Eduardo Quaresma no momento em que marcava o golo da nossa alegria: valeu três pontos
Foto: Lusa
Gostei
Da reviravolta no marcador. Teve um sabor épico, o nosso triunfo da noite passada em Alvalade. Perante um Gil Vicente que parecia apostado em fazer o melhor jogo da temporada, virámos o resultado desfavorável, cerrámos fileiras, fomos para cima deles, agimos com inegável dinâmica colectiva, acentuada após Rui Borges ter refrescado a equipa e corrigido erros de posicionamento. Conseguimos os três pontos. Nem por terem sido arrancados a ferros foram menos saborosos, muito pelo contrário. E demos uma lição ao treinador da equipa adversária, que havia confessado sem rodeios desejar ver o seu Benfica campeão.
De Eduardo Quaresma.Herói da noite leonina. Foi ele a apontar o golo da vitória - seu primeiro golo da temporada - num magnífico pontapé de ressaca, aproveitando da melhor maneira uma bola que sobrara da marcação de um canto. De fora da área, municiou o pé-canhão para um remate indefensável que fez levantar o estádio ao minuto 90'+3. Depois correu para os festejos e chorou lágrimas de genuína alegria. Melhor em campo: bem merece aplauso em uníssono da massa adepta. É com futebolistas como ele que se conquistam campeonatos.
De Maxi Araújo. Não teve actuação perfeita, longe disso. Mas foi ele a quebrar o enguiço quando o nervosismo e a ansiedade já se instalavam nas bancadas. Ao marcar o nosso primeiro golo, num remate por instinto, sem preparação, de posição quase acrobática com o seu acutilante pé esquerdo. Virou a corrente do jogo, que não voltou a ser a mesma. A partir daí tomámos de assalto a grande área da turma de Barcelos: queríamos conseguir. E conseguimos.
De Debast. Marcou o canto que originou o golo. Mas fez muito mais. Recuperou bolas. Fez um passe primoroso para Harder aos 88'. Tentou o golo de meia-distância com um remate cheio de intenção (90'+2) já prenunciando o que se seguiria um minuto depois. Cumpriu com distinção em duas posições: primeiro como meiocampista e a partir dos 64' como central ao meio. Ganhou lugar cativo no onze titular.
De Morten. Rui Borges poupou-o de início, procurando gerir o internacional dinamarquês, que está tapado com cartões amarelos, por recear vê-lo de fora no desafio seguinte, frente ao Benfica. Mas, passada uma hora, deu-lhe ordem para entrar. E fez muito bem. Porque o Sporting melhorou muito com o capitão em campo - em organização, em intensidade, em robustez psicológica. Interveio no primeiro golo e escapou incólume, sem advertência disciplinar: contaremos com ele na Luz.
De Harder. Saltou do banco para ajudar a construir a vitória. Dinâmico, foi um dos obreiros destes três pontos. Esteve no primeiro golo, ao fazer o remate inicial que daria a bem-sucedida recarga. Tentou o golo com um remate em arco aos 75' com a bola a passar ligeiramente ao lado. Cabeceou com perigo aos 88'.
Do treinador. Rui Borges completou uma volta inteira ao serviço do Sporting e pode gabar-se desta proeza: com ele no comando, nunca sofremos uma derrota em competições nacionais. Ontem, quando o resultado se mantinha desfavorável, soube detectar os problemas e encontrar soluções adequadas. Com três trocas simultâneas aos 64': Morita por Morten, St. Juste por Quenda e Pedro Gonçalves por Harder. A equipa melhorou de imediato. O resultado viu-se.
Da estrelinha. Não era exclusiva de Ruben Amorim. Ontem voltou para iluminar-nos.
Da homenagem inicial a José Carlos. Saudoso capitão leonino, há dias falecido com 83 anos. Como defesa central, conquistou a Taça das Taças em 1964, dois campeonatos nacionais e duas Taças de Portugal pelo Sporting. Foi também exemplar ao serviço da selecção nacional, que representou por 36 vezes, tendo-se destacado como titular da equipa das quinas que subiu ao pódio no Mundial de 1966. Mereceu por inteiro este reconhecimento póstumo.
De mantermos a liderança. Temos agora 78 pontos quando faltam só duas rondas para o fecho do campeonato - correspondentes a 24 vitórias em 32 desafios. Faltam jogar 180 minutos, cruciais para a conquista do bicampeonato que nos foge há mais de 70 anos. Duas finais em perspectiva: a primeira no sábado, perante o Benfica; a outra em nossa casa, na recepção ao V. Guimarães.
Não gostei
Da nossa primeira parte. Nem um remate enquadrado à baliza adversária. Daí o resultado desfavorável (0-1) registado ao intervalo.
Do golo sofrido. De penálti, aos 26'. Marcado por um antigo jogador nosso, Félix Correia, que eu bem gostaria de voltar a ver de leão ao peito.
De St. Juste. Muito nervoso, deixou-se dominar pela ansiedade. Aos 22' provocou um penálti totalmente desnecessário que o árbitro Tiago Martins só assinalou após alerta do vídeo-árbitro.
De Gonçalo Inácio. Capitão, por ausência de Morten, o central canhoto esteve em noite não. Protagonizando um festival de passes falhados - aos 20', 35', 37', 43', 45+3', 48' e 70'. Pelo menos estes. Dele exige-se bem mais. E melhor.
De Morita e Pedro Gonçalves. Ambos ainda longe da melhor forma, após lesões prolongadas - mês e meio no caso do internacional nipónico, cinco meses no caso do craque transmontano.
Da ausência de Diomande. Excluído desta partida por acumulação de cartões, notou-se bem a falta dele no eixo da nossa defesa. Substituído por St. Juste, ficou evidente que a equipa nada ganhou com a troca.
Da inoperância de Gyökeres. Raras vezes o melhor artilheiro da Liga 2024/2025 vem mencionado na secção "Não gostei". Desta vez justifica-se por ter sido incapaz de se libertar das marcações: teve sempre dois adversários a condicionar-lhe a manobra, policiando-o com rigor. A chuva copiosa que caiu durante grande parte da partida também nada ajudou as suas habituais arrancadas. Desta vez nem os passes lhe saíram bem.
José Carlos, ex-capitão do Sporting, foi um dos maiores campeões de sempre do nosso clube. Ganhou três campeonatos e quatro Taças de Portugal. E foi um dos jogadores que participaram na conquista do nosso maior troféu de sempre: a Taça das Taças, em 1964. Dois anos depois, integrou como titular a selecção nacional no Campeonato do Mundo de Inglaterra em que subimos ao pódio, com o aplauso simultâneo da crítica e do público, para espanto do planeta do futebol.
Nada do que se passa no terreno do jogo lhe é estranho. Nada do que se passa em Alvalade lhe passa ao lado. Vale a pena registar o que ele diz. Vale a pena reflectir no que ele afirmou em entrevista à edição de hoje do diário Record.
Transcrevo algumas frases:
«O Sporting fez muitas contratações, gastou muito dinheiro e, de palpável, vê-se pouco. A época é a pior da história do clube, a mudar permanentemente de jogadores. Alguns que tinham possibilidades de jogar foram-se embora e ficaram alguns que não têm categoria para o Sporting.»
«Se a equipa jogasse bem, era sempre campo cheio e as receitas aumentariam. Agora, não há jogadores em Portugal que possam jogar no Sporting? Porque é que o Sporting não foi buscar o Lima? Gastaram-se milhões...»
«Não cabe na cabeça de ninguém este caso do Izmailov: ou houve incompetência do departamento médico, ou incompetência dos responsáveis do futebol, ou o jogador andou a enganar o clube. Deviam tê-lo posto em sentido.»
«Jesualdo Ferreira entrou para um cargo e depois mandaram o treinador embora - outro mau acto de gestão, porque ele (Vercauteren) não conhecia o futebol português. O Jesualdo teve a vantagem de conhecer alguns jogadores. Agora, quem ganhar deve fazer uma limpeza, mas uma limpeza a sério. E deve ir buscar pessoas que nunca tenham passado pelo Sporting. Porque se são as mesmas, o caruncho fica lá.»
Foto: José Carlos em 1971. Bons tempos no Sporting... (imagem: blogue Tesouro Verde)
Nunca fui dado a idolatrias e a única pessoa que mais me aproximei de venerar foi um homem que, não sendo nem meu pai nem avô, dispensou-me todo o amor e carinho que um filho ou um neto necessita em tenra idade e, com o passar dos anos, o benefício da sua sabedoria e dos seus valores que me guiaram ao longo da vida. Muito por este profundo sentimento, sempre lhe perdoei a sua insistência em me desviar para Belém aos domingos à tarde, quando o meu maior interesse se situava na freguesia do Lumiar. Não escolhi ser sportinguista. Nasci e quando tive noção suficiente para identificar o ABC apercebi-me que o Sporting já estava bem enraizado no meu subconsciente. Será justo esclarecer que a minha mãe, pelo seu eterno fervor pelo verde-e-branco, entendeu com toda a naturalidade - e sensatez - que eu, como bom filho, e o homem que ela pretendia que eu me tornasse, teria de ser conduzido pelo bom caminho logo de infância. Agradeço-lhe e tento honrar a sua memória com a minha devoção ao Clube do seu (nosso) coração.
Pela essência humana, era inevitável que viesse a ser sensível a certas pessoas do meio sociocultural universal, pelo seu padrão de vida, pelos seus feitos de extraordinário alcance e, em casos pontuais, também pela sua associação a acontecimentos invulgares ou excepcionais. Desde muito jovem que mantenho duas datas estampadas no meu íntimo, ambas relacionadas com eventos históricos, mas de carácter distinto, separados no tempo e no espaço pelo oceano Atlântico. São o tipo de acontecimentos que nos ocorrem subitamente com vívida exactidão de onde e com quem estávamos e o que nos ocupava no exacto momento em que sucederam, que nos permitem reviver os sentimentos que invadiram o nosso ente naqueles longínquos instantes e que, de algum modo, influenciaram efectivamente a nossa forma de estar e pensar. A primeira, pelo pior dos motivos, é o dia 22 de Novembro de 1963, o infame assassinato de John F. Kennedy em Dallas. A segunda, porque vincou a minha consciência sportinguista, é o dia 15 de Maio de 1964, quando o «cantinho do Morais» permitiu ao Sporting a conquista da Taça Europeia dos Vencedoras das Taças, derrotando, com esse histórico golo solitário, o MTK Budapest, na finalíssima da prova. Encontrava-me em Portugal na altura, em plena estadia estudantil, e, naquele dia, no Bombarral, a terra do meu berço. Como era o hábito de então em ocasiões especiais - leia-se, jogos de futebol - pelo convívio e ainda porque naqueles tempos as televisões nos lares eram um luxo de consumo limitado, a rapaziada reunia-se na sede do Sport Clube Escolar Bombarralense.
Estava eu sentado na primeira fila de cadeiras na sala principal do clube, ladeado pelos meus mais fieis amigos de infância, uns sportinguistas, outros nem por isso, mas todos a torcer pelo Sporting, quando, aos 20 minutos de jogo, João Morais manda aquela bola mágica para o segundo poste, batendo o guarda-redes húngaro. Euforia louca, saltos e abraços sem fim, gritos de «vivó Sporting» e algumas lágrimas de emoção desgarrada. Um golo que não foi só dávida de deuses e que nos sustentou pelo sofrimento dos restantes 70 minutos, especialmente com as duas bolas aos ferros da baliza de Carvalho, a última, mesmo ao fechar do pano. Pelo apito final do árbitro belga e em simultâneo com as celebrações dos nossos heróis em pleno relvado em Antuérpia, festejos ao rubro que se arrastaram do clube para a rua e daí para o largo da Igreja do São Salvador do Mundo, com a vizinhança apavorada pelo pandemónio que abalou a sua tranquilidade. Pela euforia e, de certo modo, ilusão do momento, não tínhamos dúvidas de que o estrondo fez-se ouvir por Portugal inteiro. Com a inevitável criatividade de juventude, decidimos celebrar a histórica vitória com pompa e circunstância e, para o efeito, fomos ao Café Lila na baixa - o único estabelecimento da vila abastecido com os indispensáveis acepipes próprios da ocasião - comprar uns Olás e Rajás, outro luxo dos tempos. Ao entrar em casa, num silêncio ruidoso - já não me recordo da hora tardia - o «cantinho do Morais» tornou a brilhar, salvando-me de um muito severo reprimendo do meu ferrenho benfiquista «não para brincadeiras» tio.
Não obstante estar apenas na sua segunda época no Sporting, um dos jogadores que mais me impressionou foi José Carlos da Silva José - simplesmente conhecido por José Carlos - natural de Vila Franca de Xira. Estreou-se com 19 anos ao serviço da Cuf, para pouco depois se vincular ao Sporting, onde permaneceria doze anos, até 1974. Naquela década era impossível falar do Sporting sem evocar José Carlos - a bem dizer, ele e o Hilário - um brilhante e inseparável duo. Actuava na posição então denominada «quarto defesa», complementando os tradicionais três defesas em linha e os médios. Um jogador de enorme combatividade e resistência, notório pelas suas marcações individuais e pelo rigor táctico; o sonho de qualquer treinador. Tanto assim, que mereceu reconhecimento internacional pela sua brilhante marcação ao lendário Bobby Charlton que desbravou o caminho para a vitória no célebre segundo jogo em Alvalade (5-0) frente ao Manchester United também de George Best e Dennis Law, dos quartos-de-final da prova de 1964. Durante a sua carreira de «leão ao peito», realizou 348 jogos oficiais, conquistou três Campeonatos Nacionais, quatro Taças de Portugal, duas Taças de Honra (AFL), a Taça Intertoto em 1968, duas Taças Ibéricas e, claro, a Taça das Taças. Em 1971 foi distinguido com o Prémio Stromp. Em 1974, saiu para o Braga onde deu termo à sua carreira de futebolista e iniciou a de treinador, contribuindo para o regresso à 1.ª Divisão do clube bracarense. Dedicou-se eventualmente à vida de empresário, mas nunca distante do relvado. Orientou diversos emblemas do Norte do País e em 1997 voltou a ser Campeão Nacional como técnico dos Sandinenses da 3.ª Divisão.
Durante o seu extraordinário percurso, tornou-se igualmente num dos mais valorosos elementos da Selecção Nacional - com 36 internacionalizações em dez anos - um dos ilustres «Magriços» que constituiram a equipa das Quinas de 1966 que conquistou o histórico 3.º lugar no Campeonato do Mundo de Inglaterra. Foi totalista na fase de apuramento, jogou a inesquecível meia-final contra os britânicos e, por fim, o jogo da disputa pelos 3.º e 4.º lugares.
Um profissional excepcional, um grande líder, um homem de carácter e um exemplo para gerações, que fica na história do Sporting Clube de Portugal como um dos jogadores que mais vezes envergou a sua camisola e como um dos mais emblemáticos capitães de sempre. Não ao acaso, herdou a braçadeira em 1965 de um outro grande capitão - Fernando Mendes - e tinha o destino que viesse a ser sucedido pelo lendário Vítor Damas. Este era o Sporting da minha juventude e as saudades não são poucas!
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