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És a nossa Fé!

Divagações em tempo de quarentena (7 e... última)

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Apesar das duas taças ganhas no primeiro ano de mandato aos rivais directos, uma das críticas recorrentes a Frederico Varandas é a falta de competência demonstrada por si e pela sua equipa na gestão da SAD e do futebol profissional.

Uma “equipa de estagiários”, como dizia Ricciardi, todos (Salgado Zenha, Miguel Cal, Hugo Viana, Beto) mais ou menos da idade do presidente e com notória falta de experiência e curriculum para os lugares que ocupam.

Aliás a mesma coisa acontecia já com a equipa de Bruno de Carvalho (Carlos Vieira, Rui Caeiro, André Geraldes).

E realmente, quando olhamos para as SADs dos rivais vemos gente com outro “peso”, por exemplo Domingos Soares de Oliveira no Benfica, e SADs a gastar muito mais em salários mas também a ter profissionais de outro calibre.

Sendo uma SAD uma sociedade cotada em bolsa da qual o Sporting Clube de Portugal é sócio maioritário, pode-se de facto questionar como é que os investidores privados aceitam que a gestão do seu investimento seja confiada a gestores inexperientes eleitos pelos sócios do clube, correndo o risco de serem hostilizados ou verem os activos da sociedade serem maltratados ou assaltados sem nada poder fazer em sua defesa. Ou como é que o Sporting pode atrair novos e melhores investidores com uma SAD a funcionar desta forma.

Não tendo nada que ver com o que se passa em Inglaterra, onde os clubes históricos deram lugar a empresas com donos, existe um pouco de tudo em Portugal, desde SADs puramente instrumentais nas mãos dum presidente de clube “histórico”, àquelas em que o clube perdeu o poder de gestão da mesma (ex: Tondela, Portimonense) por incapacidade financeira. Algumas entraram mesmo em colisão com o clube original, como a do Belenenses e agora parece acontecer com a do Aves.

Não é isso no meu entender o que queremos para o Sporting. Queremos uma SAD que o clube efectivamente controle, por maioria absoluta ou qualificada, de forma a garantir os valores do clube e os interesses dos sócios, mas também uma SAD profissionalizada e competente, com directores financeiros e desportivos também eles profissionais e competentes na área do desporto profissional, que se possam manter para além dos mandatos presidenciais do clube de forma a gerir da melhor forma um volume de negócios de muitas dezenas de milhões de Euros. Queremos uma SAD capitalizada e sustentada de forma a poder competir com os dois rivais pelos milhões da Champions e não com clubes regionais como Braga e Guimarães para os tostões da Liga Europa.

Conjugar essa SAD profissionalizada com um clube eclético e democrático não é fácil, os altos salários estão na SAD e não no clube, nem todos os candidatos a presidente são empresários bem sucedidos que se podem dar ao luxo de abdicar do seu salário para servir o Sporting, e nem todos os presidentes querem deixar de ter o protagonismo de serem os “donos” do futebol.

Mas é possível, e se virmos bem, os presidentes do Sporting que ganharam campeonatos nos últimos 40 anos foram aqueles ou alguns daqueles que mais distância mantiveram com a gestão do futebol: João Rocha, José Roquette e Dias da Cunha, delegando em pessoas qualificadas para o efeito (respectivamente Sousa Marques, Luís Duque e Miguel Ribeiro Teles) que geriam estruturas que integravam dirigentes dedicados como Manolo Vidal ou profissionais como Carlos Freitas.

Diz Boloni no seu livro: “Gostei da postura de Ribeiro Teles. Muito pragmático e pouco dado a filosofias baratas, definiu as metas e foi direito aos assuntos sem desvios. Fui tudo muito fácil." Sobre Dias da Cunha (um empresário com um curriculim invejável que por muito pouco ia sendo bi-campeão nacional e vencedor da Taça UEFA)… “Representa a calma em pessoa… um grande senhor."

Concluindo e com pandemia ou sem ela, penso que o modelo actual da SAD não serve os interesses do Sporting. Mais tarde ou mais cedo terá de ser revisto em paralelo com os estatutos do clube, e que conviria ter um debate franco e aberto sobre o tema de forma a chegar a soluções de fundo e de futuro para o nosso grande clube. Entre outros, Dias Ferreira (*) já teve oportunidade de alertar para o tema.

Sendo assim, fica aqui o convite para reflectirem sobre o tema e deixarem as vossas opiniões sobre que modelo de SAD querem para o Sporting.

 

(*) Dias Ferreira, 28/10/2019,  “Sporting não sai desta crise se não apostar fortemente na SAD”,  https://www.record.pt/futebol/futebol-nacional/liga-nos/sporting/detalhe/dias-ferreira-sporting-nao-sai-desta-crise-se-nao-apostar-fortemente-na-sad

Divagações em tempo de quarentena (6)

sporting2001.jpg

 

Muitos treinadores têm passado pelo Sporting, muito poucos levantaram as taças mais importantes, as de campeão nacional e as da taça de Portugal. Alguns portugueses e alguns estrangeiros, os últimos dos quais Marcel Keizer e Lazlo Boloni (correctamente László Bölöni).

Foram dois homens que ganharam coisas, boas pessoas com personalidades discretas e tranquilas, mas o romeno vinha dum passado de futebolista de eleição no Steaua de Bucareste, campeão europeu contra o Barcelona, e na selecção romena (108 vezes internacional) e, tácticas à parte, tinha de facto outra sagacidade e visão do mundo e do futebol, e também outra atenção aos mais jovens (um dos exemplos é mesmo Hugo Viana).

Vem isto a propósito do último post do Pedro Oliveira me ter levado a passar os olhos no livro do romeno, e reler algumas coisas que foram então muito importantes e que se calhar explicam muito do que foi a catástrofe desta época.

Diz então Boloni (pág. 20): "Quis fazer um teste físico para avaliar o estado dos jogadores após as férias, mas deparei com a primeira dificuldade. É que nem todos estavam presentes. ... Fiquei espantado quando, alguns dias após a apresentação, o Nelson casou e foi para a lua de mel... Anotei no meu bloco que seriam situações a mudar no futuro.... Apesar das ausências começámos pelo tal teste físico... comparei os resultados obtidos com os que tinha feito com a equipa B da Roménia, não havia comparação possível. ...  os meus jogadores não revelavam capacidade de sofrimento. Numa equipa é bom que haja talento mas é igualmente importante o espírito de sacrifício."

(Depois até houve um mini-estágio físico no meio da temporada aproveitando uma pausa para jogos da selecção)

Outra:

"Não demorei muito tempo a perceber que o plantel era desequilibrado.... Uma equipa não pode ter estes desequilibrios tão acentuados. Até por uma questão lógica de gestão do plantel. Cinco jogadores internacionais para o mesmo lugar, nos quais o clube investiu tanto dinheiro, dá problemas de balneário na certa.".

(Penso que se estaria a referir à abundância de defesas centrais/trincos: Beto, André Cruz, Quiroga, Babb, Rui Bento, Hugo e Paulo Bento, e à falta dum "pinheiro" no ataque, depois veio Jardel)

Mais outra:

"Outra questão que senti ao observar os vídeos tinha a ver com as faixas laterais. Como era possível que os adversários passassem nas zonas de acção de César Prates ou de Rui Jorge e eles não estivessem lá? Ou melhor, eles estavam mas nunca no sítio certo. Alguma coisa não estava bem. A defesa era ineficaz. Sofria golos com muita facilidade."

(César Prates era o Ristovski da altura, de cima a baixo sem parar, sempre fora do lugar. E foi assim que o Beto foi adaptado a defesa direito.)

E mais outra, depois da terceira derrota em oito jogos no Campeonato:

"O que mais me enervou em Braga foi aquela falta de disciplina do Rui Jorge, que é uma pessoa formidável, já tinha duas expulsões em oito jogos. E as duas por palavras dirigidas aos árbitros. Os jogadores costumam reenvidicar uma série de exigências que consideram justas: o equipamento, o calendário dos treinos, etc. Mas depois esquecem-se de compensar isso tudo dentro do campo. Quando isso não acontece, tomo-o como uma falta de respeito à minha pessoa. Eu exijo aos jogadores determinadas coisas e isso tem de ser cumprido."

(E o Rui Jorge, o Acuña daquele tempo, chegou onde chegou)

Concluindo, Boloni debateu-se com questões de preparação física, espírito de sacrifício, equilíbrio do plantel, defesa eficaz das laterais da defesa e disciplina, que conseguiu controlar e ultrapassar. Todas elas estiveram presentes nesta triste temporada, quase vinte anos depois do romeno nos ter proporcionado a última dobradinha da história do Sporting.

 

PS: Um dos campeões da foto chegou depois a director da Academia de Alcochete, estava lá quando o ex-presidente chegou, já não estava quando ela foi assaltada.

Divagações em tempo de quarentena (6)

Quanto vale o plantel do Sporting? Ou melhor, qual é o valor de mercado do plantel do Sporting?

Vamos responder à questão utilizando os dados da plataforma Transfermarkt (TM), que foram revistos em baixa a 8 de Abril devido provavelmente à pandemia:

  1. Valores dos principais planteis, incluindo emprestados e vendas em curso:

 

Benfica               269,9M€

Porto                  217,53M€

Sporting             98,25M€ (c/ Jese e Bolasie)

Braga                  89,5M€  (c/ Trincão e Palhinha)

Guimarães        40,38M€

  1. Valor de mercado do plantel alargado do Sporting, ou seja, o conjunto dos jogadores com contrato profissional com o clube

 Sporting                          114,65

Jogador

Idade

ValorMercado

     

Marcos Acuña

28

12,00

Matheus Pereira

23

9,50

Sebastián Coates

29

8,00

Wendel

22

8,00

Luiz Phellype

26

6,50

Vietto

26

6,00

Rodrigo Battaglia

28

5,50

Palhinha

24

4,80

Valentin Rosier

23

4,80

Jovane Cabral

21

4,50

Abdoulay Diaby

28

4,00

Idrissa Doumbia

22

4,00

Rafael Camacho

19

3,60

Andraz Sporar

26

3,20

Stefan Ristovski

28

3,20

Cristian Borja

27

2,80

Luís Maximiano

21

2,70

Miguel Luís

21

2,70

Eduardo Henrique

24

2,40

Renan Ribeiro

30

2,00

Tiago Ilori

27

2,00

Misic

25

2,00

Luís Neto

31

1,60

Bruno Gaspar

26

1,20

Jérémy Mathieu

36

1,20

Mattheus  Oliveira

25

1,20

Chico Geraldes

25

1,00

Gonzalo Plata

19

0,90

Gelson Dala

23

0,80

Ivanildo Fernandes

24

0,80

Pedro Marques

21

0,50

Daniel Bragança

20

0,48

Pedro Mendes

20

0,45

Leonardo Ruiz

24

0,33

Joelson Fernandes

17

0,00

Eduardo Quaresma

18

0,00

Nuno Mendes

17

0,00

Matheus Nunes

21

0,00

Rodrigo Fernandes

19

0,00

 

 

 

 

           

Analisando estes valores, frutos de uma má época com maus treinadores, é óbvio que este lote de jogadores vale bem mais do que os 115M€. Desde logo porque os mais jovens não estão valorizados, excepção feita a Max e Miguel Luís, e os melhores estão mesmo subavaliados.

Por exemplo, falando de defesas esquerdos, no Benfica Grimaldo (24) está avaliado em 28M€ e no Porto Alex Telles (27) em 32M€. Nenhum deles é titular das suas selecções. Acuña só vale 12M€ ?

 

Quanto a Vietto, no Benfica Rafa (26) em 24M€ e no Porto Otávio (25) em 13,5M€. Vietto só vale 6M€?

Mas enfim, é o que temos.  Esta situação só pode mudar com um bom treinador, e duvido muito que Rúben Amorim nos desiluda porque parece mesmo que é um bom treinador, e com bons desempenhos nas diversas competições e entrada na Champions. Mas também pode ser ajudada pelo bom desempenho dos nossos estrangeiros internacionais nas respectivas selecções e temos Wendel, Plata, Doumbia, Battaglia, Coates, Acuña e Borja nessas condições.

 

PS: Gostei de ler o elogio (merecido) de Bruno Fernandes a Marcel Keizer, um treinador que, como Boloni, continua a ser de alguma forma menosprezado pelos Sportinguistas. No pouco tempo que cá esteve ganhou duas taças ultrapassando Braga, Benfica e Porto. Há sempre quem prefira recordar aqueles que com muita presença e atitude falharam nos momentos críticos e deixaram as taças nas salas de troféus dos outros.

SL

Divagações em tempo de quarentena (3)

Considerando as consequências desta paragem forçada do futebol para a vida dos clubes e as perspectivas existentes em termos de conclusão dos campeonatos, se calhar o Sporting fez o mais importante do que devia ter sido feito neste mercado de inverno:

1. Vendeu por uma verba significativa o seu melhor jogador mas que muito se iria desvalorizar nesta conjuntura.

2. Com esse dinheiro, depois de descontado cerca de 1/3 em compromissos diversos, resolveu vários problemas, o aperto de tesouraria e a resolução dos problemas mais importantes existentes no plantel e estrutura técnica.

3. Os problemas foram resolvidos nas duas posições mais críticas, treinador e ponta de lança.

4. A contratação de Sporar, o artilheiro da Liga Europa, acabou por ser ainda mais decisiva dada a lesão estúpida do LP29 logo a seguir. Ficávamos reduzidos ao ainda muito "verde"  Pedro Mendes.

5. Ficámos assim neste momento de paragem com um treinador jovem moralizado e com grande potencial, que ainda há pouco ganhou 5 jogos aos 3 grandes comandando uma equipa com um plantel bem inferior ao nosso, e que vai ter uma pré-época, mini ou não, para pôr a equipa a jogar ao seu jeito.

Tudo ao contrário do que foi feito no mercado de Verão, onde se deixou partir Bas Dost por tuta e meia, se trocou um Raphinha a caminho duma época fantástica por três tristes e coxos emprestados, e um Keizer que tinha ganho duas taças por um Silas sem capacidade para o lugar. 

Importa agora tratar do resto, baixar a folha salarial libertando jogadores que nada acrescentam, assegurar a manutenção de Mathieu, "peixe na água" neste sistema de três centrais, fazer regressar os emprestados e dar oportunidades aos melhores jovens dos sub-23.

Ou seja, de alguma forma voltarmos ao tempo das "vacas magras" do Leonardo Jardim, onde com a continuidade da espinha dorsal do plantel (Rui Patrício, Rojo, Adrien, Cédric, Carrillo), o regresso de alguns emprestados (William Carvalho, Wilson Eduardo), o melhor que havia na equipa B (Mané, Esgaio) e uma ou outra aquisição da "loja dos 300" (Montero, Slimani, Maurício) foi possível montar uma equipa barata e competitiva.

Para já parece que temos... o novo Leonardo Jardim.

SL

 

Divagações em tempo de quarentena (2)

Se há tema consensual no que respeita ao futebol do Sporting é a necessidade da aposta na formação. O problema é que pouca gente está preparada para aguentar essa aposta, e aos primeiros falhanços de um ou outro não existem contemplações. Exemplos há mais que muitos, o último dos quais o nosso Max, Luís Maximiano, que tem tudo para ser o sucessor de Rui Patrício mas... muito tem de jogar para isso. Muitas épocas, mais precisamente.

De qualquer modo, a aposta na formação é essencial para equilibrar financeiramente o clube sem perda de capacidade competitiva, eliminando o recurso a contratações caras que pouco ou nada acrescentam, e garantindo o encaixe máximo aquando das vendas.

Sendo assim, lançava aqui o desafio de comporem a vossa melhor equipa de sub23, do Sporting, mais precisamente com jogadores de 17 a 22 anos, podendo incluir jogadores do plantel A, emprestados, dos sub-23 ou das camadas jovens.

Para complicar mais a escolha, o onze deve ser escolhido de acordo com o modelo táctico de Rúben Amorim, o 3-4-3.

Avanço a minha escolha,

Luís Maximiano (21); João Silva (21), Eduardo Quaresma (18) e Gonçalo Inácio (18); Rafael Camacho(18), Idrissa Doumbia(21), Matheus Nunes(21) e Nuno Mendes(17); Gonzalo Plata (19), Pedro Mendes (20) e Jovane Cabral (21)

Fico a aguardar as vossas melhores equipas bem como os comentários sobre as escolhas. 

SL

Divagações em tempo de quarentena (1)

Tenho para mim que a fórmula de sucesso para o futebol do Sporting está há muito inventada, um plantel com 1/3 de jovens de elevado potencial, 1/3 de jogadores de classe com alguns anos de casa e o resto de "carregadores de piano" que saibam compensar com a garra e força do seu carácter as suas limitações técnicas, e por cima disso tudo um treinador disciplinador, exigente e inspirador. Foi assim com Malcolm Allison, foi assim com Boloni, podia ter sido assim com Bobby Robson.

Olhamos para o plantel actual do Sporting: dos 26 contam-se 9 sub-23, dos quais se destacam Wendel e Plata, um da selecção olímpica do Brasil, outro da selecção A do Equador, entre todos imagino que tenham um valor de mercado de cerca de 50M€. O terço de jovens de elevado potencial está lá.

Já quanto aos craques, e com boa vontade, apenas posso vislumbrar quatro: Mathieu, Acuña, Coates e Vietto.

E quanto aos carregadores de piano, os que lutam até ao fim e raramente comprometem, apenas posso vislumbrar cinco: Renan, Neto, Battaglia, Sporar e Luiz Phellype.

Sobram assim 8 em 26 que se afastam desta tipificação e que em meu entender pouco acrescentam ao plantel. Já têm 23 ou mais anos, e ou não são suficientemente bons ou não são suficientemente fortes psicologicamente, raramente resolvem e muitas vezes comprometem.

É muita gente e é gente que custou muito dinheiro. Não falando no caso muito especial de Francisco Geraldes, temos Ristovski, Rosier, Ilori, Borja, Eduardo, Bolasie (emprestado) e Jesé (emprestado) que penso que custaram cerca de 25M€. Salários à parte, excepto nos emprestados.

Obviamente que, com Rúben Amorim, um ou outro destes jogadores poderá revelar qualidades nunca vistas e demonstrar a sua importância, mas quando falamos num plantel pobre para as necessidades do Sporting este é o maior problema.

O outro é que com as saídas de Bas Dost e de Bruno Fernandes ficaram apenas quatro para fazer a diferença. E se Mathieu arrumar as botas, restarão apenas três...

SL

As carrancas da falésia

E como hoje é dia de máscaras e de fazer de conta, deixem-me que vos mostre, inspirado pela bela missiva do Pedro, o que é ser Leão aqui pela falésia. Aqui, onde a revista é simplificada porque a gente anda de chinelo no pé, a 210 metros de casa (diz o relógio esperto), pode-se sempre encontrar a expressão vincada de um enorme leão, uma carranca que pode ser a do Silas quando perde em Alverca e culpa o Bruno Fernandes que só "meteu" a jogo quando já não havia nada a fazer, ou a do Varandas quando olha para a curva sul (onde eu assisto aos jogos) e só vê escumalha. Ou a de um Leão altivo, feroz, dominador como queremos que seja o nosso.

É sempre uma surpresa e uma descoberta a cada caminhada pela falésia.

 

Breve alegoria sobre uma hipotética federação

Vinte e cinco de Abril de mil novecentos e setenta e seis.

Precisamente dois anos após a Revolução, o trabalho dos deputados à Assembléia Constituinte deu um fruto que é hoje o pilar da democracia em que vivemos, com mais ou menos justiça, mas isso não vem ao caso.

Este edifício jurídico veio tornar justa a relação entre o Estado e os cidadãos e estes entre si próprios, coisa que até essa altura, por via da Constituição de 1933, não existia.

De todas as alterações que esta nova Constituição trouxe, todas elas importantes sem dúvida, a que provavelmente mais talhou fundo no sentimento dos portugueses foi a consignada no Artigo 37.º, que consagra a liberdade de expressão e informação e que por ser curto, faço questão de reproduzir:

1. Todos têm o direito de exprimir e divulgar livremente o seu pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, bem como o direito de informar, de se informar e de ser informados, sem impedimentos nem discriminações.

2. O exercício destes direitos não pode ser impedido ou limitado por qualquer tipo ou forma de censura.

3. As infracções cometidas no exercício destes direitos ficam submetidas aos princípios gerais de direito criminal ou do ilícito de mera ordenação social, sendo a sua apreciação respectivamente da competência dos tribunais judiciais ou de entidade administrativa independente, nos termos da lei.

4. A todas as pessoas, singulares ou colectivas, é assegurado, em condições de igualdade e eficácia, o direito de resposta e de rectificação, bem como o direito a indemnização pelos danos sofridos.

Não tolero que gente que à boleia dum regime que se quer igual para todos, pelo menos ao nível do tratamento perante a justiça, se arvore o direito de, com preocupantes laivos de saudosismo, pretender fazer tábua rasa do documento que deve nortear a sua actuação, mais não fosse por dever de formação. A actuação pidesca de um detentor de um cargo num órgão de uma qualquer federação desportiva ou outra, deve ser criteriosamente escrutinada à luz do número dois do artigo supra. Que o citado no parágrafo anterior tem fortes resquícios de defesa despudorada da defunta de 1933 que faleceu, não de velhice, mas por vontade do País, é notório nas atitudes e decisões que vai tomando, desde logo aceitando, como jurista que é, fazer parte de um colectivo que se rege por regulamentos que violam claramente a ordem constitucional vigente. Fosse o citado imparcial, justo e profissionalmente competente, não estivesse ele eivado de sentimentos bafientos de saudosismo e de uma profunda vaidade e talvez até de um possível ressabiamento por ter andado anos a fio a mendigar o lugarzinho que acabou por conseguir, e seria de sua própria iniciativa chamar a atenção dos clubes para a ilegalidade constitucional que são alguns dos regulamentos porque se regem. Não, não foi isso que fez, não é isso que fará. A um proto-ditador dá sempre jeito apanhar um combóio que tem por destino a estação que lhe convém.

 

 

Perder ou empatar

Não é a primeira vez que trago o tema à baila, mas ele serve, mais uma vez,  para demonstrar que o fim pretendido aquando da aplicação da grelha pontual em vigor, não passa ainda de uma ilusão. A valorização da vitória com 3 pontos, se bem intencionada e justa como compensação do desejo de vitória versus o conformismo do empate, não atingiu os seus objectivos.

Os clubes ditos pequenos continuam, jogo após jogo, época após época, a jogar para o pontinho e isso em pouco se traduz na tabela classificativa.

Vejamos,tomando como exemplo o último classificado, o Tondela: Tem neste momento 10 pontos (2V, 4E, 12D); "bastar-lhe-ia" que tivesse lutado mais um pouco pela vitória e se tivesse convertido dois dos quatro empates em vitória, teria hoje 14 pontos (4V, 2E, 12D), não seria último.

Curiosamente o clube que está a meio da tabela, o Boavista, tem um registo sui generis: 6V, 6E, 6D, 22GM, 22GS, 24 pontos. Mais média que isto será talvez impossível. Mas facto demonstrativo de que os 3 pontos por vitória favorecem quem ganha, numa grelha pontual a 2 pontos por vitória e 1 por empate, o Boavista teria apenas 18 pontos, mais um que o Rio Ave, que teria 17, apesar de ter mais uma vitória (7V, 3E, 8D). Porque tem mais uma vitória que o Boavista e menos empates, apesar de mais duas derrotas, tem hoje o mesmo número de pontos.

Por isso é que eu defendo que sob pena de o campeonato estagnar neste particular, é necessário inventar uma nova fórmula de pontuar os resultados dos jogos. A FIFA está a estudar algumas alterações, entre elas a de impedir que os jogos terminem empatados. Não sei se o caminho terá que ser por aí, sei que, aliado à recusa da centralização dos direitos televisivos, que coartou aos chamados pequenos o acesso a maiores verbas do "bolo" das televisões, logo ao acesso a jogadores mais competitivos e à formação de equipas mais bem apetrechadas e com condições de acesso a melhores instalações de treino e de competição, a não ser feito nada para penalizar o anti-jogo, continuaremos a adormecer na bancada, ou no sofá, perante espectáculos de puro tédio em que se converteram a maior parte dos jogos da Liga Portugal.

Parece-me que, em conjunto com a arbitragem, é um problema a carecer de rápida resolução.

 

A título de curiosidade, num campeonato com uma grelha de V2, E1, D0, o Sporting teria 25 pontos, os mesmos que o Braga (que hoje tem mais 1) e menos 6 que o Benfica (que tem mais 10) que continuaria a ser primeiro com mais apenas 2 pontos que o Porto (que teria mais 4 e hoje tem mais 6) e estaria precisamente no mesmo lugar, fruto da derrota em casa com o mesmo Braga, apesar da igualdade pontual; Braga que apesar de ter mais uma derrota, tem também mais uma vitória, indo de encontro ao espírito da grelha em vigor.

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