Francisco Seixas da Costa numa tocante digressão a um tempo que já não volta: o de uma certa candura no futebol:
«Por esse tempo, lá por Vila Real, eu lia "A Bola", que saía três vezes por semana. Às vezes também o "Record", "O Mundo Desportivo" e, raramente, "O Norte Desportivo". Colecionava cromos com jogadores saídos nos rebuçados de uma lata cúbica que havia pelos cafés, mas nunca me saiu "o número da bola" (como se dizia em Vila Real) ou "o mais custoso" (como se dizia em outros locais), que dava direito a uma bola de couro.»
«Espanha perdeu ontem nos penáltis contra Portugal depois de uma noite discreta, simbolizada por Lamine Yamal, desaparecido durante os 105 minutos em que jogou. Essa versão cinzenta de Espanha podia ter vencido a partida, mas o ímpeto de Portugal, selecção muito mais insaciável do que a espanhola, levou o embate para os penáltis.»
AS, Héctor Martínez:
«Cristiano esteve sempre disponível, multiplicou-se em desmarcações e lutou umas vezes com Huijsen e outras com Le Normand. Contra eles não conseguiu, mas sim com Cucurella, que se mostrou demasiado ingénuo para despachar uma bola que saltou na pequena área. Cristiano puxou dos galões e empurrou suavemente o lateral do Chelsea, incapaz de impedir o remate do gigante do Funchal. Outro golo na algibeira, nove em oito jogos desta Liga das Nações.»
Marca, José Félix Díaz:
«Nuno Mendes foi um perigo constante. No ataque, além de marcar, atordoou a defesa espanhola. Ninguém conseguiu travá-lo, mas seria injusto apontar culpas a Mingueza sem mencionar Lamine no capítulo das marcações pois não auxiliou o lateral e foi por aí que Espanha começou a quebrar-se. O lateral do PSG participou no empate e soube ler perfeitamente quando e onde atacar.»
El País, David Álvarez:
«Nuno Mendes voltou a construir a resposta pelo flanco esquerdo, que devia proteger de Lamine. Até que se inverteram as posições e o português fugiu ao espanhol com um passe rápido. Escapou, cruzou e Cristiano Ronaldo surgiu junto ao segundo poste para empatar. O avançado, a lenda, tinha passado o jogo a flutuar, entrando e saindo do fora-de-jogo como se fosse vaporoso, até avistar uma presa e caçá-la: "tac", ao primeiro toque.»
ABC, José Carlos Carabias:
«Dois anos e dois meses depois, a selecção [espanhola] morde o pó do chão. Perde um jogo e a final da Liga das Nações lutando para ganhar, sem virar a cara, ambiciosa. Mas é inferior a Portugal, aos seus jovens talentos, ao seu futebol de alta-roda.»
«O Sporting de 2025 foi campeão depois de superar o sentimento de orfandade motivado pelo abandono do pai da ideia - e também do tio Viana, já agora - e o arrojo irresponsável do seu primeiro substituto, um João Pereira que quis à força impor a marca original da sua liderança. Como disse o capitão da equipa: "Campeão com três treinadores? Só nós." Ganhou a Liga no meio de uma onda de lesões sem precedentes, muito à conta da capacidade que os jogadores revelaram para se agarrarem uns aos outros - o já tão falado "poder da amizade" - e para se mostrarem competitivos, batendo no peito e no escudo de campeão que lá ostentavam desde a vitória de 2024.»
82 PONTOS
«Os 82 pontos feitos pelo Sporting nas 34 jornadas do campeonato (80% do total) ficam bem abaixo dos 90 que esta mesma equipa somara na época passada, é verdade, mas são os mesmos que fez o FC Porto de 2020 ou o Benfica de 2017.»
PLANTEL VALE 487,5 MILHÕES
«O plantel actual do Sporting está avaliado pelo Transfermarkt em 487,5 milhões de euros. Há um ano, o mesmo Sporting era avaliado por aquele portal especializado em transferências em 384,2 milhões.»
GYÖKERES E QUENDA
«Gyökeres vale agora no mercado 75 milhões de euros - há um ano, antes da conquista da Liga, valia 55 milhões. Hjulmand está avaliado em 45 milhões - no final da Liga anterior estava nos 30 milhões. Gonçalo Inácio também está nos 45 milhões, quando há um ano estava nos 40 milhões. E Quenda, o outro jogador do plantel leonino creditado a mais de 40 milhões de euros, há um ano nem sequer tinha avaliação, porque tinha acabado de fazer 17 anos e ainda não se estreara pela equipa principal.»
INVESTIMENTOS
«O Sporting investiu no mercado. Logo no Verão, pagou 19 milhões por Harder. (...) Deu 15,5 milhões por Debast e mais 13 milhões por Maxi Araújo. Entre os reforços de Verão, só o guarda-redes Kovacevic (4,8 milhões) não vingou. (...) Gastaram cerca de 53 milhões de euros em reforços, pagos com mais-valias de jogadores que não lhes faziam assim tanta falta. Fatawu rendeu 16,2 milhões, Mateus Fernandes outros 15 milhões, Paulinho contribuiu com mais 7,7 milhões. O saldo era, no entanto, desfavorável. E como em Janeiro foi preciso ir buscar um guarda-redes que desse alguma estabilidade atrás - e veio Rui Silva, emprestado, com obrigação de compra a 5,5 milhões - os leões venderam antecipadamente Quenda e Essugo (...) num total de 74 milhões e já pagaram a época em curso, da mesma forma que a saída de Gyökeres, por si só, mesmo que seja feita abaixo da cláusula, já pagará a próxima.»
PLANTEL CURTO
«O tal plantel curto é a maior garantia de espaço ascensional para quem vem da base - e de um crescimento que, depois, vai pagar a estabilidade das primeiras figuras. Com um plantel mais apetrechado, teria o Sporting lançado Nuno Mendes, Inácio, Quenda, Quaresma e Matheus Nunes? Ou até Tiago Tomás, Chermiti, Mateus Fernandes, Essugo e Fatawu?»
RUI BORGES
«O sucesso de Rui Borges passou muito pela sua capacidade para gerir. Geriu um grupo forte, onde a cumplicidade entre alguns elementos - Harder e Debast, Morita e St. Juste, Trincão e Israel - transpira cá para fora de uma maneira evidente, e parece tê-lo feito com uma atitude diametralmente oposta à de João Pereira. (...) As repetidas declarações de Borges, lembrando que veio de Mirandela, que não estudou e não foi um grande jogador, podem soar a falso e serão mesmo curtas muito em breve, (...) mas foram fundamentais no reequilíbrio do grupo depois do profundo desabamento emocional pelo qual esteve acabara de passar. Quando Rui Borges ganhou o grupo, começou a ganhar o campeonato.»
SEM DERROTAS
«Rui Borges fechou a época sem derrotas na Liga com as cores do Sportig, em 19 jogos, mas com seis empates que podiam ter-lhe custado caro e que muitos atribuíram à incapacidade de ver mais longe em termos ofensivos. Mas poderia ele ter feito as coisas de maneira diferente, quando chegou a ter a equipa tão debilitada como de facto teve? Poderia ele pensar grande com um meio-campo formado por Debast e Brito? Ou por Debast e Felicíssimo?»
SOLIDEZ DEFENSIVA
«Nos últimos quatro jogos da Liga - Boavista e Benfica fora, Gil Vicente e Vitória SC em casa - o Sporting só permitiu dois remates enquadrados aos adversários. Ambos deram golo. Foram o penálti de Félix Correia e o desvio de Aktürcoglu após assistência de Pavlidis. A última defesa de Rui Silva ja aconteceu a 18 de Abril, num remate de longe de Benny, do Moreirense. Há 402 minutos de jogo.»
Excertos de uma excelente análise de António Tadeia, sob o título "Quase Tão Bom como o Original", ontem publicada na revista do Expresso
Era de esperar. A brilhante exibição de Francisco Trincão no jogo de anteontem contra a Dinamarca, pela selecção nacional, está a despertar a atenção de vários emblemas da Premier League. Manchester United, Newcastle e Arsenal já terão manifestado o seu interesse pelo jogador junto da SAD leonina.
Trincão está ligado ao Sporting por uma cláusula de 60 milhões de euros, mas metade do seu passe pertence ao Barcelona, o que pode desencorajar uma transferência já neste mercado de Verão. Mas é natural que desperte a cobiça de grandes clubes internacionais pela qualidade do seu futebol e pelos números que apresenta nesta época: nove golos e 13 passes para golo. Incluindo os dois que marcou na selecção, onde ainda só teve oportunidade de jogar 72 minutos.
Passo a citá-lo, com a devida vénia, destacando alguns trechos:
«Só neste terceiro jogo com Martínez Trincão pôde actuar como um extremo interior - nas duas vezes anteriores entrou para uma posição mais "colada" à linha. Porquê? Porque Martínez tem desenhado uma ideia que não prevê a existência de um jogador como Trincão. (...) Tem pedido aos laterais da selecção que joguem quase como complementos ao ponta-de-lança. Mendes e Dalot, à vez, têm pisado terrenos interiores - o primeiro mais em condução, o segundo mais em posicionamento entre linhas. (...) Inicialmente, essa parecia ser uma ideia para dar conforto a Rafael Leão e chegou a ter sucesso (...), mas dificulta a vida de jogadores como Trincão, cuja vida é feita de explorar zonas interiores, jogar em espaços curtos e usar o pé esquedo de fora para dentro - para remates, passes a rasgar a defesa ou cruzamentos em arco.»
«Frente à Dinamarca, já na segunda parte, Martínez mudou a tal ideia de laterais por dentro e alas bem abertos no corredor. Moveu Mendes e Semedo para posições exteriores, bem abertos, e os alas (Jota e Trincão) para posições mais condizentes com o futebol de cada um deles - ambos por dentro, com Jota mais vertical e incisivo e Trincão mais refinado a encontrar espaços por dentro. Foi nesse contexto que o jogador do Sporting encontrou caminhos para o golo e levou Portugal à meia-final da Liga das Nações.»
«Outro entrave à afirmação de Francisco Trincão aos olhos de Martínez também se chama Francisco. "Chico" Conceição tem sido um dos preferidos do seleccionador nacional. (...) Trincão dribla menos e é mais um jogador associativo do que de um contra um puro - Conceição tem valores de drible mais altos, Trincão supera em todas as métricas do passe. Através do Sofascore é possível comparar os mapas de calor de Conceição e Trincão e perceber que se movimentam de forma bem diferente - Conceição tem zonas vermelhas muito carregadas e bem coladas à linha, enquanto Trincão tem várias zonas a vermelho, evidenciando muito maior abrangência de movimentos.»
A sensação que fica quase sempre dos jogos de Portugal orientados por Fernando Santos é a de que a tática que ele elaborou não funcionou. E depois vêm os recursos (pontapé na frente, centrais a ponta de lança, bola na área), e os recursos muitas vezes resolveram os jogos a nosso favor. E quando não vinham os recursos vinham as jogadas individuais (os remates de fora da área, as cabeçadas milagrosas do Ronaldo nos descontos).
Nos momentos-chave, aqueles em que Portugal não podia falhar, invariavelmente falhou. E não é preciso recuar muito. Basta ir às competições mais recentes. Para chegarmos a este mundial com apuramento direto bastava-nos não perder em casa com a Sérvia. Perdemos. Depois, para chegarmos às meias-finais da Liga das Nações bastava-nos não perder em casa com Espanha. Perdemos. Antes disso, perdemos nos oitavos-de-final do Mundial de 2018, de forma peremptória, por 3-1, contra um Uruguai perfeitamente ao nosso alcance. No Euro 2020, fomos afastados sem jogar grande coisa, por 1-0, contra uma Bélgica que não era melhor do que nós. E tem sido isto.
As palavras são de Ricardo Martins Pereira, Arrumadinho de nome blogosférico, e condensam o que sinto sobre o desempenho de Fernando Santos e da Selecção Nacional.
Conheci e fui amigo do seu pai, com quem privei e a quem aturei algumas birras e também algumas euforias e leio o filho concedendo-lhe o respeito que o pai me mereceu e que ele conquistou por direito próprio. Com a devida vénia, transcrevo o "postal do dia" de Luis Osório:
"1.
O Sporting voltou aos treinos e com eles, o Paulinho.
Ele é técnico de equipamentos, mas é muito mais do que roupeiro.
Ele é amigo de todos os que se cruzam consigo, dos jogadores, dos treinadores, dos funcionários e também dos adversários - todos são amigos, não há ninguém a quem rejeite oferecer o seu abraço.
Ele é o que chora quando alguém está infeliz, o que move o mundo para "sacar" um sorriso dos que acordam maldispostos. Olham para o Paulinho e caem em si.
Ele é o exemplo de que na vida tudo é mesmo possível, mesmo o impossível.
2.
E como para ele a vida foi difícil.
Abandonado em criança pela mãe, com deficiências psicomotoras relevantes, habituado a ser rejeitado, conformado por ser rejeitado, Paulinho ia levando os seus dias fazendo rir os outros pela sua boa disposição, falando do Sporting, fazendo silêncio sobre a memória de uma família que o deixou desamparado e entregue ao destino.
Na CERCIS e na Santa Casa da Misericórdia tinha amigos e abraços, mas os seus dias não tinham futuro. Era um igual ao outro, sem perspetivas de arranjar um trabalho.
(em meados da década de 1980 poucos eram os que abriam as portas das suas empresas a um portador de deficiência, um problema na sua cabeça foram-lhe dizendo quando perguntava o que tinha de diferente).
Na CERCIS existia o senhor Manuel. E o senhor Manuel era tudo pois levava-o aos fins de semana a ver o Sporting. O que ele gostava desses domingos em Alvalade.
E um dia o senhor Manuel deixou de vir trabalhar e ele deixou de ir ao estádio.
Mas o que a vida retira com uma mão pode oferecer com a outra. O Paulo Gama - assim se chama o Paulinho - não imaginaria que uma psicóloga da CERCIS iria mudar-lhe a vida. A dra. Lina, como ele lhe chamava, uma jovem psicóloga que uns anos depois viria a ter um caminho profissional de referência no apoio a jovens com paralisia cerebral.
Mas contava-lhe que Lina Gameiro mudou-lhe a vida por que numa manhã que ameaçava ser igual a todas as outras lhe perguntou o que o Paulinho gostaria de fazer se pudesse escolher.
Respondeu-lhe com uma única palavra.
"Sporting"
3.
Corria o ano de 1985.
Lina decidiu enviar uma mensagem a João Rocha, então presidente do Sporting.
Mal não faria.
Falou-lhe de um maravilhoso rapaz, do sonho que tinha, das suas qualidades e do projeto "Pirilampo Mágico".
João Rocha respondeu-lhe que sim, que o miúdo viesse.
Foi trabalhar como roupeiro na secção de hóquei em patins e Livramento protegeu-o e amparou-lhe os dias que passaram a ser gastos em Alvalade. Via os treinos do futebol, ouvia os sócios na porta 10 A, e tudo o resto que já sabe.
4.
O Sporting voltou aos treinos e o Paulinho lá está, feliz como no seu primeiro dia de trabalho, faz agora 35 anos.
O miúdo fez-se homem.
Conheceu o mundo, é feliz.
Vai de férias com as estrelas, foi de férias com Frederico Varandas.
Muito feliz por isso, mas mais feliz ainda por ver todos os jogos, em casa e fora, sentado no banco de suplentes do Sporting.
5.
Um dia também gostaria de conhecer o Paulinho.
Um dia espero que ele me leve à bola, mais o senhor Manuel que um dia lhe faltou.
Que ninguém lhe diga em algum momento que sou lampião.
Só depois do último abraço lhe direi."
Ah, se todos fôssemos assim, como o Luis e o Paulinho...
"Um adepto de uma equipa reduz o seu campo mental e só deixa entrar o seu emblema; o adepto do futebol abre-o para aproveitar tudo. O cliente que ama uma equipa comprará uma camisola; o que ama o futebol comprará uma bola."
«Passaram esta quinta-feira 18 anos de um dos maiores escândalos da justiça e mais uns quantos da perpetuação de uma das maiores mentiras que alimenta o mundo do futebol.
Há dezoito anos, incomodado com as escutas do Apito Dourado, o Governo de Durão Barroso despachou os dois coordenadores da investigação, Teófilo Santiago e Massano de Carvalho. As escutas a Valentim Loureiro revelavam a velha central de favores no futebol mas também na política. Isso incomodou o governo. De telemóvel na mão, o major metia cunhas para a sua vida de autarca, pedia ajuda para o seu amigo Sousa Cintra construir na paisagem protegida da Costa Vicentina, exigia favores a ministros e secretários de Estado, insultava funcionários do Estado mais apegados a cumprir a lei.
A PJ do Porto respeitou escrupulosamente a investigação, resistiu a pressões e respeitou a separação de poderes, nada dizendo ao Governo sobre o que estava no processo. Os coordenadores do caso foram afastados, o director da PJ do Porto exonerado e quase ia sendo preso.
Esses dias negros para a Justiça ficam por conta do Governo de Barroso e é, também por isso, que estas escutas são importantes. Para memória futura. É nesse momento, aliás, que começa a grande mentira sobre a propalada ilegalidade das escutas. Esse primeiro ataque ao processo abriu a porta para quem tinha interesse em destruí-lo, sobretudo na parte mais quente, no que mostrava sobre o poder de Pinto da Costa.
As escutas do Apito Dourado foram totalmente legais, autorizadas e validadas judicialmente. Serviram, aliás, para condenar os arguidos no processo que envolvia o Gondomar. O que aconteceu foi que não eram, como não são, admissíveis para processos disciplinares na justiça desportiva, essa aberração, não apenas portuguesa, onde os estados abdicam de parte da sua própria soberania, entregando a justiça ao mundo do futebol e retirando-a dos tribunais.
O ónus da sua utilização está, portanto, em quem quis fazê-lo na dita justiça desportiva e não no processo judicial, nem nos investigadores. Elas não só foram completamente legais como, sim, é verdade, mostraram a corrupção activa e passiva reinante no futebol. Mostraram o ‘sistema’ de poder que fabricava resultados, a fruta que o alimentava e as cumplicidades que dispunha na construção e destruição de carreiras de árbitros, dentro da própria Federação Portuguesa de Futebol e nas associações. Mostraram, finalmente, dirigentes desportivos que, pese embora os sucessos desportivos ao longo de 40 anos, são tudo menos exemplares. De resto, ao contrário do que disse há dias um membro do actual governo e, de outro modo, confirmando tudo o que pensa e disse o presidente de um dos três grandes sobre a dita corrupção activa.»
«O que aconteceu não foi um jogo de futebol, foi uma farsa que envergonha o futebol português, mancha o campeonato e fere a integridade das competições. Que o Belenenses tenha feito questão de participar dela, ao nem sequer solicitar o adiamento do jogo ou, no limite, a assumir a falta de comparência que pouparia aqueles nove homens àquela humilhação pública, é inacreditável. Que o Benfica não tenha resistido a aproveitar a oportunidade, aceitando a mancha que semelhante espectáculo deixa na indiscutível grandeza do clube, é só triste. Que a Liga tenha assobiado para o lado, escudando-se nas decisões das autoridades sanitárias e nos regulamentos para não fazer o que lhe compete - proteger a integridade das competições - é perturbador. Depois ainda há a falta de esclarecimentos das tais autoridades sanitárias para o facto de terem permitido que o jogo avançasse nas condições em que avançou, mas essa é uma questão extra-futebol, que deveria preocupar o Governo se houvesse um. O que é do futebol é que o Belenenses-Benfica pode ter mexido de forma decisiva com a história do campeonato ao influenciar, desde logo, os critérios de desempate - os encarnados passaram a ter o melhor ataque com uma vantagem confortável sobre os rivais - ou a luta pelo titulo de melhor marcador. Uma vergonha como não há memória no futebol português.»
«Dizem-se sportinguistas, mas não são. Alguns até poderão ter cartão de sócio com quotas pagas, mas não com a intenção de ajudar o clube a ser maior: fazem-no apenas com o objectivo de serem uma força de bloqueio e de, um dia, poderem consumar a sua vingança. Até lá, vão ocupando o tempo a insultar, perseguir e ameaçar adeptos sportinguistas que se atrevem a ter opiniões diferentes das suas, e a lançar periodicamente "bombas" que, invariavelmente, ficam por detonar. Fazem exactamente aquilo que apontavam a outros há uns anos. Em caso de dúvida, podem facilmente ser identificados pela intensa azia que mostram a seguir a qualquer sucesso do Sporting e pelo sentimento de culpa que tentam colocar nos sportinguistas que não seguem o seu triste exemplo.
(...)
Nem imagino o cabeção com que estarão as viúvas nesta altura. Arranjem outro interesse na vida, apoiem outro clube, mas deixem o Sporting em paz. Como podem ver pelo que se passou esta época, o Sporting não precisa de vocês.»
Texto do blogue O Artista do Dia, que reproduzo com a devida vénia.
Não sou sportinguista, diga-se desde já, porém, hoje, faz-me sentido aclamar o Sporting pela extraordinária época de futebol que tem tido neste tempo tão estranho, quanto silêncios.
Ao fim da tarde, contemplo um bosque à minha frente. O verde profundo, faustoso e deslumbrante lembra-me um outro, icónico, histórico, honroso. Tão denso quanto visceral, convoca-me o verde que, com raízes nodosas, grita de dentro do coração da árvore secular que é: Spoooortiiiing!
Sim, secular. O Sporting é como uma árvore antiga, grande e imponente, daquelas que faz história dentro da História da gente. Não sou sportinguista, diga-se desde já, porém, hoje, faz-me sentido aclamar o Sporting pela extraordinária época de futebol que tem tido neste tempo tão estranho, quanto silencioso, como o bosque ali em frente.
Desde sempre tenho este clube como um par. De forma atípica, até mesmo extravagante, ao contrário da categoria vigente em que é denominado — o rival, por excelência! —, o Sporting faz parte da classe onde encaixo os amigos, curiosamente. Talvez por ser verdade que tenho muitos amigos sportinguistas; talvez porque vou algumas vezes ao Estádio de Alvalade; seguramente porque gosto das palavras/valores/categorias que compõem a sua identidade: Esforço, Dedicação, Devoção e Glória. Fazem-me sentir que se trata de uma casa de Bem. Perguntar-me-ão porque venho aclamar este clube, se não é o meu. E porquê fazê-lo agora?
Em Janeiro de 2020 tive o privilégio de assistir ao jogo Sporting-Benfica em Alvalade, a convite de amigos e, trouxe na memória o som ensurdecedor da violência. Lembro-me que o jogo parou durante algum tempo, uma vez que o clamor por uma justiça maldita, inspirada numa profunda raiva narcísica, descambou para uma onda de ódio dentro do estádio. Ódio por quem? Seria melhor aceitável se se dirigisse aos rivais em campo. Mas, não. O ódio era privado. Alguns sportinguistas ameaçavam-se directamente. Rixas inflamadas nas bancadas. As claques, capazes de matar a sua própria equipa pelo frágil resultado — a sua própria identidade?! —, assustaram-me. Mais, fizeram com que me questionasse sobre o que ali se passava, afinal. Longe dos tempos em que o som gritado era de apoio incondicional, de orgulho pelo verde das camisolas, de abraço acolhedor ao mesmo tempo que forte e destemido — convicto, sentido, honrado — senti que este Sporting caíra em desgraça interior.
Imagino, empaticamente, que o clube terá passado uma das suas piores crises de sempre, nos últimos anos. Tiranizado por vozes indignas de o representar, instrumentalizado em nome de egos menos claros e consistentes, o Sporting viu-se vilipendiado, mal-amado, desrespeitado pelos demais, espancado, mal-afamado. Além de se ver perdedor desde há muitos anos, o Sporting, frustrado compreensivelmente e sedento de vitória, perdeu o chão do seu bom nome nos últimos anos — viu-se atacado narcisicamente, dentro das próprias portas. Normalmente, isso é duro de sentir. Esmaga, fere, envergonha, humilha, entristece e, revolta, na melhor das hipóteses. Na pior, enraivece! A agressividade volta-se para dentro, contra o próprio e perverte o vínculo de amor. Destrói por ausência/desistência de elaborar a depressão subjacente.
Em Janeiro de 2020 tínhamos esse Sporting transfigurado, desapossado de si, desamando-se por completo — sem espelho interior inteiro, intacto, capaz de o manter feito de gente de Bem. Sem Amor, o Sporting (quase) desistia dos seus valores maiores. A Glória, era e seria a dos outros, para sempre. Sucumbia numa depressão sem choro, daquelas que por vezes nos matam sem darmos conta. Daquelas que levam ao suicídio, por falta de coragem de dizer “não!” aos maus tratos e, manter firme cá dentro a convicção de que vale a pena reconstruir, depois de limpar o terreno das ervas daninhas.
Hoje, a poucas jornadas do final do campeonato de futebol, o Sporting mantém-se estoicamente na liderança, apresentando-se como o favorito ao título maior. Vindos de dentro de casa, ressurgem sinais de alegria, de gratidão em vénias coloridas, temperadas por uma esperança que se reergue, depois de um tempo de menor fartura e fulgor. Num tempo em que as vozes interiores da descrença palpitavam o fantasma dos perdedores. Dir-me-ão, alguns, que enquanto a época não terminar isso não terá valor, mas não é essa a minha visão.
Num ano de silêncios esmagadores, sem abraços nem indiferenças — com a violência, proibida, do lado de fora de portas —, sem dinheiro e com a face sangrando, o Sporting mostra-se capaz de ressurgir. Os resultados conseguidos até aqui, sinalizam a humilde vontade de reparação narcísica, de recuperação do crédito condigno ao seu bom nome e à sua história secular. O Sporting está de parabéns pelo que tem demonstrado ser capaz de fazer, chorando por dentro, aos poucochinhos, sem ninguém ver.
Acredito que vai ser campeão. Acredito que pode aprender com o que viveu recentemente dentro da sua própria casa. Acredito que vai continuar com a força interior demonstrada para se reconquistar a si mesmo e, de mostrar a todos uma grande lição de humildade e de verdadeiro espírito de quem nasceu para competir com resistência, resiliência, dignidade e fé.
Viva o Sporting. Bem-vindo de volta pilares identitários: Esforço, Dedicação, Devoção e Glória — a sua!»
«Quando o Sporting lança na primeira equipa Dário Essugo, um jovem de 16 anos acabados de fazer, e outro, o Benfica, aparentemente, mete fichas valiosas na contratação de Diego Costa, um bom avançado mas a caminho de um penoso final de carreira, percebe-se quem tem os pés assentes no chão e quem caminha como se a Covid fosse um aborrecimento passageiro.»
(...)
«O mundo do futebol pós-moderno estará muito mais próximo do que Dário Essugo representa do que da mercantilização febril que existia antes da pandemia e de que a venda de jogadores como Diego Costa, em acelerada saída de cena, é um exemplo. Um é o futuro, outro é o passado.»
A autoria é de Vasco Samouco, "apareceu primeiro" n' A Tasca do Cherba e é de leitura obrigatória para quem se interessa pelo tema da formação de talentos.
Arrisco dizer que é possível que num futuro próximo o Sporting Clube de Portugal tenha de repensar a oferta formativa de que dispõe: a "interna" e a "comercial". Espero, contudo, que não aconteça qualquer alteração de fundo sem que os sócios tenham consciência do que está a acontecer. É muito fácil dizer que queremos mais Bolas de Ouro. Difícil, difícil, é acertar na escolha das metodologias e artífices que lá nos conduzem.
Talvez possa não ser tão claro para o amante de futebol em geral (para mim, não era), mas a "simples" visão sobre que tipo de jogador deve integrar uma equipa de elite (talentos) pode ser francamente fracturante. Não é de desporto escolar que falamos, sabem? É de desporto de alta competição, e num clube em que o objectivo é, e deverá ser sempre, a Liga dos Campeões. Há quem queira alcançar 'rendimento'. É o imediato: jogadores "já fechados" e sem muita margem de progressão. E há quem admita 'rendimento' mas que lhes queira ver margem de progressão (aspectos que possam ainda ser melhorados). Se se treinar (privilegiar) a táctica ("rendimento") cria-se oportunidade para alcançar muito rendimento e ganhamos jogos, mas limita-se a formação global do jogador.
«Seria lamentável que o sistema de justiça desportiva, chamemos-lhe assim, viesse a punir o Sporting por uma prática que é reiterada por toda a gente no futebol português há pelo menos quase duas décadas. E que essa punição ignorasse o facto de a inscrição como treinador principal sem ter o IV nível de formação, indispensável para tal reconhecimento profissional, ter sido adoptada com o conhecimento formal e informal de toda a gente - da associação de árbitros aos clubes, da Liga ao Governo.
Transformar esta questão numa querela jurídica, numa altura em que o trabalho de Rúben Amorim, dos jogadores e do clube está a muito pouco de atingir os objectivos de uma época é, no mínimo, vergonhoso. Visa meramente trazer instabilidade ao treinador e aos jogadores quando, na verdade, se trata de uma questão que poderia ser sanável a qualquer tempo, em particular quando não causasse um dano maior do que o vício em causa. De resto, será sempre uma ilicitude gasta pelo tempo decorrido e pelo evidente consentimento generalizado dado aos muitos casos anteriores.»
Eduardo Dâmaso, ontem, na sua coluna semanal no Record
«A equipa [do Sporting] é boa, tem talento, mas precisa de tempo e espaço de afirmação. E precisa de estabilidade e um ambiente favorável em seu torno. Não é favorita ou candidata a nada, é candidata a fazer uma boa época e ganhar jogo a jogo. Este é, pois, um tempo para se colocar no congelador muitas das divergências que nos separam e para que nos unamos em torno desta equipa do Sporting. Hoje nas vitórias, mas sobretudo nas derrotas que surgirão. Este projecto futebolístico construído em torno de Rúben Amorim e na academia merece o benefício da dúvida. Debates em torno de eleições, destituições, assembleias gerais sem fim devem ser adiados para o final da presente época. Neste momento os nossos inimigos estão claramente fora de portas, pois não faltarão atiradores furtivos para abater esta equipa e atrasar o seu crescimento.»
«O Apito Dourado permanece um calcanhar de Aquiles de Pinto da Costa, do futebol e da Justiça portuguesa.
O despique verbal entre o presidente do FC Porto e Frederico Varandas tem origem nesse processo que, quer se queira, quer não, permanece como uma fronteira entre o bem e o mal no mundo da bola.
(...)
Pinto da Costa pode argumentar com a ausência de condenações, mas ainda muita gente se lembra como tudo aconteceu. Basta evocar duas ou três coisas. Quando a operação policial avançou, Pinto da Costa foi alertado que era melhor ir passar um fim de semana a Espanha. Quando rgressou para se apresentar em tribunal, teve a escolta dos Super Dragões, a sua guarda pretoriana, numa das imagens mais sicilianas que a minha memória pode reter em cenas de crime cá pelo burgo.»
(...)
Não sei se um bandido será sempre um bandido, como disse Frederico Varandas, até porque os manuais por onde estudei Direito Penal defendiam o contrário, ou seja, a famosa ressocialização dos delinquentes. Mas sei que, para formar uma opinião sobre o Apito Dourado, não preciso de ir ouvir a canção do bandido sobre a presunção de inocência ou a falta de condenações. E também não preciso de ir ao futebol, de pertencer ou, tão-só, frequentar o seu mundo, para perceber que Varandas, pessoa que não conheço, trava a luta certa contra uma claque. E que Pinto da Costa (ou Luís Filipe Vieira) nunca teria condições para fazer o mesmo e dar um exemplo de grande dignidade moral.»
«O presidente do Benfica juntou uma lista de 22 juízes que convidou para ver um jogo da Champions, na maior parte desembargadores nos Tribunais da Relação, à sua defesa no processo judicial Lex. Esta iniciativa de Luís Filipe Vieira procura demonstrar que convidar magistrados para os camarotes do estádio da Luz não é mais do que uma prática corrente.»
«Pinto da Costa foi sempre o mais inteligente. Sempre teve a seu lado meia Relação do Porto ou de Guimarães. Sempre utilizou as viagens ao estrangeiro, em competições da Champions ou da antiga Taça dos Campeões Europeus, para comprar cumplicidades selectivas. E teve-as sempre que precisou, nos tribunais, na polícia, na política.»
«Vieira fez, afinal, o que é uma evidência no futebol. Os 22 juízes do Benfica têm apenas a força metafórica de simbolizar a enorme atracção do futebol na classe mas, também, a enorme vulnerabilidade que isso gera em profissões que têm a sua matriz na independência e no distanciamento social.»
Eduardo Dâmaso, ontem, no Record
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