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És a nossa Fé!

Jornalismo à "portoguesa"

 

22 de Outubro, O Jogo:

SAD do Sporting deixou fugir mais 40% do passe de Matheus Nunes por 500 mil euros. Perdeu a oportunidade de reforçar os seus direitos com novo meio milhão de euros, neste caso por mais 40% do jogador e a vencer... em Setembro. Os leões não avançaram para a cláusula, estando a negociar com o Estoril o remanescente, operação que deverá sair mais cara do que esses 500 mil euros.

 

23 de Outubro, A Bola:

Matheus Nunes já é cem por cento Leão: o Sporting adquiriu os restantes 50% do passe que ainda estavam na posse do Estoril por 450 mil euros, verba inferior à que tinha pago na sua contratação, no mercado de Inverno de 2019 (500 mil euros).

23 de Outubro, Record:

Matheus Nunes é 100% Leão: SAD leonina chegou a acordo com o Estoril e tornou-se detentora dos direitos económicos do médio a troco de 450 mil euros.

 

Cavani cavou

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17 de Agosto

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22 de Agosto

 

Durante um mês, o País andou entretido com um patético folhetim em torno de um jogador que prometia "dar brilho" ao campeonato português: o internacional uruguaio Edinson Cavani, que noutros tempos foi estrela dos relvados mas que agora, aos 33 anos, entrou na fase crepuscular da carreira, aliás reflectida nos números: na época passada, ainda ao serviço do PSG, participou apenas em 22 jogos, tendo marcado sete golos - tantos como o nosso Sporar em meia época de verde e branco.

Foram semanas de crescente descrédito dos órgão de comunicação social que deram estatuto de notícia ao rumor, tornando-se assim meros instrumentos - conscientes ou não - do aparelho benfiquista posto ao serviço da recandidatura de Luís Filipe Vieira. Acossado pela justiça, enfrentando o evidente descontentamento de uma parte significativa dos sócios, o presidente do SLB terá em Outubro a eleição mais complicada do seu longo consulado, iniciado em 2003. O instinto diz-lhe que necessita mais que nunca do "escudo protector" das funções que ainda desempenha para evitar problemas mais sérios nos tribunais.

 

É neste contexto que nasce a novela Cavani. Certos títulos jornalísticos, mandando às malvas o resto de credibilidade que lhes sobrava, fizeram deste não-assunto uma questão muito mais relevante do que a pandemia, infelizmente sem fim à vista. Capa após capa, manchete após manchete, abertura após abertura de "espaços de comentário" na televisão com opinadores travestidos de jornalistas sem possuírem título profissional para o efeito.

Deu jeito a Vieira, claro. Durante semanas ninguém falou na oposição benfiquista, feita a várias vozes: o uruguaio funcionou como trunfo eleitoral do antigo lugar-tenente de Pinto da Costa, único dirigente do futebol português que chegou a ser sócio em simultâneo dos três principais clubes. Até que Cavani decidiu cavar: deu à sola antes de chegar. Dando origem a situações caricatas, como aquela que aqui surge representada por duas capas do diário A Bola com apenas cinco dias de diferença.

Na primeira, a 17 de Agosto, gritava-se com incontido júbilo: «Cavani está a chegar.» O subtítulo tinha tons épicos: «Uruguaio deixou ontem Montevideu numa viagem que terminará na Luz.» Na segunda, a 22 de Agosto, a euforia dava lugar à decepção: «Cavani já não vem.» Só faltou o matutino da Queimada vir de luto, em vez de estar pintado com o habitual vermelho.

 

Todos os dias os jornais perdem credibilidade. Por vários motivos, mas sobretudo por este: cada vez menos gente os leva a sério.

O descrédito de uns acaba por contaminar os restantes, afectando até aqueles que evitam insultar a inteligência dos leitores, cada vez mais exigentes e capazes de separar o trigo do joio. Quem recusa pagar para consumir folhetins disfarçados de notícia faz muito bem.

Para reflectir

 

«As vendas de jornais caíram, fenómeno agravado por uma pandemia que deixou milhares de habituais leitores em casa, e depois ainda existem os pilha-galinhas dos motores de busca e redes sociais, clippings e edições inteiras de jornais a circular via WhatsApp que não pagam nada a quem produz diariamente esses conteúdos.»

 

«É irresponsável o investimento de milhões em jogadores, quando a única receita segura, pois ninguém sabe quando o público volta às bancadas, provém das receitas televisivas - sendo que devia o exemplo de Abril e Maio do eventual cancelamento de pagamentos da MEO e da NOS pela paragem competitiva servir de aviso.»

 

«A indústria do futebol em Portugal está na obscuridade e na agonia de quem sabe que se está a consumir a última vela. Continua tudo cego.»

 

Excertos do artigo de opinião do Rui Calafate, hoje publicado no Record

O jornal A Bola e o Benfica

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Desde a sua fundação o jornal "A Bola" seguiu relativamente ligado ao Benfica. É pacífico dizer isso. Mas a tendência benfiquista, tanto por clubismo da maioria dos seus quadros como por opção comercial, em busca de maior aceitação popular, nem sempre foi de radical seguidismo à direcção daquele clube. Mas este seguidismo veio em crescendo nas últimas década. Hoje em dia é pungente. E ultrapassa a temática do clubismo, recai mesmo nas questões da democracia, seja a associativa desportiva seja mesmo a consideração do exercício democrático como molde do exercício da comunicação social. 

O caso das ênfases noticiosas expressas no jornal de hoje é exemplar do estado a que chegou aquele jornal. Álvaro Cordeiro Dâmaso, presidente da mesa da Assembleia-Geral da SAD do clube, apresentou a sua demissão. Isto apenas três meses depois de Luís Nazaré, o presidente da mesa da Assembleia-Geral do clube, se ter demitido em ruptura com o presidente do clube. Para além desta sequência de demissões poderem indiciar algumas cisões no núcleo dirigente das instâncias do clube, uma tão importante demissão na SAD em momento coincidente com o anúncio de enormes investimentos no plantel futebolístico acontecidos em plena crise económica. Para mais, em breve acontecerão eleições no Benfica e já se alinham várias candidaturas.

Diante de tudo isto qual o relevo que o jornal "A Bola", lido maioritariamente por benfiquistas, dá a esta demissão no quadro da SAD? É ver esta primeira página de hoje, uma quase invisível nota no canto inferior esquerdo, numa capa dominada por meros rumores sobre contratações futebolísticas. Isto já nem é pungente, é mesmo a negação do jornalismo.

O caluniador

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Na noite passada, após ter visto a sua equipa perder pela primeira vez desde sempre contra o Santa Clara no estádio da Luz com quatro golos sofridos, algo que não acontecia desde 1997, o treinador do Benfica procurou virar o foco da derrota para os jornalistas, usando palavras inaceitáveis. Por serem lesivas da honra e da consideração devidas aos profissionais da informação.

«Às vezes fico a pensar quem é que vocês andam a tentar promover para ficar no meu lugar ou quem é que lhes anda a pagar alguns almoços ou alguns jantares ou algumas viagens para entrar aqui no meu lugar», declarou Bruno Lage numa conferência de imprensa realizada naquele estádio e transmitida em directo para o país inteiro ver, ouvir e fixar.

Para meu espanto, nenhum repórter ali presente contestou de imediato o conteúdo calunioso desta declaração. E nem um só abandonou a sala em protesto contra a grosseria do treinador, como se impunha. Passividade e resignação, comer e calar: eis um exemplo inequívoco de uma classe profissional incapaz de se dar ao respeito. E que não pode queixar-se, portanto, de ser tratada desta forma por um indivíduo que saltou do anonimato para a fama em poucos meses precisamente devido aos jornalistas que agora insulta só porque um jogo lhe correu mal.

 

ADENDA: A reacção, há minutos, do Sindicato dos Jornalistas. E a da Associação dos Jornalistas de Desporto

Noves fora, nada

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O jornal Público chumbou, reprovou  ou melhor ficou retido (para não ficarem traumatizados), na prova dos nove.

Aquilo que eu leio: "Benfica vence Rio Ave com nove" é (e agora vou fazer perguntas):

- Quem venceu?

Resposta: o Benfica

Com quantos?

Resposta: (o sujeito continua a ser o Benfica) com nove

A quem: ao Rio Ave

Há neste «blog» pessoas mais bem habilitadas (ou melhor habilitadas como dizem os políticos e os apresentadores de televisão) para darem lições de jornalismo.

No entanto, as coisas são simples; o "lead" deverá responder a quatro perguntas: o quê (o acontecido), quem, quando e onde. O "sub-lead" deverá responder a duas perguntas: como e por quê.

Simplificando, título: Lage fica a boiar após afogamento no Rio Ave, desenvolvimento ("lead" e "sub-lead"):

Ontem, o Benfica após ter estado a perder por 1-0 em Vila do Conde com o Rio Ave, salvou-se.

Melhor, salvaram-no, o VAR e Godinho, salvaram Lage dum afogamento eminente, com a primeira expulsão, o Benfica conseguiu o empate, ainda assim, o Rio Ave a jogar com dez jogadores esteve sempre mais perto de vencer o jogo. Os minutos passavam e a arbitragem teve de tomar medidas drásticas, expulsaram mais um.

Como diria Fernando Pessoa: "Luís Filipe Vieira quer, o padre sonha e a obra nasce".

Não acertam uma

Andam a celebrar a data dos 75 anos da fundação e o director quase vitalício do jornal até já verteu uma lágrima em editorial, revelando ter passado a condução efectiva do funcionamento do plantel jornalístico a outra pessoa, cujo nome ainda não vem impresso no cabeçalho.

A verdade, porém, é que o diário A Bola vive uma das suas piores fases de sempre. Muito longe dos dias de glória que conheceu nas décadas de 60, 70 e 80, quando integrava uma das melhores equipas redactoriais existentes no País. Lamento que isso ocorra com Vítor Serpa - um dos sobreviventes desse tempo - ainda ao leme nominal da publicação.

 

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Esta degradação tornou-se bem visível em duas capas bem recentes.

A primeira, a 30 de Dezembro de 2019, quando A Bola garantia com letras garrafais, ao longo de quase toda a mancha gráfica da primeira página, que havia três jogadores prestes a ser excluídos do plantel leonino, claramente desvalorizados. Razão? «SAD do Sporting forçada a rever em baixa preços de alguns dos principais activos.»

E lá vinham os nomes com os respectivos preços, sob o lamentável título genérico "Saldos de Inverno": Coates por 7,5 milhões de euros, Acuña por 12,5 milhões e Wendel por 20 milhões. Justificação para tais "saldos": «Problemas financeiros obrigam administração a rever estratégia para o mercado».

Era mentira, claro. Como os factos vieram a demonstrar. Mas foi quanto bastou para muitos adeptos do Sporting replicarem a "notícia", atribuindo-lhe uma credibilidade que nunca teve.

 

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Há dias, a 7 de Fevereiro de 2020, surgiu nas bancas outra capa do referido jornal com idêntica credibilidade: nenhuma.

O mesmo destaque gráfico, a mesma atenção ao Sporting pela negativa, o mesmo grau de veracidade: zero.

A manchete pretendia ter precisão aritmética: «3 Sim, 2 Não». Garantindo aos incautos leitores: «Continuidade de Frederico Varandas à frente dos leões em perigo.» Porquê? «Maioria dos membros da MAG aceita realização da AG destituitiva.»

Ontem o país desportivo ficou a distinguir o boato da realidade: decisão unânime da Mesa da Assembleia Geral leonina contra uma reunião magna destinada a destituir os órgãos sociais. A Bola demonstrou estar mal informada. E chumbou a matemática.

Apesar disso, novamente muitos adeptos atribuíram validade à pseudo-informação, replicando-a nas redes sociais. Como se não fosse mercadoria adulterada.

O periódico da Queimada vai eclipsando assim, manchete a manchete, o pouco que ainda resta do prestígio acumulado noutras eras. Longe do brilho de outrora, dando passos cada vez mais largos a caminho da decadência que ameaça tornar-se irreversível.

Os melhores comentadores

Escuto a todo o momento vozes críticas de adeptos do Sporting contestando tudo e todos. No jornalismo desportivo e na tribo dos comentadores, designadamente.

Hoje apetece-me virar isto ao contrário e por uma vez abrir aqui um espaço de elogio a quem faz comentários - nos jornais, na rádio e na televisão - reflectindo sobre o futebol em geral e o Sporting em particular.

É um repto que lanço aos leitores e também aos meus silenciosos colegas de blogue: que comentadores mais gostam de ler ou de escutar no espaço mediático português?

Eu tenho as minhas preferências mas não vou dizê-las já para não condicionar o debate. Inaugurado a partir de agora.

O futebol português e os heróis do sofá

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1

Eis o futebol que temos, formatado e condicionado para a vitória sistemática do mesmo clube que envergonha o nome de Portugal nas competições internacionais: o Benfica, vencedor de seis campeonatos internos nos últimos sete anos, perdeu 12 dos últimos 15 jogos que disputou na Liga dos Campeões e sofre golos há 14 desafios consecutivos nas competições da UEFA. Explicação lógica: lá fora não beneficia dos favores da arbitragem nem de generosos autogolos concedidos por equipas adversárias.

Lá fora também as autoridades desportivas não permitem que um clube contrate jogadores só para os distribuir por equipas supostamente adversárias. Nem há televisões oficiais de clubes a transmitir em exclusivo as provas em que esses clubes participam - outra originalidade portuguesa, o escandaloso privilégio concedido à BTV.

Isto já para não falar do tratamento editorial totalmente diferenciado de que o SLB beneficia face aos clubes rivais. Basta apontar um exemplo: na mais recente assembleia geral benfiquista, 19 sócios subiram ao palanque para criticar o presidente dessa agremiação, mas nenhum deles foi procurado pelos canais de televisão cá do burgo para serem entrevistados. Se fosse no Sporting, alguns deles acampavam nos estúdios serão após serão e tornavam-se até "comentadores residentes". Dois pesos, duas medidas.

 

2

Este dirigismo domesticado, esta arbitragem vesga, este jornalismo que perdeu a virtude da isenção: eis factores fundamentais que contribuem para explicar o jejum de títulos leoninos neste século em que só por uma vez festejámos o campeonato nacional. Tirando a inesquecível Liga 2001/2002, o melhor que conseguimos foram seis segundos lugares - quatro com Paulo Bento, um com Leonardo Jardim e outro com Jorge Jesus.

Estivemos, é certo, à beira de novos festejos por três vezes: em 2004/2005 (com Dias da Cunha e José Peseiro), em 2006/2007 (com Soares Franco e Paulo Bento) e em 2015/2016 (com Bruno de Carvalho e Jorge Jesus). Mas erros clamorosos de arbitragem - tolerados por dirigentes inaptos e silenciados por uma comunicação social medrosa e cúmplice - impediram-nos de concretizar esse sonho ainda adiado.

 

3

Eis o pano de fundo. Não faz o menor sentido haver agora no Sporting quem se apresse a "exigir títulos", sobretudo no rescaldo do traumático ataque à Academia de Alcochete, que provocou um rombo desportivo, financeiro e reputacional à instituição leonina.

Tal como uma casa começa a ser erguida pelos alicerces e uma equipa começa a ser construída a partir da defesa, nenhum projecto com solidez, ambição e perspectiva de longo prazo pode ser edificado em Alvalade sem considerar o conjunto de circunstâncias que enumerei e lutar para superá-las, uma a uma.

Haverá, naturalmente, quem diga o contrário - são os heróis do teclado, instalados no conforto anónimo de um sofá doméstico. Infelizmente, as questões reais são muito mais vastas e complexas do que estes indignados das redes sociais imaginam na sua visão simplista. As forças estão há muito desequilibradas. Ao Sporting não basta superar os adversários em campo - é também preciso derrotá-los fora das quatro linhas.

Das reticências aos pontos de exclamação

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Tem-se falado várias vezes - incluindo nós, aqui no blogue - na linha editorial do jornal A Bola, fervorosamente (embora não assumidamente) pró-benfiquista.

Os mais condescendentes asseguram que não é questão intrínseca do diário da Queimada, mas apenas mera deriva da sua linha editorial. 

É certo que A Bola teve jornalistas de grande nomeada, vários dos quais escreviam primorosamente  e se distinguiram pela qualidade das suas reportagens, dos seus editoriais e das suas crónicas. Menciono, a título de exemplo, Carlos Miranda, Vítor Santos, Carlos Pinhão, Homero Serpa, Alfredo Farinha e Aurélio Márcio - vários dos quais tiveram descendentes, directos ou indirectos, também no exercício do jornalismo desportivo, como Leonor Pinhão, Rui Santos, João Alves da Costa e Vítor Serpa.

Acontece, porém, que o benfiquismo (fervoroso mas não assumido) deste jornal, outrora trissemanário em grande formato e hoje um diário tablóide, não surgiu de geração espontânea. Pelo contrário, já vem de longe.

Como as primeiras páginas que aqui trago bem comprovam. Na primeira, datada do dia 15 de Dezembro de 1986, noticia-se um Sporting-Benfica que terminou com o resultado 7-1. A segunda, do dia 15 de Maio de 1994, é também referente a um Sporting-Benfica, que terminou com o resultado 3-6.

Repare-se e compare-se. A diferença entre a secura informativa da primeira, marcada pelas reticências no antetítulo, e o júbilo extasiado da segunda, integralmente dedicada à partida de véspera, com três adjectivos ditirâmbicos numa mancha gráfica coroada com seis pontos de exclamação.

Estes dois exemplos, postos em contraste, equivalem a um editorial. Ou cem. Ou mil. Dizem-nos tudo sobre a rubra pigmentação do jornal A Bola.

O "A Bola"

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A série de capas históricas do "A Bola" que o Pedro Correia vem mostrando é bastante denotativa do clubismo exarcebado que aquela empresa imprimiu ao seu negócio. É seu direito, estratégia em busca de lucros. Mas de há muito tempo  apenas uma falsidade enviesada, se pensada em termos de jornalismo.

Mas não é apenas uma coisa histórica. Um dos exemplos desse seguidismo ao Benfica e, acima de tudo, à sua direcção actual é a sucessão de manchetes sobre o jogador Jovic, contínua na página digital do jornal.

O processo deste jogador é perfeitamente normal: decerto que o Benfica o contratou por lhe reconhecer potencialidades. Chegado ao plantel, o jovem Jovic não teve espaço para se afirmar, face à concorrência que encontrou: Jonas, que é um jogador de grande classe; Seferovic, que não sendo um jogador extraordinário é muito competente (nos primeiros jogos que fez no Benfica, antes de se apagar durante a época passada, fartei-me de resmungar: "raisparta que os tipos acertaram ..."); e Mitroglou, um jogador pouco interessante mas que funcional, em particular num campeonato como o português, uma espécie daquele "pinheiro" que há anos um treinador sportinguista pretendia (imagem que sempre me faz lembrar um Peter Houtman que nunca me encantou, nem me deixa saudades). Sendo este Mitroglou um "pinheiro" até mais móvel, mais competente, concedo. Face a essa situação o Benfica emprestou o jogador, para que ele evoluísse. A um bom clube, de um excelente campeonato, e que - o que é, nestas coisas, o fundamental - realmente o pretendia, enquadrando-o e dando-lhe tempo de jogo. E visibilidade. Assim muito o valorizando. Crítica minha? Nem uma gota. 

Ainda assim é também possível argumentar que se tivesse o Benfica no início da época que ora finda uma outra perspectiva de futuro, e particularmente se tivesse um técnico mais afoito na opção por jogadores jovens, muito provavelmente Jovic teria feito uma época ainda mais sonante - a vida dos avançados dos 3 grandes é mais fácil em Portugal do que no campeonato alemão, isso é indiscutível. Digo-o como mera hipótese. Pois se calhar o peso de Jonas, a imposição até algo exuberante de Seferovic, e a explosão de João Félix (que é um belíssimo jogador, mesmo que se possa dizer que o habitual empolamento dos jovens do Benfica o poderá sobrevalorizar um pouco) poderiam ter obstado a uma afirmação de Jovic. Nunca se saberá, é mera especulação. Fica a minha conclusão: nada da condução da carreira de Jovic no plantel benfiquista transpira incompetência. Mas também poderia ter sido diferente. Com toda a franqueza - e até porque gosto muito do treinador Lage - julgo que Jovic teria sido uma grande revelação no Benfica. 

Mas tudo isto que digo é apenas para sublinhar que não estou a criticar ou a cutucar a secção de futebol sénior do Benfica. Não é essa a questão. Estou apenas a falar do "A Bola". Jovic vai ser transferido para o Real Madrid, por uma enorme quantia. O Benfica vai lucrar com essa transferência. Mas, de facto, o não ter apostado no jogador conduziu a que a parte fundamental do lucro será para o clube alemão. O Benfica perderá assim algumas dezenas de milhões de euros. Ou melhor dizendo, deixará de ganhar algumas dezenas de milhões de euros. 

Repito o que disse, não estou a criticar o Benfica. Nem a "gozar". Foi um processo normal. O que me é interessante é a sucessão de notícias do "A Bola". Sistematicamente informando os seus leitores - na maioria benfiquistas - que haverá "Encaixe significativo para os cofres da Luz com a transferência de Jovic", descurando uma hipótese de análise crítica perfeitamente sustentável. Sempre enfatizando que o clube beneficiará. Mas nunca aflorando o evidente desperdício económico que irá acontecer. Chama-se a isto moldar opiniões. Um verdadeiro condicionamento, em particular da massa adepta daquele clube. Há quem lhe chame "jornalismo". Mas não é. "A Bola" é, de facto, e já há muito tempo, um departamento de comunicação de uma empresa.

 

Os coletes amarelos portugueses estão no futebol

Muito se discute, nestes dias, a especificidade portuguesa de não haver partidos populistas dignos de registo, com representação parlamentar, algo que cada vez mais constitui uma exceção na Europa. Pode haver vários motivos, mas a meu ver um dos principais está noutra especificidade portuguesa: temos quatro canais noticiosos, e todos eles têm infindáveis programas de "debate" sobre futebol. Anda-se a discutir futebol toda a semana. A isto acrescem três diários desportivos, todos eles com uma dedicação largamente maioritária ao futebol. Neste mês de Janeiro esteve aberto o mercado de jogadores. Não se passou assim nada de especial, mas todos os dias - todos - o "Record" tinha uma secção intitulada "Mercado a ferver". Há a propensão para a caça a notícia, e quando não há inventa-se. Não há "coletes amarelos" portugueses porque eles andam entretidos com isto. E, no caso dos sportinguistas, a comentar em blogues e nas redes sociais.

(Imagem roubada aos "Truques da Imprensa Portuguesa")

Ainda sobre Bruno de Carvalho

 

Goste-se ou não de Miguel Sousa Tavares convirá ouvir isto. Nem a forma como a justiça trata o Bruno de Carvalho é admissivel nem a acusação de "terrorismo" é aceitável. A acusação de terrorismo é, como MST muito bem refere, "brincar com coisas sérias". O que aconteceu foi muito grave mas não é "terrorismo", termo que define outros fenómenos bem diferentes. 

Duas coisas a somar: MST refere a coisa mais execrável que aconteceu nos últimos dias, a polícia confiscou o computador da filha menor de Bruno de Carvalho, devassou a privacidade da adolescente. Isto é o faroeste? A polícia tem 40 morcões presos, acede a gravações telefónicas (o que mostra como isto está um fartar vilanagem, quanto ao assalto aos direitos de cidadania). E ainda assim precisa de devassar a privacidade de uma adolescente que nada tem a ver com isto, por ser filha de quem é? 

A segunda coisa é o que leio nos jornais: alguém disse aos jornalistas que o ex-presidente está medicado e os jornais disso fazem notícia. O que é isto? Como é possível? Como se pode fazer tal coisa? O estado de saúde é privado. O homem é detido para interrogatório e põem-lhe a "ficha clínica" na imprensa? Isto é execrável.

E o silêncio sobre tudo isto de uma organização chamada Sindicato de Jornalistas, que tão vigorosa foi quando veio atacar BdC por este ter apelado ao não consumo de comunicação social, mostra bem o quão miserável (lamento, Pedro Correia e outros co-bloguistas jornalistas, mas não há outra coisa que possa ser dita) é a classe que se faz representar por este prostituído Sindicato.

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Não é possível defender o desporto, a ética, o fairplay, etc, etc, criticando dirigentes populistas e as suas afirmações “incendiárias” e depois reproduzir toda e qualquer patetice (incendiária) que pessoas que apareceram vindas do nada escrevem nas redes sociais.
Ou bem que jornais e televisões estão do lado do chamado interesse público e assumem um papel de mediador, filtrando o que deve ser ecoado, ou bem que assumem a sua sonsice de uma vez por todas. Ter de gramar o moralismo dos seus diretores e opinadores a advogar que o Sporting deve resolver os seus temas, deve procurar a paz, etc e depois verificar que estão de atalaia a todo o post encharcado de gasolina de figuras que não são nada no clube é uma estranha e equívoca forma de estar na profissão que (especulo) juraram honrar e que tem um código deontológico. 
Infelizmente esta dupla identidade do nosso jornalismo não se restringe à bola.

Sobre o jornalismo actual

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Várias equipas de jornalistas estão em Alcochete, ao portão das instalações. Chegam dezenas de encapuzados, não há imagens. "Disseram-nos para baixarmos as cameras e não filmarmos. O que logo fizemos", dizia, até assertivo o jovem da RTP. "Depois entraram e caminharam cerca de 100 a 150 metros até à ala do futebol profissional", e as equipas de reportagem ficaram, cameras baixas, microfones mudos, ali ao portão. "O grupo esteve cerca de 15 minutos nas instalações" E depois há poucas imagens de um grupo já longínquo retirando-se. De tudo o resto? Nada. Veremos, depois, 17 segundos de uma filmagem com telemóvel, de um profissional do clube no balneário. Apenas isso.

 

É fácil falar de fora (e alguns dirão que nunca arrisquei algo, o que não comentarei). Mas um tipo habitua-se a ver, até de espontâneos, imagens de incêndios, atentados, guerras, catástrofes. E também "directos" inopinados, de coisas patetas (o treinador em férias a chegar ao aeroporto, ficou célebre). Não faltou ali qualquer coisa àquela rapaziada toda? E não falo de difíceis condições de trabalho, estágios, recibos verdes, parcas remunerações ...

Só visto, contado ninguém acredita

Passa da uma da manhã e percorro os jornais desportivos online. A Bola consegue não ter uma única, repito, uma única referência ao caso do anteriormente designado por braço direito de Luís Filipe Vieira, depois assessor jurídico do Benfica e agora já mero colaborador do clube ( já faltou mais para não ser de cá, só ter mesmo vindo ver a bola...). Surreal, a tal cabeça na areia ou o estado de negação. Nem nos tempos da ditadura chegamos a tal silêncio ensurdecedor. Até porque nesse tempo a maioria dos jornalistas tinha honra e lutava por, em cada edição, poder relatar fragmentos da realidade então vivida. Agora, nos jornais desportivos, ou têm amos ou têm medo e calam-se. Que vergonha. Só visto, contado ninguém acredita.

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 Entretanto o Record, para que não se diga que faz fora do penico e para não ficar atrás, na versão online apenas publica uma pequena notícia para chamar à história a figura da juíza, referenciando-a como tendo tido entre mãos dois casos que, como este, nada tiveram a ver com o Benfica, o do túnel da luz e da morte de Ficini...

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 Em suma, mau jornalismo, ardiloso e mentiroso, que não merece o desperdício de um único cêntimo na sua compra. 

Octávio Ribeiro, director do Correio da Manhã

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No "Record" Octávio Ribeiro, director do "Correio da Manhã", escreve um texto execrável sobre Gelson. Ou melhor, a propósito de Gelson, pois, de facto, utiliza a situação protagonizada pelo jogador para dissertar, em modo totalmente populista, com requebros de análise sociológica verdadeiramente retirada de uma cloaca mental, de ignorante que é, sobre a escola pública, seus agentes, sobre a sociedade. E, já agora, secundariamente também sobre o Sporting.  

 

Antes, aqui, já o Francisco Vasconcelos e o Pedro Azevedo aludiram ao texto e o criticaram. O PA salienta, justamente, a bondade do carácter do jogador, notoriamente desafecto ao quadro até demoníaco que o director do CM dele traça, e o quanto isso significa de vergonhoso para o texto e seu autor. E o FV recorda-nos, muito justificadamente, que um texto destes de um jornalista com estas responsabilidades profissionais se articula com o quadro tétrico que o presidente Bruno Carvalho traçou há pouco tempo do estado da comunicação social. E este último aspecto deve ser sublinhado. Pois quando a esta se fazem críticas radicais logo surgem coros (como surgiram há tão pouco tempo) que as dizem inadmissíveis, pois anti-democráticas, adversas à liberdade de informação. E outros "contextualizam" (no sentido de "des-culpam") os constantes desatinos, atribuindo-os às difíceis condições de trabalho, ainda mais nesta era de grandes transformações no mundo da imprensa. E sempre nos recordam a existência de excelência no jornalismo, como se essa fosse capote para a indecência que grassa.

 

Jornalistas boçais e venais sempre houve, como ilustrava Eça de Queirós com o seu Palma Cavalão. Mas o problema é a extraordinária força que hoje tem a comunicação social na construção da opinião pública e o peso que esta tem na vida. Dos clubes, porque estamos aqui no És a Nossa Fé. E no resto todo. E por isso tanto é preciso reforçar a nossa crítica e, quando é o caso, a nossa indignação e o nosso repúdio. Pelos actos pessoais dos jornalistas. E, acima de tudo, pela situação generalizada em que a comunicação social vai indo. Pois não será com a tutela estatal (sempre com um vontadezita censória, diga-se), nem com os morosos e atarefados tribunais que se regula isto: é com a pressão dos clientes, com a recusa, com a denúncia, com o bruáá da rua. Ou seja, com a falta de consumo. Toque-se-lhes nas "bolsas" que eles mudarão de tom.

 

O perverso do texto do director do CM vem também de ele brandir ideias que, bola à parte, muitas pessoas até nem desgostam de ouvir, ou deixam passar, ou até mesmo concordam, nem que seja pela rama: os défices da escola pública, o corporativismo dos professores, a falta de valores das novas gerações, a criminalidade e marginalidade nos subúrbios, a "falta de civilização" (sic) nessas zonas, a qual, ok, não é bem atribuída à raça mas ainda assim deixando implícito que o factor racial não é totalmente alheio, etc., em suma, a inadequação dos pobres. O que pode permitir, até mesmo para os que não gostam do texto (sportinguistas ou não), aquela sensação de que "bem, o homem exagerou, coitado do miúdo, mas até disse algumas coisas acertadas ...".

 

É por isso que boto este postal, na senda dos textos do PA e do FV. Acima de tudo para referir isto: nem todos os pedagogos são democratas e nem os todos democratas são pedagogos. Mas todos os pedagogos (e é à pedagogia que Octávio Ribeiro alude) e todos democratas conscientes confluirão numa reacção diante do abjecto texto do director do "Correio da Manhã". Pois o homem pede um "castigo exemplar" para Gelson. E qualquer pedagogo, bem como qualquer democrata, sabe que um "castigo" nunca deve ser pensado e previsto como "exemplar". Ou seja, um castigo nunca é exemplar. Deve ser adequado ao contexto dos factos, este normalmente pouco ou nada repetível dada a radical imponderabilidade das coisas da vida. Sendo então único, nunca exemplo.

 

Em suma, quando o director do diário que mais vende em Portugal surge a apelar a um "castigo exemplar", e nos pérfidos e preconceituosos termos em que o faz, mostra-nos bem o quão a sua visão do mundo está afastada da democracia e da pedagogia, essa à qual de forma de forma tão canhestra e básica alude. Ribeiro é um mero ignorante "ditatorialista" ("fascista!", clamava-se quando eu era miúdo) .

 

E comprar um jornal com um director destes, consumir os produtos que anunciam num jornal com um director destes, colaborar assim com os lucros de uma empresa com um responsável destes, é, isso sim, ser anti-democrata, em última análise, cúmplice adverso à liberdade de imprensa. E podem estar certos que nenhum político que escreve nos jornais ou é "anunciado  na TV" (como dantes se propagandeavam os piores produtos), nenhum prestigiado académico que escreve nos jornais ou é "anunciado na TV", nenhum jurista que tenha sido director de jornais e que agora só escreva em jornais, que nenhum sindicato de jornalistas, surgirá agora a dizer que este tipo é um populista, adverso à liberdade de imprensa. Para apuparem o Bruno, para isso até deturpando-o, logo surgiram. Agora, entre eles, os que participam na comunicação social, jornalistas ou não, dela vivem, nela se reproduzem? Protegem-se. São, de facto, o Palma Cavalão. Em, imensas, versões clonadas.

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