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És a nossa Fé!

Cento e quinze vezes Teresa

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Teresa Dimas, jornalista da SIC, certamente nunca teve nem talvez volte a ter pela frente um entrevistado que, em 32 minutos, pronuncie tantas vezes o nome dela.

Pelas minhas contas, Frederico Varandas disse 115 vezes «Teresa» ao ser entrevistado por ela no Jornal da Noite de sábado. Se não for recorde nacional, anda lá muito perto. A merecer medalha. E talvez menção no Guinness.

És uma celebridade, Teresa.

Imperdoável

Lamento que Frederico Varandas não tenha ontem aproveitado a entrevista de 32 minutos em horário nobre à SIC para dizer, sem esperar por pergunta alguma, que abdicará do aumento salarial que lhe foi proposto pela comissão de accionistas da SAD.
Mais que lamentável: é imperdoável. Como dizia o outro, não há segunda oportunidade para uma primeira impressão.

Precisamos de um novo presidente?

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Frederico Varandas perdeu ontem mais uma oportunidade para dar confiança aos sportinguistas? Sim... Teresa. De entrevista em entrevista, FV parece cada vez menos ambicioso para o Sporting? Infelizmente, sim. A este ritmo, daqui a dois meses já se dá por contente com a manutenção na primeira liga. A direcção que FV encabeça planeou esta época de forma amadora? Sem qualquer dúvida. Devemos estar preocupados, ao contrario do que FV diz? Ó, se devemos.

Agora... Precisamos de um novo presidente e de uma nova direcção? Bem, entendo quem diz que sim, mas acho que não neste momento. E dou cinco razões para isso:

1. Mal ou bem, FV conseguiu dois títulos na primeira época.

2. Não se pode avaliar uma direcção por um ano de trabalho, quando foi eleita para quatro.

3. Esta direcção é jovem, inexperiente. Era óbvio desde o início que ia cometer muitos erros, até porque herdou uma situação complicada.

4. Quem/qual é a alternativa, e o que nos garante que não será pior?

5. Mais importante que tudo, será que queremos que os presidentes, tal como os treinadores, passem a estar dependentes de ciclos de sete ou oito jogos? Cada ciclo mau, um novo presidente e uma nova receita?

Os títulos que a entrevista gerou

A Bola

«Frederico Varandas explica opção por Silas»

 

Correio da Manhã

«Frederico Varandas confidencia: "Um treinador disse-me que não estava para aturar um clube de malucos"»

 

Diário de Notícias

«Varandas: "Houve treinadores que recusaram porque não querem aturar um clube como este"»

 

Expresso

«Frederico Varandas: Um treinador disse-me "gabo muito a sua coragem, mas não estou para aturar um clube de malucos como o Sporting"»

 

O Jogo

«"Um treinador disse-me que não queria aturar um clube como o Sporting"»

 

Público

«Frederico Varandas garante que Mourinho não quis treinar "clube de malucos"»

 

Rádio Renascença

«Frederico Varandas. Treinador recusou Sporting porque "não tem paciência para aturar malucos"»

 

Record

«A perplexidade de Mourinho, a recuperação de Silas e a contratação: Varandas falou de tudo»

 

SIC

«Treinador recusou o Sporting porque "não queria aturar clube de malucos"»

 

Sol

«Varandas critica "minoria" que prefere o caos: "São burros e vão provar do próprio veneno"»

 

TSF

«"Clube de malucos." Varandas diz que é difícil levar treinadores para o Sporting»

 

TVI

«Sporting: Varandas confirma ter convidado Jardim e Mourinho»

De improviso em improviso

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Nenhuma entrevista de um dirigente político, empresarial ou desportivo deve ser feita de improviso, sem preparação. Sobretudo quando se trata de uma entrevista a um canal televisivo, em sinal aberto, à hora de maior audiência.

Na preparação de qualquer entrevista, que inclui a simulação de perguntas com uma equipa de assessores especializados e a preparação das respostas mais indicadas a essas questões, com particular incidência naquelas com maior potencial polémico, a preocupação deve ser de forma mas sobretudo de mensagem. Desde logo, antecipando o título jornalístico que se pretende transmitir.

Recuso acreditar que a equipa de assessores de Frederico Varandas lhe tenha sugerido que a ideia-força a emergir desta entrevista fosse esta de o Sporting ser «um clube de malucos», associada à noção de que nenhum técnico credenciado aceita treinar em Alvalade. Nem a equipa mais incompetente e amadora prepararia uma entrevista nestes moldes.

Resta, portanto, a hipótese alternativa: a de que a declaração inicial de Varandas - e que marcou esta deplorável entrevista ao Jornal da Noite, da SIC, matando à nascença o seu potencial enquanto factor de motivação dos sportinguistas - tenha resultado do improviso. Na linha do que sucedeu com a abortada venda de Bruno Fernandes, com a saída de Bas Dost a preço de saldo, com a desastrada preparação da época, com a não-inscrição de Pedro Mendes nas provas organizadas pela Liga, com as apostas malogradas em sucessivos técnicos, com o pior arranque de uma época futebolística registado desde sempre no Sporting.

Há quatro dias escrevi aqui: terminou a tolerância dos sócios perante tanto improviso. Tendo sucedido o que sucedeu ontem à noite, reitero agora isso ainda com mais convicção.

"Em cima do joelho"

Entre vários aspetos lamentáveis da entrevista de Frederico Varandas, já referidos por colegas de blogue, gostaria de destacar a admissão de que muitas decisões relativas à equipa de futebol foram tomadas "em cima do joelho". Isto já a gente desconfiava; por isso, esta parece-me ser a época mais mal planeada desde o tempo do Bettencourt (aliás, cada vez mais o presidente do Sporting me faz lembrar José Eduardo Bettencourt). A novidade está no tom apologético, como se quem é responsável pela estrutura não conhecesse os prazos e não tivesse culpa de não ter tomado as decisões a tempo. Não houve aqui nada que não pudesse ser controlado. Admitiram que "tomaram decisões em cima do joelho". Muito bem. E a culpa é de quem? É admissível uma época ser preparada assim?

Outras frases da entrevista

«Fazer uma analogia: uma prova de maratona. O Sporting, na partida, tropeçou, caiu, caiu. Eu caí, é verdade. Caiu. O Sporting caiu. Levantou-se e temos ainda 30 quilómetros para recuperar.»

 

«Caiu no Algarve, caiu em Famalicão, caiu com o Rio Ave. Caiu. Caiu. Tropeçou. Mas ficamos deitados no chão? Não. Hoje duvidamos da valia daquele grupo? Não.»

 

«Tivemos a liquidez da última operação a 26 de Março. A 30 de Março... a 30 de Março... o Sporting entrava em incumprimento do fair play financeiro e não entrávamos nas competições europeias. Esta é a realidade que na altura... se calhar hoje sou acusado... mas devia ter dito isso.»

 

«Nós não estávamos em posição de ir para a praça pública e dizer realmente a verdade. Que era negra. Negra! Mas muito negra! Não era cinzenta: era negra!»

 

«Falando de futebol. Época brilhante? Não. Época razoável? Para mim, não. Época boa? Para mim, não. Época muito boa? Para mim, sim. E vou-lhe dizer porquê. Fizemos melhor há dois anos? Não. E há três? Não. E há quatro? Não. E há cinco? Não. E há sete? Não. E há dez? Não. E há onze? Não.»

 

«Em Novembro de 2018 tivemos a mesma dificuldade em escolher um treinador. A mesma dificuldade. As pessoas têm de perceber que a realidade do Sporting não é muito atractiva. Hoje está melhor, mas não era muito atractiva.»

 

«Escolhemos um treinador [Keizer] que apostava nos jovens, que tinha um futebol de equipa grande, atacante. Resultou. Resultou inicialmente. Tivemos dois títulos. O que é que para mim falhou? Para nós falhou, estrutura? Marcel Keizer teve dificuldades em adaptar-se ao futebol português. Na verdade, teve.»

 

«Eu ando... eu ando na rua. Muitas vezes os adeptos do Sporting viram-se: "Presidente, olhe... olhe... olhe... olhe para os nossos rivais, olhe para a máquina... olhe para a máquina que o nosso rival da Segunda Circular tem montada.»

 

«Não é numa época... não é numa época... não é numa época... não é numa época... não é numa época... não é numa época que isso se corrige.»

 

«A grande vitória desta direcção foi o que já foi conseguido este ano. Foi evitar a falência deste clube... evitar a falência deste clube, conseguir investir como estamos a investir na formação para voltarmos a ter, aí sim, a estrutura, as ferramentas, para podermos olhar olhos nos olhos os nossos rivais.»

 

«É preciso ter coragem... coragem de tomar medidas... coragem... coragem para tomar medidas que eu admito que não são para me perpetuar muitos anos.»

 

«Silas é um treinador que joga como uma equipa grande, que é como o Sporting tem de jogar. É um treinador sem medo, um treinador que vai procurar tirar o melhor daqueles jogadores. Um treinador que, quando eu tive a primeira conversa, disse: "Presidente, a qualidade nesse grupo não falta".»

 

«Marcel Keizer não apostava em Pedro Mendes. Marcel Keizer não acreditava em Pedro Mendes. Decisão... uma opinião... Quando Marcel Keizer sai... quando Marcel Keizer sai... e sai no último dia da apresentação das listas... essa decisão... houve inúmeras decisões em cima da mesa nesse dia, a contra-relógio. É óbvio... é óbvio que para nós... para nós... se tivéssemos as condições ideais... se tivéssemos tido o tempo essencial de tirar o treinador, pôr o treinador, mudar a lista, obviamente teria todo o sentido Pedro Mendes estar nessa lista.»

 

«Paz? Eu tenho paz para trabalhar? Acha que o Leonel tem paz para trabalhar? Acha que os jogadores... acha que os jogadores que conquistaram aquele... que conquistaram o que conquistaram no último ano têm paz quando jogam em Alvalade?»

 

«As pessoas não são burras. Os sportinguistas não são burros. Os sportinguistas sabem distinguir o protesto genuíno do protesto meditado. Do protesto premeditado, desejado. Do protesto de pessoas que preferem o caos, que preferem dividir para reinar. De grupos que preferem que as coisas corram mal para manter as coisas como estavam.»

 

«Preferem dividir para reinar. E isto é uma política autodestrutiva. E até são burros, porque no dia em que [es]tiverem lá vão perceber que o clube está dez vezes pior! E vão provar do veneno que [es]tão a cultivar.»

 

«O Sporting vem de duas décadas... duas décadas... a história do Sporting vem... de esqueletos... de pessoas que torcem... torcem.. que desaparecem nas vitórias e que aparecem nas derrotas... que aparecem nas derrotas.»

 

«Não é num ano, não é em dois, não é em dois, que se vai apagar este gap, este fosso. Não é, não é, não é, não é, não é, não é, não é.»

 

«Nós acreditamos... com Silas... com Silas... com a qualidade deste grupo, vamos recuperar da época que demos no início da época.»

 

«O Silas... Silas... Silas... Silas... é treinador do Sporting. E é um treinador escolhido... escolhido por nós. Escolhido por nós. Por nós. Silas... Silas... Silas... Silas... Silas tem que fazer a equipa crescer. E sabe disso. E vai-o fazer. E vai-o fazer.»

 

«Nós cometemos vários erros. Vários. Vários.»

 

«Nós estamos a cavar as fundações. E não é fácil ter de tomar estas medidas. Porque muitas medidas não se vêem.»

 

«Eu não tive culpa do abandono que a formação sofreu nos últimos cinco anos. Eu não tenho nenhuma varinha mágica para hoje fazer assim e um miúdo de 16 anos passar a ter 21!»

 

«O insulto... o insulto... aquelas pessoas insultarem ou dizerem que eu sou o maior, é indiferente para mim. Vale zero. Vale zero! Vale zero! Vale zero! Vale zero! Insultarem-me vale zero!»

 

Frederico Varandas, esta noite, em entrevista ao Jornal da Noite da SIC

«Um clube de malucos»

«Ao despedir Keizer, procurámos um treinador português e com um grande currículo europeu. Tentámos. Um mostrou que desejava ter projectos onde pudesse lutar pela Champions. E outro também recusou e até me disse: "Gabo muito a sua coragem, gabo muito a sua paciência, mas eu não tenho a mesma para aturar um clube de malucos, como é o Sporting. Isto [sic] é a visão que muitos treinadores têm hoje do Sporting.»

 

Esta foi a primeira resposta de Frederico Varandas, há minutos, na entrevista ao Jornal da Noite da SIC.

Ouvi isto e confesso: nem queria acreditar. Como é que se diz tanta asneira em tão poucas palavras?

 

Com esta declaração, Varandas admitiu que:

1. Silas esteve muito longe de ser a primeira escolha - foi "apenas" a última;

2. Não faltam treinadores que recusam convites do Sporting (o facto de ter havido seis técnicos no último ano e meio em Alvalade não ajuda, certamente);

3. O Sporting é «um clube de malucos», na definição de um desses treinadores «com grande currículo europeu» (José Mourinho?) agora difundida de modo insólito pelo próprio presidente da SAD leonina, parecendo imitar Coates na marcação de um autogolo;

4. Torna públicas, em entrevistas televisivas, conversas do foro privado;

5. Dialoga com treinadores que insultam o clube enquanto lhe chamam corajoso a ele;

6. O Sporting não luta por um lugar na Champions;

7. Silas, muito provavelmente, é «maluco».

 

Verdadeiramente inacreditável.

Palavras sábias de Aurélio Pereira

Excelente, a entrevista hoje publicada no jornal A Bola com Aurélio Pereira, o maior descobridor de talentos da história do futebol português. Incluindo dois jogadores distinguidos com a Bola de Ouro - Luís Figo e Cristiano Ronaldo.

Actual conselheiro para a formação leonina, esta figura quase mítica há meio século ligada ao nosso clube faz muitas afirmações que merecem destaque e reflexão.

Deixo aqui alguns trechos, com a devida vénia. A entrevista foi conduzida pela jornalista Marta Fernandes Simões, que aproveito para felicitar.

 

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«O foco é no jogador e nos seus comportamentos; o acompanhamento, quer social, quer escolar, somos nós que fazemos. Isso é um trabalho altamente complexo. Tomar conta dos filhos dos outros é muito pior do que os nossos. Temos de estar preparados para isso.»

 

«Há duas coisas que têm de caminhar lado a lado: o recrutamento e a área técnica. São dois pilares de uma academia, sem esses pilares conscientes não há trabalho de nível tão elevado. Temos nesta altura essa simbiose, está a crescer dia a dia. Falamos a mesma linguagem. O novo director técnico, o Miguel Quaresma, tem sido um homem certo no lugar certo.»

 

«Em 1988 iniciei um trabalho de recrutamento. Todos estes jogadores que estavam na selecção dos campeões europeus vieram para o Sporting aos 11/12 anos [Rui Patrício, Cédric, Fonte, William Carvalho, Adrien, João Mário, Moutinho, Nani, Quaresma e Ronaldo], foram precisos 30 anos para que isso acontecesse. E fartámo-nos de trabalhar. Essa malta veio para aqui aos 11/12 anos. Um do Algarve, outro de Arcos de Valdevez...»

 

«Temos um jogador fantástico e a partir da altura em que começam a aparecer empresários, pais para aqui e para acolá, a cabeça deixou de pensar. (...) É muito doloroso ver partir jogadores que ficariam por aqui se não fossem mal aconselhados, Joelson é um miúdo que está a crescer, é preciso algum cuidado.»

 

«Raramente um jogador que traz o pai para empresário, o que acontece também com o Neymar, dá certo. Porque a vontade que ele tem é de ganhar dinheiro primeiro que os outros. Os maus conselheiros, o pai quando se está a discutir contratos, é uma coisa impressionante.»

 

«Do Ronaldo esperamos tudo. Porque o Ronaldo já não é talento. É supertalento. É um jogador que nunca está satisfeito. Há dias mandei-lhe uma mensagem, de parabéns por um jogo, e a resposta dele foi "Estou top." Esta sempre top...»

 

«Daqui [pescoço] para baixo os jogadores são todos iguais. Daqui para cima é que são diferentes. Cabecinha. Paixão pelo treino, pelo jogo, pela profissão. São três coisas de um jogador deste nivel e ele [Ronaldo] ainda tem paixão pelo treino. Vejo quando ele está a jogar, ainda com a Lituânia, num momento ou outro, com os pés ainda faz aquilo que fazia quando tinha 12 anos.»

 

«No pólo EUL trabalhamos miúdos dos seis aos 13. São 190. É ali que tudo começa e ali apercebemo-nos que os prodígios de futebol são tudo miúdos africanos, os nossos irmãos africanos. É o futebol de rua que está a regressar aos bairros. Sem o futebol de rua não há jogadores fantásticos.»

 

«Aos 13 já há empresários a ver... começam logo cedo a serem pressionados e os pais depois vão atrás e é uma situação chata. Temos de ter cuidado naquilo que dizemos aos miúdos. Auto-estima e disciplina são fundamentais.»

 

«Hoje, qualquer miúdo com sete anos tem um empresário. É extraordinária a dificuldade que nós temos. Desde que tenha empresário e bom telemóvel, está tudo arrumado. Nós é que sofremos na pele. Pessoas que não têm dignidade, que levam jogadores para o estrangeiro que sabem que vão falhar na carreira. Raramente há um jogador que sai daqui aos 16 ou 17 anos que vá ter sucesso.»

 

«As pessoas de fora falam de formação mas não têm a mínima noção do que trabalhamos aqui, nomeadamente no acompanhamento dos jovens residentes. Foi o que fizemos e continuaremos a fazer.»

 

Dez notas sobre a entrevista

A entrevista de Frederico Varandas à Sporting TV, que acompanhei com atenção, suscitou-me algumas reflexões, resumidas em dez pontos.

 

1. Bruno Fernandes

O presidente do Sporting explicou, com mais detalhe do que muitos previam, os bastidores deste mercado de Verão, centrados no que viria a revelar-se um equívoco: o maior trunfo, para gerar receita, seria a transferência do melhor médio português para um grande emblema do futebol europeu. A inépcia dos intermediários neste negócio e a tardia entrada em cena de Jorge Mendes alteraram por completo os planos iniciais da SAD, forçando-a ao improviso. Saíram Dost, Raphinha e Thierry (detectando-se em duas destas transferências já o dedo de Mendes) e afinal foi Bruno quem ficou. Subsistem incógnitas quanto ao destino do jogador, mas fica a garantia do líder leonino de que o capitão cumprirá a época em Alvalade.

 

2. Bas Dost

Foi o caso que mais agitou a pré-temporada leonina e suscitou as primeiras dúvidas quanto à falta de sintonia entre os administradores e o técnico Marcel Keizer, com o holandês a dizer que contava com o seu compatriota e a manifestar surpresa pelas notícias sobre a sua iminente transferência. Varandas esteve bem ao especificar quanto custava o ponta-de-lança, que consumia quase 10% das despesas alocadas ao futebol profissional. Faltou-lhe ponderar, nestas contas, a componente de receitas que Dost proporcionava ao Sporting em forma de golos. E que já começou a pôr ao serviço do Eintracht, no jogo de estreia: bastaram-lhe 12 minutos em campo.

 

3. Ponta-de-lança

É possível uma equipa de futebol obter êxitos desportivos sem um ponta-de-lança alternativo no plantel? É. Para isso, porém, precisa de rezar muito para que o artilheiro solitário não faça greve aos golos nem sofra qualquer lesão. A verdade é que, à quarta jornada, o Sporting conta apenas com Luiz Phellype como potencial homem-golo na linha mais avançada. Nenhum dos reforços entretanto desembarcados em Alvalade reúne estas características. E só por deficiente informação Jesé pode ser apresentado como "avançado-centro", como Varandas fez nesta entrevista. Seria aliás motivo para duvidar logo à partida da competência deste jogador: um "avançado-centro" que nas últimas três temporadas só marcou oito golos?

 

4. Keizer

Esta foi talvez a parte em que o discurso do presidente do Sporting se tornou mais contraditório e menos fluente. Começou por fazer uma apologia da estabilidade, sem a qual não é possível conseguir bons resultados. Chegou até a dizer: «Nenhum treinador quer vir para um clube se não sentir estabilidade». Acontece que a instabilidade foi causada por ele próprio ao apontar a porta de saída a José Peseiro menos de dois meses após ter iniciado funções e ao contratar um técnico que não reunia condições para conduzir a nossa equipa, como o recente despedimento do holandês comprovou. Com Varandas, o Sporting voltou a ser um cemitério de treinadores. A estabilidade não passou ainda da palavra à prática.

 

5. Preocupação

No rescaldo imediato da goleada sofrida na Supertaça, o presidente apressou-se a procurar os jornalistas, dizendo-lhes uma frase de que certamente logo se arrependeu: «Estou chateado mas não preocupado.» Estava preocupado, sim. De tal maneira que, como ontem finalmente confessou, essa vergonhosa e humilhante goleada - a segunda que sofremos, frente ao mesmo rival, em apenas seis meses - acabou por ditar a guia de marcha ao técnico holandês. Fica a lição para momentos futuros igualmente difíceis: convém pensar sempre muito bem no que se diz. E convém evitar o verbo "chatear", que teve a patente registada por outra pessoa no Sporting.

 

6. Leonel Pontes

Uma das frases mais conseguidas da entrevista relacionou-se com o treinador da nossa equipa sub-23, agora promovido a técnico principal: «Leonel Pontes não tem prazo: tem uma tarefa.» No fundo, a confissão de que no futebol tudo depende dos resultados. Fica implícito um possível cenário inspirado no exemplo do Benfica da época anterior. Varandas recusou elaborar cenários, o que está correcto: assim evita ficar prisioneiro das palavras, fossem elas quais fossem. Subsiste, portanto, alguma ambiguidade: Pontes será ou não interino? Tudo dependerá do que a equipa mostrar em campo.

 

7. Reforços

Talvez mais para se convencer a si próprio do que para persuadir os adeptos, o presidente do Sporting declarou, com aparente convicção: «Este grupo é mais competitivo, tem mais soluções e tem mais qualidade do que o plantel do ano passado.» Poucos pensarão como ele. Perdemos três titulares - e não um, como disse na entrevista - e sobretudo ficámos sem dois dos nossos cinco melhores jogadores, Dost e Raphinha. Não é líquido, de forma alguma, que os recém-chegados - o espanhol Jesé, o brasileiro Fernando e o congolês Bolasie, três alas - possam compensar as saídas e dar mais consistência e equilíbrio ao plantel.

 

8. Emprestados

A vinda destes três jogadores por empréstimo - e um deles, Jesé, com dois terços do salário asegurados pelo clube titular do seu passe, o PSG - poderá tornar-se num dos maiores equívocos da actual gestão leonina. Salvo casos excepcionais, os jogadores emprestados revelam tendência a encarar os clubes de ocasião como meros apeadeiros numa carreira profissional, diminuindo o seu grau de compromisso com os novos emblemas. Na melhor das hipóteses, poderão valorizar-se - mas os beneficiários dessa valorização, em termos financeiros, são os clubes de origem. O caso mais intrigante, neste trio, é o de Fernando: tem 20 anos, era suplente de Luís Castro no Shakhtar, ocupará uma posição onde já temos Jovane, Camacho e Plata. E o Sporting recebe-o por uma época, sem cláusula de compra. Faltou explicar porquê.

 

9. Formação

Foi muito positivo ouvir o presidente renovar a intenção de privilegiar a formação - em particular quando garantiu que «três ou quatro» dos actuais jogadores da nossa equipa sub-23 «farão parte do plantel no próximo ano». Convém lembrar, no entanto, que uma promessa similar já havia sido feita no momento da apresentação de Keizer aos adeptos, em Novembro passado, e nada foi cumprido. O Sporting chegou até a entrar em campo, pela primeira vez em onze anos, sem nenhum jogador oriundo da formação. Pior: hoje temos apenas um português no onze titular. Que foi formado no Boavista.

 

10. Finanças

Mesmo com deficiências ao nível da comunicação, a SAD leonina tem conseguido impor a sua narrativa em matéria financeira. Esta foi uma parte muito convincente da entrevista, valorizada por exemplos concretos - nomeadamente as escandalosas remunerações atribuídas a jogadores que não contavam para a equipa técnica e os cerca de 15 milhões de euros por ano pagos a excedentários de que o Sporting finalmente se libertou (o caso Viviano está em vias de resolução e Mattheus Oliveira, espantosamente, prefere receber sem jogar). Varandas fez bem em omitir o nome do seu antecessor, agora às voltas com um complexo processo judicial, mas era indispensável esclarecer - como fez - que ao chegar encontrou uma «necessidade de tesouraria de 100 milhões de euros». Uma face oculta do Sporting finalmente iluminada.

Quo Vadis Sporting?

Como não me canso de repetir, por muito importante que seja o ecletismo no Sporting, o futebol é a mola real do clube e nenhum presidente sobrevive a uma época catastrófica na modalidade. E como o Sporting começou muito mal a temporada, veio agora o seu presidente prestar contas na forma de entrevista sobre o desempenho da sua administração e opções tomadas neste seu primeiro ano de presidência.

De tudo o que disse, se calhar o mais importante foi reconhecer que existe um fosso relativamente aos dois rivais. Parece realmente que o Sporting está condenado ao fosso, temos o fosso do estádio, temos o fosso com os rivais, e não se ouviram fórmulas ou soluções para ultrapassar rapidamente qualquer deles. O que ouvimos é que existe uma estratégia e um esforço no sentido de o reduzir, apostando em competências e valores, no relançamento da formação e no posicionamento no mercado para alcançar mais valias significativas. E que não está a ser fácil reduzir esse fosso, antes ocorre um trabalho de sapa com progressões e recuos, e muitos inimigos interessados em o dificultar.

O apertar do cinto ocorrido neste mercado (com 30 jogadores cortados da folha de salários) é essencial para encontrar uma base sustentável, mas não permite competir com os rivais para os lugares da Champions e pode até colocar dificuldades no confronto com Braga e Guimarães para o acesso directo à Liga Europa.

Concordo com Varandas que (ao contrário do que aconteceu com Peseiro) Keizer terminou no momento certo, depois duma derrota em casa que tornou evidentes as fragilidades da equipa e depois do fecho do mercado que lhe roubou dois titulares dessa mesma equipa. Não tinha condições para continuar. Mas não concordo mesmo nada com ele quando diz que "Este grupo é mais competitivo, tem mais soluções e tem mais qualidade do que o plantel do ano passado.". 

O que me parece é que Leonel Pontes vai herdar um grupo desorientado e desequilibrado,  já bem diferente do ainda há pouco apresentado aos sócios, com jogadores estrangeiros para integrar em plena época, com vários jogadores com antecedentes clínicos que podem dar problemas em qualquer momento, sem o goleador das últimas épocas e que agora poderia voltar a ser o abono de família, com equívocos tácticos de Keizer para reverter, e em que o espírito forte que demonstrou no Jamor se perdeu algures na pré-época como confessou o seu capitão. Um grupo com seis extremos e sem um trinco, um grupo com um único ponta de lança mas com avançados que poucos golos marcam. Só se as soluções forem do tipo jogar com um guarda-redes, quatro defesas e seis extremos. Parece-me é que estamos cada vez mais no modelo de solução única, a solução Bruno Fernandes. 

Importa portanto ultrapassar bem depressa esta fase de emagrecimento e encontrar fórmulas para estreitar significativamente o tal fosso, voltar a investir mas com critério, contratar novos Bas Dosts, Bruno Fernandes, Acuñas, Mathieus ou Coates para juntar aos existentes e misturar com os melhores jovens que temos no plantel e nos sub-23, e voltar a dispor dum treinador competente, carismático e ganhador, à imagem dos grandes Malcolm Allison, Bobby Robson ou Laszlo Boloni.

Preferia que Leonel Pontes ficasse onde está, a fazer um óptimo trabalho nos sub-23, e viesse um treinador português experiente, de transição, tipo Jesualdo Ferreira. Mas se o treinador é Leonel Pontes, o importante é mesmo confiar nele e em Bruno Fernandes para aguentarem o barco no futuro próximo. 

Vamos então apoiá-los a 100%.

SL

O que diz Varandas

 

«É muito importante que as pessoas percebam que nenhum treinador quer vir para um clube se não sentir estabilidade.»

 

«Marcel Keizer cumpriu a sua missão. Num ambiente difícil, num contexto difícil.»

 

«A final da Supertaça marcou-me muito. A própria confiança em Marcel Keizer desceu, baixou. E sentia-se isso a passar ao grupo. Tínhamos a sensação de que a equipa do Sporting, independentemente do adversário, tanto podia fazer um jogo muito bom como muito mau.»

 

«Alguém iria despedir um treinador que tinha acabado de vencer uma Taça da Liga e uma final da Taça [de Portugal] naquelas condições? Tenho a certeza que não.»

 

«Esta administração da SAD não abdica do rumo desportivo deste clube. E jamais este rumo pode mudar consoante o treinador.»

 

«A estratégia é exactamente a mesma que estava implementada com Marcel Keizer: uma aposta forte na formação com recurso a contratações cirúrgicas. Esta é a nossa linha.»

 

«Leonel Pontes não tem prazo: tem uma tarefa. Nós estaremos cá, juntamente com ele, para observarmos a evolução e tomarmos a decisão que tivermos de tomar.»

 

«[Pontes] conhece o futebol do Sporting e acima de tudo - isto para mim é importante - é um treinador português. Mas em Novembro [quando Keizer foi contratado] também era importante a nacionalidade portuguesa. Mas muitas vezes não se consegue o que se quer.»

 

«[O futuro treinador] não deve ter medo de apostar na formação. A aposta forte é na formação. (...) Tem de ser competente e, obviamente, tem de ter resultados. Ninguém no futebol vive sem resultados.»

 

«O Sporting conseguiu [no mercado de Verão] encaixar cerca de 60 milhões de euros perdendo apenas um titular indiscutível e permanecendo [em Alvalade] o melhor médio da Europa. (...) Extremamente importante foi termo-nos [livrado] dum lastro de jogadores excedentários que ocupavam cerca de 25% do orçamento. (...) Estamos a falar de cerca de 15 milhões de euros em salários líquidos.»

 

«Este grupo é mais competitivo, tem mais soluções e tem mais qualidade do que o plantel do ano passado.»

 

«Se perguntar a cem sportinguistas, entre perder Raphinha ou Bruno Fernandes, cem sportinguistas dizem que preferem ficar com Bruno Fernandes.»

 

«O meu objectivo não é só manter o rigor financeiro. É manter rigor financeiro mas competitividade desportiva.»

 

«Bruno Fernandes é um jogador desejado por muitos tubarões europeus. Mas com esse ruído (Citys, Reais Madrids...) posso eu bem.»

 

«Vai ser revisto o seu contrato porque merece. Bruno Fernandes merece que sejam revistas as suas condições até para exemplo de todos os outros jogadores.»

 

«Jesé é um avançado-centro. E por ser um avançado-centro não quer dizer que seja igual a Bas Dost ou a Luiz Phellype. Até exactamente por não ser igual é que vem.»

 

«Nenhum jogador entrou aqui por pedido do empresário A, B ou C nem por vir num jornal.»

 

«Nós neste momento, temos na equipa sub-23, [há] três ou quatro jogadores - já identificados e com muito talento - que estamos seguros de que farão parte do plantel no próximo ano.»

 

«A equipa de sub-23, no ano passado, tinha um jogador com 18 anos. Este ano temos dez jogadores com 18 anos. E, desses dez, cinco têm menos de 18 anos. Temos um miúdo supertalentoso com 16 anos. Esta é a política do Sporting.»

 

«[A saída de Bas Dost] foi o negócio possível.»

 

«Além de eu gostar de Bas Dost como homem, além de eu gostar de Bas Dost como profissional, eu gostava de ter Bas Dost no plantel do Sporting. (...) Mas o custo total [5,9 milhões de euros/ano] é incomportável, não só para o Sporting mas para a realidade do futebol português. (...) É quase 10% do orçamento da equipa principal.»

 

«Eu não posso ficar nunca refém dum agente.»

 

«Sete milhões de euros é hoje um valor de mercado ajustado ao valor de Podence.»

 

«Infelizmente, ao contrário de Podence, Gelson e Rui Patrício, ainda não há nenhuma proposta que eu considere razoável [por Rafael Leão e Rúben Ribeiro]. Por isso vamos até ao fim [no processo judicial].»

 

«Estamos a negociar a rescisão de Viviano. É mais um caso dum jogador com um peso muito significativo. Estamos a tentar resolver, em diálogo com o jogador. De todos os excedentários, ficaram dois: Viviano e Mattheus Oliveira.»

 

«Mattheus Oliveira foi uma surpresa para nós. Teve propostas de Chipre, da Rússia e da Turquia, mas abdicou de tudo. Quis ficar aqui. Preferiu não jogar futebol.»

 

«Há um ano [ao tomar posse] tínhamos uma necessidade de tesouraria de 100 milhões de euros - 42 milhões só a clubes que ninguém pagou para trás, tivemos nós de pagar. Para resolver esse problema de tesouraria tivemos de fazer duas operações em tempo recorde: um empréstimo obrigacionista e a securitização dos contratos de imagem, da transmissão da NOS.»

 

«A nível de títulos, conseguimos fazer a melhor época dos últimos 17 anos.»

 

«O pior momento [deste primeiro ano de mandato] foi a final da Supertaça.»

 

«Ao primeiro desaire, lá saem os esqueletos do armário. Mas, curiosamente, só saem nos desaires. (...) Deles todos não ouvi uma palavra quando ganhámos a Taça da Liga, não ouvi uma palavra quando ganhámos a Taça de Portugal.»

 

«Estas pessoas, sem humildade democrática alguma, intitulam-se porta-vozes do Sporting na desgraça. Quem contesta o trabalho feito por esta direcção, nas condições em que agarrámos este clube, ou não percebe nada de futebol ou é intelectualmente desonesto.»

 

«Falam do fosso que existe entre o Sporting e os rivais. Existe um fosso, sim. Mas fui que criei esse fosso? Foi o doutor Zenha? Foi o doutor Cal? Foi o doutor Lencastre? Foi o Osório de Castro? Foi o Nogueira Leite? Fomos nós que criámos este fosso, esta gente que está aqui, uma nova geração? »

 

«Eu não caí agora no Sporting. Eu nasci Sporting. Eu amo este Sporting. Fui adepto do Sporting, sócio do Sporting, médico do Sporting, sempre paguei a minha gamebox, sempre paguei as minhas quotas e sei o que é a realidade do Sporting. E a verdade é que nestes 18 anos vi sempre estes senhores a gravitar à volta do Sporting! Estes que falam agora, sempre! Directamente ou indirectamente.»

 

«Um verdadeiro líder, que decida, não pode fazer toda a gente feliz. Se quiser fazer toda a gente feliz,  então que vá vender gelados.»

 

 

Declarações de Frederico Varandas, há pouco, em entrevista à Sporting TV.

Beto Acosta

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«Marquei dois golos e meio ao Benfica»

 

Como andamos a falar de avançados…

…recordo esta entrevista, de Rui Miguel Tovar a Beto Acosta, no dia do seu aniversário, um dos grandes ídolos da história recente do Sporting!

 

«Are you having a laugh? He’s having a laugh? Certamente. O homem ri-se bastante. Aliás, varia entre o riso cerrado, quase em surdina, e a gargalhada fácil, de curta duração. A ideia desta semana é falarmos da Copa América, a competição de selecções mais antiga de sempre. A primeira edição é de 1916, há mais de 100 anos.

 

Como se isso fosse pouco, é de uma competitividade feroz. Dos dez países sul-americanos, só dois ainda sonham com a primeira alegria (Equador e Venezuela). De resto, é um ver-se-te-avias. Só para se entender a dimensão do cosmos, o Chile é o bicampeão em título. E o Uruguai é o rei do pagode, com 15 eeep eeep uraaaayyyyyy.

Segue-se Argentina (14). Alto e pára o baile, porque a Argentina perde as últimas quatro finais. Noooooooo. Sim senhor, um desastre completo. A última final ganha pela Argentina é a de 1993, no Equador, 2-1 ao México. Há já mais de 25 anos. No ataque, um senhor alto de cabelo comprido chamado Batistuta e outro mais baixo de cabelo curto, conhecido simplesmente por Beto.

 

Eis Alberto Acosta, um dos heróis dessa Argentina 1993 e, depois, uma lenda no Sporting.

 

Beto, que tal tudo por aí?

Tudo bem.

Pronto para a Copa América?

Prontíssimo.

Vais ver onde?

Por la tele, aqui, em Buenos Aires.

O negócio da televisão é um fenómeno recente. Como é que fazias quando eras miúdo?

Usava a imaginação.

Porquê?

Nasci num pueblo muy pequeno chamado Arocena [só para entenderem a dimensão do ‘pueblo’, nem sequer tem página no wikipedia]. A minha vida era tranquila, na casa dos meus pais. Como não havia televisão e como também não havia acesso a grandes estádios ou coisa que se parecesse, o futebol, como fenómeno desportivo, era vivido de...

De forma apaixonada?

Isso mesmo. Também é isso. Ia dizer futebol de rua. Cresci na rua, cresci a jogar sozinho contra uma parede e também em grupo, com amigos, amigos de amigos a fazer torneios, aquela calle contra a outra, aquele barrio contra o outro e por aí fora. Cresci a coleccionar revistas para colar os posters e admirar os ídolos naquele cubículo que era o meu quarto.

Quem eram os ídolos?

Kempes, sobretudo Kempes. Também Fillol, el arquero. Era uma febre, quase, je je je je [os argentinos riem-se assim, não me perguntem porquê]. Admirava o Kempes pela imponência do seu físico, pela quantidade de golos e pela qualidade do seu jogo. Era um 9 móvel, que estava sempre no sítio certo mas que também saía a driblar dentro da área. Além do mais, ele transferiu-se para o Valencia e ganhou fama internacional. Isso, naquela altura, causava outro impacto em todos nós. É preciso ver que o futebol não dava na televisão e, por isso, havia menos pressão. Agora vês um jogo em directo a toda a hora e sabes em cima da hora qualquer resultado, seja aqui ou na Ásia. É incrível. Antes, não. Nada disso. Lá ias vendo os golos dos jogos mais importantes e, claro, a selecção.

Onde estavas quando a Argentina foi campeã mundial em 1978?

No meu pueblo.

Lembras-te da festa?

Claaaaro. Tinha 11 anos e saímos todos à rua. Lá está, Fillol na baliza e Kempes a 9. Foram tempos desportivos fascinantes. O ganhar um Mundial era como se fosse um sonho, agora concretizado, ainda por cima em casa. A adesão popular foi maciça.

E em 1986, onde estavas?

O México-86 é diferente. Já tenho 19 anos, já jogo futebol profissional, já tenho consciência, por assim dizer. Je je je je. É verdade, já analisava tudo e mais alguma coisa. É normal. E havia Maradona. O que ele fez no México é algo que me ultrapassa. A mim e à maioria, creio. Que génio. Ele partiu toda a gente: Coreia, Bulgária, Itália, Uruguai, Inglaterra, Bélgica e Alemanha. Ninguém escapou. Também saí à rua, claro. Foi outra fiesta bonita, até às tantas. A selecção mexe sempre connosco.

Diz-se que os argentinos vibram mais com a selecção do que com os clubes. É verdade?

Talvez seja assim, talvez. A verdade é que apanhas a geração Kempes e és campeão mundial em 1978. E depois apanhas a geração Maradona e sais campeão em 1986, sem esquecer a final em 1990. Agora é a geração Messi. São muitas coisas boas a acontecer num curto período de tempo. E quem as vive não as esquecerá. Nunca. Por isso, é válido pensar assim, que os argentinos unem-se e ouvem-se mais durante os jogos da selecção.

Falaste nas gerações Kempes, Maradona e Messi. E a tua?

A minha é a do Maradona, je je je je.

Jogaste com ele?

Sim, um par de vezes.

E então?

Há a realidade, há o sonho e há o Diego. É qualquer coisa de especial, acima de qualquer sonho. O que ele fazia com a bola nos treinos e também nos jogos, não há explicação. Era grande, grande, grande. Génio.

Como é que apareces na selecção?

A minha primeira convocatória é para um jogo particular no Centenário, em Montevideo: Uruguai-Argentina.

Uauuuu, clássico.

Je je je je. Verdade, só que este acabou 0-0.

E és convocado porquê?

Comecei a carreira aos 19 anos no Unión Santa Fé. Dois anos depois, já estou no San Lorenzo. Depois, aventuro-me pela Europa, ao serviço do Toulouse, e volto ao San Lorenzo. É aí que começo a marcar golos e a ser notado. Lembro-me perfeitamente dessa convocatória, porque ligaram-me para casa ao domingo à noite, depois de um jogo. Telefonaram-me a dizer para estar em Buenos Aires na sede da Associação Argentina de Futebol às tantas horas. Lá fui.

Lindo. E quem lá estava?

Craques de todo o tamanho. Batistuta, seria ele a maior referência. Depois, Simeone, Redondo e outros. Só que, ao contrário de hoje, todos nós jogávamos na Argentina. Não havia esse fenómeno da emigração. Conhecíamo-nos todos do campeonato nacional. Acompanhávamos as nossas virtudes de semana a semana, ou ao vivo ou pela televisão.

Tu entras para a selecção e?

Foi um período sem Maradona. Já não me lembro porquê, deveria estar sancionado pelo caso de doping. Bom, a verdade é que entro na selecção e apanho aquela fase em que não perdemos durante 31 jogos. Foi mágico, ganhámos duas Copas América. Uma em 1991, no Chile, outra em 1993, no Equador.

Jogaste as duas?

Sim, sim. Quer dizer, mais a segunda edição, em 1993. Na primeira, a dupla era Batistuta e Caniggia.

Uauuuu.

Je je je je, é ieso mesmo. Dois craques que se contemplavam muito bem.

E em 1993?

O Batistuta e eu. Às vezes, o Medina Bello.

Quem é o seleccionador?

Tanto o que me convocou pela primeira vez como o das duas Copas América, é o Alfio Basile. Mais conhecido por Coco. Era um treinador de uma outra escola. Sempre bem-disposto, sempre correcto e muito frontal. Só coisas boas sobre ele, um homem muito profissional e extremamente prático. Para ele, tudo era simples. E assim o era, de facto. Não joga este, joga aquele. Não fazemos isto bem, vamos tentar fazer aquilo. Aprendi muito com ele. Mais: todas as minhas 19 internacionalizações são com ele e sabes uma coisa?

Nem ideia.

Nunca perdi um jogo, je je je.

Espectáculo, maravilha.

Podes crer, grandes tempos. A Argentina estava fortíssima, cheia de confiança. Eram os tempos dos dois nueves. Nós jogávamos com Batistuta e Caniggia, depois Batistuta e eu, que éramos fisicamente muito fortes. O Brasil do Mundial-94 tinha Bebeto e Romário.

Verdade, nunca tinha pensado.

Outros tempos, agora até é moda jogar sem um 9 fixo, de área.

Dos fixos, de quem é que gosta mais?

Assim para o combate físico, é o Lewandowski. O homem é brutal, derruba qualquer muralha. Também há Agüero, muito fino e perspicaz. Agora se falarmos em goleadores, sem serem realmente 9, temos de nos render à eficácia de Ronaldo e Messi. O que eles fazem, je je je je. Trituram os guarda-redes dias sim, dia sim. É incrível.

Batigol era assim, não?

Batigol era um deus para a Argentina e para a Fiorentina. Quando ele pegava bem na bola, nem valia a pena.

Dizias tu, Batistuta e Acosta na Copa América 1993.

Je je je. Começámos bem e passámos a fase de grupos em segundo lugar, atrás do México, o que implicou que apanhássemos o Brasil nos quartos-de-final. Acabou dois-dois e tivemos de ir a penáltis.

Marcaste algum?

Nesse dia, fui suplente. Entrei a meio da segunda parte para o lugar do Batistuta. E marquei o quarto penálti, logo a seguir ao Roberto Carlos.

E então?

Golo, je je je je.

Como é que o Coco definia os batedores de penáltis?

À base da conversa. Perguntava-nos se nos sentíamos confiantes, se queríamos patear.

Nas meias-finais?

Outro desempate por penáltis, com a Colômbia. Aí marquei o quinto penálti, depois do Valderrama. Mais uma vez, o Goycoechea deu-nos a vitória. Ele era um guarda-redes impressionante em tudo, ainda mais nos penáltis. Agarrava sempre um ou outro. Ou mais. No Mundial Itália-90 foi colossal. Nessa Copa América também.

E a final?

Dois-um ao México, bis do Batistuta. Campeões.

Bicampeões.

Je je je, pois é.

Entre essas duas Copas América, ainda ganhas a Taça das Confederações em 1992?

Baaaaaahhhh, ainda era uma Taça das Confederações muito primitiva. Só quatro selecções. Ganhámos 4-0 à Costa do Marfim, campeã africana. Marquei o 4-0. E depois, na final, 3-1 à anfitriã Árabia Saudita. Foi bom, claro. A rotina de vitória sabe sempre bem, mas era um torneio pequeno, sem a importância da Taça das Confederações dos tempos de hoje.

Muy bien. Andaste pelas Américas de 1993 até 1999. De repente, Portugal.

Je je je je. Que aventura. Queria esquecer a aventura no Toulouse, em França, e sair-me bem na Europa. O Sporting abriu-me as portas.

Quem, concretamente?

Mirko Jozic. Ele treinava o Colo Colo [aliás, sentem-se: Jozic é o único europeu a conquistar a Libertadores] e eu jogava na Universidade Católica. Conhecemo-nos aí e, passado um tempo, o Jozic foi contratado pelo Sporting. Passado mais um tempo, ele recomendou-me. O Sporting foi lá e já está. Je je je.

Conhecias o quê do Sporting?

Pouco, a verdade é essa. Sabia que era de Portugal, claro. E, óbvio, era pelouro Jazalde [eles, argentinos, dizem J em vez do Y]. O Jazalde era muito falado na Argentina, marcou golos em Mundiais e tudo. Era uma referência pela capacidade goleadora, ainda por cima foi Bota de Ouro como melhor marcador na Europa.

E tu não foste Bota de Ouro como melhor marcador da América do Sul?

Estava a ver que não dizias, je je je. Fui, sim [em 1994, com 33 golos].

Chegaste a Lisboa e?

Nem me fales. Os primeiros seis meses passei-os em Cascais. Quando acabou essa época 1998-99, pedi para mudar e meteram-me perto do estádio, na Avenida de Roma. Nem imaginas o tempo que passava no trânsito. Aquela marginal je je je. Lindíssima, mas caótica. Na Avenida de Roma, era bem melhor.

E o clube propriamente dito?

Uma estrutura de grande, com adeptos formidáveis e uma equipa fantástica. O capitão Pedro Barbosa foi o primeiro a receber-me. Havia outros pesos pesados, como Beto e Rui Jorge. Os argentinos Duscher, Quiroga, Hanuch e Kmet. O André Cruz, que profissional. E um líder nato. Tal como o Schmeichel. Difícil marcar-lhe golos nos treinos, hein?! Que muralha. E um tipo cinco estrelas, cheio de boas intenções e constantemente bem-disposto.

Mesmo nos jogos? Via-o nervoso, de vez em quando.

Je je je je. Isso já não sei. Sou avançado e não o ouvia. Escapei de boa. Je je je je. Uma animação pegada era o Nuno Santos, que figura. Era o terceiro guarda-redes e estava sempre, sempre mas sempre mesmo a gozar com o resto da malta.

Mais alguém?

É um poço sem fundo, acredita. Olha, o César Prates.

O que tem?

Inesquecível, estava sempre a rir-se. A sério, ele simplesmente passava a vida a rir-se. Até nos treinos. Até nos jogos. Às vezes, lembro-me como se fosse agora, ele falhava um cruzamento e eu olhava zangado na sua direcção. Para quê? Ele já estava a recuar para o seu lugar com uma cara de menino traquinas, que sabia que tinha feito uma asneira mas que não queria que lhe chamassem à atenção. Que figura. E, claro, havia o maior de todos.

Quem?

Paulinho.

Pois ééééé, o Paulinho.

Um personagem da cabeça aos pés, muito profissional e divertido até dizer chega. Um bom balneário não é só feito de jogadores, também tem de incluir médicos, roupeiros e por aí fora. A verdade é que esse Sporting era especial do ponto de vista humano. Havia figuras incontáveis. E havia rituais que nos transmitam união e nos davam mais força ainda.

Tais como?

As chamuças. No fim dos treinos, às quintas ou sextas-feiras, havia sempre massagens e, depois, pedimos chamuças. Comíamos no balneário, era divinal. Partilhávamos um tempo de qualidade na véspera dos jogos.

Quais os jogos mais importantes?

Todos. Para se ser campeão, é preciso reagir bem às vitórias, aos empates e às derrotas.

Aquela do livre do Sabry fez mossa?

Claro que sim. Foi um dia mau. Estávamos tão perto do título e queríamos dar o título aos nossos adeptos em Alvalade. Só que o nosso jogo não apareceu e o Sabry marcou aquele livre directo a poucos minutos do fim. Aquilo derruba-te. Mas só nesse dia. No dia seguinte, acordas com outra disposição. Sobretudo quando te reúnes com o resto dos jogadores no balneário e chegas à conclusão que o sonho ainda está ao nosso alcance. Bastava-nos ganhar ao Salgueiros, no Porto. E goleámos 4-0.

Foi uma tarde de glória.

Mais que isso, foi o concretizar de um sonho. Para os adeptos, à espera dessa alegria há 18 anos. Para os dirigentes, que apostaram naquele plantel. Para os jogadores portugueses, já enraizados no Sporting, e para os jogadores estrangeiros, que trocaram as voltas à família e foram viver para Lisboa à procura de um sonho. Concretizável. Foi inesquecível. Até porque o sonho de ir para a Europa também era o de jogar na Liga dos Campeões. Objectivo cumprido.

É no ano em que o Sporting rouba a liderança ao Porto num clássico em Alvalade.

Grande jogo, 2-0 para nós.

Marcaste o 2-0, de fora da área.

Mal recolhi a bola, imaginei um exército de camisolas azuis e brancas atrás de mim. Decidi-me por um pontapé forte e colocado. A verdade é que a bola entrou colada ao poste. O Baía esticou-se, mas não chegou. Foi um momento daqueles inesquecíveis. Trabalhas para eles durante toda uma carreira e, finalmente, ei-lo ali à tua frente. Foi mágico.

E os dois golos ao Benfica na Luz, para a Taça?

Dois?

Não foram dois?

Dois e meio. Dois e meio [insiste] je je je. Ganhámos 3-1. Há um golo em que o André Cruz faz a emenda a um cabeceamento meu. Baaaaahhh.

Agora é a minha vez, je je je je.

Je je je je.

E aquela final da Taça de Portugal?

O que tem?

A cotovelada na cara do Paulinho Santos?

São coisas que acontecem no futebol e que não deviam acontecer. De todo. Aquilo é uma fracção de segundos, a gente passa-se num clique. Arrependeste-te no instante seguinte. Não me orgulho, claro que não.

O último título é a Supertaça ao Porto. E com um golo teu.

Já foi um Sporting diferente do da época anterior. Vieram João Pinto, Paulo Bento e Sá Pinto, por exemplo. O Inácio também saiu e entrou o Manuel Fernandes. Aliás, ganhámos essa Supertaça com o Manuel Fernandes. Foi um jogo engraçado. O Schmeichel defendeu um penálti do Deco e depois eu marquei o 1-0, também de penálti. Sempre tive queda para bater penáltis. Era assim nos clubes argentinos, era assim na selecção durante a Copa América e foi também assim no Sporting. Vive-se para esses momentos de enorme responsabilidade. A adrenalina sobe e um golo nessas circunstâncias de maior aperto é a realização de um sonho e o sentido do dever cumprido. Tanto em relação aos colegas de equipa como em relação aos adeptos, que pagam para viajar e puxam constantemente por nós em campo.

E amigos no Benfica, tinhas?

Assim de repente, lembro-me do Bossio.

Claro, argentino.

E o Chano, espanhol. Eram simpáticos. E levavam-me a almoçar.

Onde?

Ao Barbas, acreditas? Je je je je. Fui sempre bem recebido por lá. Mesmo junto à praia, maravilha.

Quando voltaste à Argentina, ainda jogaste uns anos?

San Lorenzo. Siempre. Joguei quatro vezes no San Lorenzo, je je je je. É um amor grande. Como o do Sporting

Obrigado Beto, grande abraço.

Obrigado eu. Envia-me depois o link da reportagem, por favor.

Tranquilo, claro que sim.»

( In.: https://tvi24.iol.pt/load-enter/load/marquei-dois-golos-e-meio-ao-benfica )

 

Oceano, em entrevista.

Cruzei-me com esta deliciosa entrevista que Oceano deu a Rui Miguel Tovar n’O Observador, publicada a 10 Fevereiro 2018 e, não resisti, copiei-a para a partilhar convosco. Peço desculpa pela extensão da mesma.

 

A entrevista, texto d’O Observador :

A entrevista entrelaça os pontos de referência Tróia, Cuba, Monaco, San Sebastian, Barcelona e Erevan com nomes próprios de elevada distinção como Maradona, Klinsmann, Gullit, Figo, Futre e Batta

 

Imagine-se perto do Natal 2017, ali no dia 20 Dezembro. Agora imagine-se a comer um boca negra no Rabo d’Pêxe, ali no Saldanha. E agora imagine-se a falar de bola com o Oceano, ali na mesa encostada à janela. Oceano, o maior. Pacífico, sempre. Entre a história engatilhada na ponta da língua e as gargalhadas espontâneas, há um mar de histórias. EI-lo, o capitão do Sporting, o terceiro estrangeiro de sempre da Real Sociedad, o melhor marcador do Toulouse, o adjunto de Queiroz no Irão.

oceano-neno[1].jpg

 

Abro as hostilidades com esta foto.

Ahahahahahahah. Que maravilha. Eu ali em baixo e o Neno de pé. Conheço-o desde os 12/13 anos. Ele jogava no Santo Antoniense e eu no Almada, era uma brincadeira pegada.

Isto era o quê?

Um torneio em Tróia, com a primeira seleção de iniciados da Associação de Futebol de Setúbal. O que é engraçado é que ele era um caga-tacos e eu também era um caga-tacos, éramos os dois mais pequeninos do grupo.

A sério?

Se calhar foi por isso que ficámos juntos desde então, naquela coisa da proteção, sabes?

Estou a ver.

O Neno sempre foi um palhaço, já desde esta idade. Ele dizia que eu era mais palhaço naquele naquele tempo, mas não, ele é que era. Sempre foi. E o grupo estava sempre à nossa volta, nós é que animávamos aquilo tudo. Ahahahah. Aquilo para nós era a Walt Disney. O guarda-redes mais alto era o Castelão ou Casarão, um bicho do caraças. Claro que o Neno era suplente, ahahahah. Escreve isso, escreve isso, pica o gajo. Ahahahahah.

Ele falou-me num penálti em Alvalade?

Estávamos a perder por 1-0 e demos a volta para 3-1. Faço dois golos, um deles de penálti. Antes da marcação, o Neno vem ter comigo e diz que me conhece de Tróia. Depois, arrisca: ‘tu, com esse pé de pato, vais marcar a bola aqui para este lado, não vais mudar, pois não?’

E tu?

‘Se já me conheces, sabes que não vou mudar’. Quando cheguei ao ponto do penálti, não mudei mesmo. Só que o Neno foi para o outro lado, ahahahahah. A meio caminho, já ele me dizia ‘sacana’ O Neno é giro, tenho uma grande relação com ele desde esses tempos de caga-tacos.

Jogavas no Almada, isso era que divisão?

Os seniores jogavam na 2.ª, depois foram para a 3.ª. Eu ainda estava nos juvenis, depois juniores. Aqui, chegámos a jogar na 1.ª divisão.

O quê, com Benfica, Sporting, Estoril, Belenenses?

Todos esses mais o Vitória. Foooogo, o Vitória, lá em Setúbal, tinha uma belíssima equipa. Havia um gajo fabuloso chamado Fernando Cruz. Era aquele ponta-de-lança que não existia em Portugal, todos o queriam.

Eras tu e mais quem no Almada?

Dos que jogaram na 1.ª divisão, eu, o Galo e o Horácio.

Imagino a vossa impaciência em chegar aos seniores?

Ahahahahah, a piada é essa.

Então?

Não queríamos nada disso.

Baaaah.

Batia-se tanto nos jogos do Almada da 3.ª divisão que nem queríamos chegar aos seniores. Só queríamos continuar nos juniores.

Ahahahahah.

Só que o campeonato de juniores acabou mais cedo que o esperado e o treinador dos seniores chamou-nos logo para a equipa no último mês e meio de competição, na 3.ª divisão.

Começa aí a tua aventura.

A minha e a do Galo mais a do Horácio. Subimos os três ao mesmo tempo e fomos logo titulares.

Ainda te lembras disso?

Tenho cada história desses tempos, há coisas que um gajo não esquece. No meu primeiro jogo, fomos jogar a Cuba, no Alentejo. Estavam 40-e-tal graus e fiz o golo da vitória.

É beeeem.

O remate é do Horácio, a bola bate na barra e até entra, só que o árbitro não o valida. Como estava a seguir a jogada, entrei em voo para dentro da baliza, foi bola, foi tudo. Agora sim, é golo sem margem para dúvida, ahahahah. Levanto-me todo contente, para o abraço com o Horácio, e um central deles vem direito a mim.

E?

Dá-me um pontapé nos testículos. Apaguei. Apaguei mesmo. E apaguei mal. Só acordei no balneário cheio de gelo aqui [Oceano afasta a cadeira e aponta para baixo], com o massagista a trabalhar esta zona. Ahahahahah.

Ahahahahah.

Ri-te ri-te, se soubesses o que sofri. Tive de fazer uma porrada de exames, porque o massagista estava preocupado. Dizia que os testículos tinham ficado assim e tal, dizia que eu até podia ficar ??. Agora imagina a minha reação, não é? Ouvir aquilo tudo e ainda era um miúdo.

E o agressor? E o árbitro?

Nada, nada. O árbitro disse que não viu nada porque “estava a olhar para o meio-campo”.

E tu, depois?

Só queria sair dali.

De onde?

Da 3.ª divisão. Disse a mim mesmo “não quero jogar mais a este nível”. Por isso, quando apareceu o Odivelas, da 2.ª divisão, nem pensei duas vezes. Além disso, ofereciam-me quatro vezes mais que o Almada. Tinha de dar esse passo.

Conhecias alguém no Odivelas?

Os treinadores eram o Lourenço e o Carvalho, duas figuras do Sporting e jogadores de Portugal no Mundial-66. Eram pessoas que já conhecia de nome e isso dava-te necessariamente outra força. O Odivelas foi melhor para mim, claro. Se bem que ir todos os dias de Almada para Odivelas era um martírio.

Viagens e isso?

Tudo. Ia de autocarro Odivelas-Entrecampos e, depois, apanhava o metro para o outro lado de Lisboa. Claro, era atacado, assaltado, roubado e sei lá o que mais. Ahahahah, que histórias. No metro, em Entrecampos, estava tipo sardinha em lata, nem metia os pés no chão. São experiências engraçadas, fortalecem-te o espírito.

E para voltar a Almada?

Uyyyy, nem me digas nada, ahahahah. Havia barco, mas só até a uma determinada hora. Se falhasse o último, já só apannhava o das seis da manhã.

E como é que fazias?

Ficava com o Mafra.

Mafra?

O nosso capitão de equipa. Um bandido de primeira e muito boa gente. Pagava mais do bolso dele do que o próprio Odivelas.

A sério?

Ya, o gajo era sensacional. Entrava no balneário e dizia-nos ‘o clube oferece mil escudos, eu dou 1200 a cada um se a gente ganhar este jogo’.

Craque, estou a ver.

Ele tinha aqueles cartões da lotaria dos bairros de Lisboa que se chamavam mafras e a alcunha ficou. O Mafra ganhava dinheiro com isso e, na altura, tinha três Mercedes, um deles era o SL descapotável.

Isso devia ser uma novidade.

Era uma coisa do outro mundo. De vez em quando, convidava-me ‘miúdo, queres ir jantar?’.

E tu?

‘Não, sr. Mafra, a minha mãe disse que eu tinha horas para estar em casa.’

E o Mafra?

‘Não, não, miúdo, anda lá jantar e depois deixo-te em casa’.

E?

Chegava a casa às cinco/seis da manhã. Um dia, disse-lhe ‘oh sr. Mafra, gosto muito de si, mas não dá para continuar’. É que aquilo era quase todos os dias, ahahahahah.

O que feito dele?

Está bem, tem um stand de automóveis no outro lado do rio e ainda me dou com ele. O Mafra desenrasca-se, tem olho para o negócio. Ainda nem se falava de Valverde, na Verdizela, e ele já tinha comprado duas vivendas. Depois vendeu-as e comprou outra. É assim, o Mafra. Grande, grande homem.

O campo do Odivelas era pelado ou…?

Pelado, pelado à séria. Ahahahah. Na 2.ª divisão, zona sul, só Marítimo, Belenenses, Farense e mais um ou outro é que tinham relvado. De resto, pelados. E o nosso era cá um quintal, ahahahah. Que tempos. Tínhamos uma jogada ensaiada, nos pontapés de baliza: o guarda-redes chutava lá para a frente, nós íamos em bando para o meio-campo contrário e a ideia era passar a bola ao Sebastião, que tinha cá um pontapé. Ainda fizemos um golinho ou outro assim.

Também só jogaste um ano no Odivelas, não foi?

Fui logo para o Nacional.

Porquê a Madeira?

O treinador era o Pedro Gomes e ele viu-me a jogar pelo Odivelas. Quis contratar-me e fui.

Que tal?

Vê bem, às vezes era extremo-esquerdo.

Maravilha.

Fisicamente, estava mais forte que nunca. No primeiro estágio de pré-época do Nacional, o Pedro Gomes puxou tanto por nós que lhe cheguei a dizer ‘mister, com estes treinos posso estar sem fazer nada nos próximos dez anos’.

Era duro?

Foi o mais duro que apanhei. Aquilo era uma coisa. Nós tínhamos crosses nos Barreiros e havia um exercício do caraças.

Então?

Estávamos todos a correr na pista de tartan à volta do relvado dos Barreiros e ele, de repente, dizia Oceano.

Sim?

Tinha de correr mais depressa que todos os outros e dar-lhes uma volta de avanço.

Quêêêê?

Era o melhor gajo a fazer aquilo, só que demorava três voltas a apanhá-los.

Só três? Porra.

Pois, eles continuavam a correr, a puxar uns pelos outros, e eu, sozinho, tinha de apanhá-los. Era tramado. Agora imagina a quantidade de voltas que dávamos àquela pista.

Não imagino, impossível, ahahahah.

Os gajos do União e do Marítimo treinavam nos Barreiros, como nós. Aquilo era uma confusão do caraças, eles chegavam depois e saíam antes. Às vezes, iam para a bancada e gozavam connosco. Ahahahah. Mas digo-te, os primeiros jogos até correram bem e houve um que acabou 8-1 para nós [ao Esperança de Lagos]. Nesse dia, choveu até dizer chega. Os gajos do União e do Marítimo, os que gozavam connosco, é que ficaram impressionados. ‘Fogo, já viram como vocês voam?”. E realmente voávamos, só que depois tivemos uma quebra.

Ya, é sempre assim.

Espalhámo-nos ao comprido a partir de Janeiro. Foi aí que o Pedro Gomes decidiu jogar.

Quando dizes jogar, estás a dizer jogar mesmo?

Ya, eu joguei com o Pedro Gomes. A primeira vez que ele decide entrar no 11 é em Lagos. Havia lá no Esperança um defesa-esquerdo muita velho, com 39 ou 40 anos, mas, pá, o Pedro Gomes já tinha 46 ou 47 ou 48. Epá, vamos para Lagos, dentro da cabina, e começamos a ouvir a equipa: ‘número 1 não sei quem, número 2 disto, número 3 disto, número 4 nanana, número 5 não sei o quê, número 6 Oceano, número 7 eu, número 8 não sei quê”. Aquele ‘eu’ passou despercebido, como se ele estivesse a dizer o Miguel.

E depois?

Ele acaba de dizer o onze e nós todos ‘eu’? Ahahahahah. Isto é mesmo só rir.

E o Pedro Gomes?

‘Sim, isto pode ser uma surpresa para vocês, mas estou inscrito como jogador e hoje vou jogar. Considerem-me como um companheiro vosso mais velho.’

Que tal correu?

Perdemos, 2-1. Só que há coisas engraçadas para contar. Quer dizer, não são bonitas, mas são engraçadas.

É contar e pronto.

Havia gajos da equipa que não gostavam dele e avisaram-no. ‘Ò mister, a gente enerva-se lá dentro e chamamos nomes’.

E o Pedro Gomes?

‘Vocês podem mandar-me para todo o lado, podem chamar-me cabeçudo e isso tudo.’

Imagino a farra.

O que é que os gajos fizeram? Chamaram-lhe tudo. Ainda por cima, o primeiro golo do Esperança foi culpa dele, ahahahah.

E de resto, o jogo dele?

Queria marcar tudo; cantos, livres, lançamentos. Ahahahah. Na jornada seguinte, jogámos em casa e aí levei uma entrada duríssima na canela. Levei para aí uns 15 pontos na perna e a sorte foi que o piton parou no osso, senão partia-me a perna. Coseram-me aquilo e fiquei de molho. Só que era o campeonato, não é?

Non-stop.

Pois. No jogo da semana seguinte, íamos ao Restelo e eles insistiram para que eu jogasse. Era um jogo importante para a subida e tal.

E tu?

Fui a jogo, com reticências. O médico disse-me ‘vais jogar, mas, se alguém te tocar, vai haver sangue como nunca’. A uns 15 minutos do fim, há um gajo que me entra à perna, toca na ferida e era sangue comò caraças. Tive de sair e quem é que entra?

Nããããão.

Pedro Gomes, ahahahah. Com o número 16. Então, o Jimmy Melia, treinador inglês do Belenenses, diz isto no final do jogo. ‘O número 16 mais parecia um camião do leite.’

Ai é aí que começa a expressão, não fazia a mínima ideia.

Estás a ver, o Pedro Gomes já fortinho, com 40-e-muitos-anos. Foi o seu último jogo da carreira. Ele que ganhou a Taça das Taças pelo Sporting em 1964 e estava ali a jogar comigo em 1984. Ahahahah. Quando digo que joguei com o Pedro Gomes, as pessoas todas riem-se e dizem ‘és um mentiroso do caraças’. Nada disso e marco sempre uma aposta, ahahahah.

Grande história. E o Nacional, sobe nesse ano?

Ficámos em quarto ou assim e não subimos.

Como é que aparece o Sporting nessa história?

O Pedro Gomes disse-me ‘epá, deixa o Sr. Rocha ganhar as eleições e ir buscar o John Toshack; provavelmente, vou para adjunto e gostava que fosses para o Sporting’.

E tu?

Pensei ‘agora vou para o Sporting ’tá bem ’tá’.

E não é que foste?

Há toda uma história.

Booooa.

O Nacional estava há três meses sem pagar o ordenado e insistiam na minha renovação. Só lhes disse ‘okay, só renovo com a condição de que paguem tudo o que me devem por inteiro’. E os gajos pagaram. Beeem, nessa altura, senti-me multimilionário. Quer dizer, não era nada de especial, o salário em si, mas três de uma vez era uma sensação libertadora. Ainda por cima, vivia sozinho e não tinha vícios nenhuns. Não fumava nem bebia: o dinheiro chegava e sobrava. Agora, havia jogadores titulares que não era assim. O que fazíamos, então? Comíamos no restaurante do nosso apart-hotel e dizíamos ‘mandem a conta para o Nacional’. E também havia um restaurante no centro do Funchal em que fazíamos o mesmo. O que interessa é que a situação se resolveu para o meu lado e aquando da minha renovação, inclui uma cláusula no contrato a advertir os gajos do Nacional que tinham de me deixar sair se houvesse interesse de um grande,

Veio o Sporting.

Ainda começo a época com o Rui Mâncio e, às tantas, recebo um telefonema do Pedro Gomes “É pá, o Toshack queria que viesses aqui este fim-de-semana para treinares com ele à sexta, sábado e domingo. Já falei com a direção do Nacional’.

Foste.

Disse que não.

Hein?

Já viste a minha idade? Só tinha 21 anos. E já tinha tido uma experiência um bocadinho traumatizante no Sporting, aos 16.

Porquê?

Cheguei lá e estavam cinquenta mil miúdos. Cinquenta mil, não estou a exagerar. Quando chegou a minha vez de ir jogar, só foi um minuto ou dois. Logicamente, não dá para ver nada, fui-me embora e disse a mim mesmo ‘nunca mais vou passar por isto; se o Sporting quiser, que me venha buscar, agora à experiência é que não’.

Mai’nada. E agora, como se resolve o impasse?

A minha mãe falou comigo.

Olha que bem.

‘Filho, não perdes nada, porque sabes batalhar como ninguém e ainda tens contrato com o Nacional’. Ah é verdade, faltava dizer que fui jogar para o Nacional em vez de ir para a universidade.

Ias seguir o quê?

Engenharia. Quando era mais miúdo, nos tempos de Almada e Odivelas, tinha de ter boas notas para jogar futebol. Era a condição dos meus pais, senão os gajos tiravam-me do futebol. Tiravam mesmo. E mesmo nesta época do Nacional, em que já sou maior de idade e tenho um ordenado à minha disposição, os meus pais insistiam; ‘vais para lá, tudo bem, é um ano à experiência; se não correr bem, entras na universidade’. A minha mãe estava sempre a dizer-me ‘não te esqueças da universidade, está sempre pendente’.

Engraçado. Então e o Sporting?

Pronto é isso, a minha mãe disse-me ‘ò filho, se tens contrato com o Nacional, qual é a pior coisa que te pode acontecer no Sporting? É não ficares? Não, o pior é ficares a pensar no que teria acontecido se não fosses’. Pronto, liguei ao Pedro Gomes e lá fui fazer os treinos. No primeiro de todos, dei uma porrada no Jordão ahahahahah e eu só dizia ‘desculpe Sr. Jordão, desculpe”. Hoje, o Jordão é o padrinho da minha filha mais velha. Ahahahah. Ele protegeu-me no Sporting e disse-lhe “sr. Jordão, ainda não sou casado nem tenho filhos, mas você vai ser o padrinho da minha filha’.

E foi mesmo.

Uns anos depois, nasceu a Carina e o Jordão foi o padrinho, ahahahah.

Que espetáculo.

Bom, aquele fim-de-semana no Sporting passou e o Toshack disse-me ‘epá, já não vais mais para a Madeira’. Assinei três anos pelo Sporting.

Um contrato melhor ainda?

Na altura, ganhava 65 ou 69 contos por mês no Nacional e o Sporting ofereceu-me 100 contos no primeiro ano, 150 no segundo e 200 no terceiro.

Era bom?

Cem contos era dinheeeeeeeiro.

Vivias onde?

Miraflores. Quem levava aos treinos era o Gabriel, que tinha um dois cavalos que eu adorava. Depois passei a viver na Quinta do Lambert, perto do estádio. Numa terceira fase, o Rosário, que é hoje adjunto do Fernando Santos na seleção, sugeriu-me ir viver para Caneças, um sítio tranquilo e perto de Lisboa. Foi quando comprei casa, por dois mil e duzentos contos.

Entraste logo na equipa do Sporting?

Fui suplente no primeiro e depois fiquei a titular. Fiz uns 29 jogos nessa época.

É a época europeia do Auxerre e Dínamo Minsk?

Exacto. Com o Auxerre, fui central e marquei o meu primeiro golo pelo Sporting. Ganhámos cá 2-0 e estávamos a perder lá por 2-0. No prolongamento, faço o 2-1.

Como?

É um dos maiores golos da minha vida, porque estávamos ali no prolongamento a aguentar o 2-0 e o Toshack diz-me para subir na altura de um canto. Quando chego à área, a bola vem ter comigo e atiro de primeira. Foi um g’anda golo pá. Ainda me lembro da página d’A Bola: ‘Oceano congelou os franceses’.

Com o Dínamo Minsk, a mesma coisa: 2-0 em Alvalade, 2-0 em Minsk.

Perdemos nos penáltis, nem me fales. Estava um gelo, -14 graus. E tivemos um azar tremendo com a lesão do Lito. Ele entrou a meio da segunda parte e, na primeira jogada, sofreu uma rotura muscular. Jogámos com dez e foi aguentar até chegar aos penáltis. Aí deu para o outro lado.

Quem era o guarda-redes do Sporting, Damas?

Damas, o jovem Damas.

Jovem?

Só tinha 42 anos. Se apanhei o Pedro Gomes, não ia estranhar o Damas ahahahahah.

Que balneário esse, com Jordão, Manuel Fernandes.

Oliveira, Jordão e Manuel Fernandes, que trio de luxo. Só que o Toshack começou a encostar o Oliveira. Mas havia mais: Jaime Pacheco, Sousa, Gabriel.

Xiiii, o Gabriel. É agora taxista no Porto.

É? Nem sabia.

Já o apanhei uma vez, da Foz até à Campanhã.

Epá tenho que estar com ele, foi a pessoa com quem me dei melhor.

Pois, o homem do dois cavalos.

Ahahahah. Vivíamos no mesmo prédio. Não é Gabriel, é sr. Gabriel. Eu só perdia a vergonha durante o treino, mas depois também dizia ‘epá, isto foi demais, tem que me desculpar Sr. Jordão’ ahahahahaha.

Falaste no Toshack, era porreiro?

O Toshack adorava-me. Foi o treinador com quem tive mais discussões mas era o gajo de quem mais gostava. Tive mesmo discussões de nos agarrarmos um ao outro, era para bater. Lembro-me de um episódio no meu segundo ano da Real Sociedad em que cheguei a acordo com o Barcelona.

Uyyyyyyyy.

Só que a Real não me deixou sair. Primeiro porque me faltava um ano de contrato, depois abriram a boca e pediram o preço do Pelé ao Barcelona.

E o Barcelona?

O presidente Núñez disse-me ‘ò Oceano, gostava muito que viesses para aqui, mas não posso pagar este valor por um jogador com 31 anos; se conseguires convencê-los a baixar esse valor’.

Barça de Cruijff, certo?

Reuni-me com ele e tudo.

Com o Cruijff?

Foi o Bakero, que era basco, ex-Real Sociedad e capitão do Barça. Ele disse-me ‘ficas aqui depois do jogo porque o Cruijff vem falar contigo’. Assim foi, Cruijff e Núñez no Hotel Princesa Sofia, mesmo ao lado do Camp Nou, no dia em que o Barça foi campeão espanhol. Eles hospederam-me numa suite e tivemos uma reunião de um minuto.

Só?

O acordo era fácil. Quer dizer, limitei-me a dizer sim ao Barça. Fácil. E eles do Barça estavam animados com a perspetiva de negócio porque havia um histórico de boas relações com a Real Sociedad.

E porque é que não foste para o Barça?

Apanhei a Real Sociedad numa altura complicada. Tínhamos acabado a época em 13.º lugar, fora da UEFA, e o Toshack disse-me ‘não posso vender o meu melhor ativo, a não ser por muito dinheiro’, porque os sócios isto, o clube aquilo.

E a tua reação?

‘És um cabrão, hijo de puta’. O engraçado era que eu insultava-o em castelhano e ele insultava-me em inglês. Não brinques, estivemos mesmo em vias de facto. Eu puxei-lhe a camisola, ele a minha e embrulhámo-nos à grande. Eu só desabafava ‘para o ano não tens jogador; vou lesionar-me no primeiro jogo da época e não tens mais jogador’. Ele conhecia-me bem e sabia que não era disso.

Bem, grande mágoa, não?

Claro, era a minha última oportunidade de ir para o Barça. Mas, tudo bem, depois voltei para o Sporting.

E o Toshack?

Uns anos mais tarde, em 1999, voltou ao Real Madrid. Ainda pensei ‘queres ver que me leva para o Real Madrid’, mas nada. Ahahahahahaha. Só que o gajo picava-me.

Então?

Contratou o Géremi, lembras-te?

O dos Camarões?

Esse. E disse à imprensa que tinha ido buscá-lo porque fazia-o lembrar o Oceano.

No Sporting, o Toshack fez a época toda?

Saiu a quatro jornadas do fim e ficou o adjunto Pedro Gomes à frente da equipa.

Olha que bem, o reencontro.

Ahahahahah. Avisei os jogadores: ‘malta, hoje jantem às sete e trinta, façam um passeio digestivo e deitem-se às dez da noite para acordarem fresquinhos porque amanhã vocês vão treinar como nunca treinaram na vida’. E eles sem me ligar nenhuma, tipo ‘faltam quatro jogos para acabar o campeonato e era agora que íamos ganhar forma?” E eu insisti: “epá, vocês não conhecem o mister como eu’.

E que tal o dia seguinte?

Havia uns dois mil sócios a ver o treino e o Pedro Gomes até meteu corridas a subir as bancadas. E as bancadas em Alvalade não eram fáceis.

Pois não.

Aquilo era jogadores a vomitar, ahahahahah, e os sócios na bancada a dar mais alfinetadas. Já sabes como é: ‘é isso mesmo Pedro Gomes, tudo a trabalhar’. Quando chegámos ao balneário, eu só dizia ‘bem avisei’ aos gajos. O que aquela malta trabalhou nas últimas semanas, ahahahahah.

Depois chegou o Manuel José, não foi?

Ya, roubámos o campeonato ao Benfica em vésperas de Saltillo.

Associas as duas, porquê?

Estreei-me na seleção portuguesa em 1985, com a Roménia, em Alvalade. Perdemos 3-2. Depois deixei de ir, quem ia era o meu suplente no Sporting. Quando o Carlos Manuel marca aquele golo em Estugarda, o Torres convida-me para almoçar e diz-me “tu és o jogador a quem eu cometi a maior injustiça; a partir de agora, se continuares a ser titular no Sporting, és tu e mais dez no Campeonato do Mundo’. Curiosamente, não só fui titular os jogos todos até ao final da época como ganhámos os jogos quase todos, nomeadamente esse da Luz, em que demos o campeonato ao Porto, e acabei por não ir ao México. Foi o Venâncio, que teve de ser operado ao joelho e saltou da lista. Aí, ele disse ‘há males que vêm por bem, porque tu és o gajo que mais merece estar no Mundial’. Sabes quem é que ele convocou?

Nem ideia

O Sobrinho, do Belenenses. E o Lito, aquele do Sporting, sabes? A gente chamava-o de Doutor porque o Lito andava sempre pipi e tinha uma Volkswagem Scirocco, que era uma granda pinta, uma máquina do caraças. Então, o Doutor passa por mim enquanto estou a falar com os jornalistas e diz-me ao ouvido para todos ouvirem: “tens que dizer que isto é a maior vergonha que eu já vi’. Realmente foi uma tristeza muito grande, porque estava completamente convencido de que ia ao Mundial. Titular nos jogos todos do Sporting e depois aquela conversa com o selecionador.

Mas e o Torres, nada?

Só falámos no ano seguinte, quando ele já estava no Estrela.

Amadora?

Ele foi de Saltillo para o Estrela. Nós fomos lá ganhar e encontrei-o na sala de conferência de imprensa. Ele viu-me e ‘aqui está o meu jogador preferido’. Chamei-o à parte e disse-lhe tudo o que havia para dizer, ahahahahah. Desabafei um bocadinho, coitado do Torres, ouviu das boas.

Mundial nada, Barça nada. A vida, às vezes, tem destas coisas.

Claro que sim, temos de olhar em frente e seguir o nosso caminho. Agora falaste do Barça e lembrei-me daquela eliminatória europeia que perdemos em Alvalade: 1-0 lá, 2-1 cá.

Golo do Roberto?

Lembro-me bem desse golo, o 2-1. E lembro-me de ter saído do estádio ao mesmo tempo que os adeptos.

Então?

Cheguei ao balneário e, taaaau, saí do estádio. Foi um jogo pá, podíamos ter feito o 3-0. O Fernando Mendes fez um jogo incrível. Era o dia de anos dele ou véspera, já nem sei. Só sei que ele fez as assistências para os dois golos e ainda teve duas ou três hipóteses para marcar ou dar a marcar. E nada.

Grande noite.

Grande noite foi aquela do 7-0 ao Timisoara. Eles tinham eliminado o Atlético Madrid do Futre na eliminatória anterior e eu, como capitão, fui falar com o presidente Sousa Cintra. ‘Você tem de dar um prémio do caraças’. E ofereceu.

Quanto?

Não sei quanto, só sei que era um balúrdio. O Sousa Cintra ficou com uma azia, ahahahahahah. Outra história de prémios, ainda na era João Rocha. Fomos jogar com o Colónia, para os quartos-de-final da Taça UEFA, e o João Rocha fez uma aposta com os jogadores. ‘Se vocês ganharem, dou dois mil contos de prémio; se vocês perderem, cada um dá-me cento e cinquenta contos’. Ora bem, eu ganhava precisamente 150 contos. Se perdêssemos, lá ia o meu ordenado. E ele ‘ò miúdo, aguenta’. E fomos eliminados, ahahahahah. Era o Colónia, uma equipa do caraças com Schumacher, Littbarski, Bein, Allofs. Jogar na Europa era um sonho de infância.

Vias muito na televisão?

Como vivia em Almada, o meu mundo dos jogos ao vivo era basicamente Almada. Lembro-me de um Almada-Porto para a Taça de Portugal, por exemplo. E lembro-me de ir uma vez à Luz e outra a Alvalade. Agora, Europa, Europa, só na televisão. Lembro-me de um Torpedo Moscovo-Benfica em que o Vítor Baptista apareceu em mangas de camisa no estágio e nem seguiu com a equipa. Que se qualificou para a fase seguinte, com um penálti do Bento, no desempate. Seguia assim, estás a ver?

Pois, claro. Como o comum dos mortais.

Exactamente. Via os jogos com o meu pai.

De que clube era ele?

Porto. Ele até jogou numa equipa em Cabo Verde chamada Derby, que era a filial do Porto e jogava de azul e branco.

Lembro-me de ti em Alvalade, sobretudo da tua evolução. No início, eras assobiado.

Verdade, isso só deu ainda mais motivação para me superar.

E superaste-te.

Tenho de agradecer ao Roger Spry. Ele ficava sempre comigo. Os outros iam-se todos embora e nós treinávamos exercícios específicos. O gajo dizia “tu precisas de ser mais forte, precisas de ter mais elasticidade, precisas de ter mais impulsão e precisas de trabalhar a tua força para a saberes direcionar’. Com essa aprendizagem, melhorei muito. De repente, comecei a ganhar bolas pelo ar. Quer dizer, tenho 1,75 metros de altura, como o João Vieira Pinto, e comecei a marcar os mais altos das outras equipas, como o Magnusson do Benfica. E ganhava esses lances. O Roger preparou-me para melhorar a capacidade de reação, o tempo de salto e, sobretudo, a antecipação dos lances. Fiquei muito melhor jogador, sem dúvida. Depois, em Espanha, já fui recebido como uma vedeta e não podia desiludi-los.

Tu e o Carlos Xavier?

Isso, só que o Carlos faz-me uma rotura de ligamentos cruzados no primeiro jogo e eu fico sozinho, num sítio onde os estrangeiros não eram bem vistos. Ao lado, em Bilbau, tinhas o Athletic, que não aceita estrangeiros nem espanhóis, à exceção de bascos. Ali, em San Sebastian, tinhas a Real Sociedad que tinha aberto as portas aos estrangeiros dois anos antes de nós, com aquele avançado irlandês, o Aldridge. Quando o Carlos se lesiona, o meu pensamento é o de trabalhar mais e jogar mais que todos aqueles gajos juntos.

E?

Missão cumprida, ahahahah. Marquei sete golos na primeira época.

Acabaram em que posição?

Quarto ou quinto lugar. À quinta jornada, estávamos em último com zero pontos e zero golos marcados. À sexta jornada, jogámos com o Sevilha de Maradona e Simeone.

Maravilha.

Esse jogo tem uma história engraçada, porque fui à seleção nessa semana. Acho que jogámos com a Bulgária, em França [2-1 com golos de Figo, Balakov e Oceano], sem Futre nem Rui Barros. Eles estavam lá mas não jogaram o particular e o Futre disse-me ‘vamos sair à noite’, só que estava vidrado no Sevilha e segui viagem para Espanha.

E então?

Ganhámos 3-1 ao Sevilha, marquei dois golos, um deles de penálti, e fiquei com a camisola do Maradona. Por acaso, foi engraçado porque chateei o Maradona o tempo inteiro a dizer-lhe ‘pá, ’tás velho’ e ele, a rir-se, ‘tienes razón, tienes razón’. Naquela altura, o Maradona tinha sido apanhado a conduzir a 160 km/hora no centro de Sevilha e houve uma confusão dos diabos. Claro que aproveitei para picá-lo constantemente.

Como?

Virava-me para o Simeone, que era mais fresco que o Maradona, e dizia-lhe ‘esse tu amigo no puede conducir’.

E o Simeone?

Fitava-me com o olhar. Com o Maradona a ver tudo. Quando o Simeone não dizia nada, mandava-lhe mais uma acha para a fogueira ‘tu eres um cabrón, no estas defendiendo tu amigo’. Ahahahahahah. Aí, o Simeone resmungava qualquer coisa.

Imagino, o Simeone era um tratado.

O gajo era um refilão do caraças, ‘Cabrón, hijo de puta’ dizia-lhe a torto e a direito. E ele a mim. Quando acabou o jogo, o Simeone é que ia trocar de camisola comigo quando apareceu o Maradona. Ahahaha, o Simeone só abanava a cabeça como quem diz ‘este Maradona, tsss tsss’.

Era difícil jogar no Atocha?

Ninguém passava lá, nem Real Madrid nem Barça.

Tu marcaste o último golo do estádio, não foi?

Os dois últimos, com o Tenerife. E também marquei na estreia do Anoeta [atual estádio da Real Sociedad]. Empatámos 2-2 com o Real Madrid e fiz um chapéu ao Buyo. Que golaço, nem te conto.

Conta lá.

Já sabia que aquele central do Real Madrid gostava de driblar na cabeça da área e roubei-lhe a bola. Quando vi o guarda-redes a sair, piquei-lhe a bola. Granda golo, tens de ver.

 

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E esta foto aqui?

Xiiiiii, a seleção nacional. Áustria, 1-0 em Alvalade.

Isso.

Qualificação para o Euro-96, golo do Figo. Ora bem, Baía, Hélder, Paulo Madeira, eu, Rui Costa, João Pinto, João Vieira Pinto, Paulinho Santos, Figo, Sá e Paulo Sousa. E eu falhei um penálti, ahahahahah. Ainda bem que ganhámos, senão g’anda barraca.

Por falar nisso, falhaste um penálti na Arménia.

No último minuto, zero-zero lá. Atirei ao poste, primeiro jogo de qualificação para o Mundial-98. E depois perdemos na Ucrânia, no início da fase das jornadas duplas de qualificação. Na altura, esse penálti nem parecia ter importância mas acabou por ter. E muita.

Imagino a tua cabeça no final do jogo com a Arménia.

Mau, muito mau. Quem falha acaba por sofrer mais que os outros, é um desgosto incrível. Porque acabas por ser o culpado e sofres o dobro. Falhei esse com a Arménia e o da Áustria.

 

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E aqui, tu mais o Nené e o Damas, duas instituições.

O Nené era engraçado, porque começava o jogo a dizer para o seu marcador directo ‘então a família, está tudo bem?’ Ahahahahah. Começava logo a preparar o terreno, só que eu já o conhecia dos meus colegas mais velhos e dizia-lhe ‘ò Nené, isto hoje não há aqui conversa, nem chegues aqui perto’. Ahahahahah. E sabes o que fazia o Nené a essa boca? Respondia-me com ‘está tudo bem, gosto muito de te ver’. Ahahahah. De repente, o gajo já estava lá à frente a marcar um golo. Depois, vinha para o meio-campo e dizia ‘epá, desculpa lá, estavas distraído’. Quem me contava isso era o Paris, central do Estoril.

E era comum marcares o Nené?

Sim, no ano em que o Toshack inventou os três centrais.

Quem eram?

Titulares absolutos, Venâncio e eu. Depois, o terceiro elemento era o Zezinho ou o Virgílio. Nas alas, Carlos Xavier à direita e Mário Jorge à esquerda. Lembro-me de darmos 8-1 ao Braga, por exemplo. Agora este aqui [Oceano aponta para Damas], era o maior. Foi o jogador com mais estilo que vi no futebol. Além da sua qualidade dentro de campo, ele preparava-se para ir à baliza, metia o gel e depois dizia ‘elas vão ficar doidas na bancada’. Foi ele um dos que começaram a levar-me para os almoços do plantel do Sporting.

Ai não ias antes?

Era miúdo, ainda não ia. O Jordão protegia-me nos estágios e nos treinos. Fora disso, ele tinha a sua vida e eu a minha. Depois, aos poucos, comecei a integrar-me. Havia dois restaurantes muito frequentados: “A Nau”, em que almoçávamos cabeças de peixe até à hora do jantar, e “A Paz”, ali na Ajuda, onde comia o Eusébio.

Havia muito respeito pelos mais velhos, não era?

Como te digo, era o Sr. Jordão, o Sr. Damas, o Sr. Zezinho, o Sr. Manuel Fernandes. É verdade que havia coisas que eram demais, mas agora, bem vistas as coisas, já não acho que fossem demais. Venho de uma cultura africana, diferente da europeia. O africano respeita o mais velho e nós vemos isso na tratamento aos nossos avós. Em África, o velho é sabedoria. Na Europa, o velho é entrave. Como quem diz ‘temos que arranjar um sítio para os meter, porque já não há paciência para os aturar’. No meu caso, como jogador do Almada, percebi isso do respeito aos mais velhos bem cedo. Quando subi aos juniores para o seniores e marquei aquele golo da vitória em Cuba, queria entrar no balneário e estavam lá três veteranos a falar entre si. Viram-me e disseram ‘ò miúdo, não vês que estamos aqui a conversar; quando acabarmos, a gente chama-te’. E eu lá fora, ao frio. Logicamente, quando chego ao Sporting, venho dessa formação. Agora esta malta nova já não é assim e qualquer miúdo de 16, 17 ou 18 anos chega ao balneário e nem diz nada.

Imagino-te então com Danis, Porfírios, Nunos Valentes?

Tinham muito respeitinho. Não só eles, também Figo, Capucho. Nunca lhes fiz aquela do ‘miúdo, espera lá fora’, mas alertava-os para muitas complicações futuras, que já adivinham.

Crises e tal?

Por aí, sim.

Também havia o Nelson, com quem o Figo fazia uma dupla imparável na ala direita.

O Nelson era um paz de alma. Nunca vi ninguém como o Nelson, ele não tem nada de maldade naquele corpo. O Nelson é demasiado puro para existir neste mundo, nem sei como é que está hoje em dia.

Na mesma, com cabelo branco.

Ahahahahah, já quando tinha 20 anos era uma espécie de avô. Eu dizia ao Nelson ‘imagino como é que tu fazes amor com a tua mulher: metes uma porta no meio dos dois e está lá um buraquinho só para coiso’. Ahahahah. Era impressionante, um gajo organizava almoços e ele nada, tinha de ir para casa. Depois, quando o apanhávamos, ele não bebia álcool. Nem uma cerveja. Dizia logo ‘eiii não posso beber’. É dos mais puros que há, a pureza em pessoa.

No outro lado, o Paulo Torres.

‘Tás mazé maluco, o PT tem histórias do caraças. Chamava-me capitas a torto e a direito. E aquilo colou, comecei a ser o capitas para toda a gente.

E agora?

Sou o velhote. O Figo chama-me velhote, o Dimas também, o Rui Costa também.

E agrada-te?

Antes, era engraçado porque jogava; era velhote mas jogava; agora que estou a ficar mesmo velhote, deixou de ter piada’. Ahahahahah.

 

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Toma lá disto.

Olhò sr. Futre. Este é o primeiro dérbi dele em Alvalade pelo Porto. Meti-o na pista de atletismo, ahahahah. Fui mauzinho.

E o pessoal do Porto, nada?

Era em Alvalade, sabes? Travavam-se grandes guerras no meio-campo e o André era giro. O André era mauzinho, só que não reclamava. Comia e calava.

E o Futre?

Um jogador do caraças. E marcar o menino? Já não sei se foi neste jogo ou no seguinte, fiz para aí uns 50 metros sempre atrás dele e o gajo com a bola dominada à minha frente. Não o consegui apanhar e ele entrou na área para dar ao Gomes ou assim. Nunca vi ninguém assim: é que não é chutar a bola para a frente, é dominá-la em corrida. Talvez o Messi, mas nem o Messi tinha tanta velocidade como o Futre com a bola nos pés. O Futre era empolgação.

E o Chalana?

Era inteligente. O Chalana adiantava bolas uns três metros e depois ia driblar com o corpo, lixado também. Fazia assim [Oceano abana o corpo] sem tocar na bola e os defesas começavam a cair para um lado e para o outro.

Apanhaste os dois, então?

Apanhei-os e não me lembro de apanhar ninguém mais forte pela esquerda do que eles os dois.

 

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E este golo?

Isto é o Mónaco, é o meu primeiro golo da Liga dos Campeões. Livre do Lang e dou de cabeça ao primeiro poste. Na baliza, Barthez. Ganhámos 3-0, num relvado inexistente. Sinceramente, o relvado desapareceu e era para não haver jogo de todo. Só que depois lá se jogou.

E o Costinha?

Pois éééééé, o Costinha a marcar-me. O Costinha tem uma admiração por mim do caraças e tinha dois posters no quarto, um deles era o meu. Ainda hoje ele diz isso. E acho que esse golo foi um bocado fruto da sua admiração por mim, Ahahahah, devo ter-me metido com ele antes da marcação do livre e ele ficou preso à conversa. Com o Mónaco, marcou um em Alvalade e outro lá.

Um 3-2 para o Mónaco com 2-0 ao intervalo para o Sporting?

Fui substituído e saí com uma azia, porque estou a andar para o banco de suplentes e a ver os golos do Trézéguet. Nessa noite, marco o 1-0 e faço a assistência para o 2-0 do Luís Miguel.

Tu eras fera a marcar na Europa, lembro-me de um golo ao Real Madrid.

Sim, ganhámos 2-1 em casa. Ainda hoje passam esse golo meu no Irão. Meti o pé de pato e marquei um g’anda golo, mas essa eliminatória foi muito mal perdida.

Só bolas ao poste, não foi?

Lá em Madrid, acertei uma bola no poste, o Figo outra e o Sá mais uma. Cá, tivemos mais que oportunidades para seguir em frente e o Michael Laudrup faz-me um golo de cabeça, um chapéu ao Lemajic.

E aquela eliminatória com o Inter, na meia-final da Taça UEFA?

Esse Inter tinha Brehme, Matthäus, Klinsmann, Bergomi. Era do caraças, mas aqui, em Alvalade, fiz o melhor jogo de sempre e falhei dois golos.

Falhaste porquê?

Num dos falhanços, a culpa nem foi minha, o mérito é do Zenga [guarda-redes]. O outro foi culpa minha, bati mal na bola. É daquelas bolas em que tu vais encostar e, por qualquer razão, não olhaste bem para ela. Se tivesse calhado olhar só um bocadinho, metia-a onde queria. Só que.

Só mais uma eliminatória europeia, aquela de Nápoles.

Perdemos nos penáltis porque não me deixaram marcar no desempate. Era eu o marcador oficial e o treinador decidiu ‘quem decide os penáltis sou eu’. Deviam ter-me posto lá.

 

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[Oceano e Klinsmann]

 

Não me digas que este é o fatídico jogo, o do Batta.

É mesmo.

Neste jogo, também falhei um golo de cabeça que não podia ter falhado. Seria o 2-0, num lance que só eu e o Pedro Barbosa é que sabemos, num canto. Se fosse golo, ganhávamos e passávamos ao Mundial-98. Mas aqui o árbitro entalou-nos. Aqui viu-se que Portugal não tinha peso internacional, porque fomos completamente postos de fora.

Dá para descrever o balneário?

Epá, um sentimento de revolta muito grande. Quer dizer, tens o jogo controlado, eles sem hipótese nenhuma e, de repente, ficas a jogar com dez quando estás a fazer uma substituição. Continuo a achar que o árbitro dá o segundo amarelo ao Rui Costa sem saber que ele já tem o primeiro. Continuo a achar que não foi maldade do árbitro, acredito na boa-fé das pessoas. Só que, de repente, ele dá o amarelo, percebe que é o segundo e fica comprometido porque é sua obrigação mostrar-lhe o vermelho. Tipo ‘oh boy, meti-me numa alhada do caraças’.

Viste o Batta depois disso?

Chamei-o de tudo na primeira vez que o encontrei.

E ele, na boa ou…?

Nãããã, comprometido, comprometido. Ele sabe que fez merda, eu tenho a certeza que ele sabe que fez merda. E depois volto a explorar este ponto e digo-o com toda a sinceridade: ele fez merda sem querer e há muita gente que pensa que ele fez merda de propósito.

Diz-se que o Klinsmann foi ao balneário de Portugal dar uma força.

Disseram-me isso mas não vi nada, tanta era a azia. Ahahahah. Estava na azia, mas o Klinsmann era um cavalheiro.

Porquê?

Por ações dentro do campo. Dou-te um exemplo: uma vez, jogámos com a Holanda nas Antas e a dupla de centrais foi, vê lá bem tu, o Veloso e eu. E ganhámos 1-0, golo do Rui Águas. Nessa noite, a Holanda jogou com Van Basten e Gullit. O Van Basten era um nariz empinado, era mesmo aquele gajo ‘eu sou o maior’, enquanto o Gullit era um cavalheiro. Há detalhes em campo que percebemos logo quem é quem e, por isso, o Klinsmann era um gentleman. Como o Gullit. Ao contrário do Van Basten.

Dois anos antes, o Euro-96. O que é que isso representou para ti?

Divertimo-nos muito. Empatámos os campeões europeus [Dinamarca] e ganhámos sem sofrer golos à Turquia e, depois, Croácia. Nos quartos, tivemos azar naquele jogo com a República Checa.

Poborsky.

Eu e o Paulo Sousa fomos à bola, ele ganhou o ressalto e fez o chapéu à saída do Vítor. O Vítor também sai e, se calhar, não devia ter saído porque estávamos a controlar o lance. A verdade é que o Vítor também pensou que chegava à bola e esta não adiantou o suficiente. O resultado é aquela colherada. Até final, ainda tivemos hipóteses de marcar e foi a vez em que estivemos mais perto de ganhar um Europeu. À exceção de 2004, claro. Tínhamos uma senhora equipa e havia muita competência. Neste tipo de competições, Europeus e Mundiais, o insucesso de Portugal passa por não ir mais além da fase de grupos. Uma vez ultrapassado essa barreira, tudo é possível. Isso viu-se em 2010, por exemplo. A Espanha perde o primeiro jogo com a Suíça e depois é levada ao colo. Levada ao colo, não; é levada no andor. A Espanha foi levada no andor no segundo jogo da fase de grupos, com o Chile. Expulsaram um chileno e tudo. Nos oitavos, Portugal e Espanha decidido por um golo em fora-de-jogo. Se o árbitro apitasse falta, que jogo teríamos? Imagina que Portugal eliminava a Espanha, podia ser campeão do mundo.

São coisas, detalhes.

Como o Euro-2016. Passámos do insucesso para os quartos-de-final num abrir e fechar de olhos, em terceiro lugar do grupo. De repente, vamos à final. E, verdade seja dita, há uma sensação de alguma injustiça com a derrota da França. Quer dizer, o Rui Patrício faz um jogo do outro mundo e ninguém fala no Rui Patrício.

Para mim, é o melhor de Portugal.

Mas é que nem há a mínima dúvida, o Rui Patrício foi o nosso Pelé. Fez tudo, ou quase; só não fez golos. E não os fez porque não foi preciso, senão teria ido à outra área e marcava. Tenho a certeza que sim. Em 2016, o Rui Patrício confirma-se como melhor guarda-redes do mundo. Não há Neuer nem Buffon, é o Rui Patrício. E não digo por ser português ou isso, é porque vi-o fazer coisas que nunca o tinha visto fazer. Ele esteve num nível acima da média, acima do normal. Craque, estrela. O Rui Patrício faz os jogos todos, os minutos todos, defende o penálti com a Polónia no desempate e faz duas defesas na final, de ir buscar a bola lá ao canto superior, de ficar de boca aberta. Aquelas bolas eram golo.

Falas de guarda-redes e lembro-me de te ver com luvas nas Antas, para a Supertaça.

O Costinha foi expulso e lá fui à baliza. Ou era eu ou o Carlos Xavier, só que eu era o capitão e assumi.

Estavas nervoso?

Nãããã, tranquilo. Até porque os gajos do Porto começaram a rematar de longe a achar que era fácil. Ahahahah. Depois, perceberam e começaram a aproximar-se da área com cruzamentos, só que eu esbarrava num portista e gritava aaaaaaahhhh. Resulta sempre, é falta. Ahahahahahah. Acaba 2-2 e não sofro golos. Ainda hoje, quando me vê, o Pinto da Costa diz-me ‘és dos poucos guarda-redes do mundo que se pode gabar de não ter sofrido qualquer golo nas Antas’. O engraçado é que estive quase para jogar pelo Porto.

Quando?

Na era Jorge Gonçalves, quando estivemos sete meses sem receber ordenados. Havia gente a sair para todo o lado e, um dia, o Pinto da Costa reuniu-se comigo para oferecer-me contrato. Ele sabia de tudo ‘tu ganhas isto e isto, eu vou-te oferecer isto, vou dar-te dois anos de contrato e uma coisa que te garanto: ainda vais ser campeão nacional esta época’. Ahahahah. Curiosamente, o Porto foi mesmo campeão.

E tu, o que lhe disseste?

Fiz questão de ir lá acima falar pessoalmente para agradecer o convite e dizer-lhe ‘obrigado, mas não obrigado’. É daquelas coisas, tu és capitão do Sporting, tens de ficar. É que o Sporting estava a passar por um processo complicado e eu sabia que o Jorge Gonçalves estava a fazer tudo para nos pagar, só que não havia dinheiro.

Saíste duas vezes do Sporting, uma para a Real, outra para o Toulouse.

Fizemos o último jogo da época nos Açores, um amigável com o Santa Clara, e lembro-me que o presidente, o Doutor Roquette, deu uma entrevista no avião a dizer ‘o Oceano vai assinar mais um ano por tudo o que tem feito, coiso e tal’. Só que houve confusão com o Carlos Manuel e senti que estava a ser um instrumentalizado pelo próprio Sporting.

De que maneira?

O Sporting queria um treinador estrangeiro, mas ainda não tinha nenhum. Então o que é que me prometeu? Um contrato de cinco anos em que seria o adjunto do próximo treinador [Mirko Jozic].

E?

Queria jogar mais um ano, pensava lá em seguir a carreira de treinador. E depois não aceitei porque sabia que havia uma lista de dispensas e os nomes eram os de Pedro Martins, Pedro Barbosa, Paulo Alves, eram uns 11 e eu disse ‘fogo, isto é um presente envenenado: estes gajos foram companheiros durante estes anos todos e vou pôr a minha assinatura debaixo destas dispensas? não, nem pensar’ E fui de férias. Quando voltei, estava desmotivado para jogar em Portugal e apareceu o Toulouse. Sabes o que fazia se fosse hoje?

Diz.

Aceitava os cinco anos de contrato do Sporting e depois dizia que não concordava com aquela lista de dispensas. Era o que eu devia ter feito, mas, naquela altura, não queres assinar esta merda. Não são só amigos, são jogadores da seleção, que têm condições mais que suficientes para jogar no Sporting. Havia realmente jogadores que tinham que ser dispensados, mas não estes. A meio dessa época que tinha acabado, o Carlos Manuel trouxe uns 15 jogadores e ficámos com um plantel de quase 40, a maioria deles eram miúdos. Geri aquilo emocionalmente e o que devia ter feito era dizer ao presidente ‘então acabou de dizer ontem que ia assinar comigo por mais um ano e agora está a dar o dito por não dito, só porque está com o cuzinho apertado; não vou facilitar a vida, não vou aceitar isso.’

E lá em Toulouse?

Foi bom conhecer mais um país, mais um campeonato. Mudámos de treinador a meio: saiu o Guy Lacombe, o do bigode, entrou o Giresse. E o Giresse dizia-me ‘com a tua idade e com a tua experiência, podes treinar quando quiseres; se não te apetecer vir treinar, mandas-me uma mensagem e eu envio o médico a tua casa só para justificar a tua ausência; não te preocupes, só preciso de ti nos jogos.’ E aquilo até era tentador, porque, às vezes, acordava e estavam -13 graus, fosgasssss, ahahahahahah. Só que depois não estava a ser honesto. Nem com ele nem comigo. Quando já não te sentes motivado para treinar, é o fim. E então cheguei a acordo para sair, a um mês do fim do campeonato.

Mesmo assim, marcaste em quatro jornadas seguidas.

Estive bem e, embora não tenha feito a época até ao fim, fui o melhor marcador da equipa, com seis golos. Marquei ao Mónaco e ao Marselha. Foi só para convencer os gajos de que era mesmo bom, ahahahahahah.

Deu tempo para fazeres amigos por lá?

Fiquei muito amigo de um jogador que era meio francês, meio espanhol, o José Cobos. E fiquei amigo de um guarda-redes, o Teddy [Richert]. Nem imaginas o que lhe aconteceu: a meio de um Marselha-Toulouse, lá no Velódrome, o Dugarry, avançado do Marselha, foi à bola e chocou com ele.

Grave?

Grave? Nunca vi nada disso. Já vi pernas partidas, pés ao contrário, agora aquilo.

Desembucha.

O Dugarry cravou-lhe o piton na glande do pénis e aquilo rasgou-se tudo até cá abaixo, até aos testículos. Nunca vi nada assim, arrepiante. Era ver toda a gente com as mãos na cabeça, tudo em pânico e só sangue a esguichar por todo o lado. Aquilo nem era esguicho, era mesmo jorrar. Jorrava sangue por todo o lado. Primeiro no relvado, depois no balneário. O Dugarry ficou tão impressionado que até pediu para ser substituído e nós começámos a jogar outra coisa que não futebol. Cada vez que alguém tocava em alguém, era excuse-moi para ali, excuse-moi para aqui. Tudo cagado, ahahahah. Também foi o momento em que os jogadores começaram a usar aquela proteção dos gajos da esgrima, ahahahahah.

E o Teddy, como é que ficou?

Teve de ser operado durante 36 horas, voltaram a juntar-lhe tudo entre veias e tendões. Era ainda um puto novo, de 20/21 anos. Que ultrapassou o drama, com o tempo e muita psicologia, porque aquilo mexe com tudo, virilidade e tal, e chegou a ser convocado para a seleção francesa. Só lhe dizia isto ‘tu liga para mim quando deres a primeira queca’. E ele ligou. Respondi-lhe c’est magnifique. Também me ligou quando soube que ia ser pai. Acho que agora já tem dois ou três filhos.

Que susto do caraças.

Só de pensar, fico arrepiado.

Há situações beras no futebol. Conheces mais?

Iordanov, por exemplo.

Xiiiiiii, pois.

Curiosamente, sou eu o primeiro a saber que ele tinha esclerose múltipla. O doutor veio falar comigo. E, nessa altura, há um vice-presidente do Sporting que faz uma declaração estúpida sobre o fim do futebol para o Iordanov. Sabes o que fiz?

Quero saber, acompanhei esse processo de perto.

Como aquela declaração do vice saiu numa revista, recortei a página e entreguei-a ao Iordanov: ‘ò, vais pôr isto aqui no teu cacifo e um dia, depois de fazeres um grande jogo, ele vai entrar no balneário e mostras-lhe isto’. Assim foi. Ele voltou ao futebol e até marcou. Mas, claro, nesse processo, há momentos em que te vais abaixo. Aí, apoiava-o sempre. O doutor Fernando Ferreira também o ajudou. Eu dizia-lhe: ‘tiveste um acidente em que partiste a coluna, em que a tua medula começou a sair, em que qualquer um fica paraplégico ou tetraplégico, e o que é que os gajos te fizeram? Agarraram-te no meio do acidente, meteram-te na parte de trás de um carro e foram a conduzir uma hora e meia até ao hospital, contigo ao telefone com o doutor? Portanto, se tu não ficaste tetraplégico e se tu não morreste, é porque não vais morrer. O que é esta merda? Esta merda não é nada, isto não é nada e vais continuar a fazer a tua vida’. E ele, que era um mouro de trabalho, continuo a sua vida. Até hoje.

Estás a falar do Iorda e lembrei-me do Cherba.

Aí estava ainda em Espanha, na Real. Conhecia-o só de ver jogar e achava-o fabuloso. Curiosamente, estive assim [Oceano aproxima o polegar e o indicador] de jogar com ele no Sporting.

Ai sim?

O Robson queria-me no Sporting. À sua maneira, disse-me ‘tu experience, great player, attitude, we need this, i need you’.

E tu?

Já estava naquele fase torta com a Real Sociedad e não ia renovar contrato, só que depois dá-se o adeus do Robson, o acidente do Cherba. Nem joguei com o Cherba ao meu lado, nem fui treinado pelo Robson.

Mas voltaste ao Sporting.

Porque o Queiroz disse-me ‘gostava muito de te ter aqui’. E fui, claro. Agora o Robson, ele falava dos miúdos com um entusiasmo. Nunca vi um velho tão animado. A sério, notava-se que aquela equipa era a dele. Ou melhor, ele sentia que podia fazer uma coisa fora de série com aqueles miúdos nos próximos dez anos. E, afinal, não. Saiu e foi campeão no Porto. Curiosamente em Alvalade, há ironias do destino, mesmo. Mais uma vez, o Pinto da Costa foi inteligente.

Essa do Sporting cheio de miúdos lembra-me os anos 80.

Mário Jorge, Litos, Futre, Venâncio, Morato, Fernando Mendes, tão bom.

E o dia dos 7-1?

Ninguém esperava aquilo, nem o Manuel Fernandes. O Manel marcou um golo e, durante os festejos, sentiu uma coisinha ali. Queria sair e nós ‘fica mais um bocadinho’. Depois ele marcou outro golo, mais um e tal, acabou nos quatro, ahahahahah. Ao intervalo, o jogo estava completamente aberto, 1-0. Na segunda parte, saiu-nos tudo bem. Se o jogo demora mais cinco ou dez minutos, era 10-1 porque a gente não pensava as jogadas, simplesmente executava-as. Foi um dia fabuloso, inesquecível. E depois do jogo?

Isso é uma pergunta?

Ah poizeeeeee [Oceano contorce-se todo a rir]. Fomos jogar bingo e fizemos todos bingo.

Nããããããã.

Digo-te, a sério: fomos jantar, entrámos no bingo e fizemos todos bingo.

Bar aberto.

Grande grande noite, um ambiente do caraças.

O que diz Nani

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Tenho sido muito crítico da orientação editorial do jornal A Bola, mas não ignoro que na redacção deste jornal existem jornalistas de inegável competência. Muitos deles, aliás, em oposição declarada à orientação do periódico, que já foi um dos mais prestigiados títulos da imprensa portuguesa.

Vem isto a propósito da excelente entrevista que A Bola hoje dá à estampa. Uma entrevista com Nani, conduzida pelo jornalista Paulo Alves, que para o efeito se deslocou aos Estados Unidos. O ex-capitão do Sporting, hoje profissional do Orlando City, equipa de que é o melhor marcador (oito golos em 19 jogos), abre o livro e diz o que pensa sobre a realidade leonina. Falando com a autoridade de ter sido quase tudo no futebol: um dos mais brilhantes frutos da nossa formação, um dos mais prestigiados internacionais portugueses de todos os tempos, campeão europeu pelo Manchester United, campeão europeu ao nível de selecções.

Um dos maiores craques de sempre com a marca leonina, aliás detentor de dois títulos no momento: Taça de Portugal e Taça da Liga. A milhares de quilómetros de distância, ele confessa: «Só há um clube onde me sinto em casa.»

O Sporting, claro.

 

................................................................................

 

Seguem-se excertos desta entrevista.

 

«[Há um ano] fui contactado, em primeiro lugar, pelo mister Peseiro e depois pelo presidente Sousa Cintra, e avaliei a situação. Tinha outras propostas de países mais distantes que me ofereciam muito mais dinheiro. Mas pensei e concluí que não estou a precisar de dinheiro, graças a Deus... (...) Precisava de voltar a casa, de respirar os nossos ares, recuperar energias. Já estava há muito tempo fora de casa.»

«[O Sporting] tem de ser um clube mais fechado. Todos os que estão lá dentro têm de querer a mesma coisa e correr para o mesmo lado. Quando isso acontecer o Sporting voltará a ser campeão.»

«Benfica e FC Porto são muito fortes nesses momentos vitais: se tiverem de passar por cima, eles não pensam duas vezes, vão e atropelam. Seja a ganhar por 1-0 ou a golear, mas ganham. É esse tipo de experiência que o Sporting também tem de ter. E isso tem de vir de dentro. Uma das falhas dos últimos anos é que, internamente, muitas pessoas que trabalham no Sporting são o problema do Sporting...»

«Nunca direi que não ao Sporting. (...) Disse um até já porque pertenço ao Sporting, cresci lá, permitiu-me que me formasse, abriu-me as portas do estrelato, foi ali que tudo começou e devo a minha lealdade eterna ao Sporting e estarei sempre disponível para ajudar seja no que for.»

«A Academia perdeu um pouco da mística que tinha, a organização não é a mesma. Lembro-me que no meu tempo não se facilitava a vida a ninguém nem com nada. Os responsáveis eram exigentes e muito rigorosos, faziam com que os jogadores estudassem, que se aplicassem nos treinos, puxavam por nós para sabermos o que queríamos para o nosso futuro.»

«Na época passada, quando voltei ao Sporting, tinha também uma proposta do FC Porto. (...) Era um bonito clube para jogar, ia competir na Champions, quem é que não gosta de estar na Champions? Mas tinha o Sporting também e não ia deixar os adeptos do meu clube tristes e revoltados comigo por causa de fazer três ou quatro jogos na Champions. Preferi ir para o Sporting, voltar a casa. Fui lutar por uma causa positiva, ajudar o clube a reerguer-se. Essa era a minha Champions pessoal.»

«Ganhar um título em representação do nosso país [Europeu de 2016] é o ponto mais alto da carreira de qualquer jogador, eu pelo menos penso assim. Muitos andam à procura disso há anos e não conseguem, e se calhar até têm outros troféus e títulos importantes, mas não tendo troféus pela selecção não é a mesma coisa.»

«Sempre gostei de fazer golos, desde miúdo que sempre assim foi. É claro que fico satisfeito, mas sempre fui muito mais um jogador criativo: criar lances ofensivos, dar assistências para golo, desbloquear o jogo para a minha equipa.»

«São importantes as convivências com pessoas ligadas a diversos meios, a diferentes realidades e culturas. O futebol não é só o que se vê cá fora, mas é preciso saber guardar aquilo que cada país nos oferece.»

«Houve dois treinadores que me marcaram muito: Paulo Bento e Alex Ferguson. Paulo Bento foi meu treinador ainda nos juniores e aí ele teve muitas conversas comigo e nunca, nunca me facilitou a vida. Mas era, e sabia disso, o jogador preferido dele. Ele chamava-me nomes, gritava comigo, mas olhava para mim como se fosse um filho dele. (...) Muitas vezes foi ele que me levou a casa, outras vezes pagava-me o táxi, estava sempre presente.»

 

«Só Sócrates foi atacado assim»

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Excertos da longa entrevista concedida à edição de ontem do semanário Expresso pelo antigo presidente do Sporting Bruno de Carvalho. 

 

«São absolutamente absurdas as apresentações diárias que tenho de fazer há quase um ano na esquadra da residência.»

«Quando me chega a informação de que Cândida Vilar e Godinho Lopes são grandes amigos, cada vez mais acredito que em Portugal já nada me espanta.»

«Ou a procuradora Cândida Vilar tem uma agenda, coisa [em que eu não quero acreditar, porque seria demasiado grave, ou tem um distúrbio.»

«Toda a acusação sobre mim é absolutamente martelada.»

«Temo que [a 6 de Julho] seja mais uma assembleia geral anti-estatutária e ilegal.»

«Têm medo que eu me possa voltar a candidatar e ganhar.»

«Estes senhores tiraram-me a possibilidade de trabalhar.»

«Eu tenho vivido daquilo que eram as minhas poupanças e chegou a um ponto [em] que acabou.»

«Eu tenho três filhas para sustentar.»

«As pessoas não me dão emprego.»

«Se nós fôssemos para eleições eu ganhava.»

«Há um vídeo com o Varandas a rir-se no balneário [em Alcochete] após o ataque. Se houvesse uma imagem minha a rir-me, estava já preso em Guantánamo.»

«Toda a gente sabe o que diziam: que eu era uma força da natureza, uma inteligência e uma perspicácia acima da média.»

«[Sou] um ser humano que na altura em que precisou da equipa e dos adeptos do Sporting todos viraram as costas.»

«Só José Sócrates foi atacado assim. Com uma diferença: José Sócrates foi atacado massivamente, mas depois do pder. E não chegou aos calcanhares daquilo que eu sofri.»

 

Uma entrevista em que o sucessor de Godinho Lopes, fiel ao seu estilo, dispara em todas as direcções - ferindo, nomeadamente, a honorabilidade de figuras da magistratura portuguesa. E sacode a água do capote em matéria de responsabilidades: não sabia, ninguém o informava. Foi assim em Alcochete, foi assim no conflito entre jogadores e adeptos no Funchal. As culpas - como de costume - eram sempre de quem escolheu para trabalhar com ele. De Jaime Marta Soares a André Geraldes, de Frederico Varandas a Jorge Jesus.

A cabala, a cabala. O mundo inteiro conspirando contra o menino birrento.

 

No capítulo das confissões, destaco uma: Bruno de Carvalho - acusado de 98 crimes no processo relativo ao assalto a Alcochete - confessa que vive sem trabalhar. Há mais de um ano que não desenvolve qualquer actividade remunerada. 

O que diz Varandas

 

«Se o Bruno Fernandes sair, temos um plano B, preparado para atacar o mercado. Preparámo-nos, nestes últimos meses, para os vários cenários. Se o mercado quiser o Bruno Fernandes, terá de ser por um valor elevado.»

 

«Posso garantir aos sportinguistas que no mercado de Janeiro, neste mercado de Verão e em todos os mercados que irão acontecer enquanto estivermos aqui, nenhum eleito do Sporting receberá um cêntimo em nenhuma comissão, em nenhuma venda, em nenhuma compra de jogadores.»

 

«Quando se fala no Sporting, uma palavra que salta logo é formação. Não só por ser do nosso código genético, não só por ser uma opção, mas por ser uma obrigação. O Sporting, para ser sustentável, tem de apostar na formação. Não é custo: é investimento.»

 

«Estre grupo vai ser um misto de experiência e juventude: é assim que queremos trabalhar. Vai ser um grupo mais competitivo, mais homogéneo, onde as segundas linhas se aproximarão mais das primeiras linhas. Isto é que nos vai dar garantia de competitividade.»

 

«Não há uma única pessoa que vá integrar este clube que não tenha o sonho de ser campeão, mas precisamos de muita racionalidade e muita inteligência para chegar lá acima e sermos campeões.»

 

Frederico Varandas, ontem, em entrevista à Sporting TV

O que diz Gelson Martins

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«Admito regressar ao Sporting.»

 

«Tentarei ajudar sempre que puder. Continuo a ser sócio do Sporting.»

 

«Nunca iria para o Benfica por uma questão de respeito ao Sporting.»

 

«Todos tivemos medo em Alcochete. Não foi uma situação fácil. Muitos podem falar, mas só quem esteve lá dentro sabe que foi muito mau.»

 

«Não iria prejudicar o Sporting pedindo indemnização ao clube que me formou.»

 

 

Excertos da entrevista de Gelson Martins à edição de hoje do Record, transcrita no blogue Tu Vais Vencer.

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