado-centro” nem a si próprio se conhecia tanto quanto seria necessário para se enquadrar no conjunto sem alterar ou prejudicar o trabalho daqueles que, anterior- mente à sua inclusão, formavam uma equipa homogénea, possuidora de um padrão de jogo valioso, baseado em esquemas de jogadas estudadas e postas em prática durante anos consecutivos, e na variedade de tácticas adoptadas consoante a maneira de jogar dos adversários, também já deles conhecidos.

Para mim tudo era novo, desde a responsabilidade inerente ao desempenho do lugar de avançado-centro numa das nossas melhores equipas de futebol, até ao cuidado de actuar de modo a não prejudicar o bom rendimento individual dos meus companheiros. A todo o custo procurei evitar que a minha inclusão na equipa fizesse baixar a eficiência e o nível técnico do conjunto, e se é certo que nem sempre consegui o meu objectivo, não posso deixar dê dizer, por ser verdade, que pouco tempo foi necessário para -desempenhar a minha tarefa a contento de todos quantos directamente estavam ligados à equipa.

Com dificuldades? Sem dúvida! Quem as não teria í Mas estudei e trabalhei muito para as vencer! A par dos ensinamentos do treinador, sempre que se deparava ocasião propícia, conversava com os meus colegas acerca dos motivos por que se adoptara este ou aquele processo táctico, trocávamos impressões sobre a maneira de jogar dos nossos próximos adversários, estudávamos a melhor forma de os “bater” ou “anular”, enfim, procurei “instruir-me”, pedindo conselhos àqueles que sabiam mais do que eu, os quais, sempre de boa vontade, me ajudaram a levar de vencida as dificuldades que experimentei.

O Soeiro, o Mourão, Pireza, João Cruz, Rui Araújo, Aníbal Paciência, Jurado e mais tarde Armando Ferreira, estes foram os companheiros que, no princípio, mais directamente me auxiliaram. Citar os seus nomes é expressar-lhes a minha gratidão e reconhecimento pela leal amizade e camaradagem de que sempre deram as melhores provas, e acredite-se que, infelizmente, não é vulgar encontrar-se, numa só equipa, tão elevado número de sinceros, leais e bons camaradas.

Um facto que considero ter influído muito no êxito da minha vida desportiva, foi o de me interessar mais pelos adversários do que, propriamente, com os problemas relacionados com os jogadores da equipa de que fazia parte. Todos nós sabemos que o valor de um “team” de futebol não é mais do que o resultado do valor individual dos jogadores que o compõem; boas equipas sem bons jogadores, parece-me que não existem. Daí a minha atenção incidir mais sobre o valor individual do jogador ou jogadores com quem teria de lutar por virtude da nossa colocação no terreno, do que sobre a força global da equipa adversária, e isto porque cada jogador tem uma tarefa a desempenhar. Ora, mercê do estudo profundo que sempre fiz dos meus mais directos adversários, procurando conhecer os seus pontos fracos, muitas vezes os contrariei de modo a não permitir que dessem às suas equipas a colaboração que eles próprios e os seus treinadores esperavam e, com isso, não só cumpri melhor a minha missão, como prejudiquei um tanto o plano táctico da defesa contrária.

Mestre Sezabo, na sua inconfundível linguagem, expressava-se assim: “cada, cada, sinhores”, o que significava “cada um ao seu adversário”.

Os treinadores competentes, conhecedores, portanto, dos segredos do futebol, ao imporem aos seus pupilos a táctica a utilizar neste ou naquele encontro, não deixam de lembrar, também, que o estudo desse processo de jogo foi baseado, claro está, na habitual maneira de agir do antagonista. Ora, no decorrer do jogo tudo se poderá passar de modo diferente, pelo que os jogadores devem estar à altura de mudar de táctica se as circunstâncias de momento o aconselharem. Assim, se os seus pupilos, por sua vez, se entregarem ao estudo das tácticas do jogo e das características dos jogadores adversários, as dificuldades serão altamente atenuadas e o trabalho do treinador completa-se. Muitas vezes, com inteligência e saber, a nossa equipa foi buscar forças às fraquezas dos adversários e, quanto a mim, temos nestas simples considerações a explicação de muitas vitórias do “team” do Sporting, quando eu jogava no eixo do seu ataque: todos nós trabalhávamos com o corpo, com o cérebro e com a alma:

Corpo: - Persistência física, adquirida nos treinos intensivos a que nos submetíamos;

Cérebro; - Ouvir, compreender, interpretar e cumprir as instruções do treinador, além do estudo que fazíamos para bem conhecermos os nossos antagonistas;

Alma: - Vontade, abnegação, espírito de luta, orgulho, amor-próprio (brio), dignidade desportiva, respeito pela camisola que vestíamos.

Voluntariamente amarrado a esses princípios, fiz todo o possível por não os esquecer até final da minha carreira de futebolista. E tê-lo-ia conseguido? Suponho que sim, descontando-se, claro está, pequenas faltas cometidas e que são, afinal, próprias dos… homens.

Mas voltemos aos meus adversários…

Ao começar um jogo contra equipa mais ou menos estranha, a minha preocupação era a de experimentar o defesa que me cabia defrontar. Seria ele dos tais que me acompanhariam até fora do rectângulo se, no decorrer do encontro, me apetecesse beber uma laranjada no “bufete” do campo? Seria rápido na antecipação? Saltaria bem na disputa da bola pelo ar? Teria dois bons pés, ou um melhor do que o outro? Seria dos que fecha os olhos quando vai à bola? Jogará em subtileza ou em força?

Lutava com ele procurando “descobri-lo”, conhecê-lo e tentava explorar as suas fraquezas possíveis, sistema este que, por não se me afigurar mau, segui enquanto joguei futebol. Foi-me útil, e não só a mim como também aos meus companheiros de equipa, que, por seu lado, procediam de igual modo.

Resumindo; eu estudava o adversário ou adversários que me “guardavam” e a táctica de jogo da equipa, observando, também, a manobra dos outros jogadores quando em luta com os meus companheiros ; estes, necessariamente, faziam o mesmo relativamente ao que se passava comigo e com os meus opositores. Deste conjunto de circunstâncias resultava um melhor entendimento entre todos os sectores da nossa equipa e uma maior possibilidade de se jogar bem. Acentue-se, no entanto, que não é fácil, em dois ou três jogos, ficarmos a conhecer bem um jogador de futebol, quando ele, claro está, possui boa classe, sendo, até, possível nunca chegarmos a entendê-lo nas suas qualidades e defeitos. Mas essa verdade não deixa, por isso, de ser arma aproveitável para o jogador que com ele tiver de lutar. É de grande classe o nosso adversário? Pior para o desempenho da nossa tarefa. Há, então, que pôr na luta todas as nossas forças, de inteligência e saber, tentando ganhar alguns lances o que, com maior ou menor dificuldade, sempre se consegue. A questão está, depois, no aproveitamento desses deslizes do antagonista, que são, muitas vezes, mais provocados do que consentidos. Não esqueçamos que um e outro podem muito bem ser jogadores de classe semelhante…

Mesmo depois da minha longa carreira futebolística, reconheço não ter conseguido aprender tudo; muito ficou por saber! Ao contrário do que muita gente possa pensar, o futebol é um jogo difícil, como difícil é, também, conhecê-lo sob o ponto de vista técnico e táctico.»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 108- 111

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