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És a nossa Fé!

O futebol volta a ser suspenso?

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A gestão aos solavancos do combate à grave crise pandémica em Portugal - abre fronteiras, fecha fronteiras; abre escolas, fecha escolas - faz suscitar os maiores receios sobre a continuação das provas da actual época desportiva. Até porque nesta quarta-feira fomos o país da Europa - e, portanto, do mundo - que registou maior número de novos casos de Covid-19 por milhão de habitantes, como confirma este gráfico do portal Our World in Data, mostrando em tempo real os números da pandemia na média dos últimos sete dias. 

Em 10 Março do ano passado, com números muito menos trágicos, a FPF começou por suspender todas as provas de formação de futebol e futsal. Dois dias depois, a Liga Portuguesa de Futebol Profissional anunciou a suspensão por tempo indeterminado das competições da I Liga e da II Liga, interrompendo a prova principal à 25.ª jornada. Em Abril foi cancelado o chamado Campeonato de Portugal

Agora, com mais de 200 óbitos diários, 151.226 casos activos e 5630 internados, manda a mesma lógica que o futebol volte novamente a ser suspenso. Devemos preparar-nos para um cenário destes, eventual golpe fatal para a sobrevivência de vários clubes, que já se encontram no fio da navalha. E quem diz o futebol, diz todas as modalidades desportivas. 

Será, por maioria de razão, um duro golpe para o Sporting. Porque lideramos neste momento quatro das seis principais competições desportivas portuguesas. Encabeçamos a Liga de futebol, quatro pontos acima dos segundos classificados. E lideramos no futsal, no basquetebol (invictos à 15.ª jornada) e no hóquei em patins. Só fogem à regra o andebol (seguimos em segundo, a dois pontos do FC Porto) e o voleibol (único campeonato nacional relevante comandado pelo Benfica nesta temporada 2020/2021).

É um tema que suscita reflexão e debate. Aqui o lanço, na expectativa de registar as vossas opiniões a partir de agora.

«Academia não trata só dos pés, trata também da cabeça» - Aurélio Pereira

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Fonte: Sporting Clube de Portugal, por ocasião da remodelação efectuada nas instalações da Academia Sporting, em Alcochete, nas paredes da qual Aurélio Pereira foi retratado. Na imagem, Aurélio Pereira e Paulo Gomes

 

O nome dispensa apresentações. A obra, fala por si e excede há muito as paredes de Alcochete. Dele se diz ser o grande responsável pela captação de talento para os do Leão Rampante e da listada verde e branca. Dele se diz, ainda, ser o enorme responsável pela forma de trabalhar, no seu todo, com crianças e jovens que vestem as nossas cores.

Mais do que a imagem colada na parede, cada tijolo em que assenta o às de trunfo do Sporting, a AS*, foi por si e por aqueles que escolheu, cimentado. Um dos pilares desta complexa estrutura, Nuno Mota, deixou-nos. Certamente não por sua vontade, mas no âmbito das exigências trazidas pela pandemia - e que pandemia...! -, que conduziram ao despedimento colectivo anunciado recentemente.

Na hora de render homenagem ao Homem, mais do que plasmar um rosto na parede, manter vivos os pilares que o mesmo escolheu e aprimorou, parece tarefa muito exigente. Impossível, até. Medonha pandemia...

Difícil de digerir, este Janeiro de 2021, já que ainda a 19 de Novembro de 2020 foi anunciado Carlos Tavares, vindo do Futebol Clube do Porto, como reforço para a estrutura de recrutamento da Academia de Alcochete.

Entristecida, ainda que não surpreendida, com o rumo dos acontecimentos, escolhi relembrar Aurélio Pereira e trazer os desenvolvimentos trazidos pela actual Direcção da Academia Sporting, por mais do que deferência, reverência para com Homem, Obra e obreiros.  

A frase que titula este texto é, naturalmente, de Aurélio Pereira e serviu de título para a entrevista concedida a António Pedro Pereira e Isaura Almeida (Diário de Notícias) a 25 de Outubro de 2008

Nessa altura, há 12 anos, dizia-nos Aurélio Pereira:

«[...] E que tipo de jogador formamos na Academia? Com cabeça, tronco e membros. O número de ingredientes que contribuem para o sucesso é menor dos que levam ao insucesso. Hoje temos todas as condições, com uma equipa extraordinária de pessoas e onde se respira um ambiente de sã camaradagem, e isso passa para os jogadores. [...]»

 

“No Sporting o mau aluno não tem lugar.” Este é o lema?

«Não, não é esse o lema. Criámos uma Academia essencialmente para formar jogadores, não vamos ignorar isso. A filosofia da Academia é essa. Quando escolhemos o nome de Academia Sporting em vez de centro de estágio não foi por acaso, porque a Academia não trata só dos pés, trata também da cabeça. Maus alunos, felizmente temos poucos.»

 

«É por isso que é importante ter um Gabinete Psicopedagógico?

Os clubes têm de ter capacidade para poder dialogar com os pais e eu sou normalmente a primeira cara que a família vê. Por vezes querem entrar mais na esfera desportiva do que na sua, de educadores. Isto não é uma crítica aos pais, mas é assim que funciona. Quando um jovem não joga o tempo que o paizinho quer e eles mostram descontentamento, eu digo sempre que ele devia ir a pé a Fátima agradecer ter filhos numa instituição chamada Sporting, onde estudam, são acompanhados e sabem que estão em segurança

 

Antes ainda, a 3 de Junho de 2007, em entrevista concedida ao jornal Público: 

«Não é só de futebol que estamos a falar. O acompanhamento dos jovens jogadores tem de se estender às mais diversas áreas, dos estudos à formação cívica, do ensino das regras do desporto até aos conselhos sobre nutrição, higiéne, vícios. Entre o sucesso desportivo e o insucesso às vezes vai apenas um pormenor", avisa Aurélio Pereira. E ele sabe do que fala. Ele viu crescer alguns dos melhores futebolistas mundiais das últimas décadas.»

«Hoje, com a Academia de Alcochete, o Sporting é apresentado como um exemplo de excelência na área da formação de futebolistas. "A nossa missão é produzir jogadores que possam jogar na primeira equipa. E a missão está a ser cumprida", diz o responsável pelo recrutamento (...)» [negrito meu]

 

A 9 de Julho de 2016, Tiago Palma desafiou Aurélio Pereira a falar para O Observador, sobre cada um dos jogadores do Sporting que, no dia seguinte, bom, no dia seguinte Portugal conquistaria o Campeonato da Europa com, apenas, 10 jogadores formados no Sporting Clube de Portugal. Retalhos preciosos cuja leitura recomendo, também, por permitir ver no plano concreto aquilo que acima, de forma teórica, Aurélio Pereira foi, ao longo dos anos, dizendo. E mais do que dizer, fez. E fê-lo tão bem, que chamar aos 10 jogadores da nossa formação "Os Aurélios" é da mais elementar justiça. 

 

Já a 12 de Setembro de 2019, neste blogue, Pedro Correia partilhou alguns trechos de uma entrevista que Aurélio Pereira concedeu nesse mesmo dia ao jornal A Bola, de entre os quais destacaria, para já, apenas um:

«O foco é no jogador e nos seus comportamentos; o acompanhamento, quer social, quer escolar, somos nós que fazemos. Isso é um trabalho altamente complexo. Tomar conta dos filhos dos outros é muito pior do que os nossos. Temos de estar preparados para isso.» [verdito meu]

 

Mais recentemente, nas páginas 16 a 19 da edição 3780 do Jornal Sporting (9 de Julho de 2020) encontramos uma entrevista a Tomás Morais, director de futebol de formação e liderança, a partir da qual é possível obter os seguintes esclarecimentos quanto ao inovador trabalho que está a ser feito na Academia Sporting:

 

«O que é o modelo centralizado no jogador que tem sido trabalhado e implementado no Sporting CP?

Consideramos que o modelo centralizado no jogador é a capacidade que toda uma equipa multidisciplinar formativa tem para colocar o foco no jogador e não apenas num sentido colectivo. Nesta perspectiva, o atleta é o principal interveniente no processo. Tencionamos, acima de tudo, formar jogadores completos, que se tornem autónomos, resilientes e que sejam física e cognitivamente superiores. Desta forma, acreditamos estar a valorizar e a maximizar o talento individual de cada um sem retirar a capacidade criativa que mais tarde irão fazer toda a diferença.
Acreditamos que com esta visão estratégica podemos dar cumprimento aos princípios gerais e específicos de um modelo formativo que vise essencialmente o desenvolvimento e potencialização do jovem jogador enquanto pessoa e atleta, estamos em simultâneo a formar equipas no expoente máximo das suas plenitudes. Para que tal aconteça e para que estejamos mais perto do sucesso, é fundamental a existência de um ambiente positivo entre todas as áreas suportado por bom senso, comunicação permanente, capacidade crítica construtiva e a vivência diária de valores comuns.

 

Quais são as suas características mais importantes?
Numa fase inicial procurámos definir um propósito sustentado na nossa visão, missão e valores. Numa segunda fase definimos uma estratégia para estarmos efectivamente capacitados para potenciar não só o talento existente, mas igualmente preparados para o que nos vai chegando através da nossa área de recrutamento e identificação de talento. Numa terceira fase apostámos na nossa estrutura de forma a maximizar a competência interna e criar padrões de coerência. Por último, contruímos um processo multidisciplinar para a essência: o futebol. Só com um ambiente positivo de aprendizagem conseguimos que todos os jovens evoluam diariamente com o processo de treino e retirem o maior número de ferramentas que lhes garanta a revelação de todas as suas capacidades, em qualquer que seja o contexto competititvo onde joguem. Este modelo acaba por valorizar, envolver, motivar e mobilizar a excelência profissional existente em todos os colaboradores da Academia nas suas diferentes áreas. [negritos e sublinhados meus]

 

O longo e reconhecido passado no râguebi infuenciou, de alguma forma, o modelo centralizado no jogador que implementou no Sporting CP?

Não especificamente porque a norma deste modelo holístico é a sua implementação pelas direcções técnicas, por todo o quadro de treinadores e técnicos desportivos que, desde a base até ao longo da pirâmide da formação desportiva, diariamente trabalham com os jogadores. Compete-me, enquanto director, proporcionar reflexões, discussões, a revisão do pensamento e caminho estratégico, bem como a criação de um ambiente propício a que tudo se desenvolva. Como acreditamos que este é o modelo certo, gostaríamos que ficasse e fosse implementado independentemente de quem estiver na liderança directiva ou técnica do futebol de formação. Temos a responsabilidade de melhorar o legado que nos foi deixado! O maior exemplo passa por dar expressão a tudo o que o senhor "formação" Aurélio Pereira continuamente nos ensina e transmite. Na formação estamos sempre a aprender... [verdito e sublinhados meus]

 

Qual é o objectivo primordial do modelo centralizado no jogador?

É potenciar todas as qualidades futebolísticas que o jogador tem individual e colectivamente. Suportado por um trabalho orientado nas áreas mental, física e estrutural. Sabemos que todas a funcionar numa dinâmica perfeita resultam naquilo que se pretende: um atleta integral, dentro e fora do campo. O foco no jogador permite a conciliação perfeita entre a sua vida futebolística e as vertentes familiar, social e escolar, dado que neste processo participam diferentes agentes desportivos para que em sintonia ponham em prática todos os detalhes tanto educativos como formativos. Deste modo, podemos atingir aquele que é o grande propósito da Academia Sporting: formar jogadores capazes de chegar e afirmarem-se na equipa principal do Sporting Clube de Portugal. Para que isso aconteça, as nossas acções diárias têm de ser boas e detalhadas, mas também de grande consistência entre toda uma vasta equipa que tem por único objectivo pensar que a razão da sua existência é a construção do jogador e do homem na vida e no campo.

 

O que foi necessário alterar para implementar este modelo?

Acima de tudo, a construção de um plano estratégico que envolveu na sua liderança e administração, o director técnico, o director da formação, o director  da Academia e os coordenadores de cada área multidisciplinar. Conscientemente no nosso modelo operacional motivámos todos os colaboradores da Academia a revelarem as suas competências num único propósito. Encontramos em todos aqueles que estão de corpo e alma no Clube uma vontade férrea de continuar a colocar a Academia Sporting como uma referência mundial em termos formativos. Os que entraram, depressa se enquadraram neste estímulo e nesta enorme vontade organizacional de fazer mais e melhor pelo Sporting Clube de Portugal. [negrito e sublinhados meus]

 

Fora de campo, a nível cívico, social e educacional, o que tem sido feito?

Devemos sempre associar a vertente desportiva à vertente humana. Um atleta é tão ou mais capaz de revelar as suas competências e qualidades quanto melhor pessoa for. Tentamos a todos os níveis incutir uma liderança ética e construtiva baseada no exemplo, com responsabilidades partilhadas, princípios de proximidade e acompanhamento. Queremos, na Academia, criar um conjunto de estímulos com origens muito diferenciadas para os sensibilizar que a vida passa por momentos contínuos de sucesso e frustração e a forma como sabemos estar e reagir perante os obstáculos vai fazer toda a diferença. O valor do jogador não está apenas na paixão que coloca no treino e no jogo, mas também na sua capacidade de se sacrificar para aquilo que é a missão do Clube. Só assim poderá dar corpo aos seus sonhos. [verdito, meu]

 

Qual era a urgência de mudar o paradigma quando chegou ao Sporting CP?

Um paradigma nunca é nem pode ser mudado por uma pessoa apenas. Venho de uma essência colectiva e acredito que o somatório de um conjunto de valências de vários especialistas é sempre superior a um pensamento egocêntrico. Como tal, havendo uma nova visão suportada por um propósito muito claro que a administração nos passou desde o príncipio, sentimos que era preciso aprender com o passado e reter todo o triunfalismo histórico que o Sporting CP tem na formação, mas também incutir novas reformas organizacionais e funcionais. Daí que a transparência entre todos e a capacidade de dar voz a todos os envolvidos, desde as escolas Academia, Academias Formação Sporting, Pólo EUL até à Academia, teriam de ser o lema de suporte para todas as transformações a efectuar. [sublinhados e negritos, meus]

 

O que falta fazer em relação ao modelo centralizado no jogador?

Continuarmos a aplicar o nosso esforço e conhecimento naquilo que é realmente importante: o jogador. Não perdermos energias e tempo com os factores que não levam o Sporting CP a caminho algum e focarmo-nos naquilo que importa e interessa. Temos, cada vez mais, de ser credíveis, coerentes e justos. Temos de deixar a cultura de depressão nas pequenas derrotas e a euforia nas vitórias, porque o objectivo é a criação de uma estabilidade que permita tornar estes momentos efectivamente naturais, como parte fundamental do processo de crescimento desportivo. [negrito e verdito meus]

 

Quais são os objectivos a curto e a longo prazo?

O grande objectivo, seja a curto ou a longo prazo, é formar e preparar jogadores para a equipa principal. A formação nunca está completa, é altamente dinâmica e aberta, sendo um somatório de todas as mais-valias daqueles que em dado momento contribuíram para as aprendizagens dos jogadores. Um projecto formativo deve ser silencioso e virado essencialmente para dentro. Só assim geramos a tão necessária confiança e a mobilização do contributo de todos os envolvidos.» [verdito, meu]

A entrevista de Tomás Morais prolonga-se para além dos trechos aqui partilhados, mas no essencial, esta foi a mensagem que quis transmitir aos leitores do Jornal Sporting.

 

Aurélio Pereira é unanimemente considerado "O Senhor Formação" (confira, por favor, a fotografia acima), foi o responsável pela criação do Departamento de Recrutamento do Sporting Clube de Portugal em 1987/1988** e disse-nos ainda em 2019:

«Há duas coisas que têm de caminhar lado a lado: o recrutamento e a área técnica. São dois pilares de uma academia, sem esses pilares conscientes não há trabalho de nível tão elevado. Temos nesta altura essa simbiose, está a crescer dia a dia. Falamos a mesma linguagem. O novo director técnico, o Miguel Quaresma, tem sido um homem certo no lugar certo.»

Infelizmente, também Miguel Quaresma e Raul José já nos deixaram (em Maio de 2020). 

 

Ao Mestre Aurélio Pereira e ao Nuno Mota, a este último pelos 16 anos de Esforço, Dedicação e Devoção à formação leonina, a minha vénia. A Glória, está em muito mais do que é visível aos nossos olhos, é verdade. Está na acção da verdadeira estrutura invisível que sempre foram. A Glória, estará sempre no pioneirismo e carácter que revelaram continuamente e na magia que os vossos diamantes espalham no relvado, cá e pelo mundo.

Obrigada, é pouco. É muito pouco. 

*Academia Sporting, actualmente conhecida por Academia Cristiano Ronaldo.

**Em entrevista ao jornal Público é dito 1987, na entrevista ao jornal Diário de Notícias, 1988. 

Vergonhoso

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Se há mal que ninguém pode atribuir ao futebol é ter contribuído para propagar surtos da pandemia em curso. Interditado ao público há quase dez meses, sem um só jogo com presença sequer de um número ínfimo de espectadores autorizados pela Direcção-Geral da Saúde (com excepção de dois desafios da selecção nacional, sob a tutela da Federação Portuguesa de Futebol, e dois outros realizados no estádio do Santa Clara, em São Miguel, alegando a plena autonomia das entidades sanitárias açorianas), o chamado desporto-rei tem sido tratado como filho de um deus menor por quem já instituiu como regra tudo e o seu contrário.

Já nos mandaram tirar máscaras por incutirem uma «falsa sensação de segurança» e usá-las agora até na rua por imperativo sanitário, já mandaram fechar fronteiras e mantê-las abertas, já mandaram encerrar escolas quando havia poucos focos de infecção enquanto as mantêm abertas com os casos de Covid-19 a disparar. 

 

Toda a norma costuma trazer associada a respectiva excepção. No caso da DGS, porém, norma e excepção andam a par - uma e outra tão imprevisíveis como a roleta a girar num casino. A mesma DGS que autoriza algum público nas competições organizadas pela FPF e nega com intransigência a presença de espectadores nas provas promovidas pela Liga de Clubes, a mesma DGS que permite a declaração de independência sanitária dos Açores, como se não fosse parcela de território nacional neste "Estado unitário" que é o português à luz da Constituição da República, deu luz verde à entrada de 46 mil pessoas no Grande Prémio de Fórmula 1 organizado neste fim de semana em Portimão. Por antever ali um «risco mínimo», na esclarecida expressão da própria directora-geral da Saúde.

Os protestos públicos forçaram-na a reduzir o número de espectadores inicialmente permitido. Mesmo assim, 27.500 obtiveram autorização para comparecer nas bancadas do autódromo algarvio. Acontece que os bilhetes já estavam vendidos quando surgiu o recuo do baralhado organismo estatal, o que gerou um pandemónio junto dos acessos, com centenas de pessoas em protestos indignados. De tal forma que a delegada regional da DGS autorizou a entrada - total ou parcial - dessas pessoas. Para tudo ficar como as imagens documentam. Contribuindo para desacreditar ainda mais um organismo que não tem demonstrado estar à altura das difíceis circunstâncias que vivemos.

 

Alguém consegue entender esta disparatada dualidade de critérios que exclui em absoluto a assistencia ao vivo em jogos das competições desportivas de âmbito nacional desde que não se trate de saltos hípicosprovas motorizadas, desafios da selecção nacional ou partidas disputadas em estádios açorianos?

Eu não. E continuarei a protestar, como já fiz aqui e aqui.

Quem não gostar, tem bom remédio: empurre para a borda do prato e continue a fazer vénias aos responsáveis por tão inaceitável bagunça.

Bola, bodas e baptizados

Mais de dois terços das infecções com Covid-19 acontecem em reuniões familiares - nomeadamente em bodas, baptizados e banquetes. Revelou hoje a directora-geral da Saúde, em conferência de imprensa. 

Uma chatice. Eu a pensar que a culpa era do futebol e de todos nós, aqueles que gostamos de assistir a jogos ao vivo e estamos há sete meses impedidos de frequentar os estádios...

Será que a DGS se prepara para interditar também os convívios familiares, lançando-lhes o anátema que tem reservado ao desporto? 

Nem um passo atrás

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Foto: Manuel de Almeida / Lusa

 

Sete meses depois, o estádio José Alvalade voltou a ter público. Não aquele público de que muitos de nós fazemos parte - com lugares cativos, bilhetes de época ou ingressos jogo a jogo. Mesmo assim, há que registar o facto. Com satisfação e até alegria. Porque foi vencida uma absurda barreira que tardava a ser levantada pela Direcção-Geral da Saúde, entidade que foi dizendo quase tudo e o seu contrário sobre a pandemia enquanto mantinha uma inabalável recusa de "desconfinar" os espectáculos desportivos, em particular o futebol. Enquanto autorizava viagens aéreas em voos lotados, o regresso dos concertos, das sessões de cinema, dos espectáculos teatrais, dos circos e das touradas, enquanto permitia manifestações e concentrações de rua promovidas por forças partidárias, movimentos cívicos ou grupos espontâneos de cidadãos, enquanto dava luz verde a eventos tão diversos como a Festa do Avante no Seixal, o concurso hípico de saltos internacionais em Esposende ou a realização do Grande Prémio de Fórmula 1 em Portimão.

Como se nós, aqueles que durante anos costumávamos ir à bola, ajudando assim a financiar os clubes e a promover o desporto como baluarte da saúde pública, estivéssemos marcados por uma espécie de capitis diminutio para efeitos de cidadania responsável: os burocratas de turno na DGS imaginam-nos como perigosos transmissores de vírus enquanto frequentadores de um estádio. Não num restaurante ou num hotel ou num comício ou numa plateia de rábulas humorísticas ou enquanto utentes de transportes públicos. Para estas luminárias, só o desporto (não motorizado nem centrado em provas hípicas) está empestado.

 

Há que saudar a Federação Portuguesa de Futebol por ter conseguido derrubar o tabu: de algum modo, os 2500 espectadores que ontem marcaram presença nas desguarnecidas bancadas do nosso estádio para assistir ao amigável Portugal-Espanha (que terminou sem golos) foram pioneiros. Antecipando um regresso à normalidade possível.

A partir de agora, nem um passo atrás. Aberto o precedente, a autoridade sanitária não poderá negar à Liga de Clubes aquilo que autorizou à Federação Portuguesa de Futebol. Os jogos com público deverão ser retomados a curto prazo. Com bilhetes nominais, intransmissíveis e disponibilizados on line a cada adepto devidamente identificado, além do escrupuloso cumprimento das normas em vigor: uso permanente de máscara, higienização das mãos, controlo da temperatura à entrada do recinto e lugares atribuídos de acordo com o distanciamento físico sanitariamente recomendado.

Sem mais desculpas esfarrapadas. Porque futebol sem público é futebol amputado. E uma sociedade que força pessoas saudáveis a permanecer em casa por prazo ilimitado é uma sociedade doente.

Era o que faltava

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Estádio de São Miguel

 

Enfim, quase sete meses depois, boas notícias para o futebol. O próximo jogo Santa Clara-Gil Vicente, do campeonato nacional, e os desafios Portugal-Espanha e Portugal-Suécia, da equipa das quinas no âmbito da Liga das Nações, já poderão contar com público nas bancadas. Por enquanto ainda em versão muito restrita: mil espectadores permitidos no estádio açoriano, e números que oscilam entre 2500 e 5000 mil assistentes nos desafios da selecção, ambos a realizar no estádio José Alvalade. 

O futebol deixa de ser um dos últimos redutos interditos à normalidade possível nestes tempos ainda marcados pela pandemia. Entre múltiplas contradições das autoridades políticas e sanitárias, que foram andando aos ziguezagues nesta matéria, autorizando numas situações (provas hípicas e do desporto motorizado) o que proibiam noutras (quase todas as modalidades, além do futebol). Como não deixei de denunciar aqui.

Ainda há cinco dias escrevi isto: «Não gostei nada de esperar 61 dias pelo regresso do futebol leonino aos jogos oficiais. E menos ainda que este tardio início da temporada tenha ocorrido sem público, à porta fechada, com os sócios banidos do estádio. Quando touradas, circos, comícios, celebrações políticas e religiosas, espectáculos teatrais, sessões de cinema, provas hípicas, corridas de automóveis, shows humorísticos e festarolas diversas já podem contar com público. O futebol - que gera tantas receitas fiscais para o Estado e cria pelo menos 80 mil postos de trabalho directos e indirectos em Portugal - continua a ser tratado como inaceitável filho de um deus menor.»

 

São passos positivos, mas ainda tímidos. Exigem novo protocolo entre a Liga de Clubes e a Direcção-Geral da Saúde para vencer as últimas reticências deste organismo, eivado de preconceitos contra o público que costuma acompanhar ao vivo os jogos de futebol. Não faz o menor sentido que a DGS autorize à Federação o que tem negado à Liga, como se confirma pela luz verde emitida pelas autoridades sanitárias aos jogos da chamada "equipa de todos nós". Nem ninguém perceberá que nos desafios tutelados pela Liga se permita apenas nos Açores - a pretexto da autonomia regional - o que se recusa numa prova desportiva de âmbito nacional, onde as condições de igualdade competitiva são uma exigência irrecusável.

Aberto o precedente insular, não resta opção: também os estádios do continente devem admitir adeptos, em circunstâncias similares. Era o que faltava tolerar-se um cenário alternativo: apenas o estádio de São Miguel, onde joga o Santa Clara, contar com o aplauso e o incentivo do seu público. Como já tenho visto tanta coisa desprovida de sentido e lógica no futebol português, aqui fica desde já o meu alerta.

 

Leitura complementar:

Chutado para canto (3 de Setembro)

De disparate em disparate (10 de Setembro)

 

Obviamente, concordo com Futre

«A única maneira de controlar tudo é meter os jogadores fechados e estarem sempre em estágio, seja no Sporting ou em outro clube qualquer, mas isso não é fácil. No momento em que todo o plantel faz uma vida normal, que é casa-treino e treino-casa, qualquer um pode ser infectado e de seguida infectar o resto do grupo. Infelizmente, ninguém sabe onde é infectado e talvez possa ter sido só um jogador a passar o vírus aos outros. Na minha opinião, a Liga e todos os clubes devem voltar a reunir-se, urgentemente, para arranjarem uma solução rapidíssima para estes casos, porque isto pode acontecer todas as semanas com várias equipas e será impossível o campeonato acabar com tantos jogos a poderem ser suspensos em cada jornada.»

 

Paulo Futre, hoje, no Record

Quem beneficia com isto?

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Na véspera do início da Liga 2020/2021, surgiu a decisão da Direcção-Geral da Saúde: o Sporting-Gil Vicente, previsto para amanhã, terá de ser adiado. Devido à proliferação de infecções com Covid-19 no emblema de Barcelos, onde já existem 19 casos diagnosticados.

A DGS é a entidade soberana para o efeito, algo que ninguém discute. Neste caso, alicerçada num parecer da Administração Regional da Saúde do Norte, por sua vez baseado na indicação expressa da Autoridade de Saúde do Agrupamento Barcelos/Esposende.

 

Mas é precisamente aqui que começam a suscitar-se dúvidas. Mais que legítimas.

Problema? O carácter aleatório destas decisões, que passam a ser confiadas a delegações locais e regionais da autoridade sanitária sem definição prévia dos critérios objectivos para este efeito, traçados a nível nacional.

A partir de que grau de contágio fica o jogo protelado sine die? Um, dois, quatro, seis, dez infecções? Ninguém esclarece. E houve imenso tempo para traçar directrizes claras, concisas e compreensíveis.

Se uma equipa tiver quatro ou cinco jogadores comprovadamente com Covid-19 e outra não tiver nenhum, esta equipa é penalizada, vendo o jogo adiado, comprometendo toda a sua programação desportiva? E para quando, sabendo que o calendário futebolístico 2020/2021 é mais apertado que nunca? Convém não esquecer que esta época começa cerca de cinco semanas depois do prazo habitual e terminará mais cedo do que é costume.

 

Há uma semana, o jogo Feirense-Chaves, da Liga 2, foi adiado, mesmo em cima do apito inicial, só porque dois jogadores da equipa visitante haviam sido diagnosticados com Covid-19 e estavam já de quarentena, não tendo cumprido a deslocação a Santa Maria da Feira. Esta decisão foi assumida com base no relatório de um clínico, pertencente ao Agrupamento dos Centros de Saúde do Alto Tâmega e Barroso.

Faz algum sentido? Claro que não.

 

A nova data para o Sporting-Gil Vicente tornou-se uma incógnita. O que é grave, desde logo, pelo precedente que inaugura. E pelo cenário caótico que propicia.

A partir de agora a Liga - organizadora da principal competição de futebol - fica dependente de pareceres avulsos das delegações locais ou regionais da DGS. Nisto, ao menos, a directora-geral da Saúde foi clara: «A decisão será sempre da autoridade de saúde local.» 

Mas quem é essa autoridade? Um só médico, como aconteceu no abortado Feirense-Chaves?

 

O campeonato começa hoje num enquadramento sanitário errático e flutuante, antevendo-se decisões eventualmente tomadas à la carte, ao sabor dos caprichos de um delegado de saúde que até pode ter manifestas inclinações clubísticas.

Quem poderá beneficiar com isto?

 

Eis um caso que convém acompanhar com a máxima atenção: é o que faremos no És a Nossa Fé. Pela minha parte, fica a promessa.

De disparate em disparate

image.jpgFoto: Tiago Petinga / Lusa

 

Para não variar, a directora-geral da Saúde voltou ontem a fazer uma declaração inaceitável. Em que, uma vez mais, menospreza e subalterniza o desporto. Como se uma sociedade em que a prática desportiva organizada, promovida por agremiações clubísticas, não fosse parte iniludível da saúde, tanto na componente individual como colectiva.

 

A mesma responsável que autorizou viagens aéreas em voos lotados, o regresso dos concertos, das sessões de cinema, dos espectáculos teatrais, dos circos e das touradas, a mesma alta funcionária governamental que deu luz verde às manifestações e concentrações de rua promovidas por forças partidárias, movimentos cívicos ou grupos espontâneos de cidadãos, a mesma senhora que permitiu eventos tão diversos como a Festa do Avante no Seixal ou a realização do Grande Prémio de Fórmula 1 em Portimão continua a vetar o regresso do público aos recintos desportivos.

Com argumentos sem pés nem cabeça, confundindo aquilo que não deve ser confundido e até fazendo alusões demagógicas ao início do ano escolar, como se isso tivesse alguma coisa a ver com o futebol.

 

«Público nos estádios e reabertura das discotecas não será certamente nos próximos tempos. Temos de ver esta grande experiência que é o retorno às aulas e qual será o seu impacto nos números», afirmou ontem Graça Freitas. Equiparando assim as bancadas de um estádio - onde os lugares estão marcados, é muito fácil estabelecer limite máximo de entradas e o espectáculo decorre ao ar livre - ao interior de uma discoteca, onde o espaço é fechado, as pessoas estão sempre em trânsito e não há possibilidade de assegurar distanciamento físico.

Pior: ao englobar na mesma frase bancadas de estádios e discotecas nocturnas, Graça Freitas confirma ter absurdos preconceitos contra o futebol e não fazer a menor ideia sobre a importância do desporto no "desconfinamento" cada vez mais urgente da sociedade. Como há uma semana aqui assinalei, futebol sem público é futebol moribundo a curto prazo. Porque os clubes vivem de receitas - e as receitas de lugares nas bancadas, associadas à compra de adereços desportivos em complemento aos espectáculos, é fundamental para a sobrevivência de todas as agremiações desportivas que põem centenas de milhares de portugueses a fazer exercício físico. Porque uma sociedade onde não se pratica desporto é uma sociedade doente.

 

Não compreender isto é nada compreender de essencial. Noutras circunstâncias, eu aconselharia Graça Freitas a aconselhar-se com o secretário de Estado do Desporto. Mas não o faço porque João Paulo Rebelo já demonstrou ser tão insensível e tão ignorante na matéria como ela. Só isso explica que, numa recente entrevista, este governante tenha desvalorizado o facto de largos milhares de jovens continuarem impedidos de treinar ou competir sem restrições, dando-se até ao luxo de fazer uma graçola com a brutal quebra de receitas das agremiações desportivas: «Não temos conhecimento de nenhum clube que tenha fechado portas.»

Seria simplesmente ridículo se não fosse grave.

 

Uma directora-geral que mete estádios e discotecas no mesmo saco, um secretário de Estado totalmente alheado do dramático quotidiano do sector confiado à sua tutela: assim vamos, seis meses após a declaração da pandemia. De improviso em improviso, de disparate em disparate.

Chutado para canto

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As touradas mereceram aprovação: já se realizam há um par de meses.

Os espectáculos de humoristas foram aprovados: um deles até contou com a presença do primeiro-ministro numa noite e do Presidente da República na noite seguinte.

Os concertos recomeçaram. Um deles, numa curta série que ainda decorre, assinala o 75.º aniversário de Sérgio Godinho, orgulhoso sportinguista.

Reabriram teatros e cinemas.

As viagens de avião receberam luz verde. Mesmo em aparelhos lotados, durante horas e em espaço fechado, sem a menor hipótese de ali haver distância física (a que uns quantos imbecis ainda chamam "distanciamento social", absurda expressão concebida por alguém sem a menor ideia do que significa o adjectivo social).

 

Os restaurantes voltaram a receber clientes, embora em mesas um pouco mais afastadas do que antes - algo que já devia ter ocorrido, com vírus ou sem virus, pois em certos lugares bastava estendermos um braço para tocarmos na mesa ao lado.

Os hotéis puderam reabrir - alguns gabam-se até de ter lotação esgotada, praticando preços em consonância.

As praias voltaram a encher-se, excepto aquelas que nunca enchem. E são bastantes, felizmente, ao longo da nossa costa, com mais de mil quilómetros de zonas balneares.

O Autódromo Internacional do Algarve, em Portimão, vai receber entre 23 e 25 de Outubro o Grande Prémio de Portugal, que marca o regresso da fórmula 1 ao nosso país. Com público a assistir, obviamente.

As manifestações políticas - que implicam ajuntamentos, muita proximidade e bastante "calor humano" - puderam ir decorrendo, sem restrições e para todos os paladares: da CGTP, do Chega, dos anti-racistas e dos antifascistas. 

A Festa do Avante, devidamente autorizada apesar de decorrer na região do País que apresenta mais elevado risco sanitário, começa amanhã.

 

Tudo isto - e muito mais - com a devida chancela da Direcção-Geral da Saúde. Só o futebol continua a ser chutado para canto pelo respeitável organismo. Que acaba de anunciar novo adiamento da possibilidade de regresso dos espectadores aos estádios - mesmo num cenário de metade ou um terço da lotação. 

A 28 de Agosto, o recomeço das competições futebolísticas com público nas bancadas estava a ser «analisado e ponderado», segundo declarou a directora-geral, Graça Freitas. Ontem, a mesma responsável voltou a enrolar as palavras para anunciar que fica tudo como estava, aludindo ao regresso às aulas, como se uma coisa pudesse confundir-se com outra. Com esta extraordinária declaração, proferida em conferência de imprensa: «Não há nenhum preconceito com o futebol, mas temos de ver o contexto em que estamos. Temos de ver agora como acontece a retoma das aulas porque vai movimentar milhares de pessoas todos os dias, e como é o início do Outono e o início do Inverno no Hemisfério Sul.» 

Isto enquanto o inútil secretário de Estado do Desporto balbucia umas inanidades, afirmando-se confiante no regresso às competições nos escalões mais jovens, que têm estado inactivos. «O desporto é essencial para toda a sociedade», soletra o senhor, reencarnando La Palice. Enquanto cerca de 440 mil atletas federados treinam sabe-se lá como e há clubes e até federações em risco.

 

É preciso dizer isto sem rodeios: futebol sem público é futebol moribundo a curto prazo. Porque os clubes vivem de receitas - e as receitas de lugares nas bancadas, associadas à compra de adereços desportivos em complemento aos espectáculos, é fundamental para a sobrevivência de todas as agremiações desportivas. 

Não admira, por isso, que mesmo na rica e poderosa Alemanha os 36 clubes que integram as duas ligas de futebol profissional tenham convergido num plano para o regresso (moderado e condicionado) de espectadores aos estádios a partir do recomeço das competições, previsto para o próximo dia 18. Porque da sobrevivência dos clubes depende a sobrevivência do desporto. E uma sociedade sem desporto é uma sociedade doente.

A DGS devia saber isto melhor que ninguém.

Para reflectir

 

«As vendas de jornais caíram, fenómeno agravado por uma pandemia que deixou milhares de habituais leitores em casa, e depois ainda existem os pilha-galinhas dos motores de busca e redes sociais, clippings e edições inteiras de jornais a circular via WhatsApp que não pagam nada a quem produz diariamente esses conteúdos.»

 

«É irresponsável o investimento de milhões em jogadores, quando a única receita segura, pois ninguém sabe quando o público volta às bancadas, provém das receitas televisivas - sendo que devia o exemplo de Abril e Maio do eventual cancelamento de pagamentos da MEO e da NOS pela paragem competitiva servir de aviso.»

 

«A indústria do futebol em Portugal está na obscuridade e na agonia de quem sabe que se está a consumir a última vela. Continua tudo cego.»

 

Excertos do artigo de opinião do Rui Calafate, hoje publicado no Record

O coração do futebol

«Se aprendemos algo durante esta pandemia é que o coração do futebol não bate em estádios vazios e que o ventilador mecânico da televisão, que o mantém vivo como indústria, é insuficiente. A paixão que pedimos ao futebol está está espalhada pelas casas e desvalorizada por não encontrar uma caixa de ressonância. Ninguém deixou de ser do Real Madrid ou do Barça por causa do Covid, mas nem há euforia para festejar o título do Real Madrid nem lenços brancos que ponham em perigo a presidência de Bartomeu. Até o VAR, como subproduto televisivo, dispara no escuro depois de ter convertido o futebol numa fantochada. Chegou em nome da justiça mas atropelou-a ao pretender que um jogo dinâmico se jogue em câmara lenta ou como uma foto fixa. Que devolvam as batidas ao futebol e que o coração aproveite para gritar aos quatro ventos e colocar as coisas no seu lugar.»

 

Jorge Valdano, em crónica ontem publicada no jornal A Bola

Um genuíno momento de alegria

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Quatro minutos da segunda parte do Portimonense-Gil Vicente de ontem. Lucas Fernandes acaba de fazer um grande golo, num disparo em arco fora da área, carimbando a vitória tangencial da equipa algarvia. Num estádio despido de público em consequência das dúbias normas sanitárias emanadas do mesmo governo que já autorizou os portugueses a frequentar restaurantes, teatros, cinemas, salas de concerto e centros comerciais.

Acto contínuo, os colegas de equipa romperam o gelo, envolvendo Lucas em calorosos gestos de júbilo pelo golo, que lhes valeria os três pontos. Mandando assim às malvas as draconianas recomendações da Direcção-Geral da Saúde, entidade que assobia para o lado quando toca a encher voos comerciais enquanto ordena que as bancadas permaneçam vazias: «Nenhuma competição pode ocorrer com público no interior dos estádios até ao final da temporada.»  Mesmo naqueles - e são muitos - que já nem se lembram da última enchente registada.

Manda o código de conduta em vigor que se imponha o "distancimento social" (estúpida expressão) num jogo de futebol, desporto que vive do permanente contacto físico entre os protagonistas, em situações que vão da simples disputa da bola à marcação de livres ou cantos. E, claro, dos instantes que se sucedem aos golos - expoente máximo desta modalidade que apaixona o mundo.

 

Fizeram os jogadores do Portimonense muito bem. Ao contrário do que sucede na Alemanha, onde se recomenda expressamente aos profissionais do futebol que «evitem contactos com as mãos para comemorar os golos», devendo usar-se em alternativa os cotovelos ou os calcanhares. Coisa mais imbecil.

Foi um momento de genuína alegria numa partida amorfa e cinzenta que assinalou o controverso regresso às competições nesta era pandémica: um futebol "mascarado", sem emoção e sem público.

Chamar-lhe "25.ª jornada da Liga 2019/2020", que fora suspensa três meses atrás, é um embuste. Porque estamos, na prática, perante um futebol de pré-época. Num contexto tão diferente e tão cheio de condicionalismos específicos que só num exercício de profunda abstracção podemos estabelecer linhas de continuidade entre um período e outro.

 

No final do jogo, o treinador do Gil Vicente falou como de costume, sem papas na língua. Dizendo em voz alta o que quase toda a gente pensa mas evita exprimir: «Os clubes aceitaram tudo o que a DGS propôs para retomar o futebol, mas não o deveriam ter feito. Futebol sem público não é o futebol a que estamos habituados. Precisamos de público.»

Fez Vítor Oliveira muito bem.

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