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És a nossa Fé!

A voz do leitor

«Estou a ler o livro Ver Para Crer o livro de memórias de Aurélio Pereira. Recorrentemente Aurélio Pereira sublinha a desvantagem económica no recrutamento de jovens talentos face ao rival Benfica. Foca uma "ideia espectacular" de Mário Lino que permitiu ao Sporting tomar a dianteira da formação em Portugal. "Sugeriu aos jogadores seniores do Sporting que participassem em sessões de captação ao sábado à tarde para miúdos com 10/11 anos e, depois, participassem em variadíssimos torneios internos. Foi uma ideia peregrina, inovadora." Conseguiram assim atrair muito mais talentos e de certeza novos adeptos. "Uma ideia genial." Sei que os tempos são diferentes, mas os jogadores profissionais podiam e deviam ser mais activos na vida do Sporting e mais próximos dos sportinguistas.»

 

Pedro Sousa, neste meu texto

Linhas e entrelinhas? Estrelinhas.

Enquanto a ‘desenvoltura cognitiva’ prometida pelos mais recentes prospectores de talento para os do Leão Rampante não se manifesta, também, no argumentário dos que aqui vêm de forma militante pôr a tónica em parte do trabalho desenvolvido pela Direcção de Frederico Varandas, gostaria de sugerir que não perdessemos de vista dois aspectos fundamentais.

 

Primeiro:

- a avaliação que já é possível fazer do trabalho que é da responsabilidade total da actual Direcção, seja pela sua acção directa, e assumpção pública, e indirecta, por via dos escolhidos para assumir pastas.

Sugiro alguns critérios: as contratações feitas por Frederico Varandas, o seu impacto na equipa A, a facilidade com que os colocámos noutras equipas, os valores/condições pelos quais foram emprestados e/ou vendidos.

Obrigada pela colaboração, Record: O que têm feito os jogadores emprestados pelo Sporting? A maioria deve voltar à casa de partida.

Sim, alguns jogadores foram herdados. E sobre outros ouvimos que não iriam falhar, [olá Vietto, adeus Vietto], e, mais recentemente, Sporar que afinal de contas não falhou, tal como vaticinava o nosso presidente. O Sporting é que decidiu abrir a porta à venda do seu passe. Semântica, diria eu. Manifestação de desenvoltura cognitiva, talvez?

Pergunto: a julgar pela discrepância dos valores envolvidos nas contractações efectuadas nas duas primeiras épocas e nesta última, bem como os planos de pagamentos tornados públicos, os que se falharam e os que serão honrados por quem assumir o próximo mandato à frente da Direcção [olá 'Paulinho'], teríamos mesmo verbas para ir buscar jogadores que não à nossa formação?

Já todos sabemos que o próximo mercado será determinante, a campanha desenvolvida na Europa – todos sonhamos que na prova rainha – a revelar muito do que será a verdadeira política desta Direcção. Não será novidade para ninguém que aumentando o grau de exigência daquilo que é preciso apresentar em campo, e sendo expectável que a verba disponível para investimentos no plantel seja superior à da desta última época, a tentação para contratar jogadores já consolidados aumente, a pressão de empresários para colocar jogadores “estagnados a carecer de montra”… siga igual caminho. Espero, desejo aliás, que nos seja possível manter o rumo e que os jogadores da formação não percam espaço. Não é crítica antecipada a Frederico Varandas, é perceber que são as dinâmicas próprias das diferentes realidades. Hoje vivemos uma, se tudo se mantiver de feição, a partir de Maio de 2021 passaremos a viver outra.

 

Segundo:

- a aposta de sucesso no produto da nossa formação que tanto nos enobrece e lisonjeia, acontece num contexto altamente específico, e em que parte dele, se não é quase irrepetível, será difícil de mimetizar; os jovens jogadores foram integrados no seio de jogadores mais experientes, cujas carreiras se encontra(va)m num ponto em que dificilmente aspiram a mais do que à oportunidade de ainda ter espaço numa equipa que (ainda) lhes permita calçar em cenários europeus. Adan, Feddal, Antunes, João Pereira, Luís Neto e até Coates, estão à procura de dar o salto para onde, excepto (alguns) para os quadros formativos do Sporting? Compreendemos a importância deste caldo na gestão da (natureza da) competição que existe no balneário gerido por Rúben Amorim? Admito que, com algum esforço, possamos ainda assim mais facilmente replicar a aposta em jogadores com este perfil e que todos estes, à excepção de Coates, chegaram pela mão da Direcção de Frederico Varandas.

O que também parece escapar à observação da generalidade dos Sportinguistas, mas especialmente aos que, preocupando-se em evidenciar o mérito da Direcção de Frederico Varandas, tornam-se verdadeiros "propagadores exaustivos das mesmas ideias-chave (não por acaso, insistem em manter a atenção na actual coqueluche, o mobilizador Rúben Amorim, e naquele soft spot tipicamente leonino: a expressiva utilização dos da nossa criação na equipa A)", é que estes jogadores lá chegaram, à equipa A, com base num critério de selecção e metodologia de trabalho a cargo de colaboradores que ou já não estão no Sporting ou estão, mas com um raio de acção diminuído.

Uma coisa é falar, quando não papaguear chavões, de que é exemplo a referência contínua à importância da estabilidade. Outra, bem diferente, é proporcioná-la. E, neste domínio, vejo estabilidade em dois postos: os de directoria da Academia Sporting. De resto, entre treinadores mais conhecidos, a menos conhecidos, a coordenadores, a especialistas em rendimento físico, a lista – do que estão do lado de fora – é já extensa. Dos escolhidos e dispensados por Frederico Varandas e dos que já lá estavam, com obra feita e resultados mais do que apresentados, demonstrados, e estão agora, também eles, do lado de fora.

Se Maio de 2018 trouxe uma cadeia de acontecimentos que nos deixou sem chão e obrigou a todos a olhar para a tão amada Academia com atenção, Agosto de 2020 tornou incontornavelmente claro, para mim, que sabemos, Sportinguistas mas sobretudo sócios, muito pouco sobre o que se passa na Academia Sporting, extra aquilo que se escolhe comunicar para o grande público. Entre o que não convém que se saiba, ao que se sabe parcialmente, ao que se comunica a partir de um período temporal que serve o propósito de (tentar) fazer brilhar os que no momento mandam, lembrei-me do filme The Truman Show. Não gosto da sensação que me provoca. Gosto ainda menos de pensar em quais poderão ser as consequências destas mudanças ainda que, claro, aprecie desenvoltura cognitiva. Convém é melhorá-la naqueles que põem a difundir o guião.

Dizia, e mantenho, que não acho que seja uma questão que se circunscreve a Frederico Varandas. Diz quem vive a realidade por dentro que tem persistido uma política de gestão da Academia Sporting que assenta predominantemente na "imposição" de "homens fortes" vindos de fora da estrutura, trazidos a cada mudança directiva e que em nada tem beneficiado a tal 'estabilidade' tão necessária à consolidação de processos.  

Ora, vejo, também por ter tido oportunidade de reunir elementos que ajudam a ler nas entrelinhas, sinais de alarme que, infelizmente, se têm avolumado e que gostaria que a entrada de Paulo Noga pudesse ter sanado. Tenho dúvidas de que assim seja, ainda que não duvide, até por disso ter recebido nota de diferentes quadrantes, que 'é forte' e 'competente'.

Receio, contudo, que possa ser dificil assumir realidades desagradáveis, por implicar a assumpção de falhas de apostas muito pessoais que, infelizmente, são-no mais do que deviam. Pessoais. Deviam ser mais profissionais. Profissionais, despojadas (o mais possível) da dimensão pessoal que tende a conduzir para a autopreservação.

É por tudo isto que alimento a esperança de que haja quem queira e possa desenvolver um modelo que nos permita a "autonomização" da Academia Sporting, de uma forma que se torne menos permeável às oscilações trazidas pelas Direcções. Direcções, quem quer que seja que as encabece. Pelo Sporting. Mais pelo Sporting e menos pelos que estão a geri-lo e querem, tipicamente, manter-se nessa posição.

Não me deixo deslumbrar por 'resultados'. Privilegio 'processos'. Sei também que bons resultados agora alcançados, resultam de processos, na sua forma conceptual e material, que não têm a impressão digital da Direcção em exercício. Sempre assim foi e será. Sei que há resultados já alcançados que resultam de processos, na sua forma conceptual e material, que têm a impressão digital da actual Direcção, e não são positivos. No domínio das contractações de jogadores e técnicos, e mesmo formativos.

Sei, que há muito que nos interessaria saber que dificilmente nos chegará pelos órgãos de comunicação do Clube. Que, sabemos todos, são na verdade boletins informativos ao serviço das Direcções. O meu ponto de não retorno? A entrevista de Tomaz Morais ao Jornal Sporting que aqui partilhei e, mais do que isso, contrastei.

Como é que se autonomizam órgãos de comunicação de um clube, a favor dos sócios sem que se tornem um contra poder nas mãos de quem quer chegar ao poder? Não sei.

Mas sei que é preciso saber ler nas entrelinhas e que essas são muitas vezes, para a maioria, raras oportunidades. Quase nunca se apresentam.

Gostaria que soubessemos todos mais. Gostaria que não precisassemos, tantos e tanto, de saber ler nas entrelinhas. Acima de tudo, e no fundo, gosto das nossas estrelinhas. As que já o são e as que para lá caminham (devem). Não gosto, mesmo nada, de sentir que temos de estar atentos às entrelinhas.

Gosto mesmo muito do Sporting. É por isso que vos deixo estas linhas. Espero, a bem das nossas estrelinhas, que saibam todos ler nas entrelinhas. A tempo de assegurarmos o melhor... para todas as nossas estrelinhas. Sem entrelinhas.

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Steven Kazlowski/Barcroft Media

Leitura recomendada: Aurélio Pereira ao Record

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Em entrevista ao Record de hoje.

Recomendo vivamente a leitura atenta. Diplomata de craveira o nosso Mestre Aurélio. 

(...) O Sporting acabou de

estrear um miúdo com 16 anos.

É preciso coragem, não é? E só é

possível porque os miúdos vêm

para cá muito cedo. Habituam-

-se a estar num clube de topo e,

quando chegam aos 16/17 anos,

já os conhecemos bem. E eles já

não tremem. Não tremem! (...)

 

A ver vamos se as alterações que estão a acontecer na formação do Sporting permitem que daqui a 10 anos possamos dizer que a actual Direcção do Sporting Clube de Portugal deixou a mesma matéria-prima para brilhar. 

«Academia não trata só dos pés, trata também da cabeça» - Aurélio Pereira

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Fonte: Sporting Clube de Portugal, por ocasião da remodelação efectuada nas instalações da Academia Sporting, em Alcochete, nas paredes da qual Aurélio Pereira foi retratado. Na imagem, Aurélio Pereira e Paulo Gomes

 

O nome dispensa apresentações. A obra, fala por si e excede há muito as paredes de Alcochete. Dele se diz ser o grande responsável pela captação de talento para os do Leão Rampante e da listada verde e branca. Dele se diz, ainda, ser o enorme responsável pela forma de trabalhar, no seu todo, com crianças e jovens que vestem as nossas cores.

Mais do que a imagem colada na parede, cada tijolo em que assenta o às de trunfo do Sporting, a AS*, foi por si e por aqueles que escolheu, cimentado. Um dos pilares desta complexa estrutura, Nuno Mota, deixou-nos. Certamente não por sua vontade, mas no âmbito das exigências trazidas pela pandemia - e que pandemia...! -, que conduziram ao despedimento colectivo anunciado recentemente.

Na hora de render homenagem ao Homem, mais do que plasmar um rosto na parede, manter vivos os pilares que o mesmo escolheu e aprimorou, parece tarefa muito exigente. Impossível, até. Medonha pandemia...

Difícil de digerir, este Janeiro de 2021, já que ainda a 19 de Novembro de 2020 foi anunciado Carlos Tavares, vindo do Futebol Clube do Porto, como reforço para a estrutura de recrutamento da Academia de Alcochete.

Entristecida, ainda que não surpreendida, com o rumo dos acontecimentos, escolhi relembrar Aurélio Pereira e trazer os desenvolvimentos trazidos pela actual Direcção da Academia Sporting, por mais do que deferência, reverência para com Homem, Obra e obreiros.  

A frase que titula este texto é, naturalmente, de Aurélio Pereira e serviu de título para a entrevista concedida a António Pedro Pereira e Isaura Almeida (Diário de Notícias) a 25 de Outubro de 2008

Nessa altura, há 12 anos, dizia-nos Aurélio Pereira:

«[...] E que tipo de jogador formamos na Academia? Com cabeça, tronco e membros. O número de ingredientes que contribuem para o sucesso é menor dos que levam ao insucesso. Hoje temos todas as condições, com uma equipa extraordinária de pessoas e onde se respira um ambiente de sã camaradagem, e isso passa para os jogadores. [...]»

 

“No Sporting o mau aluno não tem lugar.” Este é o lema?

«Não, não é esse o lema. Criámos uma Academia essencialmente para formar jogadores, não vamos ignorar isso. A filosofia da Academia é essa. Quando escolhemos o nome de Academia Sporting em vez de centro de estágio não foi por acaso, porque a Academia não trata só dos pés, trata também da cabeça. Maus alunos, felizmente temos poucos.»

 

«É por isso que é importante ter um Gabinete Psicopedagógico?

Os clubes têm de ter capacidade para poder dialogar com os pais e eu sou normalmente a primeira cara que a família vê. Por vezes querem entrar mais na esfera desportiva do que na sua, de educadores. Isto não é uma crítica aos pais, mas é assim que funciona. Quando um jovem não joga o tempo que o paizinho quer e eles mostram descontentamento, eu digo sempre que ele devia ir a pé a Fátima agradecer ter filhos numa instituição chamada Sporting, onde estudam, são acompanhados e sabem que estão em segurança

 

Antes ainda, a 3 de Junho de 2007, em entrevista concedida ao jornal Público: 

«Não é só de futebol que estamos a falar. O acompanhamento dos jovens jogadores tem de se estender às mais diversas áreas, dos estudos à formação cívica, do ensino das regras do desporto até aos conselhos sobre nutrição, higiéne, vícios. Entre o sucesso desportivo e o insucesso às vezes vai apenas um pormenor", avisa Aurélio Pereira. E ele sabe do que fala. Ele viu crescer alguns dos melhores futebolistas mundiais das últimas décadas.»

«Hoje, com a Academia de Alcochete, o Sporting é apresentado como um exemplo de excelência na área da formação de futebolistas. "A nossa missão é produzir jogadores que possam jogar na primeira equipa. E a missão está a ser cumprida", diz o responsável pelo recrutamento (...)» [negrito meu]

 

A 9 de Julho de 2016, Tiago Palma desafiou Aurélio Pereira a falar para O Observador, sobre cada um dos jogadores do Sporting que, no dia seguinte, bom, no dia seguinte Portugal conquistaria o Campeonato da Europa com, apenas, 10 jogadores formados no Sporting Clube de Portugal. Retalhos preciosos cuja leitura recomendo, também, por permitir ver no plano concreto aquilo que acima, de forma teórica, Aurélio Pereira foi, ao longo dos anos, dizendo. E mais do que dizer, fez. E fê-lo tão bem, que chamar aos 10 jogadores da nossa formação "Os Aurélios" é da mais elementar justiça. 

 

Já a 12 de Setembro de 2019, neste blogue, Pedro Correia partilhou alguns trechos de uma entrevista que Aurélio Pereira concedeu nesse mesmo dia ao jornal A Bola, de entre os quais destacaria, para já, apenas um:

«O foco é no jogador e nos seus comportamentos; o acompanhamento, quer social, quer escolar, somos nós que fazemos. Isso é um trabalho altamente complexo. Tomar conta dos filhos dos outros é muito pior do que os nossos. Temos de estar preparados para isso.» [verdito meu]

 

Mais recentemente, nas páginas 16 a 19 da edição 3780 do Jornal Sporting (9 de Julho de 2020) encontramos uma entrevista a Tomás Morais, director de futebol de formação e liderança, a partir da qual é possível obter os seguintes esclarecimentos quanto ao inovador trabalho que está a ser feito na Academia Sporting:

 

«O que é o modelo centralizado no jogador que tem sido trabalhado e implementado no Sporting CP?

Consideramos que o modelo centralizado no jogador é a capacidade que toda uma equipa multidisciplinar formativa tem para colocar o foco no jogador e não apenas num sentido colectivo. Nesta perspectiva, o atleta é o principal interveniente no processo. Tencionamos, acima de tudo, formar jogadores completos, que se tornem autónomos, resilientes e que sejam física e cognitivamente superiores. Desta forma, acreditamos estar a valorizar e a maximizar o talento individual de cada um sem retirar a capacidade criativa que mais tarde irão fazer toda a diferença.
Acreditamos que com esta visão estratégica podemos dar cumprimento aos princípios gerais e específicos de um modelo formativo que vise essencialmente o desenvolvimento e potencialização do jovem jogador enquanto pessoa e atleta, estamos em simultâneo a formar equipas no expoente máximo das suas plenitudes. Para que tal aconteça e para que estejamos mais perto do sucesso, é fundamental a existência de um ambiente positivo entre todas as áreas suportado por bom senso, comunicação permanente, capacidade crítica construtiva e a vivência diária de valores comuns.

 

Quais são as suas características mais importantes?
Numa fase inicial procurámos definir um propósito sustentado na nossa visão, missão e valores. Numa segunda fase definimos uma estratégia para estarmos efectivamente capacitados para potenciar não só o talento existente, mas igualmente preparados para o que nos vai chegando através da nossa área de recrutamento e identificação de talento. Numa terceira fase apostámos na nossa estrutura de forma a maximizar a competência interna e criar padrões de coerência. Por último, contruímos um processo multidisciplinar para a essência: o futebol. Só com um ambiente positivo de aprendizagem conseguimos que todos os jovens evoluam diariamente com o processo de treino e retirem o maior número de ferramentas que lhes garanta a revelação de todas as suas capacidades, em qualquer que seja o contexto competititvo onde joguem. Este modelo acaba por valorizar, envolver, motivar e mobilizar a excelência profissional existente em todos os colaboradores da Academia nas suas diferentes áreas. [negritos e sublinhados meus]

 

O longo e reconhecido passado no râguebi infuenciou, de alguma forma, o modelo centralizado no jogador que implementou no Sporting CP?

Não especificamente porque a norma deste modelo holístico é a sua implementação pelas direcções técnicas, por todo o quadro de treinadores e técnicos desportivos que, desde a base até ao longo da pirâmide da formação desportiva, diariamente trabalham com os jogadores. Compete-me, enquanto director, proporcionar reflexões, discussões, a revisão do pensamento e caminho estratégico, bem como a criação de um ambiente propício a que tudo se desenvolva. Como acreditamos que este é o modelo certo, gostaríamos que ficasse e fosse implementado independentemente de quem estiver na liderança directiva ou técnica do futebol de formação. Temos a responsabilidade de melhorar o legado que nos foi deixado! O maior exemplo passa por dar expressão a tudo o que o senhor "formação" Aurélio Pereira continuamente nos ensina e transmite. Na formação estamos sempre a aprender... [verdito e sublinhados meus]

 

Qual é o objectivo primordial do modelo centralizado no jogador?

É potenciar todas as qualidades futebolísticas que o jogador tem individual e colectivamente. Suportado por um trabalho orientado nas áreas mental, física e estrutural. Sabemos que todas a funcionar numa dinâmica perfeita resultam naquilo que se pretende: um atleta integral, dentro e fora do campo. O foco no jogador permite a conciliação perfeita entre a sua vida futebolística e as vertentes familiar, social e escolar, dado que neste processo participam diferentes agentes desportivos para que em sintonia ponham em prática todos os detalhes tanto educativos como formativos. Deste modo, podemos atingir aquele que é o grande propósito da Academia Sporting: formar jogadores capazes de chegar e afirmarem-se na equipa principal do Sporting Clube de Portugal. Para que isso aconteça, as nossas acções diárias têm de ser boas e detalhadas, mas também de grande consistência entre toda uma vasta equipa que tem por único objectivo pensar que a razão da sua existência é a construção do jogador e do homem na vida e no campo.

 

O que foi necessário alterar para implementar este modelo?

Acima de tudo, a construção de um plano estratégico que envolveu na sua liderança e administração, o director técnico, o director da formação, o director  da Academia e os coordenadores de cada área multidisciplinar. Conscientemente no nosso modelo operacional motivámos todos os colaboradores da Academia a revelarem as suas competências num único propósito. Encontramos em todos aqueles que estão de corpo e alma no Clube uma vontade férrea de continuar a colocar a Academia Sporting como uma referência mundial em termos formativos. Os que entraram, depressa se enquadraram neste estímulo e nesta enorme vontade organizacional de fazer mais e melhor pelo Sporting Clube de Portugal. [negrito e sublinhados meus]

 

Fora de campo, a nível cívico, social e educacional, o que tem sido feito?

Devemos sempre associar a vertente desportiva à vertente humana. Um atleta é tão ou mais capaz de revelar as suas competências e qualidades quanto melhor pessoa for. Tentamos a todos os níveis incutir uma liderança ética e construtiva baseada no exemplo, com responsabilidades partilhadas, princípios de proximidade e acompanhamento. Queremos, na Academia, criar um conjunto de estímulos com origens muito diferenciadas para os sensibilizar que a vida passa por momentos contínuos de sucesso e frustração e a forma como sabemos estar e reagir perante os obstáculos vai fazer toda a diferença. O valor do jogador não está apenas na paixão que coloca no treino e no jogo, mas também na sua capacidade de se sacrificar para aquilo que é a missão do Clube. Só assim poderá dar corpo aos seus sonhos. [verdito, meu]

 

Qual era a urgência de mudar o paradigma quando chegou ao Sporting CP?

Um paradigma nunca é nem pode ser mudado por uma pessoa apenas. Venho de uma essência colectiva e acredito que o somatório de um conjunto de valências de vários especialistas é sempre superior a um pensamento egocêntrico. Como tal, havendo uma nova visão suportada por um propósito muito claro que a administração nos passou desde o príncipio, sentimos que era preciso aprender com o passado e reter todo o triunfalismo histórico que o Sporting CP tem na formação, mas também incutir novas reformas organizacionais e funcionais. Daí que a transparência entre todos e a capacidade de dar voz a todos os envolvidos, desde as escolas Academia, Academias Formação Sporting, Pólo EUL até à Academia, teriam de ser o lema de suporte para todas as transformações a efectuar. [sublinhados e negritos, meus]

 

O que falta fazer em relação ao modelo centralizado no jogador?

Continuarmos a aplicar o nosso esforço e conhecimento naquilo que é realmente importante: o jogador. Não perdermos energias e tempo com os factores que não levam o Sporting CP a caminho algum e focarmo-nos naquilo que importa e interessa. Temos, cada vez mais, de ser credíveis, coerentes e justos. Temos de deixar a cultura de depressão nas pequenas derrotas e a euforia nas vitórias, porque o objectivo é a criação de uma estabilidade que permita tornar estes momentos efectivamente naturais, como parte fundamental do processo de crescimento desportivo. [negrito e verdito meus]

 

Quais são os objectivos a curto e a longo prazo?

O grande objectivo, seja a curto ou a longo prazo, é formar e preparar jogadores para a equipa principal. A formação nunca está completa, é altamente dinâmica e aberta, sendo um somatório de todas as mais-valias daqueles que em dado momento contribuíram para as aprendizagens dos jogadores. Um projecto formativo deve ser silencioso e virado essencialmente para dentro. Só assim geramos a tão necessária confiança e a mobilização do contributo de todos os envolvidos.» [verdito, meu]

A entrevista de Tomás Morais prolonga-se para além dos trechos aqui partilhados, mas no essencial, esta foi a mensagem que quis transmitir aos leitores do Jornal Sporting.

 

Aurélio Pereira é unanimemente considerado "O Senhor Formação" (confira, por favor, a fotografia acima), foi o responsável pela criação do Departamento de Recrutamento do Sporting Clube de Portugal em 1987/1988** e disse-nos ainda em 2019:

«Há duas coisas que têm de caminhar lado a lado: o recrutamento e a área técnica. São dois pilares de uma academia, sem esses pilares conscientes não há trabalho de nível tão elevado. Temos nesta altura essa simbiose, está a crescer dia a dia. Falamos a mesma linguagem. O novo director técnico, o Miguel Quaresma, tem sido um homem certo no lugar certo.»

Infelizmente, também Miguel Quaresma e Raul José já nos deixaram (em Maio de 2020). 

 

Ao Mestre Aurélio Pereira e ao Nuno Mota, a este último pelos 16 anos de Esforço, Dedicação e Devoção à formação leonina, a minha vénia. A Glória, está em muito mais do que é visível aos nossos olhos, é verdade. Está na acção da verdadeira estrutura invisível que sempre foram. A Glória, estará sempre no pioneirismo e carácter que revelaram continuamente e na magia que os vossos diamantes espalham no relvado, cá e pelo mundo.

Obrigada, é pouco. É muito pouco. 

*Academia Sporting, actualmente conhecida por Academia Cristiano Ronaldo.

**Em entrevista ao jornal Público é dito 1987, na entrevista ao jornal Diário de Notícias, 1988. 

Amar o Sporting

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Amar o Sporting é cultivar alguns dos valores que mais prezo. Ser fiel às origens, às tradições, à devoção clubística – antónimo de clubite. Praticar a lealdade em campo e fora dele, rejeitando golpes baixos. Gostar muito de vencer, sim – mas sem batota. Recusar ódios tribais a pretexto da glória desportiva. Nunca confundir um adversário com um inimigo, sabendo de antemão que o futebol (só para invocar o desporto que entre nós mobiliza mais paixões) é a coisa mais importante das coisas menos importantes, como Jorge Valdano nos ensinou.

 

Amo o Sporting pela marca inconfundível do seu ecletismo.

Os meus primeiros heróis leoninos, ainda em criança, eram Leões de corpo inteiro sem jogarem futebol. Foi o Joaquim Agostinho a brilhar nos Alpes e a vencer etapas na Volta à França depois de ter sido o maior campeão de ciclismo de todos os tempos em Portugal. Foi o António Livramento, artista exímio com um stick nas mãos, campeão europeu de verde e branco, além de campeão mundial a nível de selecções. Foi o Carlos Lopes, recordista absoluto do corta-mato europeu, brioso herói da estrada, medalha de prata nos 10 mil metros em Montreal, primeiro português a subir ao pódio olímpico, de ouro ao peito, naquela inesquecível maratona de 1984 em Los Angeles.

Amar o Sporting é abraçar o universalismo que fez este nosso centenário clube transbordar os limites físicos do País e galgar fronteiras. Conheci fervorosos sportinguistas nas mais diversas paragens do planeta. Nos confins de Timor, no bulício de Macau, na placidez de Goa – lá estão, com a nossa marca inconfundível, sedes leoninas que funcionam como agregador social naqueles países e territórios, assumindo em simultâneo uma ligação perene a este recanto mais ocidental da Europa.

 

Amar o Sporting é cultivar a tenacidade de quem nos soube ensinar, de legado em legado, que nunca se vira a cara à luta.

João Azevedo a jogar lesionado entre os postes, só com um braço disponível, enfrentando o Benfica num dos clássicos cuja memória perdurou através das gerações. Fernando Mendes, um dos esteios do onze que conquistou a Taça das Taças em 1964, alvo de uma lesão no ano seguinte que o afastou para a prática do futebol, mas capaz de conduzir a equipa, já como treinador, ao título de 1980. Francis Obikwelu, nigeriano naturalizado português e brioso atleta leonino que saltou da construção civil onde modestamente ganhava a vida para o ouro nas pistas europeias em 2002, 2006 e 2011.

Campeões com talento, campeões com garra, campeões inquebrantáveis – mas também campeões humildes, conscientes de que nenhum homem é uma ilha e um desportista, por mais aplausos momentâneos que suscite, é apenas uma parcela de um vasto arquipélago já existente quando surgiu e destinado a perdurar muito para além dele. Na Academia de Alcochete, no Estádio José Alvalade, no Pavilhão João Rocha, somos conscientes disto: ninguém ganha sozinho. Antes de Cristiano Ronaldo havia um Aurélio Pereira, antes de Livramento havia um Torcato Ferreira, antes de Carlos Lopes havia um Mário Moniz Pereira.

 

O desporto com a genuína marca leonina não cava trincheiras: estende pontes, transmitindo a pedagogia da tolerância e cultivando a convivência entre mulheres e homens de diferentes culturas, ideologias, crenças e gerações.

É também por isto que amo o Sporting: fez-me sempre descobrir mais pontes que trincheiras. O que assume relevância não apenas no desporto: é igualmente uma singular lição de vida.

 

Publicado originalmente no blogue Castigo Máximo, por amável convite do Pedro Azevedo.

Palavras sábias de Aurélio Pereira

Excelente, a entrevista hoje publicada no jornal A Bola com Aurélio Pereira, o maior descobridor de talentos da história do futebol português. Incluindo dois jogadores distinguidos com a Bola de Ouro - Luís Figo e Cristiano Ronaldo.

Actual conselheiro para a formação leonina, esta figura quase mítica há meio século ligada ao nosso clube faz muitas afirmações que merecem destaque e reflexão.

Deixo aqui alguns trechos, com a devida vénia. A entrevista foi conduzida pela jornalista Marta Fernandes Simões, que aproveito para felicitar.

 

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«O foco é no jogador e nos seus comportamentos; o acompanhamento, quer social, quer escolar, somos nós que fazemos. Isso é um trabalho altamente complexo. Tomar conta dos filhos dos outros é muito pior do que os nossos. Temos de estar preparados para isso.»

 

«Há duas coisas que têm de caminhar lado a lado: o recrutamento e a área técnica. São dois pilares de uma academia, sem esses pilares conscientes não há trabalho de nível tão elevado. Temos nesta altura essa simbiose, está a crescer dia a dia. Falamos a mesma linguagem. O novo director técnico, o Miguel Quaresma, tem sido um homem certo no lugar certo.»

 

«Em 1988 iniciei um trabalho de recrutamento. Todos estes jogadores que estavam na selecção dos campeões europeus vieram para o Sporting aos 11/12 anos [Rui Patrício, Cédric, Fonte, William Carvalho, Adrien, João Mário, Moutinho, Nani, Quaresma e Ronaldo], foram precisos 30 anos para que isso acontecesse. E fartámo-nos de trabalhar. Essa malta veio para aqui aos 11/12 anos. Um do Algarve, outro de Arcos de Valdevez...»

 

«Temos um jogador fantástico e a partir da altura em que começam a aparecer empresários, pais para aqui e para acolá, a cabeça deixou de pensar. (...) É muito doloroso ver partir jogadores que ficariam por aqui se não fossem mal aconselhados, Joelson é um miúdo que está a crescer, é preciso algum cuidado.»

 

«Raramente um jogador que traz o pai para empresário, o que acontece também com o Neymar, dá certo. Porque a vontade que ele tem é de ganhar dinheiro primeiro que os outros. Os maus conselheiros, o pai quando se está a discutir contratos, é uma coisa impressionante.»

 

«Do Ronaldo esperamos tudo. Porque o Ronaldo já não é talento. É supertalento. É um jogador que nunca está satisfeito. Há dias mandei-lhe uma mensagem, de parabéns por um jogo, e a resposta dele foi "Estou top." Esta sempre top...»

 

«Daqui [pescoço] para baixo os jogadores são todos iguais. Daqui para cima é que são diferentes. Cabecinha. Paixão pelo treino, pelo jogo, pela profissão. São três coisas de um jogador deste nivel e ele [Ronaldo] ainda tem paixão pelo treino. Vejo quando ele está a jogar, ainda com a Lituânia, num momento ou outro, com os pés ainda faz aquilo que fazia quando tinha 12 anos.»

 

«No pólo EUL trabalhamos miúdos dos seis aos 13. São 190. É ali que tudo começa e ali apercebemo-nos que os prodígios de futebol são tudo miúdos africanos, os nossos irmãos africanos. É o futebol de rua que está a regressar aos bairros. Sem o futebol de rua não há jogadores fantásticos.»

 

«Aos 13 já há empresários a ver... começam logo cedo a serem pressionados e os pais depois vão atrás e é uma situação chata. Temos de ter cuidado naquilo que dizemos aos miúdos. Auto-estima e disciplina são fundamentais.»

 

«Hoje, qualquer miúdo com sete anos tem um empresário. É extraordinária a dificuldade que nós temos. Desde que tenha empresário e bom telemóvel, está tudo arrumado. Nós é que sofremos na pele. Pessoas que não têm dignidade, que levam jogadores para o estrangeiro que sabem que vão falhar na carreira. Raramente há um jogador que sai daqui aos 16 ou 17 anos que vá ter sucesso.»

 

«As pessoas de fora falam de formação mas não têm a mínima noção do que trabalhamos aqui, nomeadamente no acompanhamento dos jovens residentes. Foi o que fizemos e continuaremos a fazer.»

 

Hoje giro eu - UEFA atribui Ordem de Mérito a Aurélio Pereira

A UEFA decidiu atribuir a Ordem de Mérito, um dos mais altos galardões concedidos pelo organismo do futebol europeu, a Aurélio Pereira, responsável pelo Departamento de Scouting do Sporting Clube de Portugal. Com 10 jogadores nos 14 portugueses que disputaram a final do Euro-2016 em Paris, o Sporting e o futebol europeu muito devem à perspicácia do Senhor-Formação. Cristiano Ronaldo. Luis Figo, Paulo Futre, Ricardo Quaresma, Simão Sabrosa e Nani são apenas alguns exemplos da excelência do seu trabalho.

 

Curiosamente, no mesmo fim-de-semana em que se tornou publica esta justa honra, dois dos seus "meninos" estiveram ao mais alto nível, como querendo fazer parte da homenagem: Ronaldo marcou dois golos contra o Alavés, mas quem esteve imparável e realizou uma exibição assombrosa foi Quaresma, que marcou dois golos e fez várias jogadas fenomenais na vitória do Besiktas sobre o rival Fenerbahçe (3-1), como pode verificar aqui .

 

Posto isto, e não esquecendo a goleada a que a nossa equipa de iniciados sujeitou o seu rival de Lisboa, aí está mais uma prova da "crise da nossa Formação", como uma redonda figura dos paineis televisivos tem vindo a esforçar-se por "demonstrar"...

aureliopereira.jpg

 

A Academia

"Aurélio Pereira, the club’s long-serving director of youth recruitment, has overseen the discovery of Figo, Paulo Futre, Simão Sabrosa, João Moutinho, Cedric, Ricardo Quaresma and Nani, among others, but Ronaldo is the real darling for the club. The 70-year-old’s eyes light up when he reminisces about Ronaldo tying weights to his legs and racing past traffic in the streets outside the academy to gain strength and speed."

Alex ClaphamThe Guardian

 

A ler aqui.

Enquanto a bola não começa a rolar a sério...

Chamou-me a atenção a homenagem que o Núcleo Sportinguista de Alcochete fez recentemente a Aurélio Pereira, e que contou com a presença da mãe e irmã de Cristiano Ronaldo, em particular o seguinte recorte: «A mãe de Cristiano Ronaldo emocionou-se ontem quando Aurélio Pereira, responsável pela vinda do jogador para o Sporting, elogiou o papel da família no sucesso do atleta. "Entre o sucesso e o insucesso, há uma diferença muito pequena. A família foi fundamental para Cristiano Ronaldo", afirmou o 'caça--talentos', levando Dolores Aveiro às lágrimas. »

Destaca-se, desde logo, o sentimento de gratidão que continua a ligar Ronaldo e a sua família ao Sporting, especialmente a Aurélio Pereira. Passados estes anos todos, acumulado tanto dinheiro, sendo tantas as solicitações, Ronaldo e a família não deixam de participar nalguns eventos da família sportinguista. O Ronaldo não é craque pelos golos que faz. Também é craque na humildade e sinceridade de amor aos clubes da sua vida. Por isso é que é adorado no Sporting e no Manchester.

Outro aspecto que me pareceu muito pertinente foi a referência à família, pedra basilar na vida desportiva de Ronaldo. Nunca, em momento algum, se viu a mãe, as irmãs ou o cunhado de Ronaldo virem para os jornais fazer pressão de qualquer tipo. Nunca precisaram disso para fazer vingar alguma posição negocial. Basta recordar o último ano de Ronaldo no Sporting, em que os jornais já no defeso davam conta de potencial interesse do Barcelona e outros clubes, e não apareceu a família, o tutor, ou o advogado do jogador a querer forçar o seu interesse.

Na semana em que o caso «Bruma» não conheceu, ainda, qualquer novidade, sabe bem ver o exemplo vindo de Ronaldo e família, ou ler a entrevista de Nani ao jornal do Sporting. Tanto num, como noutro caso, as boas maneiras não estão enferrujadas.

Não fui eu, foi aquele senhor

A entrevista do presidente da direcção do Sporting à RTP i foi lamentável, a vários títulos. Mas acima de tudo por ter invocado o nome de Aurélio Pereira, um dos maiores detectores de talentos do nosso clube, promotor das carreiras de diversos meninos depois tornados campeões e homem de indiscutível prestígio, que deve ser deixado à margem de contendas internas (tal como o professor Mário Moniz Pereira, por exemplo) em vez de ver o seu nome inesperadamente desgastado por terceiros na praça pública.

Vem agora Godinho Lopes justificar o facto de ter convidado Vercauteren para treinador da equipa principal de futebol, no preciso momento em que instaurava um sistema presidencialista no clube, porque essa escolha foi afinal sugerida por Aurélio Pereira. "Presidente, é fundamental nesta fase do Sporting vir um treinador estrangeiro."

Isto foi o que Godinho Lopes disse que lhe terá dito Aurélio Pereira.

Eu ouvi e anotei, naturalmente perplexo.

Estranho presidencialismo este, em que o presidente anuncia aos sportinguistas ter delegado noutra pessoa a escolha do perfil do técnico da equipa principal de futebol...

Mais perplexo ainda fiquei quando o presidente continuou a escudar-se em Aurélio Pereira, na mesma entrevista, para justificar outra escolha: afinal Jesualdo Ferreira foi recomendado pelo mesmíssimo detector de talentos que tinha recomendado Vercauteren dois meses antes. "Quem me ajudou nesta reestruturação, quem me ajudou a pensar, quem me ajudou na escolha de Jesualdo Ferreira foi  Aurélio Pereira. (...) A indicação deste nome foi do  Aurélio Pereira" (dito assim, duas vezes seguidas, para que não restassem dúvidas).

Ou seja: em Outubro, era "fundamental" vir um estrangeiro para treinador; mas dois meses depois, paradoxalmente, para o cargo de "treinador dos treinadores" já é preferível que venha um português...

Nada disto bate certo. Aliás nada bate certo neste Sporting que atravessa a pior fase da sua história.

Jesualdo

 

Não vi a entrevista do Presidente do Sporting, ontem na RTP. Li apenas nos jornais online o que reproduziram.

 

Vem aí Jesualdo Ferreira. Devo dizer que gosto da ideia. Conhecedor do futebol português, já foi Campeão Nacional, já trabalhou numa estrutura forte e profissional como o Futebol Clube do Porto, já trabalhou com António Salvador no Braga, já trabalhou na confusão do Benfica de outros tempos, já teve um percurso na Selecção Nacional, nas camadas mais jovens, por isso tarimba e conhecimento sobre futebol não lhe faltam.

 

Ora, bem sabemos que pelo nosso clube os tempos são caóticos e tudo vira drama ou tende para tal.

 

Esta época está perdida. Não admito um clube como o Sporting, com a pontuação que tem e afastado de tudo! Por isso, é para ontem que se deve trabalhar na próxima época. Já se percebeu que Vercauteren não fica mais que o final da época. Parece claro que, como treinador de todas as equipas, Jesualdo Ferreira aparece como o natural candidato ao lugar no próximo ano.

 

Godinho Lopes ganhou assim mais um escudo. Mas, por mais que faça, e reafirmo que apenas li, é inacreditável a necessidade de vir dizer que foi Aurélio Pereira, pessoa que muito respeito e a quem muito devemos, quem lhe recomendou Jesualdo. Oh homem, liderar é escolher e decidir! Não é preciso colocar sempre a chancela ou o parecer de alguém.

Decida e assuma. É isso o lugar de um Presidente.

 

Espero que a ponderação e assertividade sejam regra na nossa casa.

 

Espero mesmo. 

Homenagem a Aurélio Pereira

Aurélio Pereira, o lendário elemento da formação do Sporting há mais de 40 anos e seu actual coordenador de recrutamento, vai ser alvo de uma muito justa homenagem, agendada para segunda-feira, dia 3 de Setembro, às 10 horas, na Academia Sporting em Alcochete. Entre os vários jogadores e outras figuras da história do Clube que lá irão estar, marcará presença o capitão da Selecção Nacional, Cristiano Ronaldo. 

Talento superior de um «leão» de 7 anos


O vídeo (Julho 2012) é de breve duração mas serve para ilustrar o soberbo talento de uma criança de 7 anos da formação do Sporting - Pedro é o seu nome - a executar um magnífico «chapéu» para bater o guarda-redes adversário e marcar golo. O testemunho deste tão jovem «craque» ajuda a compreender a afirmação de Aurélio Pereira, na sua recém-entrevista ao Jornal do Sporting, no que diz respeito à observação e sequente recrutamento de talentos a partir dos 6 anos. Em abono da verdade, a ser confirmada pelos leitores que vejam o vídeo, já vi muitos profissionais com menor capacidade para executar o referido lance de modo tão perfeito.

O vídeo pela gentileza do leitor Marco Silva. 

Aurélio Pereira e a formação do Sporting

Aurélio Pereira, actual coordenador do Departamento de Detecção e Recrutamento do Sporting, com ligação de 40 anos ao Clube, numa recém-entrevista que concedeu ao jornal «leonino», abordou muitas das questões mais pertinentes ao recrutamento e à formação centrados nas operações da Academia. Transcrevo, neste espaço, algumas das suas considerações mais relevantes: 

 

* A estratégia de recrutar em idades mais baixas continua a resultar, mas com uma distinta diferença; enquanto no passado recrutávamos a partir dos 10, actualmente, por força do mercado, passámos a recrutar aos 6. 

 

* O número de jogos observados por fim-de-semana não tem qualquer paralelo com o passado recente. Só para dar um exemplo: nos distritos de Lisboa e de Setúbal, observamos cerca de 90 jogos por fim-de-semana. Para além dos elementos da estrutura principal que lideram o processo, existem, sensivelmente, mais 150 homens que, no restante País, prestam a sua colaboração nesta área de observação. Não é fácil arranjar observadores com total disponibilidade e quase de forma graciosa.

 

* O Sporting, como grande formador que é, promove e transmite os valores e princípios da sua própria mística aos seus discípulos. Aqui e ali pode haver desvios, deste ou daquele atleta, o que é normal nestas idades. Infelizmente, estes tipos de situação são quase sempre provenientes de influências negativas exteriores, fora do nosso âmbito, normalmente maus conselheiros e amigos de ocasião.

 

* Não transformamos um tijolo num violino. No Sporting, só entram dois tipos de jogadores: os talentos e os bons jogadores. Os verdadeiros talentos são aqueles que, na prática, o conseguem provar, tendo que ter, para isso, três qualidades fundamentais: paixão pelo treino, paixão pelo jogo e paixão pela profissão. Esses, encontram-se em patamares superiores, e todos nós sabemos quem são. Quanto a todos os restantes, que são bons jogadores, podem transformar-se em grandes jogadores, com mentalidade apropriada e, simultaneamente, poderemos considerá-los, também, atletas de alto rendimento. Todos aqueles cuja mentalidade não possua estes requisitos, serão sempre atletas de segunda escolha.

 

* Nesta indústria do futebol, o factor económico é decisivo - e a capacidade financeira dos clubes portugueses não é comparável à dos grandes clubes europeus. Bom seria que nós, Sporting, pudéssemos segurar os jogadores que produzimos e, aí, seriamos uma força mundial no futebol. Como isso não é possível, não há outra solução.

 

* Não é possível segurar um atleta que ganha dez mil euros e que tem uma proposta de cem mil. A única solução é gerir esses casos, defendendo os interesses do Clube o mais possível, e retirando o máximo proveito desse tipo de operações.

 

* Ficamos orgulhosos por ver dez jogadores, dos 23 seleccionados por Portugal, formados no Sporting. É, ainda, altamente reconfortante que o Sporting seja o único Clube no mundo que se pode orgulhar de, na mesma década, ter formado dois «botas de ouro».

 

* A equipa B é um espaço competitivo muito importante, porque entre a última fase da formação e o primeiro ano da integração no futebol profissional, há um «cabelo». Um jogador que sai dos juniores está no 12.º ano e, quando chega a sénior, vai para o primeiro ano da faculdade. Não pode pensar que já é doutor. Há muita coisa a aprender. E isso só é possível resolver jogando todos os domingos com regularidade.

 

* Há um dado importante: a equipa B não pode ter a obrigação de ganhar. O objectivo principal é criar um espaço competitivo exigente para os atletas poderem evoluir, onde vários serão apenas seniores do 1.º ano. A II Liga irá ser muito forte e os resultados desportivos podem ser afectados. A nossa massa associativa pode e deve colaborar neste processo de crescimento, apoiando-os.

 

* Sete jogadores feitos no Sporting, em 14 utilizados pelo Paulo Bento no jogo com a Bósnia, é um sinal de que o trabalho da formação do Sporting tem sido bem feito.

 

* Hoje já nenhum clube pode afirmar que chega primeiro aos jogadores, pois não  há nenhum torneio em Portugal, no cantinho mais remoto, onde também não estejam presentes observadores dos nossos concorrentes. 

 

* Mais de 90% da nossa grande equipa de juniores, base da selecção nacional, passou primeiro pela avaliação do coordenador técnico do Estádio Universitário de Lisboa, antes de começar a trabalhar na Academia. Isto acontece com a vasta maioria dos infantis de 2.º ano, que posteriormente transitam para a Academia como iniciados do 1.º ano. O Pólo do Universitário é onde trabalhamos os miúdos dos 6 aos 12 anos.

 

* Quanto à discussão à escala planetária sobre quem é o melhor jogador do mundo, tendo acompanhado o Cristiano Ronaldo nas camadas jovens do Sporting, entendo que ele e Messi são jogadores diferentes. Para mim, o Ronaldo é um jogador mais completo, mas são, de facto, os dois melhores do Mundo. Estive em casa dele recentemente, por convite, e, em conversa, o Sporting vem sempre à baila. Fico satisfeito que ele diga que sofre pelo Sporting. Nesta ocasião, tive a oportunidade de lhe dizer que, para ele, também é bom haver um Messi: é importante porque o obriga a querer ser melhor. Ele concordou. Em alta competição, a concorrência obriga-nos a evoluir, a não facilitar.

 

* Reconheço os valores fantásticos dos elementos que temos. Com 40 anos de Clube, creio que temos sempre de nos colocar na posição de nos sentirmos úteis. Se assim não for, não vale a pena. Foi no Sporting que me formei como atleta, como homem, como dirigente. Aqui conheci pessoas extraordinárias e tenho tentado passar o meu testemunho àqueles que me têm acompanhado. A paixão das pessoas pela formação do Sporting continua a existir, pois enriquecem-se e valorizam-se igualmente em termos pessoais e, como é óbvio, no processo, enriquecem também o Clube. Por isso quero prestar uma grande homenagem a todos aqueles que trabalharam e trabalham no Departamento de Detecção e Recrutamento do Sporting Clube de Portugal. 

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