Não sei onde andam os defensores da decapitação de José Peseiro que nas últimas duas semanas visitaram este blogue com pendular assiduidade, exigindo ver escorraçado o treinador do Sporting: parecem ter-se esfumado desde as dez da noite de ontem.
Ainda assim, venho aqui propor-lhes um nome alternativo para o nosso banco: é alguém que conhece por dentro o futebol português, fala bem nas conferências de imprensa, já treinou o clube detentor das últimas três Ligas dos Campeões e encontra-se disponível devido a momentânea situação de desemprego.
Estarão os fogosos militantes da Liga Anti-Peseiro dispostos a exigir a sua vinda para Alvalade? Eis a pergunta que me apetece fazer na ressaca da oitava jornada do campeonato, em que o Sporting foi a única equipa a marcar três golos.
O diário madrileno revelou uma galopante miopia com esta primeira página: tal como o D. Quixote, também imaginou ver um gigante onde apenas havia um moinho insuflado por uma brisa do vento norte...
Confesso: nestas ocasiões consigo até, sem favor algum, fazer rasgados elogios à imprensa desportiva portuguesa.
É impressão minha ou o Ricardo Quaresma agora proclamado "herói do Dragão" por ter marcado dois golos ao Bayern de Munique é o mesmo jogador que o treinador basco do FC Porto fez encostar durante meses às boxes, remetendo-o à condição de suplente ou deixando-o até fora das convocações?
Há pouco mais de um mês, escrevi aqui que, e passo a citar-me, "acho uma grande inutilidade estar a fazer, neste momento, a 64ª avaliação à presidência de Bruno de Carvalho, a Marco Silva ou ao plantel do Sporting (todos mais escrutinados do que Portugal pela troika!)."
Por estes dias, a blogosfera leonina enche-se (again) de apreciações sobre Marco Silva, tendo regressado o ruído em torno da continuidade do treinador do Sporting à frente da equipa após o termo da presente época.
Para esse peditório, não irei contribuir. A partir do dia 1 de junho, poderemos todos fazer o balanço da temporada mais apropriadamente.
No entanto, não queria deixar passar ao lado as linhas que se escrevem, também na imprensa desportiva, sobre Marco Silva, para chamar a atenção para a desonestidade intelectual vigente, ou, de forma mais rude, para a tremenda lata de certos escribas.
Lopetegui foi recentemente arrumado da taça da Liga, depois de prematuramente eliminado da taça de Portugal. No campeonato, apesar do forte investimento tripeiro, não consegue assaltar o primeiro lugar. Por que é que, nesta fase decisiva, não se escrevem também linhas sobre o futuro do treinador basco perante a possibilidade de não conseguir ganhar o campeonato? É que ainda está a ecoar na minha cabeça o comentário jocoso de Pinto da Costa, no final da época passada: “prefiro perder o campeonato de vez em quando do que ganhá-lo de vez em quando”.
E sobre Jesus, que com € 4 milhões anuais de vencimento, necessitou de 5 anos para ganhar 2 campeonatos, quando o mal-amado Vítor Pereira em 2 anos conseguiu os 2 títulos? Por que é que os jornais não dedicam, igualmente, umas linhas sobre o futuro do treinador do Benfica e a relação entre o elevado investimento no futebol/salário principesco do treinador/títulos ganhos?
É pela desonestidade com que ataca-se um treinador e ignoram-se outros, que acho perigoso que os sportinguistas se ponham a escrever nesta fase, como se não houvesse mais outro assunto, sobre o Marco Silva e o seu futuro, pois tal só serve para aumentar a turbulência interna, o que os rivais agradecem.
A vitória de ontem do Sporting não foi só em campo. Nas entrevistas Marco Silva deu um baile ao treinador do Porto. Também aqui Lopetegui se colocou a jeito de ser cilindrado pelo jovem treinador dos Leões.
Vi e revi a conferência de imprensa do treinador dos azuis e brancos que me pareceu de uma pobreza confrangedora. Tentar desculpar-se da derrota daquela maneira só prova que as coisas pelo Porto não estão a carrilar como outrora.
O basco chegou a Portugal convicto (ou alguém o terá convencido disso!) que bastava a sua equipa entrar em campo para o jogo estar automaticamente ganho… Começa finalmente a descobrir que não será bem assim e que os jogos ganham-se jogando… futebol. E quanto melhor se jogar mais probabilidades tem de ganhar. E ontem o FCPorto foi uma sombra de si mesmo. Obviamente que o Sporting foi culpado, e de que maneira, pela paupérrima exibição dos jogadores portistas.
Mas não foi essa a imagem que o treinador do Porto tentou, em vão, passar. A “mona” da derrota que Lopetegui não conseguiu esconder contrastou com a serenidade e a lucidez patenteadas por Marco Silva.