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És a nossa Fé!

21 de Agosto (1560 e 2017)

Por circunstâncias várias, cruzei-me numa biblioteca deste país com a obra de Ioannis de Sacrobosco Sphera impressa em 1518.

Esta obra que consultei tem, na contracapa da pasta inferior, notas manuscritas relativas a episódios geofísicos e astronómicos do século XVI.

Consegui reter a informação ali contida, porém pedi a uma pessoa amiga com um olho mais treinado para a leitura paleográfica que fez a seguinte transcrição:

--

«- Na era de 1531 a 25 dias do mes de Janeiro a hua 5ª feira de madrugada tremeo a terra e pella menhaa tornou a tremer [ou]tra ves.

- Na era de 1539 a 18 dias do mes de Ab[ril] a hua 6ª feira as duas horas depos do meio dia foi hu sol cris  das 12 par[?] as du[?] pouco mais.

- E na dita era no mes de Maio apareceo hu cometa o qual foi sinal de mortes de grandes senhores e no primeiro dia do dito mes se finou a emperatr[iz].

- Na era de 1560 a 21 de Agosto a hua 4ª f[eira] as 11 horas do dia foi todo o sol cris, e se escureceo todo e durou todo esc[u]rcindo por espaco de hu meio quarto de hora e com[?] as [?] as horas [?] e tres quartos pouco mais ou menos.»

--

Peço a atenção para a última das notas, a ocorrência de um eclipse e para a palavra cris, hoje em desuso. A observação deste fenómeno foi feita em Coimbra por Cristopher Clavius.

 

Pois bem,  hoje é, igulamente, 21 de Agosto, e também ocorrerá, ao final do dia, um eclipse, porém não tão visível como o de 1560.

 

 

A falácia de 1904

 

Pouco me interessa a data de fundação Benfica.

Se os seus dirigentes dizem que foi em 1904, então que assim seja, porém não gosto que me tomem por tolo.

 

Três datas... reforçada por outra... ... ... data.

 

28 de Fevereiro de 1904

Em Lisboa, na Rua de Belém, na Farmácia Franco aí situada por iniciativa de belenenses e ex-alunos da Casa-Pia foi fundado um clube designado de Sport Lisboa. É esse grupo constituído “por 24 entusiastas, Cosme Damião e mais 23. Na histórica lista dos fundadores, elaborada por ele próprio, Cosme Damião esqueceu-se de acrescentar o seu nome, mas nem por isso devemos omiti-lo. Eis os fundadores tal qual aparecem no documento histórico” [chamo a atenção para estes nomes, mais tarde falarei de alguns deles]: Abílio Meireles, Amadeu Rocha, António Rosa Rodrigues, António Severino, Cândido Rosa Rodrigues, Carlos França, Daniel Brito, Eduardo Corga, Francisco Calisto, Francisco Reis, João Gomes, João Goulão, Joaquim de Almeida, Joaquim Ribeiro, Jorge Augusto Sousa, Jorge da Costa Afra, José Linhares, José Rosa Rodrigues, Manuel Goularde, Manuel França, Raul Empis, Henrique Teixeira, e Virgílio Cunha. Trata-se de um documento de indiscutível rigor histórico-desportivo. E também é rigoroso?”, pergunta Homero Serpa. Responde: “o eng. Reis Gonçalves (aparece na lista como Francisco Reis), em carta dirigida ao jornal do Benfica, datada de 2 de Março de 1953, diz que a lista tem incorrecções. (...).”

 

26 de Junho de 1906

Data de fundação do Grupo Sport Benfica, “um dos primeiros filiados da União Velocipédica Portuguesa.

“(...) Mantinham o futebol entre as suas actividades, mas a força do clube estava concentrada no pedestranismo e no ciclismo, modalidades onde, por norma, conseguiam resultados interessantes (...) Os praticantes de futebol do Sport de Lisboa e do Benfica encontravam-se frequentemente (...) [sendo] alguns belenenses associados do Grupo Sport de Lisboa entre eles Cosme Damião. (...)

A morte violenta do Rei D. Carlos teve reflexos na vida do Benfica, explicados pelo major Faria Leal numa entrevista ao jornal «O Benfica».

‘Dera-se, em 1 de Fevereiro de 1908, o regicídio, e o Partido Regenerador Liberal, de que o ditador João Ferreira Franco fora chefe sumiu-se. Sucedia porém, que alguns sócios daquele centro político (Centro Regenerador Liberal da Cruz de Pedra), que tinha a sede (...) em Benfica, eram já sócios do Sport de Lisboa. Fácil foi então, numa reduzida, senão simulada, assembleia geral, e porque os franquistas haviam retirado, abandonando, na retirada, armas e bagagens, através de uma acta testamentária considerar por herdeiro o Sport Benfica, que logo se viu pomposamente instalado, com sala de bilhar e decente mobiliário. Os benfiquistas, envaidecidos com a nova sede, resolveram mudar o nome de Grupo Sport Benfica para Sport Clube de Benfica.’ O Centro [Regenerador Liberal da Cruz da Pedra] tinha dívidas e o seu pagamento em prestações mensais de 10 mil réis foi a condição posta ao clube, logo aceite por unanimidade.”

 

13 de Setembro de 1908

“O projecto da fusão do Sport Lisboa com o Sport Clube de Benfica não teria de lutar contra grandes obstáculos. Aliás, adivinhava-se inevitável devido à aproximação, cada vez mais frequente, entre os atletas e os dirigentes das duas colectividades. Tudo se resolveu em três assembleias - uma no Sport Lisboa, outra no Sport de Benfica, e a terceira com os sócios dos dois clubes.(...)

Era, porém uma questão de tempo. Aliás, (...) na revista “Ilustrações” editado pela Bertrand, [publicou-se o seguinte texto para o qual peço particular atenção]: ‘Em 13 de Setembro de 1908, realiza-se a fusão com fusão com o Sport Clube de Benfica, fundado em 1906, da qual resultou o Sport Lisboa. Em verdade, foi mais uma absorção do que uma fusão [repito a transcrição para não existirem dúvidas: foi mais uma absorção do que uma fusão]; o clube de Benfica tinha campo e sede e o Sport Lisboa tinha um núcleo de bons jogadores. Os sócios deste [do Sport Lisboa] ingressaram mais propriamente naquele [Sport Clube de Benfica], que outra coisa, Ficaram os mesmo estatutos [do Sport Clube de Benfica], e continuaram em exercício os mesmos corpos gerentes. A equipa é que ficou a do Sport de Lisboa, com a camisola vermelha (...)

Foi, realmente, verdade, a pobreza franciscana do Sport Lisboa (à Assembleia, na qual se discutiu a fusão, compareceram 40 sócios), a impossibilidade de arranjar um campo (sem ele, o clube não teria hipótese de sobrevivência), a debandada de jogadores à procura de melhores condições, fez do clube de Belém o aliado mais carente. Realmente nada há de especulativo na interpretação (...) [publicada na revista ‘Ilustrações’], nem a junção dos dois grupos mereceu de alguns futebolistas e de muito público apoio incondicional, mas apenas o aceitar de solução inevitável. Não terá sido um casamento de amor. (...)

Mas o dia 13 de Setembro de 1908, data da fusão dos dois clubes, aprovada, por unanimidade e aclamação, numa Assembleia participada por gente dos dois lados, passou à história como sendo o do nascimento do Sport Lisboa e Benfica. Cinquenta e quatro sócios do Sport Lisboa ingressaram nos ficheiros do Benfica, mais quatro do que os exigidos por aquele clube, alinhando, porém atrás dos benfiquistas. Por isso, ao dr. António de Azevedo Meireles, sócio n.º 1 do Sport Lisboa, foi atribuído o n.º 223 e a Manuel Goularde , um dos heróis do Sport Lisboa [ver lista dos 24 fundadores], o n.º 225.”

 

 Outra data:

 16 de Setembro de 1916

“Em 16 de Fevereiro de 1913 foi fundado ‘Os Desportos de Benfica’. A ideia inicial, de Alfredo Alexandre Luís da Silva, presidente da A. Geral do SLB, era que o clube funcionasse como delegação do Benfica, na linha das intenções de Luís Carlos de Faria Leal e do próprio Cosme Damião, que se tinham batido por uma sede no centro da cidade e delegações pelo menos em Benfica e em Belém (...). No entanto, na segunda reunião dos promotores da iniciativa já se falou em independência do Sport Lisboa e Benfica (...). Os Desportos de Benfica pensava em construir uma sede e projectar-se e o Sport Lisboa e Benfica, mais ou menos, na expectativa. A primeira pedra de um edifício, que a Empresa de Melhoramentos de Benfica se propôs erguer, foi lançada a 7 de Setembro (...). A inauguração ocorreu a 24 de Maio de 1914, data em que a Empresa de Melhoramentos a entregou aos ‘Desportos de Benfica’, passando a cobrar a renda mensal de 120 escudos.

‘Os Desportos de Benfica’ acabou por se unir, mais tarde, ao Sport Lisboa e Benfica. Foi de facto uma integração completa, a partir de 16 de Setembro de 1916 e, no dia 1 de Dezembro deste ano, (...) [estas] instalações (...) passaram a sede social do SLB. As intenções de Luís Carlos Faria Leal, Cosme Damião e de outros históricos do Sport Lisboa devem ter sofrido rude golpe com a fundação, em Benfica, de um clube anunciado como filial mas que não tinha essa intenção. Depois, o segundo golpe foi o encerramento das instalações de Belém. (...) Pelo que aconteceu em Benfica, dá a ideia que as pessoas do bairro não estavam pelos ajustes em passarem a ter uma filial do seu clube (...).

(...) O Desportos de Benfica (...) conseguira o regresso do clube ao bairro e a ideia de uma agremiação sediada no centro de Lisboa acabou por se diluir. (...)”

 

Bibliografia consultada: Glória e vida de três grandes. A Bola - Parte III, 1995, pp. 1 - 43

 

Factos historicamente comprovados:

1.º Cosme Damião vestiu a camisola do Sporting;

 

2.º É fundado em 1904 o Sport Lisboa.

3.º É fundado em 1906 o Grupo Sport Benfica, clube herdeiro de uma secção do partido que suportava o franquismo ditatorial do final da monarquia portuguesa;

4.º O Sport Lisboa é absorvido pelo clube de Benfica, passando os corpos gerentes deste último clube a continuar dirigir os destinos do clube e o respectivo livro de sócios a ter valor legal;

         Conclusão: O Sport Lisboa fundado em 1904 foi extinto.

5.º Fundação em 1913 d’Os Desportos de Benfica, clube marcadamente bairrista e detentora de um, recentemente inaugurado, edifício sede;

6.º Fusão, em 1916, no SLB do clube ‘Os Desportos de Benfica’ passando a sede deste último clube a ser a sede do SLB;

         Conclusão: Reforço da vertente, essencialmente, clube de bairro na origem do Sport Lisboa e Benfica.

 

Chamada de atenção:

O adeptos do SLB (benfiquistas) e a versão reduzida da designação do clube (Benfica) em momento algum, e de forma correcta, remete para o clube fundado em 1904, mas sim para o fundado em 26 de Junho de 1906, reforçado pela outra fusão ocorrida dez anos depois. Jamais este clube, à semelhança do clube da cidade do Porto, assumiu, resumidamente, a designação de Lisboa e os seus adeptos jamais foram conhecidos por lisboistas, como os do Porto são portistas. Assumiram sim, e bem, a designação do clube de um bairro de Lisboa.

 

Ponto final.

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