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És a nossa Fé!

Oceano, em entrevista.

Cruzei-me com esta deliciosa entrevista que Oceano deu a Rui Miguel Tovar n’O Observador, publicada a 10 Fevereiro 2018 e, não resisti, copiei-a para a partilhar convosco. Peço desculpa pela extensão da mesma.

 

A entrevista, texto d’O Observador :

A entrevista entrelaça os pontos de referência Tróia, Cuba, Monaco, San Sebastian, Barcelona e Erevan com nomes próprios de elevada distinção como Maradona, Klinsmann, Gullit, Figo, Futre e Batta

 

Imagine-se perto do Natal 2017, ali no dia 20 Dezembro. Agora imagine-se a comer um boca negra no Rabo d’Pêxe, ali no Saldanha. E agora imagine-se a falar de bola com o Oceano, ali na mesa encostada à janela. Oceano, o maior. Pacífico, sempre. Entre a história engatilhada na ponta da língua e as gargalhadas espontâneas, há um mar de histórias. EI-lo, o capitão do Sporting, o terceiro estrangeiro de sempre da Real Sociedad, o melhor marcador do Toulouse, o adjunto de Queiroz no Irão.

oceano-neno[1].jpg

 

Abro as hostilidades com esta foto.

Ahahahahahahah. Que maravilha. Eu ali em baixo e o Neno de pé. Conheço-o desde os 12/13 anos. Ele jogava no Santo Antoniense e eu no Almada, era uma brincadeira pegada.

Isto era o quê?

Um torneio em Tróia, com a primeira seleção de iniciados da Associação de Futebol de Setúbal. O que é engraçado é que ele era um caga-tacos e eu também era um caga-tacos, éramos os dois mais pequeninos do grupo.

A sério?

Se calhar foi por isso que ficámos juntos desde então, naquela coisa da proteção, sabes?

Estou a ver.

O Neno sempre foi um palhaço, já desde esta idade. Ele dizia que eu era mais palhaço naquele naquele tempo, mas não, ele é que era. Sempre foi. E o grupo estava sempre à nossa volta, nós é que animávamos aquilo tudo. Ahahahah. Aquilo para nós era a Walt Disney. O guarda-redes mais alto era o Castelão ou Casarão, um bicho do caraças. Claro que o Neno era suplente, ahahahah. Escreve isso, escreve isso, pica o gajo. Ahahahahah.

Ele falou-me num penálti em Alvalade?

Estávamos a perder por 1-0 e demos a volta para 3-1. Faço dois golos, um deles de penálti. Antes da marcação, o Neno vem ter comigo e diz que me conhece de Tróia. Depois, arrisca: ‘tu, com esse pé de pato, vais marcar a bola aqui para este lado, não vais mudar, pois não?’

E tu?

‘Se já me conheces, sabes que não vou mudar’. Quando cheguei ao ponto do penálti, não mudei mesmo. Só que o Neno foi para o outro lado, ahahahahah. A meio caminho, já ele me dizia ‘sacana’ O Neno é giro, tenho uma grande relação com ele desde esses tempos de caga-tacos.

Jogavas no Almada, isso era que divisão?

Os seniores jogavam na 2.ª, depois foram para a 3.ª. Eu ainda estava nos juvenis, depois juniores. Aqui, chegámos a jogar na 1.ª divisão.

O quê, com Benfica, Sporting, Estoril, Belenenses?

Todos esses mais o Vitória. Foooogo, o Vitória, lá em Setúbal, tinha uma belíssima equipa. Havia um gajo fabuloso chamado Fernando Cruz. Era aquele ponta-de-lança que não existia em Portugal, todos o queriam.

Eras tu e mais quem no Almada?

Dos que jogaram na 1.ª divisão, eu, o Galo e o Horácio.

Imagino a vossa impaciência em chegar aos seniores?

Ahahahahah, a piada é essa.

Então?

Não queríamos nada disso.

Baaaah.

Batia-se tanto nos jogos do Almada da 3.ª divisão que nem queríamos chegar aos seniores. Só queríamos continuar nos juniores.

Ahahahahah.

Só que o campeonato de juniores acabou mais cedo que o esperado e o treinador dos seniores chamou-nos logo para a equipa no último mês e meio de competição, na 3.ª divisão.

Começa aí a tua aventura.

A minha e a do Galo mais a do Horácio. Subimos os três ao mesmo tempo e fomos logo titulares.

Ainda te lembras disso?

Tenho cada história desses tempos, há coisas que um gajo não esquece. No meu primeiro jogo, fomos jogar a Cuba, no Alentejo. Estavam 40-e-tal graus e fiz o golo da vitória.

É beeeem.

O remate é do Horácio, a bola bate na barra e até entra, só que o árbitro não o valida. Como estava a seguir a jogada, entrei em voo para dentro da baliza, foi bola, foi tudo. Agora sim, é golo sem margem para dúvida, ahahahah. Levanto-me todo contente, para o abraço com o Horácio, e um central deles vem direito a mim.

E?

Dá-me um pontapé nos testículos. Apaguei. Apaguei mesmo. E apaguei mal. Só acordei no balneário cheio de gelo aqui [Oceano afasta a cadeira e aponta para baixo], com o massagista a trabalhar esta zona. Ahahahahah.

Ahahahahah.

Ri-te ri-te, se soubesses o que sofri. Tive de fazer uma porrada de exames, porque o massagista estava preocupado. Dizia que os testículos tinham ficado assim e tal, dizia que eu até podia ficar ??. Agora imagina a minha reação, não é? Ouvir aquilo tudo e ainda era um miúdo.

E o agressor? E o árbitro?

Nada, nada. O árbitro disse que não viu nada porque “estava a olhar para o meio-campo”.

E tu, depois?

Só queria sair dali.

De onde?

Da 3.ª divisão. Disse a mim mesmo “não quero jogar mais a este nível”. Por isso, quando apareceu o Odivelas, da 2.ª divisão, nem pensei duas vezes. Além disso, ofereciam-me quatro vezes mais que o Almada. Tinha de dar esse passo.

Conhecias alguém no Odivelas?

Os treinadores eram o Lourenço e o Carvalho, duas figuras do Sporting e jogadores de Portugal no Mundial-66. Eram pessoas que já conhecia de nome e isso dava-te necessariamente outra força. O Odivelas foi melhor para mim, claro. Se bem que ir todos os dias de Almada para Odivelas era um martírio.

Viagens e isso?

Tudo. Ia de autocarro Odivelas-Entrecampos e, depois, apanhava o metro para o outro lado de Lisboa. Claro, era atacado, assaltado, roubado e sei lá o que mais. Ahahahah, que histórias. No metro, em Entrecampos, estava tipo sardinha em lata, nem metia os pés no chão. São experiências engraçadas, fortalecem-te o espírito.

E para voltar a Almada?

Uyyyy, nem me digas nada, ahahahah. Havia barco, mas só até a uma determinada hora. Se falhasse o último, já só apannhava o das seis da manhã.

E como é que fazias?

Ficava com o Mafra.

Mafra?

O nosso capitão de equipa. Um bandido de primeira e muito boa gente. Pagava mais do bolso dele do que o próprio Odivelas.

A sério?

Ya, o gajo era sensacional. Entrava no balneário e dizia-nos ‘o clube oferece mil escudos, eu dou 1200 a cada um se a gente ganhar este jogo’.

Craque, estou a ver.

Ele tinha aqueles cartões da lotaria dos bairros de Lisboa que se chamavam mafras e a alcunha ficou. O Mafra ganhava dinheiro com isso e, na altura, tinha três Mercedes, um deles era o SL descapotável.

Isso devia ser uma novidade.

Era uma coisa do outro mundo. De vez em quando, convidava-me ‘miúdo, queres ir jantar?’.

E tu?

‘Não, sr. Mafra, a minha mãe disse que eu tinha horas para estar em casa.’

E o Mafra?

‘Não, não, miúdo, anda lá jantar e depois deixo-te em casa’.

E?

Chegava a casa às cinco/seis da manhã. Um dia, disse-lhe ‘oh sr. Mafra, gosto muito de si, mas não dá para continuar’. É que aquilo era quase todos os dias, ahahahahah.

O que feito dele?

Está bem, tem um stand de automóveis no outro lado do rio e ainda me dou com ele. O Mafra desenrasca-se, tem olho para o negócio. Ainda nem se falava de Valverde, na Verdizela, e ele já tinha comprado duas vivendas. Depois vendeu-as e comprou outra. É assim, o Mafra. Grande, grande homem.

O campo do Odivelas era pelado ou…?

Pelado, pelado à séria. Ahahahah. Na 2.ª divisão, zona sul, só Marítimo, Belenenses, Farense e mais um ou outro é que tinham relvado. De resto, pelados. E o nosso era cá um quintal, ahahahah. Que tempos. Tínhamos uma jogada ensaiada, nos pontapés de baliza: o guarda-redes chutava lá para a frente, nós íamos em bando para o meio-campo contrário e a ideia era passar a bola ao Sebastião, que tinha cá um pontapé. Ainda fizemos um golinho ou outro assim.

Também só jogaste um ano no Odivelas, não foi?

Fui logo para o Nacional.

Porquê a Madeira?

O treinador era o Pedro Gomes e ele viu-me a jogar pelo Odivelas. Quis contratar-me e fui.

Que tal?

Vê bem, às vezes era extremo-esquerdo.

Maravilha.

Fisicamente, estava mais forte que nunca. No primeiro estágio de pré-época do Nacional, o Pedro Gomes puxou tanto por nós que lhe cheguei a dizer ‘mister, com estes treinos posso estar sem fazer nada nos próximos dez anos’.

Era duro?

Foi o mais duro que apanhei. Aquilo era uma coisa. Nós tínhamos crosses nos Barreiros e havia um exercício do caraças.

Então?

Estávamos todos a correr na pista de tartan à volta do relvado dos Barreiros e ele, de repente, dizia Oceano.

Sim?

Tinha de correr mais depressa que todos os outros e dar-lhes uma volta de avanço.

Quêêêê?

Era o melhor gajo a fazer aquilo, só que demorava três voltas a apanhá-los.

Só três? Porra.

Pois, eles continuavam a correr, a puxar uns pelos outros, e eu, sozinho, tinha de apanhá-los. Era tramado. Agora imagina a quantidade de voltas que dávamos àquela pista.

Não imagino, impossível, ahahahah.

Os gajos do União e do Marítimo treinavam nos Barreiros, como nós. Aquilo era uma confusão do caraças, eles chegavam depois e saíam antes. Às vezes, iam para a bancada e gozavam connosco. Ahahahah. Mas digo-te, os primeiros jogos até correram bem e houve um que acabou 8-1 para nós [ao Esperança de Lagos]. Nesse dia, choveu até dizer chega. Os gajos do União e do Marítimo, os que gozavam connosco, é que ficaram impressionados. ‘Fogo, já viram como vocês voam?”. E realmente voávamos, só que depois tivemos uma quebra.

Ya, é sempre assim.

Espalhámo-nos ao comprido a partir de Janeiro. Foi aí que o Pedro Gomes decidiu jogar.

Quando dizes jogar, estás a dizer jogar mesmo?

Ya, eu joguei com o Pedro Gomes. A primeira vez que ele decide entrar no 11 é em Lagos. Havia lá no Esperança um defesa-esquerdo muita velho, com 39 ou 40 anos, mas, pá, o Pedro Gomes já tinha 46 ou 47 ou 48. Epá, vamos para Lagos, dentro da cabina, e começamos a ouvir a equipa: ‘número 1 não sei quem, número 2 disto, número 3 disto, número 4 nanana, número 5 não sei o quê, número 6 Oceano, número 7 eu, número 8 não sei quê”. Aquele ‘eu’ passou despercebido, como se ele estivesse a dizer o Miguel.

E depois?

Ele acaba de dizer o onze e nós todos ‘eu’? Ahahahahah. Isto é mesmo só rir.

E o Pedro Gomes?

‘Sim, isto pode ser uma surpresa para vocês, mas estou inscrito como jogador e hoje vou jogar. Considerem-me como um companheiro vosso mais velho.’

Que tal correu?

Perdemos, 2-1. Só que há coisas engraçadas para contar. Quer dizer, não são bonitas, mas são engraçadas.

É contar e pronto.

Havia gajos da equipa que não gostavam dele e avisaram-no. ‘Ò mister, a gente enerva-se lá dentro e chamamos nomes’.

E o Pedro Gomes?

‘Vocês podem mandar-me para todo o lado, podem chamar-me cabeçudo e isso tudo.’

Imagino a farra.

O que é que os gajos fizeram? Chamaram-lhe tudo. Ainda por cima, o primeiro golo do Esperança foi culpa dele, ahahahah.

E de resto, o jogo dele?

Queria marcar tudo; cantos, livres, lançamentos. Ahahahah. Na jornada seguinte, jogámos em casa e aí levei uma entrada duríssima na canela. Levei para aí uns 15 pontos na perna e a sorte foi que o piton parou no osso, senão partia-me a perna. Coseram-me aquilo e fiquei de molho. Só que era o campeonato, não é?

Non-stop.

Pois. No jogo da semana seguinte, íamos ao Restelo e eles insistiram para que eu jogasse. Era um jogo importante para a subida e tal.

E tu?

Fui a jogo, com reticências. O médico disse-me ‘vais jogar, mas, se alguém te tocar, vai haver sangue como nunca’. A uns 15 minutos do fim, há um gajo que me entra à perna, toca na ferida e era sangue comò caraças. Tive de sair e quem é que entra?

Nããããão.

Pedro Gomes, ahahahah. Com o número 16. Então, o Jimmy Melia, treinador inglês do Belenenses, diz isto no final do jogo. ‘O número 16 mais parecia um camião do leite.’

Ai é aí que começa a expressão, não fazia a mínima ideia.

Estás a ver, o Pedro Gomes já fortinho, com 40-e-muitos-anos. Foi o seu último jogo da carreira. Ele que ganhou a Taça das Taças pelo Sporting em 1964 e estava ali a jogar comigo em 1984. Ahahahah. Quando digo que joguei com o Pedro Gomes, as pessoas todas riem-se e dizem ‘és um mentiroso do caraças’. Nada disso e marco sempre uma aposta, ahahahah.

Grande história. E o Nacional, sobe nesse ano?

Ficámos em quarto ou assim e não subimos.

Como é que aparece o Sporting nessa história?

O Pedro Gomes disse-me ‘epá, deixa o Sr. Rocha ganhar as eleições e ir buscar o John Toshack; provavelmente, vou para adjunto e gostava que fosses para o Sporting’.

E tu?

Pensei ‘agora vou para o Sporting ’tá bem ’tá’.

E não é que foste?

Há toda uma história.

Booooa.

O Nacional estava há três meses sem pagar o ordenado e insistiam na minha renovação. Só lhes disse ‘okay, só renovo com a condição de que paguem tudo o que me devem por inteiro’. E os gajos pagaram. Beeem, nessa altura, senti-me multimilionário. Quer dizer, não era nada de especial, o salário em si, mas três de uma vez era uma sensação libertadora. Ainda por cima, vivia sozinho e não tinha vícios nenhuns. Não fumava nem bebia: o dinheiro chegava e sobrava. Agora, havia jogadores titulares que não era assim. O que fazíamos, então? Comíamos no restaurante do nosso apart-hotel e dizíamos ‘mandem a conta para o Nacional’. E também havia um restaurante no centro do Funchal em que fazíamos o mesmo. O que interessa é que a situação se resolveu para o meu lado e aquando da minha renovação, inclui uma cláusula no contrato a advertir os gajos do Nacional que tinham de me deixar sair se houvesse interesse de um grande,

Veio o Sporting.

Ainda começo a época com o Rui Mâncio e, às tantas, recebo um telefonema do Pedro Gomes “É pá, o Toshack queria que viesses aqui este fim-de-semana para treinares com ele à sexta, sábado e domingo. Já falei com a direção do Nacional’.

Foste.

Disse que não.

Hein?

Já viste a minha idade? Só tinha 21 anos. E já tinha tido uma experiência um bocadinho traumatizante no Sporting, aos 16.

Porquê?

Cheguei lá e estavam cinquenta mil miúdos. Cinquenta mil, não estou a exagerar. Quando chegou a minha vez de ir jogar, só foi um minuto ou dois. Logicamente, não dá para ver nada, fui-me embora e disse a mim mesmo ‘nunca mais vou passar por isto; se o Sporting quiser, que me venha buscar, agora à experiência é que não’.

Mai’nada. E agora, como se resolve o impasse?

A minha mãe falou comigo.

Olha que bem.

‘Filho, não perdes nada, porque sabes batalhar como ninguém e ainda tens contrato com o Nacional’. Ah é verdade, faltava dizer que fui jogar para o Nacional em vez de ir para a universidade.

Ias seguir o quê?

Engenharia. Quando era mais miúdo, nos tempos de Almada e Odivelas, tinha de ter boas notas para jogar futebol. Era a condição dos meus pais, senão os gajos tiravam-me do futebol. Tiravam mesmo. E mesmo nesta época do Nacional, em que já sou maior de idade e tenho um ordenado à minha disposição, os meus pais insistiam; ‘vais para lá, tudo bem, é um ano à experiência; se não correr bem, entras na universidade’. A minha mãe estava sempre a dizer-me ‘não te esqueças da universidade, está sempre pendente’.

Engraçado. Então e o Sporting?

Pronto é isso, a minha mãe disse-me ‘ò filho, se tens contrato com o Nacional, qual é a pior coisa que te pode acontecer no Sporting? É não ficares? Não, o pior é ficares a pensar no que teria acontecido se não fosses’. Pronto, liguei ao Pedro Gomes e lá fui fazer os treinos. No primeiro de todos, dei uma porrada no Jordão ahahahahah e eu só dizia ‘desculpe Sr. Jordão, desculpe”. Hoje, o Jordão é o padrinho da minha filha mais velha. Ahahahah. Ele protegeu-me no Sporting e disse-lhe “sr. Jordão, ainda não sou casado nem tenho filhos, mas você vai ser o padrinho da minha filha’.

E foi mesmo.

Uns anos depois, nasceu a Carina e o Jordão foi o padrinho, ahahahah.

Que espetáculo.

Bom, aquele fim-de-semana no Sporting passou e o Toshack disse-me ‘epá, já não vais mais para a Madeira’. Assinei três anos pelo Sporting.

Um contrato melhor ainda?

Na altura, ganhava 65 ou 69 contos por mês no Nacional e o Sporting ofereceu-me 100 contos no primeiro ano, 150 no segundo e 200 no terceiro.

Era bom?

Cem contos era dinheeeeeeeiro.

Vivias onde?

Miraflores. Quem levava aos treinos era o Gabriel, que tinha um dois cavalos que eu adorava. Depois passei a viver na Quinta do Lambert, perto do estádio. Numa terceira fase, o Rosário, que é hoje adjunto do Fernando Santos na seleção, sugeriu-me ir viver para Caneças, um sítio tranquilo e perto de Lisboa. Foi quando comprei casa, por dois mil e duzentos contos.

Entraste logo na equipa do Sporting?

Fui suplente no primeiro e depois fiquei a titular. Fiz uns 29 jogos nessa época.

É a época europeia do Auxerre e Dínamo Minsk?

Exacto. Com o Auxerre, fui central e marquei o meu primeiro golo pelo Sporting. Ganhámos cá 2-0 e estávamos a perder lá por 2-0. No prolongamento, faço o 2-1.

Como?

É um dos maiores golos da minha vida, porque estávamos ali no prolongamento a aguentar o 2-0 e o Toshack diz-me para subir na altura de um canto. Quando chego à área, a bola vem ter comigo e atiro de primeira. Foi um g’anda golo pá. Ainda me lembro da página d’A Bola: ‘Oceano congelou os franceses’.

Com o Dínamo Minsk, a mesma coisa: 2-0 em Alvalade, 2-0 em Minsk.

Perdemos nos penáltis, nem me fales. Estava um gelo, -14 graus. E tivemos um azar tremendo com a lesão do Lito. Ele entrou a meio da segunda parte e, na primeira jogada, sofreu uma rotura muscular. Jogámos com dez e foi aguentar até chegar aos penáltis. Aí deu para o outro lado.

Quem era o guarda-redes do Sporting, Damas?

Damas, o jovem Damas.

Jovem?

Só tinha 42 anos. Se apanhei o Pedro Gomes, não ia estranhar o Damas ahahahahah.

Que balneário esse, com Jordão, Manuel Fernandes.

Oliveira, Jordão e Manuel Fernandes, que trio de luxo. Só que o Toshack começou a encostar o Oliveira. Mas havia mais: Jaime Pacheco, Sousa, Gabriel.

Xiiii, o Gabriel. É agora taxista no Porto.

É? Nem sabia.

Já o apanhei uma vez, da Foz até à Campanhã.

Epá tenho que estar com ele, foi a pessoa com quem me dei melhor.

Pois, o homem do dois cavalos.

Ahahahah. Vivíamos no mesmo prédio. Não é Gabriel, é sr. Gabriel. Eu só perdia a vergonha durante o treino, mas depois também dizia ‘epá, isto foi demais, tem que me desculpar Sr. Jordão’ ahahahahaha.

Falaste no Toshack, era porreiro?

O Toshack adorava-me. Foi o treinador com quem tive mais discussões mas era o gajo de quem mais gostava. Tive mesmo discussões de nos agarrarmos um ao outro, era para bater. Lembro-me de um episódio no meu segundo ano da Real Sociedad em que cheguei a acordo com o Barcelona.

Uyyyyyyyy.

Só que a Real não me deixou sair. Primeiro porque me faltava um ano de contrato, depois abriram a boca e pediram o preço do Pelé ao Barcelona.

E o Barcelona?

O presidente Núñez disse-me ‘ò Oceano, gostava muito que viesses para aqui, mas não posso pagar este valor por um jogador com 31 anos; se conseguires convencê-los a baixar esse valor’.

Barça de Cruijff, certo?

Reuni-me com ele e tudo.

Com o Cruijff?

Foi o Bakero, que era basco, ex-Real Sociedad e capitão do Barça. Ele disse-me ‘ficas aqui depois do jogo porque o Cruijff vem falar contigo’. Assim foi, Cruijff e Núñez no Hotel Princesa Sofia, mesmo ao lado do Camp Nou, no dia em que o Barça foi campeão espanhol. Eles hospederam-me numa suite e tivemos uma reunião de um minuto.

Só?

O acordo era fácil. Quer dizer, limitei-me a dizer sim ao Barça. Fácil. E eles do Barça estavam animados com a perspetiva de negócio porque havia um histórico de boas relações com a Real Sociedad.

E porque é que não foste para o Barça?

Apanhei a Real Sociedad numa altura complicada. Tínhamos acabado a época em 13.º lugar, fora da UEFA, e o Toshack disse-me ‘não posso vender o meu melhor ativo, a não ser por muito dinheiro’, porque os sócios isto, o clube aquilo.

E a tua reação?

‘És um cabrão, hijo de puta’. O engraçado era que eu insultava-o em castelhano e ele insultava-me em inglês. Não brinques, estivemos mesmo em vias de facto. Eu puxei-lhe a camisola, ele a minha e embrulhámo-nos à grande. Eu só desabafava ‘para o ano não tens jogador; vou lesionar-me no primeiro jogo da época e não tens mais jogador’. Ele conhecia-me bem e sabia que não era disso.

Bem, grande mágoa, não?

Claro, era a minha última oportunidade de ir para o Barça. Mas, tudo bem, depois voltei para o Sporting.

E o Toshack?

Uns anos mais tarde, em 1999, voltou ao Real Madrid. Ainda pensei ‘queres ver que me leva para o Real Madrid’, mas nada. Ahahahahahaha. Só que o gajo picava-me.

Então?

Contratou o Géremi, lembras-te?

O dos Camarões?

Esse. E disse à imprensa que tinha ido buscá-lo porque fazia-o lembrar o Oceano.

No Sporting, o Toshack fez a época toda?

Saiu a quatro jornadas do fim e ficou o adjunto Pedro Gomes à frente da equipa.

Olha que bem, o reencontro.

Ahahahahah. Avisei os jogadores: ‘malta, hoje jantem às sete e trinta, façam um passeio digestivo e deitem-se às dez da noite para acordarem fresquinhos porque amanhã vocês vão treinar como nunca treinaram na vida’. E eles sem me ligar nenhuma, tipo ‘faltam quatro jogos para acabar o campeonato e era agora que íamos ganhar forma?” E eu insisti: “epá, vocês não conhecem o mister como eu’.

E que tal o dia seguinte?

Havia uns dois mil sócios a ver o treino e o Pedro Gomes até meteu corridas a subir as bancadas. E as bancadas em Alvalade não eram fáceis.

Pois não.

Aquilo era jogadores a vomitar, ahahahahah, e os sócios na bancada a dar mais alfinetadas. Já sabes como é: ‘é isso mesmo Pedro Gomes, tudo a trabalhar’. Quando chegámos ao balneário, eu só dizia ‘bem avisei’ aos gajos. O que aquela malta trabalhou nas últimas semanas, ahahahahah.

Depois chegou o Manuel José, não foi?

Ya, roubámos o campeonato ao Benfica em vésperas de Saltillo.

Associas as duas, porquê?

Estreei-me na seleção portuguesa em 1985, com a Roménia, em Alvalade. Perdemos 3-2. Depois deixei de ir, quem ia era o meu suplente no Sporting. Quando o Carlos Manuel marca aquele golo em Estugarda, o Torres convida-me para almoçar e diz-me “tu és o jogador a quem eu cometi a maior injustiça; a partir de agora, se continuares a ser titular no Sporting, és tu e mais dez no Campeonato do Mundo’. Curiosamente, não só fui titular os jogos todos até ao final da época como ganhámos os jogos quase todos, nomeadamente esse da Luz, em que demos o campeonato ao Porto, e acabei por não ir ao México. Foi o Venâncio, que teve de ser operado ao joelho e saltou da lista. Aí, ele disse ‘há males que vêm por bem, porque tu és o gajo que mais merece estar no Mundial’. Sabes quem é que ele convocou?

Nem ideia

O Sobrinho, do Belenenses. E o Lito, aquele do Sporting, sabes? A gente chamava-o de Doutor porque o Lito andava sempre pipi e tinha uma Volkswagem Scirocco, que era uma granda pinta, uma máquina do caraças. Então, o Doutor passa por mim enquanto estou a falar com os jornalistas e diz-me ao ouvido para todos ouvirem: “tens que dizer que isto é a maior vergonha que eu já vi’. Realmente foi uma tristeza muito grande, porque estava completamente convencido de que ia ao Mundial. Titular nos jogos todos do Sporting e depois aquela conversa com o selecionador.

Mas e o Torres, nada?

Só falámos no ano seguinte, quando ele já estava no Estrela.

Amadora?

Ele foi de Saltillo para o Estrela. Nós fomos lá ganhar e encontrei-o na sala de conferência de imprensa. Ele viu-me e ‘aqui está o meu jogador preferido’. Chamei-o à parte e disse-lhe tudo o que havia para dizer, ahahahahah. Desabafei um bocadinho, coitado do Torres, ouviu das boas.

Mundial nada, Barça nada. A vida, às vezes, tem destas coisas.

Claro que sim, temos de olhar em frente e seguir o nosso caminho. Agora falaste do Barça e lembrei-me daquela eliminatória europeia que perdemos em Alvalade: 1-0 lá, 2-1 cá.

Golo do Roberto?

Lembro-me bem desse golo, o 2-1. E lembro-me de ter saído do estádio ao mesmo tempo que os adeptos.

Então?

Cheguei ao balneário e, taaaau, saí do estádio. Foi um jogo pá, podíamos ter feito o 3-0. O Fernando Mendes fez um jogo incrível. Era o dia de anos dele ou véspera, já nem sei. Só sei que ele fez as assistências para os dois golos e ainda teve duas ou três hipóteses para marcar ou dar a marcar. E nada.

Grande noite.

Grande noite foi aquela do 7-0 ao Timisoara. Eles tinham eliminado o Atlético Madrid do Futre na eliminatória anterior e eu, como capitão, fui falar com o presidente Sousa Cintra. ‘Você tem de dar um prémio do caraças’. E ofereceu.

Quanto?

Não sei quanto, só sei que era um balúrdio. O Sousa Cintra ficou com uma azia, ahahahahahah. Outra história de prémios, ainda na era João Rocha. Fomos jogar com o Colónia, para os quartos-de-final da Taça UEFA, e o João Rocha fez uma aposta com os jogadores. ‘Se vocês ganharem, dou dois mil contos de prémio; se vocês perderem, cada um dá-me cento e cinquenta contos’. Ora bem, eu ganhava precisamente 150 contos. Se perdêssemos, lá ia o meu ordenado. E ele ‘ò miúdo, aguenta’. E fomos eliminados, ahahahahah. Era o Colónia, uma equipa do caraças com Schumacher, Littbarski, Bein, Allofs. Jogar na Europa era um sonho de infância.

Vias muito na televisão?

Como vivia em Almada, o meu mundo dos jogos ao vivo era basicamente Almada. Lembro-me de um Almada-Porto para a Taça de Portugal, por exemplo. E lembro-me de ir uma vez à Luz e outra a Alvalade. Agora, Europa, Europa, só na televisão. Lembro-me de um Torpedo Moscovo-Benfica em que o Vítor Baptista apareceu em mangas de camisa no estágio e nem seguiu com a equipa. Que se qualificou para a fase seguinte, com um penálti do Bento, no desempate. Seguia assim, estás a ver?

Pois, claro. Como o comum dos mortais.

Exactamente. Via os jogos com o meu pai.

De que clube era ele?

Porto. Ele até jogou numa equipa em Cabo Verde chamada Derby, que era a filial do Porto e jogava de azul e branco.

Lembro-me de ti em Alvalade, sobretudo da tua evolução. No início, eras assobiado.

Verdade, isso só deu ainda mais motivação para me superar.

E superaste-te.

Tenho de agradecer ao Roger Spry. Ele ficava sempre comigo. Os outros iam-se todos embora e nós treinávamos exercícios específicos. O gajo dizia “tu precisas de ser mais forte, precisas de ter mais elasticidade, precisas de ter mais impulsão e precisas de trabalhar a tua força para a saberes direcionar’. Com essa aprendizagem, melhorei muito. De repente, comecei a ganhar bolas pelo ar. Quer dizer, tenho 1,75 metros de altura, como o João Vieira Pinto, e comecei a marcar os mais altos das outras equipas, como o Magnusson do Benfica. E ganhava esses lances. O Roger preparou-me para melhorar a capacidade de reação, o tempo de salto e, sobretudo, a antecipação dos lances. Fiquei muito melhor jogador, sem dúvida. Depois, em Espanha, já fui recebido como uma vedeta e não podia desiludi-los.

Tu e o Carlos Xavier?

Isso, só que o Carlos faz-me uma rotura de ligamentos cruzados no primeiro jogo e eu fico sozinho, num sítio onde os estrangeiros não eram bem vistos. Ao lado, em Bilbau, tinhas o Athletic, que não aceita estrangeiros nem espanhóis, à exceção de bascos. Ali, em San Sebastian, tinhas a Real Sociedad que tinha aberto as portas aos estrangeiros dois anos antes de nós, com aquele avançado irlandês, o Aldridge. Quando o Carlos se lesiona, o meu pensamento é o de trabalhar mais e jogar mais que todos aqueles gajos juntos.

E?

Missão cumprida, ahahahah. Marquei sete golos na primeira época.

Acabaram em que posição?

Quarto ou quinto lugar. À quinta jornada, estávamos em último com zero pontos e zero golos marcados. À sexta jornada, jogámos com o Sevilha de Maradona e Simeone.

Maravilha.

Esse jogo tem uma história engraçada, porque fui à seleção nessa semana. Acho que jogámos com a Bulgária, em França [2-1 com golos de Figo, Balakov e Oceano], sem Futre nem Rui Barros. Eles estavam lá mas não jogaram o particular e o Futre disse-me ‘vamos sair à noite’, só que estava vidrado no Sevilha e segui viagem para Espanha.

E então?

Ganhámos 3-1 ao Sevilha, marquei dois golos, um deles de penálti, e fiquei com a camisola do Maradona. Por acaso, foi engraçado porque chateei o Maradona o tempo inteiro a dizer-lhe ‘pá, ’tás velho’ e ele, a rir-se, ‘tienes razón, tienes razón’. Naquela altura, o Maradona tinha sido apanhado a conduzir a 160 km/hora no centro de Sevilha e houve uma confusão dos diabos. Claro que aproveitei para picá-lo constantemente.

Como?

Virava-me para o Simeone, que era mais fresco que o Maradona, e dizia-lhe ‘esse tu amigo no puede conducir’.

E o Simeone?

Fitava-me com o olhar. Com o Maradona a ver tudo. Quando o Simeone não dizia nada, mandava-lhe mais uma acha para a fogueira ‘tu eres um cabrón, no estas defendiendo tu amigo’. Ahahahahahah. Aí, o Simeone resmungava qualquer coisa.

Imagino, o Simeone era um tratado.

O gajo era um refilão do caraças, ‘Cabrón, hijo de puta’ dizia-lhe a torto e a direito. E ele a mim. Quando acabou o jogo, o Simeone é que ia trocar de camisola comigo quando apareceu o Maradona. Ahahaha, o Simeone só abanava a cabeça como quem diz ‘este Maradona, tsss tsss’.

Era difícil jogar no Atocha?

Ninguém passava lá, nem Real Madrid nem Barça.

Tu marcaste o último golo do estádio, não foi?

Os dois últimos, com o Tenerife. E também marquei na estreia do Anoeta [atual estádio da Real Sociedad]. Empatámos 2-2 com o Real Madrid e fiz um chapéu ao Buyo. Que golaço, nem te conto.

Conta lá.

Já sabia que aquele central do Real Madrid gostava de driblar na cabeça da área e roubei-lhe a bola. Quando vi o guarda-redes a sair, piquei-lhe a bola. Granda golo, tens de ver.

 

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E esta foto aqui?

Xiiiiii, a seleção nacional. Áustria, 1-0 em Alvalade.

Isso.

Qualificação para o Euro-96, golo do Figo. Ora bem, Baía, Hélder, Paulo Madeira, eu, Rui Costa, João Pinto, João Vieira Pinto, Paulinho Santos, Figo, Sá e Paulo Sousa. E eu falhei um penálti, ahahahahah. Ainda bem que ganhámos, senão g’anda barraca.

Por falar nisso, falhaste um penálti na Arménia.

No último minuto, zero-zero lá. Atirei ao poste, primeiro jogo de qualificação para o Mundial-98. E depois perdemos na Ucrânia, no início da fase das jornadas duplas de qualificação. Na altura, esse penálti nem parecia ter importância mas acabou por ter. E muita.

Imagino a tua cabeça no final do jogo com a Arménia.

Mau, muito mau. Quem falha acaba por sofrer mais que os outros, é um desgosto incrível. Porque acabas por ser o culpado e sofres o dobro. Falhei esse com a Arménia e o da Áustria.

 

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E aqui, tu mais o Nené e o Damas, duas instituições.

O Nené era engraçado, porque começava o jogo a dizer para o seu marcador directo ‘então a família, está tudo bem?’ Ahahahahah. Começava logo a preparar o terreno, só que eu já o conhecia dos meus colegas mais velhos e dizia-lhe ‘ò Nené, isto hoje não há aqui conversa, nem chegues aqui perto’. Ahahahahah. E sabes o que fazia o Nené a essa boca? Respondia-me com ‘está tudo bem, gosto muito de te ver’. Ahahahah. De repente, o gajo já estava lá à frente a marcar um golo. Depois, vinha para o meio-campo e dizia ‘epá, desculpa lá, estavas distraído’. Quem me contava isso era o Paris, central do Estoril.

E era comum marcares o Nené?

Sim, no ano em que o Toshack inventou os três centrais.

Quem eram?

Titulares absolutos, Venâncio e eu. Depois, o terceiro elemento era o Zezinho ou o Virgílio. Nas alas, Carlos Xavier à direita e Mário Jorge à esquerda. Lembro-me de darmos 8-1 ao Braga, por exemplo. Agora este aqui [Oceano aponta para Damas], era o maior. Foi o jogador com mais estilo que vi no futebol. Além da sua qualidade dentro de campo, ele preparava-se para ir à baliza, metia o gel e depois dizia ‘elas vão ficar doidas na bancada’. Foi ele um dos que começaram a levar-me para os almoços do plantel do Sporting.

Ai não ias antes?

Era miúdo, ainda não ia. O Jordão protegia-me nos estágios e nos treinos. Fora disso, ele tinha a sua vida e eu a minha. Depois, aos poucos, comecei a integrar-me. Havia dois restaurantes muito frequentados: “A Nau”, em que almoçávamos cabeças de peixe até à hora do jantar, e “A Paz”, ali na Ajuda, onde comia o Eusébio.

Havia muito respeito pelos mais velhos, não era?

Como te digo, era o Sr. Jordão, o Sr. Damas, o Sr. Zezinho, o Sr. Manuel Fernandes. É verdade que havia coisas que eram demais, mas agora, bem vistas as coisas, já não acho que fossem demais. Venho de uma cultura africana, diferente da europeia. O africano respeita o mais velho e nós vemos isso na tratamento aos nossos avós. Em África, o velho é sabedoria. Na Europa, o velho é entrave. Como quem diz ‘temos que arranjar um sítio para os meter, porque já não há paciência para os aturar’. No meu caso, como jogador do Almada, percebi isso do respeito aos mais velhos bem cedo. Quando subi aos juniores para o seniores e marquei aquele golo da vitória em Cuba, queria entrar no balneário e estavam lá três veteranos a falar entre si. Viram-me e disseram ‘ò miúdo, não vês que estamos aqui a conversar; quando acabarmos, a gente chama-te’. E eu lá fora, ao frio. Logicamente, quando chego ao Sporting, venho dessa formação. Agora esta malta nova já não é assim e qualquer miúdo de 16, 17 ou 18 anos chega ao balneário e nem diz nada.

Imagino-te então com Danis, Porfírios, Nunos Valentes?

Tinham muito respeitinho. Não só eles, também Figo, Capucho. Nunca lhes fiz aquela do ‘miúdo, espera lá fora’, mas alertava-os para muitas complicações futuras, que já adivinham.

Crises e tal?

Por aí, sim.

Também havia o Nelson, com quem o Figo fazia uma dupla imparável na ala direita.

O Nelson era um paz de alma. Nunca vi ninguém como o Nelson, ele não tem nada de maldade naquele corpo. O Nelson é demasiado puro para existir neste mundo, nem sei como é que está hoje em dia.

Na mesma, com cabelo branco.

Ahahahahah, já quando tinha 20 anos era uma espécie de avô. Eu dizia ao Nelson ‘imagino como é que tu fazes amor com a tua mulher: metes uma porta no meio dos dois e está lá um buraquinho só para coiso’. Ahahahah. Era impressionante, um gajo organizava almoços e ele nada, tinha de ir para casa. Depois, quando o apanhávamos, ele não bebia álcool. Nem uma cerveja. Dizia logo ‘eiii não posso beber’. É dos mais puros que há, a pureza em pessoa.

No outro lado, o Paulo Torres.

‘Tás mazé maluco, o PT tem histórias do caraças. Chamava-me capitas a torto e a direito. E aquilo colou, comecei a ser o capitas para toda a gente.

E agora?

Sou o velhote. O Figo chama-me velhote, o Dimas também, o Rui Costa também.

E agrada-te?

Antes, era engraçado porque jogava; era velhote mas jogava; agora que estou a ficar mesmo velhote, deixou de ter piada’. Ahahahahah.

 

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Toma lá disto.

Olhò sr. Futre. Este é o primeiro dérbi dele em Alvalade pelo Porto. Meti-o na pista de atletismo, ahahahah. Fui mauzinho.

E o pessoal do Porto, nada?

Era em Alvalade, sabes? Travavam-se grandes guerras no meio-campo e o André era giro. O André era mauzinho, só que não reclamava. Comia e calava.

E o Futre?

Um jogador do caraças. E marcar o menino? Já não sei se foi neste jogo ou no seguinte, fiz para aí uns 50 metros sempre atrás dele e o gajo com a bola dominada à minha frente. Não o consegui apanhar e ele entrou na área para dar ao Gomes ou assim. Nunca vi ninguém assim: é que não é chutar a bola para a frente, é dominá-la em corrida. Talvez o Messi, mas nem o Messi tinha tanta velocidade como o Futre com a bola nos pés. O Futre era empolgação.

E o Chalana?

Era inteligente. O Chalana adiantava bolas uns três metros e depois ia driblar com o corpo, lixado também. Fazia assim [Oceano abana o corpo] sem tocar na bola e os defesas começavam a cair para um lado e para o outro.

Apanhaste os dois, então?

Apanhei-os e não me lembro de apanhar ninguém mais forte pela esquerda do que eles os dois.

 

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E este golo?

Isto é o Mónaco, é o meu primeiro golo da Liga dos Campeões. Livre do Lang e dou de cabeça ao primeiro poste. Na baliza, Barthez. Ganhámos 3-0, num relvado inexistente. Sinceramente, o relvado desapareceu e era para não haver jogo de todo. Só que depois lá se jogou.

E o Costinha?

Pois éééééé, o Costinha a marcar-me. O Costinha tem uma admiração por mim do caraças e tinha dois posters no quarto, um deles era o meu. Ainda hoje ele diz isso. E acho que esse golo foi um bocado fruto da sua admiração por mim, Ahahahah, devo ter-me metido com ele antes da marcação do livre e ele ficou preso à conversa. Com o Mónaco, marcou um em Alvalade e outro lá.

Um 3-2 para o Mónaco com 2-0 ao intervalo para o Sporting?

Fui substituído e saí com uma azia, porque estou a andar para o banco de suplentes e a ver os golos do Trézéguet. Nessa noite, marco o 1-0 e faço a assistência para o 2-0 do Luís Miguel.

Tu eras fera a marcar na Europa, lembro-me de um golo ao Real Madrid.

Sim, ganhámos 2-1 em casa. Ainda hoje passam esse golo meu no Irão. Meti o pé de pato e marquei um g’anda golo, mas essa eliminatória foi muito mal perdida.

Só bolas ao poste, não foi?

Lá em Madrid, acertei uma bola no poste, o Figo outra e o Sá mais uma. Cá, tivemos mais que oportunidades para seguir em frente e o Michael Laudrup faz-me um golo de cabeça, um chapéu ao Lemajic.

E aquela eliminatória com o Inter, na meia-final da Taça UEFA?

Esse Inter tinha Brehme, Matthäus, Klinsmann, Bergomi. Era do caraças, mas aqui, em Alvalade, fiz o melhor jogo de sempre e falhei dois golos.

Falhaste porquê?

Num dos falhanços, a culpa nem foi minha, o mérito é do Zenga [guarda-redes]. O outro foi culpa minha, bati mal na bola. É daquelas bolas em que tu vais encostar e, por qualquer razão, não olhaste bem para ela. Se tivesse calhado olhar só um bocadinho, metia-a onde queria. Só que.

Só mais uma eliminatória europeia, aquela de Nápoles.

Perdemos nos penáltis porque não me deixaram marcar no desempate. Era eu o marcador oficial e o treinador decidiu ‘quem decide os penáltis sou eu’. Deviam ter-me posto lá.

 

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[Oceano e Klinsmann]

 

Não me digas que este é o fatídico jogo, o do Batta.

É mesmo.

Neste jogo, também falhei um golo de cabeça que não podia ter falhado. Seria o 2-0, num lance que só eu e o Pedro Barbosa é que sabemos, num canto. Se fosse golo, ganhávamos e passávamos ao Mundial-98. Mas aqui o árbitro entalou-nos. Aqui viu-se que Portugal não tinha peso internacional, porque fomos completamente postos de fora.

Dá para descrever o balneário?

Epá, um sentimento de revolta muito grande. Quer dizer, tens o jogo controlado, eles sem hipótese nenhuma e, de repente, ficas a jogar com dez quando estás a fazer uma substituição. Continuo a achar que o árbitro dá o segundo amarelo ao Rui Costa sem saber que ele já tem o primeiro. Continuo a achar que não foi maldade do árbitro, acredito na boa-fé das pessoas. Só que, de repente, ele dá o amarelo, percebe que é o segundo e fica comprometido porque é sua obrigação mostrar-lhe o vermelho. Tipo ‘oh boy, meti-me numa alhada do caraças’.

Viste o Batta depois disso?

Chamei-o de tudo na primeira vez que o encontrei.

E ele, na boa ou…?

Nãããã, comprometido, comprometido. Ele sabe que fez merda, eu tenho a certeza que ele sabe que fez merda. E depois volto a explorar este ponto e digo-o com toda a sinceridade: ele fez merda sem querer e há muita gente que pensa que ele fez merda de propósito.

Diz-se que o Klinsmann foi ao balneário de Portugal dar uma força.

Disseram-me isso mas não vi nada, tanta era a azia. Ahahahah. Estava na azia, mas o Klinsmann era um cavalheiro.

Porquê?

Por ações dentro do campo. Dou-te um exemplo: uma vez, jogámos com a Holanda nas Antas e a dupla de centrais foi, vê lá bem tu, o Veloso e eu. E ganhámos 1-0, golo do Rui Águas. Nessa noite, a Holanda jogou com Van Basten e Gullit. O Van Basten era um nariz empinado, era mesmo aquele gajo ‘eu sou o maior’, enquanto o Gullit era um cavalheiro. Há detalhes em campo que percebemos logo quem é quem e, por isso, o Klinsmann era um gentleman. Como o Gullit. Ao contrário do Van Basten.

Dois anos antes, o Euro-96. O que é que isso representou para ti?

Divertimo-nos muito. Empatámos os campeões europeus [Dinamarca] e ganhámos sem sofrer golos à Turquia e, depois, Croácia. Nos quartos, tivemos azar naquele jogo com a República Checa.

Poborsky.

Eu e o Paulo Sousa fomos à bola, ele ganhou o ressalto e fez o chapéu à saída do Vítor. O Vítor também sai e, se calhar, não devia ter saído porque estávamos a controlar o lance. A verdade é que o Vítor também pensou que chegava à bola e esta não adiantou o suficiente. O resultado é aquela colherada. Até final, ainda tivemos hipóteses de marcar e foi a vez em que estivemos mais perto de ganhar um Europeu. À exceção de 2004, claro. Tínhamos uma senhora equipa e havia muita competência. Neste tipo de competições, Europeus e Mundiais, o insucesso de Portugal passa por não ir mais além da fase de grupos. Uma vez ultrapassado essa barreira, tudo é possível. Isso viu-se em 2010, por exemplo. A Espanha perde o primeiro jogo com a Suíça e depois é levada ao colo. Levada ao colo, não; é levada no andor. A Espanha foi levada no andor no segundo jogo da fase de grupos, com o Chile. Expulsaram um chileno e tudo. Nos oitavos, Portugal e Espanha decidido por um golo em fora-de-jogo. Se o árbitro apitasse falta, que jogo teríamos? Imagina que Portugal eliminava a Espanha, podia ser campeão do mundo.

São coisas, detalhes.

Como o Euro-2016. Passámos do insucesso para os quartos-de-final num abrir e fechar de olhos, em terceiro lugar do grupo. De repente, vamos à final. E, verdade seja dita, há uma sensação de alguma injustiça com a derrota da França. Quer dizer, o Rui Patrício faz um jogo do outro mundo e ninguém fala no Rui Patrício.

Para mim, é o melhor de Portugal.

Mas é que nem há a mínima dúvida, o Rui Patrício foi o nosso Pelé. Fez tudo, ou quase; só não fez golos. E não os fez porque não foi preciso, senão teria ido à outra área e marcava. Tenho a certeza que sim. Em 2016, o Rui Patrício confirma-se como melhor guarda-redes do mundo. Não há Neuer nem Buffon, é o Rui Patrício. E não digo por ser português ou isso, é porque vi-o fazer coisas que nunca o tinha visto fazer. Ele esteve num nível acima da média, acima do normal. Craque, estrela. O Rui Patrício faz os jogos todos, os minutos todos, defende o penálti com a Polónia no desempate e faz duas defesas na final, de ir buscar a bola lá ao canto superior, de ficar de boca aberta. Aquelas bolas eram golo.

Falas de guarda-redes e lembro-me de te ver com luvas nas Antas, para a Supertaça.

O Costinha foi expulso e lá fui à baliza. Ou era eu ou o Carlos Xavier, só que eu era o capitão e assumi.

Estavas nervoso?

Nãããã, tranquilo. Até porque os gajos do Porto começaram a rematar de longe a achar que era fácil. Ahahahah. Depois, perceberam e começaram a aproximar-se da área com cruzamentos, só que eu esbarrava num portista e gritava aaaaaaahhhh. Resulta sempre, é falta. Ahahahahahah. Acaba 2-2 e não sofro golos. Ainda hoje, quando me vê, o Pinto da Costa diz-me ‘és dos poucos guarda-redes do mundo que se pode gabar de não ter sofrido qualquer golo nas Antas’. O engraçado é que estive quase para jogar pelo Porto.

Quando?

Na era Jorge Gonçalves, quando estivemos sete meses sem receber ordenados. Havia gente a sair para todo o lado e, um dia, o Pinto da Costa reuniu-se comigo para oferecer-me contrato. Ele sabia de tudo ‘tu ganhas isto e isto, eu vou-te oferecer isto, vou dar-te dois anos de contrato e uma coisa que te garanto: ainda vais ser campeão nacional esta época’. Ahahahah. Curiosamente, o Porto foi mesmo campeão.

E tu, o que lhe disseste?

Fiz questão de ir lá acima falar pessoalmente para agradecer o convite e dizer-lhe ‘obrigado, mas não obrigado’. É daquelas coisas, tu és capitão do Sporting, tens de ficar. É que o Sporting estava a passar por um processo complicado e eu sabia que o Jorge Gonçalves estava a fazer tudo para nos pagar, só que não havia dinheiro.

Saíste duas vezes do Sporting, uma para a Real, outra para o Toulouse.

Fizemos o último jogo da época nos Açores, um amigável com o Santa Clara, e lembro-me que o presidente, o Doutor Roquette, deu uma entrevista no avião a dizer ‘o Oceano vai assinar mais um ano por tudo o que tem feito, coiso e tal’. Só que houve confusão com o Carlos Manuel e senti que estava a ser um instrumentalizado pelo próprio Sporting.

De que maneira?

O Sporting queria um treinador estrangeiro, mas ainda não tinha nenhum. Então o que é que me prometeu? Um contrato de cinco anos em que seria o adjunto do próximo treinador [Mirko Jozic].

E?

Queria jogar mais um ano, pensava lá em seguir a carreira de treinador. E depois não aceitei porque sabia que havia uma lista de dispensas e os nomes eram os de Pedro Martins, Pedro Barbosa, Paulo Alves, eram uns 11 e eu disse ‘fogo, isto é um presente envenenado: estes gajos foram companheiros durante estes anos todos e vou pôr a minha assinatura debaixo destas dispensas? não, nem pensar’ E fui de férias. Quando voltei, estava desmotivado para jogar em Portugal e apareceu o Toulouse. Sabes o que fazia se fosse hoje?

Diz.

Aceitava os cinco anos de contrato do Sporting e depois dizia que não concordava com aquela lista de dispensas. Era o que eu devia ter feito, mas, naquela altura, não queres assinar esta merda. Não são só amigos, são jogadores da seleção, que têm condições mais que suficientes para jogar no Sporting. Havia realmente jogadores que tinham que ser dispensados, mas não estes. A meio dessa época que tinha acabado, o Carlos Manuel trouxe uns 15 jogadores e ficámos com um plantel de quase 40, a maioria deles eram miúdos. Geri aquilo emocionalmente e o que devia ter feito era dizer ao presidente ‘então acabou de dizer ontem que ia assinar comigo por mais um ano e agora está a dar o dito por não dito, só porque está com o cuzinho apertado; não vou facilitar a vida, não vou aceitar isso.’

E lá em Toulouse?

Foi bom conhecer mais um país, mais um campeonato. Mudámos de treinador a meio: saiu o Guy Lacombe, o do bigode, entrou o Giresse. E o Giresse dizia-me ‘com a tua idade e com a tua experiência, podes treinar quando quiseres; se não te apetecer vir treinar, mandas-me uma mensagem e eu envio o médico a tua casa só para justificar a tua ausência; não te preocupes, só preciso de ti nos jogos.’ E aquilo até era tentador, porque, às vezes, acordava e estavam -13 graus, fosgasssss, ahahahahahah. Só que depois não estava a ser honesto. Nem com ele nem comigo. Quando já não te sentes motivado para treinar, é o fim. E então cheguei a acordo para sair, a um mês do fim do campeonato.

Mesmo assim, marcaste em quatro jornadas seguidas.

Estive bem e, embora não tenha feito a época até ao fim, fui o melhor marcador da equipa, com seis golos. Marquei ao Mónaco e ao Marselha. Foi só para convencer os gajos de que era mesmo bom, ahahahahahah.

Deu tempo para fazeres amigos por lá?

Fiquei muito amigo de um jogador que era meio francês, meio espanhol, o José Cobos. E fiquei amigo de um guarda-redes, o Teddy [Richert]. Nem imaginas o que lhe aconteceu: a meio de um Marselha-Toulouse, lá no Velódrome, o Dugarry, avançado do Marselha, foi à bola e chocou com ele.

Grave?

Grave? Nunca vi nada disso. Já vi pernas partidas, pés ao contrário, agora aquilo.

Desembucha.

O Dugarry cravou-lhe o piton na glande do pénis e aquilo rasgou-se tudo até cá abaixo, até aos testículos. Nunca vi nada assim, arrepiante. Era ver toda a gente com as mãos na cabeça, tudo em pânico e só sangue a esguichar por todo o lado. Aquilo nem era esguicho, era mesmo jorrar. Jorrava sangue por todo o lado. Primeiro no relvado, depois no balneário. O Dugarry ficou tão impressionado que até pediu para ser substituído e nós começámos a jogar outra coisa que não futebol. Cada vez que alguém tocava em alguém, era excuse-moi para ali, excuse-moi para aqui. Tudo cagado, ahahahah. Também foi o momento em que os jogadores começaram a usar aquela proteção dos gajos da esgrima, ahahahahah.

E o Teddy, como é que ficou?

Teve de ser operado durante 36 horas, voltaram a juntar-lhe tudo entre veias e tendões. Era ainda um puto novo, de 20/21 anos. Que ultrapassou o drama, com o tempo e muita psicologia, porque aquilo mexe com tudo, virilidade e tal, e chegou a ser convocado para a seleção francesa. Só lhe dizia isto ‘tu liga para mim quando deres a primeira queca’. E ele ligou. Respondi-lhe c’est magnifique. Também me ligou quando soube que ia ser pai. Acho que agora já tem dois ou três filhos.

Que susto do caraças.

Só de pensar, fico arrepiado.

Há situações beras no futebol. Conheces mais?

Iordanov, por exemplo.

Xiiiiiii, pois.

Curiosamente, sou eu o primeiro a saber que ele tinha esclerose múltipla. O doutor veio falar comigo. E, nessa altura, há um vice-presidente do Sporting que faz uma declaração estúpida sobre o fim do futebol para o Iordanov. Sabes o que fiz?

Quero saber, acompanhei esse processo de perto.

Como aquela declaração do vice saiu numa revista, recortei a página e entreguei-a ao Iordanov: ‘ò, vais pôr isto aqui no teu cacifo e um dia, depois de fazeres um grande jogo, ele vai entrar no balneário e mostras-lhe isto’. Assim foi. Ele voltou ao futebol e até marcou. Mas, claro, nesse processo, há momentos em que te vais abaixo. Aí, apoiava-o sempre. O doutor Fernando Ferreira também o ajudou. Eu dizia-lhe: ‘tiveste um acidente em que partiste a coluna, em que a tua medula começou a sair, em que qualquer um fica paraplégico ou tetraplégico, e o que é que os gajos te fizeram? Agarraram-te no meio do acidente, meteram-te na parte de trás de um carro e foram a conduzir uma hora e meia até ao hospital, contigo ao telefone com o doutor? Portanto, se tu não ficaste tetraplégico e se tu não morreste, é porque não vais morrer. O que é esta merda? Esta merda não é nada, isto não é nada e vais continuar a fazer a tua vida’. E ele, que era um mouro de trabalho, continuo a sua vida. Até hoje.

Estás a falar do Iorda e lembrei-me do Cherba.

Aí estava ainda em Espanha, na Real. Conhecia-o só de ver jogar e achava-o fabuloso. Curiosamente, estive assim [Oceano aproxima o polegar e o indicador] de jogar com ele no Sporting.

Ai sim?

O Robson queria-me no Sporting. À sua maneira, disse-me ‘tu experience, great player, attitude, we need this, i need you’.

E tu?

Já estava naquele fase torta com a Real Sociedad e não ia renovar contrato, só que depois dá-se o adeus do Robson, o acidente do Cherba. Nem joguei com o Cherba ao meu lado, nem fui treinado pelo Robson.

Mas voltaste ao Sporting.

Porque o Queiroz disse-me ‘gostava muito de te ter aqui’. E fui, claro. Agora o Robson, ele falava dos miúdos com um entusiasmo. Nunca vi um velho tão animado. A sério, notava-se que aquela equipa era a dele. Ou melhor, ele sentia que podia fazer uma coisa fora de série com aqueles miúdos nos próximos dez anos. E, afinal, não. Saiu e foi campeão no Porto. Curiosamente em Alvalade, há ironias do destino, mesmo. Mais uma vez, o Pinto da Costa foi inteligente.

Essa do Sporting cheio de miúdos lembra-me os anos 80.

Mário Jorge, Litos, Futre, Venâncio, Morato, Fernando Mendes, tão bom.

E o dia dos 7-1?

Ninguém esperava aquilo, nem o Manuel Fernandes. O Manel marcou um golo e, durante os festejos, sentiu uma coisinha ali. Queria sair e nós ‘fica mais um bocadinho’. Depois ele marcou outro golo, mais um e tal, acabou nos quatro, ahahahahah. Ao intervalo, o jogo estava completamente aberto, 1-0. Na segunda parte, saiu-nos tudo bem. Se o jogo demora mais cinco ou dez minutos, era 10-1 porque a gente não pensava as jogadas, simplesmente executava-as. Foi um dia fabuloso, inesquecível. E depois do jogo?

Isso é uma pergunta?

Ah poizeeeeee [Oceano contorce-se todo a rir]. Fomos jogar bingo e fizemos todos bingo.

Nããããããã.

Digo-te, a sério: fomos jantar, entrámos no bingo e fizemos todos bingo.

Bar aberto.

Grande grande noite, um ambiente do caraças.

O que diz Nani

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Tenho sido muito crítico da orientação editorial do jornal A Bola, mas não ignoro que na redacção deste jornal existem jornalistas de inegável competência. Muitos deles, aliás, em oposição declarada à orientação do periódico, que já foi um dos mais prestigiados títulos da imprensa portuguesa.

Vem isto a propósito da excelente entrevista que A Bola hoje dá à estampa. Uma entrevista com Nani, conduzida pelo jornalista Paulo Alves, que para o efeito se deslocou aos Estados Unidos. O ex-capitão do Sporting, hoje profissional do Orlando City, equipa de que é o melhor marcador (oito golos em 19 jogos), abre o livro e diz o que pensa sobre a realidade leonina. Falando com a autoridade de ter sido quase tudo no futebol: um dos mais brilhantes frutos da nossa formação, um dos mais prestigiados internacionais portugueses de todos os tempos, campeão europeu pelo Manchester United, campeão europeu ao nível de selecções.

Um dos maiores craques de sempre com a marca leonina, aliás detentor de dois títulos no momento: Taça de Portugal e Taça da Liga. A milhares de quilómetros de distância, ele confessa: «Só há um clube onde me sinto em casa.»

O Sporting, claro.

 

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Seguem-se excertos desta entrevista.

 

«[Há um ano] fui contactado, em primeiro lugar, pelo mister Peseiro e depois pelo presidente Sousa Cintra, e avaliei a situação. Tinha outras propostas de países mais distantes que me ofereciam muito mais dinheiro. Mas pensei e concluí que não estou a precisar de dinheiro, graças a Deus... (...) Precisava de voltar a casa, de respirar os nossos ares, recuperar energias. Já estava há muito tempo fora de casa.»

«[O Sporting] tem de ser um clube mais fechado. Todos os que estão lá dentro têm de querer a mesma coisa e correr para o mesmo lado. Quando isso acontecer o Sporting voltará a ser campeão.»

«Benfica e FC Porto são muito fortes nesses momentos vitais: se tiverem de passar por cima, eles não pensam duas vezes, vão e atropelam. Seja a ganhar por 1-0 ou a golear, mas ganham. É esse tipo de experiência que o Sporting também tem de ter. E isso tem de vir de dentro. Uma das falhas dos últimos anos é que, internamente, muitas pessoas que trabalham no Sporting são o problema do Sporting...»

«Nunca direi que não ao Sporting. (...) Disse um até já porque pertenço ao Sporting, cresci lá, permitiu-me que me formasse, abriu-me as portas do estrelato, foi ali que tudo começou e devo a minha lealdade eterna ao Sporting e estarei sempre disponível para ajudar seja no que for.»

«A Academia perdeu um pouco da mística que tinha, a organização não é a mesma. Lembro-me que no meu tempo não se facilitava a vida a ninguém nem com nada. Os responsáveis eram exigentes e muito rigorosos, faziam com que os jogadores estudassem, que se aplicassem nos treinos, puxavam por nós para sabermos o que queríamos para o nosso futuro.»

«Na época passada, quando voltei ao Sporting, tinha também uma proposta do FC Porto. (...) Era um bonito clube para jogar, ia competir na Champions, quem é que não gosta de estar na Champions? Mas tinha o Sporting também e não ia deixar os adeptos do meu clube tristes e revoltados comigo por causa de fazer três ou quatro jogos na Champions. Preferi ir para o Sporting, voltar a casa. Fui lutar por uma causa positiva, ajudar o clube a reerguer-se. Essa era a minha Champions pessoal.»

«Ganhar um título em representação do nosso país [Europeu de 2016] é o ponto mais alto da carreira de qualquer jogador, eu pelo menos penso assim. Muitos andam à procura disso há anos e não conseguem, e se calhar até têm outros troféus e títulos importantes, mas não tendo troféus pela selecção não é a mesma coisa.»

«Sempre gostei de fazer golos, desde miúdo que sempre assim foi. É claro que fico satisfeito, mas sempre fui muito mais um jogador criativo: criar lances ofensivos, dar assistências para golo, desbloquear o jogo para a minha equipa.»

«São importantes as convivências com pessoas ligadas a diversos meios, a diferentes realidades e culturas. O futebol não é só o que se vê cá fora, mas é preciso saber guardar aquilo que cada país nos oferece.»

«Houve dois treinadores que me marcaram muito: Paulo Bento e Alex Ferguson. Paulo Bento foi meu treinador ainda nos juniores e aí ele teve muitas conversas comigo e nunca, nunca me facilitou a vida. Mas era, e sabia disso, o jogador preferido dele. Ele chamava-me nomes, gritava comigo, mas olhava para mim como se fosse um filho dele. (...) Muitas vezes foi ele que me levou a casa, outras vezes pagava-me o táxi, estava sempre presente.»

 

«Só Sócrates foi atacado assim»

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Excertos da longa entrevista concedida à edição de ontem do semanário Expresso pelo antigo presidente do Sporting Bruno de Carvalho. 

 

«São absolutamente absurdas as apresentações diárias que tenho de fazer há quase um ano na esquadra da residência.»

«Quando me chega a informação de que Cândida Vilar e Godinho Lopes são grandes amigos, cada vez mais acredito que em Portugal já nada me espanta.»

«Ou a procuradora Cândida Vilar tem uma agenda, coisa [em que eu não quero acreditar, porque seria demasiado grave, ou tem um distúrbio.»

«Toda a acusação sobre mim é absolutamente martelada.»

«Temo que [a 6 de Julho] seja mais uma assembleia geral anti-estatutária e ilegal.»

«Têm medo que eu me possa voltar a candidatar e ganhar.»

«Estes senhores tiraram-me a possibilidade de trabalhar.»

«Eu tenho vivido daquilo que eram as minhas poupanças e chegou a um ponto [em] que acabou.»

«Eu tenho três filhas para sustentar.»

«As pessoas não me dão emprego.»

«Se nós fôssemos para eleições eu ganhava.»

«Há um vídeo com o Varandas a rir-se no balneário [em Alcochete] após o ataque. Se houvesse uma imagem minha a rir-me, estava já preso em Guantánamo.»

«Toda a gente sabe o que diziam: que eu era uma força da natureza, uma inteligência e uma perspicácia acima da média.»

«[Sou] um ser humano que na altura em que precisou da equipa e dos adeptos do Sporting todos viraram as costas.»

«Só José Sócrates foi atacado assim. Com uma diferença: José Sócrates foi atacado massivamente, mas depois do pder. E não chegou aos calcanhares daquilo que eu sofri.»

 

Uma entrevista em que o sucessor de Godinho Lopes, fiel ao seu estilo, dispara em todas as direcções - ferindo, nomeadamente, a honorabilidade de figuras da magistratura portuguesa. E sacode a água do capote em matéria de responsabilidades: não sabia, ninguém o informava. Foi assim em Alcochete, foi assim no conflito entre jogadores e adeptos no Funchal. As culpas - como de costume - eram sempre de quem escolheu para trabalhar com ele. De Jaime Marta Soares a André Geraldes, de Frederico Varandas a Jorge Jesus.

A cabala, a cabala. O mundo inteiro conspirando contra o menino birrento.

 

No capítulo das confissões, destaco uma: Bruno de Carvalho - acusado de 98 crimes no processo relativo ao assalto a Alcochete - confessa que vive sem trabalhar. Há mais de um ano que não desenvolve qualquer actividade remunerada. 

O que diz Varandas

 

«Se o Bruno Fernandes sair, temos um plano B, preparado para atacar o mercado. Preparámo-nos, nestes últimos meses, para os vários cenários. Se o mercado quiser o Bruno Fernandes, terá de ser por um valor elevado.»

 

«Posso garantir aos sportinguistas que no mercado de Janeiro, neste mercado de Verão e em todos os mercados que irão acontecer enquanto estivermos aqui, nenhum eleito do Sporting receberá um cêntimo em nenhuma comissão, em nenhuma venda, em nenhuma compra de jogadores.»

 

«Quando se fala no Sporting, uma palavra que salta logo é formação. Não só por ser do nosso código genético, não só por ser uma opção, mas por ser uma obrigação. O Sporting, para ser sustentável, tem de apostar na formação. Não é custo: é investimento.»

 

«Estre grupo vai ser um misto de experiência e juventude: é assim que queremos trabalhar. Vai ser um grupo mais competitivo, mais homogéneo, onde as segundas linhas se aproximarão mais das primeiras linhas. Isto é que nos vai dar garantia de competitividade.»

 

«Não há uma única pessoa que vá integrar este clube que não tenha o sonho de ser campeão, mas precisamos de muita racionalidade e muita inteligência para chegar lá acima e sermos campeões.»

 

Frederico Varandas, ontem, em entrevista à Sporting TV

O que diz Gelson Martins

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«Admito regressar ao Sporting.»

 

«Tentarei ajudar sempre que puder. Continuo a ser sócio do Sporting.»

 

«Nunca iria para o Benfica por uma questão de respeito ao Sporting.»

 

«Todos tivemos medo em Alcochete. Não foi uma situação fácil. Muitos podem falar, mas só quem esteve lá dentro sabe que foi muito mau.»

 

«Não iria prejudicar o Sporting pedindo indemnização ao clube que me formou.»

 

 

Excertos da entrevista de Gelson Martins à edição de hoje do Record, transcrita no blogue Tu Vais Vencer.

O que diz João Duque

«NÃO ERA ORÇAMENTO QUE SE APRESENTASSE»

«Tivemos que nos pronunciar sobre um orçamento que tinha sido feito por Bruno de Carvalho com pressupostos que, na altura, dissemos que estavam todos errados. Não era um orçamento que se apresentasse - e estamos a falar do clube, porque a Comissão de Fiscalização era só sobre o clube, não era da SAD.»

 

«ERA DE LOUCOS, ESTAVA TUDO MAL FEITO»

«O orçamento do clube estava assente em pressupostos de que iria continuar a crescer. Era de loucos, estava tudo mal feito. Como é que iríamos dar um parecer positivo sobre isto? Demos portanto um parecer negativo e nem houve assembleia para votar aquele orçamento porque era ridículo.»

 

«SE QUISESSEM UMA LÂMPADA, PEDIAM AO PRESIDENTE»

«Apercebi-me logo que o sistema de gestão do clube daria azo a tudo e mais alguma coisa: super-centrado numa pessoa, era de loucos. Imagine o que é um clube ter todas as despesas, mas todas as despesas, assinadas pelo presidente! Está tudo dito. Se quisessem comprar uma lâmpada, tinham que pedir autorização ao presidente. Isto é um clube? Isto é de loucos. Mas depois tinha saldos de tesouraria em cash elevadíssimos. Assim que soube disso percebi logo que tinha tudo para correr mal.»

 

«OS JOGADORES COMEÇARAM A SAIR EM MASSA»

«O jogo é uma coisa e a gestão das instituições é outra. Mas ali estavam a gerir a empresa e a actividade como se estivessem no campo. Bruno de Carvalho criava essa gestão de conflito e de ódio permanente a todos. Os jogadores começaram a sair em massa, nunca tinha visto isto, e escreviam cartas onde acusavam o presidente. Uma coisa inimaginável.»

 

«ESTAVA TUDO A DESMORONAR-SE»

«O Sporting estava com problemas sérios de tesouraria e precisava de cumprir prazos. Aliás, já estava com um problema com o Guimarães, que ameaçava requerer a falência da sociedade. Acho que no fim disto tudo é um milagre o Sporting ainda existir formalmente. Este Sporting tal como nós temos. O clube estava a implodir: oito ou nove jogadores a saírem porta fora, o treinador também. Estava tudo a desmoronar-se.»

 

João Duque, ex-membro da Comissão de Fiscalização do Sporting entre Maio e Setembro de 2018, hoje, em entrevista ao jornal i

As negas de Ricciardi

Não sei quem é o ex-jornalista que estará neste momento a ajudar José Maria Ricciardi em matéria de comunicação. Seja quem for, suponho que terá metido férias. Só isto explica que o banqueiro, na extensa entrevista que dá hoje ao matutino Record (e saúdo o jornal, agora com novo director, pela matéria exclusiva), tenha cometido dois erros de palmatória. Precisamente em matéria comunicacional.

O primeiro é quando os jornalistas Alexandre Moita e Vítor Almeida Gonçaves, com toda a pertinência, lhe perguntam se esta época já viu um jogo ao vivo, no estádio José Alvalade. Resposta pronta e brusca do homem da banca: «Não.»

O segundo erro, tão grosseiro como o anterior, acontece quando Ricciardi confessa não ter contribuído sequer com um cêntimo para o empréstimo obrigacionista lançado pelo Sporting em Novembro. «Não subscrevi», afirma com toda as letras. Certamente não foi por falta de disponibilidade monetária.

Temos portanto alguém que ambiciona ser uma espécie de "salvador" do Sporting mas que não assiste aos jogos, não frequenta o estádio e marimbou-se para o empréstimo obrigacionista, tão necessário para recapitalizar as finanças leoninas. Depois de tanta nega, ainda pretende ser levado a sério pelos sportinguistas?

O que diz Frederico Varandas

«É óbvio que não temos as condições ideais. Seria impossível, em apenas quatro meses, termos a estabilidade que gostaríamos. Porque sem estabilidade nada se alcança. (...) Muitas vezes as pessoas querem esquecer-se de como este clube estava em Setembro.»

 

«Vamos construir mais cinco campos relvados. Vamos requalificar por completo a Academia.»

 

«Discordei completamente da política dos últimos cinco anos na formação. Culpa da direcção.»

 

«Vai começar a funcionar já este mês o primeiro departamento de liderança e formação interna, liderado pelo Tomaz Morais. Vai ser transversal a todos os jogadores, a todos os miúdos, a todos os treinadores. Para lhes incutir o orgulho em vestir esta camisola e os valores do desporto.»

 

«Não gosto de ver jogadores a atirarem-se para o chão, não gosto de ver jogadores a queimar tempo, não gosto de ver jogadores a falar com o árbitro.»

 

«Eu não misturo a instituição Benfica com o seu presidente. Tenho o maior respeito pela instituição Sport Lisboa e Benfica. Um clube só é realmente grande se tiver um grande rival. E o Benfica é o nosso grande rival.»

 

«Ninguém [do Benfica] falou do conteúdo dos e-mails. Ou por falta de coragem ou por falta de princípios.»

 

«Isto [caso dos e-mails] afecta todos os clubes que disputam a Liga, isto afecta o futebol português, isto afecta a imagem de Portugal.»

 

«Em todos os jogos em que perdemos pontos, a minha equipa poderia e deveria ter feito melhor.»

 

«Quero uma cultura vencedora neste clube. Não quero uma cultura que nos desculpabilize internamente apontando culpas a terceiros, como aos árbitros.»

 

«Defender o melhor para o Sporting é defender o desporto, as regras, a transparência. O Sporting não vai abdicar disso.»

 

«Em Novembro troquei a equipa técnica porque acredito muito neste treinador.»

 

«Quero um grupo mais consistente, mais forte mentalmente e, obviamente, com mais qualidade.»

 

«Na nossa visão, o plantel era de qualidade reduzida. Por isso é que saem sete jogadores.»

 

«A verdade é que no "ano zero" conquistámos já um título. (...) O Sporting vive de títulos, os sócios vivem de títulos - e este já é nosso.»

 

«Só um louco pode dizer "Eu vou ganhar o campeonato para o ano, daqui a dois anos, três anos..." Seja no futebol, seja nas modalidades.»

 

«O protocolo com as claques que estava em vigor para o ano vai deixar de existir. Entre muitas outras coisas, estamos a falar de cerca de 900 bilhetes oferecidos por jogo. O Sporting não está em condições de oferecer nada. Quando fiz parte de uma claque, há mais de vinte anos, pagava. Expliquei-lhes que não há ofertas e que para o ano toda a gente vai pagar o seu bilhete.»

 

«Keizer tem contrato e se Deus quiser vai cumpri-lo. (...) Jorge Jesus faz parte do passado.»

 

«Eu acredito que, com a minha equipa, vou fazer o Sporting campeão.»

 

«O meu objectivo é deixar o clube, ao futuro presidente do Sporting, muito melhor do que quando lhe peguei.»

 

 

Frederico Varandas, esta noite, em entrevista ao jornalista Alexandre Santos, da RTP 3 - a primeira que concedeu, para além do canal de TV do clube, em 145 dias de presidência.

André Geraldes em discurso directo

 

«O clube estava virado de pernas para o ar.»

 

«Era notória a instabilidade dos jogadores. Isso é um facto incontornável.»

 

«Por esses dias tinha o treinador despedido... nem sabia se estava despedido... tinha os jogadores a querer falar com a direcção e a direcção a não conseguir comparecer nos dias em que os jogadores queriam...»

 

«Estava, um bocadinho, a fazer o papel da ONU.»

 

«Ao nível da comunicação, [Bruno de Carvalho] não fez o melhor percurso e esse percurso fez com que chegasse o fim.»

 

«Pelo estilo de comunicação que [o ex-presidente] tinha, o clima [no Sporting] não foi o melhor.»

 

Excertos de uma entrevista do ex-director do futebol leonino, esta noite, à CMTV

Frases da entrevista de Vieira

 

«Faltam-me dois anos para acabar o mandato, vou ser candidato. Faço dois, mais quatro e, se for preciso, mais vou fazer.»

 

«Se Bruno de Carvalho continuasse, éramos capazes de cometer uma ou duas loucuras.»

 

«Se o senhor Varandas vier com esse propósito [combater o Benfica] não vai lá estar muito tempo.»

 

«Se se provar que houve actos menos ilícitos (sic), demito-me.»

 

«Não há cartilha nenhuma, não sei o que é a cartilha.»

 

«António Simões mentiu.»

 

«Eusébio só há um.»

 

«O Rui [Vitória] tem o seu valor.»

 

«Não ponho Jorge Jesus de lado.»

 

«Como é possível o Benfica não marcar um golo ao Belenenses?»

 

«Quem sou eu para condenar Paulo Gonçalves?»

 

«O que é que o Benfica tem a ver com a toupeira?»

 

«Não temos claques, temos grupos organizados de sócios.»

 

«Assino de cruz.»

 

«Pedidos de bilhetes? Respondo ok, ok, ok...»

 

«Acha que eu sou o bilheteiro do Benfica?»

 

Esta noite, na TVI

 

O que diz Varandas

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Queriam que Frederico Varandas falasse? Pois ele falou, sem meias palavras, numa extensa entrevista ao Expresso, conduzida pelo jornalista Pedro Candeias.

Seguem alguns excertos.

 

«Os sócios do Benfica ou do FC Porto jamais aguentariam estar 18 anos sem ganhar títulos; o sócio do Sporting, que é muito leal ao clube, é menos leal às suas direcções e é muito mais exigente do que o dos outros clubes.»

 

«Isto é como muita gente diz - que o clube é ingovernável. (...) O número de presidentes que sai constantemente é um sinal de instabilidade e de que é muito mais difícil de ganhar do que nos outros lados. Mas eu acredito que vou mudar isto.»

 

«O empréstimo obrigacionista está montado e intermediado pelo banco Montepio, com cerca de 30 milhões de euros, para emitir em Dezembro. E o empréstimo anterior, cujo pagamento já fora adiado, iremos pagar tudo aos investidores na data prevista.»

 

«Acredito que o [caso do] Gelson será bem resolvido, tal como o caso Rui Patrício. Tenho um valor na cabeça, que não digo, e acho que se vai resolver a bem. E se não se resolver a bem, resolver-se-á a mal.»

 

«Como presidente, nunca entrarei dentro do balneário: é uma área de jogadores. Tal como eles nunca entrarão numa área de presidente. Também nunca farei uma crítica aos jogadores publicamente, porque essa será feita cara a cara.»

 

«Eu quero os melhores jogadores e o melhor treinador. Quero criar condições para este clube ser campeão, não de forma esporádica, mas consistente.»

 

«Já contratámos para a época 2019. Só dispenso jogadores ou treinadores quando tenho uma solução melhor em carteira.»

 

«Já estamos a preparar 2019 e a agir em áreas específicas, que nos ajudam a ganhar. Na área de scouting, por exemplo, estamos a reformular o departamento e acabámos de contratar um [José Guilherme Chieira], que esteve no FC Porto durante muitos anos, de 2010 a 2018. No departamento médico, virá outro médico, João Pedro Araújo, que é melhor que eu.»

 

«Sinto-me satisfeito com a qualidade do jogo? Não. Nem eu, nem o grupo, nem o treinador.»

 

«No Sporting que eu idealizo, a equipa tem de jogar melhor que o adversário pelo menos em 32 jornadas do campeonato. Pode nem ganhar, mas tem essa obrigação.»

 

«Estes casos do Benfica são uma vergonha para o futebol português, uma vergonha.»

 

«No dia anterior à destituição de Bruno de Carvalho dizia-se, nas redes sociais, que ele iria ficar com 70% dos votos, que era impossível cair. Ele próprio achava que ia ganhar, daí ter ido para a MEO Arena. As redes sociais são tão barulhentas que se confundem com a realidade. E ele perdeu com 70% dos votos.»

 

«O Sporting já sofreu muito, muito, para alimentar o ego de pessoas que usam e abusam do clube para se manterem vivas na comunicação social. Mas, no fundo, nada dão ao clube e isso é uma característica do Sporting.»

 

«O primeiro passo é tornar o Sporting imune a essa fogueira e a própria comunicação social também está numa espécie de ressaca, estranha este vazio mediático. Se eu não falou durante duas semanas é estranho, mas já repararam, nos outros clubes, se os respectivos presidentes falam? Não.»

 

«Jamais um sportinguista receberá de mim uma directriz para dizer isto ou aquilo. Isso é indigesto. Gosto de pensamento livre, mesmo que critiquem o Sporting. É horrível, não é do século XXI.»

Sousa Cintra sobre Peseiro e Jesus

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Sobre José Peseiro:

 

«Foi uma decisão minha [a contratação de José Peseiro].»

 

«O Sporting precisava de um treinador ganhador e conhecedor do futebol português.»

 

«Não, não foi logo [que avançou para Peseiro]. Tinha de ter um plano B [após a falhada recontratação de Jesus] e pensei num treinador estrangeiro, campeão e disponível. (...) O Paul Le Guen foi encantador. Fiquei muito impressionado com ele. (...) Acertei tudo com ele de acordo com as nossas possibilidades.»

 

«Mas entendia que a melhor solução era mesmo um treinador português. E há muitos e bons. Fiz a leitura dos que estavam disponíveis e escolhi o Peseiro. Peguei no telefone e fechei o contrato.»

 

«O Peseiro teve uma óptima passagem pelo Sporting. Foi à final da Taça UEFA e só perdeu o campeonato nos últimos jogos.»

 

«Fazendo a leitura de tudo, o Peseiro era a melhor solução.»

 

«Ele [Peseiro] fazia a leitura dos jogadores. Mas perdia muito tempo a analisar. Via, via, serve, não serve, houve ali alguma falta de decisão. Tenho enorme respeito pelo treinador, mas na escolha houve muita indecisão. Sim, depois não, depois sim, não, talvez...»

 

«Tivemos praticamente contratado aquele que jogou com o Benfica [Prijovic, do PAOK]. Até lhes marcou um golo. Tivemos as negociações muito adiantadas. Esteve para vir. O Peseiro disse primeiro que sim, depois não, e no fim até disse que ele nem sequer iria para o banco.»

 

«Houve muitas indecisões e perdemos dois ou três bons jogadores.»

 

«Continuo a pensar que o Sporting vai ser campeão este ano.»

 

 

Sobre Jorge Jesus: 

 

«Ao Jesus corre-lhe o sangue do Sporting nas veias e fez um excelente trabalho no clube.»

 

«Ainda falei com o Torres Pereira porque tem um irmão embaixador e ponderámos arranjar-lhe um passaporte para ele sair de lá [Arábia Saudita]. Houve essas conversas. Não veio por um fio.»

 

 

Sobre os jogadores:

 

«O Jovane ganhava 2 mil ou 3 mil euros por mês, uma vergonha. Vivia num sítio horrível, um craque daqueles. (...) Renovei-lhe o contrato, aumentei-o dez vezes ou mais e dei-lhe 100 mil euros para comprar uma casa e viver condignamente com a mãe.»

 

«Não falei com ele [Miguel Veloso], mas sei que viria. O Fábio Coentrão também poderia ter voltado.»

 

«Rafael Leão queria ficar no Sporting. Mas o pai e o empresário levaram-no àquele destino.»

 

«A exigência de ordenado [de Podence] foi de tal ordem que era impossível ficar com ele»

 

«O Gelson estava com a cabeça no Atlético Madrid e nada o demovia. Estava perdido por ir embora, incrível!»

 

«[Viviano] estava gordo e o treinador não gostou. Tive de arranjar outro guarda-redes.»

 

«O problema do Diaby é que tem estado mais tempo a jogar na selecção do que no Sporting, mas o Peseiro está encantado! Disse-me maravilhas dele!»

 

 

Declarações numa longa entrevista à edição de hoje do Record

 

Saber comunicar

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Sem espavento, sem alarido, sem fogo de artifício, alguma coisa começou a mudar na comunicação do nosso clube, obedecendo aos critérios definidos pelo presidente Frederico Varandas. Por exemplo, no acesso dos órgãos  de informação a alguns minutos de treino físico dos jogadores, possibilitando recolha de imagens sempre com interesse para os adeptos. Aplaudo, naturalmente, esta mudança. Tal como me parece muito positivo verificar que os profissionais leoninos voltam a merecer destaque nas capas da imprensa desportiva por declarações prestadas em exclusivo, claramente com o aval prévio da Direcção. Isto ficou ontem bem evidente com as entrevistas simultâneas de Montero ao Record e de Raphinha ao matutino O Jogo. Há quanto tempo não sucedia algo semelhante?

São alterações que abrem ainda mais o clube aos inúmeros simpatizantes, permitindo-lhes saber o que pensam os jogadores sobre temas em que raramente costumavam pronunciar-se em público, e que põem fim à absurda fase do presidente-estrela com monopólio dos microfones. Assim se combate a lógica do entrincheiramento hostil e da desconfiança permanente face aos grupos de comunicação social. Que são uma componente importante da indústria futebolística e, como tal, não podem ser ignorados.

Enfim, passos na direcção correcta. O Sporting da lamúria e do queixume está a dar lugar ao Sporting apostado em difundir mensagens positivas, transmitidas aos adeptos por vozes de protagonistas vários. Nada a objectar, pela minha parte. Só posso estar a favor.

O queixinhas

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Lembram-se do tempo em que Bruno de Carvalho pedia solenemente aos adeptos do Sporting para deixarem de ver televisão e de ler jornais? Pois ele, que diz seja o que for para se tornar notícia e faz quase sempre o contrário do que diz, é incapaz de passar um dia sem dar entrevistas a esses mesmos jornais e a essas mesmas televisões.

Li penosamente a mais recente, impressa na edição de ontem do Record, iniciada com estas linhas laudatórias dos jornalistas que conduziram a conversa: «Igual a ele próprio! Frontal, contundente e sem medo de uma boa refrega.»
Questiono-me até se no final da entrevista não lhe terão pedido um autógrafo...
 
O que afirma nesta cavaqueira o presidente destituído - e agora suspenso por um ano de associado do Sporting?
Mais do mesmo: não assume um erro (nem sequer a prosa miserável que publicou no facebook rebaixando os jogadores, logo após o jogo em Madrid contra o Atlético, futuro vencedor da Liga Europa). Não faz um mea culpa.
Lança lama sobre as pessoas que escolheu e aceitaram trabalhar com ele (vice-presidentes, presidente da Mesa da Assembleia Geral, treinador, director clínico), faz insinuações rasteiras a torto e direito, enche a entrevista com frases do habitual rancor azedo, próprio de quem está de mal com o mundo.
Vive numa espécie de realidade paralela, alimentando-se da sua delirante megalomania e de inifinitas teorias da conspiração. Imagina-se um estadista mas só tem conversa de porteira - sem desprimor para as porteiras.
 
São, bem ao seu estilo, declarações de um queixinhas.
Faz a todo o tempo juízos de (mau) carácter sobre ex-colaboradores directos e gente que integrou a sua comissão de honra e até foi convidada para o seu badalado casamento no Mosteiro dos Jerónimos, coincidente com o Dia do Clube.
Garante que só ele soube exercer o poder no Sporting mas, relativamente a tudo quanto ocorreu de mal, aponta a responsabilidade sempre para terceiros. Deixando-nos definitivamente esclarecidos quanto a falhas de carácter.
 
Transcrevo aqui algumas dessas frases, para registo futuro. E para que os últimos cépticos percebam, já hoje, como o sucessor de Godinho Lopes é incapaz de aprender com os erros cometidos - pelo contrário, insiste neles, contra todas as evidências, até a última gota do limão ficar espremida.
 
Sobre Sobrinho e Ricciardi:
«Álvaro Sobrinho e José Maria Ricciardi estão por detrás de todas as candidaturas, menos da minha.»
«Ricciardi é um cobarde.»
 
Sobre Frederico Varandas:
«O Varandas sabia que eu tinha um lombalgia. Deixou-me sozinho quando estava a sofrer desde os 72'. Estavam 4 graus e a lombalgia agravou com o frio.»
«O que eu ouvi da parte de Varandas sobre Jesus... Uma pessoa que me andava há dois anos a dizer cobras e lagartos do Jorge agora tem-no na comissão de honra. Vale a pena ser hipócrita neste país.»
 
Sobre Jaime Soares:
«Ao Jaime [Marta Soares] não lhe atribuo valor.»
«Diz que Jaime Marta Soares era amigo de Luís Filipe Vieira. Era? Mas algum deles faleceu? Digo-lhe que é.»
 
Sobre Cintra e Torres Pereira:
«Lamento que um presidente da SAD [Sousa Cintra] esteja numa conferência de imprensa a ser mandado calar com palmadinhas na mão por um indivíduo que sempre considerei um inútil, que é Torres Pereira [ex-vice de Bruno de Carvalho e actual líder do clube].»
«Há um treinador [Mihajlovic] que foi despedido sem justa causa, por email. Isto foi, mais uma vez, "à Sousa Cintra". No passado, pegou no microfone do comandante do avião e logo ali despachou Bobby Robson. Agora, achou que era por email
 
Sobre Jorge Jesus:
«Só uma vez é que as claques foram à Academia, em 2016. Eu proibi-os, e ficaram à porta. Depois, o Jesus passou de carro e convidou-os a entrar. Ele pediu-me desculpa e eu disse-lhe que não era ele que decidia, era eu.»
«Acho lamentável que se tenham aproveitado do treinador. Quando ele vai à final da Taça de Portugal promove um almoço com centenas de pessoas. Nesse dia, o motorista de Ricciardi andou a recolher assinaturas para a minha destituição. Não é normal.»
 
Sobre Carlos Vieira: 
«Quem coordenou com o Conselho Fiscal e Disciplinar a alteração dos estatutos e do regulamento disciplinar foi o Carlos Vieira... Foi brilhante, a táctica de todos eles!»
«Houve um primeiro relatório [sobre o assalto a Alcochete] que não me agradou, fiz mais perguntas, e estava à espera que o responsável da administração que tinha o pelouro da segurança, que se chama Carlos Vieira, me desse a resposta.»

Palavras sensatas... obrigado, Sousa Cintra

Agradeço muito como sportinguista o trabalho que está a ser feito por Sousa Cintra. Penso que todos os candidatos ou os putativos candidatos - sim, porque já me parece um perfeito exagero a quantidade de nomes que se perfilam para presidente - leiam com muita atenção as palavras sensatas de um homem maduro, com um sorriso aberto e cativante, que tão bem tem conduzido toda esta fase do nosso clube.

"Estou aqui por amor ao clube. Não sou candidato. Não aceito. A minha missão é fazer o melhor que puder até às eleições. Venha quem vier, venha um bom candidato, com ideias, credibilidade, para continuar com o Sporting. Eu não me vou candidatar, nem vou apoiar ninguém. Quero ficar isento. Darei todas as informações a qualquer candidato e tratarei todos de igual modo. Podem contar comigo para tudo, mas não vou apoiar ninguém. Seria deselegante. Estou aqui para servir o Sporting. Que ganhe um candidato fortíssimo, pois o Sporting precisa de paz, calma e tranquilidade, verdade e sem atropelos."

O que disse Jorge Jesus

 

«Não tenho nenhumas razões de queixa dos adeptos do Sporting. Pelo contrário, sempre me acarinharam. Foram fantásticos.»

 

«Recuperámos o Sporting em termos de mística, de orgulho. Fizemos o Sporting ser uma equipa novamente competitiva, a disputar o título. Em três anos, disputei o título duas vezes até ao limite das jornadas.»

 

«Eu sabia que não podia continuar no Sporting face ao que aconteceu, não só nas últimas semanas mas nos últimos meses.»

 

«É verdade que o presidente do Sporting queria afastar o Octávio Machado. Eu disse ao presidente do Sporting que, se mandasse embora o Octávio, teria que me mandar embora também a mim. O Octávio só saiu depois porque quis.»

 

«Sentimentalmente, a final da Taça de Portugal doeu-me muito mais [do que o ataque a Alcochete]. Senti que os adeptos do Sporting e os jogadores do Sporting não mereciam tudo aquilo que se passou e que fez que a equipa não estivesse em condições de poder disputar aquela final. Senti-me um pouco culpado. Não devíamos ter jogado naquele dia a final.»

 

«É verdade que os jogadores do Sporting não estavam em condições de efectuar aquela final.»

 

«Depois da final, senti-me um treinador impotente. Os jogadores estavam lá mas não ouviam.»

 

«Os jogadores passaram por momentos que vocês não imaginam naqueles cinco minutos naquele balneário. Aquilo parecia um filme de terror. Aquilo parecia as imagens que eu via do Daesh, no Líbano. Com palavras como "Vamos matar-vos a todos!".»

 

«Quando os vi [membros da claque] correrem para os balneários, fui a correr atrás e meti-me no meio daquele desespero todo.»

 

«Espero que as claques portuguesas percebam que ter paixão pelo clube não é esses actos [Alcochete]. Não intimidam ninguém. Os jogadores não vão correr mais nem menos para ganhar porque os adeptos vão às academias.»

 

«Os jogadores estão a tomar outras decisões - e ainda bem. Dou os parabéns ao presidente do Sporting [Sousa Cintra] pelo trabalho espectacular que está a fazer na recuperação da imagem do Sporting.»

 

«Falei com alguns jogadores antes de tomarem as decisões e disse-lhes: "Se o teu coração é esse, se a tua felicidade é essa, não hesites e regressa".»

 

«Já pedi ao presidente Sousa Cintra para anular a minha cláusula de confidencialidade.»

 

«O meu grande objectivo era ser campeão nacional no Sporting, como é óbvio. Pensava que em três anos conseguia ser campeão nacional. [Mas] sinto que, com a ajuda de toda a gente, deixei no Sporting uima estrutura espectacular em relação ao futebol.»

 

Esta noite, rompendo o silêncio, em entrevista à CMTV

O que disse Sousa Cintra

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«Rui Patrício é um jogador fantástico, dos melhores do Mundo. Quis sair e não vale a pena voltar atrás. A verba que o Sporting vai receber é à volta de 18 milhões de euros, um pouco menos.»

 

«O lugar de Bruno Fernandes é no Sporting e estou convencido que isso vai acontecer. Espero dar essa notícia aos sportinguistas. Com Podence é igual. Espero que isso aconteça porque estou a tratar desse assunto. Estamos a conversar.»

 

«Gelson? O meu desejo é que ele regresse, é um jovem com grande futuro. Não sei... Se sair, leva uma nódoa. Quero o melhor para Gelson, mas não posso deixar de defender o Sporting, as negociações não podem ser feitas de qualquer maneira.»

 

«Com um contrato daqueles, super milionário e absurdo... Não tenho nada contra ele [Mihajlovic], mas nunca ganhou nada. Não havia quaisquer vitórias. Sabia que foi um grande jogador a marcar livres mas o Sporting não precisa de um marcador de livres.»

 

«O Augusto Inácio é um funcionário, está lá. Porque deixaria de estar? Não vou dizer que vai haver um novo director desportivo, quero é que o Sporting tenha um bom desempenho e para isso as pessoas têm que estar empenhadas.»

 

Esta noite, à SIC e à SIC Notícias, em entrevista conduzida pelo jornalista Paulo Garcia

Manicómio em autogestão

Lamenta não ser escutado pelos órgãos de informação mas é a personalidade com mais tempo de antena em Portugal após o Presidente da República. Diz-se ignorado pelos jornalistas mas cada vez que tem um pela frente passa o tempo a insultá-lo e denegri-lo. Assegura que não despediu Jorge Jesus quando diversas testemunhas o ouviram dizer alto e bom que não contava mais com o treinador, que certamente por coincidência foi mesmo despachado e afinal "é muito difícil de substituir". Garante que não sondou Scolari nem Sá Pinto, sabendo-se que ambos foram contactados a seu pedido para substituírem Jesus (e tiveram o bom senso de recusar). Diz que nada tem a esconder embora saibamos hoje que impôs uma cláusula de silêncio a Jesus - compromisso que obriga as duas partes mas que admite vir ele próprio a violar quando lhe der na telha, assumindo aos olhos do mundo leonino que assina pactos de má fé. Afiança ter um novo treinador contratado há uma semana mas não divulgou ainda a sua identidade apenas para imitar os jogadores que andaram a anunciar rescisões às pinguinhas. Salienta que a única versão válida dos estatutos que já fez mudar seis vezes em cinco anos é aquela que não foi assinada pelos órgãos sociais nem está publicada em Diário da Republica ou sequer na página oficial do clube na internet. Revela ao País que uma providência cautelar é sempre decidida não com base em factos mas em "probabilidades", o que atesta a sua douta sapiência jurídica. Gaba-se de ter "os melhores advogados do mundo" enquanto vai somando derrotas nos tribunais. Adverte que, se lhe der na bolha ou se acordar para aí virado, impede a assembleia geral do dia 23 - a mesma que sempre assegurou que jamais se realizaria mas vai ocorrer por imposição do Tribunal da Comarca de Lisboa, mais interessado do que ele em dar voz aos sócios. Diz estar suspenso da condição de associado pelos órgãos provisórios de gestão e fiscalização, o que o impede de comparecer na assembleia geral, reconhecendo assim validade aos mesmos a quem proíbe de entrar em Alvalade. Jura que não pisará o Altice Arena no próximo sábado mas anda a implorar aos seguidores no facebook, noite após noite, para não deixarem de comparecer (e votar por ele)

Um chorrilho de inverdades

21.05: «Vou tentar ser muito curto.»

21.05: «Nos estatutos é claro que para haver uma Comissão de Fiscalização [isso] só pode acontecer quando se demite a totalidade dos membros [do Conselho Fiscal e Disciplinar]. Estou a citar os estatutos.»

21.05: «Temos uma Mesa [da Assembleia Geral] que se demitiu e um presidente que se demitiu por duas, três vezes.»

21.08: «Os estatutos que estão em vigor são os que dizem "a totalidade dos membros" [do CFD].»

21.09: «Jaime Marta Soares demitiu-se. E ao nível da lei basta fazer o que ele fez - vir a público nas televisões todas e dizer que estava demitido.»

21.10: «A Comissão de Fiscalização [empossada pelo Presidente da Mesa da Assembleia Geral] está ilegal.»

21.10: «Não parece que um acto corrente seja tirar de sócio os membros legitimamente eleitos pelos associados, que ainda há três meses atrás tiveram 90%.»

21.11: «Esta Comissão de Gestão não existe.»

21.12: «Tudo quanto Jaime Marta Soares fez está ferido de ilegalidades.»

21.13: «Uma providência cautelar, uma das características que ela tem, é o facto de não precisar de ter certeza e de apenas poder ir pela probabilidade. Isto é a lei, isto está escrito.»

21.13: «A única providência cautelar que pedia para que a Comissão de Transição da Mesa da Assembleia Geral (CTMAG), que foi por nós designada, fosse considerada inválida, foi indeferida.»

21.15: «Nenhuma providência cautelar até agora disse que Jaime Marta Soares era o presidente da Mesa da Assembleia Geral. Ponto.»

21.17: «Não há nenhuma providência cautelar que diga que Jaime Marta Soares é o presidente da Mesa em funcionamento. Não há nenhuma providência cautelar que diga que a CTMAG é ilegal. Não há nenhuma providência cautelar que diga que a Comissão de Fiscalização que Jaime Marta Soares criou é legal. Nem nenhuma providência cautelar que diga que a Comissão de Fiscalização por nós criada é legal. Assim como não há nenhuma providência cautelar que diga que a minha CTMAG é legal ou a minha Comissão de Fiscalização é ilegal.»

21.20: «Todas as providências cautelares, como são pedidas sem audição, vão pela probabilidade. Um juiz não tem que ver televisão, não tem que saber se a pessoa se demitiu ou não se demitiu, quais são os estatutos, qual é a jurisprudência...»

21.21: «Probabilisticamente, o que vieram [o Tribunal da Comarca de Lisboa] dizer é: "Em princípio, a assembleia geral do dia 23 é aquela que nos parece ser a legal. Probabilisticamente".»

21.22: «Esta Comissão de Fiscalização, a primeira coisa que fez, foi logo retirar de sócios os únicos [do Conselho Directivo] que estavam lá legitimamente eleitos e a conduzir os destinos do Sporting.»

21.24: «Nós fomos afastados de sócios.»

21.25: «Nós fomos suspensos [de sócios], não expulsos.»

21.29: «Eu estou impedido [de intervir na assembleia geral do dia 23], por esta Mesa que eu considero ilegal, porque estou suspenso de sócio.»

21.30: «Infelizmente vai ser feita uma assembleia geral de destituição, que é um julgamento em praça pública, sem que as pessoas se possam defender.»

 

A lista não é exaustiva. Trechos da entrevista dada há pouco pelo presidente suspenso do Conselho Directivo do Sporting à SIC e à SIC Notícias.

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