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És a nossa Fé!

Divagações em tempo de quarentena (6)

sporting2001.jpg

 

Muitos treinadores têm passado pelo Sporting, muito poucos levantaram as taças mais importantes, as de campeão nacional e as da taça de Portugal. Alguns portugueses e alguns estrangeiros, os últimos dos quais Marcel Keizer e Lazlo Boloni (correctamente László Bölöni).

Foram dois homens que ganharam coisas, boas pessoas com personalidades discretas e tranquilas, mas o romeno vinha dum passado de futebolista de eleição no Steaua de Bucareste, campeão europeu contra o Barcelona, e na selecção romena (108 vezes internacional) e, tácticas à parte, tinha de facto outra sagacidade e visão do mundo e do futebol, e também outra atenção aos mais jovens (um dos exemplos é mesmo Hugo Viana).

Vem isto a propósito do último post do Pedro Oliveira me ter levado a passar os olhos no livro do romeno, e reler algumas coisas que foram então muito importantes e que se calhar explicam muito do que foi a catástrofe desta época.

Diz então Boloni (pág. 20): "Quis fazer um teste físico para avaliar o estado dos jogadores após as férias, mas deparei com a primeira dificuldade. É que nem todos estavam presentes. ... Fiquei espantado quando, alguns dias após a apresentação, o Nelson casou e foi para a lua de mel... Anotei no meu bloco que seriam situações a mudar no futuro.... Apesar das ausências começámos pelo tal teste físico... comparei os resultados obtidos com os que tinha feito com a equipa B da Roménia, não havia comparação possível. ...  os meus jogadores não revelavam capacidade de sofrimento. Numa equipa é bom que haja talento mas é igualmente importante o espírito de sacrifício."

(Depois até houve um mini-estágio físico no meio da temporada aproveitando uma pausa para jogos da selecção)

Outra:

"Não demorei muito tempo a perceber que o plantel era desequilibrado.... Uma equipa não pode ter estes desequilibrios tão acentuados. Até por uma questão lógica de gestão do plantel. Cinco jogadores internacionais para o mesmo lugar, nos quais o clube investiu tanto dinheiro, dá problemas de balneário na certa.".

(Penso que se estaria a referir à abundância de defesas centrais/trincos: Beto, André Cruz, Quiroga, Babb, Rui Bento, Hugo e Paulo Bento, e à falta dum "pinheiro" no ataque, depois veio Jardel)

Mais outra:

"Outra questão que senti ao observar os vídeos tinha a ver com as faixas laterais. Como era possível que os adversários passassem nas zonas de acção de César Prates ou de Rui Jorge e eles não estivessem lá? Ou melhor, eles estavam mas nunca no sítio certo. Alguma coisa não estava bem. A defesa era ineficaz. Sofria golos com muita facilidade."

(César Prates era o Ristovski da altura, de cima a baixo sem parar, sempre fora do lugar. E foi assim que o Beto foi adaptado a defesa direito.)

E mais outra, depois da terceira derrota em oito jogos no Campeonato:

"O que mais me enervou em Braga foi aquela falta de disciplina do Rui Jorge, que é uma pessoa formidável, já tinha duas expulsões em oito jogos. E as duas por palavras dirigidas aos árbitros. Os jogadores costumam reenvidicar uma série de exigências que consideram justas: o equipamento, o calendário dos treinos, etc. Mas depois esquecem-se de compensar isso tudo dentro do campo. Quando isso não acontece, tomo-o como uma falta de respeito à minha pessoa. Eu exijo aos jogadores determinadas coisas e isso tem de ser cumprido."

(E o Rui Jorge, o Acuña daquele tempo, chegou onde chegou)

Concluindo, Boloni debateu-se com questões de preparação física, espírito de sacrifício, equilíbrio do plantel, defesa eficaz das laterais da defesa e disciplina, que conseguiu controlar e ultrapassar. Todas elas estiveram presentes nesta triste temporada, quase vinte anos depois do romeno nos ter proporcionado a última dobradinha da história do Sporting.

 

PS: Um dos campeões da foto chegou depois a director da Academia de Alcochete, estava lá quando o ex-presidente chegou, já não estava quando ela foi assaltada.

Boloni tinha razão*...

O resultado em Alvalade, e o jogo menos conseguido do Sporting, colocou os romenos do Steaua, como diz o povo, emproados, chegando Alibec a afirmar no final da partida: "Este resultado serviu para calar quem fala mal do Steaua. O Sporting não é assim tão perigoso." Boloni, figura grande destes dois emblemas, sabiamente respondeu:

"Dou um recado à estrela. Alibec que jogue mais e fale menos. Não ande por aí de nariz empinado. Isso causa-me nervos. Também não percebo por que é que é tão apreciado na Roménia. Desculpem-me, mas habituei-me a ter padrões mais altos depois de jogar ao lado de Lacatus ou Majearu. O Sporting ainda é o favorito."

 

Sobre o jogo de ontem não gostei:

- da forma barata como os romenos chegaram ao golo;

- que o Acuña, como canhoto, marque os pontapés de canto no lado esquerdo do ataque do Sporting. Para mim, como leigo que sou, seria sempre alguém de pé direito.

- do cansaço de alguns jogadores, principalmente na defesa;

- da falta de uma atitude, positivamente, arrogante do Sporting que, de certa forma, o resultado esconde.

 

* Tiveram razão o Boloni, o Manel da Fonte meu vizinho e o Francisco Chaveiro Reis (que vaticinou uma diferença de quatro golos)

Je suis content, parce que je suis très content

Laszlo Bölöni foi apresentado como treinador interino e futuro coordenador do futebol, caso o candidato Madeira vença as eleições de 4 de Março.

Devo dizer que o Romeno me merece todo o respeito e consideração. Afinal foi um treinador vencedor e é conhecido por ser pessoa de bom trato.

Apesar do seu percurso pós-Sporting não ter sido nada por aí além, ainda assim lhe reconheço competência na sua área; Contudo creio não ter experiência no cargo para o qual foi contactado, sendo esta claramente uma aposta no escuro.

Ao que consta terá sido contactado poucas horas antes de ser apresentado e isso define também esta candidatura, que ainda não apresentou o seu treinador. A ver pelo pequeno hiato com Laszlo, tivesse ele já um treinador e já o teria apresentado. E é tão certo não ter, que apresentou Bölöni como interino até final da época. Contudo, na eventualidade de ter alguém apalavrado, eu especulo que essa pessoa não se queira comprometer publicamente. Seria uma falta de solidariedade para com um colega e a maior parte dos treinadores leva isso muito a sério. Por isso estranho que Bölöni aceite ser interino até final da época. Não bate a bota com a perdigota. Ou então já há alguém apalavrado e Bölöni sabe quem é e concordou aplicar os métodos de outro treinador enquanto se senta no banco. Se assim for, aquela imagem de homem sensato, ponderado, honesto e competente que Bölöni deixou em todos nós, não sairá muito bem na foto. Com pena minha, que como já disse, o aprecio pelo seu passado ao serviço do Sporting.

Penso que Bölöni não tem, com este passo mal calculado, razões para estar contente.

Ao vencedor, nem as "batatas"

Um recém-escrito sobre Mário Jardel que precipitou uma referência a Laszlo Boloni como um treinador «medíocre», fez-me vir à mente, de novo, duas velhas questões. A primeira, o popular mito de que «com Jardel na equipa, qualquer treinador era campeão». A segunda, a peculiar disposição inerente aos únicos três treinadores «leoninos» que foram campeões nos últimos trinta anos; todos foram demitidos, sem grande donaire, pouco tempo depois de terem conquistado os respectivos títulos, deixando a incómoda ideia de que mesmo ser ganhador não dispensa qualquer estado de graça aos técnicos do futebol, pelo menos a estes do Sporting. 

 

Malcom Allison chegou ao Clube em Maio de 1981. Foi campeão nessa época e nem sequer começou a seguinte, tendo sido demitido por João Rocha, por alegada conduta imprópria durante a pré-época. Seguiu-se o infame jejum de 18 anos - recorde que seria eventualmente batido pelo Benfica - até à chegada de Augusto Inácio em Outubro de 1999, inicialmente com o intuito de ocupar a posição apenas até ao final da época. O inesperado aconteceu e o Sporting conquistou o muito celebrado título nacional. A campanha de 2000-01 não começou bem e Augusto Inácio acabou por ser demitido após a célebre derrota (3-0) perante o Benfica, que deu ensejo às controversas e malogradas negociações para a contratação de José Mourinho. Chega então a Alvalade o até aí pouco conhecido romeno Laszlo Boloni, que assume a liderança de uma equipa cujo goleador de serviço acabaria por ser o então recém-transferido Mário Jardel. O Sporting renovou o título nacional - muito pelo contributo dos 42 golos pelo avançado brasileiro - conquistou a Taça de Portugal e os jovens Ronaldo, Quaresma e Hugo Viana foram introduzidos ao relvado principal. A época seguinte viria a dar ensejo a diversos dissabores; a estrondosa polémica em torno de Jardel, a muito infeliz lesão do jovem Niculae que o afastaria dos relvados por mais de seis meses e o consequente 3.º lugar na tabela classificativa. Laszlo Boloni, seguindo o mesmo caminho dos outros dois técnicos campeões, foi prontamente demitido do cargo.

Além destes, ainda existiram outros casos semelhantes, embora sem terem sido campeões: Sir Bobby Robson foi despedido por Sousa Cintra em Dezembro de 1993 - com a equipa em 1.º lugar - após o afastamento das competições europeias. José Peseiro, que na época de 2004-05 apresentou um Sporting com uma dinâmica de jogo que já não se via há muitos anos, sofreu o desaire - e a insólita afronta - de perder o campeonato no derradeiro minuto do penúltimo jogo da época e, uma semana depois, a final da Taça UEFA, foi demitido na fase inicial da campanha seguinte, quando a equipa atravessava um período de menor agrado e resultados. E, para não alongar ainda mais o texto, nem evoco o também discutível consulado de Paulo Bento.

 

Laszlo Boloni, mesmo sem ser um treinador genial, é merecedor de muito mais reconhecimento do que lhe foi concedido pela conquista do título em 2002. Era um excelente profissional e devoto estudioso do futebol, que soube identificar as características dos talentos à sua disposição e adaptar um sistema de jogo que visava extrair o máximo rendimento dos mesmos, com Jardel o caso em ponto. Esta contenda faz-me sempre lembrar o lendário Ian Rush, o melhor marcador da história do Liverpool - 346 golos - e vencedor da Bota D'Ouro. Em 1987, já com 139 golos em 224 jogos, o avançado galês foi transferido para a grande Juventus dos tempos do extraordinário extremo polaco Boniek. Pela pura deficiência do treinador em não saber implementar um estilo de jogo para tirar o devido proveito do fenomenal goleador, este acabou por marcar apenas sete golos na época e foi devolvido ao Liverpool. Resumiu aí o seu usual percurso para as balizas adversárias, marcando ainda mais de 200 golos ao serviço do clube inglês.

Resumindo e concluindo, não será desasjustado adiantar que, para o treinador de futebol, o lema, hoje e sempre, aparenta ser: «Esquece ontem, o que fizeste por mim hoje?» A cultura futebolística exige-o, especialmente em Portugal, e as relevantes paixões clubísticas imploram-no.

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