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És a nossa Fé!

De pedra e cal - Jordão marca o único golo na Luz

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Foi a 27 de Fevereiro de 1973 que Rui Jordão, na imagem ladeado por Carlos Espírito Santo e Laranjeira, marcou o único golo que bateu Botelho e deu a vitória... ao Benfica, frente ao Sporting (!), no que foi um jogo para o então Campeonato Distrital de Reservas.

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Legenda: Este remate de Jordão bateu Botelho sem apelo nem agravo. Estava marcado o primeiro

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A ideia de ter Rui Jordão a marcar um golo contra o Sporting e logo pelo Benfica, inquieta-me. Não sei se arrepio na espinha, se moinha, se pálpebra a saltitar. Sei que não gosto da sensação.

Seria possível que hoje, mais de 48 anos depois, por exemplo, Nuno Santos que fez a sua formação pelos de encarnado, devolvesse a gracinha?

É o meu prognóstico para hoje. 0-1 marca Nuno Santos. 

 

Fonte: acervo do antigo jogador Carlos Espírito Santo, com o meu sentido agradecimento ao próprio e ao seu filho, Ricardo Espírito Santo. 

De pedra e cal - Galeria da(s) Glória(s) 2

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Imagem gentilmente cedida por Manuel Parreira, a quem muito agradeço (Edição às 21:03, inclusão das identidades) 

Pedro Gomes, Carvalho e Hilário
Morais, Alfredo, José Carlos e Lourenço
Carlitos, Figueiredo, Peres e Duarte

 

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 Joaquim Pinheiro e Carlos Lopes

 

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Nélson

 

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Pacheco 

 

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Paulo Torres (quem nunca fez uso da língua para melhorar manobras, que atire a primeira pedra)

 

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Hilário da Conceição 

 

Estamos a muito pouco de adicionar novas glórias à nossa honrosa galeria.

Excepção feita à primeira imagem, todas as restantes foram retiradas da Caderneta de Cromos 1906-1995.

De pedra e cal - Talismãs (3)

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A equipa de hoje, trará boas memórias a maior número de Sportinguistas já que jogou em data mais recente. 

Da esquerda para a direita, a começar pela fila superior: 

Damas*, Inácio, Laranjeira**

J. Mendes, da Costa, Fraguito***Marinho ****

Nélson, Baltazar,***** Manuel Fernandes, Chico ******

Que as boas memórias evocadas possam contribuir para alegrar o dia de hoje, até à hora do jogo, e ajudar a acreditar que os três pontos serão nossos.

 

A imagem dos cromos foi gentilmente cedida por Manuel Parreira, a quem muito agradeço.

 

Edição às 21:17: inclusão do nome de Inácio

*Vídeo publicado a 13 de Setembro de 2015 no canal Youtube do Sporting Clube de Portugal.

**Vídeo publicado a 28 de Setembro de 2015 no canal Youtube do Sporting Clube de Portugal.

***Vídeo publicado a 8 de Setembro de 2015 no canal Youtube do Sporting Clube de Portugal.

****Vídeo publicado a 30 de Setembro de 2015 no canal Youtube do Sporting Clube de Portugal.

*****Vídeo publicado a 10 de Outubro de 2015 no canal Youtube do Sporting Clube de Portugal.

******Vídeo publicado a 9 de Maio de 2016 no canal Youtube do Sporting Memória.

De pedra e cal - Galeria da(s) Glória(s)

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Imagem gentilmente cedida por Manuel Parreira (identificação dos jogadores, a cargo do próprio na caixa de comentários)

 

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Emílio Peixe

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Amunike

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Infelizmente, esta fotografia (cromo n.° 43) integra um lote de três fotografias legendado de forma genérica. Não me é, por isso, possível identificar correctamente os futebolistas. Não tenho os outros dois cromos mas não quis perder a oportunidade de aqui deixar este apontamento. Se houver quem possa ajudar na identificação dos mesmos, agradeço.

A legenda que figura na caderneta de 1906-1995:

«Mais três equipas de futebol que deram grandes glórias ao Sporting. Recordem-se futebolistas como: Carlos Gomes, Passos Caldeira, Martins, Fernando Mendes, Osvaldinho, Pérides, Galaz, Dilson, Vadinho, David Julius, Mário Jorge, Jordão, Morato, Zezinho, Gabriel, Damas, Romeu, Sousa e Manuel Fernandes.»

Esperaria, contudo, que Vadinho fosse o terceiro a contar da esquerda, na fila inferior. E Galaz, o primeiro a contar da esquerda, na fila superior. Osvaldinho, o quarto a contar da esquerda na fila superior?

De pedra e cal - Talismãs (2.1, por Manuel Parreira)

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Álvaro Cardoso, Azevedo, Manuel Marques, Canário, Barroso, Veríssimo, Sidónio, António Marques, Jesus Correia, Peyroteo, Albano.

Dispensam apresentações. Os jogadores e o caríssimo Sportinguista Manuel Parreira, açoreano e residente na Califórnia, que generosamente partilhou esta verdadeira relíquia.

Que logo à noite, na próxima batalha, a memória colectiva dos êxitos destes jogadores nos ajude a acreditar que os três pontos serão nossos.

Muito obrigada, caro Manuel Parreira!

P.S. Tenho metade desta mesma equipa representada na caderneta de 1995. Que pena que seja só metade.  Mal se daria pela diferença de décadas entre cromos. 

De pedra e cal - Talismãs (2)

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Dramas de vivermos o Sporting à distância. À província, estas pequenas maravilhas demoravam a chegar e as saquetas de cromos evaporavam-se sem que, muitas vezes, houvesse reposição. Única caderneta (incompleta) que guardei da minha infância.

Com 0,75€ (150 escudos) não se compra hoje uma saqueta de cromos, quanto mais a caderneta.

Já se fazia uma reedição, não?

Vamos embora, equipa. Quero uma vitória amanhã!

De pedra e cal - Formação de Talentos: duas actualizações e um agradecimento

Verdadeiro ADN Sporting

 

Acreditem na formação, estejam atentos à formação que o Sporting tem muito talento na formação e de mim, podem esperar tudo por este Clube.

 

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Aurélio Pereira e Gonçalo Simões Dias 

As palavras são de Gonçalo Simões Dias jogador que muito recentemente assinou contracto de formação com o Sporting Clube de Portugal o que, em termos práticos, significa que integrará uma equipa na nossa Academia, em Alcochete, e que não só já havia sido destacado, aqui, no És a Nossa Fé, como foi apresentado como central de 2006 de grande classe, jogador de enorme qualidade técnica e dimensão física.

Diz a voz off da peça apresentada pela Sporting TV (na qual se comunicava a assinatura deste jovem jogador) que veio da Academia Sporting do Sul do País. Digo-vos eu que este jogador fez apenas um jogo treino pela AFS – Algarve e participou apenas num torneio organizado pelo então responsável máximo pela AFS – Algarve, torneio este disputado por: Sporting Clube de Portugal, Linda-a-Velha, Quarteirense, Armacenense e Padernense. Gonçalo Simões Dias esteve integrado, sim, no Padernense Clube**, clube ao qual pagamos para utilizar as instalações e onde acontecem os nossos treinos (AFS – Algarve).

O caminho é longo, este é apenas mais um pequeno passo, mas o Gonçalo é produto, sim, da teimosia e know-how (perdoem o anglicismo) feito de experiência acumulada de um ex-colaborador nosso. Homem que desafiou o cânone e ousou encontrar uma alternativa à rigidez estéril.

Esclareço: até aos 12 anos os jogadores são integrados nas AFS e a partir dessa idade, ou integram a Academia em Alcochete ou não preenchem os requisitos para treinar num Clube como o Sporting e são convidados a procurar outras solucções (o Sporting mantêm-os, ainda assim, em observação). Há quem, na área da formação de talentos, saiba que alguns jogadores revelam qualidades que nos interessam depois desse limite rígido. Foi com base nesse conhecimento empírico que João Nunes juntou vários jogadores com 12 anos que não interessavam ao Sporting Clube de Portugal, Sport Lisboa e Benfica (proveniência do Gonçalo, dispensado do Seixal) e a outros clubes, 13 anos em situações em que só o treinador acreditava, 14 anos apenas em condições muito excepcionais, e criou uma equipa em parceria com o Padernense. O Padernense pagou todas as despesas inerentes à existência desta equipa, competindo a mesma com as suas cores, constando Simão Mendes como treinador na ficha de jogo, e João Nunes treinou-a de forma pro bono, com um compromisso assumido: em caso de sucesso, seriam jogadores a integrar no Sporting Clube de Portugal. Foi a forma que encontrou para aumentar a possibilidade de “descobrir” (trabalhar) talentos para os do Leão Rampante para além das imposições ditadas pelo cânone e… pela sua folha de vencimento e orçamento nunca ultrapassado.   

No caso do Gonçalo, a Glória é ainda maior já que depois de os técnicos do Seixal dispensarem o jogador, só os responsáveis pela formação do Sporting, no Algarve, acreditaram no seu potencial e, acresce, que jogador e pais deram um verdadeiro salto de fé: se quiserem que o Gonçalo seja um jogador “normal”, que continue a lateral e extremo [posições em que treinou/jogou no Seixal]. Se quiserem excelência têm de deixar-me treiná-lo a central.

Gonçalo Simões Dias, 15 anos, central, tem hoje em Gonçalo Inácio a sua grande referência.

O caminho é longo, este é apenas mais um pequeno passo, mas o Gonçalo é produto, sim, da teimosia, trabalho árduo e know-how (perdoem o anglicismo) feito de experiência acumulada de um ex-colaborador nosso e de um outro que ainda o será. Digo, ainda o será, já que neste período sombrio, prenhe de incertezas, não se sabe quando a implacável pandemia poderá alargar o raio de consequências condensado no despedimento colectivo de todos conhecido.

Já se sabe que, ser bom, muito bom, ter provas dadas ao serviço do Sporting Clube de Portugal, pode não ser suficiente para assegurar que um colaborador se mantem ao serviço… do Sporting Clube de Portugal. 

 

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João Simões

Diz a peça escrita que João Simões, outro jovem jogador que assinou contracto de formação com o Sporting, nos chegou vindo do Portimonense. João Simões fez a sua formação inicial no Portimonense. É, dentro do universo Sporting, o chamado jogador de fim-de-semana. Ou seja, durante toda a época 2018/2019, treinou sempre na Escola Academia de Formação Sporting Algarve (AFS - Algarve), rumando a Lisboa, ao Pólo EUL, ao fim-de-semana, para competir. Situação que se repetiu durante a toda a época 2019/2020, até ao confinamento. Também João Simões já foi apresentado aqui, no És a Nossa Fé: 8, que pode ser um médio de cobertura também.

 

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Afonso Atanásio Cunha *** (ver edição de 14 de Abril, infra, sobre nome do jogador)

Há um terceiro jogador que aqui, no És a Nossa Fé, foi apresentado como Afonso Cunha, que se intitula 'Afonso Cunha' no seu perfil de facebook, que se chama Afonso Atanásio Cunha, e que foi apresentado pelo Sporting Clube de Portugal como ‘Atanásio Cunha’ aquando da assinatura do seu contracto de formação em Janeiro último. Foi, aqui, no És a Nossa Fé, dado a conhecer como central, pé direito, posição 3 e na condição de aluno de uma EAS resgatado numa captação do FC Porto.

Desengane-se quem pensa que esta é uma iniciativa para glorificar João Nunes. João Nunes é, muito infelizmente, navio que já zarpou. Este texto tem por objectivo constituir uma dupla actualização e um renovado agradecimento. Um follow-up, se preferirem e, claro, para aqueles que privilegiam a utilização de anglicismos. Parece nota dominante, nos dias de hoje, anglicismos e frases inspiracionais. Para alguns, dois pilares fundamentais, diria mesmo. Para outros, a formação tem mais de transpiração (muito trabalho) do que de inspiração.

Infelizmente, para além das boas notícias que exponho acima, volvidos seis meses, nada mais de positivo tenho para partilhar na sequência dos três textos que aqui foram apresentados a 2, 3 e 8 de Agosto de 2020. Versavam ‘Formação de Talentos’ e a situação específica da ‘Escola Academia de Formação Sporting Clube de Portugal – Algarve (AFS – Algarve)'.

Pese embora o aumento da despesa feita com as condições proporcionadas na AFS - Algarve, que se traduziu no aumento de técnicos (curiosamente, André Gomes, de Portimão, que em tempos fez formação no Pólo EUL, e foi admitido em Agosto de 2020, já nos deixou), no oferecer de equipamentos do Sporting aos irmãos de jogadores nossos e… na disponibilização de um número de telemóvel e de e-mails para os quais os pais poderão dar nota de situações que lhes mereçam reparo (anteriormente, o element de liaison entre pais/encarregados de educação e "Sporting" era um ser-humano), os pais referem que as condições trazidas por Paulo Poejo, o agora responsável máximo pela AFS – Algarve (funções que desempenhava anteriormente, aqui), não estão a funcionar. Acrescentam que há quem relate alterações negativas muito visíveis ao nível da motivação para treinar e até ao nível do desempenho escolar. É em competição que muito do trabalho diário - feito nos treinos - é avaliado, é certo que as competições foram interrompidas, contudo, face ao que observam, as expectativas dos pais não são boas e, claro, o facto de ter sido feita a avaliação regular em Alcochete e, desta feita, nem um ai ter sido divulgado sobre o resultado da mesma, não augura nada de bom. Sim, é verdade que em teoria aos pais não é devida essa informação mas foi dos mesmos sempre conhecida e chegou a merecer ampla cobertura pelos órgãos de comunicação do Sporting Clube de Portugal, nomeadamente através da Sporting TV. Infelizmente, rumor has it (é outra vez aquilo dos anglicismos super cool, sabem?) que os pais têm razões justificadas para preocupações. Não nos esqueçamos, também, que todos os jovens jogadores de norte a sul do país estão sujeitos às limitações trazidas pela pandemia, daí que dificilmente se poderá apontar ‘efeito da pandemia’ como causa maior ou única, para justificar alterações negativas. Sobretudo, quando as alterações são… grandes. Mesmo muito grandes.

Actualizações feitas, uma dor de alma maior do que o rio Guadiana ou do que um ou dois dos oceanos que nos separam daqueles que deram provas de saber trabalhar talento futebolístico, passo ao agradecimento aos membros da estrutura invisível que ao longo dos últimos muitos anos asseguraram a Glória que o Sporting tem conseguido alcançar, no fundo, aqueles cujo trabalho tem permitido que o Sporting Clube de Portugal esteja de pedra e cal.

A todos quanto:

- abandonaram situações laborais estáveis, prescindindo de direitos relevantes para abraçar funções no Sporting Clube de Portugal, dando provas máximas de competência e ainda assim foram dispensados;

- pagaram do vosso bolso aquilo que em clubes rivais é pago ou estornado pelo próprio clube;

- prescindiram de férias, folgas, licenças de parentalidade (!) de maneira a proporcionar que fossem asseguradas as melhores condições possíveis a jogadores, ou ao próprio Sporting Clube de Portugal, e, pior, quando o fizeram sem que o Sporting sequer vos pagasse um vencimento;

- disponibilizaram gratuitamente as vossas viaturas* para serem percorridos inúmeros quilómetros a favor da observação de jogadores que poderiam interessar ao Sporting Clube de Portugal;

- mudaram de área profissional quando nos deixaram, para não vermos a vossa expertise ao serviço dos nossos adversários (profissionais de craveira, país pequeno, 3 clubes grandes...);

- mudaram de país e/ou de continente para não vermos a vossa expertise ao serviço dos nossos adversários (profissionais de craveira, país pequeno, 3 clubes grandes...);

- após anos de trabalho meritório, viram-se ultrapassados por colaboradores recentemente chegados ao Clube sem que a qualidade do vosso trabalho declinasse;

- após anos de trabalho meritório, sem que a qualidade do vosso trabalho tivesse declinado, viram-se excluídos do Clube de uma forma em que os direitos acumulados possam ter sido franqueados;

- trabalharam o dobro por conta de indisponibilidades de última hora de privilegiados,  e continuaram a trabalhar debaixo de intenso sol, chuva, quando o hotel onde estavam instalados deixava muito a desejar (por contraponto a quem ficou no aconhego do seu lar), enquanto outros estavam (coitados) privados de trabalhar porque a VPN estava indisponível;

- trouxeram verdadeiras pérolas da formação, nacional e estrangeira, à Academia Sporting para verem o vosso parecer abalroado por especialistas e directores nossos, e estas mesmas pérolas ao serviço de outros clubes (arqui-rivais ou mundialmente muito reconhecidos);

- não se calaram, não se deixaram intimidar, não deixaram de tecer considerações úteis ao Clube, pondo a vossa permanência no Sporting Clube de Portugal em risco, já que ao fazê-lo, poderiam estar a demonstrar/mostrar a inadequação de medidas e, por arrasto, a impreparação de superiores hierárquicos...

a todos, o meu reconhecidíssimo agradecimento e sinceríssimos votos de enormes felicidades, também profissionais. 

Antes de concluir, a correcção de uma imperdoável omissão. Publico hoje o rosto de um elemento da estrutura invísivel que nos deixou recentemente: o de Nuno Mota (16 anos ao serviço do Sporting Clube de Portugal): coordenador operacional de recrutamento do futebol de formação.

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Imagem: Sporting TV, Fevereiro de 2020

Termino, com imagens. As de Bernardo Busatori, reconhecido talento inato, exactamente como gosto de vê-lo, e onde só quero vê-lo: ou lá no alto (de troféu nas mãos), ou connosco aos seus pés. É a única posição em que admito ver talentos inatos que nos são confiados e que só aparecem a cada muitos anos.

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Imagens 1, 2: Bernardo Busatori e José Peseiro, Torneio Professor José Peseiro 2019, daqui.

* Em alguns casos, existe a possibilidade de pagamento de uma pequena quantia (por ex. 100€) quando são transportados jogadores para a AFS.

**Edição: Padernense Clube em vez de Padernense Futebol Clube

*** Edição de 14 de Abril: nome de atleta: Atanásio Afonso Miranda Cunha, tal como figura no site zerozero nesta data.

Fez ontem um ano

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Fez ontem um ano. Ao minuto 70 Luiz Phellype marcaria o único golo da partida contra o Moreirense, coroando de glória (e alívio) a estreia de (pelo menos) duas Leoazinhas no Estádio e Pavilhão João Rocha.

Luís Neto saiu do jogo maltratado, deixando no ar muita preocupação pelo seu estado. O ambiente no estádio pareceu-me frio, muito frio por comparação à última vez que lá estivera, na última partida disputada em casa, da época mais desafiante de que tenho memória.

Um ano depois, sem público nas bancadas, sinto-o quase gélido. O som ambiente dos jogos alterou-se de tal forma que ainda o estranho. O Capitão Fernandes da minha memória vivida em breve sê-lo-á por outro distinto emblema e Mathieu, da minha predilecção, pendurou as chuteiras.

Passou um ano, que parece valer por três.

Estranhezas à parte, tenho muitas saudades de ver o Sporting ao vivo e de vê-lo na casa que é de todos nós.

De pedra e cal - Lino separa o trigo do joio

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«Enquanto Ronnie Allen tenta afinar a equipa e ganhar escudos, na África, Lino orienta outro grupo de futebolistas do Sporting insistindo, sobretudo na preparação física de modo a tê-los em ordem quando o inglês voltar com os «craques» e requisitar os serviços de alguns deles. Paralelamente, os serviços administrativos do Sporting vão contratando uns e colocando outros na lista de transferências (definitivamente, ou a título de empréstimo), ultimando pormenores para a fixação de um bom quadro de vinte e poucos profissionais.

Em Alvalade, ao sol de Agosto, deparámos com Lino puxando a bom puxar por dez elementos a quem a diversos exercícios físicos e a uma sessão nas bancadas verdadeiramente puxada de sobe-e-desce escada até estoirar. Lá estavam Chico (que regressou de férias anteontem e se esforça para recuperar a forma), João Machado (irmão de Nando, que jogou no União de Coimbra e que Allen quer ver, pelo menos durante mais um ano, em Alvalade), Castanheira e Augusto (igualmente ex-juniores mas que vão ser cedidos ao União de Leiria) e Rui Paulino (que assinou contrato com o Farense e breve rumará ao Sul).

Damas apenas tem aparecido para tratar da lesão (está ainda de férias) e Fraguito aparece esporadicamente nos treinos devido ao serviço militar. Espírito Santo, do União de Leiria e recém contratado, goza as suas férias. Dinis, como se sabe, já está em África. Resta resolver o caso Peres, que entretanto goza férias no Algarve e de Alhinho, com a Académica a ver quanto receberá do negócio.» 3/8/72

Quarenta e oito anos e doze dias depois, os serviços administrativos do Sporting também se encontram numa azáfama e a ultimar pormenores para a fixação de um bom quadro de vinte e poucos profissionais.

Esperemos que, na época que se inicia em breve, consigamos o mesmo desempenho na Taça de Portugal e muito melhor desempenho no Campeonato Nacional (1ª Liga). A ver, também, se em Abril próximo não precisamos de mudar de treinador (https://www.wikisporting.com/index.php?title=1972/73). Já agora, que na Liga Europa da UEFA alcancemos muito bons resultados.

Fonte: acervo pessoal do antigo jogador Carlos Espírito Santo, com o meu sentido agradecimento ao seu filho, Ricardo Espírito Santo.

De pedra e cal - 2ª parte Formação de Elite, por João Nunes

A primeira parte desta conversa com João Nunes, encontra-se aqui.

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Na época 2013/2014, integra a Escola Luís Figo Winning League, Pequim, China. Como é que se chega à escola de Luís Figo? É verdade que Luís Figo escolhe cada treinador pessoalmente? Recruta preferencialmente nos nossos (Sporting) quadros?

Foram o Senhor Aurélio Pereira e o Senhor António Fonte Santa, duas ilustres figuras do mundo de futebol, uma da parte do Sporting e outra da parte do Benfica, que me referenciaram ao Professor Joaquim Rolão Preto.

Numa fase inicial, o Luís Figo tinha uma palavra dizer na contratação do candidato. Privávamos algumas vezes com ele, ia lá ter connosco. Depois as coisas começaram a crescer e ele deixou de conseguir entrevistar toda a gente ou estar com toda a gente. Até porque a Winning League chegou a ser a maior Academia de Futebol do Mundo, estava representada por toda a China. Também é verdade que havia uma ligação óbvia ao Sporting Clube de Portugal, até porque o Professor Joaquim Rolão Preto foi campeão pelo Sporting, conhecia muita gente no Sporting. O Luís Figo, é o que se sabe. Mas foram treinadores de muitos sítios, não foram só do Sporting. Estamos a falar de um universo de mais de 90 treinadores. Mas no início, sim, fomos escolhidos a dedo, digamos assim. Para além de mim, numa fase inicial, foram para a China o Gonçalo Monteiro que hoje fala para a SportTV, o Vítor Valente, que foi guarda-redes no F.C.Porto, o Nuno Marques, treinador no Casa Pia, o André Venâncio, que foi treinador d' Os Belenenses e que também esteve ligado às escolas da Academia Sporting e o Ricardo. Fomos para a China, recrutados pelo Joaquim Rolão Preto.

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Que diferenças encontrou entre o que se faz em Portugal e o que se faz na China?

Antes de mais, dizer que guardo o Professor Joaquim Rolão Preto no coração, é uma pessoa extraordinária, tenho-lhe uma enorme amizade (desenvolvida na China). Era o Director e Coordenador técnico da Winning League e, claro, foi escolhido pelo Luís Figo.

Agora, já há alguma cultura de treinadores portugueses na China, mas na altura, não havia.

Quanto às diferenças: as da própria cultura do país e mesmo da cultura desportiva. Aqui [em Portugal] podes ir pela descoberta guiada, lá é difícil ires pela descoberta guiada. Se eles não sabem o que é futebol, como é que eles vão descobrir alguma coisa? Vão guiar-se pelo quê? Não conhecem… Começas a trabalhar tudo de base, inclusive os limites e as regras do jogo porque nem isso sabem. Atenção que estou a reportar-me à altura em que lá cheguei, não ao momento actual. Com a chegada dos ocidentais, as coisas desenvolveram-se a um ritmo alucinante no futebol (porque as coisas na China, desenvolvem-se a um ritmo alucinante) pelo empenho e dedicação dos chineses. A verdade é que são muito pouco maleáveis, são muito rígidos no seu pensamento, pela sua forma de estar, pelo próprio sistema de ensino que privilegia memorização e não tanto a compreensão. Mas o facto de serem muito dedicados, dava-nos algumas vantagens. Ainda assim, só faziam aquilo que nós queríamos. Ora, o jogo, é uma coisa dinâmica e que implica iniciativa individual, autoconfiança e não podemos andar só à espera das ordens do treinador. Para eles isto era um problema. Parte táctica, em que não há surpresas, sem problema. Mas o jogo de futebol não é isto. É uma resolução contínua de problemas, com equilíbrios e desequilíbrios constantes num determinado espaço e tempo com uma estratégia comum que objectiva a vitória. É preciso resolver os problemas que surgem.

 

Em que é que a experiência na China (para além da Escola Luís Figo, foi coordenador da Z-Team em Guangzhou e da GDFC também em Guangzhou) mudou a sua forma de olhar para o futebol de formação?

Em Portugal, conseguia intervir junto de um atleta através do estímulo verbal. Lá, isso não acontecia. Tive de descobrir muitos exercícios que levassem a determinados comportamentos, fez-me pensar muito mais nos exercícios por não ter a ferramenta verbal à minha disposição. Como sou estudioso, pensei muito sobre o assunto. Tinha um problema que era a língua/comunicação, então foquei-me na solução ‘tipo de exercício’ a realizar. Foco-me sempre nas soluções. Servi de modelo muitas vezes, fazia eu os exercícios para que eles percebessem o que queria, participei muito no treino em termos de acções, tocava muito nos atletas e explicava ao pormenor o que fazer.

Debrucei-me muito sobre a própria cultura chinesa, estudei-a e tenho consciência de que mudei a minha forma de estar. Cheguei a Portugal uma pessoa muito mais calma, muito mais serena, a ver o mundo com outros olhos, a não acreditar só naquilo que me dizem, a sentir na pele que existem outras formas de treinar igualmente correctas. Convivi com ocidentais de muitas nacionalidades: ucranianos, eslovacos, russos, venezuelanos, brasileiros, colombianos, mexicanos - todos eles treinadores -, muitos ingleses, muitos espanhóis.

Vim da China muito mais rico e muito mais treinador. Tinha uma idade diferente. China para mim, significa muito estudo, muita experimentação. Muitos desafios, mas posso dizer que tive sucesso na China. Deu-me oportunidade para pensar em futebol 24 horas por dia, durante 5 anos.

Vim um treinador muito melhor, mas já fui para lá com uma grande bagagem.

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Depois de na época 2016/2017 ter sido coordenador da GDFC, regressa a Portugal e passa a profissional de recrutamento Sporting Clube de Portugal, para, na época 2018/2019, assumir funções de Director de Recrutamento e Director Técnico da Academia Sporting Clube de Portugal - Algarve, cargos que ocupou até 30/06/2020. Como é que surge este convite?

Ainda eu estava na GDFC, quando recebi o convite. Surgiu porque reconheciam-me competências, esclareceram que seria um projecto de continuidade e que supunha integrar os quadros do Sporting - algo que não veio a acontecer, como nós sabemos. Disseram-me que tinham a certeza de que faria um bom trabalho nas AFS e que poderia aspirar a integrar os quadros do Sporting Clube de Portugal no âmbito das AFS. Esclareceram logo que se tratava de um trabalho de recrutamento, de trabalho com meninos muito talentosos. Ao saber que ficaria a trabalhar com o Paulo Moreira, então, foi uma alegria, fiquei mesmo muito contente, foi um estímulo adicional. Saber que voltaria a estar perto do Paulo, fez-me sair da China para o Sporting Clube de Portugal, este grande clube e no âmbito deste grande projecto. Foi por ser o Sporting Clube de Portugal mas também, e muito, as pessoas com quem ia trabalhar. Só tenho de agradecer ao Sporting Clube de Portugal pela oportunidade.

 

Sobre a sua saída da AFS – Algarve, o que pode dizer-nos?

Que me sinto injustiçado. Em termos de números, a AFS – Algarve é a que apresentou melhores resultados. O meu contrato não foi renovado sob o argumento de que acreditam que são capazes de fazer melhor. Se são capazes de fazer melhor, por que motivo é que nenhuma das outras AFS apresentou melhores números? E o coordenador das outras quatro, quem é? Têm o coordenador que tem quatro e optam por não renovar com o coordenador que tem uma, e apresenta melhores resultados do que as outras quatro AFS juntas. As outras AFS estão inseridas em grandes centros populacionais e com um número enorme de praticantes de futebol. Não falta por onde escolher.

Acho que foi uma decisão incoerente, não encontro lógica na justificação. Achamos que conseguimos fazer melhor (foi o que me disseram), mas optamos pelo coordenador que fez pior (o que teve 4 AFS a seu cargo e nenhuma se aproximou dos meus resultados). Foi o que aconteceu e levou à não renovação do meu contracto de trabalho.

Trabalhei sempre com o meu mérito, não me socorri nem de estratégias nem de estratagemas para subir. Sim, choquei com algures clubes, porque queria os melhores jogadores para o Sporting Clube de Portugal. No início de um projecto, tu tens de ter jogadores e eu quis ter os melhores e para isso tive que chocar. Mas ao fim de três anos, já tens jogadores que não subiram para Alcochete e já tens jogadores para dar a esses clubes e esses clubes agradecem-te porque recebem jogadores formados por profissionais de excelência. E esses miúdos são mesmo muito bons, só não atigiram ainda o nível exígivel para enviar para Alcochete. Muitos deles, vão aparecer mais tarde.

Posso dizer-te que senti-me injustiçado pela Direcção da Academia. É verdade que houve muitos movimentos pró João Nunes, sócios, encarregados de educação, núcleos. Eu, fui claro: não devem nada ao João Nunes. O João Nunes fez o seu trabalho. Os números falam por si. Isto, é futebol. A Direcção fez uma escolha. Errada, a meu ver. Pode-se dizer que é uma questão de estratégia, mas que estratégia é esta? O que está bem, muda-se? E fica-se com o que está mal? Acho que não faz sentido. Acho que não foram humildes, que não pensaram fora da caixa.

Há quem tenha competências, que pensa fora da caixa e obtenha bons resultados. É este pensar fora da caixa que pode ser a reviravolta no marcador. É com pessoas que pensam fora da caixa que o Sporting Clube de Portugal pode recuperar a hegemonia do passado. Ou fazemos diferente, temos vontade e ambição, ou então vamos continuar na mesma. São pessoas como o Senhor Aurélio, talentosas e que pensam fora da caixa, que fazem o Sporting aquilo que ele é em essência.

Se continuarmos na mesma linha, na linha dos outros, os outros acabam por ganhar porque têm mais dinheiro do que nós.

Este caminho, com a excepção do período dos Aurélios, não tem sido dos mais interessantes. Fomos tendo algum sucesso, mas não à altura da grandeza dos pergaminhos deste Clube. E se o tivemos, devemo-lo ao Departamento de Recrutamento, ao Senhor Aurélio Pereira.

Agora temos mais umas ferramentas que são as AFS, contra tudo e contra todos. Foi muito difícil lançar as AFS, contra alguns lobbies instituídos dentro do Sporting Clube de Portugal mas não gostava de falar sobre isso. Elimina-se o coordenador cuja AFS melhores resultados apresenta, para quê? Para voltar ao quê? A uma estratégia que é pessoal ou é do Clube? Isso é o que as pessoas têm de definir.

Quando chegámos ao Algarve, o C.F.T. só tinha duas equipas no patamar mais baixo: uma de Benjamins e uma de Infantis.

O FCP tinha as equipas que pagavam para ter formação (dentro da lógica EAS) e tinham aquilo a que eles chamam ‘Porto Elite’ (o correspondente às nossas AFS) e neste último, tinham Traquinas e Benjamins.

Ora, estratégia minha ao iniciar? Resolvemos ter – logo no primeiro ano – 1 de Traquinas, 1 de Benjamins e 1 de Infantis. O objectivo foi assumidamente anteciparmo-nos um escalão ao Benfica (que tinha Benjamins e Infantis). Entretanto, a meio da época, antecipámos logo os meninos de 2012 [Petizes, à data; ter em consideração o ano de inauguração, 2018]. No entanto, os Petizes (2011/2012), não tinham competições oficiais, tiveram apenas alguns torneios não oficiais.

A verdade é que ao anteciparmos a captação de alguns petizes, no ano que passou, o C.F.T. tratou de imitar-nos, porque percebeu como nos tínhamos antecipado e assim ganhado o mercado.

Assim, ficámos com duas equipas de Traquinas, 2012 e 2011, uma equipas nos Benjamins, a de 2009 e a de 2010 e uma equipa de Infantis (2008 e 2009). A meio da época, comecei logo nas captações dos meninos de 2013.

Todos os nossos meninos competem sempre com meninos mais velhos: um ou dois anos mais velhos.

Apesar de nos terem copiado a estratégia, nós conseguimos ser (ainda) mais competentes e criámos estratégias para dificultar-lhes novamente a vida... tínhamos um plano que foi totalmente por água abaixo... [não foi implementado]

Por experiência própria, sei que se não nos anteciparmos e andarmos a discutir um atleta ao mesmo tempo que o SLB, ganham-nos pela estabilidade e por terem sido campeões há pouco tempo. Os miúdos viram e, para além disso, têm muito mais dinheiro do que nós.

Então eu crio estratégias novas para antecipar cenários e ter os atletas antes - e ter a oportunidade de os fidelizar ao SCP – e deixam-me cair o projecto!? Falo de um projecto completamente pensado para os Encarregados de Educação, que visava aumentar o grau de satisfação dos pais perante situações como a ‘despromoção’ (que não é) dos meninos a outros escalões para trabalhar aspectos muito específicos e outras estratégias mais que não gostaria de revelar.

O que é importante é que eu com exactamente o mesmo orçamento das outras AFS, pus mais atletas na Academia e tinha o dobro das equipas. E tinha-as para ter mais opções de escolha. E nunca ultrapassei o orçamento, aspecto de que as outras AFS não se podem gabar. Os meus números, são melhores do que os números das outras 4 AFS juntas.

Já disse que não sou um falso humilde… o meu trabalho foi exemplar e um estudo de caso em matéria de gestão e de treino de talentos.

E mesmo assim não chegou para convencer o desconhecedor (Alto Rendimento) Paulo Gomes (Director da Academia). Devo salientar que acho que a Direcção do Clube (/SAD) tem boas intenções, mas não sabem desta área em pormenor – nem têm de saber – e não estão rodeados de todas as pessoas certas.

Fiquei triste, sinto que foi uma saída injusta e sem que as pessoas percebessem porquê. Na hora da despedida, resta-me o consolo de saber que as pessoas do universo Sporting Clube de Portugal, sabem que o João Nunes foi um profissional de excelência.

 

Quem são as suas referências no treino de formação e no treino de séniores?

No treino de formação, para ser sincero, tinha uma ideia muito própria sobre o que era o treino de formação, tal como já expliquei, vinha de ser um autodidacta, de ter lido muito, de ter pesquisado, de ter feito a minha própria metodologia, mas eram ideias avulsas, chamemos-lhe assim, até ter ido estagiar no Sport Lisboa e Benfica. Foi aqui que encontrei uma pessoa de quem fiquei fã no primeiro treino e que revelou ser todas as minhas ideias, mas organizadas e com método. Com forma, brilho e espectáculo. Falo do Professor António Fonte Santa. Se há alguém de quem posso dizer que o meu treino tem muito, é do Professor António Fonte Santa (apesar de ele ser dos meus tempos na Geração Benfica) mas é uma pessoa inovadora e eu gosto de pessoas assim. A linha era aquela em que eu acreditava e aquela que eu consegui perceber que se encaixava quase como um puzzle que eu idealizava. A partir daqui, fui afinando a minha própria metodologia mas com assumidas influências de Silveira Ramos até mesmo o Professor Jorge Castelo (foi meu coordenador 6 anos). Bebi de muita gente. Mas o Professor António Fonte Santa, foi aquele que mais me motivou.

Silveira Ramos, depois de ler o livro Da rua à competição e por falar com ele algumas vezes, também.

Nos séniores, acho que ninguém fica indiferente a José Mourinho que marca uma mudança. Tem um mérito enorme. Mudou todo um universo futebolístico.

Mas Marcelo Bielsa, pela sua irreverência e vontade. Muito à imagem de uma causa, e eu gosto deste tipo de treinadores que são corajosos, de causas, que são muito emocionais, que envolvem muito as massas. É um revolucionário, um louco.

Jurgen Klopp, também. Pela forma agregadora e pela forma muito apaixonada de ver o jogo.

Atraem-me mais as pessoas que são inovadoras.

O Jorge Jesus tem um mérito enorme. Uma pessoa que não tem formação académica a ajudá-lo mas que consegue fazer o que ele fez. Pelo seu querer, pela sua vontade, por ser um autodidacta, por ser uma pessoa capaz de se superar.

Eu preciso de perceber, gosto de estudar ao pormenor os clubes, as estratégias, as dinâmicas. Aprender com os outros, claro, mas o que mais me estimula é fazer por mim, ser autodidacta.

 

Recusou treinar equipas séniores por que motivo?

Optei por formação porque gosto muito de crianças. Adoro ensinar. Adoro ensinar futebol. Estou certo de que um professor de futebol, num ano, tem mais influência no desenvolvimento de uma criança do que um professor da escola tem em seis. Depois, por perceber que a maior parte dos treinadores pensava mais em séniores, mas a qualidade do futebol sénior, depende da qualidade do que se faz… na formação. Os convites para treinar séniores continuam a surgir, mas eu preferi ficar na formação também para ter uma especialização.

Estive 6 anos n’ Os Belenenses, passou por lá Jorge Jesus, tive essa sorte; privei com o Rui Jorge nos Juniores, o Romeu nos juvenis, o Filgueira, o Bruno Pinheiro que também era professor. O Paulo Moreira também lá estava. Tive a sorte de perceber este caminho até ao futebol profissional, até aos séniores.

Ganho um campeonato no momento em que um jogador meu pisa pela primeira vez um relvado como profissional. Vamos falar de um jogador nosso, não vamos falar dos dos outros… quando o Bruno Paz se estreou pela equipa principal, foi um orgulho enorme. Aí sim, ganhei um campeonato porque tive uma influência muito grande na formação do Bruno Paz. Esteve comigo n’ Os Belenenses e fui eu que o encaminhei, digamos assim, para o Sporting. Quase que o desviei que ele já estava noutro lado… [outro lado da 2ª Circular; as inscrições pelos dois Clubes entraram ao mesmo tempo e ficou 3 meses sem jogar]

 

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Afonso Santos, geração 2007

Que conselhos daria a alguém que quer vingar como treinador de formação?

O conselho que dou a um treinador de formação: sensibilidade para crianças, conhecimento das etapas de crescimento, perceber as sociedades e suas evoluções, perceber as diferenças culturais e ser muito trabalhador.

Ser treinador de formação tem mais de transpiração do que de inspiração.

Não utilizar os jogadores como degraus à ascensão como treinador e acima de tudo perceber que é uma passagem na carreira do jogador e que temos de saber sair na hora certa para eles poderem continuar a evoluir e voarem sozinhos.

Ser conhecedor profundo do futebol e do meio futebolístico.

 

Ao cabo destes anos de experiência acumulada, o que é que mudaria no futebol de formação em Portugal?

Claramente, a forma como se olha para o futebol de formação. O futebol de formação tem de ser visto como uma mais valia. A qualidade do futebol infanto-juvenil influencia directamente a qualidade do futebol sénior. Posto isto, e posto que há um grande abandono da prática desportiva do futebol, temos de perceber que o futebol não se faz só em Lisboa, não se faz só nos grandes centros e nas grandes cidades, como Portimão, como Faro, como o Porto, como Aveiro. Faz-se também no interior.

Mudava já os cursos de futebol. Porque repara, numa aldeia, onde existam crianças, pode haver um talento. É a pessoa que sai do seu trabalho, que não vai ganhar nada, que vai envolver as crianças e vai pô-las a praticar desporto. Pode estar ali um Cristiano Ronaldo, como estava na Madeira. É essa pessoa, que não ganha nada a treinar os meninos, que não vai pagar 700€ para ter o curso de primeiro nível. A meu ver, a Federação Portuguesa de Futebol, fazia um bem enorme ao futebol de formação se os cursos de formação não fossem pagos e fossem dados nas autarquias, nas juntas de freguesia, porque no futebol de primeiro nível, é preciso conhecimento. Então, esse conhecimento deveria ser “dado” e não pago. Estamos a falar de um curso que custa 700€ e demora 2 anos a tirar. É algo que não me cabe na cabeça. Ninguém com o primeiro nível vai treinar equipas séniores, portanto se vão treinar meninos, jovens, como é que vão pagar 700€? Eles não ganham nada… Como estamos, vai haver um abandono. Não vai haver treinadores, haverá seguramente menos praticantes. Se há menos praticantes… o futebol fica mais pobre. Eliminava o pagamento. Devia haver um curso para principiantes e para pessoas que quisessem treinar, que fosse financiado pela Federação e pelo Estado.

Quanto aos jogadores de elite: mudava a forma de treinar. Nós vamos muito aos princípios de jogo quando devíamos estimular e potenciar comportamentos e atitudes que numa altura mais avançada – dos 14 anos para cima – eles sim, permitem potenciar os princípios de jogo.

Também mudaria o modelo competitivo. Se uma criança jogar um jogo do campeonato, não chega. Poderia fazer-se o campeonato na mesma, mas com 2 ou 3 jornadas num dia. Não acredito que um menino tocando na bola 5 minutos, evolua qualquer coisa. São convocados 12 meninos, portanto se fizermos as contas, um menino que joga meia parte, joga 25 minutos, logo está 10 minutos dentro do centro de jogo, portanto, toca na bola durante 5 minutos. Tem a bola nos pés e toda a gente está a dizer para ele passar. Um menino não evolui nada num jogo, tem de fazer muitos mais jogos para evoluir alguma coisa. Portanto, muitos mais jogos, muito mais competições e convívios, isso sim.

WhatsApp Image 2020-08-02 at 17.52.22 (1).jpegPara os mais distraídos, sim, é o nosso (AFS- Algarve) João Afonso, nascido em 2010 e um outro jovem talento que encanta por Manchester (e não só)

A qualidade da formação Sporting, está em declínio?

A formação do Sporting não está em declínio.

O que te posso dizer é: o que provoca algum abrandamento na evolução é a constante mudança dos directores e com eles as mudanças de algumas das ideias. Não acontece propositadamente da nossa parte, mas sim por meio de um processo normal de adaptação. A (nova) directoria, tem de adaptar-se a uma estrutura complexa que é a da formação de atletas.

O pior está no facto de que quem chega, a cargos superiores, pensa em mudar mas não sabe mudar. Ou melhor, não sabe o suficiente para saber mudar bem. O Sporting Clube de Portugal, tem gente muito, muito competente nos seus quadros. Pessoas que sabem muito sobre formação, sabem muito sobre detecção e recrutamento de talento.

Para se saber sobre formação temos de estar, pelo menos, três anos ligados a esta máquina. Para evoluir, para corrigir o que está menos bem, é preciso experiência, porque quem vem de novo vai facilmente cair nos erros que nós já sabemos que o são, dificilmente consegue ‘'pegar de estaca’' nas sinergias que já estão estabelecidas.

Quem não trabalha no Sporting Clube de Portugal, não tem ideia da dimensão e complexidade que é a estrutura de formação de um clube com a dimensão do Sporting. O Departamento de Recrutamento, é uma estrutura com muitos anos, com falhas – é verdade – mas também com virtudes. Mas é um departamento em que podemos dizer que a máquina está oleada, porque tem os profissionais escolhidos pelo Mestre Aurélio Pereira. O que quero dizer é que tem de haver uma evolução constante. Se estivermos sempre a mudar peças, o resultado do processo não é sempre o mesmo. É precisar haver continuidade, para que se estabeleçam processos estáveis. Quem já lá está [no Sporting], é excelente naquilo que faz e está em constante evolução.

Os atletas que chegaram agora à equipa principal, não chegaram agora à formação. Eles já estavam na Academia quando eu lá estava. Saiu uma notícia sobre os colchões e que a formação estava ao abandono mas a verdade é que algo se fazia bem. Podia-se era melhorar. Mas muita coisa, foi bem feita. E foi bem feita, em sacrifício, em superação, e sem os recursos que outros clubes têm à sua disposição, digo-te eu com conhecimento de causa. Estes colaboradores Sporting Clube de Portugal, fazem milagres. O investimento, até existe… mas se ele não é canalizado para o sítio certo, aí sim, temos problemas. O que é que sucede? Está a pedir-se a um colaborador que faça um sacríficio – que ele faz – mas não nos superamos para sermos campeões mas para estar sempre ali na mediania. E isto, não chega para profissionais desta craveira, que dão tanto, nem serve para o Sporting Clube de Portugal. Nós não temos de estar a lutar para estar a disputar com os nossos adversários. Nós temos de ter – em todas as dimensões – condições para os superarmos. Isto, é que é a ‘Glória’.

Os verdadeiros profissionais do Sporting Clube de Portugal, não são os das Direcções. São as pessoas que estão ao serviço do Sporting Clube de Portugal, todos os dias. Mas estão verdadeiramente ao serviço do Sporting Clube de Portugal.

Quase todos os candidatos à presidência do Sporting usam a bandeira da formação, mas passados uns meses parece que a formação passa para segundo plano, quando deveria ser uma aposta constante de todas as Direcções e de todos os Sportinguistas. É como se fossem os nossos filhos.

A formação no Sporting Clube de Portugal não está em declínio. Ela não está é alinhada “com o resto”. “O resto”, está sempre a mudar. E as mudanças [formação], desculpa lá a insistência, têm de ser impostas por quem sabe.

 

O melhor de trabalhar para o Sporting Clube de Portugal, foi?

O melhor, foi descobrir que existiam profissionais no Sporting que me proporcionaram a oportunidade para expor o meu trabalho, as minhas características, sem ser condicionado. E eles conseguiram conduzir-me para aquilo que é o sucesso de um todo, que é o Sporting Clube de Portugal. Muito feliz por ter conseguido conquistar as pessoas com base no meu trabalho e por saber que não há uma pessoa que não me reconheça competências. Fui muito feliz e aprendi com todos, da senhora da cozinha aos seguranças.

O departamento de Recrutamento ensinou-me muito. Fez-me crescer muito, na forma de ver o jogador do individual para o colectivo. Saio riquíssimo do Sporting Clube de Portugal.

Este clube merece todo o meu respeito e admiração, vou ser grato para sempre, as pessoas que estiveram comigo, deram-me muito. As Direcções passam, mas há pessoas que se mantêm e que são preciosas. É o que levo de melhor.

 

Disse-nos ‘até sempre’ ou ‘até já’?

Bom, eu sou um profissional do futebol, estou sujeito a convites, é disto que faço vida. Espero que seja um ‘até já’, mesmo que esteja noutro clube, espero que se equacione sempre o meu regresso ao Sporting Clube de Portugal. Claro que depende das condições, como é normal, sou um profissional. Mas o que eu gostaria de dizer é que enquanto estive no Sporting, estive para servir e ao serviço do Sporting Clube de Portugal. Continuarei a fazê-lo, até estar ao serviço de outro clube. Quando estiver noutro clube como profissional (Lusitano de Vila Real de Santo António)**, deverei toda a minha fidelidade a esse clube. Estou ao serviço do futebol e, por isso, de quem me contrata. Claro que tenho um carinho especial pelo Sporting Clube de Portugal o que leva a que, da minha parte, as negociações para ir para o Sporting gozem de um estatuto privilegiado. Não esqueço tudo o que as pessoas que servem o Sporting me deram e contribuíram para a minha formação. Para mim é sempre, e espero que da parte do Sporting Clube de Portugal, também, um 'até já'.

 

Há alguma coisa que gostaria que lhe tivesse perguntado e não perguntei?

Sim. Recrutamento. Gostaria que me tivesses perguntado sobre a importância do Departamento de Recrutamento.

Força, conte-me tudo!

É fundamental por ser o momento da escolha da matéria-prima para ser trabalhada. É descobrir o diamante para depois lapidá-lo. Mesmo com um diamante, se usares um martelo e não as pinças e martelinhos pequeninos, não consegues tirar o melhor do diamante, o máximo que consegues é pó de diamante. O Departamento de Recrutamento detecta o diamante, ele só pode ser trabalhado se for detectado.

É fundamental saber definir o que é um 'talento' e um 'projecto de jogador'. É isto que o Departamento faz. Agora fala-se muito em tamanho, mas tamanho é um factor diferenciador. Mas o facto de, por exemplo, ser muito alto, não quer dizer que aquele menino venha a ser jogador de futebol. É um factor diferenciador, como o é a velocidade. Todos nós queremos jogadores que sejam muito rápidos, assim como queremos um jogador muito técnico, muito criativo, um jogador imprevisível.

Não nos podemos esquecer de que estamos a escolher jogadores para o Sporting Clube de Portugal, estamos a escolher jogadores para a Liga dos Campeões. O objectivo do Sporting é sempre esse, logo, é sempre para essa fasquia que temos de trabalhar. É para aí que nós no Departamento de Recrutamento trabalhamos, é para aí que projectamos o nosso trabalho. Quando trabalhamos para outros emblemas que não o Sporting Clube de Portugal, então aí, sim, já olhamos para o ‘rendimento’, a presença destas características altamente diferenciadoras não é um factor tão importante como é para nós.

Depois dessa detecção, vem a Avaliação. É realizada por elementos do Sporting Clube de Portugal que conhecem os meninos de Norte a Sul. Gostaria de dizer que são profissionais que viajam muito, que vêem muitos jogos e que têm um conhecimento geral dos meninos que estão nos nossos quadros.

Estes meninos passam depois por vários níveis e vários níveis de observação integrada. Ou vão a um treino integrado já com equipas de competição ou vão fazer um jogo particular em competição ou são inseridos num contexto de captação, em que juntámos os meninos que nós vimos e analisámos ao longo de um período de tempo e são os melhores e depois, entre eles, fazemos um filtro dos melhores.

Depois então, vem o processo de ‘Convencimento da Família’, para que queiram ficar no Sporting Clube de Portugal. Pode soar estranho, mas não se esqueçam que nós estamos a disputar meninos com o Benfica, o Porto e até o Braga. Os outros clubes também têm profissionais, também têm gente que sabe muito disto. Não nego, é uma fase do processo que dá muito trabalho e ainda dá mais trabalho quando… não somos campeões há "20 anos". Muitas estratégias… Detectar dá trabalho, avaliar dá trabalho, convencer dá muuuito trabalho. Mesmo muito trabalho, sempre em contacto com as famílias a tentar perceber, a fazer valer todos os nossos melhores argumentos, apresentar 'N' cenários à família.

Neste domínio, o Sporting deve muito ao Senhor Aurélio. O know how refinado que temos devemos ao Senhor Aurélio Pereira. Respira-se Aurélio Pereira na máquina que é o Departamento de Formação. Não me canso de dizer que o Aurélio Pereira dos tempos modernos é o Paulo Moreira, mas há muitas outras pessoas talentosas no Departamento, nomeadamente: o Rui Casteleiro, o Alex – que apesar de ter saído do Sporting há pouco tempo, é um talento – o Luís Branco, Luís Ramos, o Gabriel, o Simão Mendes, o Bruno Brito – Bruno Brito excelente profissional –, Nuno Mota, João Correia, são tantos e tantos… Mas destacar sempre o Paulo Moreira. Há tantas e tantas pessoas neste Departamento com tantas e tantas capacidades, é difícil estar a nomear todas. O Nuno Mota, um organizador, muito minuncioso e que tem um talento enorme, lidera pela organização, é o engenheiro de todo o Departamento.

Voltando ao processo, depois da ‘Detecção’ (informadores/observação directa), ‘Avaliação’, ‘Selecção’, ‘Convencimento da Família’, vem então a fase da ‘Contratação’. É a fase mais difícil. Acontece ao mesmo tempo da fase do ‘Convencimento da Família’. Fechar e assinar o menino, é a fase mais difícil. Mas, atenção, o trabalho do Departamento de Recrutamento, não se esgota aqui. Nós, no Sporting Clube de Portugal, continuamos a acompanhar o atleta e a família.

Acompanhamento à Família e ao Atleta: são muuuitos atletas. Este acompanhamento tem de ser feito, não vou dizer que 24h por dia, porque são mesmo muitos atletas, mas 24h por dia, nós estamos a fazer acompanhamento dos atletas. Para fidelizá-lo ao clube, porque eles estão sempre a ser assediados/tentados pelos outros clubes – porque eles são os melhores – por isso, é fundamental manter uma presença constante na vida destas famílias. É um trabalho muito, muito, grande. Desde o momento em que se detecta o atleta, até ao momento em que o atleta sai do clube, nós estamos sempre presentes na sua vida. Sempre. Até mesmo depois de saírem do clube, muitas vezes.

Depois deste processo todo, podemos dizer que o Departamento de Recrutamento e a área técnica, chocam muitas vezes. E chocam porque uns querem descobrir talentos novos (recrutamento) e a área técnica quer desenvolver os talentos que tem, ora… se se colocam novos meninos dentro das equipas, muitas das vezes pode ser sentido como estar a pôr em causa o trabalho do treinador, como se ele estivesse a fazer um mau trabalho com os meninos que estão sob a sua alçada… o treinador está ligado emocionalmente aos meninos da equipa. Se eu sou treinador, e há outro da mesma idade que vai entrar ali, se calhar, pode-se estar a pôr em causa o meu trabalho. É fundamental ter uma sinergia bem oleada, para que treinadores se sintam confiantes em relação ao trabalho que estão a fazer e aceitem os novos meninos que os coordenadores decidam integrar. Ninguém quer correr o risco de o próximo 'Cristiano Ronaldo' aparecer do outro lado.

Como estive nas duas áreas, compreendo as dinâmicas específicas da área do ‘Recrutamento’ e da área técnica, profundamente.

Todos os meninos que entram no Sporting Clube de Portugal são excepcionais e vão ser lapidados pela área técnica. Mas será que todos atingem o seu potencial máximo? É que o treinador tem um papel fundamental… tem de saber muito bem como aplicar o quê, no momento certo. No Sporting, trabalhamos para ter atletas do meio da tabela para cima, não do meio da tabela para baixo. Trabalhamos, para ter jogadores de Liga dos Campeões.

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Imagem: João Nunes, ao serviço do Sporting Clube de Portugal

 

**Devo salientar – CAL – que João Nunes fez questão de sublinhar já em momento pós gravação de áudios-resposta, que não seria justo no imediato ir para um adversário directo (SLB/FCP); tem consciência plena de que muitos meninos seguir-lhe-iam os passos mas não deseja ver o projecto no Sporting ressentir-se nessa extensão.

Imagens: todas cedidas por João Gonçalves Nunes

De pedra e cal - Formação de Elite, por João Nunes

Uma época e meia da Academia de Formação Sporting – Algarve (AFS – Algarve), sob a coordenação de João Nunes: 15 jovens talentos na Academia de Alcochete mais 1 a realizar a pré-época 2020/2021.

Foram estes os números que me chamaram à atenção e despertaram curiosidade. À primeira vista, impressionam.

A formação Sporting não está em declínio? O Sporting não deixou de ser capaz de captar talento? Não é no Seixal que se formam os craques da actualidade?

Será caso raro ou, perante os números das outras AFS, absolutamente banais? Qual é a diferença entre uma EAS e uma AFS?

A equipa sénior de futebol não ganha um campeonato há 18** anos. Como é que um talento ao serviço do Sporting é adepto do nosso clube e quer jogar na equipa principal?

Estas são algumas das perguntas que fiz ao Mister João Nunes que, ao cabo de 3 anos, deixou de integrar o plantel da AFS - Algarve. Foi a 1 de julho que iniciou funções ao serviço de outro emblema (local) e divulgou publicamente – perfil Facebook – os números que apresentei. Disse-lhe que gostaria de saber mais sobre o que é a formação Sporting fora das paredes de Alcochete. Assentiu prontamente e impôs uma única condição: não falar sobre política. Sou do Sporting, não sou de Direcções - esclareci. Já somos dois - respondeu.

Para além da simpatia e disponibilidade do Mister, o Whatsapp viabilizou esta conversa à boa maneira da COVID-19. Enviei um sem número de perguntas, recebi clipes de áudio de resposta.

Esta conversa, vai ser apresentada em duas partes.

  

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João Gonçalves Nunes, n. 25 de janeiro de 1972

Jogou no Águias de Camarate e aos 18 anos treinou uma equipa de infantis do seu bairro.

Foi pai aos 19 anos.

O convite para ser professor num ginásio em Serra de Minas (Sintra) trouxe a oportunidade para aprofundar conhecimentos sobre, entre outros, fisiologia, nutrição e dinâmica, capacidades coordenativas e condicionais.

As responsabilidades familiares obrigaram à escolha de uma profissão que permitisse suprir as necessidades de sobrevivência da jovem família, foi assim que, enquanto motorista de pesados, viajou pela Europa fora. Não se pense por um momento que esqueceu a paixão pelo treino de formação. Bem pelo contrário. Extrovertido, tratou de abordar todos os treinadores que pôde, por todos os países por onde passou. Chegando mesmo a começar o dia de trabalho às 04:00 para às 14h estar disponível para assistir a treinos.

Aos 26 anos, mais autónomo (chegou a ter 15 camiões e 30 funcionários), podia decidir se saía ou não de viagem. (Re)Começa, assim, a viagem pelo futebol de formação no Barberà del Vàlles, em Barcelona. Já recebeu convites para treinar equipas séniores que declinou sempre.

Ocupou, até 30 de Junho, o cargo de Director de Recrutamento e o de Director Técnico da Academia de Formação Sporting Clube de Portugal – Algarve.

 

Mister, o que é a Academia Formação Sporting - Algarve?

JGN - A AFS – Algarve está integrada num projecto composto por cinco AFS, escolhidas estrategicamente por referência a um critério geográfico. Temos uma em Braga, uma no Porto, uma em Aveiro e uma em Coimbra.

Este projecto começou em Agosto de 2017, muito antes da sua inauguração oficial. Integrei a AFS Algarve em Outubro de 2017. Contudo, não faz sentido falar sobre a AFS – Algarve isoladamente. Este é um projecto no qual o Sporting investiu cerca de 1 milhão de euros e cujos 6 profissionais contratados inicialmente, prepararam o seu arranque nos cinco pontos do país em regime de completa exclusividade.

A 5 de Setembro de 2018*, foram inauguradas todas as AFS.

Fizemos um trabalho de bastidores exaustivo: quisemos caracterizar o jogador algarvio, reunimos com clubes locais, com membros dos núcleos, quisemos perceber onde estava o talento. A escolha do Núcleo ‘parceiro’ também obrigou à verificação de critérios bem definidos de maneira a assegurar que as nossas equipas competiriam nos locais certos. A nossa escolha recaiu sobre o Núcleo de Olhão.

Muitas reuniões para definir número de meninos a recrutar, quantos equipamentos deveriam ser comprados, noites a estampa-los – Paulo Moreira teve um papel de relevo neste campo. Há um trabalho de fundo, muito significativo, antes do momento da inauguração.

Um ano antes da inauguração fizemos inúmeras actividades de recrutamento. Viajámos muito, pernoitámos em locais que não lembram a ninguém, fomos ver muitos jogos, fomos a muitos torneios – aqui no Algarve –, fizemos uma caracterização profunda do universo algarvio. Excepção feita a alguns miúdos já detectados pelo Recrutamento, não havia nada feito. Anteriormente, os colegas do Recrutamento não tinham uma "ferramenta como a AFS" onde colocar os meninos. Conseguiram segurar alguns de forma absolutamente miraculosa, porque a concorrência era feroz, já estavam muito bem preparados. Só para que se perceba, o C.F.T. – Benfica estava no Algarve há 11 anos. Punham e dispunham no Algarve. Tínhamos o F.C. Porto, que já cá estava há cinco anos. Só o Sporting não tinha aqui uma estrutura sólida. Por aqui se vê a dificuldade que era recrutar um menino para o Sporting.

Se tinham o Benfica à porta de casa, iam pôr o menino em Alcochete/Pólo EUL, a 300 km?

Ora, AFS é, por definição, um projecto de detecção e recrutamento de talentos. Os meninos são selecionados pelas suas características diferenciadoras e passam a ser um investimento total do Sporting Clube de Portugal. Não há, portanto, qualquer tipo de pagamento efectuado pelos encarregados de educação. O trabalho realizado numa AFS acontece de acordo com linhas orientadoras desenvolvidas em Alcochete.

A estrutura de uma AFS é composta por um coordenador de zona, no caso do Algarve o talentoso Paulo Moreira que, não me canso de sublinhá-lo, é um talento do Recrutamento. É preciso não perder de vista que não há só talentos nos jogadores. Também os há no recrutamento, no treino, … Paulo Moreira, cobria a região algarvia e a região alentejana. Posteriormente, passou a haver um coordenador local, que articula com o coordenador de zona e a própria Academia (estive inúmeras vezes na Academia, ia lá beber o que depois reproduzi aqui), um coordenador técnico, uma psicóloga, um fisioterapeuta, um secretário técnico e treinadores (certificados pela Federação). O número de atletas que temos, define o número de escalões que temos. No nosso caso, iniciámos com cinco elementos. A AFS - Algarve tem uma equipa de recrutamento que evoluiu de uma única pessoa para toda a região algarvia (Edgar Jaques) para três pessoas: 1 coordenador para Vila do Bispo, Aljezur, Monchique, Lagos, Portimão, Lagoa e Silves, 1 coordenador Albufeira, Loulé e Faro e 1 coordenador para S. Brás de Alportel, Olhão, Tavira, Alcoutim, Castro Marim e Vila Real de Santo António. Cada um deles, tem uma equipa de observadores e informadores (passamos a ter uma estrutura muito idêntica à de Lisboa e Setúbal). Poucos foram os jogadores que iniciaram a sua actividade desportiva sem que eu soubesse primeiro do que os nossos adversários (esta evolução, alcançámo-la do primeiro para o segundo ano da AFS - Algarve).

Só para que se perceba, da geração de 2007 no ano de arranque, a AFS – Algarve pôs cinco meninos em Alcochete e ainda pusemos mais um de fora da AFS, da geração de 2006. A C.F.T. (o equivalente benfiquista à AFS), pôs zero no Seixal. Secámos o Benfica logo no primeiro ano.

Inicialmente, partilhávamos os espaços do Guia FC, actualmente, temos a sede operacional em Paderne graças a um acordo firmado com o Padernense FC (Albufeira).

 

Explique-me os números que divulgou. São… normais? Há mais talento futebolístico na região algarvia do que no resto do país?

JGN - Ora, realmente os números não são normais… mas acabam por ser normais. Não são fruto da sorte, são fruto de muito, muito trabalho. Posso dizer que nestes últimos três anos trabalhei 24h por dia para o Sporting Clube de Portugal. Achei que era altura de provar que não faz sentido olhar para um jogador só a partir dos 16 anos para cima. Os meninos não começam a jogar futebol aos 16 anos. Hoje em dia, começam a jogar futebol aos 5 anos de idade. Há uma coordenação entre projecto ‘criança’, projecto ‘atleta’ e projecto ‘jogador’, porque na AFS, só queremos elite.

Talento, há por todo o país. Temos é de detectá-lo e criar as sinergias com a área técnica que permitam a sua expressão e materialização.

Ao cabo de 30 anos, sei o que é preciso fazer, sei que sou bom naquilo que faço, estive constantemente no terreno de jogo, quando falo em 24h por dia, foram mesmo 24 horas por dia. Deu muito trabalho, foi muito desgastante, mas os números estão aí e falam por si. Não sou um falso humilde, sei neste momento muito sobre detecção, contratação e fidelização de um atleta.

 

Em termos de número de crianças, como estamos face à oferta na região? Os pais procuram-nos ou temos de ser nós a procurá-los?

JGN - Estes meninos são detectados através dos nossos observadores que fazem um relatório sobre um jogo onde viram um atleta, relatório este que vai ser lido pelo coordenador de zona. Se for um menino que é um talento daqueles que salta à vista, telefonam-me e eu rapidamente largo tudo o que estou a fazer e vou lá ver o menino. Se realmente o menino for top dos tops, já não entra no processo normal e eu posso decidir logo ali que quero o menino na AFS. Não sendo um menino top dos tops mas sendo um menino a quem chamamos um ‘projecto’, dentro de um processo chamado normal, após o relatório ser lido pelo responsável técnico, há lugar à emissão de um parecer. Quando existem 3 pareceres técnicos positivos, o do coordenador de zona, o do director técnico – que era eu – e um dos elementos da equipa selecção (Lisboa), um jogador pode entrar na nossa Academia (AFS). 99,9% dos meninos que estão na AFS - Algarve, passaram pelo processo ‘normal’: observação e relatório que carece de 3 pareceres positivos.

Não são os pais que trazem os meninos, somos nós que os escolhemos. Nenhum menino entra no Sporting Clube de Portugal sem ter um relatório feito.

Para se ter ideia, o Rafael Leão, aos 8 anos, quando estava no Amora, era um menino diferenciado mas não era um talento. Era um ‘projecto’. No entanto é um dos jogadores mais valiosos de Portugal, da geração de 99. É apenas um exemplo de um menino que aos 8 anos de idade, não era um talento. Teve que ser farejado, por um observador também ele talentoso que conseguiu olhar para ele e projectá-lo para o futebol profissional do futuro.

Há pessoas super talentosas no Recrutamento. Conseguem olhar para um menino de 6 anos de idade e projectá-lo para o futebol profissional: estamos a falar do Paulo Moreira. Arrisco dizer que o Paulo Moreira, é o Senhor Aurélio Pereira dos tempos modernos. Quando põe o olho num menino e diz, aquele menino vai lá chegar, eu acredito piamente. Porque há provas disso. Para além do Rafael Leão, estou a falar de um Rúben Vinagre, estamos a falar de muitos jogadores que eu e ele detectámos muito antes dos outros e projectámos para o futebol profissional.

Assim como, atletas de 16/17/18 anos que se desenvolveram e foram detectados logo. Por exemplo, o Demiral… o Paulo Moreira atravessou-se completamente pelo Demiral. E hoje, o Demiral, é o jogador que é, está onde está. É um jogador da elite mundial.

 

Quando uma criança chega à AFS – Algarve, o que é que a espera? Que tipo de avaliação é feita?

JGN - O primeiro passo é a análise de conteúdo do relatório, ver quais são as características diferenciadoras. Pessoalmente, gosto de ver o menino a interagir desde o primeiro momento, perceber se está à vontade. Quero vê-lo logo com os outros atletas. Há meninos que são talentosos e chegam para treinar no Sporting Clube de Portugal e retraem-se. É preciso pô-lo à vontade e dar-lhe tempo. Muito cuidado com este aspecto.

Depois fazemos comparações com os atletas que já lá estão, que já são atletas de elite. Como é que no confronto directo esse menino (candidato) se comporta.

Depois, o tempo de prática desse menino. As características que procurámos em miúdos com diferentes tempos de práticas, são diferentes. Há um menino que pode ter muito sucesso porque tem muito tempo de prática e esse menino tem uma margem de progressão mais pequena do que um menino que tem menos tempo de prática, mas tem características diferenciadas. É fundamental fazer esta diferença. Depois, perceber a sua criatividade, imprevisibilidade, a sua reacção rápida à perda de bola, ou seja, o seu carácter. Eu gosto de chamar a isto, competitividade. Depois, temos as acções técnicas: se o menino tem aquele pé que nós dizemos que tem o pé com polegar, aquele menino que agarra a bola, ela vem como vier, ela vem enrolada, ela vem aos saltos, e ele consegue sempre dominar a bola, as suas recepções sempre orientadas para a frente, se ele percebe o espaço. Se ele revela ter um entendimento das trajectórias da bola, se este entendimento decorre das experiências que já teve ou se é inato nele, há pessoas que antecipam naturalmente as coisas, têm uma facilidade enorme.

Numa AFS, uma criança pode contar com uma observação gradual, com oportunidades para que se sintam completamente à vontade para expor todas as suas qualidades.

 

O que é que nos pode dizer sobre os meninos que saíram da AFS – Algarve, para Alcochete? Posso sonhar com um futuro campeão europeu, orgulhoso de ser produto da nossa formação?

JGN - São meninos extraordinários. Muito bem-educados e muito bem formados. Todos eles sob a alçada de encarregados de educação exemplares. Posso dizer que na AFS – Algarve, demos formação aos Encarregados de Educação, explicámos muito bem todo o processo.

O que eu e os técnicos procurámos fazer foi dar muita confiança a estes meninos. O que lhes dissemos foi: o erro, faz parte do futebol. Erra-se muito mais do que se acerta e nós estamos cá para te ajudar a perceber o erro, a ultrapassá-lo e a teres a coragem para nunca receá-lo. Nunca deixes de arriscar por medo de errar. Chegados a Alcochete, o que se ouve é, ‘o menino do Algarve’ é diferente do do resto do país. Isto, é fruto de muito trabalho.

Os nossos meninos são muito, muito competitivos. São alegres, são divertidos, dão espectáculo, gostam de dar espectáculo, são super competentes. Estou certo de que vão ter sucesso na Academia de Alcochete. São líderes. Muito corajosos, foram estimulados de forma fundamentada – ciências sociais e cognitivas – para a tomada de decisão. Demos-lhe muito espaço para que pudessem experimentar, para que pudessem errar e assim construírem-se. Para além disto, são imprevisíveis, criativos. Estes meninos, são o futuro do Sporting Clube de Portugal. Sinto um orgulho enorme no trabalho realizado pela estrutura da AFS – Algarve.

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(Imagem: Pedro Gerardo e Gonçalo Dias, acervo João Nunes)

Podemos sonhar que vão ser craques e dar muitos milhões ao Sporting Clube de Portugal:

Afonso Cunha, central, pé direito, posição 3 (resgatado numa captação do FCPorto)

João Simões, 8, que pode ser um médio de cobertura também

Gabi, na minha opinião um 9,5 que tem uma relação espantosa com a baliza

Afonso Santos um craque criativo, inteligente; jogador de muita elegância que recupera e faz jogar; é um médio ofensivo e muito criativo

Clodualdo Cofite, jogador muito alto e rápido pode jogar a 9

Wilson Furtado, médio defensivo ou médio e cobertura

Alexandre, guarda-redes de milhões 

Cristiano, defesa central

Simão Sobreira, defesa central

Gonçalo Dias, central de 2006 de grande classe jogador de enorme qualidade técnica e dimensão física

Afonso Luís, um lateral direito ou ala direito

Lawrence Smith, extremo esquerdo muito criativo

Manuel Lamúria, a qualidade é tanta que não sei se é um 9 de top ou um médio de top ou um seis de top ou um defesa central de top (só sei que vai jogar no corredor central e vai valer muito ao SCP)

Pedro Gerardo, (2006) avançado, esquerdino e que gosta de jogar entre linhas

Alexis Jesus, um ala esquerdo ou lateral com o melhor drible em progressão que já vi

Se juntarmos a estes jogadores os que estão ainda na AFS e se mantiverem o mesmo nível de treino, o Sporting está servido de craques para muitas gerações.

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[Nas imagens Bernardo Busatori, geração 2011, a jogar contra jogadores dois anos mais velhos. Este jovem atleta, já foi alvo de destaque num comentário, aqui, no És a Nossa Fé (Torneio dos Templários, eleito melhor jogador)]

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(Ambas as imagens foram cedidas por João Nunes)

JGN: Basta dizer que 2013 já temos alguns craques; 2012 muito boa geração; 2011 um fenómeno e outros projetos; 2010 muitos craques e projectos; 2009 não em tanta quantidade nas em qualidade temos super craques, guarda-redes, extremos, laterais, avançados...

 

Qual é o aspecto mais importante na formação de um jovem jogador? O que é que quer de um escalão treinado por si? 

JGN - Não existe um aspecto mais importante do que outro, existe, sim, uma janela de oportunidade certa. O aspecto mais importante nesta formação global é saber quando, como e porquê. É fundamental intervir no momento certo, para não perdermos a oportunidade "óptima". Eu não idealizo um jogador de futebol sem idealizar o ser-humano. Dou mais importância a esta dimensão global, "o ser-humano" mas é óbvio que tem de ter características diferenciadas porque estou a formar jogadores de futebol. Depois, a competitividade é uma dimensão que deve ser muito estimulada. Competitividade saudável, não no sentido bélico, bem pelo contrário. Aquilo a que chamo, uma competitividade agregadora.

 

Nestas idades, os jogadores já são fãs de equipas estrangeiras ou só de portuguesas?

JGN - Portuguesas e estrangeiras. Mundo global, redes sociais, os meninos vêem jogos e têm preferências, mesmo de equipas estrangeiras. Estão a par do que se passa nas outras ligas.

 

Há miúdos (AFS – Algarve) que são benfiquistas, que até já estiveram em treinos de captação no Seixal… sente algum impacto negativo do que refiro no comportamento dos miúdos? O que é que o Sporting, o símbolo que têm ao peito quando treinam e jogam, significa para um miúdo de outras cores?

JGN - Acima de tudo, as crianças querem jogar futebol. Até aos 9/10 anos de idade, querem é divertir-se. Ganham carinho, quando vestem a camisola pela primeira vez. Alguns, mudam para o Sporting. Outros dizem que nas equipas dos adultos, são do Benfica/Porto, mas que nas equipas das crianças, são do Sporting. Outros dizem que quando estão a jogar são do Sporting, mas que quando despem a camisola e saem das instalações, voltam a ser do clube de que sempre gostaram.

As crianças, gostam das equipas que ganham. Não gostam de chegar à escola e ouvir críticas dos colegas cujas equipas ganharam. Um miúdo que é do Sporting responde que perdeu, mas que o seu clube é o melhor do mundo. Agora, quando começam a jogar com a camisola, quando têm referências sólidas do Clube com quem lidam diariamente, que se focam nos aspectos muito positivos do que é ser Sporting Clube de Portugal, sem dizer mal dos outros clubes, sem menorizar os outros clubes, valorizando o que é nosso, começam a perceber a responsabilidade que têm, no seu mundo, por vestir aquela camisola. Passam a ser um exemplo para os colegas. Quando estão com aquele equipamento vestido, estão a representar um dos melhores clubes do mundo, estão a ter acesso a uma das melhores formações do mundo, a da única academia que formou dois 'Bola de Ouro'. Quando expostos a este tipo de modelo, os miúdos crescem num contexto de integridade, honestidade, de resiliência e de vontade e de respeito por eles, pela nossa instituição e pela dos adversários.

Estes miúdos, e mesmo as suas famílias, sentem-se muito orgulhosos por terem sido escolhidos pelo Sporting Clube de Portugal. Ficam com expectativas elevadas e com razão porque sabem que escolhemos os melhores. Um menino ‘nível A’ vai ser um jovem ‘nível A’ no futuro se tudo correr bem. Por isso, há sempre um carinho muito especial pelo Sporting.

A presença deste projecto do Sporting na região, até para o Universo Sportinguista, é muito bom, não só para tirar dividendos futuros (jogadores) mas também pelo aprofundamento do conhecimento do que é o Sporting Clube de Portugal. Pela presença em si. Põe-nos no dia-a-dia destas pessoas, nesta região.

 

A equipa sénior de futebol não ganha um campeonato há 18** anos. Como é que um talento ao serviço do Sporting é adepto do nosso clube e quer jogar na equipa principal?

JGN - Nós temos de ganhar um campeonato em breve mas o não ganhar também nos torna muito resilientes. Os jogadores que jogam pelo Sporting também ficam muito resilientes. Eu quero ganhar, eu quero fazer parte da mudança. Têm essa sede, essa vontade, dá-lhes uma garra diferente. Mas é algo que a estrutura directiva tem de acompanhar, tem de criar condições para apostar na formação. Não pode ser um treinador de séniores a estruturar ou reestruturar a formação do Sporting Clube de Portugal. É um erro – e muito grande – se assim for. Um erro, pela lógica. Um treinador de sénior depende de resultados. Se não os alcança, cai. Se cai, toda a estrutura vai por aí abaixo porque está tudo sustentado na equipa sénior. A base tem de ser a formação e o treinador tem de ser escolhido em função daquilo que é o Sporting Clube de Portugal. Também não podemos estar a mudar a formação de cada vez que muda uma Direcção. Uma formação é, no mínimo, a 10 anos. Se mudam de Direcção muitas vezes e de cada vez que mudam, lá vêm os amigos e as pessoas que conhecem na formação, voltam os processos (quase) à estaca zero. Isto, é dar tiros nos pés. Para não dizer, dar tiros na cabeça.

No Sporting Clube de Portugal a única coisa que se tem mais ou menos mantido, é a equipa de recrutamento e ainda bem. Mas a área técnica, os directores, esses caem sempre e vêm pessoas novas. Isto não permite ter a máquina oleada.

Se olharmos para os nossos rivais, têm a mesma estrutura directiva há muitos anos. Não quer dizer que a formação deles seja melhor do que a nossa, mas têm mais estabilidade. Se a formação se faz a 10 ou mais anos, com a estabilidade deles, levam alguma vantagem sobre nós.

O que tem permitido ao Sporting Clube de Portugal sobreviver, é o talento de algumas das pessoas que tem conseguido reter. Mas o Sporting precisa de valorizar essas pessoas. Os amigos trazidos pelas Direcções, não podem sobrepor-se às pessoas que já lá estão e que tem muito know how. Este tipo de comportamento, torna tudo muito mais difícil. A estrutura do Sporting Clube de Portugal é muito grande, é muito complexa. É preciso experiência para estar no Sporting Clube de Portugal. É preciso saber muito para estar no Sporting Clube de Portugal. Às vezes, vêm pessoas novas que não tem experiência e pisam minas, rebentam um (bom) trabalho feito e que estava oleado.

Os atletas que fazem a sua formação no Sporting, gostam do Sporting Clube de Portugal mas precisam de ter uma Direcção forte que lhes dê confiança para eles quererem continuar no Sporting. Seja lá qual for a Direcção.

 

Mister, trago-lhe aqui o meu filho – um Messi completo – que apesar dos 7 anos acabados de completar, já tem empresário. Só lho trago para entretê-lo até aos 18 anos que este empresário já me disse que vai conseguir pô-lo no Barcelona. Sabe qual é a posição do Messi? Então já sabe, ponha-me a criança a jogar aí e ninguém se chateia.” Este pai, existe?

JGN - Felizmente, não existe. Pelo menos eu, nunca apanhei este tipo de encarregado de educação. O que acontece é que à medida que o menino entra na AFS e se vai desenvolvendo, as expectativas do encarregado de educação vão aumentando. Mas somos nós – técnicos – que temos de gerir essas expectativas. Este tipo de pai, mesmo que venha com esta atitude, ao ser integrado num contexto que é de elite, percebe que o seu filho não é o único ‘Messi’ e há ali muitos outros ‘Messi’. Há muitos talentos em Portugal e muitos deles são super talentos. Uns precisam de mais ajuda num aspecto, outros noutros, mas também os há, super talentos, que o que é preciso é ter cuidado para não estragar, é só dar as oportunidades certas, no momento certo.

 

Alguma situação caricata que queira/possa partilhar?

JGN - Uma sobre um profissional que hoje é profissional num clube nosso rival (não vou dizer o nome, mas digo-te que é de 2001). Fomos de viagem para o Norte e ficámos hospedados num hotel. Normalmente, ficamos com um piso por nossa conta, controlo os corredores. Eu e os meus adjuntos num quarto, os miúdos nos seus (vão para os jogos sem os pais). Eis senão quando, este agora profissional, bate-me à porta. Este miúdo, tinha sete anos na altura e estava habituado a ficar com os avós, era com eles que residia.

O menino bate-me à porta: ‘Olá Mister’

Mister: Olá, então, XX, saíste do quarto?

Menino: Ah, sim, saí porque não consigo dormir.

Mister: Ok, então queres que o Mister vá lá à tua cama, até tu adormeceres?

Menino: Ah, não, quero dormir com os Misteres. Posso ficar na tua cama, Mister?

Como era um miúdo muito pequenino, disse-lhe:

Mister: Então, olha, vais ficar aqui no quarto, ali naquela cama, sozinho, mas ficas aqui connosco.

Menino: Não, não, Mister… eu tenho de me deitar contigo e ficar a mexer no teu cabelo porque eu fico a fazer caracóis à minha avó e só assim é que consigo adormecer.

Ahahahahah

Bom, foi uma carga de trabalhos, viro-me para o meu adjunto: então e agora? Eu, tenho o cabelo curto, tu, tens o cabelo curto. Como é que vamos conseguir adormecer o menino!? Nós a rirmo-nos e o menino a olhar, muito espantado. Gostámos muito desse menino, hoje é um profissional de excelência e joga num clube de elite em Portugal. Gosto muito dessa criança.

 

Outra situação caricata de um menino que tem uma cláusula de rescisão de muitos, muitos milhões: esse menino, era um bebé pequenino e fez cocó nas cuecas e eu tive de o limpar com uma esfregona – ahahah – encostá-lo à parede e limpá-lo com uma esfregona porque não tinha mais nada com que o limpar. Ele hoje está num clube de elite e tem uma cláusula de muitos milhões, mas já o limpei com uma esfregona. Ahahahah

Outro episódio de quando ainda estava n’ Os Belenenses e vi o Rafael Leão na comitiva do Sporting: como sou muito brincalhão, estava sempre na brincadeira com os meus atletas. O Rafael Leão passava a vida a olhar para trás porque queria vir para a coboiada e estava ali, na comitiva do Sporting, onde não havia ainda uma abertura assim tão grande. Lembro-me dos olhinhos dele, a olhar por cima do banco e a dizer: eu quero é ir para ali, ali é que está divertido. Ahahahahah

 

Quando na época 2011/2012 assumiu funções de ‘Prospector Residente’ no Sporting Clube de Portugal, acumulava longa experiência de treinador de formação em Portugal (vasta, por ex., n’ Os Belenenses) e Espanha, e alguma como prospector (Belenenses – futebol juvenil e sénior). Como é que se chega a ‘Prospector Residente’ no Sporting Clube de Portugal? É cargo que permita autonomia financeira, que se desempenhe a tempo inteiro?

JGN - O prospector residente está responsável pela prospecção numa área geográfica pré-determinada. Esta actividade não permite autonomia financeira. Recebe-se uma pequena avença. No meu caso, a zona era a de Almada e Costa da Caparica (residia na Costa da Caparica) tinha vários informadores, ia ver vários jogos. Foi desta zona que saiu, posso dizer-vos, o Matheus Pereira. Num torneio quando ele ainda não estava inscrito para fazer o torneio pelo Trafaria, e foi fazer o torneio em Vale Milhaços, onde eu estava e comuniquei logo com pessoas do Sporting que foram rapidamente ver o menino. Isto, como digo, antes ainda de ser residente. Já dava algumas informações ao Sporting Clube de Portugal na qulidade de ‘informador’. Saíram destas minhas informações meninos como o Paulinho, Júnior, Muanza, Simão, Henrique Abrantes (SLB/VFC), todos estes talentos saíram da minha zona de residência, foram observados pelos meus informadores.

Não dá autonomia, dá uma avençazinha. Tinha de acumular muitas coisas: professor no Trafaria, professor no Guadalupe, tinha que fazer muitas coisas e aquela avença ajudava-me também a ter um ordenado. Posso vos dizer que estamos a falar de sensivelmente 200€. Se colocasse um jogador da minha escola de futebol, aí sim, recebia mais as ajudas, mas tudo muito inexpressivo.

Mesmo isto, posso dizer que houve uma altura que o Sporting passou muito mal e nem isto, estes valores, praticava. Houve muitos cortes orçamentais. Esses cortes, levaram-me até a deixar esta parte e a ir para uma Escola Sporting (EAS) e deixar o Trafaria. Já recebia muito pouco, como Observador do Sporting Clube de Portugal, e então fui para a CIF – que até pagava bem – e que é uma das escolas referência em Portugal devido ao seu contexto. A escola tinha muitos alunos, e de um estracto social alto, por isso a Escola conseguia pagar-me. Ficava ao lado de vários colégios, estava num contexto muito privilegiado.

(João Nunes ao centro, de preto, ao lado de Aurélio Pereira)

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Teve contacto com Aurélio Pereira?

JGN - Sim. Tive e tenho o gosto de conhecer e ser amigo do Senhor Aurélio Pereira ainda que não seja amigo de casa, como alguns colegas. Nomeadamente o Nuno Mota, o Paulo Moreira, que convivem há muitos anos com o Senhor Aurélio Pereira. O Paulo Moreira foi recrutado pelo Senhor Aurélio Pereira e o Nuno Mota, também.

Eu, fui contactado pelo Senhor Aurélio Pereira, houve logo uma empatia muito grande, vimos alguns jogos juntos, analisámos alguns jogadores juntos. É uma pessoa extraordinária. É um talento (do Recrutamento) nato. Tem também uma afectividade tremenda. Tanto nós, como as crianças, como os encarregados de educação, sentimo-la e… ficamos colados ao Senhor Aurélio Pereira. A forma como ele diz as palavras, a forma como ele está, a forma como ele entoa no momento certo, é uma pessoa muito agregadora. Um poço de conhecimento sobre o que é talento. Tem uma experiência enorme de ver meninos e uma experiência de vida igualmente grande. Os seus valores, como ser-humano, são extraordinários. Transmite-os de uma forma intrincada e é algo de muito natural e espontâneo. Gosta de ensinar, gosta de dialogar e eu sinto-me privilegiado por ter tido o gosto e o prazer de privar com o Senhor Aurélio Pereira. Acho que todos os dirigentes, directores, devem ouvir o Senhor Aurélio Pereira. A idade, não perdoa… mas devem todos ouvir o Senhor Aurélio Pereira. O ADN Sporting é o que ele é. Marcou todo o Departamento de Recrutamento, a forma de trabalhar é desenvolvida por ele. A forma como ele olha o jogador, como acarinha e de quase apadrinhar, é uma coisa única. Basta o senhor Aurélio Pereira andar nos corredores e tudo ganha sentido. Trabalhamos com uma outra motivação, com um outro querer, com outra vontade, com uma linha certa e ele não precisa de dizer uma palavra. Basta aquele olhar e aquele bigode e está tudo dito. Sou um fã do Senhor Aurélio Pereira, admiro-o muitíssimo.

Temos uma pessoa com as mesmas características, que é o Paulo Moreira. Chamo-lhe o Senhor Aurélio dos tempos modernos. O Sporting Clube de Portugal não pode perder o Paulo Moreira, se quiser continuar na elite da formação e do recrutamento de talento. É um farejador de talentos, tal e qual como o Senhor Aurélio Pereira. As pessoas quase trabalham de graça para o Paulo Moreira tal como quase trabalhavam de graça para o Senhor Aurélio Pereira. São pessoas inspiradoras, têm uma aura à volta delas que é muito inspiradora. Não me canso de sublinhar a importância do Paulo.

 

Na época seguinte, foi treinador numa EAS e ‘Prospector’. Qual é a diferença entre uma EAS e uma AFS?

JGN - A EAS onde estive (CIF) é uma das melhor sucedidas em Portugal.

A EAS, é um franchising. Qualquer pessoa pode abrir, paga e compra o ‘modelo Sporting de formação’, é um modelo comercial, bem elaborado, mas nós não temos controlo sobre esses atletas.

Tenho uma ideia muito própria das EAS. Acho que não deviam ter competição. A competição deveria ser assegurada por um clube à parte, com o seu próprio equipamento. Para treinarem, poderiam usar o equipamento Sporting, mas para competir, o de um outro clube.

A EAS Lagoa (Algarve), é um exemplo disso mesmo. Na competição utilizam outro equipamento, precisamente para que não se pense que são jogadores do Sporting. Eles não são jogadores do Sporting, são jogadores que pagam para ter formação de acordo com o modelo Sporting.

Quanto às AFS, creio que está tudo dito na primeira pergunta: não é para todos, só atletas selecionados, não pagam e são jogadores do Sporting.

Dou-vos um exemplo, um dos nossos meninos de 2007, fui buscá-lo a uma captação do Porto. Vim ao Algarve, não por acaso, por ser essa a minha profissão, e quando estou a assistir à captação do F.C.Porto, dizem-me que aquele menino é aluno de uma EAS e que foi o próprio dono da EAS que o levou à captação do F.C.Porto! Intervim e felizmente fui a tempo de contractar esse menino para a AFS. Ao fim de um ano, esse menino entrou em Alcochete. Hoje é um dos nossos craques de 2007 e futuramente vai valer muitos, muitos e muitos milhões ao Sporting Clube de Portugal (se tudo correr bem, sem azares pelo meio).

Isto tudo para dizer que o modelo EAS, é um modelo pouco controlado. Não podemos controlar aspectos como este que salientei: não podemos dizer que temos primazia sobre esses atletas… é um franchising. O dono pode ser de qualquer clube e pode levar os meninos onde quiser…

 

[continua]

Amanhã:

Os cinco anos na China, ao serviço da Winning League de Luís Figo, das equipas Z-Team e GDFC de Guangzhou, a saída do Sporting Clube de Portugal e o futuro da formação em Portugal e no Sporting.

*Edição: correcção da data de inauguração

**Edição: Correcção do número de anos sem ganhar o campeonato

De pedra e cal - Chirola, por Carmen Yazalde

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Imagem: Jornal Sporting - edição 3777

Faria hoje 74 anos. Nasceu a 29 de maio de 1946, em Buenos Aires, e ocupa um lugar de destaque na galeria da 'Glória' do Sporting Clube de Portugal. 

Héctor Casimiro Yazalde, jogador que dispensa apresentações, aqui retratado pela sua mulher em entrevista a Rui Miguel Tovar:

Isso é amor.
Pois é, jajajaja. Eu sentia isso constantemente, era um homem arrebatador, muito sensível, muito humano. Quando acabava os treinos do Sporting, havia sempre uns meninos pobres à porta do campo e ele tinha sempre moedas boas, não daquelas de 5 escudos, para lhes dar. O Chirola sempre foi um homem atento aos pormenores e isso fazia a diferença nas relações humanas. Antes dos jogos, era costume haver um carro como prémio para o autor do primeiro golo. Como o Chirola era quase sempre o vencedor e já tinha um BMW bordeaux que adorava, ele fazia papelinhos e sorteava o carro pelos companheiros durante o treino do dia seguinte. Quando não era um carro, era um almoço do Gambrinus. Íamos lá muito com o Di Stéfano, antes e depois de ele ser o treinador do Sporting. Ainda está aberto?

E o Chirola acompanhava-te na bebida?
Antes de me conhecer, saía muito à noite com Damas e Laranjeira. [silêncio] [Carmen começa a fungar]. O Damas era sensacional e já sei que morreu. 

Dizia que o Chirola andava na noite com o Damas e o Laranjeira.
Jajajajaja, não deixas escapar nada. Antes de me conhecer, o Chirola não podia jogar no Sporting, porque chegou a meio a época, em fevereiro, e porque as duas vagas de estrangeiros já estavam ocupadas. Ele então saía com frequência. A partir do momento em que começámos a namorar, ele passou a fazer uma vida caseira que coincidiu com o início da época em que ele já jogava.

Ai jogava, jogava.
Ele era um íman, todos gostavam dele. E não digo só os adeptos do Sporting, os do Benfica também. Notava-se na rua, o carinho dos adeptos. Ele retribuía com golos, golos e mais golos. Quando foi receber a Bota de Ouro como melhor marcador da Europa, a organização fechou o Lido e o Beckenbauer disse-lhe ‘tens a mulher mais linda de todos os jogadores do mundo’. A mulher do Beckenbauer, a segunda, não a primeira que se parecia com um homem, jajajajaja, também lhe disse o mesmo.

O Chirola sempre se deu bem com o Eusébio, por exemplo. Às vezes, jogavam o dérbi de Lisboa e depois jantávamos juntos num restaurante em Lisboa. Eles e nós, as mulheres.

O Chirola ia visitá-lo a casa quando ele não estava bem e o Eusébio retribuía as visitas durante as lesões do Chirola. Era uma amizade boa. Mas há mais do Sporting, como o Marinho.

O Chirola morreu lá em casa, em 1997.

Ainda vivia o Sporting?
Claaaaaaro, foi a melhor experiência da vida dele.

Entrevista completa, aqui.

Peça Jornal Sporting, páginas 3 e 4 da edição n.º 3777 (gratuita). [Detectados problemas no servidor que poderão impedir a consulta do jornal] 

De pedra e cal - Pelado em frente à porta 10 A

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Na imagem: Baltazar, Carlos Pereira, Carlos Espírito Santo e Vagner

 

Se a porta 10 A dispensa apresentações, o pelado contíguo, outrora palco onde craques to be se mostravam pela primeira vez, não menos.

Foi neste espaço que muitos jogadores se revelaram e outros tantos se treinaram, para gáudio dos transeuntes.

Aqui fica o registo possível, com alguns protagonistas (de uma década) ainda hoje recordados como aquilo que constituem: parte importante no sedimentar do Sporting Clube de Portugal e do Sportinguismo.

Imagem: acervo pessoal do antigo jogador Carlos Espírito Santo, com o meu sentido agradecimento ao seu filho, Ricardo Espírito Santo.

De pedra e cal - A mais distinguida filial algarvia

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Legenda: No Jamor, o Sporting Clube de Portugal defronta o Sporting Farense. O bloco de comandados por Ronnie Allen: (na primeira fila: Carlos Pereira, Tomé e José Carlos) vai enfrentar os representantes da mais distinguida filial algarvia. Luta Familiar que não pode resultar em problema leonino.

 

O jogo aconteceu a 14 de Janeiro de 1973 e o Sporting ganhou por 4-0. Mesmo assim a equipa de Faro conseguiria ficar em 11º lugar no campeonato e chegar até às meias-finais da Taça de Portugal, troféu ganho pelo nosso Clube. A nossa equipa era comandada por Ronnie Allen que nos deixou no final da época.

No dia em que se confirma a subida do Sporting Clube Farense (1 de Abril de 1910), filial n.º 2 do Sporting Clube de Portugal, congratulo-me e partilho esta memória longínqua. 

As minhas memórias, são outras. A primeira vez que vi o Sporting Clube de Portugal em campo, foi no S. Luís, em Faro. A primeira vez que pus o pé num estádio de futebol, foi no S. Luís, em Faro. O meu Farense, é o de Paco Fortes e do temível Hassan. O meu Farense, é o que na época 94/95 garantiu acesso à Taça UEFA. O meu Farense, nossa filial n.º 2, está de volta ao palco principal do futebol nacional e eu sinto-me duplamente feliz.

O meu coração é, e será sempre, exclusivamente verde e branco, mas na próxima época, estará ainda mais palpitante.

Seja bem-vinda à Primeira Liga, cara filial n.º 2. Estou absolutamente certa de que as disputas familiares da próxima época, não vão resultar em problema, mas em grande festa leonina.

Muito obrigada, caro Leão da Amadora.

 

Imagem: acervo pessoal do antigo jogador Carlos Espírito Santo, com o meu sentido agradecimento ao seu filho, Ricardo Espírito Santo.

*Edição: distinguida por distinta (legenda e título).

Persistência da Memória II

Di Stéfano

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Legenda: A equipa do Sporting efectuou ontem, no Estádio Nacional, o seu primeiro treino sob o comando técnico de Di Stéfano. Aqui vemos [Carlos Espírito Santo, círculo em redor da cabeça] o ex-barreirense Valter, o novo recruta «leonino», na execução de um exercício, seguido de Baltasar e Yazalde. [7-8-1974]

 

Após partilhar uma imagem de Alfredo di Stéfano no Estádio do Jamor na qualidade de treinador do Sporting Clube de Portugal, tomei conhecimento da existência de uma entrevista concedida por Fernando Massano Tomé, em 2018, a Rui Miguel Tovar ao longo da qual abordou a passagem de Di Stéfano pelo nosso Clube.  

 

E o que se passou entre ele o Di Stéfano?
Eles não se davam bem. Houve um dia, durante o estágio no Brasil, em que o João Rocha sentou-se ao lado do Di Stéfano e ele saiu da mesa. Beeeem, estás a ver? A verdade é que o Di Stéfano nem ficou aqui para a primeira jornada do campeonato, quando perdemos 1-0 em Faro com a Olhanense. Nesse dia, foi o adjunto Osvaldo Silva quem assumiu a equipa.
 
E o Di Stéfano, que tal?
Ele percebia de futebol, só que estava acostumado ao futebol espanhol.
 
Isso quer dizer o quê?
Por exemplo, ele só queria guarda-redes que fossem bisarmas. Chegou aqui e apanhou dois fininhos: Damas e Botelho.
 
Bolas, o Damas?
E o Damas já era da seleção, só que o Di Stéfano até disse ao João Rocha que precisava de um bom “portero”. E ainda um bom defesa-esquerdo, quando tínhamos o Inácio e o Da Costa.
 
E o João Rocha?
Disse-lhe que não, claro. E até sugeriu, em tom de brincadeira, que metesse o Chico Faria à esquerda.
 
E depois?
O Di Stéfano saiu e assumiu o adjunto Osvaldo Silva. Depois veio o Fernando Riera, chileno. Tinha o hábito de beber um Dão aquecido antes dos jogos.

 

Ficam esclarecidos os contornos da passagem de Di Stéfano pelo Sporting bem como os motivos que terão estado na origem da sua curta permanência.

 

Imagem: acervo pessoal do antigo jogador Carlos Espírito Santo, com o meu sentido agradecimento ao seu filho, Ricardo Espírito Santo.

De pedra e cal - Gente que foi do Sporting

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A 5 de Janeiro de 1980 este grupo de ex-jogadores do Sporting reuniu-se em Leiria, treinou e, presumivelmente, jogou.

A de 1 Maio de 2020, no Dia do Trabalhador, aqui estão: Gente que foi do Sporting

Talvez não ambicionasse à data, talvez nem sonhasse que viria um dia a ser nosso treinador. Jorge Jesus, homem que desperta ódios e paixões, faz parte da história passada e recente do Sporting Clube de Portugal. 

À sua maneira, cada um destes homens contribuiu para o que o Sporting Clube de Portugal hoje é.

Legenda recorte: GENTE QUE FOI DO SPORTING - incluindo Fernando Peres, nada menos de dez unionistas já passaram pelo Sporting. Antes do treino de conjunto, os ex-leões: Jesus, Quaresma, Pinhal, Garcês, Fernando Peres, Espírito Santo, Dinis II, Tomé, Padrão e Dinis.

Comentários Facebook:
Carlos Padrão: LOL... o tempo volta para trás, boaaaaaaaaaaaa LOL

Fernando Massano Tomé: Do passado vivem os museus como alguém já disse, mas é tão bom recordar velhos tempos, irmanados no mesmo sentimento e amizade, um grande abraço para todos os da foto e para os outros.  

Fonte: acervo pessoal do antigo jogador Carlos Espírito Santo, com o meu sentido agradecimento ao seu filho, Ricardo Espírito Santo.

Persistência da Memória

Alfredo di Stéfano

A passagem de Alfredo di Stéfano pelo Sporting foi breve. Considerado por muitos o melhor jogador de todos os tempos, sentou-se na cadeira de treinador durante o início da época 74/75. Em comentário a esta imagem - no perfil Facebook de Carlos Espírito Santo - disse o nosso jogador Tomé que Di Stefano saiu após o primeiro jogo para o campeonato (que se jogou em Faro e que o Sporting perdeu por 1-0). Numa peça a propósito da sua morte, é dito que não chegou a sentar-se no banco. Podereis esclarecer, Sportinguistas?

Graças à natureza supersónica da sua passagem pelo Sporting, Alfredo di Stéfano não alcançou a Glória que se esperaria, ainda assim, aqui fica este registo para a posteridade efectuado no Estádio Nacional, no arranque da época 74-75. Nessa época o Sporting sagrou-se campeão nacional e o treinador nascido na Argentina, voltaria a treinar apenas na época seguinte (Rayo Vallecano).

Que me lembre, esta foi a primeira e única fotografia em que vi Don Alfredo di Stéfano ao serviço do Sporting.

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Fonte: acervo pessoal do antigo jogador Carlos Espírito Santo, com o meu sentido agradecimento ao seu filho, Ricardo Espírito Santo.

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