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És a nossa Fé!

Os melhores golos do Sporting (59)

 

Golo de JESUS CORREIA

FC Porto - Sporting, 2-4

20 de Abril de 1947, Estádio do Lima (Porto)

 

Qualquer cinéfilo isento reconhece: O Leão da Estrela  merece figurar entre os melhores filmes portugueses de todos os tempos. Refiro-me à longa-metragem que Arthur Duarte realizou em 1947 e se estreou a 25 de Novembro desse ano, não a uma pálida imitação que andou por aí há uns meses.

O filme original contava a história de um fervoroso sportinguista, o senhor Anastácio, que viajou com a família à Cidade Invicta só para assistir in loco ao clássico, nessa época ainda disputado no velho campo do Lima: o estádio das Antas não passava então de mera aspiração dos azuis-e-brancos.

António Silva, que interpreta o papel de Anastácio, tem neste filme algumas das melhores falas da sua longa carreira como actor e de todo o cinema português. Eis uma delas, logo no início da película: "O Peyroteo remata no Terreiro do Paço e mete golo no Estádio do Lima!" Outra, na sala da sua casa, perante um candidato a seu genro, também fervoroso Leão: "Canário recebe a bola e passa a Travassos, Travassos dribla Guilhar e passa a Vasques, Vasques recebe e passa a Albano. Albano passa a Jesus Correia. Jesus Correia centra e Peyroteo corre para a área e mete GOLO!"

Dá um violento pontapé na mesa, que se vira. A loiça quebra-se, a mulher acorre aflita, questionando o que se passa. Responde o visitante: "Foi o senhor Anastácio a meter um golo."

 

O filme alterna cenas rodadas nos estúdios da Tobis com imagens reais do FCP-Sporting da temporada 1946/47 em que o Sporting se sagrou bicampeão. A nossa equipa, treinada pelo técnico inglês Robert Kelly, assumiu a liderança à quarta jornada e não viria a largá-la. Foi um campeonato célebre por ter reunido pela primeira vez os famosos Cinco Violinos com a chegada de Travassos e Vasques, que se juntaram ao trio formado por Albano, Peyroteo e Jesus Correia.

Na longa-metragem - que tem o jogo de futebol como elemento central, entre os minutos 42 e 53 - o Sporting derrota o Porto por 2-1. Mas na realidade o triunfo foi mais amplo: derrotámos os tripeiros por 4-2, com golos de Jesus Correia (2), Albano e Peyroteo, consolidando a trajectória rumo ao título nacional. É precisamente um dos golos do jovem Jesus Correia (tinha 23 anos) que vemos num fugaz excerto - um dos raros registos filmados dessa equipa leonina que durante uma década manteve a hegemonia no futebol português.

Ignoro o motivo que levou Arthur Duarte a mudar os números do robusto triunfo do Sporting no relvado do Lima. E também desconheço por que razão o golo que vemos na imagem é atribuído a Travassos - precisamente o único dos "Violinos" que não marcou nesta partida. Importante é o fascínio intemporal que O Leão da Estrela continua a exercer nos espectadores. Refiro-me ao produto genuíno, não à imitação sem graça.

 

Já o vi inúmeras vezes. E continuo a rir com várias cenas. Como aquela em que, consumado o golo do triunfo, o grande António Silva - tão Leão na vida real como era na tela - mira o lugar vazio do seu vizinho de bancada, o portuense Barata que entretanto se pusera a milhas: "Desapareceu, o camaradinha? Raspou-se. Ainda bem. Morreu com o tiro do Travassos."

Aposto que Jesus Correia, autor do verdadeiro "tiro", terá rido tanto com esta cena como eu.

O nosso clube será o primeiro

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O teu rosto será o último, o nosso clube será o primeiro.

Um livro que morava cá em casa há algum tempo, três ou quatro anos, deu-me para o folhear agora e para lê-lo de um fôlego.

Com ligações familiares a uma terra de boa gente, o Fundão, especificamente, a uma aldeia com quatro letras encalacrada num sopé da Serra da Gardunha, voltada para sul (p.12) João Ricardo Pedro, soube tecer uma teia que nos prende pela informalidade, às vezes, crueza, da linguagem, pela história, melhor, pelas histórias que vai contando, enriquecendo-as com pormenores que fazem com que nos identifiquemos com cores, com sons, com cheiros e com emoções que são nossas, também.

Um bom livro que refiro aqui pela ligação do autor ao nosso grande clube pelas comparações que nos fazem sorrir: claro que já se imaginara a fo*** a professora de canto, mas da mesma forma que já se imaginara a fazer cruzamentos milimétricos para a cabeça de Jordão (...) tal como nunca se dirigira ao Estádio José de Alvalade com o propósito de mostrar os seus dotes futebolísticos, também nunca fizera nada para que a professora de canto, sequer, reparasse nele.(p.104)

Como futebolista o alter-ego de João Ricardo não terá nenhum sucesso já com a professora de canto as coisas correrão melhor (cf. p.106).

Um livro que se lê muito bem, que conjuga a vida pacata de uma aldeia com personagens-tipo como o padre Alberto, que torcia pelo Sporting e conhecia pessoalmente grandes glórias do clube - tinha inclusivamente uma fotografia em que aparecia abraçado ao Jesus Correia (p.50) com museus por essa Europa fora, com música erudita e com o dono de um hotel em Buenos Aires frequentado por jogadores de futebol coxos, prostitutas sem clientes, toureiros maricas, escritores (p.47) gente sem préstimo, acrescento eu, de forma irónica.

Termino com mais uma citação, com votos de boas leituras e com a certeza que o futebol é o mais importante das coisas pouco importantes.

Choviam gritos e aplausos. Havia lágriamas na plateia. Mas se alguém (...) lhe perguntasse qual o seu maior sonho (...) o mais certo seria Duarte responder (...) o Sporting ganhar a taça dos campeões europeus (p.76)

Nesse aspecto sou/penso como o Duarte/João Ricardo Pedro, ganhar a taça dos campeões europeus, o futebol interno com as suas eternas tricas interessa-me q.b. mas nós sportinguistas temos de olhar para cima, almejar o céu, somos os primeiros, somos os vencedores da Super Taça e da Taça de Portugal não devemos olhar para baixo, preocuparmo-nos com clubezitos que vão vencendo à custa de penalties duplos e auto golos.

Os nossos ídolos (13): JESUS CORREIA, o Necas

1947, o ano mágico de Jesus Correia.

Meu pai nasceu dez anos antes, eu vinte e um anos depois, ainda hoje brincamos, esgrimindo sportinguismo; “sou do tempo dos cinco violinos” diz-me ele, “eu sou do tempo de Yazalde”, respondo e sorrimos, porque ele sabe todos os tempos do Sporting (meu avô Jacinto nasceu em 1902 e incutiu nos filhos um sportinguismo que tem netos, bisnetos e continua a ser transmitido).

Escolhi Jesus Correia, porque o Necas (era assim que os amigos o conheciam e assim o tratarei até ao final do “post”, sem o conhecer [sem o ter conhecido em vida] sinto que o conheço pelo seu imortal sportinguismo, desportivismo) é (foi) um de nós, mais que um atleta que nos representou, é um exemplo duma vida dedicada ao desporto, à família, à terra.

No dia 6 de Outubro de 1946, no Estádio das Salésias, o Mundo assistia ao nascimento da maior lenda colectiva do futebol português; Necas (22 anos), Vasques (20 anos), Travassos (20 anos), Albano (22 anos) e Peyroteo (28 anos), os cinco violinos jogavam juntos pela primeira vez. Aos 17 minutos de jogo, Necas voa entre as "torres de Belém" e, correspondendo a um maravilhoso cruzamento de Albano, põe Capela à procura da bola nas redes. Foi o primeiro de muitos golos dos famosos cinco.

Necas foi um grande atleta mas não foi nenhum Meszaros, um Peter, nem sequer um Carlos Gomes, apesar de ter sido guarda-redes num Sporting vs. Benfica em 17 de Novembro de 1946; o nosso guarda-redes Azevedo parte um braço e sai do campo, Necas, que marcara um golo fantástico, vai para a baliza, estava 1-0, decidia-se o campeonato de Lisboa, o Sporting com 10, o Benfica com 11 (na altura não existiam substituições) e o bom do Necas na baliza...

Conseguiu manter a baliza inviolável até ao intervalo mas já não regressaria (como guarda-redes) para a segunda parte; foi substituído no posto por Veríssimo e dez minutos depois (re)entraria, sob fortes aplausos, Azevedo, com o braço partido mas com uma dignidade, uma vontade de vencer, uma energia que não quebraria e não quebrou, o Sporting venceu por 3-1.

Azevedo passeado em ombros, num misto de dor e satisfação, e Necas eufórico com mais um título colectivo e um individual. Foi o melhor marcador desse campeonato regional de 1946.

No ano seguinte Necas conquistaria mais títulos, alguns pouco conhecidos, pela mão de Mário Moniz Pereira. Pois é, o nosso Necas foi campeão regional de Lisboa e campeão nacional (no Porto) na estafeta de 4x80 metros em atletismo corporativo, representando a equipa do Grémio dos Armazenistas de Mercearia. Necas, campeão de atletismo, campeão de futebol, campeão de hóquei em patins, um campeão... à Sporting.

O ano de 1947 foi mágico mas o de 1948 seria de ouro, Necas venceu todos os campeonatos de hóquei e de futebol, o Sporting conquistaria, definitivamente, a Taça de «O Século» mas Necas ainda tinha mais "ganas" e em 5 de Setembro desse ano o Sporting jogaria no Estádio Metropolitano com o Atlético de Madrid, seis para os leões, três para os colchoneros, com todos os golos do Sporting a serem marcados por... (adivinharam) Jesus Correia.

Mais que um ídolo, Necas é, para mim, um exemplo, um exemplo duma vida dedicada ao desporto (futebol no Sporting e hóquei em patins no Paço d'Arcos, internacional em ambos) um exemplo duma vida dedicada à família, um exemplo duma vida alicerçada numa terra (Paço d'Arcos), um exemplo não de dois amores (como ficou conhecido) mas dum grande amor – o Sporting – com toda a abrangência que esta poderosa palavra possui.

Morais. Os minutos de silêncio. E assim.

A propósito deste post do João E. Severino, lembrei-me de um outro que escrevi em tempos num blog pessoal. Copio parte para aqui agora porque é este o lugar dele.

 

"Domingo fui ao estádio. Era o último jogo do Sporting em Alvalade no campeonato deste ano. E que lástima de campeonato… quarto lugar conseguido – digo bem, conseguido – sem esforço nenhum. Mais por trapalhice dos que se seguem que propriamente mérito do meu clube. Mas adiante que de clube não se muda e lá estarei para o ano, sempre muito crente e cheia de esprança.

Voltando ao jogo. Não me apetecia ir. Tenho andado moody – ou em português, armada em parva – e tinha pouca vontade. Mas tinha bilhetes, sempre era um programa, e gosto sempre de ir ao último jogo da época. Antes que me arrependesse lá fui. Dormi a viagem toda o que em mim já é sintomático uma vez que não moro em Bragança e o caminho até Alvalade é no máximo meia hora havendo algum trânsito.

Abra-se aqui parentesis para falar de João Morais. O Morais, como sempre ficou conhecido, fez parte da equipa do Sporting que em 64 ganhou a taça das taças. Esta taça é o único troféu europeu do Sporting e a única taça das taças em Portugal. Por um motivo e outro, é uma data reconhecida e acarinhada pela maior parte dos sportinguistas. Mesmo os que como eu nasceram anos mais tarde. Nessa final, o golo foi marcado pelo Morais, de canto. Mais até que a taça, o canto de Morais é mítico no Sporting. Há uma música, e conheço pelo menos um café que se chama “o cantinho do Morais”, mas as alusões a este golo de canto, em ambiente verde e branco são inúmeras, todos conhecemos o canto do Morais. A semana passada, com 75 anos, morreu Morais. Fecha parentesis, de volta ao estádio.

Aquecem equipas, descem e sobem já para o jogo. O speaker anuncia “antes da partida vai fazer-se um minuto de silêncio” aqui estremeci e lembrei-me “ui, o Morais”. Ultimamente, nos minutos de silêncio quando se trata de um jogador, há palmas. O minuto passa a dois: um em silêncio, outro de palmas. Só palmas. É arrepiante já que num estádio normalmente há toda uma esquizofrenia de sons. Alguns silêncios mas muito breves e que normalmente não são bom sinal. As palmas aconteceram por exemplo com Damas, Jesus Correia e Feher. Este último não foi atleta do clube como sabemos, mas evidentemente o choque foi geral e não olha a cores. Tétrico, eu sei. Mas são homenagens e só as faz quem lá está naquele dia.

Continuando no jogo de Domingo então. Estão ambas as equipas no meio campo imóveis e o público, todo de pé, divide-se entre os que aplaudem e os que prestam a última homenagem a Morais em silêncio. Nos ecrans, as imagens do famoso e significativo canto. Eu soluço. Sim. Vamos adiar comentários para o fim do post. O speaker tinha dito também que dois elementos mais jovens da academia prestariam uma homenagem simbólica e aquilo fez-me confusão “que homenagem farão dois miudos se se está a fazer o minuto de silêncio? mais invenções...”. Ai senhores… de ramo de flores, os dois pequenos dirigiram-se à marca de canto para lá as deixarem. Foi o fim. Se eu fosse um dvd com legendas em inglês hearing-impaired diria nesse momento “sobbing”. Os minutos de silencio são arrepiantes e eu pelo-me – sinistramente, admito – por momentos destes. Emociono-me, mas não costumo chorar. Não ando decididamente muito bem, mas também não vejo com muita surpresa o facto de ter chorado ali. That’s me alright.

 

5 de Maio de 2010"

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