Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

És a nossa Fé!

Pelé e Garrincha: primeira e última vez

 

Este excerto que aqui trago é muito especial: foi a única ocasião em que Pelé (aqui com o número 10) e Garrincha (número 16) marcaram no mesmo jogo ao serviço da selecção do Brasil. Aconteceu no Mundial de 1966, em Inglaterra, contra a Bulgária - partida invulgarmente agressiva, com duras faltas de parte a parte perante a chocante tolerância do árbitro quando ainda não tinha sido instituído o sistema de cartões para penalizar jogo violento.

É também histórico por outro motivo: foi a última vez que o grande Mané Garrincha marcou com a camisola "canarinha". Ainda viria a disputar a partida seguinte, contra a Hungria (derrota 1-3), mas já não alinhou frente a Portugal (outra derrota, pela mesma marca).

Pelé e Garrincha tinham integrado a selecção bicampeã mundial em 1958 e 1962. O astro do Santos venceria o tri no México, em 1970. Mas o "anjo das pernas tortas", como lhe chamou Vinicius de Moraes, já não protagonizou essa conquista fabulosa: despediu-se da equipa nacional nos relvados ingleses, aos 32 anos.

Impressiona hoje ver esta despedida de um dos astros mais geniais e mais trágicos da história de futebol. A sucessão de dribles que eram sua marca inconfundível e a espectacular marcação do livre, de trivela, levando a bola ao fundo das redes.

Empolgante e comovente pontapé que lhe serviu de definitivo passaporte para a eternidade.

Talvez a melhor selecção de sempre

brasilcopadomundo1970.jpg

 

Esta, a do Brasil tricampeão mundial de futebol em 1970. Com um quinteto ofensivo de sonho: Gérson, Jairzinho, Rivelino, Tostão e Pelé.

Venceu todos os desafios na fase de grupos: 4-1 à Checoslováquia, 1-0 à Inglaterra, 3-2 à Roménia.

Não deu hipóteses nas partidas a eliminar: 4-2 ao Peru, 3-1 ao Uruguai.

Cilindrou a Itália, por 4-1, na empolgante final da Cidade do México.

Eis esse jogo, na íntegra.

 

 

Campeão absoluto, nos resultados e nas exibições. Com 19 golos no total: 7 de Jairzinho (melhor marcador da prova), 4 de Pelé, 3 de Rivelino, 2 de Tostão, 1 de Gérson, 1 de Clodoaldo, 1 de Carlos Alberto.

Pelé, justamente coroado "rei do futebol" neste campeonato, único participante em três títulos mundiais do Brasil (1958, 1962 e 1970), não se distinguiu apenas pelos golos: inesquecível, o segundo da canarinha contra a Checoslováquia. Fez ainda seis assistências, incluindo duas de cabeça.

Para mim, o melhor jogador da história do futebol. É bom lembrá-lo no auge, agora que luta pela vida num hospital brasileiro. Quando já conquistou a imortalidade: jamais será esquecido.

 

Na impossibilidade de reproduzir aqui estes vídeos, cujos direitos são propriedade da FIFA, deixo-vos a ligação para eles. É só clicarem.

Todos os golos brasileiros desse Mundial:

All of Brazil's 1970 World Cup Goals | Pele, Jairzinho & more! - YouTube

Uma síntese da participação brasileira nesse certame, com narração de Arsène Wenger:

The Greatest Team | Brazil at 1970 FIFA World Cup | Narrated by Arsene Wenger - YouTube

Se quiserem, indiquem o vosso preferido.

Futebol ao ritmo de samba

39954669.webp

Raphinha, Vinicius, Paquetá e Neymar: exibição do outro mundo contra a Coreia

 

Foi um jogo do outro mundo: uma das melhores exibições que me lembro desde sempre da selecção brasileira. Triunfo arrasador, ontem, por 4-1 frente à Coreia do Sul de Paulo Bento. Com cinco golos fantásticos - incluindo o coreano - e uma actuação da canarinha só registada em momentos áureos dos Mundiais de 1970, 1982 e 2002.

Golos para todos os gostos. Os brasileiros marcados por Vinicius, Neymar (que mostrou ao mundo como se marca um penálti em grande estilo), Richarlison e Paquetá. Astros absolutos do Reino da Bola. 

Vejam o terceiro golo - com intervenção directa dos centrais, Marquinhos e Thiago Silva. Futebol ao ritmo de samba: autêntica obra de arte. Um dos melhores que já vi num Campeonato do Mundo - e este já é o 13.º que tenho no meu currículo como espectador.

Uma palavra especial para Neymar, que acaba de marcar o seu 76.º golo pela selecção: falta-lhe agora apenas um para igualar a marca do lendário Pelé. 

E outra para um dos nossos: Raphinha. Com nova exibição espectacular, que teve como momento alto a prodigiosa assistência que abriu caminho à goleada. Saravá, Raphinha. Saravá, Brasil. 

O Brasil de José Carlos Vilela

22311873_I4sqm.png

22311876_gT70l.png

Parece que foi ontem mas passaram 40 anos.

Zico, Falcão, Sócrates e Júnior, exclamamos sem nos enganamos no nome de nenhum jogador.

A revista brasileira Placar conta a história desta selecção perdedora mas inesquecível, recolhendo, também, o testemunho do menino da primeira imagem, José Carlos Vilela.

Onde estava em 1982?

Assistiu aos jogos desta selecção já a cores ou ainda a preto e branco?

Parabéns, Abel

21903788_TSklL.jpeg

 

Ainda hoje não faço ideia por que motivo foste despedido do Sporting B, que tão bem orientaste e que conhecia à época uma das suas melhores fases de sempre. Depois de teres sido um brioso futebolista da nossa equipa principal.

Lamentei isso. Mas são águas passadas. O que interessa agora é felicitar-te pela reconquista da Taça Libertadores, pelo segundo ano consecutivo. Com muito menos espavento mediático, sem ninguém te pôr nos píncaros em que havia sido colocado quem só conseguiu metade do que tu alcançaste. E mesmo havendo um mediático compatriota, teu colega de profissão, a torcer pela equipa que te defrontava. O mesmo que bradava em auto-elogio: «Daqui a 50 anos vão lembrar-se que foi um português que conquistou a Libertadores.»

Não foi preciso esperar tanto tempo: hoje toda a gente sabe que outro português já a conquistou duas vezes.

Mérito a dobrar, o teu. Daqui te envio um caloroso abraço de parabéns.

Futebol, Portugal, Brasil e racismo

 

«Guilherme Espírito Santo, são-tomense que por razões de deslocação dos seus pais se iniciou no futebol em Luanda, viria a ser, já com experiência de anos na equipa principal do Benfica, o primeiro negro a integrar a selecção nacional de futebol. Aconteceu em Novembro de 1937, num célebre Portugal-Espanha, primeiro duelo ibérico que a selecção nacional venceu. Há 83 anos!

Apenas em Novembro de 1978, ou seja, 41 anos depois da estreia de Espírito Santo, se estreou o primeiro futebolista negro na selecção inglesa: Viv Andersen, lendário jogador do Arsenal e do Manchester United, que aliás viria a tornar-se num militante lutador anti-racismo, lembrando, ainda recentemente, que "nos anos 70 os jogadores negros eram abertamente discriminados em Inglaterra".»

(...)

«Em Portugal a presença de jogadores negros nas equipas principais do futebol português e na selecção nacional traduziu-se por uma inteira aceitação de uma cultura aberta e multirracial do nosso povo. Jogadores como David Júlio, Hilário, Jordão, Dinis ou Salif Keita, no Sporting; Miguel Arcanjo, Jaburu, Juary ou Danilo, no FC Porto; Espírito Santo, Coluna, Eusébio ou Luisão, no Benfica, não apenas conquistaram estatuto de ídolos como promoveram a democracia racial como um hábito social saudável.

Nota especial, evidentemente, para Pelé, no Brasil, e Eusébio, em Portugal. Ambos foram determinantes na valorização social do homem negro, a pontos de se tornarem nos mais importantes embaixadores dos seus países, consagrados e admirados em todo o mundo. A influência de Pelé, apenas com 17 anos, na conquista do Mundial da Suécia (1958) ou a de Eusébio no sucesso português no Mundial de 1966, consolidaram o sentimento da tal democracia racial que o futebol promoveu como ninguém e me parece estruturante nas sociedades luso-brasileiras.»

 

Vítor Serpa, trechos de um texto intitulado "O racismo no futebol e na História"

(ontem, n' A Bola)

Nem pensar em tal coisa

Foi uma vergonha, a arbitragem do Argentina-Brasil, jogo da meia-final da Copa América. O árbitro (do Equador) e o vídeo-árbitro (do Uruguai) tudo fizeram para desequilibrar o campo a favor da selecção canarinha, que disputará a final este domingo, frente ao Peru - que derrotou o Chile por 3-0.

Na partida disputada em Belo Horizonte, o Brasil venceu por 2-0. Acontece que os dois golos brasileiros foram precedidos de faltas (uma das quais na grande área defensiva da canarinha) a que o homem do apito e o seu comparsa dos monitores televisivos fizeram vista grossa. Dani Alves distribuiu sarrafada como quis e quando quis sem ter visto o cartão vermelho que fez por merecer. E na recta final da partida registou-se um derrube claríssimo de Otamendi dentro da grande área brasileira, por Arthur - outra falta que ficou impune.

Não escrevo estas linhas por torcer pela Argentina, longe disso, apesar de o nosso Acuña ser titular do onze alviceleste. Quando Portugal não joga, sinto-me sempre "brasileiro". Assinalo o que ocorreu no Mineirão como nova advertência contra aqueles que insistem em ter árbitros estrangeiros a apitar jogos nacionais. 

Por mim, nem pensar em tal coisa.

Sabia que? - Juventus de São Paulo

Sabia que a Juventus, a de São Paulo, foi fundada por dois irmãos provenientes do Piemonte? O engraçado desta história é que um dos manos era originalmente adepto da Vecchia Signora (ou "bianconeri")  e o outro do Il Toro (ou "granata"), os dois clubes rivais da cidade mais representativa (Turim) dessa região italiana. Assim, "i fratelli" decidiram dar ao novo clube paulista o nome de Juventus e escolheram como equipamento o do Torino, ou seja, camisola grená e calções brancos. Uma solução salomónica!

A ver o Mundial (10)

2018-Russia-World-Cup[1].jpg

 

ENFIM, NEYMAR

 

O Brasil deu ontem um passo decisivo para assumir sem rodeios a candidatura ao título de campeão mundial ao superar o México e atingir os quartos-de-final - o que sucede pela sétima vez na sua história. Num jogo em que durante a primeira parte cedeu a primazia da iniciativa à equipa adversária, que se foi desgastando em sucessivas iniciativas de futebol ofensivo travadas pela defesa canarinha, liderada pelos veteranos Thiago Silva e Miranda e guarnecida com dois laterais imprevistos: à esquerda, Filipe Luís (por impedimento de Marcelo); à direita, Fagner (terceira escolha após a lesão de Dani Alves que o impediu de viajar para a Rússia e a lesão muscular de Danilo).

O plano resultou. As energias físicas e anímicas do México - que nunca venceu o Brasil numa fase final de um Mundial - foram-se esgotando em lances de bonito futebol de ataque desenhados nas alas pelos dinâmicos Herrera e Guardado mas neutralizadas pelo "escrete". E na segunda parte operaram a reviravolta, assumindo o comando das operações. Com momentos que fizeram lembrar o melhor Brasil que guardamos na memória - desta vez protagonizados por Neymer. Foi ele a abrir o marcador, aos 51', coroando uma bela jogada colectiva e uma decisiva assistência de Willian. Foi ele também a acelerar e a cruzar, aos 88', para o golo da confirmação, a cargo de Firmino, entrado dois minutos antes com manifesta vontade de ser titular em vez do apático Gabriel Jesus. Volta a marcar pelo segundo jogo consecutivo, após ter feito o gosto ao pé contra a Costa Rica ao cair do pano.

Disputado na cidade russa de Samara, este foi um jogo digno de Mundial que castigou a equipa mais ousada e premiou a equipa mais astuta. Com Cristiano Ronaldo, Messi, Iniesta, Kroos, Salah e Lewandoski fora do torneio, Neymer começa a emergir como a grande figura deste Campeonato do Mundo. Já a espreitar a Bola de Ouro.

 

Brasil, 2 - México, 0

A ver o Mundial (5)

2018-Russia-World-Cup[1].jpg

 

O MELHOR DA RUA DELE

 

Neymar reclamou para si, há dias, o título de melhor futebolista do mundo - alegando, com alguma graça, que Cristiano Ronaldo e Messi «são de outro planeta». Está cheio de razão: não devemos comparar algo incomparável, como ontem o Brasil-Suíça bem evidenciou. Exibição fraquinha do "escrete canarinho", que se deixou empatar após um golaço de Philippe Coutinho logo aos 20'. O craque do Barcelona rematou cruzado, de fora da área, assinando um dos melhores golos do Mundial até ao momento.

Quanto ao avançado do PSG, parecia um gatinho inofensivo. O melhor que conseguiu foi um cabeceamento à figura do guarda-redes Sommer, iam decorridos 88'. Sempre muito vigiado, actuou com pouca intensidade e perdeu inúmeras bolas, sem nunca fazer a diferença. Esteve muito longe de provar que é o melhor do mundo ou até o melhor do Brasil. Mas é, seguramente, o melhor da rua dele.

Valha a verdade: os pentacampeões brasileiros podem queixar-se do árbitro. Não apenas no golo sofrido aos 50' - precedido de falta evidente do marcador, Zuber, sobre o central Miranda, impedido de saltar à bola com ele - mas também num penálti cometido sobre Gabriel Jesus a que o árbitro fez vista grossa, sempre com o consentimento do vídeo-árbitro, que neste Mundial tem mantido intervenção mínima. Numa prova evidente de que as críticas que costumamos fazer por cá aos senhores do apito, quando os consideramos os piores da Europa são manifestamente exageradas.

 

Brasil, 1 - Suíça, 1

Viva Dunga

 

O Brasil de Scolari caiu nas meias-finais do Campeonato do Mundo de 2014.

Sai Scolari, treinador campeão em 2002, e entra Dunga, ex-seleccionador. Sob o seu comando, o Brasil caiu nos quartos-de-final do Campeonato do Mundo de 2010.

Quem dizia "abaixo Scolari" diz agora "viva Dunga".

Não podia haver indício mais auspicioso para a "renovação" da selecção brasileira...

Tudo como dantes

Depois de um sofrível apuramento para o Mundial, de uma convocatória onde a amiguismocracia prevaleceu sobre a meritocracia, e de uma fase de grupos sofrível, concluída com a eliminação da prova, Paulo Bento continua à frente da Selecção Nacional de futebol.

Depois dos 10-1 do Mundial, de praticar um futebol muito longe do melhor que se pratica na Europa e ao arrepio da opinião brasileira especializada, o Brasil vai agora ser treinado por Dunga, o seleccionador do Mundial de 2010, onde a canarinha foi eliminada nos quartos-de-final de uma prova em que primou por um futebol...mal jogado.

Portugal e Brasil têm os resultados internacionais que merecem, é o que apetece dizer.

A ver o Mundial (30)

Escutei já hoje o que se disse ontem à noite nas televisões portuguesas sobre o Brasil-Holanda. Num dos canais - por sinal aquele que, de longe, pior trata o futebol - todo o espaço de comentário foi utilizado para pendurar Luiz Felipe Scolari no pelourinho. Um dos intervenientes chegou ao ponto de dizer que a conquista da Taça das Confederações em 2013, já com Scolari ao leme do escrete, foi péssima para o Brasil pois travou a indispensável renovação dos canarinhos, blablablablá patati patatá.

Ainda esperei que, numa lógica simétrica, todos quantos degolaram, vergastaram e lapidaram Scolari - tornando o treinador já não só o responsável máximo mas o responsável único dos desaires de uma equipa - saíssem em elogio e louvor do seleccionador holandês, Louis van Gaal. Nada disso: nem uma palavra sobre o tema. Os treinadores, na óptica do painel deste canal, só merecem menção pela negativa, nunca pela positiva.

 

Toda a linha de raciocínio deste programa de rescaldo e análise do encontro de ontem para a obtenção do terceiro lugar no pódio do Mundial decorreu em obediência à lógica do demérito brasileiro, sem invocação expressa (e mais que justificada) do mérito holandês.

Como se fosse por acaso que a Holanda se despediu do Mundial sem uma derrota.

Como se fosse por acaso que os holandeses tivessem renovado em grande parte a sua selecção, eliminada no Euro-2012 ainda na fase de grupos.

Como se fosse por acaso que Robben se sagrou o maior valor individual deste torneio, correndo em cada jogo como se fosse o último (e no Brasil-Holanda sofreu uma grande penalidade cometida por Fernandinho à qual o árbitro fez vista grossa, talvez para poupar a turma anfitriã a uma segunda goleada consecutiva).

 

Os erros grosseiros cometidos pelos brasileiros em campo foram igualmente escamoteados por estes comentadores.

Nem uma palavra sobre a falta cometida por Thiago Silva sobre Robben logo aos dois minutos (e que o árbitro, amiguinho, sancionou apenas com cartão amarelo quando devia ter exibido o vermelho).

Nem uma palavra sobre o absurdo alívio de David Luiz aos 17' que funcionou como assistência ao segundo golo holandês.

Nem uma palavra sobre as exibições apagadíssimas de Jo e Willian, os "reforços" que os críticos de Scolari mais vinham reclamando para o onze titular.

 

Toda a análise foi feita à luz da putativa obrigação do Brasil em sagrar-se vencedor.

Como se houvesse triunfadores antecipados em futebol.

Como se a Holanda não existisse.

O escrete comandado por Scolari sai do Mundial no quarto lugar. Como saiu em 1974, no Campeonato do Mundo que se seguiu à brilhante conquista do troféu Jules Rimet no México, ainda com vários jogadores titulares da conquista desse tricampeonato. E em melhor posição do que conseguiu a tão elogiada selecção de 1982, eliminada antes das meias-finais mesmo com o brilhantismo de Sócrates, Falcão e Zito.

 

Falar assim de futebol, sem critério nem memória, é demasiado fácil. Os cafés portugueses estão cheios de comentadores deste género: qualquer mediano olheiro televisivo pode recrutá-los lá.

A ver o Mundial (29)

Confirma-se: este será para os brasileiros um Campeonato do Mundo ainda mais traumático do que o de 1950, quando o escrete foi vice-campeão perdendo na final com o Uruguai. Um desfecho muito mais aceitável, apesar de tudo, do que esta hecatombe à beira do fim do segundo Mundial em que os brasileiros participaram na qualidade de anfitriões. Derrotados frente à poderosa Alemanha na terça-feira, novamente derrotados esta noite perante uma Holanda que foi superior do primeiro ao último minuto do desafio. Segundo desaire consecutivo do Brasil: dez golos sofridos, apenas um marcado.

Os comentadores da RTP procuraram desde o início desvalorizar esta partida transmitida em directo pelo canal público, o que não faz o menor sentido. Ainda hoje todos celebramos o lugar de Portugal no pódio naquele saudoso Mundial de 1966. Além disso, estes desafios costumam ser mais emocionantes e ter mais golos do que muitas finais. Foi assim há quatro anos, por exemplo.

Perder, nem a feijões. E para o Brasil este desafio era mais importante do que a simples disputa do terceiro lugar no Campeonato do Mundo: era também a derradeira oportunidade de levantar a cabeça. A honra da selecção comandada por Scolari estava em jogo.

 

O seleccionador brasileiro fez seis mudanças no onze titular. Regressou o capitão Thiago Silva, que estivera afastado do encontro anterior por acumulação de cartões. Maxwell, Maicon, Ramires, Willian e Jo entraram de início. No banco sentaram-se Dante, Marcelo, Fernandinho, Bernard, Hulk e Fred. Neymar, lesionado, continuou de fora.

Não valeu de nada alterar a frente atacante, como reclamavam algumas das vozes mais críticas de Scolari: mesmo recauchutada, a linha ofensiva foi de uma inacreditável inoperância enquanto a defesa voltava a passar por inúmeros calafrios. O primeiro, logo aos dois minutos, resultou no primeiro golo holandês quando Thiago Silva derrubou Robben num momento em que o rapidíssimo número 11 só tinha Júlio César pela frente. Ficou a ideia de que o lance ocorreu ainda fora da área, mas o capitão brasileiro devia ter sido expulso. O árbitro argelino limitou-se a mostrar-lhe o cartão amarelo.

Van Persie converteu a grande penalidade. E aos 17' a Holanda marcava o segundo, apontado por Blind após jogada que teve início nos pés de Robben (que esteve nos três golos da sua equipa e voltou a ser o melhor em campo, confirmando-se como uma das grandes figuras deste Mundial).

Por momentos, instalou-se no estádio de Brasília o espectro de uma nova goleada. Até porque o segundo golo resultou de mais um clamoroso erro defensivo cometido por David Luiz, reeditando a lamentável exibição frente à Alemanha.

 

 Robben, uma das grandes figuras deste Mundial

 

Ficou evidente que a derrota anterior não resultou de um infortúnio de ocasião. Pelo contrário, deriva de graves problemas estruturais desta selecção brasileira, que voltou a exibir-se de forma desorganizada, assentando o seu jogo em inócuos pontapés para a frente e abrindo imenso espaço entre as linhas, logo aproveitado pela Holanda para exibir a sua enorme superioridade táctica.

Cada vez que os holandeses atacavam faziam-no de forma eficaz e organizada. O Brasil, pelo contrário, era um caos em campo com vários dos seus jogadores nucleares - novamente com destaque para David Luiz - a jogar fora das posições que lhes estavam confiadas. Um caos apenas contrariado pelo esforçado desempenho de Óscar, única cabeça lúcida no meio daquela anarquia. Merecia - ele sim - ao menos repetir o golo de honra que registou frente aos alemães. Mas convém assinalar: o primeiro remate com algum perigo para a baliza holandesa, apontado por Ramires, ocorreu quando já havia decorrido uma hora de jogo.

O escrete sai de cena sem honra nem glória: foi a selecção que sofreu mais golos. E nem sequer teve a dignidade de saber perder: toda a equipa recolheu ao balneário, recusando participar na entrega do prémio aos holandeses pelo terceiro lugar. Um gesto muito feio.

 

A Holanda - que já havia eliminado o Brasil na meia-final do Campeonato do Mundo de 2010 - sai de cabeça erguida deste Mundial, sem ter sofrido qualquer derrota. Balanço muito positivo: cinco vitórias e dois empates (tendo sido afastada pela Argentina por grandes penalidades), na sequência do brilhante apuramento, em que conseguiu nove triunfos em dez jogos, marcando 34 golos. Robben sai do Brasil como uma das figuras do torneio. E desta vez nem precisou do contributo de Sneijder, que assistiu à partida no banco por se ter lesionado enquanto fazia exercícios de aquecimento, momentos antes de entrar em campo.

Fez hoje um mês que o Mundial começou. E vai terminar amanhã, com a final entre Alemanha e Argentina. Por mim, só lamento que a Holanda não esteja lá. Merecia, sem qualquer dúvida.

 

Brasil, 0 - Holanda, 3

A terrível verdade

Diz hoje o Guardian: "One of the striking things about this World Cup is the extent to which Brazil have gone from being everyone’s second favourite team to hardly anyone’s". É, eles são capazes do melhor e do pior, "porque é [deles] querer, poder só isto: o inteiro mar, ou a orla vã desfeita - o tudo ou o seu nada". Às vezes são brilhantes, e às vezes dá-lhes a "tremideira"; está-lhes na massa do sangue. 

A ver o Mundial (27)

A selecção brasileira que compareceu neste Mundial não chegou a funcionar como uma verdadeira equipa. Com jogadores como Marcelo, suplente de Fábio Coentrão no Real Madrid, David Luiz, que parece jogar quase sempre fora da sua posição natural, e Fred, a ineficácia personalizada no campo ofensivo.

Como era de esperar, as principais críticas centram-se no seleccionador Luiz Felipe Scolari. O empresário de Neymar, segundo declarações transcritas pelo jornal O Globo, recorre mesmo ao insulto para o contestar, chamando-lhe "velho arrogante e asqueroso".
E no entanto - não esqueçamos - esta foi a mesma selecção que já sob o comando de Scolari, após o despedimento de Mano Menezes, venceu no ano passado a Taça das Confederações batendo na final a Espanha, então orgulhosa campeã mundial em título e bicampeã europeia, com fama e proveito no desporto-rei.
O facto é que os dois únicos jogadores que hoje fazem realmente a diferença na selecção brasileira - Thiago Silva e Neymar - estiveram ausentes da meia-final contra a Alemanha. Não há coincidências.

 

As análises que tenho ouvido e lido dão no entanto demasiada ênfase aos erros do Brasil sem atribuírem o devido destaque ao mérito alemão. Já havia sucedido o mesmo, aliás, após o jogo Alemanha-Portugal.
Convém sublinhar uma evidência, como realcei aqui, logo após a histórica meia-final de ontem: a selecção alemã beneficia, e de que maneira, das rotinas e dos automatismos propiciados pelo facto de grande parte dos seus elementos actuar diariamente em conjunto, formando a espinha dorsal do poderoso Bayern de Munique.
Também aqui não há coincidências. A selecção portuguesa de 1966, que ficou em terceiro lugar no Campeonato do Mundo, tinha por base a equipa do Benfica. A selecção comandada por Scolari que foi à final do Euro-2004 tinha por base a equipa do FC Porto. Nada a ver com a manta de retalhos do nosso onze-base deste Mundial, por exemplo. E a avaliar pelo que já se percebe da pré-época, com a aposta deliberada em jogadores estrangeiros por parte dos principais clubes portugueses, esta tendência só irá acentuar-se.

Temos de mentalizar-nos para isso desde já.

{ Blogue fundado em 2012. }

Siga o blog por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

 

Arquivo

  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2023
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2022
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2021
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2020
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2019
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2018
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2017
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2016
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2015
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2014
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2013
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2012
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D