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És a nossa Fé!

A ver o Mundial (10)

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ENFIM, NEYMAR

 

O Brasil deu ontem um passo decisivo para assumir sem rodeios a candidatura ao título de campeão mundial ao superar o México e atingir os quartos-de-final - o que sucede pela sétima vez na sua história. Num jogo em que durante a primeira parte cedeu a primazia da iniciativa à equipa adversária, que se foi desgastando em sucessivas iniciativas de futebol ofensivo travadas pela defesa canarinha, liderada pelos veteranos Thiago Silva e Miranda e guarnecida com dois laterais imprevistos: à esquerda, Filipe Luís (por impedimento de Marcelo); à direita, Fagner (terceira escolha após a lesão de Dani Alves que o impediu de viajar para a Rússia e a lesão muscular de Danilo).

O plano resultou. As energias físicas e anímicas do México - que nunca venceu o Brasil numa fase final de um Mundial - foram-se esgotando em lances de bonito futebol de ataque desenhados nas alas pelos dinâmicos Herrera e Guardado mas neutralizadas pelo "escrete". E na segunda parte operaram a reviravolta, assumindo o comando das operações. Com momentos que fizeram lembrar o melhor Brasil que guardamos na memória - desta vez protagonizados por Neymer. Foi ele a abrir o marcador, aos 51', coroando uma bela jogada colectiva e uma decisiva assistência de Willian. Foi ele também a acelerar e a cruzar, aos 88', para o golo da confirmação, a cargo de Firmino, entrado dois minutos antes com manifesta vontade de ser titular em vez do apático Gabriel Jesus. Volta a marcar pelo segundo jogo consecutivo, após ter feito o gosto ao pé contra a Costa Rica ao cair do pano.

Disputado na cidade russa de Samara, este foi um jogo digno de Mundial que castigou a equipa mais ousada e premiou a equipa mais astuta. Com Cristiano Ronaldo, Messi, Iniesta, Kroos, Salah e Lewandoski fora do torneio, Neymer começa a emergir como a grande figura deste Campeonato do Mundo. Já a espreitar a Bola de Ouro.

 

Brasil, 2 - México, 0

Nada disto tem a ver com desporto

Neymar posa para fotos em apresentação no Paris Saint-Germain

 

Os 222 milhões de euros pagos pelo Paris Saint-Germain (nome de santo ironicamente patrocinado por um país islâmico) para desviar Neymar do Barcelona cavam ainda mais fundo o fosso que separa o futebol enquanto actividade económica da genuína competição desportiva: deixaram de ser mundos complementares para se tornarem realidades antagónicas.
Este inédito montante adultera os princípios de transparência do mercado desportivo cotado em bolsa e transforma os jogadores em mera mercadoria à mercê dos capitães da fortuna fácil. Desde logo, parece colidir com as normas da concorrência vigentes na União Europeia e as regras de fair play financeiro da UEFA: qualquer resquício de equidade evapora-se de vez quando os Estados começam a investir em força nos clubes - neste caso o do Catar, com base nos seus lucros petrolíferos. E provoca um sério choque inflacionário na indústria do futebol: os preços vão disparar, a espiral da dívida aumentará em flecha, avizinham-se as mais desvairadas loucuras financeiras no horizonte.
Convém entretanto seguir em pormenor a origem e o rasto desta verba astronómica, que faz subir para 700 milhões de euros o orçamento anual do PSG para o futebol. À atenção das autoridades jurisdicionais - do desporto e não só.
Finalmente, está por demonstrar que um único jogador - e desde logo Neymar, com desempenho em campo inferior a Cristiano Ronaldo ou Messi - justifique estas cifras galácticas. O dinheiro pago por ele para o transformar em emblema de um clube sem tradição na alta-roda do futebol duplica o seu justo valor, nada tendo a ver com genuínos "preços de mercado". 
Ao dar este passo, o futebol de alta competição transforma-se num jogo de fortuna e azar - uma espécie de roleta russa para usufruto de caprichos milionários. O desporto, digam o que disserem, nada tem a ver com isto.

 

Publicado originalmente aqui

O Brasil

Decidi assistir ao Brasil-Colômbia, às duas horas da manhã. O meu patrão é um tipo simpático e oferece-me este dia em que sou pequenino, de modo que o tempo hoje corre mais devagar. E devagar andou também a selecção do Brasil, que me fez lembrar aquela equipa que levou sete da Alemanha.

Duas notas apenas deste jogo emotivo, mas sem qualidade alguma, numa ausência de táctica confrangedora, tipo "tudo ao molho e fé em deus": a ausência de Jackson, incompreensível, e a ausência de Neymar Jr, que esteve apenas de corpo presente, mas o que de relevante acabou por fazer foram apenas duas ou três agressões (uma valeu-lhe o vermelho já depois do final do jogo) e mais meia dúzia de outras tentadas.

Fraquinho, muito fraquinho! Até me fez lembrar um tipo que é sempre muito criticado e que no sábado passado resolveu, com três "gols" na baliza da Arménia...

O jogo, à boa maneira sul-americana, acabou com uns afagos entre os intervenientes, nada de anormal.

A ver o Mundial (14)

Ao contrário do que alguns imaginam, o futebol não é só feito de esquemas tácticos, jogadas a régua e esquadro, losangos, bolas paradas e "transições ofensivas". O futebol é sobretudo uma fascinante soma de momentos mágicos que perduram na memória colectiva, ampliam a nossa crença nas potencialidades da espécie humana e demonstram onde é possível chegar quando talento e esforço se conjugam. Momentos como o que ontem testemunhámos ao minuto 36 do Austrália-Espanha: bem servido por Iniesta, David Villa marca um extraordinário golo de calcanhar. O seu 59º golo pela Roja. E também o último: minutos depois, aos 56', o maior marcador da história da selecção espanhola, goleador máximo do Campeonato da Europa de 2008 e do Campeonato do Mundo de 2010, saía de campo sob um coro de merecidos aplausos. Espanha, prematuramente afastada do Mundial do Brasil, já não tinha nada a ganhar excepto aquele desafio que só contava para cumprir calendário. Mas Villa bateu-se em campo, neste último jogo, como se fosse o primeiro da sua exemplar carreira. Porque queria abandonar a selecção de cabeça levantada.

Era ele que ali estava - mas era mais do que ele, como o homem do leme do poema de Fernando Pessoa: era já também o mito. Um mito vivo, feito de carne e osso. E também de lágrimas, que não conseguiu reprimir ao sentar-se no banco de suplentes. Quem disse que um herói não chora?

 

Não sei se pensam como eu: gosto de ver uma equipa cair de pé. Sem vitórias morais, sem desculpas de mau pagador, sem o espírito queixinhas de quem se justifica com as condições climatéricas adversas para procurar fugir às responsabilidades.

No futebol há vitórias e derrotas. E por vezes ganha-se perdendo ou perde-se triunfando. Aconteceu ontem com Espanha: derrotou a combativa mas frágil selecção australiana mas esta vitória soube a desaire pois não tardou a embarcar de regresso a casa: foi uma das três primeiras a fazer as malas, juntamente com a Inglaterra e a Bósnia-Herzegovina. 

Ficou a sensação de que havia potencial para fazer muito mais e melhor. Se Vicente del Bosque tivesse a ousadia, logo na partida inicial, de apostar naqueles que eram mesmo os melhores em vez de os remeter ao banco. Jogadores como Villa, que só ontem alinhou. Ou Koke e Juanfran, seus colegas do Atlético de Madrid, por acaso ou talvez não a equipa campeã de Espanha mas totalmente subalternizada a nível de selecção. Todos eles fizeram ontem a diferença, tal como o eterno Iniesta, autor de duas assistências para golo: ele é também daqueles que podem cair, mas sempre cairão de pé.

 

Futebol é isto.

 

Villa despediu-se com um grande golo 

 

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Andavam alguns à procura de uma estrela neste Campeonato do Mundo. Seria Messi? Seria Cristiano Ronaldo? Parece-me que a estrela está encontrada e joga em casa: chama-se Neymar. Faz a diferença - e de que maneira - pela selecção anfitriã, como ontem se confirmou ao marcar mais dois golos para o Brasil (só à sua conta já vão quatro) e qualificar o "escrete canarinho" para os oitavos-de-final.

É certo que os comandados por Scolari enfrentavam talvez a pior selecção deste Mundial: os Camarões, turma indisciplinada e rebelde, que aplica a rebeldia justamente onde não deve. O árbitro sueco poupou-lhes uma expulsão, por conduta antidesportiva em relação a Neymar. Fez mal: os camaroneses teriam beneficiado do ponto de vista pedagógico se vissem o merecido cartão vermelho na mão do juiz da partida, que talvez para compensar ignorou um aparente fora-de-jogo de Fred no lance em que finalmente marcou um golito.

Mas nem ele nem Hulk nem Óscar nem David Luiz nem qualquer outro merecem destaque. Desta selecção apetece dizer - adaptando a involuntária boutade de que se usou e abusou no período pré-Mundial relativamente a Cristiano Ronaldo - que é Neymar mais dez. Uma selecção em que o colectivo funciona muito menos do que na Holanda de Robben ou no México de Ochoa  - duas selecções também já qualificadas para os oitavos-de-final.

O futebol, não esqueçamos, é desporto colectivo: o Brasil que se cuide.

 

Austrália, 0 - Espanha, 3

Brasil, 4 - Camarões, 1

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