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És a nossa Fé!

Às avessas

Domingo, 24 de Abril de 1988, no Estádio José de Alvalade estão presentes Manuel Fernandes, Jordão, Meszaros, Eurico, Malcom Allison e Roger Spry – todos eles campeões pelo Sporting. Vão estar em campo e defrontar o Sporting… Um jogo à avessas.

Esta é crónica publicada, no dia seguinte, na Gazeta dos Desportos (n.º1118, pp. 12 e 13)

(Peço desculpa por alguma gralha de digitação)

 

«Tudo em família

Allison, antes do jogo começar, foi ao centro do terreno receber uma enorme ovação. Meszaros, quando caminhava para a baliza, escutou a mesma coisa. Manuel Fernandes e Jordão, idem. E o Sporting, que voltou a jogar bem, acabou por ganhar. Parecia um encontro de confraternização...

 

ERA um jogo especial. Disso não havia dúvidas. E mais especial se tornou, quando logo antes do início, Malcolm Allison, o treinador que deu o último título a Alvalade, se dirigiu ao meio do terreno e escutou uma estrondosa salva de palmas. O inglês foi fazer um teste à sua popularidade, e constatou que a sua cotação, ali para as bandas do Lumiar, continua alta.

Este momento, este gesto, como não poderia deixar de ser, tinha o seu sentido. Psicologicamente, era terrível para a equipa do Sporting. E assim, não foi estranho que, logo no princípio do jogo, se notasse uma enorme vontade dos sadinos em demonstrar que estavam ali para jogar ao ataque. E jogaram. Aproveitando uma certa descoordenação do meio-campo do Sporting, o Vitória começou por lançar numerosos contra-ataques, e mesmo ataques organizados, que obrigaram a defesa leonina a permanente concentração.

No entanto, e a corroborar a ideia de que as melhoras do Sporting são mesmo um facto, a equipa de Morais sacudiu bem esse ímpeto inicial dos setubalenses. Litos, em grande estilo, pegava na batuta e chamava a si a responsabilidade de orquestrar as manobras de ataque da sua equipa. Só que o Vitória, com um esquema de defesa em linha muito adiantado, fazia com que tanto Cascavel como Lima caíssem constantemente em fora de jogo. O que começava a enervar os adeptos da casa Por outro lado, esta prática também era usada por banda da defesa do Sporting. Assim, assistia-se a um jogo curioso, em que a boia andava de cá para lá de fora-de-jogo em fora-de-jogo, cada um à espera do falhanço do outro. E eles, os falhanços, existiram. O sistema não é infalível e uma bandeira não levantada ou um arranque mais tardio são meio caminho para uma jogada de muito perigo.

Sensivelmente a partir do meio da primeira parte, a equipa de Morais começou a variar o seu tipo de jogo. Tinha de ser. De outro jeito não dava, houve que alterar o estratagema. A bola, que até ali pouco tempo parava nos pés dos centro-campistas leoninos, começou a ser trocada com mais calma, numa tentativa de entrar mais pela certa. Fernando Mendes começou a dar maior apoio a Lima. João Luís fez o mesmo em relação a Sealy e os sadinos tiveram de recuar um pouco. Mas sempre que podiam, prontamente solicitavam a corrida do seu homem mais rápido a partir para a frente, Aparício.

Com esta subida dos sportinguistas, os pupilos de Allison, agora a defender bem mais perto da sua área, começaram a ceder nessa zona mais faltas. De que resultavam livres perigosos. Enquanto a equipa era apanhada mais adiantada, era Meszaros a ter de sair fora da área para resolver. E foi num desses lances que nasceu o primeiro golo do Sporting. O húngaro não teve outro jeito senão cortar com as mãos um lançamento para Sealy e na marcação, Cascavel, ontem de serviço neste tipo de lances, atirou da melhor forma. Aliás é altura para referir que a equipa do Sporting está a jogar muito mais para Cascavel. Com a posição europeia a ganhar corpo, o objectivo que a formação verde-branca agora persegue é consagrar o melhor marcador do campeonato. E Cascavel está agora outro. A motivação finalmente apareceu.

Seria então no segundo tempo, mais particularmente aí a partir dos dez minutos, que o melhor futebol do encontro apareceria. O Sporting criava sucessivas situações de apuro para Meszaros, num período brilhante e conseguiu, nessa altura, elevar para 2-0, numa jogada muito bonita. Lima, agora muito mais activo que no primeiro tempo, foi contemplado de novo por mais uma bela actuação. Um jogador em grande forma. Morais mais uma vez o premiou, tirando-o a escassos minutos do fim do jogo, para ele ter direito a ovação. Que aconteceu, naturalmente.

Depois do segundo golo do Sporting, o jogo ficou resolvido. Não se notava capacidade à equipa do Vitória de Setúbal para dar a volta ao texto. Servida de alguns jogadores já nada jovens, os setubalenses tiveram de ceder os pontos.

Ainda assim, os setubalenses poderiam ter marcado, já que num lance de ataque, Manuel Fernandes foi derrubado dentro da grande área de Damas, e Alder Dante deixou o lance seguir. Elder invocou a lei da vantagem, mas o remate de Aparício embateu no poste e a oportunidade ficou-se por isso mesmo.

E naturalmente, a vitória sportinguista aconteceu. Sem uma grande exibição, esmagadora, mas perfeitamente justa. No final, ficou a sensação de que se havia assistido a um jogo de carácter amigável, de homenagem a antigos jogadores, tal a forma carinhosa como todos os ex-sportinguistas foram recebidos pela massa associativa do Sporting. Um encontro de amigos...

Bom, mas amigos, amigos... Com esta vitória, o Sporting ganhou não dois, mas quatro pontos, já que os setubalenses estão na mesma guerra. Foram os dois da vitória e mais dois que o Setúbal deixou de ganhar.

O trabalho de Alder Dante não está isento de erros. Teve algumas indecisões provocadas por indicações duvidosas dos seus auxiliares e isso fez com que a sua actuação tivesse sido menos eficaz. Mas esta forma que as defesas encontram para anular os ataques contrários são propícios a constante polémica. Não é fácil agradar a todos e quando não eram uns a protestar, eram os outros.

- MÁRIO PEREIRA, Comentário-

 

“Esta deslocação a Setúbal foi muito difícil…”

JÁ era esperada a boa recepção que o público de Alvalade dispensou à equipa de Setúbal sobretudo porque nela trabalham pessoas que estiveram ao serviço do clube de Alvalade como são os casos de Eurico, Jordão, Manuel Fernandes ou Allison. Então estes dois últimos - o Manei e o técnico inglês - poderem ontem confirmar que por ali ainda não estão esqueci* dos.

No final do encontro, «mister» Morais acabaria mesmo por acusar a nota e, usando da ironia que lhe é habitual, começou por referir:

«É evidente que estou multo satisfeito com o resultado que a minha equipa alcançou, tanto mais que esta deslocação a Setúbal foi uma deslocação muito difícil... Estes dois pontos foram, portanto, conquistados com todo o mérito e colocam-nos na linha dos nossos objectivos ou seja, subir cada vez mais na tabela classificativa.»

- «Mister», ciúmes da ovação dispensada a Allison?

«Ciúmes não. Aliás cada um é livre de se expressar como bem entender. Por isso mesmo é que eu, sendo sempre muito recto e muito frontal, não posso deixar de fazer uma referência ao caso. O que eu entendo é que a equipa do Sporting merecia mais apoio e é para ela que eu peço ovações porque quem não é por nós é contra nós.»

Sem permitir interrupções foi calmamente que continuou: «Espero que em Portimão os jogadores recebam outro apoio. Até porque muita da nossa motivação vai no sentido de podermos dar alegrias à massa associativa e nisto, também sei, que não fazemos mais do que a nossa obrigação.»

- E neste jogo ela foi cumprida rigorosamente...

«Sim. E o que conta é que esta vitória foi conseguida tendo por adversário uma excelente equipa. O Vitória veio a Alvalade para jogar ao ataque, pratica um futebol onde abundam cruzamentos sobre a área e o certo ó que a nossa defesa - que muitas vezes não se tem dado bem com este tipo de jogo - conseguiu, agora, anular essas características.»

- Um outro sector que esteve igualmente bem foi a ponta esquerda do ataque do Sporting Concorda?

«Esteve bem, não há dúvida. Mas, uma coisa é certa: quando se ganha tudo está bem quando se perde tudo está mal. Penso que é preciso dar lugar e

oportunidades aos novos e neste caso do Lima ele terá um futuro largo à sua frente se continuar a trabalhar com os pés assentes no chão.»

- Hoje o Sporting ganhou em vários campos. Quais as perspectivas a partir daqui?

«Isso é verdade e veio ajudar o Sporting. No entanto, continuo a dizer que até ao flnal do campeonato vamos depender, acima de tudo, de nós próprios. Quanto aos objectivos vamos tentar conseguir a melhor classificação possível, uma que esteja de harmonia com o valor e o prestígio do clube.»

Recusando-se a comentar a arbitragem de Aider Dante: «Não comento arbitragens por principio nem procuro falsos pretextos para facilitar as derrotas») Morais diria ainda que a vitória de hoje é sobretudo obra dos jogadores:

«Quem joga são os jogadores e independentemente de eu

nunca abdicar do meu papel de treinador, penso que agora e bem a propósito, se pode dizer que lhes cabe a eles a parte de leão.»

- Uma última pergunta: quando teremos os treinos do Sporting à porta aberta?

«Vão ter que esperar multo tempo. Não está em causa o respeito pela Comunicação Social. No entanto, sempre fui habituado a treinar è porta fechada. Não que o futebol seja uma ciência oculta mas há esquemas que têm de ser protegidos e que devem permanecer apenas no conhecimento de jogadores e treinador.»

 

Damas: «esta foi a vitória mais difícil»

Sem ter sofrido qualquer golo, Damas não teve, no entanto, ontem à tarde, tarefa fácil. Antes de mais, pedia-se-lhe muita atenção porque o Setúbal, no seu futebol atacante e no seu rápido contra-ataque, cria perigo de um momento para o outro.

Depois do duche e da «bica», Damas confessou então que esta «foi a vitória, nestes últimos jogos, mais difícil de conquistar». E argumentou assim:

«O Vitória de Setúbal joga um futebol muito perigoso, aposta forte no ataque e té-lo vencido constitui para nós uma grande motivação».

- Damas, o Sporting dou hoje um passo Importante...

«Penso que o campeonato, mais domingo menos domingo, acabará por ficar decidido. No entanto, o Sporting continua a lutar por uma boa posição.»

- Pelo 2.º lugar?

«O que lhe posso dizer é que se há três meses atrás disséssemos que Iríamos ficar em 2.º todos achariam ridículo e hoje já se pode pensar nisso como sendo uma coisa possível. Tanto mais que o Benfica, neste momento, deve estar a pensar 200% na Taça dos Campeões…»

- Como comenta o apoio que o público demonstrou a Manuel Fernandes e a Allison? Acha que os adeptos traíram o Sporting?

«De maneira nenhuma! O público está a apoiar a equipa. Penso que o que se passou é normal: somos latinos, somos românticos e gostamos muito dos mortos e dos ausentes. Penso que todos nós reagimos assim…»

- Sabe-se que esta vai ser a sua última época. Já tem planos para o futuro?

«Sendo um homem do futebol é nele que eu quero continuar.»

- E no Sporting, também?

«Quem não gosta de trabalhar num clube como o Sporting? Mas é evidente que, por muita vontade que eu tenha, isso não depende só de mim…»

- Alexandra Tavares-Teles -

 

Allison, confiante

“Europa ainda é possível”

FOI triunfalmente que, ontem, Allison entrou na relva de Alvalade. Foi até ao centro do terreno, e ali, levantou os braços para uma assistência que, de facto, aplaudiu calorosamente.

Noventa minutos depois, o treinador tinha um ar derrotado e triste. Sobre o jogo e laconicamente, começou por dizer:

«A minha equipa não esteve como costuma estar. Houve Jogadores de quem gostei como são os casos de Roçadas, Crisanto, Vítor Madeira ou Quim. O Manuel Fernandes, por exemplo, baixou multo na segunda parte. No entanto, tivemos três ou quatro hipóteses de golo, mas os olhos do fiscal de linha pareciam que não funcionavam multo bem para o lado do Vitória. Em contrapartida, o primeiro golo do Sporting foi consequente a uma jogada em ‘off-side’.»

- Que lhe pareceu este Sporting?

«Alguns jogadores agradaram-me. No entanto, houve alguns que me pareceram um bocadinho nervosos.»

- Acha que o Setúbal comprometeu o seu lugar na Europa?

«Não. Penso que a Europa ainda é possível.»

- Um comentário à recepção que lhe fez o público de Alvalade.

«Gostei de voltar cá e fui muito bem recebido. Foi muito bom ver uma multidão contente antes do Jogo. Isso ó a prova de que ainda se lembram de mim. Aliás, os sócios do Sporting, sempre que me encontram continuam a vir ter comigo. Têm-me demonstrado muito apreço e deve Imaginar como Isso me deixa feliz...»

 

Manuel Fernandes: »Fiquei muito feliz porque vim ver amigos»

Manuel Fernandes comentava assim o seu regresso ao Estádio de Alvalade, agora na situação de jogar contra:

«Fiquei muito feliz porque vim ver amigos e penso que outra coisa não sena de esperar.»

Sobre o jogo, o número nove quis comentar:

«Foi um jogo muito bem disputado e penso que a vitória do Sporting se tivesse sido pela marca tangencial teria sido justa. Assim é um bocado exagerada. Bastava que o árbitro tivesse marcado a flagrante falta que eu sofri dentro da área. Foi um pênalti claro e só não viu quem não quis.»

- E agora, a UEFA está mais longe, não?

«Este resultado complico* um bocado mas, se consegui mos os oito pontos em casa mais dois fora, penso que a da lá chegaremos.»

- Como comenta a sua prestação?

«Sei que, sobretudo, na s gunda parte, baixei de rendimento. Mas isso deveu-se uma alteração táctica que o treinador do Sporting imprimiu. Comecei a ser muito mais marcado e acusei essa marcação.»

- Alexandra Tavares-Teles -

 

FICHA DO JOGO

ESTÁDIO. Alvalade

RELVADO: boas condições

TEMPO: tarde de sol

ASSISTÊNCIA: boa casa, cerca de 35 mil espectadores

CANTOS: Sporting. 1 (0 + 1); V. Setúbal. 7 (6 + 1)

LIVRES A FAVOR: Sporting, 26; V. Setúbal, 29 (13 + 16)

CARTÃO AMARELO: Meszaros (41’), Flávio (80’) e Mário Jorge (83’)

CARTÃO VERMELHO: Roger Spry (adjunto de Allison)

GOLOS: Cascavel (42’) e Lima (62’)

SUBSTITUIÇÕES: no Sporting: Litos por Virgílio (80’) e Uma por Silvlnho (84 ); No Vitória: Jordão por Lazar (57’) e Maside por Miguel Ângelo (68’)

AO INTERVALO: 1 -0

ÁRBITRO: Alder Dante (Santarém), auxiliado por Manuel Bento e Fernando Vacas

SPORTING

1- Damas (3)

2- João Luís (3)

3- Fernando Mendes (3)

4- Morato (3)

5- Venâncio (3)

6- Oceano (3)

7- Litos (4)

8- Sealy (4)

9- Paulinho Cascavel (4)

10- Mário Jorge (3)

11- Lima (4)

Vital (NJ)

Virgílio (-)

Mário(NJ)

Houtman (NJ)

Silvinho (-)

 

SETÚBAL

1- Meszaros (3)

2- Crisanto (2)

3- Flávio (3)

4- Quim (3)

5- Eurico (3)

6- Maside (2)

7- Vítor Madeira (3)

8- Aparício (3)

9- Manuel Fernandes (2)

10- Roçadas (cap.) (3)

11- Jordão (2)

Neno (NJ)

Miguel Ângelo (-)

Hélio (NJ)

Lazar (-)

JuvenalNJ

 

SPORTING 2

SETÚBAL 0

FILME DO JOGO

1’ - Depois de se escapar pela direita. Maside obriga Venâncio a ceder canto. De que nada resulta. Mas o Vitória demonstrava os seus propósitos.

6’ - A dar seguimento a um cruzamento da direita, feito por Oceano. Litos efectuou um espectacular remate de cabeça, à entrada da área, mas errou o alvo.

13’ - Morato, sozinho, faz um passe para... Aparício, este isola Manuel Fernandes, mas a deslocação foi assinalada.

14’ - Damas tem de sair de entre os postes para evitar que Aparício, isolado, fizesse golo. 16* - Descida de Fernando Mendes, pelo seu flanco, junto à linha tira um bom centro, largo, e Sealy, no lado oposto, atira muito por alto. A posição era boa, mas o remate, uma miséria.

19’ - Oceano salva um golo que era certo, mesmo em cima da linha de golo. Foi depois da marcação de um pontapé de canto, cobrado por Maside em que Jordão saltou mais alto que Damas.

24’ - Cascavel ensaia a pontaria na marcação de um livre directo. Desta vez foi à figura de Meszaros.

- Depois de uma jogada de sucessivos ressaltos, Jordão isola Aparício, que remata à entrada da área, para fora.

29’ - Contra-ataque rápido do Sporting, iniciado por Cascavel, que serve Sealy no meio da grande área. e este obriga Meszaros a defesa de instinto, com uma palmada.

36’ - Lima foge a Crisanto, centra a Cascavel chega atrasado por milímetros.

38’ - Cascavel de cabeça obriga Meszaros a apertada defesa.

42’ - 1-0 por Paulinho Cascavel. Foi na marcação de um livre directo, a castigar uma saída de Meszaros que teve de defender com a mão fora da área. O brasileiro, com um remate em arco, não falhou.

51’ - Maside tem uma boa jogada pela esquerda, centra bem mas não está lá ninguém para o remate.

55’ - Aparício falha de novo, agora junto à linha de fundo. Damas saiu bem e resolveu o lance.

56’ - Aproveitando um desentendimento entre Quim e Meszaros, Cascavel ficou em boa posição, mas só conseguiu atirar à rede lateral.

60’ - Grande jogada de Sealy, a romper bem, a descair para a direita e na passada a desferir um bom remate, a rasar o poste.

61’ - No bico da grande área. Cascavel atira ao poste, com espectacular remate à meia-volta.

62’ - 2-0 por Lima. Isolado por excelente passe de Cascavel, o jovem jogador do Sporting torneou Meszaros e atirou para a baliza deserta.

66’ - Novamente Lima a fazer uma grande Jogada. Soltou Cascavel à entrada da área, e este, depois de se libertar de um setubalense. atirou a pouca distância do golo.

80’ - Flávio tem de agarrar Sealy pela camisola. Ele ia isolado...

83’ - Manuel Fernandes é derrubado dentro da grande área do Sporting. A bola no entanto segue para Aparício que atira ao poste, perdendo-se a oportunidade.»

Peço desculpa…

… por não falar sobre a realidade do nosso clube.

 

 

A propósito do lançamento do livro/disco da gravação - inédita - de dois concertos de Zeca Afonso, ouvi na TSF uma entrevista feita ao jornalista Adelino Gomes e a outros responsáveis por este trabalho.

Nessa entrevista Adelino Gomes referiu-se a um outro concerto de José Afonso ocorrido nas Grutas de Lapas (Torres Novas) no dia 28 de Dezembro de 1968. Uma descrição desse espectáculo, organizado por um grupo de jovens ligados à Igreja, foi feita por uma jovem e publicado jornal Almonda, tendo – pasme-se a falta de atenção – passado no crivo da censura.

Não vou o adjectivar, simplesmente gostei do que li e transcrevi-o para vocês. Peço desculpa por alguma eventual gralha.

 

Peço, mais uma vez, desculpa por não falar do Sporting.

 

 

«Maravilhoso Espectáculo

NAS GRUTAS DE LAPAS

na noite de 28 de Dezembro

 

[CONVITE

Intimamos você a largar 30 paus e a comparecer pelas 21 horas (ameaçamos ser pontuais) de sábado 28/12/68, nas Grutas das Lapas, para ouvir o José Afonso, o José Amaro, o Jorge Vala.

Companheiros e paróquia das Lapas querem proporcionar-lhe uma noite basto gira.]

 

Recebi o convite ontem. O programa era tentador, por isso fui.

 

Grutas das Lapas, maravilhosas, iluminadas com luzes indirectas, cadeiras por todo o lado, que apesar disso não chegaram; não houve problema, sentámo-nos no chão.

Apesar de no programa o Padre Tiago ameaçar ser pontual, o José Amaro só começou a cantar às nove e meia. Cantou mais ou menos bem, mas foi um desapontamento ouvi-lo cantar o «Embuçado» — lembrei-me do João Ferreira Rosa. Acabou de cantar e logo nos surge o Jorge Vala, tal como o José Amaro, vestido sem preconceitos: umas calças velhas, uma camisola e uns sapatos de todos os dias. Escândalo para os mais velhos, faltava a gravatinha; para nós agradou, porque vimos que não era cenário, que era mesmo próprio da maneira de ser deles, marimbando-se do que os outros pensassem.

Recitou poesias do José Régio, Manuel Alegre e vários outros. Bem, nada exagerado, mas sentindo o que dizia. Relevo para a poesia «Rosas Vermelhas, dia 12 de Maio às 10 horas e 15 minutos».

O momento máximo aproxima-se e com ele surge José Afonso, sem preconceitos de espécie alguma, não se importando de ferir, de magoar, mas transmitindo-nos verdadeira poesia, nas suas baladas tão simples e ao mesmo tempo tão complexas.

Pediu desculpa, porque estava rouco, mas quando abriu a garganta e começou a cantar o «Menino do Bairro Negro», houve uma mudança total nas pessoas; as tosses e ruídos acabaram; nós, sentados no chão, em cadeiras, espalhados um pouco por toda a parte, ganhámos um pouco do mistério, da beleza, do sórdido, do que existia de inconformista na sua canção. O silêncio só era interrompido para cantarmos com ele o estribilho da canção. As nossas vozes não eram nossas,

eram as de todos aqueles meninos de Bairros Negros, existentes em todo o mundo.

E o Zeca Afonso continuou a cantar baladas tristes todas elas, mas tão belas, tão brutalmente reais: «Catarina», «No Tribunal» (adaptado de uma peça), «O Comerciante». «O Criado», «O Menino de Ouro».

O menino de ouro que é ainda mais abstracto do que o do Bairro Negro, mais difícil de atingir; «A Menina dos Olhos Tristes». E o José Afonso terminou com a «Balada dos Caídos», magnífica, dura, cruel, brutal. Choca-nos, acorda-nos do turpor em que as suas baladas anteriores, talvez mais fáceis, nos tinham feito cair.

Faz-nos vibra [sic], viver, nas grutas ouvia-se fazendo eco pelas abóbodas um cântico imenso, a reunião de todas as nossas vozes, vozes duras, que não podiam, mas exigiam, não éramos nós, mas sim todos os que tinham sofrido, que gritavam e gemiam.

E o José Afonso foi-se embora no meio de palmas loucas de nós que o admiramos, a ele que tem a coragem de lutar contra tudo e todos, contra o que julga que está mal; talvez ele às vezes esteja errado, talvez o seu ideal não seja o mais válido, talvez a política o domine e arraste, talvez, talvez, talvez... talvez... talvez... Há tantos talvez que ficam no ar e que não têm importância alguma. O que tem importância é que ele luta, ele grita, ele cria baladas, tentando construir um mundo melhor, tentando encontrar lugar nesse mundo para o criado, para todos os meninos de Bairros Negros que existem.

Nessa medida ele é grande, é um gigante e, além de tudo as suas baladas são belas, impressionam-nos porque a sua maior beleza reside na sua extrema simplicidade.

Em seguida Padre Fanhais, não estava sequer no programa, apareceu e, como todos sabemos que canta maravilhosamente, pedimos-lhe para o fazer.

É preciso ter ciasse e humildade, para cantar depois do Zeca Afonso; o Padre Fanhais fê-lo.

Com o Padre Fanhais — momento para o «Amor», para a compreensão. O José Afonso canta a guerra, a fome, o ódio. tenta construir um mundo mais válido; mas deixa-nos na interrogação, na dúvida. «É possível construir esse mundo em que há lugar para os que têm uma fome de estômago, uma fome fisiológica?» (J. A.) — ele já só pergunta e pede isso.

O José Afonso não nos diz se esse mundo é possível, leva-nos até a crer que a ambição, o egoísmo dos grandes, o impedem. Ele é assim inconformista, chora, grita por um mundo que sonha e não sabe se é realizável.

Ora o Padre Fanhais tem algo que falta ao José Afonso, tem fé.

Nas suas canções ele mostra-nos o que está mal, mas mais do que isso ele deixa-nos a sua mensagem, diz-nos que se nós quisermos poderemos mudar o mundo inteiro. E isso que noutros se tornaria caricato, um homem pensar que pode mudar o mundo — parvo. Nele, com ele, nós sabemos que é a verdade, ele sente o que canta, ele responsabiliza-se da esperança que nos dá.

E nós ainda inquietos, insatisfeitos contra tudo e todos, que julgávamos que o nosso ideal era irrealizável, sentimo-nos mais leves, mais sem problemas; porque um homem com fé, nos transmite a sua mensagem, mensagem essa nem sempre fácil, antes pelo contrário, mas na qual ele nos diz que se nós acreditamos de algo mas com todas as nossas forças, com todo o nosso Amor, nós consegui-lo-emos.

O Padre Fanhais cantou entre outras uma canção na qual o homem segue na noite, em busca de uma estrela, o seu ideal.

O estribilho não pode ser mais significativo e é:

Dura noite, noite bela / A caminho da estrela / Dura noite, noite bela / A caminho da estrela.

Cantou depois uma balada maravilhosa, uma balada de esperança, em que nos diz que o mundo é grande de mais, mas se todos os jovens do mundo derem as mãos, rodearão o mundo numa roda imensa.

E o Padre Fanhais cantou, cantou... e acabou com «Avisa-se», uma canção diferente das outras; o Padre Fanhais compô-la quando da morte de Luther King e Bob Kennedy. Como disse o P. Fanhais, o poema e a música há muito que bailavam na sua ideia, mas tinha de surgir uma ocasião para aparecer, nascer.

O P. Fanhais avisa toda a gente que por cada flor estrangulada, há milhares de flores hesitantes, mas que um dia se levantarão. Avisa-se por fim angustiadamente que é preciso mais flores, mais flores, mais flores.

Obrigámos o P. Fanhais a cantar três vezes o «Avisa-se». Ao fim quase chorávamos.

Portanto «Avisa-se» que tu deves ser uma flor, nós temos falta de flores.

Gritamos queremos um mundo em que todos os meninos de ouro e de Bairros Negros não passem fome de barriga.

Queremos um mundo melhor. Para isso não podemos estar parados esperando que os outros modifiquem o mundo, somos nós que temos de o fazer. Eu falo por mim, eu quero também fazer qualquer coisa na construção de um mundo novo; mas eu tenho medo de que me arrastem, confundindo-me e ao que quero para movimentos políticos. Eu quero, nós queremos, sabemos o quê? Mas os outros sabem-no?

E até poder descobrir o caminho a seguir eu só poderei cantar — Dura noite, noite bela a caminho da estrela.

Como eu desejo um dia encontrar essa estrela!

 

[Assinatura]

Madrugada de 29 de Dezembro/68»

 

In: Jornal O Almonda, n.º 2889 de 11 de janeiro de 1968

Memórias a propósito do Braga-Porto

Não tenho acompanhado os jogos portugueses, literalmente perdi a paciência. Não é a primeira vez que isto me acontece. A primeira vez, assim tão radical, foi no início dos anos 1990s. Tinha por costume ir ver os jogos em casa, antes na superior, depois na "bancada nova". Num Sporting-Porto, que terminou 0-0 (1990?, 1991?, por aí ...), saí tão irritado com o árbitro - um mariola muito sabido, que controlou o jogo com "faltas" e "desfaltas" a meio-campo, assim sem ter que recorrer aos "roubos de catedral" - que jurei não voltar aos estádios. Com efeito, para quê gastar dinheiro e, fundamentalmente, tempo, em algo que se sabe estar viciado? Só regressei a Alvalade para ver o Real Madrid (1994/1995), numa eliminatória que o Sporting ingloriamente perdeu por défice de guarda-redes.* Já emigrado, durante umas férias no país em 2002, ali voltaria ainda para me despedir do estádio antes da sua patética demolição - a estupidez de construir um estádio novo em vez de um municipal é uma coisa tão vergonhosa que os adeptos continuam a falar de outras coisas -, numa derrota caseira contra o Porto, mas tendo tido o prazer de ver o recém-titular Quaresma, então em puro estado mustang, e também um jovenzito ex-júnior (como se dizia antes desta patetice de chamar "academia" às escolas de jogadores), um tal de Cristiano.

Depois, neste novo Alvalade - um estádio feio, piroso mesmo, mal-construído, como se percebeu pela rábula do relvado, e desconfortável, de tão empinado que é - estreei-me, também quando em férias, para ver o Inter ainda com Figo. Percebi que estava velho para este desporto de bancada. Ainda via bem, só usei óculos para ler passados uns anos, e levei cerca de 10 minutos para reconhecer o Figo, lá em baixo no relvado. Pagara 13 ou 14 contos pelo bilhete (65-70 euros, qualquer coisa assim) e estava tão acima que nem percebia em quem eram os jogadores! Após regressar a Portugal fui para aí 10 vezes ao estádio: levei a minha filha a estrear-se, a seu pedido; levei os meus sobrinhos-netos; um afilhado de casamento moçambicano (benfiquista); velhos amigos que nunca lá tinham ido, pretexto para patuscadas; a convite de um amigo com quem venho ombreando desde os tempos da primária (e da superior do velho estádio); a convite de afilhado. Sempre coisas assim, sempre com algum motivo para além do jogo ou do clube.

Enfim, dito isto não serei um adepto exemplar, principalmente para gente que se orgulha de "não perder um jogo", como se disso retirassem um qualquer mérito. Estar no estádio é bonito, dá azo a sensações extra-ordinárias, fora do quotidiano? Sim, tal como os jovens adoram discotecas, são modalidades ruidosas e colectivas de atingir formas de êxtase, episódico. Para esses "meritocratas" um tipo opor que essa coisa do "êxtase", um lampejo de suprema alegria que os pobres de espírito confundem com felicidade, pode ser encontrado num registo privado (ou mesmo solitário) - num trecho de um livro, numa música, num vinho especial, numa desgarrada de gargalhadas, num estremecer feminino (ou masculino, para não me acusarem de homofóbico), num cena bíblica exposta numa penumbra eclesiástica, num belo debate - é sempre apupado como dado à "intelectualice", quando não à mera "cagança" - e isto mesmo se o exemplo for o tal erótico, pois nesse eixo de entendimento, o da idolatria do adeptismo, o importante é o "golo", um gajo vem-se, limpa-se às cortinas, e abala. Enfim, há gente que para prescindir do hamburguer só se for para se dedicar ao bitoque. Ou à bifana. Por mim gosto de bifanas e de bitoques, da festa do "golo!!!!". Mas, e repito-me, esta coisa do jogo estar mafiado cansou-me. Enjoei hamburgueres. Sim, tem piada (tem "mérito", para os meritocratas do "não falho um jogo", "amo o clube" - meu Deus clamo, ateu que sou, sempre que ouço estes "amores" a um mero clube da bola) que os "nossos" rapazes ganhem, jogando limpo, com um bocado da malandragem (o "pisão" do bom do Jorge Andrade) necessária à vida. Agora assim, no meio do mais puro aldrabismo? Passei. 

Tudo isto me veio à memória ao ver imagens do resumo do jogo Braga-Porto para o campeonato. Lembrou-me um Braga-Porto de início de 1990, não posso precisar o ano. Mesmo no final do jogo, com o resultado a 0-0, o árbitro (que julgo ter sido um tipo chamado Fernando Correia) marcou um penálti escandaloso contra o Braga, inventando uma mão na bola mesmo à sua frente. Uma óbvia encomenda. Acho que o Porto, para cúmulo do ridículo, falhou o penálti (Kostadinov?), mas isso pouco importa. Passaram quase trinta anos. Ao fim de anos a fio a pedir-se a introdução das "novas tecnologias", como se estas viessem dar "novas oportunidades" a um negócio desacreditado, em plena era do VAR o Porto vai a Braga e a equipa de arbitragem rouba descaradamente o clube da casa. Tal e qual os maus velhos tempos.

E lembrado disso fui googlar imagens ou informações desse velho jogo. Não encontrei mas os algoritmos conduziram-me a uma bela entrevista de Manuel José, publicada em Agosto de 2018. Muito  interessante, é uma "história de vida", cheia de episódios sumarentos, tanto sobre o mundo do futebol desde a sua juventude até ao seu apogeu como técnico em Portugal, com referências a inúmeros agentes conhecidos. E também sobre as suas presenças no estrangeiro. Mais interessante ainda pois  Manuel José aborda os contextos laborais e sociais das épocas passadas, constituindo um lampejo da história social do país através do futebol. Tudo isso narra, com interesse, humor, sageza, e uma apreciável franqueza, até com episódios algo pícaros. A primeira parte dessa belíssima entrevista está aqui, e a segunda aqui.

Ora é nessa segunda parte que ele diz, sem complexos, que "naquela época" [a década de 1990] "compravam-se equipas de arbitragens como se fossem tremoços". E que ele próprio aconselhou determinado presidente do clube no qual estava a comprar árbitros para ser campeão. O futebol era assim, como havia sido em décadas passadas.

E assim continua a ser. Mostra-o o jogo de Braga. Aliás, mostra-o os jogos de Braga. O da roubalheira do jogo da Liga, a cargo de um tal de Xistra, ao que julgo lembrar (vai sem google). E o da meia-final da Taça, importante jogo apitado por aquele Mota, assim recompensado da inacreditável expulsão de Ristovski no jogo anterior.

Honestamente, o que me custa a entender é o masoquismo generalizado (e também o meu), décadas passadas de "paixão" (e alguns, coitados, até de "amor") por um jogo que é esta javardice. Não está uma javardice. É esta javardice.

 

*Para confirmar a data pesquisei o jogo. Encontrei a ficha do jogo. O Sporting alinhou com Lemajic, Nelson, Marco Aurélio, Valckx, Paulo Torres, Oceano, Figo, Peixe, Sá Pinto, Juskowiak, Balakov. Ontem o Pedro Correia fez um postal interrogando os leitores sobre que jogadores deveriam sair. Um tipo vê a qualidade individual de uma equipa de há 25 anos e constata que tirando o guarda-redes, que destoava, todos entravam sem qualquer hesitação na equipa actual. E nisso se percebe o quanto decaíu o clube neste quarto de século.

Tomislav Ivković, o guarda-redes que defendeu dois penaltis de Maradona

 

Foi um jogo de má memória desportiva, mas o futebol também é feito de boas histórias. Anteontem, uma televisão portuguesa em Zagreb entrevistou Tomislav Ivković, que recordou, em bom português, a proeza de defender um penalti de Maradona contra a baliza do Sporting. (Defenderia um segundo penalti ao El Pibe meses depois, ao serviço da selecção jugoslava).

Corria o ano de 1989, o primeiro ano de Ivkovic no Sporting e fomos perder contra o Nápoles e sair da Taça UEFA. O Sporting perdeu, mas Ivkovic ganhou cem dólares, graças a uma esperteza a que hoje chamamos de "mind games".

Como se conta aqui

"O Sporting empatou com o Nápoles e perdeu no desempate por grandes penalidades, no San Paolo. Da marca de 11 metros, deu-se o episódio que ficou na história e que se pode recordar no vídeo). Com o Nápoles em vantagem e Maradona encarregue de bater o quinto penálti, Ivkovic propôs-lhe uma aposta: “100 dólares em como não consegues marcar”. A manobra de distracção funcionou: o guarda-redes segurou o remate de D10S e, no tiro seguinte, Carlos Manuel empatou a série (3-3). Logo de seguida, Ciro Ferrara marcou o 4-3. E Fernando Gomes atirou à barra, selando o destino dos leões. Nem tudo se perdeu: após a partida, Maradona foi ao balneário leonino pagar os 100 dólares e, ainda, oferecer uma camisola a Ivkovic."

Ivkovic jogou no Sporting entre 1989 e 1993.

Ajax

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Rejubilei com a magnífica vitória do Ajax (resumo aqui). Meu clube, não por aqui no Benelux (quem se lembra ainda deste acrónimo?) - vi o jogo num canal flamão  (como aqui dizemos flamengo) no qual os locutores exultavam, naqueles seus sons tão africanderes, com o desenrolar do resultado. Mas porque me fiz adepto de futebol no tempo do seu expoente máximo, décadas depois subalternizado por esta economia de futebol totalmente desequilibrada, a da concentração dos clubes nas mãos dos oligarcas internacionais. 

Há pouco aqui evoquei a época em que me fiz adepto de futebol, a de 1971 que me tornou fiel ao Sporting e, lá (então muito) longe, um pouco ao Barcelona e ao Arsenal, devido a belas vitórias televisionadas, quando os jogos na tv eram bem raros. A mesma época em que o Ajax encetou o trio de taças dos campeões europeus (e o Feyennord tinha ganho na época anterior), com uma equipa fabulosa, da qual ainda tenho de cor alguns nomes - Krol, Haan, Hulshoff, Suurbier, Neeskens, Stuy na baliza, Rep, Muhren, um centrocampista magnífico, Keizer - o tio do nosso, que era um excepcional jogador. E o maior mestre do futebol mundial, Johan Cruyff, um jogador monumental, que comandou essa equipa e a selecção "laranja mecânica" que devia ter sido bicampeã mundial (ele já não participou em 1978 pois já num problemático ocaso de carreira), refez o Barcelona como jogador e depois viria a refazê-lo como técnico, nisso deixando como legado o clube destas últimas décadas - e o ciclo internacional Guardiola, também. Sim, o Ajax ainda viria a ser campeão em 1995, muito já em contra-ciclo no cada vez mais hierarquizado mundo do futebol, com uma bela e jovem equipa com jogadores (Litmanen, Seedorf, de Boer, Kluivert, Davids, Overmars, e o veterano Rijkard que não jogou pelo Sporting) que marcaram uma era no futebol europeu.

Mas o encanto, a paixão mesmo, e nisso o júbilo de ontem, vem-me daquelas transmissões a preto-e-branco, de som roufenho de há quase 50 anos. Estou velho, não há dúvida. E como quase todos os velhos fiquei resmungão. O que faltou ontem? O equipamento

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Espero que na final possam jogar (e ganhar) com as suas cores. Espero mesmo e muito, a torcer (ainda vou a Amsterdão no caminho, se me sobrarem umas moedas).

Da derrota do horrível Real (sem Cristiano a gente já pode dizer isto) muitos dirão que lhe falta o CR7. Decerto que sim. Mas ao ver o jogo de ontem uma coisa salta à vista. As caras de putos (felizes) de tantos dos jogadores do Ajax (blindados com Blind, claro) e o ar maduro (se calhar uma média etária 5-7 anos superior) dos do Real. Zidane soube sair, percebeu o fim de ciclo e anunciou-o. Renovar uma equipa tricampeã é difícil e o Real vacilou nisso, e algo borregou - por melhor que seja o belga Courtois será que o problema do Real estaria na baliza?

O CR7 também o terá percebido. O seu ocaso também está a chegar, e ele está a enfrentá-lo com uma grandeza extraordinária. E nisto tudo, ontem pensei na nossa selecção. O "engenheiro  de Paris" estará consciente de tudo isto, e mais o deve ter apreendido ontem, se tal lhe fosse ainda necessário. E terá que o enfrentar, e parece está-lo a fazer. Mas enquanto o CR7 carbura e bem (e o nosso Patrício se afirma ainda mais), vêm-se chegar jogadores com as tais caras de putos, Dalot, os centrais do Benfica (e outros que poderão explodir, que em centrais é costume surgirem surpresas), Ruben Neves como jogador de excepção, este João Félix - e Sanches, se o Benfica usar a fortuna que vai agora fazer para o resgatar e o entregar a Lage que o conhecerá (sim, digam lá mal do sportinguista que louva o Benfica). O monumental Bernardo Silva, essa pérola que desperdiçámos Rafael Leão que tem tudo para ir aos céus, se tiver cabeça, aquele Jota que brilha na pérfida Albion, talvez Gelson se Jardim ... Temos Ajax na casa pátria.

Tê-lo-emos no nosso Alvalade?

Em Tondela foi amargo…

Faz por esta altura 25 / 26  anos, andava eu no 2º ou 3º ano da faculdade, fui almoçar a casa de uma pessoa amiga a Tondela. Tinha sido imposto a essa amiga a ideia de que eu gostava particularmente de coisas doces. Fomos muito bem recebidos, por ela, pelos pais, o almoço foi agradável até à altura da sobremesa: mousse de chocolate.

Esta amiga gabava particularmente a mousse de chocolate que a sua mãe fazia e, tendo-lhe sido imposta essa ideia sobre mim, disse para a senhora sua mãe ser generosa da dose. E foi!

Confesso que nunca uma mousse de chocolate me foi tão intragável como aquela e, sentindo-me na obrigação de não fazer desfeita alguma aos anfitriões, lá fui comendo a contra-gosto e mentindo… dizendo que sim a mousse de chocolate era saborosa!!!

10 de Junho de 1990

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foi o dia em que pisei pela primeira vez o relvado do estádio José de Alvalade. Dia de sonhos cumpridos. Lá fui, bem acompanhado, mas para nos encontrarmos com tantos amigos, que era dia de geração. "Então como combinamos?", muitos me perguntaram, sabendo-me habitual no estádio, mas nas bancadas, para que indicasse eu pontos de referência. Que "entra-se para o relvado" (quem é que vai ver Stones e se senta na bancada, francamente ...!) e "vai-se para o sítio onde o Oceano joga", a todos indiquei. "Onde é?", perguntavam. "Em todo o relvado, claro", que a gente logo se encontraria. E encontrámos. Para ver o Kiff, the Riff, ali na minha frente, na então anunciada última digressão dos Stones (há 28 anos!). E o Jagger, que hoje faz ... 75 anos! Uff, ambos, estes Glimmer Twins, quais Cristianos Ronaldos do rock n'roll. E viva o Oceano, o todo-o-relvado, sempre!

A caça e as touradas

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Judas "arremete de novo" contra Cintra e também contra Peseiro. Já aqui o referi, no dia da assembleia-geral Judas afirmou na TV que os resultados seriam aceites e que deixaria de haver polémica, em nome da unidade sportinguista. Mas é mais forte do que el@(s). Agora diz que Cintra e o treinador são psicopatas.

 

Peseiro porque gosta de touradas. Nunca vi uma tourada ao vivo, não tenho qualquer paciência mas torço o nariz aos adversários, até porque a sensibilidade para com os direitos dos animais e para com as formas como pensamos e sentimos a natureza estão muito para além disso. (Um dia escrevi sobre isso, deixo a ligação - tem uma dimensão política, excêntrica a um blog desportivo, mas espero não ofender nenhum sportinguista). Mas botar que um aficionado é um psicopata, enfim, é uma patetice.

 

Pela caça não tenho qualquer apreço, principalmente pela "caça grossa". Que um tipo vá caçar um coelho para o levar para a panela, ainda vá que não vá. Duas décadas de África deram-me contacto com caçadores - os da tal "caça grossa". E que torna o fenómeno mais complexo. Não percebo mesmo, e já tentei, que tipo de erecção é que um tipo tem quando atravessa meio-mundo, gasta uma pipa de dinheiro, e vai com uns guias, profissionais, com uma arma excelente, dar um tiro num animal soberbo. Se é para andar no mato, "perder-se" na natureza, porra, andei que me fartei e não precisei de matar um bicho. Se é para o "caçar", desatento, frágil? Nem é preciso grande máquina fotográfica ... Se é para a tal erecção, caramba, há por aí Cialis, Viagra, Furunbao. E decerto que genéricos. (Devem ser tomados com acompanhamento médico. E os jovens não os devem usar, não sejam parvos, esperem pela vetusta idade e vivam com o que têm enquanto têm). Ou um bocadinho de imaginação. Para além daquilo da companhia adequada. Mas, enfim, cada um como cada qual.

 

Pois há outra dimensão. Neste mundo em que os homens são (muito) piores do que os gafanhotos, tudo devastam, as coutadas são uma forma de preservar nacos de natureza onde a fauna bravia pode sobreviver. Alguns exemplares são abatidos, a peso d'oiro, como forma de manter os empreendimentos. É a triste realidade possível. E como tal, como em quase tudo, o radicalismo (chamar psicopata, por exemplo) não serve de nada, e é falsário - quem caça em coutadas, como Cintra, não mata animais em vias de extinção, paga para a sua preservação. Eu não simpatizo, não compreendo o afã, contribuiria, se tivesse dinheiro, de outra forma. Mas não se minta. Que é o que Judas faz.

 

Mas não pude deixar de me rir quando li esta judiaria de Judas contra Cinta. Pois em Moçambique conheci um grande caçador, já falecido, irmão mais velho de um muito querido amigo meu (também ele fervoroso sportinguista). O Rui era um caçador profissional, ainda do tempo colonial, nado e criado no centro do país, e fez vida disso. Conduziu caçadas com gente celebérrima, pois Moçambique era nos anos 1960s e 1970s um lugar crucial desse turismo e a caça era atractiva, não era socialmente mal vista: os astronautas (então verdadeiras estrelas), a nobreza europeia, actores (e actrizes) de Hollywood. Para mais o Rui era um verdadeiro homme à femmes, um enorme galã, nisso com um historial extraordinário. Uma verdadeira personagem de romance, houvesse quem o soubesse escrever. Depois da independência partiu para outros países, caçou na América, em África, uma vida recheada, aventurosa. Cheia. E na última década de vida regressou à sua terra, onde acalentou o projecto de estabelecer um pequeno parque natural. Continuava, já septuagenário, uma personagem apaixonante. Não era muito falador, para isso estávamos lá nós, o que condizia com o perfil, homem do  mato, andarilho, sedutor, enfim, parcas palavras mas marcantes, como convém a uma genuína imagem de marca.

 

Contava ele que um dia caçara com o Cintra - ele nem sabia bem quem fosse o homem, que de futebol nada sabia e de Portugal pouco mais. Já não sei se na Guiné se na África do Sul. E dizia ele, às gargalhadas, que o Cintra era lixado ("fodido" era o termo que usava). Pequenino, num frenesim de arma na mão. Chegava ao sítio e nem queria perder tempo, disparava a tudo o que tinha direito, até era perigoso, nunca tinha a arma quieta. E ao contar aquilo, nós, que conhecíamos o Cintra público, e tudo aquilo se adequava à personagem, bem que ríamos, à gargalhada, o sacana do Sousa Cintra aos tiros, frenético em África, desajeitado ... A gente ri(a)-se mas aquilo não é ser psicopata ... É ser Sousa Cintra.

 

Grande Rui Quadros. Um abraço à memória dele. E à sua queridíssima família.

Checos com cobertura

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Conhecedor, suavemente irónico, profissional de mão-cheia das coisas do jornalismo e da locução televisiva, Rui Tovar deixou saudades. E há, como acontece aos grandes do seu ofício, frases que ficaram como suas marcas. Uma dessas é a tirada deliciosa, num jogo qualquer a que teleassisti, talvez de selecção, "deixaram um checo sem cobertura". 

É dele que hoje me lembro, pois o que quero para o jogo de daqui a bocado é que "os checos tenham cobertura". Pois se assim for, o resto virá por si.

 

O avô David e o Piedade

O meu avô David nasceu na Quinta do Altinho na Cova da Piedade. Viveu, toda a sua vida, entre a Cova da Piedade e o Laranjeiro/Feijó. Foi aí que cresceu, que se fez homem, que casou, que teve filhos e que acabou por falecer.

O meu avô adorava futebol. A minha avó costumava dizer que se ele encontrasse dois miúdos a jogar com uma bola de trapos no meio da rua ficava parado a assistir e o meu pai diz que ele sabia tudo sobre o desporto rei. Conhecia os clubes, os jogadores, os treinadores, as tácticas... tudo o que possamos imaginar!

O meu avô era do Sporting! Tal como o meu pai, como eu e como o meu irmão. Os Nunes da Piedade são todos do Sporting! Mas o meu avô também era do Piedade. E era precisamente aos jogos do Piedade que o meu avô costumava ir ao Domingo. É que o Desportivo, como dizia a minha avó, não era a segunda casa do meu avô David, era a primeira! Foi no Piedade que ele jogou, foi no Piedade que ele foi dirigente, foi no Piedade que, segundo as melhores informações, ele chegou até a ser roupeiro.

O Piedade é um clube pequenino da Margem Sul. Não é como o Setúbal, o CUF, o Barreirense ou o Amora. Nunca andou pela primeira divisão. Tem um estádio pequeno e poucos sócios e adeptos. Graças ao investimento estrangeiro conseguiu, já esta década, chegar à segunda divisão. Não sei se já tinha andado tão acima nos campeonatos nacionais, talvez nos anos sessenta ou setenta.

Não cheguei a conhecer o meu avô David. O meu avô, para além de morrer cedo, morreu de causas invulgares: o meu avô morreu de amor. O meu avô faleceu a assistir, como fazia todos os Domingos, a um jogo do Piedade. É por isso que amanhã, tal como o avô David que não conheci, para além do Sporting também sou do Piedade.

 

O meu Sporting...

Recebi um amável convite do Pedro para participar neste espaço. Confesso que fiquei relutante, pois falar em público - assim vejo estes espaços - nunca foi o meu forte. A formalidade do tal acto inibe-me, imagino-me como no poema “Na praça pública” de José Régio:

 

“Subi ao púlpito negro

Por minhas mãos levantado;

Levantado

Por minhas mãos esgarçadas...

E, da tribuna mais alta,

Arrepelando os cabelos,

Gritei à malta:

 

- «Camaradas...!

 

«Eh, camaradas...! ouvi,

«Que vou dizer-vos quem sois,

«Pois vou dizer-vos quem sou.»”

 

(Adivinhando o que vem no final)

 

“Então,

Parei, sentindo risadas

Entre aqueles que me ouviam.

 

E as suas caras diziam:

- «Que charlatão!»”

(in: Poemas de Deus e do Diabo. 2002. pp. 61, 65)

 

Correndo esse risco, aceitei.

Sendo este um espaço de sportinguistas, claro que se fala deste clube com dedicação, com devoção, da glória e... naturalmente, porque somos um clube de homens (politicamente, nos dias que correm, convém acrescentar) e mulheres, fala-se também dos defeitos.

Mas agora não!

 

Sendo este o meu texto inicial, falo-vos, em homenagem ao maior sportinguista que eu jamais conheci - o meu pai, da primeira vez que vi o Sporting jogar.

Tinha eu sete anitos, foi o jogo de final de época e de consagração do Sporting como campeão nacional na época de 1979-1980.

Nesse dia, finais de Maio ou início de Junho, recordo a minha mãe acordar-me às 5 e pouco da manhã e perguntar-me, como sempre, preocupada: - Tó, tu não queres ir, pois não?

- Claro que vou. Respondi.

Era a única criança dessa viagem, os outros eram, para além do meu pai, os seus sócios e o contabilista. A viagem de Coimbra a Lisboa foi feita na carrinha que a pequena empresa tinha: uma Mini de cor branca.

Desse dia, para além do jogo, recordo o almoço que um dos sócios do meu pai quis que fosse em Cacilhas, uma caldeirada para eles e para mim, não me lembro, talvez algo mais do apetite de uma criança de sete anos. Para azar desse sócio do meu pai no prato da sua caldeirada tinha (desculpem) alguns cabelos. É claro que isso originou uma outra... caldeirada, como não podia deixar de ser.

O jogo.

O jogo foi visto no peão Estádio de Alvalade, espaço que antecedeu a Bancada Nova. Confesso que não tenho memória do resultado, o google diz que foi 3-0. Recordo-me sim da invasão de campo que houve no final, de ver muitos jogadores com os seus equipamentos assaltados: o Eurico... e de o meu pai me dizer que eu tinha pisado o relvado do Estádio de Alvalade: a única vez que o fiz.

Dessa equipa recordo o Manuel Fernandes, o eterno Manuel Fernandes, o meu ídolo de criança, de sempre...; o Jordão, sim o magnifico Jordão; o Manoel, pela estranheza do nome; o Ademar; o Vaz; o Meneses; o Inácio; o Lito, não o Litos, esse aparecerá mais tarde, fui vê-lo ainda júnior jogar, juntamente com o Futre na Figueira da Foz.

 

Depois, claro, na medida das possibilidades, houve mais jogos...

Bons tempos, tempos de meninice, em que muitas vezes, como diz a canção, andava de camisola verde.

 

 

Obrigado Pedro!

Como se o golo fosse só para nós

Aos olhos de um miúdo, não há melhor escola para aprender a ver futebol do que as tardes passadas nos estádios em companhia do pai. Aconteceu comigo. Ainda hoje recordo os nomes de futebolistas antigos que o meu pai ia desfiando enquanto víamos as partidas ao vivo, as histórias que me relatava a propósito dos desafios de outros tempos e as noções tácticas e técnicas do jogo que me ia passando nesses momentos irrepetíveis.

As modas mudam muito, mas certas tradições vão-se mantendo. Para um garoto destes dias, continua a ser emocionante ter a oportunidade de ver ao vivo os jogadores que figuram nas cadernetas de cromos, relíquia que persiste em acompanhar cada menino, temporada após temporada, no decurso das gerações.

 

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Já era assim no meu tempo. Já era assim no tempo daqueles que me antecederam. Ainda hoje recordo a emoção que senti ao conseguir um autógrafo do Jacinto João após um jogo da Taça UEFA contra o Arad da Roménia à saída dos balneários do estádio do Bonfim. Juntei o autógrafo ao cromo do jogador, craque do Vitória de Setúbal, juntamente com o José Maria, o José Mendes, o Guerreiro, o Octávio Machado e o José Torres. E foi com imenso orgulho que o exibi aos colegas da escola.

Além do Sporting, sempre com lugar à parte, outra equipa em destaque nessa caderneta era a da Académica – a equipa dos “estudantes”, como então se dizia. Merecia-me especial admiração, incutida pela arguta pedagogia paterna, por demonstrar que o futebol não era incompatível com os estudos. Com Rui Rodrigues, Rocha, Vítor Campos, José Belo, Gervásio, Manuel António e um tipo que dava nas vistas por ser muito louro. Chamavam-lhe ‘ruço’ e tinha o mesmo apelido que eu. O Artur Correia.

 

Ele e o Rui Rodrigues – um defesa elegante, que cultivava a arte de desarmar sem falta – viriam a decepcionar-me quando se transferiram para o Benfica. Mas fui acompanhando o percurso do ‘ruço’, um lateral de enorme mobilidade, que percorria o corredor direito num constante vaivém e sabia centrar com precisão. Eram dois jogadores que gostaria de ter visto no Sporting.

E acabei mesmo por ver um deles de verde e branco. O Artur, que em 1977 se transferiu para Alvalade. Lá permaneceu três épocas, vencendo a Taça de Portugal em 1978 e sagrando-se campeão nacional em 1980. Um ano de glória, um ano de infortúnio: quatro meses depois do título, jogando já nos Estados Unidos, sofreu um AVC que o afastou para sempre do futebol. Tinha apenas 29 anos. Começava aí uma longa via crucis só agora terminada, quando nos deixou de vez. No ano passado tinham-lhe amputado uma perna – supremo sofrimento para quem, como ele, tão bem jogou futebol.

 

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Artur Correia com a Taça de Portugal conquistada pelo Sporting (1978) 

 

Lembrei-me do meu pai quando soube da notícia da morte do Artur Correia. Porque o último jogo que vi ao vivo com ele, nas bancadas do Estádio Nacional, foi o único em que o Artur marcou com a camisola da nossa selecção. A 1 de Novembro de 1979, num desafio de qualificação para o Campeonato da Europa do ano seguinte.

Recordo-me perfeitamente. Os noruegueses marcaram primeiro, gelando o estádio. A nossa equipa acusou o golo e andou perdida em campo. Até que o Artur pega na bola lá atrás, avança com ela com uma vontade indómita de virar o resultado, ultrapassa todos os adversários e dispara uma bomba a mais de 30 metros da baliza, num remate muito bem colocado. Empatava a partida, a sorte do jogo virava. Viríamos a ganhar 3-1.

Foi um golo do outro mundo: nunca mais o esqueci. Estávamos na curva sul do estádio, um pouco acima da baliza norueguesa. Abracei-me ao meu pai como nos tempos em que ainda colava cromos na caderneta. E ele abraçou-se a mim como se eu fosse ainda o catraio que antes levava pela mão, de jogo em jogo.

Parecia que aquele golo tinha sido marcado só para nós.

 

Iria tornar-me adulto, depois rumei a outras paragens, não regressei com o meu pai ao futebol - nem em pensamento. Até agora, mal soube que o Artur perdera a  última partida no traiçoeiro campeonato da vida.

Voltei a abrir a velha caderneta, desenterrei os autógrafos do pó do arquivo, imaginei-me a falar com uma remota voz infantil. E senti que o Pai me escutava, de polegar erguido, apaziguando todos os meus receios: “Tenho a certeza de que vamos vencer.”

 

Publicado originalmente aqui

O espírito de Vidal Pinheiro

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Qualquer sportinguista sabe que hoje é um dia especial. Há 15 anos fomos campeões num jogo memorável, deitámos 18 anos de angústias cá para fora, invadimos as ruas de todo o país, enchemos praças, subimos a estátuas, corremos na berma da autoestrada, celebrámos no nosso estádio, entrámos relvado dentro, abraçámos os nossos jogadores. Um por um, gritando sempre e bem alto o nome do nosso Sporting. Tenho para mim que a minha geração se divide entre quem esteve e não esteve em Vidal Pinheiro. Desculpem a arrogância da memória, mas eu estive lá. Confesso que nunca me passou pela cabeça só festejar mais um título depois disso, mais uma razão para lembrar o espírito dessa equipa: raçuda, com ganas de ficar na história, espírito de entreajuda, a procurar a sorte quando lhe faltava o engenho, motivadora da curva sul e em comunhão com esta. É isto que nos tem faltado: substituir a ingenuidade dos "talentos" de Alcochete por gente combativa, mostrar raça onde ela parece não existir, jogar todos os domingos como se fosse o último, respeitar os sócios e entrar em cada pardieiro desta liga com eles em campo. Temos infantis a mais em lugar de seniores, temos mimados a mais em lugar de homens, temos tenrinhos a mais em lugar de raçudos. Importa por isso lembrar essa equipa que nos pôs a chorar de alegria faz hoje 15 anos: Schmeichel, Saber, André Cruz, Quiroga e Rui Jorge, Aldo Pedro Duscher, Vidigal, Pedro Barbosa, Ivone de Franceschi, Ayew e Alberto Federico Acosta. E como são 15 anos pensei que a imprensa recordasse isso, tão ciosa que é de efemérides com números redondos. Mas não. Houve quem preferisse lembrar os 21 anos de uma tragédia, menosprezando a nossa data. 

Vinte anos já #DiadoLeão

Era dia de Sporting - Porto e o título podia ser ali decidido. E foi. 

Lembro-me que tinha havido um acidente enorme na noite anterior, na Bafureira, no qual morreram quatro miúdas da minha zona, e eu ainda estava meio atordoada com essa notícia. Falámos nisso a caminho do jogo, ninguém acreditava ainda.

Havia muita gente nas imediações do estádio, havia bastante gente já dentro do estádio. Havia gente por todo o lado. O nosso grupo separou-se, fiquei com o G e outros mais perto da nave, não viamos a 10a de onde estávamos. Demos pelo autocarro do Porto chegar pelo barulho, e no momento seguinte o F estava ao pé de mim, em estado de choque, quase sem voz: "cairam! cairam todos!"

Na altura não nos apercebemos da gravidade, achámos que tinha caído gente mas tudo ía ficar bem. Entrámos e durante o jogo foi-se sabendo mais qualquer coisa. Não havia telemóveis, não nos ocorreu sequer ligar para casa de cada um a dizer que connosco estava tudo bem, também me lembro disso.

Não ficou tudo bem, é sabido. É esta a minha memória desse dia. Esta, e o resultado de 0-1 que deu o campeonato ao Porto, celebrado em campo (dedicado a Rui Filipe, também me lembro). Não é um rancor, é uma memória que não se apaga. 

Alkmaar

Ao contrário do Edmundo, eu vi o jogo. Quer dizer, eu vi o jogo quase todo. Porque na altura dos descontos, retirei-me da sala de televisão. A eliminatória estava perdida. Ingloriamente.

Fechado no quarto, eis senão quando oiço gritos. Berros de euforia. Mais rápido do que o Usain Bolt, regresso à sala de televisão para, como o S. Tomé, ver para crer. Sim, o Sporting tinha marcado e acabado de carimbar a sua presença na final que se iria disputar na sua própria casa. Como tinha sido possível tamanho volte-face? Assim parecido, lembro-me apenas da extraordinária final da Champions, entre Manchester United e Bayern, em Barcelona. Fantástico!

Foi um golo épico, a prenunciar uma série de conquistas épicas nessa temporada. Infelizmente, nada disso aconteceu.

Por isso, e com franqueza, não consigo evocar sem tristeza o golo do Miguel Garcia. Lembrar Alkmaar faz lembrar, dolorosamente, a final perdida em casa, a bola no poste do Rogério e o 3-1 do CSKA logo a seguir. 

Não sabia que Alkmaar ia fazer 10 anos hoje. Mas ontem, curiosamente, enquanto lia as declarações de Mourinho sobre Luís Filipe Vieira, que contra tudo e todos, manteve o perdedor Jesus, para este nas duas épocas seguintes ganhar o campeonato, lembrei-me e muito de Peseiro, o outro treinador que numa semana perdeu campeonato e final europeia. Que teria sido do Sporting se tivesse mantido o seu treinador? É certo que Peseiro ainda iniciou a época seguinte, mas já muito condicionado e foi arrumado ao fim de pouco tempo.

Dez anos depois de Alkmaar, voltam a existir muitas reservas sobre a continuidade do treinador (ainda ontem, no programa Grandes Adeptos, Jaime Mourão-Ferreira dizia que se Marco Silva perder a taça não tem condições para continuar como treinador do Sporting). Será que aprendemos alguma coisa com a nossa própria história?

Sem sumo

 

Tenho uma vaga memória do Argentina'78: talvez dos confetis e do cabelo do Kempes. Lembro-me perfeitamente do Espanha'82: da mascote, uma laranja gordinha, do Itália-Camarões e do Itália-Brasil, das pernas longas do Doutor Sócrates e da classe do Zico. Gostava de esquecer o México'86. Lembro-me das tardes de calor, de ter sempre uma selecção favorita diferente, das edições especiais do France Football, das colecções de cromos e da edição especial da TV Guia com todas as equipas. Eram tempos de frenesim no meu bairro. Jogávamos com os nomes dos jogadores favoritos e sabíamos literalmente tudo o que havia para saber sobre cada um dos jogadores. Chegámos a jogar com uma bola Tango novíssima que acabou ingloriamente dentro do cemitério de Benfica. Ontem, dei por mim a pensar o quanto me divertia a ver os mundiais quando Portugal não estava lá.

Bartali e o Paraíso

 

Inspirado por mais algumas discussões sobre a legitimidade de sepultar no Panteão Nacional este ou aquele cidadão, fui, à semelhança do que tem acontecido com tantos e tantos militantes de tais escolhas, seus opositores ou simplesmente curiosos, consultar a lei que disciplina a matéria. Dispõe o artº 2º da Lei nº28/2000, de 29 de Novembro, que

 

       1 — As honras do Panteão destinam-se a homenagear e a perpetuar a memória dos cidadãos portugueses que se distinguiram por serviços prestados ao País, no exercício de altos cargos públicos, altos serviços militares, na expansão da cultura portuguesa, na criação literária, científica e artística ou na defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e da causa da liberdade.
          2 — As honras do Panteão podem consistir:
              a) Na deposição no Panteão Nacional dos restos mortais dos cidadãos distinguidos;
              b) Na afixação no Panteão Nacional da lápide alusiva à sua vida e à sua obra.

 

Quem quiser realmente ler o que a lei determina e não se dispuser a ser enganado pela confusão induzida por mais um exemplo de pontuação desleixada, verificará facilmente que os restos mortais de um desportista profissional só poderão ser depostos no Panteão se, não tendo ele exercido altos cargos públicos, não tendo prestado altos serviços militares, não se tendo distinguido na expansão da cultura portuguesa ou na criação literária, científica ou artística, se, não se tendo notabilizado em nenhum destes domínios, tiver marcado a defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e da causa da liberdade. Como é claro, nada disto tem remotamente que ver com a importância popular de quem lá repousar, com a sua resistência na memória colectiva ou com a projecção de Portugal no mundo. Estes factores assumirão, quando muito, alguma relevância se a personalidade de que falarmos puder ser incluída numa das categorias previstas na lei. 

 

Tal regime fez-me procurar desportistas susceptíveis de preencherem os critérios enunciados e, naturalmente para mim - peço desculpa pela insistência num nome provavelmente desconhecido da maioria dos leitores - o pensamento dirigiu-se, de imediato, para Gino Bartali, não que este grande campeão pudesse figurar no Panteão, já que, entre outros motivos menos óbvios, não era cidadão português, mas porque me veio à memória o que sobre ele, para além do que já sabia e me fora transmitido pelo meu pai, seu grande admirador, li no Malomil, num post a que já me referi em texto anterior

 

Bartali morreu em 2000, com 86 anos. Mas deixava também uma história só muito tarde revelada. Durante a guerra, sem Giro para correr, treinava-se na estrada, passando com facilidade as patrulhas alemãs. Mas o treino era muitas vezes ficção. Fazia parte de uma organização de apoio aos judeus. Transportava, escondidos na bicicleta, documentos para fazer passaportes falsos. Terá contribuído para salvar 800 judeus. Tem um lugar na Álea dos Justos, em Jerusalém.

       Jorge Almeida Fernandes
 
Gino Bartali ganhou por várias vezes o Giro e o Tour, entre muitos outros troféus, e a sua rivalidade com o também extraordinário Fausto Coppi tornou-se lendária. Mas não foram os pedais, foi o modo como, chegada uma hora decisiva, escolheu usá-los, foi o seu contributo para a defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e da causa da liberdade, que lhe permitiram uma ascensão muito mais gloriosa do que as das duríssimas montanhas da sua velha Itália. 

O terceiro mais comentado do ano

Acabo de saber: este foi o terceiro postal mais comentado do ano que agora acaba, em todos os blogues inseridos na plataforma Sapo. Versando não um tema do presente mas um assunto pertencente a um passado já remoto, quando a televisão era a preto e branco e o detentor máximo do poder político se envolvia sem pudor nas questões do futebol, vetando transferências de jogadores para o estrangeiro.

Confirma-se, de algum modo, que somos um povo com irreprimível tendência para a nostalgia.

Tinha esta memória adormecida, lembrei-me dela hoje

Só para nos situarmos, não que gostemos de nos lembrar, foi no Benfica - Sporting de 2005. O da semana que não aconteceu. Do Luisão e do Ricardo, esse. Estamos situados, adiante.

Combinei com um amigo, o João, ir ver o jogo ao Alvalaxia e assim foi. No meio de muita gente à espera de boas noticias que nunca chegaram, procurámos um lugar sentados. Vagou mais um lugar e sentou-se um senhor ao meu lado. Assim estivemos a ver a primeira parte.
Não sei precisar o momento, talvez tenha sido no intervalo, altura em que ainda deu para conversar um pouco. O meu vizinho do lado começou a falar connosco. Se eramos sócios, se tinhamos lugar e onde. Disse-lhe que sim e na sul. Respondeu-me que pagava três lugares, o dele e os dos dois filhos. Que tinha continuado a pagar o do mais velho apesar de tudo. Não olhava para nós enquanto falava pausadamente, frase a frase, como se se voltasse a convencer, a reconstituir tudo. O filho tinha morrido num desastre não há muito tempo. Continuou a pagar o lugar, "o Sporting era tudo para ele". Não me lembro de mais detalhes do que me disse. Ainda falou do filho um bocado, mas eu sentia-me minúscula perante este horror, ouvi-o e talvez tenha balbuciado uma ou outra palavra de conforto mas apagou-se-me quase tudo da memória. Ficou-me que continuava a pagar o lugar. Como se deixar de o fazer fosse o perder definitivamente a memória do filho, como se fosse a ultima coisa que como pai podia fazer.

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