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És a nossa Fé!

O adepto

(Dedicado ao Pedro Azevedo)

 

«Uma vez por semana, o adepto foge de casa e vai ao estádio.

Agitam-se as bandeiras, soam as matracas, os foguetes, os tambores, chovem as serpentinas e os papelinhos: a cidade desaparece, esquece-se da rotina, só o templo existe. A única religião que não tem ateus exibe as suas divindades neste espaço sagrado. Embora o adepto possa contemplar o milagre mais comodamente no ecrã da televisão, prefere fazer a peregrinação até este lugar onde pode ver os seus anjos, em carne e osso, a bater-se em duelo contra demónios de serviço.

Aqui o adepto agita o cachecol, engole em seco, glup, bebe veneno, morde o chapéu, sussurra preces e maldições e, de súbito, rasga a garganta numa ovação e salta como uma pulga, abraçando o desconhecido que grita golo ao seu lado. Enquanto dura a missa pagã, o adepto é muitos. Partilha com milhares de devotos de certeza de que somos os melhores, de que todos os árbitros estão comprados, de que todos os rivais são trafulhas.

Raras vezes o adepto diz: «Hoje joga o meu clube.» Em vez disso, diz: «Hoje jogamos.» Este jogador número doze sabe bem que é ele que sopra os ventos do fervor que empurram a bola quando ela adormece, tal como os outros onze jogadores sabem bem que jogar sem claque é como dançar sem música.

Quando termina, o adepto, que não saiu das bancadas celebra a sua vitória, que goleada, que sova lhes demos ou chora a sua derrota, roubaram-nos outra vez, o árbitro é ladrão. E então o sol e p adepto vão-se embora. Caem as sombras sobre o estádio que se esvazia. Nas bancadas ardem, aqui e ali, algumas fogueiras de fogo fugaz, enquanto as luzes e as vozes se vão extinguindo. O estádio fica só e o adepto regressa também à sua solidão, eu fui nós: o adepto afasta-se, dispersa, desaparece, e o domingo torna-se melancólico como uma Quarta-Feira de Cinzas depois da morte do Carnaval.»

 

In.: GALEANO, Eduardo - Futebol ao sol e à sombra. 1ª ed. Lisboa : Antígona, 2019. pp. 16-17

Um dos grandes golos da história do futebol

«A chilena ou pontapé de bicicleta

Ramós Unzaga inventou a jogada, no campo do porto chileno de Talchuano: com o corpo no ar, de costas para o chão as pernas disparavam a bola para trás, num vaivém repentino de lâminas de tesoura.

Mas esta acrobacia só se chamou chilena alguns anos depois, em 1927, quando o Colo-Colo foi à Europa e o avançado David Arellano a exibiu nos estádios de Espanha. Os jornalistas espanhóis festejaram o esplendor daquela cabriola desconhecida e baptizaram-na assim porque tinha vindo do Chile, como os morangos e a cuenca (n.r.: dança típica chilena).

Depois de vários golos acrobáticos, Arellano morreu nesse ano, no estádio do Valladolid, devido a um choque fatal com um defesa.»

In.: GALEANO, Eduardo - Futebol ao sol e à sombra. 1ª ed. Lisboa : Antígona, 2019. p. 70

A BOLA

Lendo o texto de Pedro Correia sobre o nosso último jogo (é poesia a descrição que faz dos minutos 27, 34 e 76) um pensamento me ocorre: coitada da bola, tão mal a temos tratado.

 

«Era de couro, com recheio de estopa, a bola dos chineses. Os egípcios do tempo dos faraós fizeram-na com palha ou com cascas de grãos e envolveram-na em tecidos coloridos. Os gregos e os romanos usavam uma bexiga de boi, cheia de ar e cosida. Os europeus da Idade Média e do Renascimento disputavam uma bola oval, recheada de crina. Na América, feita de cauchu, a bola conseguiu ser saltitona como em nenhum outro sítio. Contam os cronistas da corte espanhola que Hernán Cortés pôs a pular uma bola mexicana e fê-la voar a grande altura, diante dos olhos arregalados do imperador Carlos.

A câmara de borracha, insuflada por uma bomba e coberta de couro, nasceu em meados do século passado, graças ao engenheiro Charles Goodyear, um norte-americano do Connecticut. E graças ao engenho de Tossolini, Valbonesi e Polo, tês argentinos de Córdova. Nasceu muito depois a bola sem costura de atacador. Eles inventaram a câmara co válvula, que se enchia por injecção, e desde o Mundial de 1938 tornou-se possível cabecear a bola sem se magoar com o cordão de couro que anteriormente a amarrava.

Até meados deste século. A bola foi castanha. Depois branca. Nos nossos dias, apresenta-se com diversos motivos em preto sobre fundo branco. Agora tem diâmetro de setenta centímetros e é revestida de poliuretano sobre espuma de polietileno. É impermeável, pesa menos de meio quilo e viaja mais rapidamente do que a velha bola de couro, que ficava impossível nos dias chuvosos.

Chamam-lhe muitos nomes: o esférico, a redondinha, a careca, o globo, o balão, o projéctil. No Brasil, no entanto, ninguém duvida que ela é mulher. Os brasileiros chamam-lhe gorguchinha, menina, e dão-lhe nomes como Maricota, Leonor ou Margarida.

Pelé beijou-a no Maracanã, quando marcou o seu milésimo golo, e Di Stefano erigiu-lhe um monumento à entrada de casa, uma bola de bronze com uma placa que diz: ‘Obrigado, velhota.’

Ela é fiel. Na final do Mundial de 1930, as duas selecções exigiram jogar com a sua própria bola. Sábio como Salomão, o árbitro decidiu que o primeiro tempo se disputaria com a bola argentina e o segundo tempo com abola uruguaia. A Argentina ganhou o primeiro tempo e o Uruguai o segundo. Mas a bola também tem as suas veleidades e às vezes não entra na rede porque muda de opinião no ar e se desvia. É que ela é muito melindrosa. Não suporta que a tratem aos pontapés, nem que lhe acertem por vingança. Exige que a acariciem, que a beijem, que adormeçam no peito ou no pé. É orgulhosa, talvez vaidosa, e não lhe faltam motivos: ela bem sabe que dá muitas alegrias a muitas almas quando se eleva com graça, e que são muitas as almas que ficam doridas quando ela cai mal.»

 

In.: GALEANO, Eduardo - Futebol ao sol e à sombra. 1ª ed. Lisboa : Antígona, 2019. pp. 32-33

"Rola, rola sem fim; não agarra nada..."

... assim tem sido o nosso futebol.

Talvez por Vila do Conde ser terra de pescadores, de onde muitos homens saíram para a «Faina Maior», a pesca ao bacalhau, este texto, de Bernardo Santareno (*), é a minha melhor análise sobre o último jogo do Sporting frente ao Rio Ave.

Desejamos que quinta-feira seja diferente.

 

«- How do you do, doctor?

Estendeu-me a mão molhada de cerveja, que eu apertei. Foi em Torrevieja num “bar”.

Não o esqueci: aquela cara congestionada pelo álcool e no entanto de traços delicados, a voz rouquenha e escarninha, o corpo onde a embriaguez não conseguia destruir uma elegância que, sendo natural, era também cuidada…

Informei-me: pertencia à tripulação do “David Melgueiro” e era um simples “verde” quer dizer principiante (os outros “maduros” e “homens de ofício”). Achei estranho.

Era, na verdade, diferente dos demais: Mais evoluído, família de classe superior? Até pela maneira de vestir…

Com certeza, no entanto, para mim, mais antipático: Aquela troça mal disfarçada, com que me tinha atirado o “how do you do?”…

Enfim, estava embriagado. E continuou a beber no navio.

Choviam as queixas: Indisciplinado, raro cumpria a sua parcela no trabalho. Mas os outros gostavam daquele “verde” e lá o iam protegendo, escondendo-o dos oficiais supervisores.

Vieram falar-me…

Era açoriano, não tinha pai nem mãe, nem ninguém.

Chegara a estudar.

- “Julga que é mentira, doutor? Pergunte lá em cima, ao piloto: cursei com ele os primeiros anos do liceu!...”

Mas desistira. Aliás, até hoje, não fizera outra coisa senão começar carreiras… Depois veio a vida militar. E agora para aqui estava…

- Agora sou um reles “verde” senhor doutor…

Ficara horas a contemplar o mar, debruçado na amurada do arrastão.

- Sai daí, vai trabalhar, deixa lá isso. Olha que o capitão castiga-te…”

- Não castiga. Tenho ali o mar pronto a receber-me!...”

E no seu olhar azul-sombrio, brilhava qualquer coisa de feroz, brasa onde se queimava um grito desesperado…

Dormia sempre com uma faca, entre a camisa e o peito…

- “Deixa cá ver a faca: Pra que precisas tu dela, aí no teu beliche?”

- “Não dou. É a minha noiva. E qualquer dia caso-me com ela…”

Procurei falar com o rapaz. Agreste e chocarreiro a princípio, foi depois cedendo… à medida que, em mim, ia aumentando a simpatia por aquele “verde”, bravio e orgulhoso, que procurava no álcool e nos fumos da morte, alívio para a chaga da derrota, rasgada em suas entranhas…

- “A minha vida, doutor, é como o mar: Rola, rola sem fim; não agarra nada, não para nunca!...”»

 

In: SANTARENO, Bernardo - Nos mares do fim do mundo: doze meses com os pescadores bacalhoeiros portugueses por bancos da Terra Nova e da Gronelândia. [1ª ed]. Lisboa : Ática, 1959. pp. 23-25

(*) «pseudónimo literário de António Martinho do Rosário (1920 - 1980), considerado o maior dramaturgo português do século XX. Licenciou-se em medicina em 1950 e entre 1957 e 1959 exerceu actividade médica junto da frota bacalhoeira portuguesa na Terra Nova».

OS NEGROS

«Em 1916, na primeira Copa América, o Uruguai goleou o Chile por 4 a 0. No dia seguinte, a delegação chilena exigiu a anulação do jogo, «porque pelo Uruguai tinham alinhado dois africanos». Eram os jogadores Isabelino Gradín e Juan Delgado. Gradín tinha marcado dois dos quatro golos.

Bisneto de escravos, Gradín tinha nascido em Montevideu. As pessoas levantavam-se nas bancadas quando ele se lançava numa velocidade espantosa, dominando a bola como que caminha e, sem se deter se esquivava dos adversários e rematava em plena corrida. Tinha cara de menino de coro e era daqueles que quando fazem maldades, ninguém acredita.

Juan Delgado, também bisneto de escravos, tinha nascido em Florida, no interior do Uruguai. Delgado brilhava a dançar com uma vassoura no Carnaval e com uma bola no campo. Enquanto jogava, conversava e gozava com os adversários:

- Vem buscá-la, se fores capaz – dizia, elevando a bola. E ao lançá-la dizia:

- Atira-te para o chão, que é areia.

O Uruguai era, naquela época, o único país do mundo que tinha jogadores negros na selecção nacional.»

 

In.: GALEANO, Eduardo - Futebol ao sol e à sombra. 1ª ed. Lisboa : Antígona, 2019. p. 54

Sporting: ingénuo e romântico

«Carácter e Cromos

O pior que pode acontecer a uma equipa é perder o seu carácter. Não me refiro ao «espírito ganhador ou perdedor», porque no fundo todas têm o primeiro, mais ou menos desenvolvido. Trata-se do carácter do qual se projecta esse espírito, do estilo e do ânimo com que se aspira ao triunfo, que em cada caso são diferentes. Perder esse carácter é, por outro lado, muito difícil em clubes que têm cerca de um século de vida. É preciso que decorram muitos anos em que o torpedeiam sistematicamente para que aconteça esse disparate, na realidade é uma tarefa pouco menos que impossível e disso se queixam frequentemente os treinadores e os presidentes, que queriam equipas mais aguerridas, ou mais «assassinas», ou mais broncas, ou mais ufanas, ou mesmo mais clementinas. Assim o carácter do Barcelona foi sempre artístico e frágil (…). O Valência é simultaneamente fanfarrão e inibido, isto é, inibe-se demasiado quando a fanfarra emudece (e não há nenhuma que dure um campeonato inteiro). O Athetic de Bilbao é temerário e obstinado e um pouquinho atormentado, como se jogasse a sua própria Liga contra o passado; a Real Sociedad é nobre e ingénua, parece surpreender-se sempre com as suas vitórias. A Juventus é muito fina e julga-se aristocrática, o Bayern de Munique é arrogante e pretensioso, o Ajax optimista e confiado e por isso improvisa, o Liverpool é voraz e impiedoso.

O [Real] Madrid é heroico e altaneiro e também artístico (…).» (*)

 

Como se extrapola esta caracterização para a realidade portuguesa?

A minha leitura é esta:

O Sporting é ingénuo e romântico.

O Benfica é batoteiro, quando ganha, e choramingas, quando perde.

O Porto é arruaceiro e colérico.

 

E vocês, como olham para os três principais clubes do futebol português?

 

 

(*) In.: MARÍAS, Javier - Selvagens e sentimentais : histórias do futebol. 1ª ed. Lisboa : Dom Quixote, 2002. pp. 77-78

"Devo tudo o que sei sobre moral ao futebol", diz o escritor Albert Camus

Olhando para o nosso lado...

«VALE TUDO

 

Em 1988, jornalista mexicano Miguel Ángel Ramirez denunciou uma fonte de juventude. Alguns jogadores da selecção juvenil do México, que tinham ultrapassado a idade permitida em dois, três e mesmo seis anos, tinham sido banhados nessas águas mágicas: os dirigentes tinham falsificado as suas certidões de nascimento e arranjado passaportes falsos. Submetido a esse tratamento prodigioso, um dos jogadores tinha conseguido ser dois anos mais novo do que o seu irmão gémeo.

Então, o vice-presidente do Guadalajara declarou:

- Não digo que seja uma coisa boa, mas sempre se fez.

E Rafael del Castillo, que era o manda-chuva do futebol juvenil, perguntou:

Porque é que o México não pode ser intrujão, quando por norma, outros países o são?

Pouco depois do Mundial de 1966, o inspector da Associação de Futebol Argentino, Valentín Suarez, declarou:

- Stanley Rous é um homem desonesto. Organizou o Mundial para que a Inglaterra ganhasse. Eu faria o mesmo se disputasse na Argentina.

A moral do mercado, que no nosso tempo é a moral do mundo, autoriza todas as chaves para a obtenção do sucesso, mesmo que sejam gazuas. O futebol profissional não tem escrúpulos, porque integra um sistema inescrupuloso que compra eficácia a qualquer preço. E ao fim e ao cabo, o escrúpulo nunca foi grande coisa. Escrúpulo era a menor medida de peso, a mais insignificante, na Itália do Renascimento: Cinco séculos depois, Paul Steiner, jogador alemão do Colónia, explicava:

- Jogo por dinheiro e por pontos. O rival quer tirar-me o dinheiro e os pontos. Por isso tenho de lutar contra ele recorrendo a todos os meios.

E o jogador holandês Ronald Koeman justificava assim o pontapé do seu compatriota Gillhaus , que deu cabo do francês Tigana, em 1988:

- Foi um gesto de grande classe. Tigana era o mais perigoso e era preciso neutraliza-lo a todo o custo.

O fim justifica os meios, e qualquer rasteira é aceitável, embora convenha passa-la dissimuladamente. Basile Boli, Olympique de Marselha, um defesa acusado de maltratar tornozelos alheios, contou o seu baptismo de fogo: em 1983, estatelou com uma cabeçada Roger Milla, porque este estava a enlouquecê-lo com as suas cotoveladas. E Boli revelou a experiência:

- Eis a lição iniciática: bate antes que batam, mas bate discretamente.

 É preciso bater longe da bola. O árbitro, como as câmara de televisão, tem os olhos postos na bola. No Mundial de 1970, Pelé sofreu com a marcação do italiano Bertini. Depois elogiou-o assim:

- Bertini era um artista a cometer faltas sem ser visto. Esmurrava-me as costelas ou o estomago, dava-me pontapés no tornozelo… Um artista.

Entre os jornalistas argentinos são frequentes os aplausos às trapaças atribuídas a Carlos Bilardo, por ter sabido executá-las com habilidade e com bons resultados. Segundo dizem, quando era jogador, picava os adversários com uma agulha e fazia cara de santo. E quando foi director técnico da selecção argentina, conseguiu enviar um cantil cheio de água com vomitivo a Branco, um jogador brasileiro sedento, durante o jogo mais difícil do Mundial de 1990.

Os jornalistas uruguaios costumam chamar jogo de perna forte à falta traiçoeira, e não foi só um que celebrou a eficácia do pontapé de abrandamento para intimidar os rivais nos jogos internacionais. O tal pontapé deve ser dado nos primeiros minutos de jogo. Mais tarde corre-se o risco de expulsão. No futebol uruguaio, a violência foi filha da decadência. Anteriormente, garra charrúa (nr: Charrúas = uruguaios) era o nome da valentia, e não dos pontapés.

No Mundial de 1950, sem ir mais longe, aquando da célebre final do Maracanã, o Brasil perpetrou o dobro das faltas que o Uruguai cometeu. No Mundial de 1990, quando o técnico Óscar Tabárez consguiu que a selecção uruguaia voltasse ao jogo limpo, alguns comentadores locais tiveram o prazer de confirmar que isso não dava bons resultados. E são numerosos os adeptos, e também os dirigentes, que preferem ganhar sem honra a perder com nobreza.

Pepe Sasía, avançado uruguaio, dizia:

- Atirar areia para os olhos do guarda-redes? Os dirigentes acham mal, quando se nota.

Os adeptos argentinos disseram maravilhas do golo que Maradona marcou com a mão, no Mundial de 1986, porque o árbitro não viu. Nas eliminatórias do Mundial de 1990, o guarda-redes do Chile, roberto Rojas, simulou uma ferida, cortando a testa, e foi apanhado. Os adeptos chilenos, que o adoravam e o chamavam de Condor, transformaram-no de repente no mau da fita porque o truque não resultou.

No futebol profissional, como em tudo o resto, o delito não tem importância se o álibi for bom. Cultura significa cultivo. O que cultiva em nós a cultura de poder? Quais serão as tristes colheitas de um poder que dá impunidade aos crimes dos militares e ao saque dos políticos, e os transforma em façanhas?

O escritor Albert Camus, que foi guarda-redes na Argélia, não se referia ao futebol profissional quando dizia:

- Devo tudo o que sei sobre moral ao futebol.»

 

In.: GALEANO, Eduardo - Futebol ao sol e à sombra. 1ª ed. Lisboa : Antígona, 2019. pp. 221-224

O ídolo

Agora que Bruno Fernandes se foi embora, faço esta pergunta:

Qual o jogador do nosso plantel que se aproxima desta descrição de Eduardo Galeano?

 

 

«O ÍDOLO

 

E um belo dia a deusa do vento beija o pé do homem, o pé maltratado, desprezado, e desse beijo nasce o ídolo do futebol. Nasce em berço de palha e em barraca de lata e vem ao mundo abraçado a uma bola.

Desde que aprende a andar, sabe jogar. Nos seus verdes anos alegra os baldios, farta-se de jogar nos descampados dos subúrbios até que a noite cai e já não vê a bola, e em jovem voa e faz voar nos estádios. As suas artes malabares congregam multidões, domingos após domingo, de vitória em vitória, de ovação em ovação.

A bola segue-o, reconhece-o, exige-o. No peito do seu pé, ela descansa e baloiça-se. Ele chuta-a e fá-la falar, e nesse diálogo conversam milhões de mundos. Os zés-ninguém, os condenados a serem zés-ninguém para sempre, podem sentir-se alguém durante um pouco, por obra e graça desses passes devolvidos ao toque, desses fintas que desenham zês no relvado, desses golaços de calcanhar ou de bicicleta: quando ele joga, a equipa tem doze jogadores.

- Doze! Tem quinze! Vinte!

A bola ri-se, radiante, no ar. Ele fá-la descer, consegue adormece-la, corteja-a, fá-la dançar, e vendo essas coisas nunca vistas os seus adoradores sentem pena dos seus netos ainda não nascidos, que nunca os poderão ver.

Mas o ídolo só é ídolo por algum tempo, humana eternidade, coisa de nada; e quando a sorte madrasta atinge esse pé de ouro, a estrela conclui a sua viagem do fulgor ao apagão. Esse corpo fica com mais remendos do que um fato de palhaço, o acrobata passa a ser paralítico, o artista uma besta:

- Com pitões não!

A fonte da felicidade pública transforma-se no para-raios do rancor público:

- Múmia!

Às vezes o ídolo não cai inteiro. E às vezes, quando se quebra, as pessoas devoram os pedaços.»

 

In.: GALEANO, Eduardo - Futebol ao sol e à sombra. 1ª ed. Lisboa : Antígona, 2019. pp. 14-15

Sporting: o meu «Bolero de Ravel»

«Amor é exclusividade

 

Conheço uma moça que, em matéria de football, é de uma ingenuidade enciclopédica. Não sabe o que é um «chute» e ignora se a bola é quadrada ou redonda. Outro dia, ela vai à Tijuca. E, de repente, vê, mais adiante, uma coisa grande, uma coisa imensa. No seu pânico, aponta e pergunta: «O que é aquilo? Tiveram que explicar que «aquilo» era o Maracanã, o maior estádio do mundo etc., etc.

Posteriormente, tenho sabido de coisas singulares a respeito da minha conhecida. Por exemplo: não lhe falem em «tabuleiro da Baiana», porque ela cairá na mais atra e torva perplexidade. Em suma: uma flor de moça. Pois bem. Um dia desses, ocorre na vida de minha amiga (se assim posso chamá-la) uma experiência curiosa: ela encontra em cima da mesa um exemplar do Jornal dos Sports. Balbucia, com a sua inocência maravilhada: «Cor-de-rosa!»

Graças à cor, e só à cor, dispôs-se à leitura. E acaba descobrindo, num canto da página, esta coluna. Viu a minha assinatura e seu interesse aumentou. É doce ler um conhecido! Foi até o fim de minha crônica e, como falava em football, não entendeu patavina. Dois ou três dias depois, ela encontra em cima da mesma mesa o mesmo Jornal dos Sports. Nova leitura. Mais tarde ela bate o telefone para mim. Pergunta: «Você só escreve sobre o Fluminense?»

Eis o que acontecera: ela só conhecia, deste colunista, duas crônicas. E, por coincidência fatal, em ambas o tema principal, ou melhor o tema único era o Tricolor. E a moça não entendia que pudesse existir jornalista de um assunto só. Com o maior descaro, e não sem doçura, respondi-lhe: «Eu só escrevo sobre o Fluminense!»

Amigos, o que a amiga não aceita, e ninguém aceita, é esta verdade eterna: cada escritor, cada cronista, cada poeta tem o seu «Bolero de Ravel», ou seja: o assunto obsessivo e triturante, em torno do qual ele gravita, obtusa e teimosamente. Ai daquele que é incapaz de uma fixação! Coitados dos que pulam de um assunto a outro, com uma frivolidade irresponsável. «É preciso variar», dizem. Mentira. É preciso, inversamente, não variar. Nada é mais estúpido e vazio do que a variedade. Assim, no jornalismo como na literatura, na literatura como no amor.

No amor, o grande sujeito é o camarada de uma só mulher. Ele agarra a sua e não a larga mais. Repito: o verdadeiro Don Juan é o sedutor de uma conquista única, para sempre. No football, é preciso gostar, obviamente, do mesmo clube. E assim por diante. Nada mais justo, pois, do que o jornalista especializado que também só escreve sobre um único clube, eternamente único. Essa fidelidade exasperada é de uma beleza completa.

Jornal dos Sports, 22/9/1961»

In. .RODRIGUES, Nelson- Brasil em campo : crónicas. 1ª ed. Lisboa : Tinta da China, 2018. pp. 187-188.

 

Através da leitura do texto «A censura nas escolas do Brasil», do colega de blog “jpt”, podemos chegar a esta «Relação dos livros a serem recolhidos», uma directiva da Secretaria de Estado da Educação de um estado brasileiro com títulos «para serem recolhidos das escolas por conterem o que foi definido como "conteúdos inadequados" a crianças e adolescente.». Nela consta o nome deste autor: Nélson Rodrigues, com outros títulos («Beijo no asfalto» e «A vida como ela é».

 

Não vou fazer qualquer consideração sobre isto – este não é o espaço. Deixo somente esta crónica, deliciosa.

Atravessar etapas de uma crise

«ATRAVESSAR ETAPAS DE UMA CRISE não é necessariamente mau: permite-nos um olhar a que ainda não havíamos chegado, permite-nos escutar não apenas a vida aparente, mas também a insatisfação, a sede da verdade e de sentido, e apenas a assumir uma condição mais ativa.

Talvez precisemos de descobrir que, no decurso do nosso caminho, os grandes ciclos de interrogação, a intensificação da procura, os tempos de impasse, as experiências de crise podem representar verdadeiras oportunidades. Quando mais conscientes dos nossos entraves, limites e contradições, mas também das nossas forças e capacidades, tanto mais poderemos investir criativamente no sentido da nossa identidade. Isso implica uma mudança de ponto de vista sobre nós próprios e o mundo, e advém daí naturalmente uma instabilidade face a modelos que tínhamos por adquiridos.

Os partos indolores são uma mistificação. Quem tem de nascer prepare-se para esbracejar. Há um momento em que aprendemos que vale mais prestar atenção àquilo que em nós está a germinar, num lento e invisível (e inaudível) processo de gestação, do que àquilo que perdemos.»

 

In.: MENDONÇA, José Tolentino, O pequeno caminho das grandes questões. Lisboa : Quetzal, 2017. p 151

 

O futebol não é só futebol.

«QUE VAZIO TENTA SER COMPENSADO NA PAIXÃO das multidões pelo futebol? Que ausência ela vem ocultar? O futebol é hoje vivido quase como uma religião de substituição. Um dos primeiros a colocar esta questão foi Robert W. Coles, que defendeu a existência de analogias entre a realidade social do futebol e as práticas religiosas de busca e celebração da transcendência. Aquilo a que Durkheim chama "as formas elementares" do fenómeno religioso pode encontrar-se, sem grandes contorcionismos simbólicos, no entusiasmo colectivo que o desporto-rei desperta. De facto, o modo como a paixão pelo futebol se expressa passou a ser observado etnologicamente como um ritual religioso ou para-religioso, com as suas catedrais, os seus oficiantes, a sua liturgia, as suas regras, as suas narrativas sagradas e os seus seguidores.

Os ecos de uma mentalidade religiosa persistem portanto, ainda que secularizados, reconfigurados e deslocados para outro âmbito. Muda claramente o objeto, mas não a antropológica necessidade de relação. Por isso, o futebol não é só futebol. Ele coloca em campo, além da bola, outras questões pertinentes.»

 

In.: MENDONÇA, José Tolentino, O pequeno caminho das grandes questões. Lisboa : Quetzal, 2017. p. 38

Futebolices

“O HOLOCAUSTO

 

Sou muito amante da verdade, mas em caso nenhum do martírio.

Voltaire

 

A verdade, para Voltaire, tem um limite prático: a pele. Voltaire foi sempre muito conservador e sensato. Se os árbitros de futebol fossem mais voltarianos e precavidos conseguir-se-ia desterrar, de uma vez para sempre, o feio costume de enforcar árbitros de futebol (uso que tanto destoa do espírito olímpico de jogadores, massa associativa e adeptos em geral, casados ou solteiros), mas quando, por assinalar penáltis [sic], se corre o notório risco de terminar enforcado, o árbitro deve abster-se de assinalar penaltis, castigo que pode ser substituído pelo livre ou até pelo deixar jogar, conforme as circunstâncias. O regulamento precisa de uma revisão muito urgente; não há dúvida que foi ficando velho e inútil.

- E o senhor acha que se conseguirá que o revejam?

- Vá-se lá saber! As pessoas estão muito agarradas aos costumes, as pessoas são muito rotineiras e pacóvias, muito resignadas e acomodadas; as pessoas não gostam que as coisas mudem e preferem que continuem como estão, mesmo, estando mal. As pessoas são assim!

Minervino Caeymaex Cabrillas, mais conhecido por Gazapo, árbitro de futebol, foi enforcado pela populaça na forca municipal, na forca levantada por subscrição dos eleitores pais de família. Minervino Caeymaex Cabrillas, mais conhecido por Gazapo, árbitro de futebol, assinalou um penálti [sic] contra a equipa da casa e pagou e pagou a sua ousadia com a vida. Se calhar, se tivesse lido a tempo Voltaire, a esta hora andaria por aí impávido e sereno: gozando de uma existência normal, de uma existência de boticário ou de inspector fiscal, e fazendo de tudo – disso pode ter a certeza! -, menos apontar penalties. Olhe que, às vezes, as pessoas são mesmo maníacas! Dizem que Minervino Caeymaex Cabrillas, mais conhecido por Gazapo, nada sofreu no patíbulo – antes assim! -, e que morreu como um bom atónito, sem dizer ai, ou como um passarinho analfabeto, sem abrir o bico. Pobre Minervino Caeymaex Cabrillas, mais conhecido por Gazapo, que saltava sempre ao relvado tão repenteadinho e asseado!

O seu colega e substituto Belarmino Galán Carlota, mais conhecido por Goyito, vai ser enforcado pelos jogadores (de acordo com alguns sintomas) na bandeira da porta dos vestiários, a forca de emergência apenas usadas em casos muito extremos. Belarmino Galán Carlota, mais conhecido por Goyito, armou-se em carapau de corrida e a primeira coisa que fez mal transpôs a porta do touril, foi assinalar um penálti [sic]. Belarmino Galán Carlota, mais conhecido por Goyito, gostava mais do martírio do que qualquer outra coisa: da verdade, por exemplo, ou do lento e acompanhante palpitar do coração. Quem ama o perigo, nele perece. Belarmino Galán Carlota, mais conhecido por Goyito, foi pensando últimas frases solenes, enquanto o arrastavam no caminho para o suplício. O pior foi que, no fim, está visto que por causa dos nervos, se esqueceu.

Holocausto, etimologicamente, significa queimar totalmente, queimar sem deixar sequer o rabo. A Minervino e a Belarmino não os queimaram, enforcaram-nos. A verdade é que, para os devidos efeitos, acaba por dar no mesmo.

- Pois não pense, meu bom amigo, não pense! Não é a mesma coisa ser viúva de presunto ou de churrasco. Nisto da exactidão da linguagem o senhor devia ser mais preciso e correlativo. Olhem-me só os académicos que temos!

- O senhor desculpe!

Minervino e Belarmino, os dois sujeitos do surdo holocausto (com gritos, mas sem chamas), julgaram, na sua infinita soberba, poder desafiar o respeitável, esse monstro de respeitos que corta a direito tido o que se nega à sua deliberada enfermidade. Minervino e Belarmino, pendurados pelo pescoço, pagam as culpas da deformante educação que receberam. Na hora do pranto já é tarde para a serena recapitulação.

- E o senhor acha que as gerações do futuro vão aprender?

- Pois não; eu acho que não. Nisto sou um pouco céptico, por muito que me custe. Eu só queria era ver o futuro cor-de-rosa.

Minervino Caeymaex Cabrillas, mais conhecido por Gazapo, era árbitro internacional. O seu colega, o Goyito, ainda não; ao Goyito já lhe faltava pouco para o ser, mas ainda não; ao Goyito já lhe faltava pouco para o ser, mas ainda não o era. É mais fácil chegar a jogador internacional do que a árbitro internacional; também é mais dura a vida do árbitro, de cara para a multidão que ruge, assobia, deita pela boca e pede (indefectivamente) a cabeça de alguém (regra geral, a do árbitro).

Minervino Caeymaex Cabrillas, mais conhecido por Gazapo (e também por Tabiano da D. Clara), teria preferido morrer na guerra do Boers. Em contrapartida, Belarmino Galán Carlota, mais conhecido por Goyito (e também por Jurel da Poetisa Núñes), teria gostado mais de morrer na praça de Ronda, pela cornada de um burro. Com a morte, como bem se sabe, passa-se a mesma coisa que com a carta muda no póquer, apresenta-se quando lhe apetece e sem avisar. Às vezes tira-nos as castanhas do lume do pecado, mas outras vezes (está-se mesmo a ver que é para não nos fiarmos) o pez a arder do caldeirão de Lúcifer, esse malvado sem remorsos negro como um carvão.

Os solteiros da cidade pediram autorização ao senhor presidente da Câmara para erguerem a sua forca e não terem de estar sempre a depender da forca dos pais de família (uma forca arcaica e valentudinária onde cantava a sua velha polonesa o aborrecido violino do gorgulho). Apesar de ainda não terem recebido uma resposta, correm boatos de que o senhor presidente da Câmara acabará por lhes dizer que não, que a cidade já tem o suficiente com uma forca e que, em caso de aperto, a peçam emprestada aos casados (ou pendurem o réu da bandeira da porta dos vestiários, como se tem vindo a fazer até agora).

Minervino e Belarmino não sabiam que a verdade tem as suas fronteiras como tudo. Nas ilhas, a fronteira é mais fácil de determinar. Se calhar a verdade é uma ilha rodeada de conveniência por todos os lados (a conveniência de livrar a pele, à cabeça de tudo). Minervino e Belarmino, se tivessem lido Voltaire, não teriam sido teimosos e mártires.”

 

CELA, Camilo José - Onze contos de futebol. 1ª ed. Porto : Asa, 1994. p. 55-58

Leio este ’post’…

do Edmundo, um abraço, e ocorre-me texto.

 

«Real Madrid Republicano

O meu bom amigo e óptimo colega Guillermo Cabrera Infante detesta futebol, (…), e sempre que me ouve falar dele com naturalidade ou vê que lhe dedico um artigo põe-se a mirar com aquele olhar terrivelmente destruídor e não se priva de me criticar a falta de gosto e conduta irresponsável.

Agora o clube dos meus amores de infância ridicularizou-se diante de toda a Europa. Uns machões derrubaram uma baliza, e não só havia nenhuma suplente em Chamartín, como demorou uma hora e um quarto a trazer outra, de uma forma incompetente e atoleimada. A imprensa alemã cevou-se (o adversário era o Borussia Dortmund), a europeia neutral gozou, a barcelonense deitou sal na ferida sem escrúpulos nem dissimulação. Está bem, tudo mais ou menos merecido. Que o clube dos meus amores de infância continue a sê-lo na minha idade adulta não significa que eu seja cego aos seus defeitos: a actual direcção não me inspira confiança, para falar de uma forma suave; o actual treinador, Heynckes, parece-me sem prespuicácia; e um bom número dos seus adeptos é do pior que há na nossa sociedade, com os seus cânticos e símbolos racistas e nazis e as suas bandeiras franquistas, que não espanholas. Estes iletrados deveriam saber, é claro, que meteram a pata na poça quando se tornaram adeptos do Real Madrid. Como é do conhecimento daqueles que têm memória e há pouco tempo recordou um ressabiado jornalista que dá muitos ares de «vermelho», as pessoas de esquerda e republicanas, os derrotados da Guerra Civil, preferiam o Madrid ao Atlético, apesar do adjectivo «Real» aparentemente contraditório. O Madrid tinha no seu nome o da cidade sitiada e bombardeada, enquanto o Atlético Aviación (como se chamava na sua origem o Atleti) era a equipa dos pilotos franquistas, justamente daqueles que se tinham dedicado a bombardear a capital com sanha. Entre os nossos jogadores houve não pouco «avermelhados», como Del Bosque, ou o guarda-redes Miguel Ángel, ou Breitner o abissínio, ou Pardeza, ou Valdano, e só os triunfos europeus dos anos 50 e 60 levaram o regime ditatorial, com o seu oportunismo, a aproximar-se dele e não o inverso. Que o saibam então os ultras: apoiam a equipa que foi dos perdedores bélicos, mais vale que se inscrevam todos no Frente Atlético.

Mas ao que ia: toda a gente perorou sobre a baliza mas ninguém assinalou até que ponto foi milagroso e admirável que os quase cem mil espectadores reunidos no estádio, a maioria em estado de alta tensão como eu estava em minha casa diante do ecrã quando se iniciava uma semi-final dos Campeões Europeus obrigados a esperar durante setenta e cinco minutos, muitos milhares de pé, sem ter a certeza de que o jogo acabaria por se realizar, em dia de trabalho, com a irritação e a frustração lógicas perante semelhante anticlímax; admirável, digo, é que entre essas cem mil pessoas não acontecesse nenhum incidente em tão longo e oneroso tempo; que as pessoas não se puseram a lutar nem fossem à procura dos ultra sur culpados para lhes aplicar uma sova ou expulsá-los de Chamartín de uma vez por todas; que esperassem pacientemente, limitando-se a assobiar esse fundo sul e a direcção incompetente. Em suma, que não sucedesse nenhuma desgraça como a Heysel e tantos outros lugares. Porque o que eu costumo responder a Cabrera é que o perigo não está no futebol, mas na massa enclausurada, seja qual for o espectáculo. Tendemos a assinalar o pior de nós, e nesta ocasião havia pouco. Mas também houve alguma coisa de bom, e até hoje não li um único comentário como o que agora faço, que alguém se felicitasse pelo alto grau de serenidade e civilidade demonstrado pela maioria dos adeptos da equipa dos meus mais constantes amores.

 

1998»

 

MARÍAS, Javier - Selvagens e sentimentais : histórias do futebol. 1ª ed. Lisboa : Dom Quixote, 2002. p. 109-111

Prémio Camões 2018…

… foi ontem atribuído ao escritor cabo-verdiano Germano de Almeida.

 

No seu título de estreia, O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo, podemos ler:

 

«(…)

Finalmente chegou uma altura em que o Sr. Napumoceno considerou que já justificava dar ao armazém a aparência de uma firma. Assim, na parte da frente que sempre destinara a escritório mandou construir uma fachada que logo impressionou toda a cidade pela sua imponência e sobriedade e na qual se lia em relevo, pintado de verde-escuro sobre um fundo branco, as palavras ARAÚJO, LDA. - Import. Export. Porque a grande fraqueza de toda a vida do Sr. Napumoceno tinha sido o Sporting Club de Portugal e por arrastamento qualquer outra equipa que usasse a cor verde. Considerava o verde a sua tara, o seu destino e a sua sorte e disse no seu testamento que a sua filha Maria da Graça ficara a dever-se à saia verde da D. Mari Chica que lhe apeteceu logo levantar quando a viu dobrada sobre a secretária...

(…)»

 

ALMEIDA, Germano - O testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo : romance. 3ª ed. Lisboa : Caminho, 1998. pp. 65-66

«O futebol é uma arte»

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«Ainda bem que é o futebol, os jogo e a arte em geral que dilui a essência trágica do comportamento humano. Senão, estávamos em guerra permanente. O jogo é um exorcismo. Esgota-se - ou devia - na vitória e na derrota, aceites como tais, para que não se estrangulem no fim do jogo. (...) O futebol é uma arte. Menor, será, mas tem efeitos de representação do que são os nossos sonhos, as nossas ambições, a nossa imagem de vencedores. Os homens querem ter sempre uma imagem positiva, mas sobretudo vitoriosa, de si mesmos.»

Eduardo Lourenço, hoje, em entrevista ao Público

Yazalde… por quem o viu jogar

Fiquei deliciado ao ler o texto inicial de Pedro Azevedo onde fala do seu ídolo, essa glória do Sporting que foi Yazalde. Não tenho memória de o ver jogar, as minhas memórias são posteriores, pelo que me socorro de outros olhos para imaginar o que teria sido:

 

« O cheiro, a adivinhação e o timing são o jogador. Yazalde estava de costas - e voltava-se para fazer o golo: o golo já ia quase feito na maneira de rodar o corpo, o pé e a bola tinham encontro marcado -, o futebol tem essa triunfante fatalidade.»

 

In: MACHADO, Dinis - A liberdade do drible : crónicas de futebol. 1ª ed. Lisboa : Quetzal, 2015. p. 32

(texto original no jornal A Bola Magazine de 16 de Outubro de 1993)

Caridade, sim! Política, não!

Num outro espaço onde o Pedro Correia escreve, publicou um texto onde fala sobre as declarações «arraçadas» de xenófobas de um candidato autárquico.

Nos comentários a esse breve texto, alguém lhe pergunta: «se o Sr. Ventura fosse do seu Sporting, mereceria a mesma crítica?»

A propósito desta confusão, entre política e desporto, é bom ter presente os ensinamentos de José de Alvalade:

 

«Caridade, sim! Política, não!

 

Os tempos andavam conturbados. Sabia-se que, no Sporting, havia uma facção monárquica assumida. José de Alvalade tratou, de entrada, de separar a política e o desporto.

 

Evangelismo ou caridade, sim. Política ou politiquice, não. Era preciso separar o trigo do joio. E evitar envolvimentos, numa época em que o Rei D. Carlos tinha já a cabeça a prémio, a Carbonária misturava o ódio à Monarquia com a luta de classes, todos os dias eram dia de espera de uma revolução que, enfim, restaurasse a República. Por isso, estrategicamente, apesar de alguns dos seus fundadores serem monárquicos de estirpe e assumirem-no, os fundadores do Sporting colocaram, nos seus estatutos, em jeito de ponto de honra preceituavam “as casas e terrenos do clube nunca, sob qualquer pretexto, poderão ser cedidos para comícios políticos ou de outras reuniões que não sejam a apresentação dos exercícios a que o clube se destina”. E mais se determinava que nas “salas e dependências do clube ou em qualquer parte onde os sócios como tais se apresentem, é dos mesmos rigoroso dever o respeito pelas instituições vigentes, sendo-lhes expressamente proibido quaisquer discussões ou manifestações acerca de política militante”.»

 

In: Glória e vida de três grandes. A Bola, 1995, pp. 10-11

Azevedo, Damas, Rui Patrício…

Ontem, o leitor Orlando Marinho num comentário a um texto meu, a propósito dos números imortais que envergaram a camisola, neste caso a número 1, do Sporting, escreveu:

«Provavelmente é a posição onde tivemos e continuamos a ter o privilégio de ver mais grandes jogadores e, dentro desses temos vários jogadores "Made in Sporting C.P.". Gostaria de acrescentar ao grupo alguns que, embora não tenham jogado no nosso clube, contribuíram para enriquecer o nosso futebol, tais como: Michel Preud'homme, Vítor Baía, Bento e Józef Młynarczyk»

Relembro uma crónica de Dinis Machado.

 

«Guarda-redes - o lugar e o risco

 

Apetece-me escrever acerca dos acerca dos guarda-redes. Nunca tive o prazer do lugar nas minhas andanças futebolísticas. Andei sempre na linha avançada, um bocado maniento do golo. E do drible. Quando, nos «treinos», fazia uma perninha na baliza, acabava-me com pouco jeito. Não tinha bem tempo de saída, nem a adivinhação ou a atenção concentrada que é um autêntico sexto sentido. E tinha (no fundo, era isso) o enorme gozo de jogar com os pés.

Nada disto impedia, antes pelo contrário, que sempre admirasse muito os guarda-redes, a sua particular vocação e a beleza e a emoção que davam ao jogo. E a valentia que mostravam. Por não me ver a atirar-me aos pés de um gal- farro com botas cheias de traves e ceguinho por fazer golo é que eu admirava os guarda-redes. Santa pachorra, a de levar, às vezes, pontapés na cabeça.

Estou a tentar explicar-me no jogo de há muitos anos. E diz-se, falando disto: o futebol perdeu alguma da sua inocência. E certo. Como em todas as actividades humanas da entrega pelo prazer no seu sinal de partida, na sua relação lúdica e pouco calculada com o objecto de satisfação, na sua naturalidade ainda não infiltrada de premeditações, o futebol nostálgico (passe o termo) lembra o amor à camisola e a vontade de fazer o jogo pelo jogo. Sabemos que se trata de uma ideia com alguns fundamentos, mas também aparece aqui o eco da distância que limpa um pouco os horizontes que ficaram para trás. E que já existiam tácticas (embrionárias, embora), mesmo no futebol escolar. Mas convenhamos: o futebol ainda não tinha entrado no laboratório, na grande congeminação. E não mexia com milhões de outras coisas. Era um pouco (como dizer?) «heroico».

Heroico. O jogador heroico (com aspas, é bom sublinhar), na sua noção simplista, existiu mesmo? Acho que sim, em certos aspectos. E ainda existe, também em certos aspectos. Por exemplo, os grandes habilidosos sujeitos a marcações impiedosas (hoje, até mais do que ontem). Mas também ressaltam diferenças. E volto aos guarda-redes.

Antigamente, defender a baliza requeria uma certa dose de coragem suicidária. Assumia-se o risco do lugar da maneira quase inconsciente. Os guarda-redes, para além dos atributos específicos de atenção e elasticidade, punham muitas vezes nas mãos do acaso a sua integridade física. Explicando-me melhor e como já disse um pouco atrás: atiravam-se aos pés. Evidenciavam uma certa bravata relacionada com as características especiais da posição.

Este «atiravam-se aos pés» (frase do vulgo), quando os avançados surgiam isolados, no momento do remate, foi responsável por muitos pontapés na cabeça. Havia, naturalmente, a irresponsabilidade do acto «heroico». O futebol deve ser um lugar de combatividade, mas não de perigo. Ai entrava a inocência de evitar o golo a todo o custo - e a obrigação de exibir essa inocência.

Hoje, os guarda-redes (até por razões naturais do progresso do jogo e das suas exigências científicas) são mais precavidos e calculistas. O termo é: profissionais, mesmo amadores. É certo que ainda encontramos razoáveis cultores desse excesso de temeridade. Ainda há guarda-redes que se «atiram aos pés». Mas as técnicas de defender a baliza sofisticaram-se: há uma utilização do corpo mais eficaz e menos perigosa, defendem-se mais remates com os pés, fecha-se melhor o ângulo, faz-se a mancha. A ligadura na cabeça ou, mesmo, o hospital ficam mais longe. Ainda bem.

A viagem do guarda-redes através dos tempos é, como tudo na vida, um caminho de aprendizagem. Enfim: aprende-se com os outros, escolhe-se pelo lado melhor. Se nos lembrarmos de que o futebol (ou o seu esboço) começou em antiguidades muito remotas, com guerreiros vencedores a utilizarem, como bolas, as cabeças dos adversários (a natureza humana é capaz, às vezes, de barbaridades quase inimagináveis), já não é mau chegarmos às portas do novo século com regras de prudência e de civismo. E há que melhorar, há sempre. Realmente, os pontapés na cabeça não fazem falta nenhuma no futebol. Para dar pontapés está lá a bola.»

 

In: MACHADO, Dinis - A liberdade do drible : crónicas de futebol. 1ª ed. Lisboa : Quetzal, 2015. p. 53-55

(texto original no jornal A Bola de 7 de Maio de 1994)

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