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És a nossa Fé!

Os melhores golos do Sporting (17)

 ...e tudo explode aos 7'18''

 

Golo de MÁRIO JORGE

Sporting-Porto

17 de Janeiro de 1982, Estádio José Alvalade

 

A memória é traidora, há que duvidar sempre dela. Tantos golos que vi de Lourenço, Yazalde, Manuel Fernandes e quando me perguntaram à queima-roupa de que golo guardava melhor recordação, fui incapaz de me lembrar de algum deles. Apuro assim, ai de mim, que a minha memória dos feitos antigos do Sporting é igual à das imagens de televisão: desbotou-se.

Por exemplo, este golo que me veio logo à lembrança não foi afinal nada como o recordo, mas até fica mais bonito da maneira como a realidade diz que aconteceu. Vi-o lá no estádio, que é o lugar onde os factos são mais instantâneos e perecíveis, onde não há replay nem repetições que dissequem e gravem cada lance, onde tudo o que vemos é com as lentas espessas da emoção. O futebol e o que dele fica na nossa consciência, tal como todos os outros prazeres e dissabores da vida, depende por completo da ocasião. Daqui só pode resultar que a memória pretensamente absoluta e neutra registada por máquinas objectivas é, na verdade, uma distorção do que deveras se passou.

Recuemos, então, à época 81/82. O treinador era o exuberante Malcolm Allison, muito amigo de champagne e garotas, que via no futebol um pretexto para beber mais champagne e seduzir mais garotas. Estamos na pré-história, portanto, antes dos queirozes da vida terem vindo de powerpoint e diagramas em riste diminuir o futebol a uma chaveta das “ciências humanas” e destes treinadores filosóficos de agora portadores de uma “ideia de jogo”. “Big Mal” queria lá saber disso para nada, o que ele administrava nos jogadores era caixa de ar e músculo (os dolorosos treinos do preparador físico Roger Spry) e depois os rapazes que fossem à vida com o talento que tinham.

O Sporting entrava à frente na última jornada da primeira volta, com o Benfica e o Porto a farejarem-nos o rabo. Estava-se mesmo a ver que um deslize seria fatal. Última jornada essa em que defrontávamos o Porto enquanto o Benfica ia ao Bessa – tudo em jogo.

Perante um estádio efervescente e repleto – havia sempre maneira de sentar duas pessoas num lugar – não lembrou mais nada a Malcolm Allison do que se virar para as bancadas agitando os braços a pedir apoio. Recorde-se que os treinadores de então eram uns cavalheiros muito sorumbáticos, com medo de parecerem mal ou não serem levados a sério, nada dispostos a estas palhaçadas. Isto provocou uma descarga eléctrica na multidão que se foi acumulando em nervos ao longo da disputada meia-hora inicial.

Até que Mário Jorge pega na bola naquele jeito descaído dele, vai por ali fora rumo a norte, passa pela defesa do FCP – viste-lo? Eu também não – e catrapumba lá para dentro. Isto é do que me lembro; disto e de ainda estarmos a celebrar o golo quando pelos milhares de transístores ligados a outras tantas orelhas se gritou o golo do empate do Boavista contra o SLB.

Agora revejo as imagens televisivas e a coisa revela-se bem mais fina. A bola circulou pela equipa quase toda – ainda não se falava em “circulação de bola” – antes de chegar aos pés de Mário Jorge, que a empurrou para a baliza com delicadeza de artista. Mas o que as imagens não conseguem mostrar é a explosão de alegria-energia que este toque deflagrou. Podia ser, podia ser mesmo que o céu estivesse ao nosso alcance. Ainda hoje estou convencido que o campeonato 81/82 se ganhou naquela tarde.

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