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És a nossa Fé!

Elas na história do Sporting (10): Naide Gomes

 

 

Enezenaide do Rosário da Vera Cruz Gomes, conhecida no mundo do desporto como Naide Gomes – ao que se conta, devido, por um lado, às dificuldades de pronunciar o nome e, por outro, ao facto de ele não caber nos marcadores electrónicos - é, sem margem para dúvidas, uma das maiores figuras da hIstória do Sporting Clube de Portugal. Qualquer vista de olhos, por mais distraída que seja, ao seu longo e riquíssimo currículo o confirmará, se é que alguém exige que tal juízo seja corroborado. Quantos atletas, mulheres ou homens, praticantes de atletismo ou de seja que actividade desportiva for, podem apresentar, nos anais do clube, um rol tão extenso de títulos,  vitórias em diversas disciplinas, recordes nacionais, medalhas, internacionalizações, participações em competições internacionais, em jogos olímpicos  e o mais que me estiver a escapar? Muito poucos, certamente.

 

 

A figura de Naide Gomes, no espaço do desporto português, resplandece de tal maneira que me considero dispensado de fazer  uma apresentação desenvolvida do seu palmarés. Mesmo uma enumeração sumariada dos seus triunfos, medalhas e recordes seria demasiado longa para um texto deste tipo, pelo que, como tem sido hábito, remeto os mais interessados para sites especializados na matéria, como este, por exemplo.

 

 

Naide Gomes nasceu em S.Tomé, em representação de cuja selecção esteve presente, entre outras competições, nos Jogos Olímpicos de Sidney, nos Jogos Pan-Africanos, em Joanesburgo, e nos Campeonatos da África Central, nos Camarões, em que ganhou cinco medalhas. Tinha onze anos quando saiu de S.Tomé e já estava perto de fazer dezoito, ainda júnior, portanto, quando veio para o Sporting, onde começou a ser treinada por Abreu Matos. Só relativamente tarde optou definitivamente pelo salto em comprimento, prova que viria a celebrizá-la e na qual obteve os mais importantes triunfos da carreira, não tendo, no entanto, deixado os seus créditos por mãos alheias nalgumas outras disciplinas. Assim, foi, também, campeã nacional de salto em altura e dos 100m barreiras, tanto ao ar livre como em pista coberta. Começou pelas provas combinadas, onde obteve, igualmente, grandes êxitos, em Portugal e no estrangeiro, tendo sido campeã nacional de hepatlo. Em todas estas provas, Naide Gomes foi recordista nacional, ultrapassando marcas que, nalguns casos, já duravam há largos anos, tendo ainda, na companhia de Eva Vital, Sónia Tavares e Carla Tavares, as duas últimas também atletas do Sporting, batido, em 2009, o record nacional dos 4X100m. Mas, foi, de facto, principalmente no salto em comprimento que Naide adquiriu o direito a um lugar de eleição na história do Sporting Clube de Portugal. A partir de 2002, ganhou dezassete títulos nacionais desta disciplina, nove delas em pista coberta. Esta nossa grande atleta levou o máximo nacional até aos 7,12m, tendo-o batido, imagine-se, vinte e oito vezes ( 28, não é engano), catorze delas em pista coberta.

 

Em grandes provas internacionais, Naide Gomes, para abreviar e evitar um post gigantesco, obteve, ao ar livre, dois segundos lugares em campeonatos da Europa, em Gotemburgo, em 2006, e em Barcelona, em 2010, ambos no salto em comprimento, tendo sido quarta classificada no Mundial de Osaca, em 2007, e no de Berlim, em 2009, também no salto em comprimento. Em pista coberta as coisas correram melhor, Naide não foi perseguida pelo azar que a atormentou ao ar livre – nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, por exemplo, falhou a qualificação para a final do salto em comprimento, num ano em que atingira os 7,12m  e em que fora, em Valência, campeã mundial de pista coberta – tendo conseguido dois títulos mundiais, em Budapeste 2004, no pentatlo, e, como já disse, em Valência 2008, e dois europeus, em Madrid 2005 e Birmingham 2007,os últimos três no salto em comprimento. Igualmente nesta disciplina, Naide Gomes foi vice-campeã mundial, em pista coberta, em Moscovo 2006 e em Doha 2010, e segunda classificada no Europeu de Paris, em 2011. Refira-se, ainda, que no pentatlo, em pista coberta, Naide foi também vice-campeã europeia no campeonato de 2002, em Viena.

 

 

Mais longe poderíamos ir se quiséssemos descrever exaustivamente a carreira de Naide, nem mencionei, por exemplo, o facto de ela ter sido vice-campeã mundial universitária em Izmir 2005. Mas, para o efeito, parece-me que basta. Os dados que apresento são mais do que suficientes para a elevar, como me propus, a um lugar de honra na história do Sporting Clube de Portugal. Estou, como é óbvio, a partilhar um sentimento comum a muitos e muitos sportinguistas, como pode concluir-se do facto de ter merecido já 10 Prémios Stromp, um número quase inacreditável.

 

 

Termino hoje esta série de posts sobre  algumas grandes mulheres da vida do nosso clube, algumas mulheres que, permitam que repita o que disse no primeiro texto, dedicado a Lídia Faria, parece, às vezes, estarem a ser esquecidas e que, contudo, desempenharam um papel talvez decisivo  na consolidação e propagação do sportinguismo e contribuíram de forma extraordinária para que muitos e muitos portugueses transmitissem aos seus filhos estes sentimentos e esta cultura desportiva, esta vaidade de ter participado na construção e crescimento de um clube com milhões de adeptos a partir, já lá vão mais de cem anos, da iniciativa de um pequeno núcleo de fundadores.

 

Referi um pequeno número de figuras, tendo eu, certamente, cometido  injustiças com a exclusão de algumas outras. Haverá muitos nomes que poderia ter incluído na série, mas, como avisei no início, não pretendi mais do que mencionar os que me parecessem especialmente relevantes, aqueles que eu considerasse imprescindíveis em qualquer lista deste género. Atendendo à riqueza da história do Sporting, é certo que outros que se dediquem a esta tarefa terão escolhas diferentes, talvez muito diferentes, todas com tão boas razões como as que apresentei. O atletismo foi esmagadoramente representado nesta minha selecção, mas salientei, também, a ginástica e o ténis de mesa, desportos que, muito graças às desportistas cujas carreiras no Sporting me esforcei por pôr em evidência, contribuiram, de forma decisiva, para o ecletismo de que tanto nos orgulhamos. Aqui neste blogue ou em qualquer outro sítio, espero que apareçam outros nomes. Venham eles, que ideias e memórias de grandes cometimentos não hão-de faltar.

 

Elas na história do Sporting (9): Avelina Alvarez

Avelina.JPG

 

Embora, para o grande público, de forma quase sempre mais ou menos despercebida, a ginástica desempenhou ao longo da história do Sporting um importantíssimo papel na vida do clube. Esta modalidade, além, naturalmente, do seu peso como disciplina de base na preparação de muitas outras actividades desportivas, pôde constituir-se como um pólo fundamental da relação entre o clube e os sócios. De facto, secundada, especialmente, pela natação, a ginástica sempre proporcionou aos sportinguistas a possibilidade de uma efectiva prática do desporto, permitindo assim que o Sporting apresentasse e beneficiasse de uma intensa vida associativa, salutarmente alheia às preocupações com os êxitos ou os fracassos da sua equipa de futebol.

 

Dois nomes foram decisivos para a definitiva importância que a ginástica atingiu e mantém no Sporting: João Rocha, cujo impulso, principalmente no início do período que se seguiu ao 25 de Abril, fez com que os praticantes deste desporto atingissem um número da ordem dos milhares, cerca de 7 500 no início dos anos 80, e o Prof. Henrique Reis Pinto, uma figura extraordinária do clube e, muitas vezes, tão lamentavelmente esquecida pela generalidade dos sportinguistas.

 

Henrique Reis Pinto chegou ao Sporting em 1948 e por cá permaneceu durante 56 anos, até 2004, ano da sua morte. Apaixonado adepto do Sporting,  homem com um currículo no clube que o torna numa figura de certo modo semelhante à de Mário Moniz Pereira, Reis Pinto, além da maneira empenhada e competente como tratou das coisas da ginástica e as trouxe para um patamar elevadíssimo de adesão popular, dedicou-se, também, ao basquetebol, voleibol, futebol e remo e foi preparador físico das equipas de futebol do Sporting que conquistaram o campeonato nacional, a Taça de Portugal e a Taça dos Vencedores da Taças, respectivamente, em 1962, 1963 e 1964. Henrique Reis Pinto foi ainda o grande responsável pela realização em Portugal, em 2003, da Gymnaestrada, um acontecimento desportivo, destituído de carácter competitivo, de relevância mundial. Foi ainda, por duas vezes, vogal da direcção do clube e desempenhou, ao serviço do Estado, funções como Coordenador Nacional do Desporto, Subdirector Geral dos Desportos e Director Geral dos Desportos e, exerceu, na Federação Portuguesa de Ginástica, os cargos de Director Técnico de Ginástica Geral, Membro do Comité Técnico de Ginástica Geral e Presidente da Direcção. O Prof. Reis Pinto foi, igualmente, representante do Ministério da Educação no Comité Intergovernamental da UNESCO, em Paris, e representou o Ministério dos Negócios Estrangeiros no Conselho da Europa, em Estrasburgo.

 

Uma carreira desta dimensão não podia deixar de ser abrilhantada com significativas honrarias, como foram, entre outros, os prémios e condecorações Leão de Ouro, atribuído pela Assembleia Geral do Sporting Clube de Portugal, em 1978, a Medalha de Mérito Desportivo, em 1982, a de Comendador da Ordem do Infante, atribuída pela Presidência da República, em 1982, o de Sócio de Mérito da Federação Portuguesa de Ginástica, em 1982, a Medalha Reconhecimento, pela União Europeia de Ginástica, em 1993, e o Colar Valor, Mérito e Bons Serviços, pela Federação Portuguesa de Ginástica, em 1995. Foi-lhe, igualmente, atribuído um Prémio Stromp, em 1966.

 

As palavras são como as cerejas e, onde eu pretendia estabelecer uma base para a modesta consagração, nesta série, de mais uma figura feminina da história do Sporting, vinda de fora do atletismo, quase acabei por dedicar o texto, exclusivamente, a mais um nome masculino dessa mesma história. Não que isso fizesse mal. Se não existisse uma conexão, alterava o título do post, centrava-o no Prof. Reis Pinto e escrevia outro sobre Avelina Alvarez. Mas não me parece que isso seja necessário. Esta grande atleta do Sporting foi uma excelente ginasta e numa época em que a modalidade, graças, em grande parte, a Reis Pinto, se afirmava como um pilar do clube, conseguiu ser, por três vezes consecutivas, campeã nacional individual, em 1979, 1980 e 1981, tendo estado presente, em representação de Portugal, nos Jogos Olímpicos de Moscovo. Em 1981, a sua importância como atleta do clube foi reconhecida com a atribuição de um Prémio Stromp, devendo salientar-se, ainda, que Avelina Alvarez constou do conjunto de 100 personalidades que fizeram  parte da Comissão de Honra do Primeiro Centenário. Como se vê, Avelina Alvarez resiste com bravura à proximidade de Henrique Reis Pinto, erguendo-se como um nome valiosíssimo na história do Sporting Clube de Portugal.

 

Elas na história do Sporting (8): Teresa Machado

 

 

Após uma breve incursão no ténis de mesa, na companhia de Madalena Gentil, regressemos ao atletismo e a um dos mais altissonantes nomes dos anais do Sporting Clube de Portugal e deste fabuloso desporto no nosso país:Teresa Machado. Não fora o esmagamento a que o futebol sujeita qualquer outra actividade desportiva em Portugal e escrever um texto sobre esta fantástica atleta seria bem mais exigente, já que obrigaria a um esforço suplementar de pesquisa e a um especial vigor da imaginação. Seria como escrever sobre Luís Figo, Cristiano Ronaldo, Mário Coluna ou Eusébio, saber-se -ia  quase tudo sobre ela e eu seria forçado a procurar estes e aqueles detalhes mais incógnitos ou obscuros.

 

Assim, com a vida facilitada pelo desconhecimento geral de um nome que não está ligado ao futebol - não quero com isto dizer que o mal esteja radicado nos leitores com paciência para a leitura dos textos que tenho escrito para esta  série, ele está, antes, no clima criado, acima de tudo, pela imprensa desportiva, cujos critérios mercantilistas, muito mais do que quaisquer outros, se é que estes existem, trucidam implacavelmente tudo o que escape ao dia a dia em redor do sacrossanto e adorado esférico - basta-me fazer uma resenha dos triunfos e resultados obtidos por esta nossa inacreditável atleta para que qualquer interessado fique, como eu, imediatamente convencido da elementar justiça de a colocar entre as grandes figuras da história do Sporting Clube de Portugal.

 

Teresa Machado veio para o Sporting aos 17 anos de idade, em 1986, ano em que, representando o Galitos - centenário clube e relevantíssima instituição aveirense, em que vale a pena pôr os olhos - foi pela primeira vez campeã nacional de lançamento do disco. Até ao final da sua carreira, foi campeã nacional de peso e disco por cinquenta e três vezes (53!), dezasseis vezes no lançamento do disco, dezoito no do peso e dezanove no do peso em pista coberta. No decurso dos dezassete anos em que representou o Sporting, entre 1986 e 2003 - a excepção foi 1994, ano em que os muitos problemas financeiros que afectaram o clube a levaram a praticar o atletismo ao serviço da Junta de Freguesia de São Jacinto - Teresa Machado conquistou quarenta e quatro títulos nacionais. A lista  das suas vitórias, recordes nacionais e participações em competições internacionais não pode ser minimamente exaustiva num texto deste género. Aconselho, por isso, os mais interessados a recorrerem à WikiSporting, cuja involuntária ajuda muito agradeço, para se porem a par de um historial de tirar a respiração.

 

 

Sem, portanto, querer submeter-me e aos leitores a tarefa tão extenuante, recordo, apenas, que Teresa Machado, além da conquista dos campeonatos nacionais acima referidos, participou nos Jogos Olímpicos de Barcelona, Atlanta, Sidney e Atenas,  em sete Campeonatos do Mundo, em três Campeonatos da Europa, em cinco Campeonatos Ibero-Americanos, em cinco Challenges e Taças da Europa de Lançamentos, em dezoito Taças da Europa (em Peso e Disco), num Campeonato do Mundo de Juniores e num Campeonato da Europa de Juniores. Tudo isto,é claro, sem falar de uma grande série de importantes eventos desportivos internacionais que, no currículo de qualquer atleta, serão mencionados com justificadíssimo alarde.

 

Se nos campeonatos Ibero-Americanos Teresa Machado nos brindou com excelentes vitórias, tendo ganho a medalha de ouro do lançamento de disco em 1990, em Manaus, a medalha de ouro, também do lançamento do disco, em 1994, em Mar del Plata, a medalha de ouro, ainda do lançamento do disco, em 1998, em Lisboa, e a medalha de bronze do lançamento do peso, igualmente em 1998, em Lisboa, já nos Jogos Olímpicos e nos Campeonatos do Mundo pareceu, quase sempre, atingida por síndrome idêntica à que travou a, mesmo assim, extraordinária carreira internacional de outro dos maiores nomes da história do Sporting, o do inesquecível Fernando Mamede. Apesar desta limitação, Teresa Machado conseguiu um 10º lugar nos Jogos Olímpicos de Atlanta e um 11º nos de Sidney, um 6º no Mundial de Atenas e um 10º no de Paris e, ainda, um 7º e um 9º lugares nos Europeus de Munique e Budapeste, respectivamente. Repare-se que estamos a falar dos lançamentos do disco e peso, provas de enorme dificuldade técnica que, muito mais do que hoje, levantavam grandes problemas aos atletas nacionais.

 

 

Se nos propusermos falar de recordes nacionais, salientemos, não nos preocupando com os tantos e tantos que Teresa Machado bateu ao longo da sua carreira e já passaram à história, os que ainda estão em vigor: peso, 17,18 m, em 1996; peso em pista coberta, 17,26 m, em 1998; disco, 65,40, em 1998; peso, sub 23, 16,46, em 1991; peso, juniores, 15,54, em 1988; peso em pista coberta, sub 23, 16,41, em 1990 e peso em pista coberta, juniores, 15,69, em 1988. Repito, trata-se de recordes que ainda perduram, como os mais desconfiados ou incrédulos podem verificar no site da Federação Portuguesa de Atletismo. Sublinho, já que estou a falar em recordes nacionais, que Teresa Machado também chegou a ter o do lançamento do martelo. Quase me esquecia de o mencionar, por aqui se vendo a importância que mais um ou outro máximo vem a ter na avaliação final da carreira da atleta.

 

A vida de Teresa Machado dava um filme. Os interessados podem vê-lo no site Atletismo Estatística, em que Manuel Arons de Carvalho desenha com brevidade a história desportiva da nossa grande atleta. Como conta este jornalista, em toda a sua carreira, aqui se incluindo os dezassete anos no Sporting, Teresa Machado manteve-se sempre em Aveiro, onde, inicialmente trabalhava numa fábrica de confecções, sem nunca deixar de ser orientada pelo seu primeiro e único treinador, Júlio Cirino. Chegou a treinar-se num jardim público, a tomar cuidado com os seus utentes, treinou-se num parque de estacionamento, com Júlio Cirino a dar-lhe orientações pela janela do seu escritório, e conseguiu, finalmente, que lhe cedessem um areal vedado, ao pé da lota do peixe da Gafanha da Nazaré.

 

 

Por motivos que desconheço, Teresa Machado, ao fim de dezassete anos no Sporting, acabou por ir parar aos Açores, onde, durante quatro anos, representou o Clube Operário Desportivo. No final da carreira, ainda esteve um ano no F.C. Porto, ao serviço do qual, já com quarenta anos, ainda foi a terceira melhor portuguesa no lançamento do disco.

 

Não tenho quaisquer dúvidas sobre o que está reservado, na história do Sporting Clube de Portugal, para esta  excepcional desportista, que foi distinguida, entre outras honrarias, com dois Prémios Stromp, em 1988 e 1997. Um lugar dos mais altos, como é óbvio.

Elas na história do Sporting (7): Madalena Gentil

Repito o que tenho dito e reafirmei ao iniciar esta série, no texto dedicado a Lídia Faria: sou um devotado sportinguista, educado a gostar de um clube eclético e habituado a vitórias e conquistas nas mais diversas modalidades, e não um simples apaixonado pelo futebol, para quem o Sporting se esgota nas suas competições e refregas. E, porque sei que essa vida só faz sentido num clima de competição com adversários capazes, poderosos e igualmente orgulhosos dos seus nomes e das suas histórias, estou, também, preparado para as derrotas que, inevitavelmente, hão-de vir a par dos triunfos.

 

A minha paixão pelo clube foi crescendo nesta luta, com muitas vitórias e muitas derrotas, nas variadíssimas modalidades que, ao longo dos anos, foram correspondendo ao desejo de um Sporting tão eclético quanto possível - às vezes, há quem pense, desmesuradamente eclético - levando-me, atraído pelo brilho das vitórias de que ia tomando conhecimento, a apreciar desportos a que o grande público  prestava, em geral, pouca atenção e a admirar nomes que, pela excelência do seu desempenho, se iam furtando ao anonimato. Um destes é o de uma excepcional praticante de ténis de mesa, uma mulher que correspondeu por inteiro ao caminho idealizado pelos fundadores do clube e que foi percorrido, no decurso de mais de um século, por tantos milhões de adeptos.

 

 

Estou a referir-me a Madalena Gentil, uma das mais brilhantes praticantes, ou mesmo a mais brilhante, da história deste desporto no nosso país. Apaixonadamente sportinguista, Madalena Gentil iniciou-se no clube com quinze anos, tendo tido, até se retirar, um percurso notabilíssimo. Em singulares, foi campeã nacional por seis vezes, entre 1968 e 1978, a primeira delas ainda com dezasseis anos, e, em pares, foi igualmente campeã nacional por cinco vezes, entre 1967 e 1979, com estreia, portanto, aos quinze anos. Foi campeã nacional de pares mistos duas vezes, em 1974 e 1978, e, em representação do Sporting, foi cinco vezes campeã nacional de equipas, entre os anos de 1972 e 1977. A sua carreira pode ser apreciada em mais pormenor no Armazém Leonino, a cujos autores agradeço algumas das informações que menciono. Poder-se-á verificar que, além destes títulos nacionais, Madalena Gentil obteve ainda muitas vitórias noutras provas, entre as quais Taças de Portugal e Campeonatos de Lisboa, e que foi, igualmente, campeã ibérica de pares mistos, fazendo equipa com o também atleta do Sporting Óscar Lameira. Outras excelentes praticantes da modalidade, como Marília Santamarina, Ana Lia ou Anabela Fernandes, foram decisivas, com os seus muitos títulos, para a posição de marcada proeminência que o ténis de mesa do Sporting, neste caso feminino, foi adquirindo, principalmente no último quartel do século passado, mas Madalena Gentil é, pelo seu extenso e cintilante currículo, credora de uma admiração muito especial.

 

 

Retribuindo os preciosos serviços prestados ao ténis de mesa e ao clube, o Comité Olímpico Português, a Federação Portuguesa de Ténis de Mesa e o Sporting   coroaram esta nossa grande atleta com diversas distinções, de que realço o Prémio Stromp, em 1978, e o Prémio Rugidos de Leão, em 1991.

 

Muitos sportinguistas, entre os que nunca ouviram falar e os que se lembram mal de Madalena Gentil, recordar-se-ão certamente dela ao verem as fotografias que ilustram o presente texto. É que esta grande sportinguista não se limitou a ser uma gigante nos palcos da sua actividade desportiva, dedicou quase uma vida ao nosso clube, onde passou perto de quarenta anos nos serviços administrativos, exercendo funções que a mantinham em contacto com os sócios. Os tantos e tantos milhares de sportinguistas que com ela, por isso, se relacionaram podem, também neste âmbito, testemunhar o seu inestimável contributo, na qualidade de funcionária competente e dedicada, para o crescimento, consolidação e sucesso de um modelo de clube que não podemos correr o risco de ver definhar.

 

 

Madalena Gentil partiu cedo, estando quase a perfazer-se um período de dois anos depois da sua morte. Espero que esta pequena homenagem concorra para um melhor conhecimento de tão insigne sportinguista e desportista, cujo nome, não tenho dúvidas, figurará  com merecidíssimo destaque na história do Sporting Clube de Portugal. Com tanto mais fulgor quanto o Sporting souber honrar a sua história e continuar a ser um clube que se distinga, com imenso orgulho, por um inalienável ecletismo. 

Elas na história do Sporting (6): Manuela Alves

 

Manuela Alves depois de Conceição, a sua gémea. Com um percurso no Sporting idêntico ao da irmã, Manuela Alves começou por se notabilizar quando, ainda no Desportivo de Lourenço Marques, foi, com a idade de quinze anos, campeã de Portugal dos 400 metros. Depois da vinda para  Lisboa, a atleta entrou para o Sporting, em representação do qual foi campeã de Portugal, por três anos consecutivos, entre 1975 e 1977, dos 400 metros e dos 400 metros barreiras. Saliente-se, igualmente, a sua participação nas vitórias do Sporting, entre os anos de 1974 e 1977, nos campeonatos nacionais das estafetas de 4X400 metros, quatro vezes consecutivas, portanto, e a sua inclusão numa equipa nacional que, em 1977, bateu o record nacional da especialidade, impondo-o por um período de oito anos.

 

 

Mudando de prova, refira-se que Manuela Alves venceu ainda, em representação do Sporting,  o campeonato nacional da estafeta de 4X100 metros, na temporada de 1977.

 

Manuela Alves acabou por não ter tido uma carreira com tantos títulos como a sua irmã, tendo sido uma atleta muito mais marcada pela especialização, nos 400 metros e 400 metros barreiras, como vimos. Ao longo dos anos em que representou o Sporting fez, de qualquer maneira, o suficiente, numa época de ouro do nosso atletismo feminino, para que a devamos considerar um nome a reter na história do clube.

Elas na história do Sporting (5): Conceição Alves

 

Conceição Alves, mais um nome gigante na história do Sporting e do atletismo português. Tal como as atletas a que foram dedicados os números anteriores desta série, Conceição Alves foi uma desportista que representou o Sporting a um nível elevadíssimo, muito difícil de atingir por qualquer atleta de qualquer modalidade, como facilmente concluiremos se prestarmos uma pequena atenção aos extraordinários resultados que obteve no decurso da sua carreira, tanto a nível individual como integrada em equipas do clube.

 

 

Conceição Alves, com a sua irmã gémea Manuela, também nossa grande atleta, para quem está reservado um próximo número destas evocações, veio para Portugal, oriunda de Moçambique, onde se distinguia com as cores do Desportivo de Lourenço Marques, e ingressou no Sporting em 1974, ano em que logo começou a dar nas vistas no salto em altura, disciplina em que viria a fazer-se notar, para a época e tendo em conta as limitações do atletismo português, num plano quase estratosférico. Naquele tempo, em que a especialização começava, no atletismo, a dar, entre nós, os primeiros passos, Conceição Alves conseguiu, ao longo de muitos anos de carreira, resultados excepcionais numa notável variedade de disciplinas. Muito sinteticamente, deixando, como tenho feito, a quem quiser uma relação mais pormenorizada, a indicação deste sítio, a que agradeço os elementos a seguir referidos, podemos destacar:

 

- foi campeã de Portugal dos 100 metros barreiras em quatro ocasiões, batendo várias vezes o respectivo record nacional;

- foi três vezes campeã de Portugal de salto em altura;

- bateu 12 vezes o record nacional da disciplina, fazendo progredir a respectiva marca de 1,61 m até 1,77 m, tendo esta última permanecido inultrapassada durante 9 anos;

- foi campeã de Portugal de salto em comprimento em duas temporadas, tendo também obtido três vezes o respectivo máximo nacional;

- foi, uma vez, campeã nacional do lançamento do peso;

- tendo-se dedicado, atendendo ao seu ecletismo, às provas combinadas, Conceição Alves foi, ainda, campeã nacional e recordista nacional do pentatlo e, depois, do heptatlo

e

- em pista coberta, obteve muitos títulos e máximos nacionais nos 60 metros barreiras, salto em altura e salto em comprimento.

Isto é apenas o essencial, o mínimo que podemos salientar na sua carreira, nem sequer refiro os contributos que teve para os muitos títulos colectivos do Sporting. Acrescentando uma especialidade às que acima menciono, poderíamos, por exemplo, dar o merecido relevo à sua participação em duas equipas do clube que venceram campeonatos de Portugal da estafeta de 4x100 metros. E poderíamos, também, destacar as muitas competições em que participou em representação do país.

 

Estes resultados e uma carreira devotada ao clube parecem-me mais do que suficientes para que incluamos Conceição Alves entre as grandes figuras da história do Sporting. Podemos ter a esperança de que este nome enorme não seja facilmente esquecido, tanto mais quanto tivermos em conta que lhe foram atribuídos um Prémio Stromp, em 1979, e, mais recentemente, em 2012, um prémio Rugidos de Leão. Mas é bom que, de vez em quando, relembremos a figura inesquecível de Conceição Alves entre as de grandes atletas do clube, praticantes de muitas modalidades, a que devemos a grandeza do Sporting Clube de Portugal.

 

Pelo seu contributo para a história de um Sporting com a dimensão que os seus fundadores sonharam e com a grandeza que nós, sportinguistas, queremos que se mantenha, uma calorosa saudação, de sincero reconhecimento, a Conceição Alves.

Elas na história do Sporting (4): Céu Lopes

 Outra grande atleta do Sporting, que competiu em companhia de Lídia Faria, Eulália Mendes e Francelina Anacleto, a que me referi nos números anteriores, foi Céu Lopes. Excelente praticante da velocidade prolongada, Céu Lopes foi, entre as mais notáveis atletas portuguesas, uma das primeiras ou mesmo a primeira a não enveredar por uma abordagem generalista do atletismo, dedicando-se, praticamente em exclusivo, a uma especialidade.

 

Céulopes.JPG

 

O currículo de Céu Lopes é suficientemente eloquente, dispensando bem mais apresentações ou elogios. Resumidamente: vencedora, em 1968, fazendo parte da equipa do Sporting, do campeonato nacional da estafeta de 4x100 metros; cinco vezes consecutivas campeã nacional de 800 metros, entre 1968 e 1972; três vezes consecutivas campeã nacional de 400 metros, entre 1968 e 1970; duas vezes campeã nacional de 1500 metros, em 1971 e 1972, e vencedora, integrando sempre equipas do Sporting, por quatro vezes consecutivas, entre 1969 e 1972, do título nacional da estafeta de 4x400 metros. Foi recordista nacional, tendo superado muitas vezes as respectivas marcas, de 400 metros, 800 metros, 1500 metros e 4x 400 metros, sendo que, no ano de 1972, chegou a deter simultaneamente todos estes máximos. Também em 1972, foi a primeira atleta do Sporting a ganhar o Campeonato Nacional de Corta-Mato Feminino.

 

Lembro-me bem de, jovem, acompanhar o atletismo do Sporting e de ficar rendido às proezas e elegância de Céu Lopes, que, tanto quanto consigo lembrar-me, somava à qualidade dos seus resultados uma dimensão estética da técnica de corrida que, ainda mais, a valorizava. Não sei bem porquê, esta nossa grande atleta, pelo que posso julgar a partir das minhas conversas com outros devotos do clube e do atletismo e de algumas leituras, nomeadamente noutros blogues, não terá ficado tão ligada às memórias de muitos sportinguistas como aquelas a quem dediquei os três primeiros textos desta série. Pura injustiça, claro, se é que isto é mesmo verdade. O breve resumo acima exposto fala por si e não deixa margem para dúvidas sobre o nosso dever de prestar uma condigna homenagem a Maria do Céu Lopes, destacando o seu nome, com o devido relevo, ou seja a letras de ouro, como ela bem merece, na história do Sporting Clube de Portugal.

Elas na história do Sporting (3): Francelina Anacleto

Francelina Anacleto, com Lídia Faria e Eulália Mendes, sobre quem escrevi nos dois números anteriores desta série, formou um notável trio, em larga medida responsável pelo êxito e hegemonia do atletismo feminino do Sporting nos anos sessenta e  setenta do século passado. Francelina Anacleto, que competiu entre 1960 e 1967, destacou-se, fundamentalmente, nas provas de velocidade e do salto em comprimento. Embora favorecida, em comparação com os dias de hoje, pelas circunstâncias próprias de uma época na qual a especialização estava ainda longe de se tornar numa realidade, Francelina obteve, também, excelentes marcas nos 400m, cujo recorde nacional bateu por duas vezes em 1961, após oito anos em que perdurou a marca feita por Georgette Duarte, extraordinária atleta do Belenenses e um dos maiores símbolos do grande clube azul, e no pentlato, de que foi campeã em 1965.

 

Francelina Anacleto

 

No plano individual, a que haverá que juntar os títulos colectivos que alcançou como representante do Sporting, assinale-se, a par de muitos outros também relevantes, o facto de ter sido campeã de Portugal por quatro vezes nas disciplinas dos 100 metros e do salto em comprimento e por duas vezes na dos 200 metros. Francelina Anacleto fez, igualmente, parte da selecção nacional de 4x100 m, inteiramente preenchida por atletas do Sporting, que, pela primeira vez, em 1964, baixou dos 50 segundos nesta prova de estafetas, fixando um recorde que se manteve por um período de seis anos. Também o seu último recorde do salto em comprimento, que conseguiu por oito vezes entre 1961 e 1965, teve cinco anos de vida, sendo já velho de quase vinte e um anos o máximo nacional dos 100 metros que a atleta bateu em 1961. Muito mais vitórias e marcas de grande valor poderia sublinhar, como os  interessados confirmarão, entre outras fontes, na WikiSporting, a cuja preciosa ajuda, mais uma vez, recorro. Só no que ao número de recordes nacionais individuais respeita, Francelina registou por sete vezes o de 100 metros, cinco vezes o de 200 metros, oito vezes o do salto em comprimento e duas vezes o dos 400 metros. A estes haverá ainda que somar os das estafetas e os que foram obtidos em pista coberta. E bem mais longe poderia certamente ter ido esta nossa grande desportista, se não se tivesse retirado, em consequência de grave lesão, com a idade de 22 anos. Em tão pouco tempo, até, repito, aos 22 anos,  Francelina Anacleto marcou brilhantemente, como muito abreviadamente descrevi, o atletismo português e a história do Sporting.

 

Francelina Anacleto

 

Outras coisas acabaram por ficar em casa. Francelina Anacleto, a quem presto a minha homenagem e a quem devemos agradecer todo o muito que fez pelo engrandecimento do Sporting, casou com outro nome mítico do atletismo nacional e um dos maiores atletas de sempre do clube, Tadeu de Freitas, grande declatonista e saltador de triplo salto e de salto em comprimento, assim confirmando, com exuberância verde e branca, que les beaux esprits se rencontrent. Os dois, na via empresarial que seguiram após o termo das suas carreiras no atletismo, criaram uma marca de equipamentos desportivos, Tadeu e Francelina, mais tarde Saillev, que, a certa altura, chegou a fornecer equipas do Sporting.

 

Em 1964, foi atribuída a esta nossa grande atleta a Medalha de Mérito Desportivo do Sporting Clube de Portugal.

 

 

P.S. Já depois de publicados os dois textos anteriores, dedicados a Lídia Faria e Eulália Mendes, foi-me chamada a atenção para a ambiguidade do pronome nossa, utilizado no título genérico desta série. Reconhecendo o risco dessa duplicidade e embora nunca me tenha passado pela cabeça, como me parece óbvio, a intenção de ironizar sobre o assunto, decidi, para dissipar possíveis equívocos, alterar esse título, que passará a ser Elas na história do Sporting. Para o efeito, corrigi já os dois primeiros números.

Elas na história do Sporting (2): Eulália Mendes

 

 

 

Outra extraordinária atleta do Sporting nos anos 60 e princípio dos 70 foi Eulália Mendes. Tal como Lídia Faria, a quem dediquei o primeiro número desta série, a sua carreira, sempre com desempenhos de altíssima qualidade, estendeu-se por um vasto conjunto de especialidades, exibindo uma especial distinção nas provas de velocidade, 400 e 800 metros e no salto em comprimento. Eulália Mendes consagrou-se, ao longo dos anos e por muitas vezes, como campeã de Portugal e recordista nacional dos 4x100 m, 200m, 400m, 800m, salto em comprimento e pentatlo, tendo, entre outros magníficos resultados, sido a primeira atleta portuguesa a correr os 400 metros em menos de um minuto e feito parte da primeira equipa portuguesa, uma selecção nacional da distância integralmente composta por atletas do Sporting, a correr os 4x100 metros em menos de 50 segundos. Eulália Mendes foi também a primeira atleta portuguesa a correr os 800 metros em menos de 2m 30s e integrou as equipas do Sporting que, entre os anos de 1969 e 1972, ganharam os quatro primeiros campeonatos de Portugal dos 4x400 metros, tendo, igualmente, feito parte da primeira equipa do clube que, em 1972, ganhou o campeonato nacional de corta-mato. Muitas outras menções de grandes resultados seriam possíveis, podendo, quem estiver interessado em conhecer melhor esta nossa brilhante atleta, começar a sua busca, por exemplo, no WikiSporting, a cujos autores agradeço, desde já, os dados de que me socorri para a elaboração deste pequeno texto.

 

Eulália Mendes 1

 

Eulália Mendes, que, suspeito, será hoje um nome praticamente desconhecido da maioria dos sportinguistas, é largamente merecedora da fuga ao esquecimento. Ficarei contente se a muito simples homenagem que agora lhe presto puder contribuir para que alguns, pelo menos, a recordem ou passem a conhecê-la. Eu era muito novo na altura em que esta enorme atleta espalhou tão liberalmente vitórias e recordes sobre as pistas do nosso país, mas lembro-me bem da maneira como as suas aptidões e os seus triunfos me encheram de orgulho e de como ajudaram a construir um Sporting com a grandeza que hoje conhecemos. Obrigado, Eulália Mendes.

 

Ficheiro:Eulália Mendes 2.jpg

Elas na história do Sporting (1): Lídia Faria

Lidia Faria.jpg

 

As muitas referências individuais a grandes figuras do desporto que ao longo da vida deste blogue foram sendo efectuadas pelos seus autores, eu incluído, nunca ou raramente contemplaram mulheres, tendo, no entanto, sido muitas as que, principalmente como atletas, mas também como dirigentes, técnicas, funcionárias ou simples simpatizantes, marcaram a história do Sporting e contribuiram, de forma mais eloquente ou mais modesta, mas sempre com devoção e generosidade, para a construção de um clube com a grandeza daquele a que nos orgulhamos de pertencer.

 

Como já disse várias vezes em textos publicados neste nosso espaço e como faço questão de afirmar em todas as ocasiões em que discuto o clube, fui educado como sportinguista e não como adepto da sua equipa de futebol. O Sporting, para mim, é, na verdade, muito mais do que um mero clube de futebol. O facto de ter crescido num ambiente familiar e social cujo modelo para o Sporting nunca deixou de ser o de um clube em que o ecletismo deve ser uma nota predominante levou a que outras actividades desportivas fossem vividas com um apego e uma emoção que hoje muitos considerarão quase anacrónicos, levou a que as suas vitórias e derrotas fossem celebradas ou lamentadas com um fervor, júbilo ou comiseração que, nos nossos dias, parecem estar reservados ao poder do futebol. Desde muito novo que muitos dos nomes para mim mais importantes do Sporting não são futebolistas, atrevendo-me eu até a dizer que estes estão em clara minoria no meu particular panteão clubístico. A começar, peço desculpa pela repetição, por Joaquim Agostinho, seguramente a minha maior referência em toda a história do clube. Muitos outros grandes nomes de muitas modalidades poderia mencionar nesta ocasião, como já fiz por diversas vezes, mas deixo essa tarefa, a que, por força da maneira como vivo e encaro o clube, me sinto obrigado, para outro momento.

 

O que hoje me move é a intenção de começar uma série de textos com que me proponho lembrar algumas grandes mulheres da vida do nosso clube, algumas mulheres que, às vezes, parece estarem a ser esquecidas e que, contudo, desempenharam um papel talvez decisivo  na consolidação e propagação do sportinguismo e contribuíram de forma extraordinária para que muitos e muitos portugueses transmitissem aos seus filhos estes sentimentos e esta cultura desportiva, esta vaidade de ter participado na construção e crescimento de um clube com milhões de adeptos a partir, já lá vão mais de cem anos, da iniciativa de um pequeno núcleo de fundadores.

 

A maior parte destas atletas foi, por motivos óbvios, relacionados com problemas culturais no debate dos quais não é agora o momento de entrar, praticante de desportos marcadamente individuais, sobretudo o atletismo, tendo sido muito poucas, tanto quanto me consigo lembrar, as que se destacaram em desportos colectivos. Vou, dividindo-os por diferentes posts, mencionar apenas alguns nomes especialmente relevantes, aqueles que considero imprescindíveis, estando a pequena lista que apresentarei limitada pela minha memória, pelo que algumas omissões, embora involuntárias,  obrigam, desde já, a que muito humildemente me penitencie.

O primeiro grande nome feminino de que imediatamente me lembro e que continua a constituir para mim, falemos de mulheres ou de homens, um dos maiores da história do Sporting, é o da excepcional Lídia Faria. Veio muito nova de Torres Vedras para Lisboa e a totalidade da sua carreira no atletismo, que poucos mais campeonatos, troféus e recordes poderia contar, foi prosseguida no Sporting, onde permaneceu durante 12 anos, de 1959 a 1970. No decurso destas temporadas, que sucederam a uma longa era de domínio do Belenenses no atletismo feminino, o Sporting foi sempre campeão nacional e regional e Lídia Faria foi, portanto, sempre campeã também em todo esse período, tendo o seu desempenho, em conjunto com o de outras atletas de que falarei posteriormente, sido crucial na conquista de tantos títulos. O currículo de Lídia Faria é demasiado vasto para ser totalmente incluído num texto deste tipo, mas os aspectos essenciais podem ser consultados aqui. De entre os muitos motivos para nossa imensa admiração, quase diria assombro, na carreira desta grande atleta - contrariando ideias feitas, os seus melhores desempenhos tinham lugar, não obstante uma figura muito elegante, nos lançamentos - destaco o facto de, além dos títulos colectivos já mencionados, ter sido campeã nacional individual por 25 vezes em 7 especialidades diferentes, algo que hoje seria impossível mas que, mesmo naquele tempo, só estava ao alcance de praticantes de eleição, e o seu comportamento num Portugal - Espanha, em 1964, no qual Lídia Faria bateu 4 recordes ibéricos, de 80 metros barreiras, 4x100m, lançamento do disco e lançamento do peso, tendo ganho, ainda, a prova de 100 metros. Ao pensar que teve 17 recordes nacionais e ibéricos nas  disciplinas de disco, peso, 100m, 80m barreiras, 4x100m, 200m, 400m e pentatlo, fico quase sem fôlego e sinto-me desobrigado de uma busca mais aprofundada. É, de facto, impossível fazer agora uma descrição pormenorizada da sua carreira fenomenal, pelo que aconselho os interessados a recorrerem, mais uma vez, a registos oficiais, sites ou blogues que se debrucem sobre o assunto. Lá, com Lídia Faria, os mais velhos poderão rememorar tempos de autêntica grandeza e os mais novos poderão inspirar-se num nome gigante da história do Sporting. Todos nós, além disso, poderemos recordar ou começar a aprender o significado do ecletismo.

 

 

O brilhantismo da sua carreira e o seu enorme sportinguismo  levaram a que Lídia Faria fosse distinguida com o Prémio Stromp, em 1964, e tivesse feito parte da Comissão de Honra do Centenário do clube. Antes, em 1970, Lídia Faria fora homenageada numa grande festa de despedida, em que, entre outros, esteve presente Joaquim Agostinho, vindo, para o efeito, propositadamente de França, onde também nos dava grandes alegrias. Esta festa permitiu, pois, que, ainda que por breves momentos, se juntassem duas das mais inesquecíveis figuras da história do nosso clube.

 

Em resposta a questão que lhe foi colocada pelo Jornal do Sporting na ocasião do convite para integrar a Comissão de Honra do Centenário, Lídia Faria declarou:

Acima de tudo, que a equipa de futebol possa ser campeã, porém, sinto uma grande mágoa por perceber que cada vez mais, o Sporting é um clube de futebol. As outras modalidades, que foram as responsáveis por tornar o Sporting num clube grande, quase não existem. Mudaram de estádio e dá-se muito ao futebol, em desfavor das outras modalidades. Não quero com isto dizer que não gosto de futebol, pois sou grande adepta, assisto sempre que posso aos jogos de futebol, modalidade que também gostava muito de praticar. Tinha jeito para defender, mas também para marcar golos...

Acrescentou depois, respondendo a outra pergunta:

«Em 1966, o professor Raimundo ia buscar-me a casa ,ás 6 da manhã, treinava em Alvalade, entrava ás 10 no meu emprego no “Diário Popular” e, ás 17h30, voltava para o estádio, chegando a casa sempre depois das 10 da noite. Tudo isto sem qualquer retribuição financeira, a não ser os transportes. Como era completamente amadora, necessitava de trabalhar para subsistir e, um dia, o Artur Agostinho, director do jornal “Record” – e a ele agradeço por isso, pois escrevia uma coluna no jornal- perguntou-me se gostava de ir trabalhar para o “Diário Popular”. Respondi afirmativamente, o Artur falou com o Brás Medeiros que, nessa mesma noite, me ligou a marcar uma reunião no seu gabinete junto á Porta 10 A. Perguntou-me “quando queres ir?” Disse-lhe “quando o doutor quiser”. Retorquiu: “Aparece então amanhã”. Tive a minha entrevista de emprego no Estádio José Alvalade.

 

 

Lídia Faria abandonou-nos com 65 anos, em 29 de Setembro de 2007, nova ainda, mas tendo vivido o tempo suficiente para deixar uma marca inapagável na história do Sporting. Gostou apaixonadamente do clube, como adepta e atleta, e deixou um legado que não será nada fácil igualar, a julgar pela maneira como nas declarações acima transcritas, em mais uma grande lição de amor ao Sporting e ao desporto, descreveu os sacrifícios que o atletismo impunha ao seu ritmo de vida, hoje quase inimaginável. Obrigado por tudo, Lídia Faria.

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