O meu vizinho do lado
Calhou-me em sorte esta época um vizinho novo em Alvalade.
E se estou agastado com o resultado de ontem, estou ainda mais por conta do meu vizinho, que saiu com uma tristeza enorme de Alvalade.
Ele é daqueles sócios à antiga. Sai de casa a seguir ao almoço, sozinho. Apanha o barco em Cacilhas e devora tudo o que é Sporting até à hora do jogo. Vibra como ninguém! Sabe os cânticos todos das claques e grita. Muito! Não está sossegado na cadeira um segundo.
Antes do início do jogo falou do futsal e de como tínhamos dado um baile de bola e como nos deixámos empatar com um auto-golo; "a ver se hoje não acontece o mesmo", disse, assim a modos que a medo.
O meu vizinho, contudo, ontem vinha com uma enorme fezada. Apostava no 3-0 e era vê-lo entusiasmado a cada arrancada do Adrien, a cada passe de luxo do William, a cada revienga do Carrillo. A cada lesão simulada do Artur, lá estava ele a invectivá-lo; nada de nomes impronunciáveis em público, mas palavras que exprimiam o sentimento da fraude a que estava a assistir. Talvez o pior dos epítetos que tenha proferido foi chamar gordo ao Eliseu; "gordo, joga à bola!" disse várias vezes e pulava na cadeira. Parece ter "bicho carpinteiro" já o disse, não sossega um segundo.
E como ele saltou no nosso golo! E como ele se abraçou a mim! E como ele gritava "tomem! tomem! tomem!" e "Sporting!!!! Sporting!!!! Sporting!!!!".
"Agora é fazer como eles, é deitar pró chão e queimar tempo" disse ele num dos poucos momentos em que esteve calmo.
Mas não foi assim. Os olés "dos nabos" e a juventude da equipa e do treinador contrariaram a lógica e a previsão e o desejo deste meu vizinho de cadeira que me calhou em sorte este ano em Alvalade.
Este meu vizinho, apesar de ser um daqueles sócios à antiga, não é um daqueles sócios antigos.
Este meu vizinho dá-me garantias de que a juventude da equipa não é o único garante dum futuro risonho para o Sporting;
Este meu vizinho, que, repito, vem da outra banda sozinho, com o semblante triste, porém já com o resultado digerido e a inabalável fé no Sporting, tinha como preocupação maior hoje não conseguir falar na escola.
Este meu vizinho é o exemplo de que o futuro é nosso. Este meu vizinho que não se lembra de ter visto o Sporting campeão e vive tão intensamente o Sporting de forma tão apaixonada chama-se João e tem 14 anos!
