Paixão
«A minha maior paixão é sem sombra de dúvida o Sporting Clube de Portugal.»
Ana Sofia Patrício, presidente do Núcleo da Quinta do Conde, em entrevista à Tribuna Leonina
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«A minha maior paixão é sem sombra de dúvida o Sporting Clube de Portugal.»
Ana Sofia Patrício, presidente do Núcleo da Quinta do Conde, em entrevista à Tribuna Leonina
Todos nós, homens e mulheres, temos a necessidade de fazer parte de algo mais grandioso que a nossa própria individualidade. Tal como a religião, o futebol é um aglutinador de massas. As cerimónias do ludopédio são celebradas em comunhão por pessoas de diferentes étnias, géneros e classes e estratos sociais. A razão porque escolhemos o clube da nossa devoção é muitas vezes um ritual de passagem de pai para filho, mas também tem o seu quê de misterioso.
Nos seus tempos aureos, o Benfica era visto como o clube vencedor por excelência. Em consonância, muitos adeptos nascidos nas décadas de 60 e de 70 do século passado tornaram-se benfiquistas. Os ecos da popularidade de Eusébio e da equipa que conquistou duas taças europeias encontraram respaldo no desejo, humano, de fazer parte de um projecto vencedor. Assim, homens e mulheres passaram a vencer através da sua ligação ao clube encarnado, compensando provavelmente as derrotas e/ou vitórias muito mais árduas que iam tendo nas suas vidas privadas.
Os adeptos portistas encontraram abrigo na bandeira de uma região. Nesse sentido, e até pela estratégia desde o primeiro momento montada pelo presidente Pinto da Costa, o FC Porto foi um fenómeno da causa do regionalismo, mesmo antes de este ser aceite nacionalmente. Como não há bela sem senão, a política de "contra tudo e contra todos" não lhe permitiu crescer a nível nacional na medida daquilo que foram os seus retumbantes êxitos nacionais e internacionais, continuando a ser o terceiro clube nacional a nível de adeptos e de simpatizantes.
Aqui chegados, importa falar do nosso Sporting. O clube é um "case study" de fidelização de adeptos. Com grande implantação nacional, fortíssimo na região Oeste do país e em distritos como o de Leiria, por exemplo, onde se travaram batalhas decisivas para a afirmação da nossa nacionalidade, o Sporting permanece irreedutível como um grande clube português e um dos maiores da Europa a nível de associados. Não ganhando tanto como os seus rivais e não sendo um clube exclusivamente representativo de uma região, como pôde o clube leonino resistir e manter-se como um grande? Na minha opinião, isto tem a ver com a identificação que se criou com uma determinada cultura e valores.
Muitas vezes acusado de ligações ao Estado Novo, na verdade o Sporting foi sempre o clube mais progressista de todos e o que compreendeu melhor a dimensão sócio/cultural do desporto. Nunca olvidando tratar-se de um clube de futebol, o Sporting soube atrair adeptos através da prática desportiva. Foi assim com a ginástica (quem não se lembra das "Sportinguíadas") ou com a natação, com as célebres piscinas do Campo Grande. Para além disso, o clube sempre teve uma visão empresarial. Infelizmente, a condicionante de instabilidade política e concomitante falta de investimento minou o importante projecto que João Rocha tinha para o Sporting através da Sociedade de Construções e Planeamento (SCP), mas a visão estava lá. Hoje em dia, o clube aproveita os talentos surgidos nas suas camadas jovens para internacionalizar as suas academias, exportando o "know-how" único da nossa Formação.
O Sporting é também um clube de figuras ímpares do desporto nacional. Com as cores verde-e-brancas desfilaram Carlos Lopes - o primeiro português medalhado de ouro nuns Jogos Olimpicos - , Fernando Mamede - durante uma década recordista mundial dos 10.000 metros - , António Livramento - melhor hóquista mundial de sempre - ou Joaquim Agostinho, duas vezes no pódio da Volta a França em bicicleta, entre várias outras figuras de relevo do desporto nacional e internacional. Pelo seu ecletismo, o clube tem o terceiro melhor palmarés do velho continente, a nível de competições europeias vencidas.
O Sporting é o clube de Cristiano Ronaldo e de Luis Figo, de Carlos Lopes e de Fernando Mamede, os rostos da projecção internacional ímpar do clube, mas é também uma fábrica de talentos com artesãos de primeira qualidade como Aurélio Pereira, César Nascimento ou João Couto e Mário Moniz Pereira, capazes de cuidadosa e porfiadamente lapidar diamantes, longe das luzes da ribalta e sem os estragar prematuramente em razão de um qualquer "soundbyte" de ocasião.
Enfim, este arrozoado já vai longo e o que eu gostaria de saber dos NOSSOS Leitores/Comentadores/Autores - e permitam-me que Vos roube algum do Vosso precioso tempo, mas é por uma leonina boa razão... - são, essencialmente, 4 coisas:
Saudações Leoninas

A gente apoia, apoia, apoia.
A gente vai ao estádio às vezes com uma ginástica desgraçada, porque o trabalho às vezes colide e a hora dos jogos é imprópria para quem é de longe.
A gente, muitos de nós, vai atrás da equipa para todo o lado.
A gente faz tudo isto por amor.
É de amor que se trata, nesta relação dos mais de 40 mil que vão ao estádio, dos milhares que vão onde tu fores jogar, e dos milhões que sofrem pela televisão e pelo rádio.
E de quando em vez tu trais-nos, desferes uma valente facada na nossa relação e a gente reage a maior parte das vezes a quente e rasga as juras de amor que vamos ao longo do tempo proferindo, sempre de peito aberto ao Mundo.
Hoje a nossa relação ficou mais uma vez um pouco abalada e eu acho que existem razões para a gente estar melindrados.
Afinal de contas, pode parecer coisa de somenos, mas eu acho que foi traição.
Amanhã, como bons amantes, a gente fará as pazes e lá estaremos colados um ao outro, mais uma vez até que a morte nos separe.
Ou outro empate com sabor a derrota nos tire do sério!
«Uma vez, na Tapadinha, chovia tanto que éramos os únicos que não abandonámos a bancada. Saímos de lá a escorrer, mas eu achava graça. O meu avô morreu no dia de um Sporting-Sporting da Covilhã. Era suposto ele vir-me buscar de táxi e não apareceu. Eu chorei de fúria: "O avô não cumpriu." Mas depois lá me disseram que o avô tinha desaparecido.»
Eduardo Barroso, hoje, em entrevista ao jornal i.
Uma Mami esteve a ver o jogo do Sporting, sozinha como se quer nestas coisas que aceleram o coração e transformam, durante noventa minutos, uma pessoa sensata e tranquila num Gru (do fabuloso Despicable me). De vez em quando (leia-se quando jogam os leões) é preciso abandonar a razão e entregar-se à emoção.
As teenagers que me habitam a casa (e me conhecem os humores) dividiram-se entre uma conversa (de horas) ao telefone com o namorado e uma ocupação mais ou menos selvagem da minha cama.
Muitas Mamis têm a ambição mais ou menos disfarçada que os filhos sigam uma profissão que lhes agrade – política não, política não, please – mas nem sempre a verbalizam. Porém, quando se trata de futebol o desejo não é nada secreto: o que eu queria mesmo era que as teenagers – que vestem a minha roupa, calçam os meus sapatos e usam meu perfume – vestissem a camisola do Sporting. Tento explicar-lhe que o Sporting transporta a sina de ser um verbo conjugado no futuro. Há algo mais sedutor do que a possibilidade?
Apesar do meu vasto repertório de doutrinação nada feito, as duas (note to self: será que isto é motivo suficiente para as deserdar ?) apoiam equipas alemãs, por isso cartão vermelho e expulsão da sala quando joga a minha paixão.
Se a vitória tem pouca graça na literatura e no cinema, sendo a derrota mais fértil, fotogénica e rica em interpretações, já no futebol valem outros cânones. Após o jogo subi para o quarto feliz como alguém que acaba de receber o iPhone 6 (para os que não gostam da Apple leia-se feliz como alguém a quem colocaram sobre a mesa um petit gateau com framboesas, ou feliz com alguém que teve bom sexo), afasto o lençol para me deitar e noto que a cama encolheu. Literalmente. Além da teen mais nova, que dorme a sono solto, encontro uma tartaruga, um coelho, um mignon e um urso. Na mesa de cabeceira uma nota: “não vais expulsar os meus bonecos da cama, pois não, Mami querida? Eles são do Sporting”.
Razão tinha o Nelson Rodrigues quando dizia que mesmo “a mais sórdida pelada é de uma complexidade shakesperiana”.
Publicado também aqui.
Rui Bebiano, n' A Terceira Noite: «Sempre que tem lugar um grande torneio internacional ou a celebração de uma vitória memorável, correm pelas redes sociais testemunhos da rejeição do futebol como desporto de massas e espaço público da celebração de uma paixão. Não se trata só da legítima demonstração de desinteresse por algo que se olha sem prazer, ou do mero protesto contra a forma como o jogo do pontapé na bola nessas alturas invade de forma absurda os meios de comunicação. É mais do que isso, surgindo em alguns casos como expressão de verdadeiro ódio – irracional, seletivo e agressivo, como todos os ódios – projetado sobre quem o acolhe como praticante ou adepto. Os argumentos são recorrentes: o futebol é manifestação de uma estonteada "alienação", o reino negro "do dinheiro sujo e do desperdício", mera "brincadeira de rapazes", uma "perda de tempo" quando tanto há de "verdadeiramente importante" para fazer. Como se a vida não fosse feita também dos grandes vícios e dos pequenos nadas que a tornam complexa e mais interessante.»
23 de Agosto de 2003, data do primeiro jogo para o campeonato no novo estádio. O adversário foi o Belenenses.
No alto dos meus 20 anos, meto-me num comboio e arranco para Lisboa com mais 2 sportinguistas. Metro até Campo Grande. De caras com o novo estádio de Alvalade. Fantástico. Muito mais imperial que na televisão.
“Vamos para a fila da bilheteira que hoje é enchente na certa”. A 15 minutos do início do jogo informam-nos: “Só há lugares para a última fila da Bancada B Central e custam € 50 cada.”. Pois bem, que assim seja. Afinal era o primeiro jogo do campeonato do novo estádio e já estávamos em Lisboa.
A euforia era tanta que só no final do jogo, enquanto as descia, me apercebi da quantidade de escadas que tinha subido para chegar ao meu lugar.
Lá do sítio onde os jogadores parecem caricas assisti a um jogo emotivo, em que o Sporting esteve a ganhar 2-0 e se deixou empatar (grande golo de Sousa). No decorrer da segunda parte, o improvável Lourenço, fez o 3-2 e Toñito fechou o marcador logo de seguida, fixando o resultado em 4-2.
De saída do estádio, metro novamente. Chegados à estação do Oriente, informam-nos que, comboios para o nosso destino, só no dia seguinte pela manhã.
Ok, não há problema, espera-se. Mesmo que apenas com uns míseros trocados no bolso. Afinal, nenhum de nós esperava pagar € 50 pelo bilhete. Mas também nenhum se queixou até entrar no comboio rumo a casa.
Acima de tudo o objectivo estava cumprido: presença no primeiro jogo do campeonato no novo estádio e vitória do nosso Sporting.
É muito bom ter um treinador de futebol que percebe de futebol.
É muito bom perceber que estes jovens jogadores estão a ser liderados por alguém com capacidade.
É muito bom saber que temos tanta qualidade dentro de casa.
É muito bom ser do Sporting.
Alguns blogues que usam e abusam do nome do Sporting parecem feitos por pessoas que nunca vão à bola. Pessoas que não assistem a um só desafio ao vivo, que são incapazes de vibrar com a contagiante euforia das bancadas em dia de jogo, que não explodem de alegria cada vez que o nosso clube marca um golo e todo o estádio é percorrido por uma imensa onda de emoção.
Há quem seja capaz de escrever sobre futebol espraiando-se com aparente sapiência sobre sistemas tácticos, opções técnicas, dinâmicas de jogo. Há quem se aventure vezes sem conta pelos mistérios dos mercados de transferências e quem debite na ponta da língua as linhas completas das equipas dominantes em vários países da Europa e das Américas e saiba de cor os nomes dos respectivos treinadores, mas seja incapaz de escrever uma só linha sobre as emoções do futebol ao vivo quando as bancadas se pintam de verde e branco.
E no entanto nada há tão importante para entender este fenómeno sem par que é o futebol. Foi o que senti uma vez mais, na tarde de ontem, ao ver a saborosíssima goleada do Sporting ao Arouca no local próprio: o nosso estádio. O ser humano tem um apego inato a rituais - e o futebol é inseparável deles. Dos cânticos, das cores, da estética tão própria deste desporto que apaixona o mundo.
Cumpri com todo o gosto este ritual. Que começa muito antes do jogo e se prolonga depois dele, na zona das rulotes, enquanto se mastiga uma bifana e as imperiais - da marca certa, não da outra que nos promete a Luz - circulam à velocidade da sede enquanto se digere o jogo. Lá encontrei amigos e colegas de blogue - os primeiros com quem partilhei as emoções deste encontro inaugural do campeonato. O João Távora, o Francisco Almeida Leite, o José Navarro de Andrade, o Duarte Calvão, o Eduardo Hilário. Vários de nós ainda sem cachecóis, pois o calor aconselha a deixar este adereço em repouso. Mas todos com a paixão sportinguista renovada. De ano em ano, de época em época.
Os outros não sabem nem sonham que de tudo isto também é feito o futebol.
Foto minha. Texto publicado também aqui
Futebol não é desporto, é peregrinação. É culto clubístico, não ópera. É território de amor e ódio, não um passatempo de domingo à tarde, cheio de bons sentimentos primaveris. É bifana e não bife, é imperial e não vinho, é escárnio, maldizer e não uma mesa bem posta com toalha de linho branco. Futebol é choro nas derrotas do nosso clube e êxtase nas derrotas do nosso rival. É crença em dias melhores e tristeza que nos cala quando passamos por uma época como esta. Sou completamente racional em tudo na vida, menos na bola. Com a bola. A ver a bola. Aliás, para memória futura aqui vos digo: eu nem gosto de bola. Só gosto do Sporting e em particular que o clube do outro lado da rua perca sempre. São duas faces da mesma moeda. Duas almas gémeas. Separá-las é tirar futebol ao meu futebol. Até consigo dizer que os outros jogam melhor, apontar-lhes grandes jogadores, conceder a sua dimensão. Não me peçam é mais do que isto. Jamais lhes darei os parabéns pelo que quer que seja ou desejar-lhes boa sorte num jogo internacional. Recuso-me a ver jogos na televisão entre eles, quanto mais ir à bola com um deles. Não tenho peças de roupa daquela cor e abandonei o leite parmalat no dia em que o resolveram estampar nas camisolas. Está já em curso a mudança de operador de electricidade e, evidentemente, sou alérgico a sagres. Sou mais feliz quando perdem, quando choram e quando andam calados. No dia em que me tirem esta rivalidade tiram-me um dos lados bons da vida: o meu futebol.
(originalmente publicado aqui)

Paço de Arcos, 1982…