Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

És a nossa Fé!

À atenção da miudagem

Quaresma, Gonçalo Inácio, Nuno Mendes, Tiago Tomás e afins.

Nas vossas tardes livres, sintonizem-se na Eurosport para acompanhar o Giro de Itália e prestem especial atenção ao nosso compatriota João Almeida.

Apenas com 22 tenrinhos anos, assim como vocês, e é vê-lo bater-se junto dos craques das duas rodas, em defesa da camisola rosa, sempre com atitude, muita atitude.

Não sei se vocês, a nossa equipa, vestirá a camisola de líder da Liga 20/21, mas seja nas etapas planas (Tondela, Gil Vicente), nas de média montanha (Rio Ave, Famalicão ou Guimarães) ou de alta montanha (Porto, Benfica ou Braga), façam como o João: sem medo do adversário e baterem-se de igual para igual, apenas com um resultado em vista.

Os vossos avós poderão falar-vos doutro tipo assim que conheceram, com igual atitude: Joaquim Agostinho, também atleta do Sporting e um dos nomes maiores do nosso Museu. Ambicionem também esse lugar, a camisola já envergam!

Made in Alcochete

Picture1.jpg

 

Era um fim de semana solarengo de Junho de 2005, e com algum tempo livre “deu-me na cabeça” rumar a Odivelas. Aí, no relvado anexo ao velho estádio e meio empoleirado num prédio em construção, tive o prazer de ver o Sporting esmagar o Benfica por 4-1 e assegurar o título de Juniores dessa época.

Era uma equipa orientada por Paulo Bento e Leonel Pontes, comandada em campo por Miguel Veloso, e que contava com Nani e João Moutinho. Na mesma época, a equipa de Juvenis assegurava também o título da categoria, uma equipa orientada por João Couto, que contava com Rui Patrício, Adrien e Pereirinha. Cédric Soares estava nos iniciados, que falharam o triplo.

Dois anos antes Beto e José Fonte jogavam na equipa B, orientados por Jean Paul e Leonel Pontes, . Ronaldo e Quaresma por lá tinham passado pontualmente em épocas anteriores, e nessa altura já tinham rumado a outras paragens.

Onze anos depois, também rumei a Marselha para ver Portugal derrotar a Polónia e abrir caminho para a vitória final em Paris, com uma equipa que contava com todos aqueles jogadores já citados, com excepção de Miguel Veloso, que deu lugar ao também nosso William Carvalho,  fazendo com que a formação do Sporting fosse predominante na selecção e fundamental para o título alcançado.

 

Depois de 2005 muita água passou por debaixo das pontes, Alcochete foi conhecendo um lento definhamento, feito de incúria e falta de visão estratégica, com Aurélio Pereira mais ou menos desconsiderado. Ainda conseguimos ter a melhor equipa B de sempre, que contava com João Mário, Esgaio, Bruma, Dier e alguns outros, mas depois disso foi sempre a descer, para cinco anos depois batermos no fundo, com a equipa B extinta e os expoentes da formação no plantel principal (Rui Patrício, William Carvalho, Gelson Martins, Podence e Rafael Leão) em debandada, algum tempo depois de outros, como João Mário, Cédric e Adrien, terem sido vendidos.

Pelo meio surgiu em Alcochete uma cartilha na linha da frase idiota que continua mais ou menos vandalizada na estátua do leão, que parecia pretender transformar os jovens jogadores em aspirantes à bancada da Juveleo e que provocou a repulsa nos pais dos mesmos. Por onde andará essa coisa filha de pai incógnito?

Foi preciso então reconhecer o óbvio: Alcochete estava com falta de tudo, e não só de relvados e colchões em condições, mas também do capital humano que tinha fugido para alimentar o rival e duma cultura Sporting enraizada, que incluía jogadores a passear-se em Alcochete com camisolas doutros clubes. Depois disso, ainda se via assaltada por elementos da principal claque do clube, com os jogadores agredidos no seu local de trabalho.

Mais ou menos três anos depois, ou seja anteontem, e novamente em Paris, Alcochete estava reduzida ao Cristiano Ronaldo e aos dois ex-capitães fugitivos, enquanto o Seixal se podia gabar de Rúben Dias, Bernardo Silva, João Félix, Nelson Semedo e Renato Sanches. Nos suplentes estava lá apenas o Domingos Duarte, o novo José Fonte, que foi andando de empréstimo em empréstimo até à venda final.

 

Seria mesmo mau demais pensar nisto, se não soubéssemos que existe em Alcochete uma nova geração, que foi primeiro seleccionada e fidelizada, depois trabalhada na pré-época do ano anterior por Marcel Keizer e agora definitivamente lançada por Rúben Amorim, este claramente o novo Paulo Bento do Sporting.

Assim, olhando para o potencial de Luís Maximiano, Eduardo Quaresma, Gonçalo Inácio, Nuno Mendes, Tiago Tomás, Daniel Bragança, Matheus Nunes (que ainda andou pelos sub23 e um dia destes estará naturalizado), Jovane Cabral e Joelson Fernandes, mais um ou outro dos que estão a rodar na nova equipa B e nos sub23, não custa imaginar que, daqui a alguns anos, teremos uma selecção nacional mais uma vez dominada pela formação do Sporting.

E das coisas que mais me fascinam nesta nova geração de Alcochete, muito ao contrário do apregoado pelos ressabiados do costume, que falam em meninos ingratos e mimados, é ver que demonstram ter as ideias bem arrumadas, um discurso objectivo e assertivo, uma valorização da camisola que vestem e do clube que representam. No fundo, demonstram o seu ADN Sporting. Dizem que Tomaz Morais tem feito um trabalho notável em Alcochete na área da formação comportamental para o alto rendimento, que inclui valores e princípios de vida. Pode ser esse um factor essencial nesta situação.

Apenas como exemplo, disse o Nuno Mendes depois do golo genial em Portimão: “Cada lance é como se fosse o último e foi assim que o encarei. (...) É um orgulho jogar no Sporting, vou guardar este dia para sempre.(...)  O meu trabalho é jogar dentro de campo, o que se passa fora não interessa.”

É mesmo isso, Nuno. Continua assim que vais bem longe. E a Selecção Nacional aguarda por ti.

SL

O fracasso de Jesus

IMG_20200915_164901.jpg

 

1

O Benfica foi atirado borda fora do acesso à Liga dos Campeões pelo PAOK treinado por Abel Ferreira, apesar de a equipa grega custar oito vezes menos do que a de Lisboa. Derrotado em campo, o neobenfiquista Jorge Jesus apressou-se a fazer aquilo em que é exímio: exigir mais jogadores. Aproveitou a conferência de imprensa em Salónica para reivindicar mais um defesa e mais um avançado: sabe que Luís Filipe Vieira, em desespero perante o cenário de perder as próximas eleições no Benfica e de ser constituído arguido noutro processo-crime, lhe fará todas as vontades. Isto apesar de o SLB já ter contratado "reforços", com ou sem aspas, avaliados em 83 milhões de euros, sem ter vendido um só jogador. O que o torna no segundo clube europeu mais gastador neste primeiro mercado de transferências da era Covid, só ultrapassado pelo milionário Chelsea.

A fama deste treinador deve-se, acima de tudo, à sua capacidade reivindicativa: é incapaz de treinar um plantel barato - como fizeram, por exemplo, Leonardo Jardim e Marco Silva, que o antecederam no comando técnico do Sporting. Espreme ao máximo os recursos financeiros dos emblemas por onde vai passando, cada vez mais ao estilo toca-e-foge. Detesta a expressão "formar jogadores" e é-lhe indiferente qualquer perspectiva de lançar alicerces sólidos num clube, seja ele qual for.

Vendo os que ele ontem colocou em campo contra o PAOK confirma-se que em poucas semanas mandou às urtigas o "projecto formador" de que falava até há pouco o seu neopatrão Luís Filipe Vieira: os tais miúdos-maravilha saídos da incubadora seixalense ficaram no banco ou na bancada ou nem tiveram lugar no avião para a Grécia. De caminho, mandou às malvas o "projecto europeu" de Vieira, que ontem viu voar pelo menos 38 milhões de euros a que teria acesso só por disputar a Champions.

 

2

Para nós, sportinguistas, nada disto é novidade. Jesus passou três anos no Sporting a torrar dinheiro e queimar jogadores. Para vencer apenas um título: a Taça da Liga 2018, logo revalidada no ano seguinte por Marcel Keizer, técnico incomparavelmente mais barato.

Não há volta a dar: o balanço de Jorge Jesus no Sporting é negativo. Sobretudo no menosprezo que revelou por jovens jogadores. Em três anos, lançou com regularidade na equipa principal apenas dois: Gelson Martins e Rúben Semedo. Daniel Podence estava em vias de se tornar no terceiro nas vésperas do assalto a Alcochete. Muito pouco, para honrar a matriz formadora do nosso clube. 

A verdade é que Jesus deixou pelo caminho ou empurrou para a borda do prato jogadores como Ricardo Esgaio, João Palhinha, Matheus Pereira, Iuri Medeiros, Francisco Geraldes, Gelson Dala, Domingos Duarte, Ryan Gauld, Carlos Mané e Merih Demiral. Quase toda uma geração da formação leonina desprezada pelo "mestre da táctica". Vários deles não tiveram sequer oportunidade de jogar um só minuto sob a sua orientação na equipa principal. Teriam talvez de nascer "dez vezes", como o neobenfiquista chegou a dizer noutro contexto.


3
Agrada-me saber que esta aversão pelos miúdos oriundos da Academia parece ser coisa do passado. Confio em jovens como Luís Maximiano, Jovane Cabral, Eduardo Quaresma, Nuno Mendes e Joelson Fernandes como futuras figuras da selecção nacional. Aliás já com reflexos na mais recente convocatória para a selecção sub-21, em que o Sporting foi de longe o clube mais representado.

Quero ver estes - e outros, como Daniel Bragança, Matheus Nunes, Tiago Tomás e Gonçalo Inácio - com oportunidades reais, sabendo-se que o futuro começa a ser construído hoje e estes anos são decisivos para lançar carreiras. Faço votos para que esta geração de jovens jogadores consiga singrar de verde e branco, ao contrário da geração precedente.

Basta encontrarem o treinador certo, que aposte neles. Ou seja: que proceda exactamente ao contrário do que fez Jesus.

Temo pelo futuro do jogador português

Texto de Vítor Hugo Vieira

Vila-do-Conde-vai-homenagear-os-8-jogadores-vilaco

 

Por paradoxal que pareça, é quando temos uma das selecções mais fortes da nossa história que mais temo pelo futuro do jogador português.

Quantos guarda-redes portugueses são titulares regulares numa equipa de 1.ª divisão europeia? Seis ou sete? O mesmo para as outras posições, não serão muitos os jogadores portugueses para cada uma delas. Por acaso temos a sorte de hoje termos dois ou três muito bons para cada posição, mas é só, depois quase não há opções.

Olhe-se, por exemplo, para a posição de defesa-central, onde continuam a ser convocados dois trintões, porque, em boa verdade, neste momento, além deles, só há mais dois ou três com qualidade suficiente para ir à selecção.

Se olharmos para as equipas portuguesas, temos várias com apenas meia-dúzia de atletas nacionais no plantel, sendo o resto completado com sul-americanos e um ou outro de um país exótico. Aliás, não fiz a contagem, mas o Wolverhampton deve ter mais portugueses no plantel do que muitas das equipas da nossa 1.ª divisão. A última moda é encherem os plantéis de ingleses/franceses/espanhóis de 20 e poucos anos, vindos das equipas de reservas dos grandes [clubes] europeus. Como resultou bem em dois ou três desses jogadores, agora todos querem fazer o mesmo. Nisto quem se lixa, mais uma vez, é o jogador nacional.

 

Os escalões de formação são um deserto: fora dos três grandes e de uma ou outra equipa média (Boavista no passado, Braga e Guimarães hoje), quase não surgem jogadores que alimentem as suas equipas principais.

Serão assim tão fracos?

Os escalões de formação dos três grandes, que ficam com os jovens prometedores de todo o país, secam tudo à volta?

Preferem ir buscar brasileiros da quinta divisão, sacando umas comissões?

A Liga não acha que existem estrangeiros a mais, a tapar a evolução do jogador português?

Enquanto se forem ganhando Europeus graças a duas ou três Academias que fazem bem o seu trabalho, e não à existência de um projecto para o futebol português bem estruturado, está tudo bem?

 

Texto do leitor Vítor Hugo Vieira, publicado originalmente aqui.

Zidanes e Pavones

21890732_wr7Vj[1].jpg

 

Na era dos “galácticos”, com Carlos Queiroz como treinador, o presidente do Real Madrid prometeu uma equipa de “Zidanes y Pavones”, que misturava craques feitos com jovens talentos da academia. A ideia não resultou.

Nesta nova era do Sporting, com Rúben Amorim a substituir um desorientado e desorientador Jorge Silas como treinador, a promessa do presidente tem alguma coisa de parecido com a do Real Madrid, só que os Zidanes são quase todos Ristovskis, não é bem a mesma coisa. E só com Pavones, por muito bons que sejam e são, a coisa não vai lá, como se viu nos recentes confrontos com os rivais.

Não vai lá pelo menos em termos desportivos, porque a jogarem assim daqui a um ano estamos a falar de muitas dezenas de milhões de euros de valorização do plantel. O Sporting conseguiu ontem pôr em campo toda uma equipa de jogadores abaixo dos 23 anos de grande potencial: Max, Porro, Quaresma, Inácio, Nuno Mendes, Matheus Nunes, Pedro Gonçalves, Wendel, Plata, Tiago Tomás, Jovane,  Daniel Bragança e Rodrigo Fernandes (este parece primo do Ilori, precisa duma lavagem ao cérebro).

O problema é que, dos mais velhos, apenas Coates está noutro nível. Todos os outros são iguais ou piores que os putos, e nalguns casos muito teriam que aprender com eles se tivessem idade para isso.

Alguns dos dispensados ou colocados no mercado seriam titulares nesta equipa? Acuña, claramente, mas a jogar mais à frente do que ia acontecendo com Amorim, a ala ou interior esquerdo. Mas existe Nuno Mendes e veio Nuno Santos.

Palhinha tirava o lugar a Wendel ou a Matheus Nunes? Nem pensar. Seria um suplente para determinados jogos, como seriam Battaglia ou Doumbia se ficassem.

Algum outro? Diaby, Bruno Gaspar, Misic? Francamente não vejo.

Enfim. Zidanes (ou novos Slimanis) precisam-se. 

SL

Talvez seja bom sinal

Bons 20 minutos - os últimos - deste Portimonense-Sporting. Primeiro jogo de preparação a sério desta pré-temporada, com vitória leonina, por 2-1, em desafio disputado no estádio municipal de Portimão.

 

Começou tudo com demasiada lentidão: passes transviados, excessiva "lateralização", sem fio condutor para a baliza. Max, numa fífia, quase ofereceu a bola, redimindo-se logo a seguir com uma grande defesa. Wendel parecia anestesiado. Plata, com a mesma falta de atitude competitiva que já lhe conhecíamos: parece um brinca-na-areia. Neto com preocupante tendência para cortar em falta.

Num penálti inexistente, inventado pelo árbitro ao imaginar ter visto falta de Feddal para castigo máximo, o Portimonense adiantou-se no marcador, aos 54'.

O nosso empate surge também de penálti - com a diferença de este não ter sido falsificado. Sporar invade a área, com a bola dominada, e é derrubado em falta, convertendo a grande penalidade, aos 65', de forma impecável.

 

Rúben Amorim decide então mudar todos os jogadores de campo (na baliza, Max já cedera lugar a Adán logo no recomeço da partida) e só então o Sporting carrega no acelerador e exibe todo o potencial do seu jogo colectivo. Pormenor a destacar: tinha então apenas três jogadores com mais de 23 anos em campo.

Com pouco mais de três toques na bola, metêmo-la lá dentro, aos 75', e vencemos a partida. Gonçalo Inácio (em estreia na equipa principal) serve na perfeição Pedro Gonçalves, este progride junto à linha e cruza de forma impecável para o centro da área, onde Tiago Tomás aparece a disparar em cheio.

Parece fácil, mas não é. E neste vistoso lance de futebol ofensivo já se viu bom trabalho da equipa conduzida por Amorim.

 

Há três anos que não vencíamos um desafio na pré-temporada: talvez seja bom sinal.

 

Nota muito positiva para Pedro Gonçalves, que tem a titularidade garantida no Sporting 2020/2021.

Dos restantes reforços falarei mais tarde. Mas o meu maior elogio vai para estes miúdos que em pouco mais de 20 minutos mostraram ser leões em campo: Nuno Mendes, Tiago Tomás, Jovane Cabral, Daniel Bragança (outra estreia na equipa A), Matheus Nunes, Eduardo Quaresma, Gonçalo Inácio.

O futuro está na nossa formação. Alguém tem dúvidas?

Os anjos que não quero que caiam

Enquanto alguns de nós digerem a capa e entrevista de Adrien ao jornal A Bola, chamo a atenção para este pormenor de Bernardo Busatori, jogador Sporting Clube de Portugal via AFS - Algarve. 

Com a saída de João Nunes da AFS - Algarve, a Direcção da Academia Sporting Clube de Portugal não deu o flanco. Escancarou-o.

Se este e outros pequenos craques (em potência) que foram ferozmente disputados saírem para os rivais a responsabilidade não é nem dos jovens atletas, nem dos pais. É de quem não quis corrigir um enormíssimo erro cometido. 

Venha até à região, Senhor Presidente. Fale com os pais. Diga-lhes que ficou zangado (tem parcialmente razão). Tem contactos no C.F.T. - SLB? Óptimo. Use-os. Inteire-se do que está a ser dito sobre o Sporting Clube de Portugal. E, pior, temos de reconhecer todos que têm razão. 

O escolhido pelo Director da Academia para gerir as 5 AFS? Saiu para o Scouting do Vitória de Guimarães. Nada mau, para um profissional que esteve a coordenar toda a nossa formação de, passo a redundância, toda a região norte. Já agora, antes ainda de nos ter deixado, há registo de meninos das AFS Porto, Braga, Aveiro ou Coimbra saídos para o Vitória de Guimarães? Se sim, quantos? Soubemos a tempo de tentar retê-los?

Vai corrigir a enormidade cometida na AFS - Algarve, já, mitigando parte do impacto negativo desta sua, por arrasto, decisão, ou vai ser preciso a reputação do Sporting Clube de Portugal ressentir-se ainda mais, os atletas debandarem e perdermos domínio, outra vez, para o Benfica? 

Tem noção de que quem vem substituir João Nunes recebe uma herança pesadíssima? Acha que vai ser fácil manter o nível alcançado por João Nunes? Acha que os meninos vão sentir por alguém que nunca viram na vida o que sentem por João Nunes? Acha que é coisa para pegar de estaca? Sabe o que é que proporciona condições de melhor desenvolvimento nestas faixas etárias?

E já agora, Senhor Presidente, nesta mudança, o Sporting manteve o caderno de encargos ou aumentou-o? Se, porventura, tiver aumentado, e se quem vem não mantiver o nível, como é que vai explicar o aumento de custos para fazer pior e quando foi dissolver uma estrutura que estava comprovadamente a dar óptimos resultados? 

Senhor Director da Academia Sporting, emende a mão. Gosta do Sporting? Tem estima pelo Presidente que o escolheu? Atalhe caminho e seja você a dizer ao Presidente que é para emendar.

Se por um momento pensa que a saída de Luís Morais estancou o coro de contestação ou que as pessoas ficaram satisfeitas, pode muito bem estar enganado. Silêncio, pode muito bem significar latência. Dormência. Entorpecimento. Desânimo. Tudo o que não se quer que quem tem segurado o barco, sinta.

O ás de trunfo do Sporting têm sido as pessoas. São sempre as pessoas. O Às da AS (Academia Sporting) são as pessoas: a matéria prima e quem deu provas de saber trabalhá-la

Emende a mão, Senhor Presidente. Ontem, era tarde.

A entrevista e capa d'A Bola podem chocar. Quero menos contexto para que capas destas surjam e a primeira responsabilidade que peço e pedirei sempre é ao Sporting Clube de Portugal.

Não quero perder nenhum destes craques em potência. Não seria perdê-los por mérito da concorrência, mas por completíssimo demérito nosso.

João Nunes, que recebeu uma proposta do SLB no início do ano, falou com a nossa estrutura, pediu uma melhoria que foi satisfeita (e mesmo assim ficou a ganhar menos do que se tivesse ido para o SLB) saiu para o Lusitano de Vila Real de Santo António, para não nos fazer concorrência. Isto, depois de ser escorraçado. O escolhido está no Vitória de Guimarães. Qualquer dia, já não estamos a morder os calcanhares só ao Braga.

Senhor Director da Academia Sporting, a responsabilidade maior pelo erro cometido será sempre sua. Se o erro não for emendado, a responsabilidade será toda sua, Senhor Presidente do Sporting Clube de Portugal.

As imagens, são da Sporting TV.

De pedra e cal - 2ª parte Formação de Elite, por João Nunes

A primeira parte desta conversa com João Nunes, encontra-se aqui.

Screenshot_20200803-175747.png


Na época 2013/2014, integra a Escola Luís Figo Winning League, Pequim, China. Como é que se chega à escola de Luís Figo? É verdade que Luís Figo escolhe cada treinador pessoalmente? Recruta preferencialmente nos nossos (Sporting) quadros?

Foram o Senhor Aurélio Pereira e o Senhor António Fonte Santa, duas ilustres figuras do mundo de futebol, uma da parte do Sporting e outra da parte do Benfica, que me referenciaram ao Professor Joaquim Rolão Preto.

Numa fase inicial, o Luís Figo tinha uma palavra dizer na contratação do candidato. Privávamos algumas vezes com ele, ia lá ter connosco. Depois as coisas começaram a crescer e ele deixou de conseguir entrevistar toda a gente ou estar com toda a gente. Até porque a Winning League chegou a ser a maior Academia de Futebol do Mundo, estava representada por toda a China. Também é verdade que havia uma ligação óbvia ao Sporting Clube de Portugal, até porque o Professor Joaquim Rolão Preto foi campeão pelo Sporting, conhecia muita gente no Sporting. O Luís Figo, é o que se sabe. Mas foram treinadores de muitos sítios, não foram só do Sporting. Estamos a falar de um universo de mais de 90 treinadores. Mas no início, sim, fomos escolhidos a dedo, digamos assim. Para além de mim, numa fase inicial, foram para a China o Gonçalo Monteiro que hoje fala para a SportTV, o Vítor Valente, que foi guarda-redes no F.C.Porto, o Nuno Marques, treinador no Casa Pia, o André Venâncio, que foi treinador d' Os Belenenses e que também esteve ligado às escolas da Academia Sporting e o Ricardo. Fomos para a China, recrutados pelo Joaquim Rolão Preto.

WhatsApp Image 2020-08-03 at 18.03.13.jpeg

 

Que diferenças encontrou entre o que se faz em Portugal e o que se faz na China?

Antes de mais, dizer que guardo o Professor Joaquim Rolão Preto no coração, é uma pessoa extraordinária, tenho-lhe uma enorme amizade (desenvolvida na China). Era o Director e Coordenador técnico da Winning League e, claro, foi escolhido pelo Luís Figo.

Agora, já há alguma cultura de treinadores portugueses na China, mas na altura, não havia.

Quanto às diferenças: as da própria cultura do país e mesmo da cultura desportiva. Aqui [em Portugal] podes ir pela descoberta guiada, lá é difícil ires pela descoberta guiada. Se eles não sabem o que é futebol, como é que eles vão descobrir alguma coisa? Vão guiar-se pelo quê? Não conhecem… Começas a trabalhar tudo de base, inclusive os limites e as regras do jogo porque nem isso sabem. Atenção que estou a reportar-me à altura em que lá cheguei, não ao momento actual. Com a chegada dos ocidentais, as coisas desenvolveram-se a um ritmo alucinante no futebol (porque as coisas na China, desenvolvem-se a um ritmo alucinante) pelo empenho e dedicação dos chineses. A verdade é que são muito pouco maleáveis, são muito rígidos no seu pensamento, pela sua forma de estar, pelo próprio sistema de ensino que privilegia memorização e não tanto a compreensão. Mas o facto de serem muito dedicados, dava-nos algumas vantagens. Ainda assim, só faziam aquilo que nós queríamos. Ora, o jogo, é uma coisa dinâmica e que implica iniciativa individual, autoconfiança e não podemos andar só à espera das ordens do treinador. Para eles isto era um problema. Parte táctica, em que não há surpresas, sem problema. Mas o jogo de futebol não é isto. É uma resolução contínua de problemas, com equilíbrios e desequilíbrios constantes num determinado espaço e tempo com uma estratégia comum que objectiva a vitória. É preciso resolver os problemas que surgem.

 

Em que é que a experiência na China (para além da Escola Luís Figo, foi coordenador da Z-Team em Guangzhou e da GDFC também em Guangzhou) mudou a sua forma de olhar para o futebol de formação?

Em Portugal, conseguia intervir junto de um atleta através do estímulo verbal. Lá, isso não acontecia. Tive de descobrir muitos exercícios que levassem a determinados comportamentos, fez-me pensar muito mais nos exercícios por não ter a ferramenta verbal à minha disposição. Como sou estudioso, pensei muito sobre o assunto. Tinha um problema que era a língua/comunicação, então foquei-me na solução ‘tipo de exercício’ a realizar. Foco-me sempre nas soluções. Servi de modelo muitas vezes, fazia eu os exercícios para que eles percebessem o que queria, participei muito no treino em termos de acções, tocava muito nos atletas e explicava ao pormenor o que fazer.

Debrucei-me muito sobre a própria cultura chinesa, estudei-a e tenho consciência de que mudei a minha forma de estar. Cheguei a Portugal uma pessoa muito mais calma, muito mais serena, a ver o mundo com outros olhos, a não acreditar só naquilo que me dizem, a sentir na pele que existem outras formas de treinar igualmente correctas. Convivi com ocidentais de muitas nacionalidades: ucranianos, eslovacos, russos, venezuelanos, brasileiros, colombianos, mexicanos - todos eles treinadores -, muitos ingleses, muitos espanhóis.

Vim da China muito mais rico e muito mais treinador. Tinha uma idade diferente. China para mim, significa muito estudo, muita experimentação. Muitos desafios, mas posso dizer que tive sucesso na China. Deu-me oportunidade para pensar em futebol 24 horas por dia, durante 5 anos.

Vim um treinador muito melhor, mas já fui para lá com uma grande bagagem.

WhatsApp Image 2020-08-03 at 18.01.58 (1).jpeg

 

Depois de na época 2016/2017 ter sido coordenador da GDFC, regressa a Portugal e passa a profissional de recrutamento Sporting Clube de Portugal, para, na época 2018/2019, assumir funções de Director de Recrutamento e Director Técnico da Academia Sporting Clube de Portugal - Algarve, cargos que ocupou até 30/06/2020. Como é que surge este convite?

Ainda eu estava na GDFC, quando recebi o convite. Surgiu porque reconheciam-me competências, esclareceram que seria um projecto de continuidade e que supunha integrar os quadros do Sporting - algo que não veio a acontecer, como nós sabemos. Disseram-me que tinham a certeza de que faria um bom trabalho nas AFS e que poderia aspirar a integrar os quadros do Sporting Clube de Portugal no âmbito das AFS. Esclareceram logo que se tratava de um trabalho de recrutamento, de trabalho com meninos muito talentosos. Ao saber que ficaria a trabalhar com o Paulo Moreira, então, foi uma alegria, fiquei mesmo muito contente, foi um estímulo adicional. Saber que voltaria a estar perto do Paulo, fez-me sair da China para o Sporting Clube de Portugal, este grande clube e no âmbito deste grande projecto. Foi por ser o Sporting Clube de Portugal mas também, e muito, as pessoas com quem ia trabalhar. Só tenho de agradecer ao Sporting Clube de Portugal pela oportunidade.

 

Sobre a sua saída da AFS – Algarve, o que pode dizer-nos?

Que me sinto injustiçado. Em termos de números, a AFS – Algarve é a que apresentou melhores resultados. O meu contrato não foi renovado sob o argumento de que acreditam que são capazes de fazer melhor. Se são capazes de fazer melhor, por que motivo é que nenhuma das outras AFS apresentou melhores números? E o coordenador das outras quatro, quem é? Têm o coordenador que tem quatro e optam por não renovar com o coordenador que tem uma, e apresenta melhores resultados do que as outras quatro AFS juntas. As outras AFS estão inseridas em grandes centros populacionais e com um número enorme de praticantes de futebol. Não falta por onde escolher.

Acho que foi uma decisão incoerente, não encontro lógica na justificação. Achamos que conseguimos fazer melhor (foi o que me disseram), mas optamos pelo coordenador que fez pior (o que teve 4 AFS a seu cargo e nenhuma se aproximou dos meus resultados). Foi o que aconteceu e levou à não renovação do meu contracto de trabalho.

Trabalhei sempre com o meu mérito, não me socorri nem de estratégias nem de estratagemas para subir. Sim, choquei com algures clubes, porque queria os melhores jogadores para o Sporting Clube de Portugal. No início de um projecto, tu tens de ter jogadores e eu quis ter os melhores e para isso tive que chocar. Mas ao fim de três anos, já tens jogadores que não subiram para Alcochete e já tens jogadores para dar a esses clubes e esses clubes agradecem-te porque recebem jogadores formados por profissionais de excelência. E esses miúdos são mesmo muito bons, só não atigiram ainda o nível exígivel para enviar para Alcochete. Muitos deles, vão aparecer mais tarde.

Posso dizer-te que senti-me injustiçado pela Direcção da Academia. É verdade que houve muitos movimentos pró João Nunes, sócios, encarregados de educação, núcleos. Eu, fui claro: não devem nada ao João Nunes. O João Nunes fez o seu trabalho. Os números falam por si. Isto, é futebol. A Direcção fez uma escolha. Errada, a meu ver. Pode-se dizer que é uma questão de estratégia, mas que estratégia é esta? O que está bem, muda-se? E fica-se com o que está mal? Acho que não faz sentido. Acho que não foram humildes, que não pensaram fora da caixa.

Há quem tenha competências, que pensa fora da caixa e obtenha bons resultados. É este pensar fora da caixa que pode ser a reviravolta no marcador. É com pessoas que pensam fora da caixa que o Sporting Clube de Portugal pode recuperar a hegemonia do passado. Ou fazemos diferente, temos vontade e ambição, ou então vamos continuar na mesma. São pessoas como o Senhor Aurélio, talentosas e que pensam fora da caixa, que fazem o Sporting aquilo que ele é em essência.

Se continuarmos na mesma linha, na linha dos outros, os outros acabam por ganhar porque têm mais dinheiro do que nós.

Este caminho, com a excepção do período dos Aurélios, não tem sido dos mais interessantes. Fomos tendo algum sucesso, mas não à altura da grandeza dos pergaminhos deste Clube. E se o tivemos, devemo-lo ao Departamento de Recrutamento, ao Senhor Aurélio Pereira.

Agora temos mais umas ferramentas que são as AFS, contra tudo e contra todos. Foi muito difícil lançar as AFS, contra alguns lobbies instituídos dentro do Sporting Clube de Portugal mas não gostava de falar sobre isso. Elimina-se o coordenador cuja AFS melhores resultados apresenta, para quê? Para voltar ao quê? A uma estratégia que é pessoal ou é do Clube? Isso é o que as pessoas têm de definir.

Quando chegámos ao Algarve, o C.F.T. só tinha duas equipas no patamar mais baixo: uma de Benjamins e uma de Infantis.

O FCP tinha as equipas que pagavam para ter formação (dentro da lógica EAS) e tinham aquilo a que eles chamam ‘Porto Elite’ (o correspondente às nossas AFS) e neste último, tinham Traquinas e Benjamins.

Ora, estratégia minha ao iniciar? Resolvemos ter – logo no primeiro ano – 1 de Traquinas, 1 de Benjamins e 1 de Infantis. O objectivo foi assumidamente anteciparmo-nos um escalão ao Benfica (que tinha Benjamins e Infantis). Entretanto, a meio da época, antecipámos logo os meninos de 2012 [Petizes, à data; ter em consideração o ano de inauguração, 2018]. No entanto, os Petizes (2011/2012), não tinham competições oficiais, tiveram apenas alguns torneios não oficiais.

A verdade é que ao anteciparmos a captação de alguns petizes, no ano que passou, o C.F.T. tratou de imitar-nos, porque percebeu como nos tínhamos antecipado e assim ganhado o mercado.

Assim, ficámos com duas equipas de Traquinas, 2012 e 2011, uma equipas nos Benjamins, a de 2009 e a de 2010 e uma equipa de Infantis (2008 e 2009). A meio da época, comecei logo nas captações dos meninos de 2013.

Todos os nossos meninos competem sempre com meninos mais velhos: um ou dois anos mais velhos.

Apesar de nos terem copiado a estratégia, nós conseguimos ser (ainda) mais competentes e criámos estratégias para dificultar-lhes novamente a vida... tínhamos um plano que foi totalmente por água abaixo... [não foi implementado]

Por experiência própria, sei que se não nos anteciparmos e andarmos a discutir um atleta ao mesmo tempo que o SLB, ganham-nos pela estabilidade e por terem sido campeões há pouco tempo. Os miúdos viram e, para além disso, têm muito mais dinheiro do que nós.

Então eu crio estratégias novas para antecipar cenários e ter os atletas antes - e ter a oportunidade de os fidelizar ao SCP – e deixam-me cair o projecto!? Falo de um projecto completamente pensado para os Encarregados de Educação, que visava aumentar o grau de satisfação dos pais perante situações como a ‘despromoção’ (que não é) dos meninos a outros escalões para trabalhar aspectos muito específicos e outras estratégias mais que não gostaria de revelar.

O que é importante é que eu com exactamente o mesmo orçamento das outras AFS, pus mais atletas na Academia e tinha o dobro das equipas. E tinha-as para ter mais opções de escolha. E nunca ultrapassei o orçamento, aspecto de que as outras AFS não se podem gabar. Os meus números, são melhores do que os números das outras 4 AFS juntas.

Já disse que não sou um falso humilde… o meu trabalho foi exemplar e um estudo de caso em matéria de gestão e de treino de talentos.

E mesmo assim não chegou para convencer o desconhecedor (Alto Rendimento) Paulo Gomes (Director da Academia). Devo salientar que acho que a Direcção do Clube (/SAD) tem boas intenções, mas não sabem desta área em pormenor – nem têm de saber – e não estão rodeados de todas as pessoas certas.

Fiquei triste, sinto que foi uma saída injusta e sem que as pessoas percebessem porquê. Na hora da despedida, resta-me o consolo de saber que as pessoas do universo Sporting Clube de Portugal, sabem que o João Nunes foi um profissional de excelência.

 

Quem são as suas referências no treino de formação e no treino de séniores?

No treino de formação, para ser sincero, tinha uma ideia muito própria sobre o que era o treino de formação, tal como já expliquei, vinha de ser um autodidacta, de ter lido muito, de ter pesquisado, de ter feito a minha própria metodologia, mas eram ideias avulsas, chamemos-lhe assim, até ter ido estagiar no Sport Lisboa e Benfica. Foi aqui que encontrei uma pessoa de quem fiquei fã no primeiro treino e que revelou ser todas as minhas ideias, mas organizadas e com método. Com forma, brilho e espectáculo. Falo do Professor António Fonte Santa. Se há alguém de quem posso dizer que o meu treino tem muito, é do Professor António Fonte Santa (apesar de ele ser dos meus tempos na Geração Benfica) mas é uma pessoa inovadora e eu gosto de pessoas assim. A linha era aquela em que eu acreditava e aquela que eu consegui perceber que se encaixava quase como um puzzle que eu idealizava. A partir daqui, fui afinando a minha própria metodologia mas com assumidas influências de Silveira Ramos até mesmo o Professor Jorge Castelo (foi meu coordenador 6 anos). Bebi de muita gente. Mas o Professor António Fonte Santa, foi aquele que mais me motivou.

Silveira Ramos, depois de ler o livro Da rua à competição e por falar com ele algumas vezes, também.

Nos séniores, acho que ninguém fica indiferente a José Mourinho que marca uma mudança. Tem um mérito enorme. Mudou todo um universo futebolístico.

Mas Marcelo Bielsa, pela sua irreverência e vontade. Muito à imagem de uma causa, e eu gosto deste tipo de treinadores que são corajosos, de causas, que são muito emocionais, que envolvem muito as massas. É um revolucionário, um louco.

Jurgen Klopp, também. Pela forma agregadora e pela forma muito apaixonada de ver o jogo.

Atraem-me mais as pessoas que são inovadoras.

O Jorge Jesus tem um mérito enorme. Uma pessoa que não tem formação académica a ajudá-lo mas que consegue fazer o que ele fez. Pelo seu querer, pela sua vontade, por ser um autodidacta, por ser uma pessoa capaz de se superar.

Eu preciso de perceber, gosto de estudar ao pormenor os clubes, as estratégias, as dinâmicas. Aprender com os outros, claro, mas o que mais me estimula é fazer por mim, ser autodidacta.

 

Recusou treinar equipas séniores por que motivo?

Optei por formação porque gosto muito de crianças. Adoro ensinar. Adoro ensinar futebol. Estou certo de que um professor de futebol, num ano, tem mais influência no desenvolvimento de uma criança do que um professor da escola tem em seis. Depois, por perceber que a maior parte dos treinadores pensava mais em séniores, mas a qualidade do futebol sénior, depende da qualidade do que se faz… na formação. Os convites para treinar séniores continuam a surgir, mas eu preferi ficar na formação também para ter uma especialização.

Estive 6 anos n’ Os Belenenses, passou por lá Jorge Jesus, tive essa sorte; privei com o Rui Jorge nos Juniores, o Romeu nos juvenis, o Filgueira, o Bruno Pinheiro que também era professor. O Paulo Moreira também lá estava. Tive a sorte de perceber este caminho até ao futebol profissional, até aos séniores.

Ganho um campeonato no momento em que um jogador meu pisa pela primeira vez um relvado como profissional. Vamos falar de um jogador nosso, não vamos falar dos dos outros… quando o Bruno Paz se estreou pela equipa principal, foi um orgulho enorme. Aí sim, ganhei um campeonato porque tive uma influência muito grande na formação do Bruno Paz. Esteve comigo n’ Os Belenenses e fui eu que o encaminhei, digamos assim, para o Sporting. Quase que o desviei que ele já estava noutro lado… [outro lado da 2ª Circular; as inscrições pelos dois Clubes entraram ao mesmo tempo e ficou 3 meses sem jogar]

 

Screenshot_20200803-175623.png

Afonso Santos, geração 2007

Que conselhos daria a alguém que quer vingar como treinador de formação?

O conselho que dou a um treinador de formação: sensibilidade para crianças, conhecimento das etapas de crescimento, perceber as sociedades e suas evoluções, perceber as diferenças culturais e ser muito trabalhador.

Ser treinador de formação tem mais de transpiração do que de inspiração.

Não utilizar os jogadores como degraus à ascensão como treinador e acima de tudo perceber que é uma passagem na carreira do jogador e que temos de saber sair na hora certa para eles poderem continuar a evoluir e voarem sozinhos.

Ser conhecedor profundo do futebol e do meio futebolístico.

 

Ao cabo destes anos de experiência acumulada, o que é que mudaria no futebol de formação em Portugal?

Claramente, a forma como se olha para o futebol de formação. O futebol de formação tem de ser visto como uma mais valia. A qualidade do futebol infanto-juvenil influencia directamente a qualidade do futebol sénior. Posto isto, e posto que há um grande abandono da prática desportiva do futebol, temos de perceber que o futebol não se faz só em Lisboa, não se faz só nos grandes centros e nas grandes cidades, como Portimão, como Faro, como o Porto, como Aveiro. Faz-se também no interior.

Mudava já os cursos de futebol. Porque repara, numa aldeia, onde existam crianças, pode haver um talento. É a pessoa que sai do seu trabalho, que não vai ganhar nada, que vai envolver as crianças e vai pô-las a praticar desporto. Pode estar ali um Cristiano Ronaldo, como estava na Madeira. É essa pessoa, que não ganha nada a treinar os meninos, que não vai pagar 700€ para ter o curso de primeiro nível. A meu ver, a Federação Portuguesa de Futebol, fazia um bem enorme ao futebol de formação se os cursos de formação não fossem pagos e fossem dados nas autarquias, nas juntas de freguesia, porque no futebol de primeiro nível, é preciso conhecimento. Então, esse conhecimento deveria ser “dado” e não pago. Estamos a falar de um curso que custa 700€ e demora 2 anos a tirar. É algo que não me cabe na cabeça. Ninguém com o primeiro nível vai treinar equipas séniores, portanto se vão treinar meninos, jovens, como é que vão pagar 700€? Eles não ganham nada… Como estamos, vai haver um abandono. Não vai haver treinadores, haverá seguramente menos praticantes. Se há menos praticantes… o futebol fica mais pobre. Eliminava o pagamento. Devia haver um curso para principiantes e para pessoas que quisessem treinar, que fosse financiado pela Federação e pelo Estado.

Quanto aos jogadores de elite: mudava a forma de treinar. Nós vamos muito aos princípios de jogo quando devíamos estimular e potenciar comportamentos e atitudes que numa altura mais avançada – dos 14 anos para cima – eles sim, permitem potenciar os princípios de jogo.

Também mudaria o modelo competitivo. Se uma criança jogar um jogo do campeonato, não chega. Poderia fazer-se o campeonato na mesma, mas com 2 ou 3 jornadas num dia. Não acredito que um menino tocando na bola 5 minutos, evolua qualquer coisa. São convocados 12 meninos, portanto se fizermos as contas, um menino que joga meia parte, joga 25 minutos, logo está 10 minutos dentro do centro de jogo, portanto, toca na bola durante 5 minutos. Tem a bola nos pés e toda a gente está a dizer para ele passar. Um menino não evolui nada num jogo, tem de fazer muitos mais jogos para evoluir alguma coisa. Portanto, muitos mais jogos, muito mais competições e convívios, isso sim.

WhatsApp Image 2020-08-02 at 17.52.22 (1).jpegPara os mais distraídos, sim, é o nosso (AFS- Algarve) João Afonso, nascido em 2010 e um outro jovem talento que encanta por Manchester (e não só)

A qualidade da formação Sporting, está em declínio?

A formação do Sporting não está em declínio.

O que te posso dizer é: o que provoca algum abrandamento na evolução é a constante mudança dos directores e com eles as mudanças de algumas das ideias. Não acontece propositadamente da nossa parte, mas sim por meio de um processo normal de adaptação. A (nova) directoria, tem de adaptar-se a uma estrutura complexa que é a da formação de atletas.

O pior está no facto de que quem chega, a cargos superiores, pensa em mudar mas não sabe mudar. Ou melhor, não sabe o suficiente para saber mudar bem. O Sporting Clube de Portugal, tem gente muito, muito competente nos seus quadros. Pessoas que sabem muito sobre formação, sabem muito sobre detecção e recrutamento de talento.

Para se saber sobre formação temos de estar, pelo menos, três anos ligados a esta máquina. Para evoluir, para corrigir o que está menos bem, é preciso experiência, porque quem vem de novo vai facilmente cair nos erros que nós já sabemos que o são, dificilmente consegue ‘'pegar de estaca’' nas sinergias que já estão estabelecidas.

Quem não trabalha no Sporting Clube de Portugal, não tem ideia da dimensão e complexidade que é a estrutura de formação de um clube com a dimensão do Sporting. O Departamento de Recrutamento, é uma estrutura com muitos anos, com falhas – é verdade – mas também com virtudes. Mas é um departamento em que podemos dizer que a máquina está oleada, porque tem os profissionais escolhidos pelo Mestre Aurélio Pereira. O que quero dizer é que tem de haver uma evolução constante. Se estivermos sempre a mudar peças, o resultado do processo não é sempre o mesmo. É precisar haver continuidade, para que se estabeleçam processos estáveis. Quem já lá está [no Sporting], é excelente naquilo que faz e está em constante evolução.

Os atletas que chegaram agora à equipa principal, não chegaram agora à formação. Eles já estavam na Academia quando eu lá estava. Saiu uma notícia sobre os colchões e que a formação estava ao abandono mas a verdade é que algo se fazia bem. Podia-se era melhorar. Mas muita coisa, foi bem feita. E foi bem feita, em sacrifício, em superação, e sem os recursos que outros clubes têm à sua disposição, digo-te eu com conhecimento de causa. Estes colaboradores Sporting Clube de Portugal, fazem milagres. O investimento, até existe… mas se ele não é canalizado para o sítio certo, aí sim, temos problemas. O que é que sucede? Está a pedir-se a um colaborador que faça um sacríficio – que ele faz – mas não nos superamos para sermos campeões mas para estar sempre ali na mediania. E isto, não chega para profissionais desta craveira, que dão tanto, nem serve para o Sporting Clube de Portugal. Nós não temos de estar a lutar para estar a disputar com os nossos adversários. Nós temos de ter – em todas as dimensões – condições para os superarmos. Isto, é que é a ‘Glória’.

Os verdadeiros profissionais do Sporting Clube de Portugal, não são os das Direcções. São as pessoas que estão ao serviço do Sporting Clube de Portugal, todos os dias. Mas estão verdadeiramente ao serviço do Sporting Clube de Portugal.

Quase todos os candidatos à presidência do Sporting usam a bandeira da formação, mas passados uns meses parece que a formação passa para segundo plano, quando deveria ser uma aposta constante de todas as Direcções e de todos os Sportinguistas. É como se fossem os nossos filhos.

A formação no Sporting Clube de Portugal não está em declínio. Ela não está é alinhada “com o resto”. “O resto”, está sempre a mudar. E as mudanças [formação], desculpa lá a insistência, têm de ser impostas por quem sabe.

 

O melhor de trabalhar para o Sporting Clube de Portugal, foi?

O melhor, foi descobrir que existiam profissionais no Sporting que me proporcionaram a oportunidade para expor o meu trabalho, as minhas características, sem ser condicionado. E eles conseguiram conduzir-me para aquilo que é o sucesso de um todo, que é o Sporting Clube de Portugal. Muito feliz por ter conseguido conquistar as pessoas com base no meu trabalho e por saber que não há uma pessoa que não me reconheça competências. Fui muito feliz e aprendi com todos, da senhora da cozinha aos seguranças.

O departamento de Recrutamento ensinou-me muito. Fez-me crescer muito, na forma de ver o jogador do individual para o colectivo. Saio riquíssimo do Sporting Clube de Portugal.

Este clube merece todo o meu respeito e admiração, vou ser grato para sempre, as pessoas que estiveram comigo, deram-me muito. As Direcções passam, mas há pessoas que se mantêm e que são preciosas. É o que levo de melhor.

 

Disse-nos ‘até sempre’ ou ‘até já’?

Bom, eu sou um profissional do futebol, estou sujeito a convites, é disto que faço vida. Espero que seja um ‘até já’, mesmo que esteja noutro clube, espero que se equacione sempre o meu regresso ao Sporting Clube de Portugal. Claro que depende das condições, como é normal, sou um profissional. Mas o que eu gostaria de dizer é que enquanto estive no Sporting, estive para servir e ao serviço do Sporting Clube de Portugal. Continuarei a fazê-lo, até estar ao serviço de outro clube. Quando estiver noutro clube como profissional (Lusitano de Vila Real de Santo António)**, deverei toda a minha fidelidade a esse clube. Estou ao serviço do futebol e, por isso, de quem me contrata. Claro que tenho um carinho especial pelo Sporting Clube de Portugal o que leva a que, da minha parte, as negociações para ir para o Sporting gozem de um estatuto privilegiado. Não esqueço tudo o que as pessoas que servem o Sporting me deram e contribuíram para a minha formação. Para mim é sempre, e espero que da parte do Sporting Clube de Portugal, também, um 'até já'.

 

Há alguma coisa que gostaria que lhe tivesse perguntado e não perguntei?

Sim. Recrutamento. Gostaria que me tivesses perguntado sobre a importância do Departamento de Recrutamento.

Força, conte-me tudo!

É fundamental por ser o momento da escolha da matéria-prima para ser trabalhada. É descobrir o diamante para depois lapidá-lo. Mesmo com um diamante, se usares um martelo e não as pinças e martelinhos pequeninos, não consegues tirar o melhor do diamante, o máximo que consegues é pó de diamante. O Departamento de Recrutamento detecta o diamante, ele só pode ser trabalhado se for detectado.

É fundamental saber definir o que é um 'talento' e um 'projecto de jogador'. É isto que o Departamento faz. Agora fala-se muito em tamanho, mas tamanho é um factor diferenciador. Mas o facto de, por exemplo, ser muito alto, não quer dizer que aquele menino venha a ser jogador de futebol. É um factor diferenciador, como o é a velocidade. Todos nós queremos jogadores que sejam muito rápidos, assim como queremos um jogador muito técnico, muito criativo, um jogador imprevisível.

Não nos podemos esquecer de que estamos a escolher jogadores para o Sporting Clube de Portugal, estamos a escolher jogadores para a Liga dos Campeões. O objectivo do Sporting é sempre esse, logo, é sempre para essa fasquia que temos de trabalhar. É para aí que nós no Departamento de Recrutamento trabalhamos, é para aí que projectamos o nosso trabalho. Quando trabalhamos para outros emblemas que não o Sporting Clube de Portugal, então aí, sim, já olhamos para o ‘rendimento’, a presença destas características altamente diferenciadoras não é um factor tão importante como é para nós.

Depois dessa detecção, vem a Avaliação. É realizada por elementos do Sporting Clube de Portugal que conhecem os meninos de Norte a Sul. Gostaria de dizer que são profissionais que viajam muito, que vêem muitos jogos e que têm um conhecimento geral dos meninos que estão nos nossos quadros.

Estes meninos passam depois por vários níveis e vários níveis de observação integrada. Ou vão a um treino integrado já com equipas de competição ou vão fazer um jogo particular em competição ou são inseridos num contexto de captação, em que juntámos os meninos que nós vimos e analisámos ao longo de um período de tempo e são os melhores e depois, entre eles, fazemos um filtro dos melhores.

Depois então, vem o processo de ‘Convencimento da Família’, para que queiram ficar no Sporting Clube de Portugal. Pode soar estranho, mas não se esqueçam que nós estamos a disputar meninos com o Benfica, o Porto e até o Braga. Os outros clubes também têm profissionais, também têm gente que sabe muito disto. Não nego, é uma fase do processo que dá muito trabalho e ainda dá mais trabalho quando… não somos campeões há "20 anos". Muitas estratégias… Detectar dá trabalho, avaliar dá trabalho, convencer dá muuuito trabalho. Mesmo muito trabalho, sempre em contacto com as famílias a tentar perceber, a fazer valer todos os nossos melhores argumentos, apresentar 'N' cenários à família.

Neste domínio, o Sporting deve muito ao Senhor Aurélio. O know how refinado que temos devemos ao Senhor Aurélio Pereira. Respira-se Aurélio Pereira na máquina que é o Departamento de Formação. Não me canso de dizer que o Aurélio Pereira dos tempos modernos é o Paulo Moreira, mas há muitas outras pessoas talentosas no Departamento, nomeadamente: o Rui Casteleiro, o Alex – que apesar de ter saído do Sporting há pouco tempo, é um talento – o Luís Branco, Luís Ramos, o Gabriel, o Simão Mendes, o Bruno Brito – Bruno Brito excelente profissional –, Nuno Mota, João Correia, são tantos e tantos… Mas destacar sempre o Paulo Moreira. Há tantas e tantas pessoas neste Departamento com tantas e tantas capacidades, é difícil estar a nomear todas. O Nuno Mota, um organizador, muito minuncioso e que tem um talento enorme, lidera pela organização, é o engenheiro de todo o Departamento.

Voltando ao processo, depois da ‘Detecção’ (informadores/observação directa), ‘Avaliação’, ‘Selecção’, ‘Convencimento da Família’, vem então a fase da ‘Contratação’. É a fase mais difícil. Acontece ao mesmo tempo da fase do ‘Convencimento da Família’. Fechar e assinar o menino, é a fase mais difícil. Mas, atenção, o trabalho do Departamento de Recrutamento, não se esgota aqui. Nós, no Sporting Clube de Portugal, continuamos a acompanhar o atleta e a família.

Acompanhamento à Família e ao Atleta: são muuuitos atletas. Este acompanhamento tem de ser feito, não vou dizer que 24h por dia, porque são mesmo muitos atletas, mas 24h por dia, nós estamos a fazer acompanhamento dos atletas. Para fidelizá-lo ao clube, porque eles estão sempre a ser assediados/tentados pelos outros clubes – porque eles são os melhores – por isso, é fundamental manter uma presença constante na vida destas famílias. É um trabalho muito, muito, grande. Desde o momento em que se detecta o atleta, até ao momento em que o atleta sai do clube, nós estamos sempre presentes na sua vida. Sempre. Até mesmo depois de saírem do clube, muitas vezes.

Depois deste processo todo, podemos dizer que o Departamento de Recrutamento e a área técnica, chocam muitas vezes. E chocam porque uns querem descobrir talentos novos (recrutamento) e a área técnica quer desenvolver os talentos que tem, ora… se se colocam novos meninos dentro das equipas, muitas das vezes pode ser sentido como estar a pôr em causa o trabalho do treinador, como se ele estivesse a fazer um mau trabalho com os meninos que estão sob a sua alçada… o treinador está ligado emocionalmente aos meninos da equipa. Se eu sou treinador, e há outro da mesma idade que vai entrar ali, se calhar, pode-se estar a pôr em causa o meu trabalho. É fundamental ter uma sinergia bem oleada, para que treinadores se sintam confiantes em relação ao trabalho que estão a fazer e aceitem os novos meninos que os coordenadores decidam integrar. Ninguém quer correr o risco de o próximo 'Cristiano Ronaldo' aparecer do outro lado.

Como estive nas duas áreas, compreendo as dinâmicas específicas da área do ‘Recrutamento’ e da área técnica, profundamente.

Todos os meninos que entram no Sporting Clube de Portugal são excepcionais e vão ser lapidados pela área técnica. Mas será que todos atingem o seu potencial máximo? É que o treinador tem um papel fundamental… tem de saber muito bem como aplicar o quê, no momento certo. No Sporting, trabalhamos para ter atletas do meio da tabela para cima, não do meio da tabela para baixo. Trabalhamos, para ter jogadores de Liga dos Campeões.

WhatsApp Image 2020-08-03 at 17.07.21.jpeg

Imagem: João Nunes, ao serviço do Sporting Clube de Portugal

 

**Devo salientar – CAL – que João Nunes fez questão de sublinhar já em momento pós gravação de áudios-resposta, que não seria justo no imediato ir para um adversário directo (SLB/FCP); tem consciência plena de que muitos meninos seguir-lhe-iam os passos mas não deseja ver o projecto no Sporting ressentir-se nessa extensão.

Imagens: todas cedidas por João Gonçalves Nunes

De pedra e cal - Formação de Elite, por João Nunes

Uma época e meia da Academia de Formação Sporting – Algarve (AFS – Algarve), sob a coordenação de João Nunes: 15 jovens talentos na Academia de Alcochete mais 1 a realizar a pré-época 2020/2021.

Foram estes os números que me chamaram à atenção e despertaram curiosidade. À primeira vista, impressionam.

A formação Sporting não está em declínio? O Sporting não deixou de ser capaz de captar talento? Não é no Seixal que se formam os craques da actualidade?

Será caso raro ou, perante os números das outras AFS, absolutamente banais? Qual é a diferença entre uma EAS e uma AFS?

A equipa sénior de futebol não ganha um campeonato há 18** anos. Como é que um talento ao serviço do Sporting é adepto do nosso clube e quer jogar na equipa principal?

Estas são algumas das perguntas que fiz ao Mister João Nunes que, ao cabo de 3 anos, deixou de integrar o plantel da AFS - Algarve. Foi a 1 de julho que iniciou funções ao serviço de outro emblema (local) e divulgou publicamente – perfil Facebook – os números que apresentei. Disse-lhe que gostaria de saber mais sobre o que é a formação Sporting fora das paredes de Alcochete. Assentiu prontamente e impôs uma única condição: não falar sobre política. Sou do Sporting, não sou de Direcções - esclareci. Já somos dois - respondeu.

Para além da simpatia e disponibilidade do Mister, o Whatsapp viabilizou esta conversa à boa maneira da COVID-19. Enviei um sem número de perguntas, recebi clipes de áudio de resposta.

Esta conversa, vai ser apresentada em duas partes.

  

Equipa_JNunes.png

 

João Gonçalves Nunes, n. 25 de janeiro de 1972

Jogou no Águias de Camarate e aos 18 anos treinou uma equipa de infantis do seu bairro.

Foi pai aos 19 anos.

O convite para ser professor num ginásio em Serra de Minas (Sintra) trouxe a oportunidade para aprofundar conhecimentos sobre, entre outros, fisiologia, nutrição e dinâmica, capacidades coordenativas e condicionais.

As responsabilidades familiares obrigaram à escolha de uma profissão que permitisse suprir as necessidades de sobrevivência da jovem família, foi assim que, enquanto motorista de pesados, viajou pela Europa fora. Não se pense por um momento que esqueceu a paixão pelo treino de formação. Bem pelo contrário. Extrovertido, tratou de abordar todos os treinadores que pôde, por todos os países por onde passou. Chegando mesmo a começar o dia de trabalho às 04:00 para às 14h estar disponível para assistir a treinos.

Aos 26 anos, mais autónomo (chegou a ter 15 camiões e 30 funcionários), podia decidir se saía ou não de viagem. (Re)Começa, assim, a viagem pelo futebol de formação no Barberà del Vàlles, em Barcelona. Já recebeu convites para treinar equipas séniores que declinou sempre.

Ocupou, até 30 de Junho, o cargo de Director de Recrutamento e o de Director Técnico da Academia de Formação Sporting Clube de Portugal – Algarve.

 

Mister, o que é a Academia Formação Sporting - Algarve?

JGN - A AFS – Algarve está integrada num projecto composto por cinco AFS, escolhidas estrategicamente por referência a um critério geográfico. Temos uma em Braga, uma no Porto, uma em Aveiro e uma em Coimbra.

Este projecto começou em Agosto de 2017, muito antes da sua inauguração oficial. Integrei a AFS Algarve em Outubro de 2017. Contudo, não faz sentido falar sobre a AFS – Algarve isoladamente. Este é um projecto no qual o Sporting investiu cerca de 1 milhão de euros e cujos 6 profissionais contratados inicialmente, prepararam o seu arranque nos cinco pontos do país em regime de completa exclusividade.

A 5 de Setembro de 2018*, foram inauguradas todas as AFS.

Fizemos um trabalho de bastidores exaustivo: quisemos caracterizar o jogador algarvio, reunimos com clubes locais, com membros dos núcleos, quisemos perceber onde estava o talento. A escolha do Núcleo ‘parceiro’ também obrigou à verificação de critérios bem definidos de maneira a assegurar que as nossas equipas competiriam nos locais certos. A nossa escolha recaiu sobre o Núcleo de Olhão.

Muitas reuniões para definir número de meninos a recrutar, quantos equipamentos deveriam ser comprados, noites a estampa-los – Paulo Moreira teve um papel de relevo neste campo. Há um trabalho de fundo, muito significativo, antes do momento da inauguração.

Um ano antes da inauguração fizemos inúmeras actividades de recrutamento. Viajámos muito, pernoitámos em locais que não lembram a ninguém, fomos ver muitos jogos, fomos a muitos torneios – aqui no Algarve –, fizemos uma caracterização profunda do universo algarvio. Excepção feita a alguns miúdos já detectados pelo Recrutamento, não havia nada feito. Anteriormente, os colegas do Recrutamento não tinham uma "ferramenta como a AFS" onde colocar os meninos. Conseguiram segurar alguns de forma absolutamente miraculosa, porque a concorrência era feroz, já estavam muito bem preparados. Só para que se perceba, o C.F.T. – Benfica estava no Algarve há 11 anos. Punham e dispunham no Algarve. Tínhamos o F.C. Porto, que já cá estava há cinco anos. Só o Sporting não tinha aqui uma estrutura sólida. Por aqui se vê a dificuldade que era recrutar um menino para o Sporting.

Se tinham o Benfica à porta de casa, iam pôr o menino em Alcochete/Pólo EUL, a 300 km?

Ora, AFS é, por definição, um projecto de detecção e recrutamento de talentos. Os meninos são selecionados pelas suas características diferenciadoras e passam a ser um investimento total do Sporting Clube de Portugal. Não há, portanto, qualquer tipo de pagamento efectuado pelos encarregados de educação. O trabalho realizado numa AFS acontece de acordo com linhas orientadoras desenvolvidas em Alcochete.

A estrutura de uma AFS é composta por um coordenador de zona, no caso do Algarve o talentoso Paulo Moreira que, não me canso de sublinhá-lo, é um talento do Recrutamento. É preciso não perder de vista que não há só talentos nos jogadores. Também os há no recrutamento, no treino, … Paulo Moreira, cobria a região algarvia e a região alentejana. Posteriormente, passou a haver um coordenador local, que articula com o coordenador de zona e a própria Academia (estive inúmeras vezes na Academia, ia lá beber o que depois reproduzi aqui), um coordenador técnico, uma psicóloga, um fisioterapeuta, um secretário técnico e treinadores (certificados pela Federação). O número de atletas que temos, define o número de escalões que temos. No nosso caso, iniciámos com cinco elementos. A AFS - Algarve tem uma equipa de recrutamento que evoluiu de uma única pessoa para toda a região algarvia (Edgar Jaques) para três pessoas: 1 coordenador para Vila do Bispo, Aljezur, Monchique, Lagos, Portimão, Lagoa e Silves, 1 coordenador Albufeira, Loulé e Faro e 1 coordenador para S. Brás de Alportel, Olhão, Tavira, Alcoutim, Castro Marim e Vila Real de Santo António. Cada um deles, tem uma equipa de observadores e informadores (passamos a ter uma estrutura muito idêntica à de Lisboa e Setúbal). Poucos foram os jogadores que iniciaram a sua actividade desportiva sem que eu soubesse primeiro do que os nossos adversários (esta evolução, alcançámo-la do primeiro para o segundo ano da AFS - Algarve).

Só para que se perceba, da geração de 2007 no ano de arranque, a AFS – Algarve pôs cinco meninos em Alcochete e ainda pusemos mais um de fora da AFS, da geração de 2006. A C.F.T. (o equivalente benfiquista à AFS), pôs zero no Seixal. Secámos o Benfica logo no primeiro ano.

Inicialmente, partilhávamos os espaços do Guia FC, actualmente, temos a sede operacional em Paderne graças a um acordo firmado com o Padernense FC (Albufeira).

 

Explique-me os números que divulgou. São… normais? Há mais talento futebolístico na região algarvia do que no resto do país?

JGN - Ora, realmente os números não são normais… mas acabam por ser normais. Não são fruto da sorte, são fruto de muito, muito trabalho. Posso dizer que nestes últimos três anos trabalhei 24h por dia para o Sporting Clube de Portugal. Achei que era altura de provar que não faz sentido olhar para um jogador só a partir dos 16 anos para cima. Os meninos não começam a jogar futebol aos 16 anos. Hoje em dia, começam a jogar futebol aos 5 anos de idade. Há uma coordenação entre projecto ‘criança’, projecto ‘atleta’ e projecto ‘jogador’, porque na AFS, só queremos elite.

Talento, há por todo o país. Temos é de detectá-lo e criar as sinergias com a área técnica que permitam a sua expressão e materialização.

Ao cabo de 30 anos, sei o que é preciso fazer, sei que sou bom naquilo que faço, estive constantemente no terreno de jogo, quando falo em 24h por dia, foram mesmo 24 horas por dia. Deu muito trabalho, foi muito desgastante, mas os números estão aí e falam por si. Não sou um falso humilde, sei neste momento muito sobre detecção, contratação e fidelização de um atleta.

 

Em termos de número de crianças, como estamos face à oferta na região? Os pais procuram-nos ou temos de ser nós a procurá-los?

JGN - Estes meninos são detectados através dos nossos observadores que fazem um relatório sobre um jogo onde viram um atleta, relatório este que vai ser lido pelo coordenador de zona. Se for um menino que é um talento daqueles que salta à vista, telefonam-me e eu rapidamente largo tudo o que estou a fazer e vou lá ver o menino. Se realmente o menino for top dos tops, já não entra no processo normal e eu posso decidir logo ali que quero o menino na AFS. Não sendo um menino top dos tops mas sendo um menino a quem chamamos um ‘projecto’, dentro de um processo chamado normal, após o relatório ser lido pelo responsável técnico, há lugar à emissão de um parecer. Quando existem 3 pareceres técnicos positivos, o do coordenador de zona, o do director técnico – que era eu – e um dos elementos da equipa selecção (Lisboa), um jogador pode entrar na nossa Academia (AFS). 99,9% dos meninos que estão na AFS - Algarve, passaram pelo processo ‘normal’: observação e relatório que carece de 3 pareceres positivos.

Não são os pais que trazem os meninos, somos nós que os escolhemos. Nenhum menino entra no Sporting Clube de Portugal sem ter um relatório feito.

Para se ter ideia, o Rafael Leão, aos 8 anos, quando estava no Amora, era um menino diferenciado mas não era um talento. Era um ‘projecto’. No entanto é um dos jogadores mais valiosos de Portugal, da geração de 99. É apenas um exemplo de um menino que aos 8 anos de idade, não era um talento. Teve que ser farejado, por um observador também ele talentoso que conseguiu olhar para ele e projectá-lo para o futebol profissional do futuro.

Há pessoas super talentosas no Recrutamento. Conseguem olhar para um menino de 6 anos de idade e projectá-lo para o futebol profissional: estamos a falar do Paulo Moreira. Arrisco dizer que o Paulo Moreira, é o Senhor Aurélio Pereira dos tempos modernos. Quando põe o olho num menino e diz, aquele menino vai lá chegar, eu acredito piamente. Porque há provas disso. Para além do Rafael Leão, estou a falar de um Rúben Vinagre, estamos a falar de muitos jogadores que eu e ele detectámos muito antes dos outros e projectámos para o futebol profissional.

Assim como, atletas de 16/17/18 anos que se desenvolveram e foram detectados logo. Por exemplo, o Demiral… o Paulo Moreira atravessou-se completamente pelo Demiral. E hoje, o Demiral, é o jogador que é, está onde está. É um jogador da elite mundial.

 

Quando uma criança chega à AFS – Algarve, o que é que a espera? Que tipo de avaliação é feita?

JGN - O primeiro passo é a análise de conteúdo do relatório, ver quais são as características diferenciadoras. Pessoalmente, gosto de ver o menino a interagir desde o primeiro momento, perceber se está à vontade. Quero vê-lo logo com os outros atletas. Há meninos que são talentosos e chegam para treinar no Sporting Clube de Portugal e retraem-se. É preciso pô-lo à vontade e dar-lhe tempo. Muito cuidado com este aspecto.

Depois fazemos comparações com os atletas que já lá estão, que já são atletas de elite. Como é que no confronto directo esse menino (candidato) se comporta.

Depois, o tempo de prática desse menino. As características que procurámos em miúdos com diferentes tempos de práticas, são diferentes. Há um menino que pode ter muito sucesso porque tem muito tempo de prática e esse menino tem uma margem de progressão mais pequena do que um menino que tem menos tempo de prática, mas tem características diferenciadas. É fundamental fazer esta diferença. Depois, perceber a sua criatividade, imprevisibilidade, a sua reacção rápida à perda de bola, ou seja, o seu carácter. Eu gosto de chamar a isto, competitividade. Depois, temos as acções técnicas: se o menino tem aquele pé que nós dizemos que tem o pé com polegar, aquele menino que agarra a bola, ela vem como vier, ela vem enrolada, ela vem aos saltos, e ele consegue sempre dominar a bola, as suas recepções sempre orientadas para a frente, se ele percebe o espaço. Se ele revela ter um entendimento das trajectórias da bola, se este entendimento decorre das experiências que já teve ou se é inato nele, há pessoas que antecipam naturalmente as coisas, têm uma facilidade enorme.

Numa AFS, uma criança pode contar com uma observação gradual, com oportunidades para que se sintam completamente à vontade para expor todas as suas qualidades.

 

O que é que nos pode dizer sobre os meninos que saíram da AFS – Algarve, para Alcochete? Posso sonhar com um futuro campeão europeu, orgulhoso de ser produto da nossa formação?

JGN - São meninos extraordinários. Muito bem-educados e muito bem formados. Todos eles sob a alçada de encarregados de educação exemplares. Posso dizer que na AFS – Algarve, demos formação aos Encarregados de Educação, explicámos muito bem todo o processo.

O que eu e os técnicos procurámos fazer foi dar muita confiança a estes meninos. O que lhes dissemos foi: o erro, faz parte do futebol. Erra-se muito mais do que se acerta e nós estamos cá para te ajudar a perceber o erro, a ultrapassá-lo e a teres a coragem para nunca receá-lo. Nunca deixes de arriscar por medo de errar. Chegados a Alcochete, o que se ouve é, ‘o menino do Algarve’ é diferente do do resto do país. Isto, é fruto de muito trabalho.

Os nossos meninos são muito, muito competitivos. São alegres, são divertidos, dão espectáculo, gostam de dar espectáculo, são super competentes. Estou certo de que vão ter sucesso na Academia de Alcochete. São líderes. Muito corajosos, foram estimulados de forma fundamentada – ciências sociais e cognitivas – para a tomada de decisão. Demos-lhe muito espaço para que pudessem experimentar, para que pudessem errar e assim construírem-se. Para além disto, são imprevisíveis, criativos. Estes meninos, são o futuro do Sporting Clube de Portugal. Sinto um orgulho enorme no trabalho realizado pela estrutura da AFS – Algarve.

PGerardo_GDias.png

(Imagem: Pedro Gerardo e Gonçalo Dias, acervo João Nunes)

Podemos sonhar que vão ser craques e dar muitos milhões ao Sporting Clube de Portugal:

Afonso Cunha, central, pé direito, posição 3 (resgatado numa captação do FCPorto)

João Simões, 8, que pode ser um médio de cobertura também

Gabi, na minha opinião um 9,5 que tem uma relação espantosa com a baliza

Afonso Santos um craque criativo, inteligente; jogador de muita elegância que recupera e faz jogar; é um médio ofensivo e muito criativo

Clodualdo Cofite, jogador muito alto e rápido pode jogar a 9

Wilson Furtado, médio defensivo ou médio e cobertura

Alexandre, guarda-redes de milhões 

Cristiano, defesa central

Simão Sobreira, defesa central

Gonçalo Dias, central de 2006 de grande classe jogador de enorme qualidade técnica e dimensão física

Afonso Luís, um lateral direito ou ala direito

Lawrence Smith, extremo esquerdo muito criativo

Manuel Lamúria, a qualidade é tanta que não sei se é um 9 de top ou um médio de top ou um seis de top ou um defesa central de top (só sei que vai jogar no corredor central e vai valer muito ao SCP)

Pedro Gerardo, (2006) avançado, esquerdino e que gosta de jogar entre linhas

Alexis Jesus, um ala esquerdo ou lateral com o melhor drible em progressão que já vi

Se juntarmos a estes jogadores os que estão ainda na AFS e se mantiverem o mesmo nível de treino, o Sporting está servido de craques para muitas gerações.

Bernardo Busatori_SLB_2_Velhos.png

[Nas imagens Bernardo Busatori, geração 2011, a jogar contra jogadores dois anos mais velhos. Este jovem atleta, já foi alvo de destaque num comentário, aqui, no És a Nossa Fé (Torneio dos Templários, eleito melhor jogador)]

Screenshot_20200802-185233.png

(Ambas as imagens foram cedidas por João Nunes)

JGN: Basta dizer que 2013 já temos alguns craques; 2012 muito boa geração; 2011 um fenómeno e outros projetos; 2010 muitos craques e projectos; 2009 não em tanta quantidade nas em qualidade temos super craques, guarda-redes, extremos, laterais, avançados...

 

Qual é o aspecto mais importante na formação de um jovem jogador? O que é que quer de um escalão treinado por si? 

JGN - Não existe um aspecto mais importante do que outro, existe, sim, uma janela de oportunidade certa. O aspecto mais importante nesta formação global é saber quando, como e porquê. É fundamental intervir no momento certo, para não perdermos a oportunidade "óptima". Eu não idealizo um jogador de futebol sem idealizar o ser-humano. Dou mais importância a esta dimensão global, "o ser-humano" mas é óbvio que tem de ter características diferenciadas porque estou a formar jogadores de futebol. Depois, a competitividade é uma dimensão que deve ser muito estimulada. Competitividade saudável, não no sentido bélico, bem pelo contrário. Aquilo a que chamo, uma competitividade agregadora.

 

Nestas idades, os jogadores já são fãs de equipas estrangeiras ou só de portuguesas?

JGN - Portuguesas e estrangeiras. Mundo global, redes sociais, os meninos vêem jogos e têm preferências, mesmo de equipas estrangeiras. Estão a par do que se passa nas outras ligas.

 

Há miúdos (AFS – Algarve) que são benfiquistas, que até já estiveram em treinos de captação no Seixal… sente algum impacto negativo do que refiro no comportamento dos miúdos? O que é que o Sporting, o símbolo que têm ao peito quando treinam e jogam, significa para um miúdo de outras cores?

JGN - Acima de tudo, as crianças querem jogar futebol. Até aos 9/10 anos de idade, querem é divertir-se. Ganham carinho, quando vestem a camisola pela primeira vez. Alguns, mudam para o Sporting. Outros dizem que nas equipas dos adultos, são do Benfica/Porto, mas que nas equipas das crianças, são do Sporting. Outros dizem que quando estão a jogar são do Sporting, mas que quando despem a camisola e saem das instalações, voltam a ser do clube de que sempre gostaram.

As crianças, gostam das equipas que ganham. Não gostam de chegar à escola e ouvir críticas dos colegas cujas equipas ganharam. Um miúdo que é do Sporting responde que perdeu, mas que o seu clube é o melhor do mundo. Agora, quando começam a jogar com a camisola, quando têm referências sólidas do Clube com quem lidam diariamente, que se focam nos aspectos muito positivos do que é ser Sporting Clube de Portugal, sem dizer mal dos outros clubes, sem menorizar os outros clubes, valorizando o que é nosso, começam a perceber a responsabilidade que têm, no seu mundo, por vestir aquela camisola. Passam a ser um exemplo para os colegas. Quando estão com aquele equipamento vestido, estão a representar um dos melhores clubes do mundo, estão a ter acesso a uma das melhores formações do mundo, a da única academia que formou dois 'Bola de Ouro'. Quando expostos a este tipo de modelo, os miúdos crescem num contexto de integridade, honestidade, de resiliência e de vontade e de respeito por eles, pela nossa instituição e pela dos adversários.

Estes miúdos, e mesmo as suas famílias, sentem-se muito orgulhosos por terem sido escolhidos pelo Sporting Clube de Portugal. Ficam com expectativas elevadas e com razão porque sabem que escolhemos os melhores. Um menino ‘nível A’ vai ser um jovem ‘nível A’ no futuro se tudo correr bem. Por isso, há sempre um carinho muito especial pelo Sporting.

A presença deste projecto do Sporting na região, até para o Universo Sportinguista, é muito bom, não só para tirar dividendos futuros (jogadores) mas também pelo aprofundamento do conhecimento do que é o Sporting Clube de Portugal. Pela presença em si. Põe-nos no dia-a-dia destas pessoas, nesta região.

 

A equipa sénior de futebol não ganha um campeonato há 18** anos. Como é que um talento ao serviço do Sporting é adepto do nosso clube e quer jogar na equipa principal?

JGN - Nós temos de ganhar um campeonato em breve mas o não ganhar também nos torna muito resilientes. Os jogadores que jogam pelo Sporting também ficam muito resilientes. Eu quero ganhar, eu quero fazer parte da mudança. Têm essa sede, essa vontade, dá-lhes uma garra diferente. Mas é algo que a estrutura directiva tem de acompanhar, tem de criar condições para apostar na formação. Não pode ser um treinador de séniores a estruturar ou reestruturar a formação do Sporting Clube de Portugal. É um erro – e muito grande – se assim for. Um erro, pela lógica. Um treinador de sénior depende de resultados. Se não os alcança, cai. Se cai, toda a estrutura vai por aí abaixo porque está tudo sustentado na equipa sénior. A base tem de ser a formação e o treinador tem de ser escolhido em função daquilo que é o Sporting Clube de Portugal. Também não podemos estar a mudar a formação de cada vez que muda uma Direcção. Uma formação é, no mínimo, a 10 anos. Se mudam de Direcção muitas vezes e de cada vez que mudam, lá vêm os amigos e as pessoas que conhecem na formação, voltam os processos (quase) à estaca zero. Isto, é dar tiros nos pés. Para não dizer, dar tiros na cabeça.

No Sporting Clube de Portugal a única coisa que se tem mais ou menos mantido, é a equipa de recrutamento e ainda bem. Mas a área técnica, os directores, esses caem sempre e vêm pessoas novas. Isto não permite ter a máquina oleada.

Se olharmos para os nossos rivais, têm a mesma estrutura directiva há muitos anos. Não quer dizer que a formação deles seja melhor do que a nossa, mas têm mais estabilidade. Se a formação se faz a 10 ou mais anos, com a estabilidade deles, levam alguma vantagem sobre nós.

O que tem permitido ao Sporting Clube de Portugal sobreviver, é o talento de algumas das pessoas que tem conseguido reter. Mas o Sporting precisa de valorizar essas pessoas. Os amigos trazidos pelas Direcções, não podem sobrepor-se às pessoas que já lá estão e que tem muito know how. Este tipo de comportamento, torna tudo muito mais difícil. A estrutura do Sporting Clube de Portugal é muito grande, é muito complexa. É preciso experiência para estar no Sporting Clube de Portugal. É preciso saber muito para estar no Sporting Clube de Portugal. Às vezes, vêm pessoas novas que não tem experiência e pisam minas, rebentam um (bom) trabalho feito e que estava oleado.

Os atletas que fazem a sua formação no Sporting, gostam do Sporting Clube de Portugal mas precisam de ter uma Direcção forte que lhes dê confiança para eles quererem continuar no Sporting. Seja lá qual for a Direcção.

 

Mister, trago-lhe aqui o meu filho – um Messi completo – que apesar dos 7 anos acabados de completar, já tem empresário. Só lho trago para entretê-lo até aos 18 anos que este empresário já me disse que vai conseguir pô-lo no Barcelona. Sabe qual é a posição do Messi? Então já sabe, ponha-me a criança a jogar aí e ninguém se chateia.” Este pai, existe?

JGN - Felizmente, não existe. Pelo menos eu, nunca apanhei este tipo de encarregado de educação. O que acontece é que à medida que o menino entra na AFS e se vai desenvolvendo, as expectativas do encarregado de educação vão aumentando. Mas somos nós – técnicos – que temos de gerir essas expectativas. Este tipo de pai, mesmo que venha com esta atitude, ao ser integrado num contexto que é de elite, percebe que o seu filho não é o único ‘Messi’ e há ali muitos outros ‘Messi’. Há muitos talentos em Portugal e muitos deles são super talentos. Uns precisam de mais ajuda num aspecto, outros noutros, mas também os há, super talentos, que o que é preciso é ter cuidado para não estragar, é só dar as oportunidades certas, no momento certo.

 

Alguma situação caricata que queira/possa partilhar?

JGN - Uma sobre um profissional que hoje é profissional num clube nosso rival (não vou dizer o nome, mas digo-te que é de 2001). Fomos de viagem para o Norte e ficámos hospedados num hotel. Normalmente, ficamos com um piso por nossa conta, controlo os corredores. Eu e os meus adjuntos num quarto, os miúdos nos seus (vão para os jogos sem os pais). Eis senão quando, este agora profissional, bate-me à porta. Este miúdo, tinha sete anos na altura e estava habituado a ficar com os avós, era com eles que residia.

O menino bate-me à porta: ‘Olá Mister’

Mister: Olá, então, XX, saíste do quarto?

Menino: Ah, sim, saí porque não consigo dormir.

Mister: Ok, então queres que o Mister vá lá à tua cama, até tu adormeceres?

Menino: Ah, não, quero dormir com os Misteres. Posso ficar na tua cama, Mister?

Como era um miúdo muito pequenino, disse-lhe:

Mister: Então, olha, vais ficar aqui no quarto, ali naquela cama, sozinho, mas ficas aqui connosco.

Menino: Não, não, Mister… eu tenho de me deitar contigo e ficar a mexer no teu cabelo porque eu fico a fazer caracóis à minha avó e só assim é que consigo adormecer.

Ahahahahah

Bom, foi uma carga de trabalhos, viro-me para o meu adjunto: então e agora? Eu, tenho o cabelo curto, tu, tens o cabelo curto. Como é que vamos conseguir adormecer o menino!? Nós a rirmo-nos e o menino a olhar, muito espantado. Gostámos muito desse menino, hoje é um profissional de excelência e joga num clube de elite em Portugal. Gosto muito dessa criança.

 

Outra situação caricata de um menino que tem uma cláusula de rescisão de muitos, muitos milhões: esse menino, era um bebé pequenino e fez cocó nas cuecas e eu tive de o limpar com uma esfregona – ahahah – encostá-lo à parede e limpá-lo com uma esfregona porque não tinha mais nada com que o limpar. Ele hoje está num clube de elite e tem uma cláusula de muitos milhões, mas já o limpei com uma esfregona. Ahahahah

Outro episódio de quando ainda estava n’ Os Belenenses e vi o Rafael Leão na comitiva do Sporting: como sou muito brincalhão, estava sempre na brincadeira com os meus atletas. O Rafael Leão passava a vida a olhar para trás porque queria vir para a coboiada e estava ali, na comitiva do Sporting, onde não havia ainda uma abertura assim tão grande. Lembro-me dos olhinhos dele, a olhar por cima do banco e a dizer: eu quero é ir para ali, ali é que está divertido. Ahahahahah

 

Quando na época 2011/2012 assumiu funções de ‘Prospector Residente’ no Sporting Clube de Portugal, acumulava longa experiência de treinador de formação em Portugal (vasta, por ex., n’ Os Belenenses) e Espanha, e alguma como prospector (Belenenses – futebol juvenil e sénior). Como é que se chega a ‘Prospector Residente’ no Sporting Clube de Portugal? É cargo que permita autonomia financeira, que se desempenhe a tempo inteiro?

JGN - O prospector residente está responsável pela prospecção numa área geográfica pré-determinada. Esta actividade não permite autonomia financeira. Recebe-se uma pequena avença. No meu caso, a zona era a de Almada e Costa da Caparica (residia na Costa da Caparica) tinha vários informadores, ia ver vários jogos. Foi desta zona que saiu, posso dizer-vos, o Matheus Pereira. Num torneio quando ele ainda não estava inscrito para fazer o torneio pelo Trafaria, e foi fazer o torneio em Vale Milhaços, onde eu estava e comuniquei logo com pessoas do Sporting que foram rapidamente ver o menino. Isto, como digo, antes ainda de ser residente. Já dava algumas informações ao Sporting Clube de Portugal na qulidade de ‘informador’. Saíram destas minhas informações meninos como o Paulinho, Júnior, Muanza, Simão, Henrique Abrantes (SLB/VFC), todos estes talentos saíram da minha zona de residência, foram observados pelos meus informadores.

Não dá autonomia, dá uma avençazinha. Tinha de acumular muitas coisas: professor no Trafaria, professor no Guadalupe, tinha que fazer muitas coisas e aquela avença ajudava-me também a ter um ordenado. Posso vos dizer que estamos a falar de sensivelmente 200€. Se colocasse um jogador da minha escola de futebol, aí sim, recebia mais as ajudas, mas tudo muito inexpressivo.

Mesmo isto, posso dizer que houve uma altura que o Sporting passou muito mal e nem isto, estes valores, praticava. Houve muitos cortes orçamentais. Esses cortes, levaram-me até a deixar esta parte e a ir para uma Escola Sporting (EAS) e deixar o Trafaria. Já recebia muito pouco, como Observador do Sporting Clube de Portugal, e então fui para a CIF – que até pagava bem – e que é uma das escolas referência em Portugal devido ao seu contexto. A escola tinha muitos alunos, e de um estracto social alto, por isso a Escola conseguia pagar-me. Ficava ao lado de vários colégios, estava num contexto muito privilegiado.

(João Nunes ao centro, de preto, ao lado de Aurélio Pereira)

IMG-20200731-WA0000.jpg

 

Teve contacto com Aurélio Pereira?

JGN - Sim. Tive e tenho o gosto de conhecer e ser amigo do Senhor Aurélio Pereira ainda que não seja amigo de casa, como alguns colegas. Nomeadamente o Nuno Mota, o Paulo Moreira, que convivem há muitos anos com o Senhor Aurélio Pereira. O Paulo Moreira foi recrutado pelo Senhor Aurélio Pereira e o Nuno Mota, também.

Eu, fui contactado pelo Senhor Aurélio Pereira, houve logo uma empatia muito grande, vimos alguns jogos juntos, analisámos alguns jogadores juntos. É uma pessoa extraordinária. É um talento (do Recrutamento) nato. Tem também uma afectividade tremenda. Tanto nós, como as crianças, como os encarregados de educação, sentimo-la e… ficamos colados ao Senhor Aurélio Pereira. A forma como ele diz as palavras, a forma como ele está, a forma como ele entoa no momento certo, é uma pessoa muito agregadora. Um poço de conhecimento sobre o que é talento. Tem uma experiência enorme de ver meninos e uma experiência de vida igualmente grande. Os seus valores, como ser-humano, são extraordinários. Transmite-os de uma forma intrincada e é algo de muito natural e espontâneo. Gosta de ensinar, gosta de dialogar e eu sinto-me privilegiado por ter tido o gosto e o prazer de privar com o Senhor Aurélio Pereira. Acho que todos os dirigentes, directores, devem ouvir o Senhor Aurélio Pereira. A idade, não perdoa… mas devem todos ouvir o Senhor Aurélio Pereira. O ADN Sporting é o que ele é. Marcou todo o Departamento de Recrutamento, a forma de trabalhar é desenvolvida por ele. A forma como ele olha o jogador, como acarinha e de quase apadrinhar, é uma coisa única. Basta o senhor Aurélio Pereira andar nos corredores e tudo ganha sentido. Trabalhamos com uma outra motivação, com um outro querer, com outra vontade, com uma linha certa e ele não precisa de dizer uma palavra. Basta aquele olhar e aquele bigode e está tudo dito. Sou um fã do Senhor Aurélio Pereira, admiro-o muitíssimo.

Temos uma pessoa com as mesmas características, que é o Paulo Moreira. Chamo-lhe o Senhor Aurélio dos tempos modernos. O Sporting Clube de Portugal não pode perder o Paulo Moreira, se quiser continuar na elite da formação e do recrutamento de talento. É um farejador de talentos, tal e qual como o Senhor Aurélio Pereira. As pessoas quase trabalham de graça para o Paulo Moreira tal como quase trabalhavam de graça para o Senhor Aurélio Pereira. São pessoas inspiradoras, têm uma aura à volta delas que é muito inspiradora. Não me canso de sublinhar a importância do Paulo.

 

Na época seguinte, foi treinador numa EAS e ‘Prospector’. Qual é a diferença entre uma EAS e uma AFS?

JGN - A EAS onde estive (CIF) é uma das melhor sucedidas em Portugal.

A EAS, é um franchising. Qualquer pessoa pode abrir, paga e compra o ‘modelo Sporting de formação’, é um modelo comercial, bem elaborado, mas nós não temos controlo sobre esses atletas.

Tenho uma ideia muito própria das EAS. Acho que não deviam ter competição. A competição deveria ser assegurada por um clube à parte, com o seu próprio equipamento. Para treinarem, poderiam usar o equipamento Sporting, mas para competir, o de um outro clube.

A EAS Lagoa (Algarve), é um exemplo disso mesmo. Na competição utilizam outro equipamento, precisamente para que não se pense que são jogadores do Sporting. Eles não são jogadores do Sporting, são jogadores que pagam para ter formação de acordo com o modelo Sporting.

Quanto às AFS, creio que está tudo dito na primeira pergunta: não é para todos, só atletas selecionados, não pagam e são jogadores do Sporting.

Dou-vos um exemplo, um dos nossos meninos de 2007, fui buscá-lo a uma captação do Porto. Vim ao Algarve, não por acaso, por ser essa a minha profissão, e quando estou a assistir à captação do F.C.Porto, dizem-me que aquele menino é aluno de uma EAS e que foi o próprio dono da EAS que o levou à captação do F.C.Porto! Intervim e felizmente fui a tempo de contractar esse menino para a AFS. Ao fim de um ano, esse menino entrou em Alcochete. Hoje é um dos nossos craques de 2007 e futuramente vai valer muitos, muitos e muitos milhões ao Sporting Clube de Portugal (se tudo correr bem, sem azares pelo meio).

Isto tudo para dizer que o modelo EAS, é um modelo pouco controlado. Não podemos controlar aspectos como este que salientei: não podemos dizer que temos primazia sobre esses atletas… é um franchising. O dono pode ser de qualquer clube e pode levar os meninos onde quiser…

 

[continua]

Amanhã:

Os cinco anos na China, ao serviço da Winning League de Luís Figo, das equipas Z-Team e GDFC de Guangzhou, a saída do Sporting Clube de Portugal e o futuro da formação em Portugal e no Sporting.

*Edição: correcção da data de inauguração

**Edição: Correcção do número de anos sem ganhar o campeonato

Revelação em Espanha

domingos-duarte-granada-cf-1590760073-40021.jpg

Leio que Domingos Duarte, antigo jogador do Sporting, foi eleito para a equipa revelação da I Liga espanhola. Saúdo o facto, dada a simpatia que voto aos jogadores formados no clube. E não venho contestar a sua transferência. Por vezes os jogadores jovens saem porque não se prevê a sua utilização ou por necessidades de tesouraria ou porque assim o exigem, ou pressionam. Julgo saber que Duarte saiu por decisão interna. Legítima e nada dolosa, ainda que a possamos resmungar. No entanto também é possível que se Duarte tivesse ficado no plantel não se tivesse desenvolvido tanto, "tapado" por uma consistente e experiente parelha de defesas-centrais titulares e por um suplente de excelente currículo.

Venho saudar o facto também por outra ideia. Abaixo fui lembrando que nem todos os jogadores da formação cabem no plantel sénior, algo defendido pelo treinador La Palice. Mas também esta prática de fazer dos clubes uma placa giratória de jogadores é economicamente catastrófica. É uma deriva que implica dispensar jogadores da formação que podendo não ser Ronaldos ou Figos caberiam perfeitamente nos plantéis, seriam mais baratos - independentemente das remunerações, pois não haveria comissões e licenças desportivas a pagar.  E lembro dois jogadores que este ano foram notícia, Daniel Carriço e Wilson Eduardo, pois terminaram contratos de longa duração com as equipas para as quais se transferiram do Sporting. Sobre ambos correu o parecer colectivo de que "não eram jogadores para o Sporting". Carriço por razões de altura, perfeitamente estapafúrdias como o seu percurso posterior veio a demonstrar. Ambos são excelentes jogadores, muito melhores do que imensos contratados nos últimos anos. Teriam sido importantes para o clube. Isso poderá ser uma lição sobre como enquadrar estes novos jogadores. Não lhes exigir genialidade, titularidades absolutas. Mas perceber que, mesmo não tendo uma excepcional qualidade, será melhor integrá-los do que ir contratar fogos fátuos ...

Já agora, outro assunto: a trapalhada que acontece no Aves, que vem no seguimento do que se tem passado em vários outros clubes que independentizaram as suas "SAD"'s, mostra bem os riscos dessa suicidária opção. Também aqui o referi. Tenhamos muito cuidado com os defensores dessa opção, que nos vendem a ideia de que é o único caminho para o sucesso na bola. Alguns serão meros aldrabões, interesseiros na pilhagem do património espiritual do clube. Outros são bem-intencionados. Estes últimos são os piores, pois, como é consabido, são sempre agentes do demo.

Formações

Façam o favor de reparar que pela equipa do FCP que ontem nos derrotou "naturalmente" passaram Fábio Vieira (o único destes a alinhar de início), Diogo Leite, Romário Baró, João Mário, Victor Ferreira, e ficaram no banco Tomás Esteves e Fábio Silva. Todos com 20 anos ou menos. Alguns deles protagonizaram a equipa de sub19 campeã europeia em 2018 na qual o Sporting estava representado por Thierry Correia, vendido à pressa ao Valência onde vem comprometendo a sua evolução, Miguel Luís, misteriosamente desaparecido em combate, e Elves Baldé, a rodar lá longe no Feirense. 
Permitam-me então concluir que formação têm todos, não há que embandeirar demasiado em arco com ela. A diferença está no modo como cada um cuida dela e como a vai integrando na equipa principal. Ou seja, não a deitando fora por troca com alguma contratação de pacote, não a vendendo ao desbarato em acertos de contas, nem exigindo-lhe uma responsabilidade para a qual não está preparada e que só vai criando desânimo e um espírito conformista se não mesmo de derrota.

Cédric Soares!

Numa altura em que muitos arrasam com tudo o que mexe e foi jogador do Sporting, ou porque quis sair, ou porque forçou a saída, ou porque rescindiu, ou porque rescindiu e voltou e por aí fora, precisamos de respirar, precisamos de exemplos, precisamos de referências. E, dito isto, era possível ainda arranjar mais umas quantas hipóteses da pseudo fogueira pública em que alguns teimam, com o corolário no "formamos jogadores mas não formamos homens"... 
Aliás, são raros os casos em que antigo/ex jogador agrade a "gregos e a troianos". Acho que nem CR7 faz o pleno.
Também é verdade que não vemos muitos exemplos de reconhecimento e agradecimento ao clube e, infelizmente, alguns chegaram mesmo ao ponto de não lhes bastar a indiferença, cuspiram mesmo no prato onde comeram. Outra verdade é que o Sporting vive ciclicamente em guerra e em depressão, o que não ajuda nada pois muitas das críticas e "assassinatos" têm a ver sobretudo com a direção ou o Presidente que os contratou ou vendeu... Quem passa pelos campos de batalha digitais, Instagram ou Twitter sabe bem do que falo.

Por isso sabe bem ler coisas assim, afaga-nos o ego e faz-nos acreditar. 
Cédric Soares- "Se um dia voltasse a Portugal, voltaria para o Sporting. Foi o clube que me formou como homem e jogador e pelo qual ainda torço" (https://tinyurl.com/y9t3utsw)

 

21855859_I03sh.jpeg

(fotografia extraída do site https://cedricsoares.pt/)

A pré-época

Chamem-me o que quiserem mas para mim estamos já na pré-época 2020/2021. Esta é, parece-me, a aposta e orientação da Direcção e da Equipa Técnica, e concordo com ela. Afinal, no final desta tão atípica temporada resta-nos deixarmos de fazer figuras tristes em campo, abandonando definitivamente o péssimo e errático jogo que durante meses, meses de mais, foi sendo praticado por um conjunto de jogadores, e substituirmos aquilo que tantas vezes nos envergonhou e exasperou por uma equipa de futebol com cabeça, tronco e membros. Uma equipa que saiba o que está a fazer em campo - que já tantas vezes o faz bem! Uma equipa que nos dê indicações que no futuro estará melhor. Uma equipa, enfim, que nos dê esperança e horizonte.

Antes de Rúben Amorim, e pegando na ilustração anatómica, cabeça não havia. Nem nos jogadores e treinadores, e menos ainda na massa adepta, que a perdíamos com os nervos a cada jornada de novo e repetido desaire e desnorte. Quanto ao tronco, esse, só o comum. Do qual quase todos partilhávamos que aquilo era tudo um desastre. E membros faltavam sempre aos nossos na hora do passe certeiro, do remate decisivo, no momento tão ansiado do chuto matador. Goleador.

Ontem, em Moreira de Cónegos, faltou-nos acerto, sim, é verdade, mas também o é que essa conclusão tiramo-la sem termos de recorrer a bitolas antigas de anos, décadas mesmo, mas porque temos já a bitola Amorim.

Como tantos, também não gostei de ver Wendel e Nuno Mendes no banco. Muitos defendem que em equipa ganhadora não se mexe. Outros sentenciarão que não é preciso aplicar a rotatividade no plantel.

Devo confessar que concordo com essas máximas, mas quando seguidas e aplicadas em tempos de casa arrumada e totalmente definida. Infelizmente, o Sporting ainda não está assim. Mas felizmente para lá caminha. Caminha, acredito e tudo farei para que assim seja, para alcançar vitórias de forma consistente e, por isso, natural. O desejado reencontro com o estatuto de clube grande ganhador.

Posto isto, aceito e aplaudo a experiência e até mesmo experimentalismo que Rúben Amorim tem realizado nas equipas que monta. 

Há nele consistência. As equipas têm todas por base a formação. E esta aposta continuada e reforçada nos nossos principais activos é preciosa. É a que verdadeiramente nos dá futuro e inda rumo. É raro, muito raro, que ao discurso, às palavras se juntem os actos. O clube, esta direcção, disse-nos em tempos que iria apostar na Academia e suas muitas jóias e (depois de enganos e atrasos) está finalmente a fazê-lo.

Acreditando que não mais voltaremos a fazer figuras tristes esta temporada, convicto que no pódio ficaremos (fraco consolo!), espero e disso estou mesmo convencido que estas derradeiras jornadas estão já a ser a preparação de uma época vitoriosa.

Começámos 2020/2021 mais cedo que os outros. Tiremos proveito disso e assim sendo nem a incompetência (será só isso?) dos árbitros como os de ontem em Moreira de Cónegos nos impedirá de alcançar a glória que inscrevemos na nossa insígnia. 

It´s the football, stupid (adaptado de James Carville, 1992)

xSportingTaça.jpg

 

Faz-me alguma confusão que alguns Sportinguistas, se calhar ainda a pensar nos tempos de João Rocha, continuem a não entender que o futebol é a mola real do clube, que não existe futuro digno sem uma equipa que consiga disputar com os dois rivais os títulos, as Taças e o acesso à Champions, que nos tempos que correm qualquer proposta que seja desistir desse confronto, desinvestir, e vender uma fórmula conformista aos sócios e adeptos está condenada ao insucesso.

Despedindo Silas e contratando Amorim pelo balúrdio que se conhece, obviamente também como uma pandemia à mistura, Frederico Varandas passou em pouco tempo de presidente contestado à beira da demissão e em vias de sair de Alvalade pela porta dos fundos, para possível candidato à reeleição. As claques ressabiadas e desmamadas meteram a viola no saco, os brunistas como Alexandre Godinho ficaram com sensações agridoces, os outros candidatos ou não existem ou como Nuno Sousa já perceberam isso mesmo e iniciaram a sua maratona. Obviamente também tudo isto irá mudar se os resultados voltarem a ser o que foram com Silas.

No sentido inverso, foi também devido ao futebol e não a outra coisa qualquer que Bruno de Carvalho passou em poucos meses de presidente eleito por mais de 90% dos votos para sócio expulso por mais de 70% dos mesmos. Nesse caso a exponencial de investimento esbarrou na incapacidade do treinador (numa relação promíscua com o presidente do clube rival) traduzir isso em títulos, e deu na guerra que deu, com o desfecho conhecido.

Também por causa do futebol esse mesmo presidente lá no clube dele passou de repente de "dono daquilo tudo" para um dirigente contestado, com orçamento chumbado e a reeleição em risco.

E lá pelo Porto, o presidente vitalício Pinto da Costa, perdendo aqui ou ali, e tendo as finanças do Porto num poço sem fundo e património reduzido ao mínimo, lá continua de pedra e cal. Ninguém esquece o que o clube ganhava antes dele no futebol e o que passou a ganhar com ele, incluindo títulos europeus. E o que continua a ganhar, como vai ser este ano mais uma vez o caso. 

Então, muito mais que as finanças, muito mais que o património, muito mais que o ecletismo, muito mais que as modalidades de pavilhão, o futebol é a mola real dos três grandes clubes de Portugal. Com o futebol a ter sucesso, o estádio enche, a base de sócios aumenta, novos adeptos se criam, as crianças aderem, o clube pode ter maior orçamento para estimular o ecletismo e ter modalidades de pavilhão competitivas. 

E o futebol no Sporting tem que querer dizer formação. Mas para transformar a formação em sucesso desportivo e financeiro, é necessário implementar uma cultura de excelência a nível técnico, estrutural e metodológico, uma aposta na prospecção, recrutamento, formação, retenção e venda de talento jovem nacional e estrangeiro, e uma escolha criteriosa de jogadores experientes e consagrados que venham fazer a diferença desportivamente e ajudem na evolução dos jovens. Dito doutra forma: ter bons colchões, mas ter ainda melhor capital humano lá deitado. 

Só depois disso vem a questão do financiamento e do modelo de propriedade da SAD. Francamente ainda não me explicaram as vantagens do Sporting ceder a sua posição maioritária a um investidor qualquer, abundam os exemplos de conflito de interesses dos donos com os clubes e o consequente afastamento dos sócios. Se olharmos para outros sectores, casos como a TAP, a EDP ou a Altice demonstram a dificuldade de conciliar o interesse público com o privado. 

Mas obviamente que terão de ser encontradas formas de financiamento da actividade da SAD que não passem pela venda precoce do talento existente e que permitam mais e muitos mais momentos como o retratado na foto.

SL

Futre, Figo e Ronaldo são referências

Texto de Romão

2006_07_04t120000z_160284539_bm2dsyzreuaa_rtrmadp_

 

O Sporting Clube de Portugal está a voltar ao caminho de onde nunca deveria ter saído: apostar novamente no seu ADN.

Relembro que no ano passado esta direcção renovou contratos com cinco ou seis jovens considerados como os mais promissores. Com certeza que o fizeram cientes daquilo que tinham em mãos.

Entre eles estavam o Quaresma, o Nuno Mendes, o Tiago Tomás, o Joelson (que entretanto viu renovado o seu vínculo), o Gonçalo Inácio e um outro do qual não me recordo o nome.

 

Quem acompanha o futebol de formação há muito tempo sabe que só por manifesto infortúnio ou falta de juízo o Quaresma, o Nuno Mendes e o Joelson não serão jogadores com um futuro brilhante e de selecção nacional.

Mantenho a opinião: a qualidade da nossa formação decresceu muito e não é por agora aparecerem estes atletas que mudo. O nosso referencial de formação são atletas como Futre, Figo, Ronaldo, Nani, Quaresma, William, Adrian, Moutinho, Cédric, João Mário ou Rui Patrício, quase todos atletas campeões europeus por Portugal.

Todos os atletas que não tenham capacidade de chegar a um nível similar não podem satisfazer-me. É este o nosso padrão. O nosso padrão não é fabricar um Rui Costa de 20 em 20 anos. É termos uma produção constante de atletas com capacidade de representar Portugal ao mais alto nível.

 

Parece-me que a Direcção está a tomar o rumo depois de muita turbulência interna. Devo reconhecer que este malfadado vírus permitiu reformular estratégias e dar continuidade ao trabalho em sossego sem os anormais do costume a chatear.

Neste contexto não me parece que jogadores como Miguel Luís ou Pedro Mendes tenham capacidade para representar o SCP. Tenho dúvidas em relação a Geraldes, atleta que aprecio mas que me parece não dar muito mais do que tem dado. Sinto curiosidade em relação ao Daniel Bragança: acho que merece uma oportunidade séria. 

 

Texto do nosso leitor Romão, publicado inicialmente aqui.

Os "verdadeiros adeptos" (2)

Balanço muito positivo, nos mais recentes jogos, para os estreantes Nuno Mendes, Matheus Nunes e Eduardo Quaresma. Os mesmos que alguns "verdadeiros adeptos" reclamavam ver lançados no Sporting e sobre os quais já começam a tecer críticas. Tenho-as lido por aí: dizem agora que "falta experiência no plantel" e que a equipa peca "por excesso de imaturidade", entre outros mimos.

É a história de sempre.

 

Anteontem, Rúben Amorim lançou na equipa principal Tiago Tomás (18 anos recém-cumpridos) e Joelson (17 anos). Prova de que temos um treinador que não diz uma coisa e faz outra quando garante apostar na formação.

Mas os "verdadeiros adeptos", indiferentes aos factos, não se contentam com estas novidades: já exigem outras estreias.

Reclamam pelo Bragança e pelo Inácio.

Reivindicam o regresso do Paz e exigem aos gritos que o Pedro Mendes jogue.

 

Se estes quatro integrassem o onze titular leonino, logo os tais viriam com outro "caderno reivindicativo".

Eles recorrem ao chavão da formação porque lhes dá jeito na construção de uma narrativa, mas estão-se nas tintas para os jovens jogadores.

 

Para esta gente, "ser adepto" é passar o tempo a embirrar com as opções do treinador, chame-se ele como se chamar.

Para esta gente, a palavra de ordem permanente é disparar. Sempre para dentro de portas, nunca para fora.

 

Quando questionamos por que motivo o Sporting só venceu dois títulos de campeão nacional no último quarto de século, este é um dos motivos: ter parte da massa adepta sempre contra seja quem for.

Isto ajuda a explicar por que motivo treinadores que vingaram noutras paragens não obtiveram sucesso no Sporting. Entre outros, Bobby Robson, Fernando Santos, Jesualdo Ferreira, Leonardo Jardim e Jorge Jesus.

Isto explica por que motivo José Mourinho só foi treinador do Sporting durante duas horas: saiu na mesma tarde em que entrou. Todos sabemos o que aconteceu depois.

De todos os sportinguistas, há 114 anos - maior que qualquer jogador, para além de qualquer presidente

Eis como alguns dos jovens da formação, com muitos anos de leão ao peito, viveram este aniversário do Sporting Clube de Portugal, através das redes sociais

Anotação 2020-07-01 162550.png(Max)

Anotação 2020-07-01 162345.png(Geraldes)

WhatsApp Image 2020-07-01 at 15.26.24 (2).jpeg(Tiago Tomás)

WhatsApp Image 2020-07-01 at 15.28.49.jpeg(João Goulart)

Anotação 2020-07-01 162942.png

Anotação 2020-07-01 163125.png(Daniel Bragança)

Temos talento, temos futuro. 

Queremos mais ouro. Mais Sporting. 

Olhar para casa antes de olhar para fora

Texto de Pedro Sousa

20200308_172417.jpg

 

No Sporting, temos a tendência para extremar posições. Nos dias que correm, uma opinião radical é considerada uma opinião independente e até, de confronto a quem pensa de forma diferente. Uns e outros, errados.

O SCP é um Grande, com a obrigação de jogar para ganhar todas as competições, sempre, com os melhores atletas possíveis. Por outro lado, temos o ADN formador que é a nossa imagem de marca. É na mescla entre bons jogadores adquiridos e os melhores jovens da formação que está o presente e o futuro, que honra o nosso passado.

Perante a nossa capacidade formadora, não faz sentido adquirir dez ou mais jogadores por época. Ainda menos se a qualidade é duvidosa ou tem o único propósito de gerar comissões. O ideal é [haver] menos aquisições por ano (três, quatro, cinco no máximo), mais qualidade (e só para posições deficitárias), mesmo que isso implique maior investimento individual. Olhar sempre para casa antes de olhar para fora. Os achados, por norma, não se encontram na loja da esquina. Slimani foi a boa excepção.

 

O plantel sénior deveria ter um máximo de 23 ou 24 atletas, três guarda-redes e 20 jogadores de campo, dois por posição (avançados-centros, talvez três). As finanças agradeceriam e os jovens das equipas inferiores também, que [assim] poderão ter mais oportunidades no plantel sénior.

A Taça da Liga, pelo menos numa fase mais precoce, deveria ser disputada pelos mais jovens, mesmo que isso implicasse uma eliminação. Os jovens de maior qualidade devem competir no escalão etário seguinte, como aliás, é política desta direcção (este bem-fazer em nada apaga tanta outra incompetência e a necessidade de mudarmos).

 

Em condições normais, se todos os anos conseguirmos integrar dois jovens no plantel sénior e um deles começar a jogar regularmente, é um êxito tremendo. Só em condições anormais é que costuma sobrar espaço para a entrada de vários jovens na equipa principal em simultâneo. E nem todos têm que entrar aos 18 anos. Não deverá acabar aí o sonho do atleta. Existirão a equipa B e eventuais empréstimos, para evoluir e reclamar uma oportunidade.

Para concluir, devem jogar os melhores. Sejam eles da formação ou não.

 

Texto do nosso leitor Pedro Sousa, publicado originalmente aqui.

{ Blog fundado em 2012. }

Siga o blog por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

 

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D