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És a nossa Fé!

Novidades da Gazeta de Pyongyang

Vou num quarto de século dedicado a uma profissão que tem na primeira página a montra capaz (ou não) de atrair a atenção daqueles que asseguram o meu salário e o salário dos meus camaradas quando dão uma ou mais moedas para levarem o jornal das bancas - ou, mais recentemente, para o receberem por via electrónica. Nem todas as primeiras páginas para as quais contribuí saíram como eu desejava. Por vezes não consegui convencer quem tinha a incumbência e noutras fui mesmo eu a cometer o que na manhã seguinte eram evidentes erros de palmatória.

 

Dito isto, a exclusão de Jorge Fonseca, primeiro português campeão mundial de judô, da primeira página do “Jornal do Sporting” é especial aberrante. Não só pelo valor de notícia (que, garantem-me, não foi ignorada no interior), não só por o feito do judoca leonino não ter sido valorizado por nenhum dos cronistas residentes (mais uma vez é o que me dizem), mas também por a exclusão ter indícios de ser a consequência das declarações de Jorge Fonseca e do seu treinador, Pedro Soares, nomeadamente quanto ao estatuto de atleta do Sporting da jovem ucraniana Daria Bilodid, que também venceu o título mundial, e aos elogios públicos de Jorge Fonseca a Bruno de Carvalho.

 

Se assim tiver sucedido temo muito más consequências para a permanência destes valores do judo de leão ao peito, em linha do que já aconteceu com a valorização da liberdade de expressão que culminou no fim do programa de Rui Calafate e Samuel Almeida na Sporting TV. Quanto ao “Jornal do Sporting”, que vou comprando de forma intermitente desde a adolescência, resolvi suspender a sua retirada das bancas após os textos sobre a Supertaça terem saído amputados da ficha de jogo, numa decisão que me encheu de vergonha alheia. Mas há muito tempo que lhe reconhecia escassa mais-valia em relação ao que vai saindo nas redes sociais, também mais fracas na actual gerência... Espero que melhore o jornal e melhore a mentalidade no Sporting. Alvalade não pode parecer assim tão perto da Coreia do Norte.

Sporting, comunicação e jornal

Sporting.jpg

 

Dia de fecho do mercado de transferências de jogadores de futebol. Apesar do Sporting ter anunciado que tinha tudo planificado, e que por isso começara a planificação e identificação de reforços bastante cedo - até mesmo no Inverno passado - segue uma azáfama no plantel: Diaby, em quem Keizer tanto confiou ao longo de meses, parece que já está na Turquia; um jovem lateral-direito que não dava garantias, tanto que se contratou um jogador sistematicamente lesionado, segue para Valência (óbvia manobra de Jorge Mendes), Raphinha saíu ontem para França, talvez haja outras saídas, mais ou menos saudáveis. Entram jogadores que não se esperavam, e o Sporting nisso anuncia uma mudança de perfil - a ver se é para continuar se é apenas fruto dos constrangimentos actuais: empréstimos de jogadores estrangeiros, decerto que algo caros, a valorizarem-se aqui. Reforços de segunda linha, mas nunca se sabe: um Fernando Santos, a ver vamos; um Jesé que dá vontade de rir; e fala-se ainda de um extremo veterano. Mas nunca se sabe, pode funcionar. 

Mas o que é interessante, e denotativo do estado do clube, é o que acabo de ver: São 19 horas deste afinal frenético dia. Os jornais, desportivos e não só, têm catadupas de notícias sobre jogadores a aportar para o clube - parece que vem um tal de Jesé, que dá vontade rir ou mesmo de chorar. Eu vou ao "site" do clube, vejo a secção "plantel de futebol": não há uma única notícia. Nem Raphinha, está anunciado. Vejo o plantel do clube.  Não está alterado, nem mesmo Raphinha.   Bas Dost é ainda - depois de ter sido maltratado na página FB do clube - o rosto que anuncia a venda de lugares cativos (aos quais os analfabetos funcionais insistem em chamar, e até com orgulho, patetas ambulantes que são, gameboxes).

Depois vou ao jornal Sporting. Nenhuma notícia sobre o que se está a passar no plantel sénior. E ainda encabeçado pelas fotos e notícias do jogo com o .... Portimonense, em cabeçalhos glorificadores.

Isto é a total incompetência. Ou então é mesmo uma inconsciência. Para quê ter estes serviços, gastar algum dinheiro, por pouco que seja, com este tipo de abordagem? De, entenda-se, falsificação. 

Dirão que é marginal, que o que interessa são as xistradas. Sim, é verdade. Mas com esta monumental mediocridade e este vil seguidismo, os tipos da comunicação com o chapéu na mão à espera da autorização de um qualquer doutor para noticiar, isto é uma vergonha. Feche-se aquela loja. Fede.

Editorial do Director do Jornal Sporting na edição n.º 3632

É extenso, mas como alguns dos leitores estarão de férias, são apenas cinco minutos do vosso tempo que vos tomo. 

 

"É  continuar a assobiar para o lado porque não se passa nada! Três secretários de Estado demitiram-se por terem aceitado o convite de uma empresa privada para assistirem à final do Euro 2016 que teve lugar em França e que levou a nossa Selecção Nacional a sagrar-se campeã europeia. Nestes casos, embora se considere que não seria pelas viagens que os secretários de Estado alterariam as suas decisões políticas, houve o entendimento que esta não foi a conduta adequada para os cargos que exerciam, pelo que assumiram as respectivas consequências e demitiram-se.

Talvez agora as virgens ofendidas, os “encartilhados”, os hipócritas e alguns ingénuos percebam melhor o que estava, ou melhor, o que está em causa no caso “vouchers dourados”. Há, no entanto, para já, pelo menos, uma questão que distingue os casos anteriores, é que contrariamente ao primeiro, nos “vouchersdourados” não houve, para já, qualquer tipo de consequência. Mas se não é considerado adequado um secretário de Estado aceitar uma oferta de uma entidade privada com quem se relaciona, e sobre a qual toma decisões, já o será no caso nos nossos eternos rivais com os “vouchers dourados”?

De facto com o “manto sagrado” que os protege, como dizem “nuestros hermanos”, no pasa nada. O modus operandi, apesar de denunciado, continua a permitir que os seus responsáveis continuem impávidos e serenos a cumprirem o seu habitual expediente. Veja-se, por exemplo, os últimos episódios com a directora executiva da Liga, Sónia Carneiro, em que as práticas habituais da actual gestão do nosso rival dão uma vez mais o ar da sua graça. Esta que é a mesma que lhes permite continuarem a usar as denúncias de que são alvo como argumento das suas campanhas publicitárias, um sentimento típico de quem goza e tem um sentimento de impunidade. Resta saber apenas até quando…

Enquanto isto, como denúncias não pagam dívidas, há que continuar a criar cortinas de fumo para desviar as atenções, anunciando investimentos em universidades, ninhos de empresas e centros de investigação & desenvolvimento. Acreditamos que não tardará também uma estação orbital, sim, porque astral já terão por certo, pois esta fará parte do quotidiano… ou será bruxaria?

A propaganda, essa, continua cada vez mais intensa, com o vermelho a dominar boa parte da comunicação social. E não se pense que é com a cor da nossa Selecção Nacional, nem com a evocação da conquista europeia que agora completou um ano. Embora aqui se continue a fazer passar que um jogador oriundo da formação rival vale por 10 dos nossos, precisamente o número dos jogadores oriundos da nossa Academia que integraram os catorze jogadores utilizados na final de Paris. Por isso, apenas por ser curioso, sem questionarmos a transparência ou a metodologia dos Prémios da Liga, debrucemo-nos sobre a coerência da sua atribuição. Vejamos, por exemplo, o caso de Gelson Martins, nomeado para “jogador revelação do ano” e simultaneamente também para “jogador do ano”, sendo o único a ser nomeado para esta categoria entre os três que foram nomeados para a “revelação do ano”. A lógica diz-nos que se nenhum dos outros dois tiverem lugar nos três melhores da Liga, que é o prémio maior, então num prémio de outro patamar o nomeado para “jogador do ano” vence naturalmente o prémio revelação, certo? Errado, pois não foi isso que aconteceu com Gelson, e nem será necessário revelarmos qual a cor da equipa do jogador que venceu, pois os leitores já perceberam há muito!

A nossa equipa de futebol já iniciou os seus trabalhos, estando neste momento na Suíça, onde decorre a pré-época e onde estão a ser realizados jogos de preparação com equipas de topo. Uma primeira nota que aqui queremos registar é o apoio incondicional que, uma vez mais, os melhores Sócios e Adeptos do mundo têm demonstrado à nossa equipa desde a sua chegada a terras helvéticas.

Na próxima segunda, a nossa Sporting TV completa três anos, depois de em 17 de Julho de 2014, pelas 19:06 ter dado início às emissões regulares, sete dias por semana, 24 horas por dia. Actualmente, somos distribuídos em Portugal em todas as plataformas, e estamos a alargar a nossa presença internacional, sendo os conteúdos da Sporting TV também já presença assídua em voos de longo curso de algumas companhias aéreas. Nestes três anos temos vindo a crescer nas audiências e em qualidade, um caminho a continuar. Parabéns a todos quantos tornaram a Sporting TV possível e àqueles que diariamente trabalham afincadamente para levar aos Sportinguistas, tal como aqui no Jornal, toda a verdade verde no branco.

Boa leitura!"

As eleições vistas pelos mais novos*

No outro dia, estava com os meus filhos a ver televisão e apareceram notícias de Alvalade. Sabendo eles que o pai escreve no jornal do Sporting e que está atento ao que se passa no nosso Clube, lá me chamaram a atenção para as notícias relativas ao processo eleitoral em curso. Do que viram e ouviram, ficaram sem perceber (quase) nada.

 

Explico. Para os meus filhos, o Sporting são os jogadores, os jogos que vêem na televisão ou os relatos que ouvem na rádio. Ou, no limite da ingenuidade infantil, todas as pessoas que se vestem de verde. Ou seja, ainda não estão na fase de entender que alguém manda e gere o nosso Clube.

 

Daí que explicar-lhes que o nosso Clube vai para eleições foi um enorme desafio. O conceito de eleições é, já por si, para eles, um mistério da natureza. Tentar fazê-los perceber que há “um senhor que manda” no Sporting e que vai agora dar o seu lugar a outro mais difícil é.

 

As perguntas sucederam-se com natural curiosidade e, confesso, existiram algumas a que eu próprio não consegui responder. Mas no fim desta conversa lá conseguiram entender que o Sporting não vai acabar, que os jogadores continuam a jogar e que, com sorte, as vitórias vão chegar. E a pergunta, inevitável, lá surgiu: “E quando é que vamos ao Estádio conhecer o novo chefe do Sporting?”

 

Fica aqui então lançado o repto ao futuro Presidente do nosso Clube para, um dia, se assim o entender, ser apresentado a dois admiradores seus. Lá em casa, caro Presidente, não querem saber quem o senhor é, quais os seus projectos, ou a sua equipa, mas apreciam-no por aquilo que representa, mesmo que nem sequer o conheçam.

 

Com isto, descobri que os meus filhos aprenderam uma valiosa lição. Mostraram que não se metem no que não percebem, e são, acima de tudo, institucionalistas. Se todos no Sporting fôssemos assim, o nosso próximo Presidente iria ter, seguramente, a sua vida bem mais facilitada. Pela minha parte, digo-lhe, desde já, que terá o meu apoio a partir do dia em que tomar posse. Porque é o meu Presidente.

 

*Artigo desta semana do jornal do Sporting

A engrenagem*

Já vos aqui falei de Jean-Paul Sartre. Uma das minhas obras de eleição é “A Engrenagem”, um livro/peça de teatro que nos conta a história das últimas horas do ditador Jean Aguerra, cercado no seu palácio presidencial por revoltosos irados que estão a tentar tomar o poder.

O enredo anda à volta de um país pobre que tem petróleo, mas este é explorado por uma companhia estrangeira, numa concessão dada pelo tirano anterior, que foi deposto por causa disso mesmo.

Jean Aguerra tinha tomado o poder com a promessa de nacionalizar o petróleo. Nunca o fez. No tribunal popular, onde ocorre um julgamento fantoche, os diálogos entre os revoltosos e o ditador são uma peça de literatura pela rudeza das palavras, a podridão do poder e as aspirações de quem o quer tomar. Entre os que estão prestes a vencer a contenda estão dois ex-amigos de Aguerra: François e Suzanne.

A vida de Aguerra, pessoal e política, é escrutinada ao pormenor. Agiu mal quando tomou o poder, agiu mal quando o conservou, agiu contra o povo e contra quem em si confiava. Entregou-se ao whisky e bebia sem parar.

O rol de acusações sucede-se, com a acção a desenrolar-se entre o presente (o tribunal) e o passado, para se provar a culpa do ditador. Já não se julga apenas o líder, aquele que foi o desejado, mas o homem e as suas acções. E, no meio da turba irada, para contentar as hostes, vale tudo.

Jean Aguerra conta também o relato de uma reunião havida, nos primeiros momentos da revolução entre si e o embaixador do país que explorava as reservas de petróleo. Diz o diplomata, no relato do ditador:

“O governo do meu país encarregou-me de vos dizer que não tem a intenção de intervir nos nossos assuntos internos. Por consequência, Excelência, reconhece a vossa autoridade. Há apenas um ponto sobre o qual não transigiremos, porque toca nos interesses dos nossos súbitos. Deve ficar assente que mantereis o status no que se refere às concessões petrolíferas”(...) e “qualquer atentado contra a propriedade dos nossos nacionais seria considerado pelo meu Governo como um casus belli. Para apoiar eventualmente o seu pedido, o meu Governo concentrou trinta e cinco divisões ao longo das nossas fronteiras”.

O julgamento prossegue, e Aguerra limita-se a ouvir. Das poucas palvras que se lhe retiram destacam-se estas: “Pobres idiotas! Vocês acreditam numa mudança de política, mas não vão ter senão uma mudança de pessoas”. E, apontando para o que lhe sucederá, diz: “Farás a minha política!” Fá-la-ás porque não há duas a fazer. Imaginas que vou justificá-la? Hás-de ser tu que a justificarás, daqui a três, daqui a seis meses”.

Como estava previsto, Aguerra é julgado e condenado à morte. Depois da morte de Aguerra, Sartre, a finalizar o livro, coloca a acção deste no gabinete do ditador deposto, onde se encontra agora François. Que se prepara para receber, à semelhança do seu antecessor, o mesmo embaixador do país estrangeiro que explora o petróleo nacional.

“O embaixador está diante de François. Fala polidamente, mas mal velando a ameaça contida nas suas palavras. François escuta-o com um ar feroz.

- O nosso Governo não pretende senão ter relações de amizade com o vosso – diz o embaixador.

– Estou, no entanto, encarregado de vos prevenir de que, se nacionalizarem os petróleos e desapossarem os nossos nacionais, consideramos isso como um casus belli.

- O vosso Governo não tem de intervir nos nossos assuntos internos – diz François.

- Como quiser, Excelência. Lembro que o vosso país é pequeno e que o nosso é muito grande.

Um silêncio.

O embaixador insiste polidamente: - O meu Governo aguarda uma resposta precisa.

- Não tocaremos no petróleo – diz François.

O embaixador inclina-se com um sorriso irónico.

- Não esperávamos menos da vossa ponderação, Excelência. Depois retira-se.

Da porta, o criado grave volta-se para François:

- A delegação dos operários do petróleo está à espera de Vossa Excelência.

- Espera – diz François.

– Dá-me um copo de whisky. O criado serve-o sem dizer palavra. François bebe e pousa o copo. Depois faz sinal ao criado e diz, com um ar sombrio:

- Manda-os entrar.”

 

*Artigo desta semana do Jornal do Sporting

Chega de aguentar!*

Após inúmeras solicitações de amigos com contactos privilegiados na Banca e sentindo que existe efectivamente uma vaga de fundo que congrega sócios e adeptos das mais variadas tendências, aceitei – não sem ouvir a opinião da minha mulher, filhos e família em geral – apresentar a minha candidatura à presidência do Sporting Clube de Portugal.

Alguns de vós, embora poucos porque os sportinguistas conhecem-me, perguntarão porventura porquê. Espanta-os, quiçá, que uma individualidade com as minhas responsabilidades públicas opte por entregar-se, de alma e coração, a uma causa que muitos dão como perdida.

Tenho também ouvido os críticos do costume chalacearem com o facto de a lista de putativos candidatos (a palavra é do mais clássico latim) à presidência do clube já ter a extensão da lista telefónica de Shangai. "Mais um para quê?", interrogam-se com um esgar de desdém. Pois não serão eles a demover-me desta decisão, a qual, uma vez tomada, abraço em simultâneo com a razão e o coração.

Os sportinguistas são Portugueses. Parece uma verdade digna do senhor de La Palisse mas sucede que somos, mais do que isso, os mais Portugueses entre os Portugueses, porque nenhuma outra instituição tem padecido de tantas similitudes com o próprio país; Vivemos sem dinheiro, protestamos sem que os protestos sirvam para alguma coisa, ansiamos por uma ajuda financeira externa que nos ponha de uma vez por todas equilíbrio nas contas e, internamente, desperdiçamos tempo e energia em querelas intestinas que dão ao acessório a aparência do essencial. Mas, parafreaseando Fernando Ulrich, vamos aguentando.

É esse mesmo, aliás, o mote da minha candidatura: “Chega de Aguentar!”. Em breve, numa conferência de imprensa de formato completamente inovador porque dará aos jornalistas presentes a possibilidade de fazerem todas as perguntas que entenderem, será apresentado em detalhe o programa desta  mesma candidatura.

Ela não fará tábua rasa das lições do Passado, porque aquilo que não aprendemos com os erros (os nossos e os alheios) não nos permite progredir. Mas é o diagnóstico certeiro do Presente que norteará o desiderato capaz de orientar o Futuro. Pensemos na constelação do Leão. Ela inclui a estrela Regulus, que entre os árabes era chamada Qalb al-Asad. “O Coração do Leão”. Chega, pois, de aguentar. É no âmago desse coração de Leão que devemos encontrar a coragem e a audácia para rompermos com a choraminguice e darmos o salto que se impõe.

E dito isto, certo de que já perceberam que brinco, peço-vos que encontrem nas entrelinhas do meu sentido de humor o que elas contêm de seriedade. Como diz o povo: “A brincar, a brincar, se dizem as verdades”. Porfiemos.

*Amanhã em versão impressa no Jornal do Sporting (Where else?) 

O Leão da Estrela*

Num destes fins-de-semana revi, pela enésima vez, este clássico filme português. Numa primeira tentativa, ainda tentei que os meus filhos se sentassem para ver comigo, mas ao fim de pouco tempo tive de desistir da ideia. Frases como “não podemos ver o Manny Mãozinhas?” ou “pai, não quer vir brincar com os beyblades?” afastaram-me algumas horas desta intenção.

À noite, nesse mesmo dia, regressei ao sotão para ver O Leão da Estrela. Miúdos deitados, tudo resolvido e tratado, e pude então regressar ao Portugal dos anos 40, para (re)ver um dos meus filmes de eleição. Estava eu embrenhadíssimo nas desventuras de António Silva e Artur Agostinho quando, de repente, começo a ver duas cabecitas no cimo da escada. Pé ante pé, os meus filhos tinham saído da cama e, à socapa, subiam para “ir ver o filme com o pai”.

Logísticas para aqui e para ali, manobras de “eu fico ao pé do pai”, “não, eu é que fico” e lá conseguimos sentarmo-nos os três no sofá, este vosso escriba no meio, com os seus filhos aconchegados.

Sei que, no filme, ainda chegámos à parte do desafio, onde o Sporting vai às Antas e vence por 1-2, intervalado de algumas perguntas e risos solidários dos meus filhos com os risos do pai. Mas estávamos os três de tal forma aconchegados que nem dei por ela.

Despertei com a minha mulher a olhar para nós e com máquina fotográfica em punho, acabadinha de registar o momento. Quando vi a foto, não pude deixar de sorrir. Nós os três a dormir, com os gatos bem junto a nós, esparramados no pouco espaço que sobrava disponível...

Acordei os meus filhos e fomos todos dormir. Quando os estava a deitar, cada um no seu quarto, ainda deu para mais um momento de felicidade. O meu filho pergunta-me quem ganhou o jogo e o sorriso dele ao saber que foi o Sporting (mesmo sabendo que era um filme) valeu a noite. Com a minha filha, mais prática e pragmática, fui brindado com o comentário que, no dia a seguir, lá teríamos de ver o filme outra vez porque não vimos o jogo do Sporting até ao fim.

Deitei-me, com um sorriso nos lábios, e dei por mim a pensar que viver a vida não pode ser muito melhor que isto, pois não?

 

*Artigo desta semana no jornal do Sporting

Campeonatos de matraquilhos*

Recentemente, num almoço de domingo na nossa casa de família, demos por nós a evocar memórias antigas de sportinguistas. Mais interessante do que a tertúlia em si – que irei retomar num próximo artigo – foi a (re)descoberta da mesa de matraquilhos da minha infância. Tapada, ignorada e esquecida durante anos foi, naquela tarde, a felicidade das gerações mais novas da família (e, confesso-vos, das restantes).

A ideia de um campeonato de matraquilhos, a efectivar-se logo de seguida, foi imediata. Durante algumas horas, voltámos todos a ser crianças e a disputar, de forma aguerrida, as bolas em “campo”. Mas giro, giro foi ver os meus sobrinhos e os meus filhos em disputa acesa sobre quem é que iria jogar pelo Sporting. Porque, como todos sabem, qualquer mesa de matraquilhos que se preze (excepção talvez às que sejam vendidas no norte de Portugal) têm os eternos rivais a jogar entre si.

A contenda lá se resolveu, com as equipas formadas pelos mais pequenos a jogarem à vez pelo nosso Clube. E, claro está, o Sporting ganhou porque quem estava a jogar pelo slb deixava, misteriosamente, os golos entrarem quando havia a ameaça do benfica ganhar o jogo... Quando o campeonato acabou, fiquei para trás a observar aquele que foi um dos brinquedos mais emblemáticos da minha infância. O tempo tinha passado por esse enorme tabuleiro, mas ainda havia algo que me transportava para o passado: a mesa tinha as marcas de cigarros do meu pai, um dos avançados estava pintado de negro com um enorme J, de Jordão, na camisola, ladeado, obviamente, por um MF (não é Mota Ferreira, mas o incontornável Manuel Fernandes). Os bonecos do slb estavam maltratados como o meu irmão e eu os tínhamos deixado há 30 anos e, no relvado, junto à baliza do nosso adversário, tinha escrito “goloooo”, como se, por escrevermos a palavra mágica, tívessemos por garantida uma vitória do nosso Sporting.

Dei por mim a sonhar acordado e, por breves momentos, regressei a recordações que me são queridas. Com a vantagem de, agora, a juntar às minhas memórias passadas, outras, de um passado mais recente, em que os nossos descendentes mostram que quem sai aos seus não degenera.

 

*Artigo desta semana no jornal do Sporting

A primeira vez*

É tão miserável quanto isso, mas não me recordo qual foi o primeiro jogo que fui ver ao velhinho Alvalade. Sei que ganhámos, sei que estava com o meu pai e com o meu irmão e sei que gostei. Já era do Sporting e a ida ao Estádio foi o cumprimento de uma promessa que há muito era devida. Era muito miúdo – devia ter 6 ou 7 anos – e não devo ter ligado grande coisa ao desafio em si.

Do baú escondido das minhas memórias, tiro odores, sons e cores. O cheiro das bifanas e dos coratos, o barulho das claques e dos adeptos e aquele imenso verde que nos enchia os olhos e nos deixava (e ainda hoje) nos deixa felizes.

E o regresso a casa, com a sensação de dever cumprido. Entrava, como adepto, no círculo de confiança de gerações de sportinguistas que, juntos, incentivam os nossos a jogar e marcar golos.

Pedinchei tudo o que podia pedinchar. Bandeira, cachecol, camisola... Possivelmente consciente da importância que estava a viver, o meu pai lá acedeu ao recuerdo da praxe e saí de Alvalade com a minha primeira camisola oficiosa do Sporting. Não havia para o meu tamanho, pelo que acabei por levar uma que, acho, só me serviu perfeitamente quase dois anos depois. Na altura estava já puída e gasta, depois de meses e meses de intensos usos e lavagens.

Os anos foram passando, a família cresceu e alargou-se. Ainda vamos ao Estádio juntos sempre que as vidas de todos assim o permitem. Quando o meu sobrinho mais velho começou a ter idade para isso, o meu irmão introduziu-o nesta nossa tertúlia familiar, masculina e desportiva. Em breve, será a minha vez de levar o meu filho e estreá-lo nestas lides. À semelhança do que aconteceu comigo, quero que a primeira ida dele ao Estádio seja emblemática e marcante.

No jogo que formos ver, possivelmente ainda nesta época, desculpem-me os mais fanáticos, mas não será importante saber se vamos ganhar ou perder. Claro que gostava que o meu filho visse o Sporting pela primeira vez a jogar e a ganhar. E, já agora, a dar uma cabazada das antigas!!! Mas, acima de tudo, quero que ele se lembre da sua primeira vez. Que, quando chegar à minha idade e a nostalgia apertar, olhe para os recuerdos que ainda terá – o pai vai ser mais organizado nisso que o avô.... – e recorde que foi naquele dia que se iniciou na tradição familiar. E que feche a caixa onde estas memórias estão e se vire para o seu filho, meu neto, e diga: “Está na hora de irmos para Alvalade com o avô. Vai ser a sua estreia, filho”. E, no caminho para o Estádio, recordaremos certamente como foi boa a nossa primeira vez e a falta que fazem os que, infelizmente, já não estarão connosco.

 

*Artigo desta semana no Jornal do Sporting

A anomalia da normalidade*

Bem sei que é suposto escrever esta crónica recorrendo integralmente à minha própria criatividade – isto apesar de a contrapartida, por tanto esforço periódico dos neurónios, resumir-se a uma simpática mensagem do meu editor recordando o prazo da crónica seguinte – mas, desta vez, foi irresistível o apelo. Tenho mesmo que reproduzir na íntegra este desabafo do Leonardo Ralha, jornalista do Correio da Manhã e também um dos autores do blogue colectivo de idiossincráticos sportinguistas, 'És a Nossa Fé' (o endereço é www.sporting.blogs.sapo.pt, para quem quiser aumentar-nos as audiências com a sua visita). Escreve assim o Leonardo: “Além dos dois pontos recuperados ao FC Porto e Benfica, tal como os três pontos ao Sporting de Braga, o Olhanense-Sporting deste domingo teve a maravilhosa qualidade de nos permitir regressar à normalidade. Aquela normalidade em que visitamos uma equipa ao nosso alcance e saímos de lá com três pontos. Aquela normalidade em que os médios leoninos ganham posse de bola em posição frontal, rematam forte e colocado e fazem golo. Aquela normalidade em que não acabamos o jogo com dez em campo. Gosto muito de normalidade e quero mais”. Com o parágrafo do Leonardo fica sintetizada da melhor forma a sensação que colectivamente nos revisitou estas últimas semanas; Nada de euforias de vitória, nem delírios megalomaníacos de supremacia, népia de disparos de adrenalina para o ar à cowboy. Apenas, isso sim, uma semi-perplexa consciência de felicidade. Felicidade por voltarmos a sentir emoções que já tínhamos sentido há muito tempo, mas entretanto esquecêramos. Como se a nossa mãe tivesse desaparecido de casa durante uns meses e, quando voltasse, nos desse abraços e beijos e pensássemos: “Ah! Pois é. Era mesmo a isto que sabiam os mimos dela”...Algo assim deste calibre. Reparem que não escrevo isto para menorizar os resultados alcançados. Era o que faltava. Longe de mim. Não, não, não. Simplesmente para fazer notar que o nosso estado algo traumático, decorrente dos cataclismos e horrores sofridos nos últimos tempos, deve, quando confrontado com a novidade de um par de vitórias sobre clubes um bocado da treta, reagir de forma saudável dizendo: “Ora cá está. Voltámos ao normal. Pois muito bem. Agora é começar a ganhar os jogos a sério”. E para acabar como comecei, roubando as palavras de outros que escrevem melhor do que eu, termino com uma citação de Aldous Huxley, o autor de 'Admirável Mundo Novo: “A normalidade é tão somente uma questão de estatística”, escreveu ele. Nós não pedimos um admirável mundo novo para o nosso Sporting. Apenas que a estatística volte a ser nossa amiga e não a meretriz que se tem revelado nos últimos tempos. E que a normalidade, uma vez regressada, seja então ela própria ultrapassada pelas melhores razões.

*Texto publicado hoje no Jornal do Sporting

Memórias*

Hoje vou falar do passado. Sim, é verdade, é uma desculpa miserável para não falar do presente e não tentar adivinhar o futuro. Mas, refugiado no passado, do alto das minhas 40 primaveras, tenho momentos bons para partilhar convosco. Mesmo quando pensamos nos anos intermináveis de jejum, quando olhamos para os campeonatos que vencemos, para os que nos fugiram, para tudo o que fomos, somos e podíamos ter sido, há sempre momentos que nos fazem sorrir. Porque os presenciámos junto de quem gostamos.

Se calhar o que vivemos hoje no que no futebol diz respeito é uma questão de tempo e distância. Hoje sofremos e estamos agastados porque todos os dias há sempre algo ou alguém que nos lembra que estamos em crise. E, tal como o diabo, nos tentam a trocar de clube ou tudo fazermos para mudarmos o que sentimos que está mal no nosso Clube.

A minha experiência diz-me que, embora com muitas razões de queixa enquanto adepto, daqui a 20 anos, esta época será olhada como um pormenor, uma curta linha na grandiosa enciclopédia sportinguista. Estou a escrever isto e assalta-me o pensamento de: “e se até ao fim da época descemos de divisão?”. É um pensamento atroz, bem sei, algo que, ao contrário dos nossos rivais, nunca nos aconteceu. Vamos afastar esse pensamento então...

Dizia eu que o que nos falta neste momento é o distanciamento histórico para olharmos friamente para tudo o que nos rodeia. Eu sei que o Jordão, o Manuel Fernandes e o Oliveira não voltam para o campo, tenho consciência que os “Cinco Violinos” são uma memória do colectivo de pessoas com a idade do meu pai. Sei que há dez anos não ganhamos um campeonato e, infâmia das infâmias, na hora que escrevo estas linhas, os nossos eternos rivais estão a liderar o campeonato e, com o devido respeito por estas equipas, vejo-me, como Sportinguista, a estar preocupado com os resultados do Rio Ave, do Paços de Ferreira ou do Estoril.

Parece não haver receitas mágicas nem estratégias que nos possam fazer vislumbrar um rumo diferente ao actual. Mas, hoje, como ontem e como amanhã, continuo e continuarei a ter orgulho na escolha passional que fiz há muitos anos. Sou e serei Sporting. Sempre. E nada ou ninguém mudará isto. Porque, como na vida, também no clube que escolhemos apoiar, temos alegrias e temos tristezas. E, como sabemos, o que não nos mata torna-nos seguramente mais fortes.

*Artigo desta semana do Jornal do Sporting

É tempo de unir os sportinguistas num Congresso de fervor clubístico*

Não é seguramente do desconhecimento de um único sócio ou adepto do Sporting o momento infeliz que a equipa principal de futebol atravessa tendo-se sobre esta temática já escrito demasiadas coisas. Não contribuirei mais para essa análise. Assim, muito mais importante do que o dissecar do presente – sendo que o presente é o actual campeonato da Liga - importa, a meu ver, tratar do futuro.

E o futuro implica ter a certeza de que o Sporting saberá atravessar esta crise de resultados e perpetuar a sua presença firme como “grande” do futebol português que é, livre de maiores constrangimentos do que aqueles porque tem passado. Vem isto a propósito de um pedido de alguns sócios destinado à realização de uma Assembleia Geral Extraordinária do clube visando o derrube da actual Direcção, pedido este especialmente crítico para com o Presidente do clube, Luiz Godinho Lopes.

A par deste, e com intuito, também, de ouvir de forma alargada os sócios, um grupo de associados resolveu solicitar a convocação de um órgão que reúne periódicamente, e que é, de acordo com os Estatutos do clube, o Congresso Leonino. Trata-se, no meu entender, de uma feliz iniciativa porquanto permite discutir de uma forma mais abrangente a situação do clube, sem prejuízo de nele se poder fazer uma crítica ao que menos bom tem acontecido no Sporting nos últimos meses. Aqui chegados, e perante dois pedidos de dar a palavra aos sócios, a decisão está agora primeiro nas mãos da Mesa da Assembleia Geral. Recorde-se, a este propósito, que o PMAG anunciou publicamente que seria importante dar a palavra aos sócios, mas não divulgou a forma como entendia que a mesma deveria ser efectivada.

Sabendo-se que os compromissos financeiros do clube, que ascendem a muitos milhões por mês, não podem estar dependentes de uma qualquer AGE que, por mais legitimidade estatutária que tenha - e esta ainda se desconhece se o terá - vise, tão só, derrubar a actual Direcção sem que se vislumbrem quaisquer alternativas no horizonte, é desejável que o presidente da Mesa da Assembleia Geral do Sporting, Eduardo Barroso, que possui, assumidamente, e nas palavras do próprio, “o coração ao pé da boca”, tenha, independentemente disso, o suficiente sentido de responsabilidade para perceber que o futuro Sporting é demasiado importante para que possa ser posto em causa por uma iniciativa de sócios que, pese embora o seu indiscutível fervor clubístico, não leva em conta aquelas que são as pesadas responsabilidades do clube e em nada contribui para assegurar o futuro do Sporting.

É, pois, altura de ouvir os sócios, sim, mas ouvi-los de forma a que se possa conciliar o normal exercício de gestão de uma Direcção que foi eleita pelos sócios com o também normal processo de auscultação dos Sportinguistas em reunião alargada dos mesmos. E esse desiderato só o Congresso Leonino, e nenhuma outra reunião, permite assegurar na plenitude.

 

*Artigo publicado hoje no Jornal do Sporting

As claques*

Nunca pertenci a nenhuma claque. Nunca vi um jogo no Estádio sentado entre eles. Por isso, tudo o que aqui posso dizer poderá ser mal-interpretado ou passível de crítica. Que seja o que tiver de ser...

Apesar do meu afastamento em relação a estes grupos organizados de sportinguistas, confesso-vos que sempre me causaram admiração e, em miúdo, achava-lhes graça. Os cânticos, as faixas, a provocação ao adversário faziam parte de um imaginário que me transportava para as batalhas épicas da Idade Média.

No final de contas, os sportinguistas das claques estão sempre presentes, faça chuva ou faça sol, deslocam-se ao estrangeiro para apoiar a equipa, fazem milhares de quilómetros para dizer “presente” e tantas vezes, com as coreografias organizadas, os gritos de guerra e o apoio aos nossos jogadores, acredito que muitos deles acabem por ver os 90 minutos de jogo muito mal e porcamente. E, ao contrário de muitos sportinguistas, estão no Estádio antes do jogo acabar e ficam até ao fim. Ou mesmo depois disso.

Mas algo se tem vindo a passar no reino das claques, num ritmo de descrédito que não é de agora. Hoje, as claques são vistas como um grupo de arruaceiros, infiltradas de anarquistas, extremistas (de direita e de esquerda), que usam o futebol para dar azo às suas avarias.

No Sporting, não estamos imunes a tudo isto. Mas quero genuinamente ver a floresta e não olhar apenas para a árvore. E sei que, entre as várias claques do nosso Clube, há elementos válidos, sportinguistas tão bons ou melhores do que qualquer um de nós. Sempre olhámos para eles como o sangue do nosso Clube. Com o comportamento das claques no Estádio, ficávamos a saber se os sportinguistas estavam a gostar do treinador, do jogador X ou do jogo em questão que estávamos a ver.

Conscientes do potencial das claques e do seu valor para o Clube, as direcções tentaram “domesticá-las”. E isto passou-se tanto no nosso Clube, como em todos os outros. Verbas, prebendas, facilidades, sedes, espaços no Estádio, fechar os olhos a situações nem sempre claras.

Sabemos que a situação no Clube em termos de futebol está como está. E das claques, temos vindo a assistir ao corolário do pulsar do que pensam muitos sportinguistas. Mas há coisas que, desculpem a franqueza, podem ser permitadas a um qualquer adepto anónimo, mas nunca às claques: “Greve” de apoio ao Clube e, no jogo com o Paços de Ferreira, gritos de guerra que evocam outras guerras não é possível.

Todas as reclamações são legítimas ou questionáveis, consoante as nossas opiniões pessoais, mas durante os 90 minutos de jogo o que se pede as claques é o mesmo que se pede a qualquer sportinguista: que apoiem a Equipa, que dêem força aos jogadores. É para isso que, supostamente, existem. Foi para isso que, supostamente, foram criadas.

Se as nossas claques deixaram de acreditar e optam por não apoiar, e pelo meio, usam a sua notoriedade para criar novos focos de instabilidade ao Clube, para é que servem mesmo?

*Artigo publicado hoje no Jornal do Sporting

Desejos para 2013*

Gostava de colocar no primeiro item da minha lista de desejos que o Sporting fosse campeão nesta época. Infelizmente não vai ser possível.

Gostava que os nossos adeptos fossem mais amigos do Clube e quando fossem aos jogos não saíssem a meio ou antes do jogo terminar porque estamos a perder. Não sei se vai ser possível.

Gostava que as pessoas com visibilidade pública do Sporting não se empenhassem em fazer do Sporting o motivo de chacota das conversas para os próprios terem uma suposta aura de credibilidade e independência. Mas porque os seus egos são do tamanho do mundo sei que isto não vai ser possível.

Gostava que os jogadores do Sporting jogassem como equipa e não como se cada um deles se achasse a última Coca-Cola do deserto. Tenho muitas dúvidas que isto seja possível.

Gostava que as supostas contratações que vêm em Janeiro trouxessem unidade e estabilidade à equipa e regressássemos às vitórias. Temo que novos jogadores não signifique isso mesmo, por isso, também, não vai ser possível.

Gostava que o futuro canal de televisão do Clube fosse uma forma de dar visibilidade ao Sporting e aumentar as suas receitas. Quero acreditar que isso é possível.

Gostava que a expansão internacional da marca Sporting se traduzisse em mais verbas para o Clube e uma maior respeitabilidade. Interna e extena. Mas enquanto não forem mudadas as regras da SAD e do Clube, ninguém vai investir se não mandar. Não sei se vai ser possível.

Gostava de afastar o sentimento que me assola de que “para o ano é que é”. Podemos não ganhar nada, ter uma época miserável, mas gostava de ir ao Estádio e sair de lá contente. Quero acreditar que algumas vezes poderá ser possível.

Gostava que, de uma vez por todas, acabassem as críticas à estratégia da actual Direcção. Têm um mandato, foram eleitos. E quando as próximas eleições surgirem, então que sejam disputadas e discutidas. Isto, todos nós, do Sporting, sabemos que não é possível.

Gostava de continuar a escrever aqui sobre as alegrias que o Sporting me dá e partilhar convosco as memórias do meu sportinguismo. Numa altura em que nos agasta falar do presente, é melhor recordar o passado e olhar para o futuro. Este ponto depende apenas de mim, pelo que, acredito, será possível.

Gostava de desejar, a todos os sportinguistas em geral e, em particular, aos que têm a paciência de me ler e acompanhar os meus desabafos, um excelente ano de 2013! Também aqui, não sei se será possível...

 

*Artigo publicado no jornal do Sporting no passado dia 3

Venceremos!*

No dia 1 de Setembro de 1939, a Alemanha invadiu a Polónia. Dois dias depois, o Rei Jorge VI de Inglaterra, tido como um monarca fraco, fez um discurso arrebatador, preparando o seu povo para a guerra e os tempos difícieis que se avizinhavam. O texto aqui escrito, com os necessários paralelos, é uma adaptação para a realidade do nosso Clube. Mesmo nos tempos mais negros, precisamos de encontrar a esperança...

“Nesta hora grave que nos encontramos, possivelmente a mais decisiva na nossa história, quero aqui enviar uma mensagem de esperança a todos os sportinguistas, falando com a mesma profundidade de sentimento que sei que cada um de nós tem em relação ao momento que vivemos. Não preciso de o esconder de vós: Estamos em crise.

Por diversas vezes, ao longo dos últimos tempos, temos tentado encontrar uma solução pacífica para as diferenças entre nós e em relação aqueles que são nossos adversários. Mesmo em relação aqueles que se encontram bem junto a nós e que, no Estádio, torcem pelo nosso onze. Os últimos meses mostraram que a busca por uma solução pacífica tem sido em vão...

Estamos a ser empurrados para um conflito que não desejámos, para enfrentar o desafio de um princípio que, se prevalecesse, seria fatal para qualquer equipa onde esta se encontrasse. É um princípio que permite a um clube de futebol, na busca egoísta de poder e de vitórias, de desconsiderar os adversários, de não honrar os seus compromissos e as suas promessas solenes. Um princípio que, no fundo, visa sancionar o uso da força ou ameaça de força, contra os outros clubes.

Se este princípio prevalecesse, hoje seria o Sporting a ser posto em causa. Amanhã poderiam ser outros clubes que estaríam em perigo, com todas as garantias, liberdades e sã convivência entre todos a serem postas em causa e irremediavelmente perdidas.

Esta é a questão principal que nos leva ao confronto e que nos obriga a ser muito mais do que um clube que vive dias negros na sua história, com derrotas atrás de derrotas e polémicas nos jornais. Para o bem de todos nós, do futuro do nosso clube e do futebol profissional, é impensável que, enquanto grande Clube que somos, que nos recusemos a cumprir o desafio para o qual agora nos empurram.
É por isso que me dirijo hoje a vós e que vos chamo, sportinguistas, a estarem juntos nesta batalha e que, juntos, lutemos pelo nosso Clube. Peço-vos calma, serenidade e união neste momento.

A tarefa será difícil. Poderão existir ainda mais dias negros pela frente, mais horas difícieis. E a guerra que agora vivemos poderá extender-se para além das quatro linhas de um qualquer desafio de 90 minutos.

Mas nós temos a razão do nosso lado. Temos a nossa história, que nos orgulha. Temos gerações e gerações de sportinguistas que olham para nós e que procuram respostas. Se todos e cada um de nós se manter resolutamente fiel à causa do Sporting, se todos e cada um de nós estiver pronto para qualquer serviço ou sacrificío que o Sporting poderá exigir, tenho a certeza que, demore o tempo que demorar, iremos prevalecer”.

*Artigo desta semana do jornal do Sporting

O burro e o leão*

Era uma vez um burro, que andava muito feliz. Na quinta onde vivia, achava-se o rei do espaço. Cada vez que zurrava, as galinhas, os patos e os perus assustavam-se e recolhiam ao seu canto. Cada vez que aparecia, os porcos, as cabras e as ovelhas tremiam de medo. O burro pensava que era o rei dos animais...

Como todos sabemos, vozes de burro não chegam ao céu, mas chegaram aos ouvidos do leão, que resolveu investigar quem era este animal que se dizia rei e que os restantes tanto pareciam temer.

E, como estava bem disposto e até tinha comido bem, resolveu ter um pequeno “tête-à-tête” com o burro. Quando este o viu, estremeceu de medo, mas achou que o leão estaria fraco para reagir. Por outro lado, estando o burro rodeado dos outros animais, subservientes e temerosos, seria de mau tom dar parte fraca e fugir. Tinha, no fundo, a coragem dos simples e dos ignorantes. Não é por nos acharmos poderosos que, de facto, somos...

O leão confrontou o burro e perguntou-lhe porque razão é que este se achava e se intitulava o rei dos animais. De onde é que vinha esta mania das grandezas? Em que é que o burro se baseava para tentar usurpar um título que, desde sempre, foi atribuído ao leão?

Sem perceber a fina ironia, o burro lá explicou que se tinha imposto pela força da sua voz. E resolveu mostrar isso mesmo ao leão. Zurrou como nunca tinha zurrado, assustando todos os animais da quinta. O leão, impávido e sereno, apenas replicou que a voz impressionava, mas que o burro mostrasse o tamanho da sua sombra.
Agora é que o burro estava baralhado. Mas o leão explicou. E levantou-se. E, ao fazê-lo, a sua sombra extendeu-se sobre a quinta, cobrindo a capoeira, a coelheira, o estábulo e a casa. E, lá dentro, todos os animais vociferaram em pânico, temendo a sombra do leão.

E depois, veio o silêncio. Um silêncio pesado, de chumbo, daqueles que antecedem as tempestades, ou os inícios de uma grande batalha. Como se, com a sua sombra projectada, o leão tivesse transformado o dia em noite. Ao ver a imponência do leão, o burro finalmente percebeu: O leão era, como sempre tinha sido, o rei do animais. De todos os animais.

E afastou-se, com as orelhas caídas.O exemplo estava dado. A insubordinação animal anulada. Pausada e majestosamente, o leão afastou-se e continuou o seu caminho.

*Adaptação de um conto infantil escrito por António Torrado. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência...

(Artigo desta semana publicado no jornal do Sporting)

Comentários à capa do jornal Sporting?

Estou cansada. Não sei que mais ou de que outra forma dizer isto. 

Nada abala a minha convicção, não está em causa para mim mudar de clube ou sequer deixar de gostar do meu. Mas este sobreviver a constantes argoladas está a cada vez mais difícil.

No domingo ouvi a já tão falada entrevista. Senti-me feita de parva, senti que as respostas de andar à volta não satisfazem ninguém preocupado com o Sporting e só alimentam todo o circo em volta. Lembrei-me de quando estudava pouco e por escrever bem andava à volta do mesmo assunto e conseguia uma boa nota. 

Há uma atitude de daqui não saio daqui ninguém me tira, que roça o ditatorial e a última capa do jornal do Sporting só me confirma esse carácter. Lamento, eu alinhei até aqui, aceitei a direcção que ficou, tenho aceitado tudo, pago as minhas quotas há vinte anos, vou aos jogos da equipa senior de futebol. E já há uns meses (anos?) que não é só lúdico ou o meu momento de lazer, no qual aproveito para descontrair. Não tem sido possível essa descontração.

Eu gosto muito do Sporting, e cada notícia que sai, cada comentário vindo de quem tem responsabilidades vai na direcção oposta daquilo com que me identifico.

Gostava muito de não ver assim, mas é tudo um circo. Cada convidado para ir à tv é mais um passo nesse sentido. Ontem recusei-me a ouvir mais.

Este post é a quente e não é. Desde domingo ando a remoer nestas atitudes de "vamos mostrar que há muita gente do lado da direcção apesar de todas as evidências" e hoje, a capa do jornal (pode ser uma gota de água, mas o copo para mim está praticamente cheio) confirma-mo. E não gosto. 

Palavra de honra, gosto muito que a equipa B, os juniores e todas as modalidades tenham bons desempenhos, louvo-lhes os esforços e dou-lhes os parabéns. Mas a equipa principal de futebol não ter resultados é catastrófico e não posso fingir que não percebo que se tapa o sol com a peneira. 

Em qualquer outra altura veria esta capa apenas como melhor ou pior gosto de quem a pensou. Mas dadas as circunstâncias, acho que vai mais longe que isso e mais uma vez o Sporting é a chacota geral. Já chega.

Ao menos temos as miúdas mais giras*

Na segunda-feira fui a Alvalade. Durante a hora que antecedeu o jogo e, confesso, ainda durante a primeira meia-hora, estive feliz e nada arrependido de ter ido ao Estádio. Passei pelas roulottes, o espírito estava em alta. Fui para o meu lugar, vivi e absorvi o espírito de pré-derby. Estava em estágio.

Gostei do que vi na primeira meia-hora. Não sei se os jogadores embicaram que aquele era o jogo das nossas vidas ou não, mas durante 30 minutos o onze leonino funcionou como tal: em equipa, com garra e com convicção. Claro está que, mais cedo ou mais tarde, haveria de compensar e lá chegou o golo do inefável Wolfswinkel. E depois, o jogo acabou. Nos cerca de 15 minutos antes do fim da primeira parte, o Sporting quis aguentar o resultado como se estivéssemos a 2 minutos do fim.

E Rui Patrício defendeu o possível, mas não estava nos seus dias. Aqueles pontapés para o lado direito, Rui????

Durante o intervalo, algo se passou no balneário. É a minha única explicação. Os jogadores eram os mesmos, mas a garra tinha desaparecido. O onze deixou de funcionar, passou a ser cada um por si e, em determinados momentos, pensei que estava a ver um desafio de rugby, tais eram os pontapés para o céu e as bolas mandadas para fora. Houve erros, desconcentração, substituições inexplicáveis. A segunda parte foi miserável.

E um ruído insurdecedor das claques benfiquistas, que conseguiram calar as nossas.

Na segunda-feira, desculpem-me o pragmatismo, mas merecermos o resultado. Não gostei dele, mas merecêmo-lo. E estar sentado, no meu Estádio, e ver adeptos do Sporting como eu que abandonam o jogo quando ainda se está a 15 minutos do fim, para mim não tem explicação. Se nós próprios não nos respeitamos, como queremos darmo-nos ao respeito?

Notas positivas de segunda-feira: vi casais de namorados, ela do Benfica, ele do Sporting, em sã convivência. Vi muita juventude, miúdos de 14 ou 15 anos que não têm memória da última vez que ganhámos o campeonato a gritarem Sporting em plenos pulmões. Vi famílias inteiras que, apesar do jogo ser a uma inacreditável segunda-feira à noite, disseram presente.

E depois de ter estado em Alvalade, ter visto o que vi, cheguei a uma conclusão que me deixa, pelo menos, mais sereno: as nossas miúdas são muito mais giras...

 

*Artigo desta semana do jornal do Sporting

Mourinho no Sporting? Yeah, right!*

Nós devemos gostar de ser gozados. Ou espancados na praça pública. Confesso que não percebo porque é que, às vezes, nos metemos a jeito para isso.

Este desabafo surge por causa de algo que, entre os adeptos alucinados do nosso clube, parece estar para durar. Não sei se vai fazer doutrina ou se será algum dia eventualmente possível. Mas bastou o jornal espanhol Marca dizer que Mourinho poderá sair no final da época do Real para que, aqui em Portugal, algumas mentes mais alucinadas já pensarem que o Special One pode vir a treinar o Sporting.

Já há mesmo quem se dê ao trabalho de, numa verdadeira lógica de teoria da conspiração, vir lembrar que Vercauteren, que coitado, acabou de chegar, só tem contrato com o Sporting até Junho. E, claro está, que Mourinho também sairá de Madrid nesse mês.

Claro que sim. Não devemos contrariar os loucos. Vamos, por isso, alimentar a ideia. Numa lógica mais rebuscada, até podemos dizer que há chineses, indianos, russos, latino-americanos (faltou-me alguém???) doidos de vontade para pagarem o ordenado milionário que Mourinho iria pedir.

Ou, claro está, que o actual treinador dos Merengues, vai dar uma de benemérito e vir trabalhar para o Sporting com um ordenadozito bem mais reduzido porque, afinal, Mourinho até pode ser profissional e competente, mas o ter o Sporting no coração desde pequenino bate mais forte...

Há uns tempos, a mesma teoria apareceu com Figo, que acabando o contrato com o Milão poderia vir a ser Presidente do Sporting. Mas essa ideia peregrina, ao menos, desapareceu tão depressa como apareceu.

Os Sportinguistas não têm mesmo mais nada em que pensar? Já não basta a situação do Clube estar como está? Tenham lá paciência, amigos. Sonhar é bonito e tal, mas vamos tentar ter os pés assentes na terra. E não achar que o que precisa de mudar no nosso Clube passa por outro(s) treinador(es) ou, vamos lá, por outro(s) Presidente(s)...

*Artigo desta semana no jornal do Sporting

O inferno nem sempre são os outros*

Jean-Paul Sartre, filósofo francês do século XX, existencialista por militância e convicção, disse uma vez que “o inferno são os outros”. Na lógica do seu raciocínio estava presente a ideia de que todas as pessoas são únicas e, como tal, têm projectos diferentes e isso faz com que surjam conflitos sempre que os projectos se sobrepõem.

Por outro lado, como diferentes que somos temos a capacidade de opção e, aqui também, nem sempre as nossas escolhas são as mesmas de quem está à nossa volta. É por isso também que Sartre refere que “o inferno são os outros”. São eles que estão no nosso caminho, no nosso projecto, na nossa escolha e tantas vezes nos condicionam e nos impedem de avançar.

No Sporting, não sei se o inferno são os outros ou se os demónios se instalaram em Alvalade e teimam em não sair. Na semana passada e pela primeira vez desde que me lembro, fomos afastados da Liga Europa ainda na fase de Grupos. Do campeonato é bom nem falarmos.

Não ganhamos um título nacional há uma década. Nos últimos anos, se formos a ver bem, mudámos de treinador. Várias vezes. Mudámos de Presidente. De estratégia. De jogadores. Investimos muito. Vendemos activos. E, mesmo assim, as vitórias tendem em não aparecer.

E antigamente havia ainda o síndrome do Natal, recordam-se? O Sporting aguentava nos lugares cimeiros da tabela mais ou menos até Dezembro e, a partir de Janeiro, era um sobe e desce constante de posição que nos inviabilizava a conquista do campeonato.

O Príncipe de Falconeri, da magistral obra Il Gattopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, a uma dada altura sugere que “tudo deve mudar para que tudo fique como está”. Defendo a estabilidade, o não pensar-se em soluções que nos podem sair caras. O não ir atrás de velhos do Restelo que, às vezes parece, estão empenhados em vender-nos ou impor-nos uma suposta mudança para que tudo fique na mesma.

Gostava de ser mágico e ter aqui a solução ideal. Não tenho. Não faço a menor ideia como o Sporting irá sair do atoleiro em que se encontra. Apenas sei, ao contrário do que defendia Sartre, que o inferno nem sempre são os outros. Nós próprios somos, por vezes, o nosso pior pesadelo.

 

*Artigo desta semana do jornal do Sporting

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