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És a nossa Fé!

Não acertam uma

Andam a celebrar a data dos 75 anos da fundação e o director quase vitalício do jornal até já verteu uma lágrima em editorial, revelando ter passado a condução efectiva do funcionamento do plantel jornalístico a outra pessoa, cujo nome ainda não vem impresso no cabeçalho.

A verdade, porém, é que o diário A Bola vive uma das suas piores fases de sempre. Muito longe dos dias de glória que conheceu nas décadas de 60, 70 e 80, quando integrava uma das melhores equipas redactoriais existentes no País. Lamento que isso ocorra com Vítor Serpa - um dos sobreviventes desse tempo - ainda ao leme nominal da publicação.

 

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Esta degradação tornou-se bem visível em duas capas bem recentes.

A primeira, a 30 de Dezembro de 2019, quando A Bola garantia com letras garrafais, ao longo de quase toda a mancha gráfica da primeira página, que havia três jogadores prestes a ser excluídos do plantel leonino, claramente desvalorizados. Razão? «SAD do Sporting forçada a rever em baixa preços de alguns dos principais activos.»

E lá vinham os nomes com os respectivos preços, sob o lamentável título genérico "Saldos de Inverno": Coates por 7,5 milhões de euros, Acuña por 12,5 milhões e Wendel por 20 milhões. Justificação para tais "saldos": «Problemas financeiros obrigam administração a rever estratégia para o mercado».

Era mentira, claro. Como os factos vieram a demonstrar. Mas foi quanto bastou para muitos adeptos do Sporting replicarem a "notícia", atribuindo-lhe uma credibilidade que nunca teve.

 

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Há dias, a 7 de Fevereiro de 2020, surgiu nas bancas outra capa do referido jornal com idêntica credibilidade: nenhuma.

O mesmo destaque gráfico, a mesma atenção ao Sporting pela negativa, o mesmo grau de veracidade: zero.

A manchete pretendia ter precisão aritmética: «3 Sim, 2 Não». Garantindo aos incautos leitores: «Continuidade de Frederico Varandas à frente dos leões em perigo.» Porquê? «Maioria dos membros da MAG aceita realização da AG destituitiva.»

Ontem o país desportivo ficou a distinguir o boato da realidade: decisão unânime da Mesa da Assembleia Geral leonina contra uma reunião magna destinada a destituir os órgãos sociais. A Bola demonstrou estar mal informada. E chumbou a matemática.

Apesar disso, novamente muitos adeptos atribuíram validade à pseudo-informação, replicando-a nas redes sociais. Como se não fosse mercadoria adulterada.

O periódico da Queimada vai eclipsando assim, manchete a manchete, o pouco que ainda resta do prestígio acumulado noutras eras. Longe do brilho de outrora, dando passos cada vez mais largos a caminho da decadência que ameaça tornar-se irreversível.

75.º aniversário d'«A Bola»

Hoje o jornal «A Bola» celebra o seu 75.º aniversário.

Permitam-me que vos deixe aqui um texto de um dos seus fundadores e figura maior do futebol português: Cândido de Oliveira. Trata-se do texto que prefacia o livro «Memórias de Peyroteo».

 

«Fernando Peyroteo foi, sem dúvida, o nosso mais extraordinário avançado-centro. Não terá sido porventura o avançado-centro mais popular, por nunca ter jogado no Benfica que é, sem dúvida, o clube de maior projecção nas camadas populares, tanto por ter sido desde a sua origem um clube restritamente português, outro tanto, se não ainda mais, por adoptar a camisola vermelha, a cor que exerce mais demorada e mais agradável sensação na retina do espectador. Mas, sem ter sido tão popular como Vitor Silva e Espirito Santo (dois excelentes jogadores da mesma posição, ambos do Benfica) conseguiu ser, na opinião geral, o mais notável de todos os avançados- centro devido à sua extraordinária propensão para a tarefa Principal desse posto, e que é, como sabemos todos, o poder de remate à baliza. Bastará recordar que durante a sua carreira de jogador do Sporting e da equipa nacional, carreira que foi prematuramente interrompida, ele marcou 700 golos -uma enormidade! E se ele tem continuado a jogar, como podia e devia ter sucedido, alcançaria por certo o magnifico record de um milhar de golos!

Realmente, Peyroteo retirou cedo de mais devido a um conjunto de circunstâncias que não vem ao caso referir. Possuía apenas trinta anos e, como se diz na gíria do futebol, tinha tudo bom. Efectivamente, estava então não só na plena posse das suas excepcionais faculdades atléticas mas possuía, ao mesmo tempo, uma integridade funcional e técnica absoluta, resultante não só da experiência adquirida, mas do facto invulgar, em futebolistas e sobretudo em avançados-centro, de não ser portador de qualquer das lesões articulares ou musculares que tradicionalmente inferiorizam o jogador a partir de certa idade ou de longa permanência no jogo.

Fernando Peyroteo, deixou de jogar pouco tempo depois de termos dado por finda a nossa missão no Sporting, como orientador da equipa, que foi chamada dos cinco violinos. A saída de Peyroteo, como não podia deixar de ser, afectou notavelmente a capacidade realizadora da linha de ataque e os dirigentes sportinguistas pensando, generosamente, que o nosso regresso poderia traduzir-se por um acréscimo de poder da equipa, no decurso dum jantar oferecido pelos corpos gerentes ao malogrado Dr. Ribeiro Ferreira, solicitaram-me que regressasse à equipa. Sinceramente convencido de que não era a falta da nossa colaboração a causa dos insucessos, manifestámos a impossibilidade de anuir à solicitação, ao mesmo tempo que acentuámos: “ Vão buscar o Peyroteo, que é, afinal, o que mais está faltando à equipa - e tudo se recomporá!” Esta solução, ao que parece, não foi ou não era muito viável, Fernando Peyroteo não voltou ao jogo e, com ele, desapareceu do nosso futebol - da equipa do Sporting e do onze nacional - a peça mais influente do ponto de vista dos resultados!

Pouco tempo adiante Peyroteo realizou a “festa de despedida” e coube-nos a dura tarefa de dizer algumas palavras, nesse momento, em jeito de elogio… fúnebre! Não temos, agora, possibilidade de reler o que então dissemos, mas na nossa memória perdura, e perdurará sempre, a lembrança de havermos dito: “Muitos anos hão-de passar antes de surgir no nosso futebol um avançado-centro com as excepcionais qualidades técnico-atléticas de Fernando Peyroteo”!

Já vão decorridos quase dez anos e, sem menosprezo pelos seus sucessores no onze nacional e no onze de clube, ainda não se vislumbra um jogador à altura de preencher cabalmente o seu posto, revelando um idêntico poder de remate e uma tão portentosa propensão para marcar golos - de qualquer forma! Repetimos, esta observação não deve ser entendida como traduzindo menos apreço pelas qualidade técnico-atléticas dos raros ávançados-centro de boa qualidade que o nosso futebol tem possuído desde que Peyroteo desapareceu dos campos de futebol. Não. Por exemplo, José Águas, outro angolano como Fernando Peyroteo, tem sido sem dúvida, quando em plena forma, um excelente avançado-centro, com um poder, facilidade e precisão de remate muito apreciável, mas - eis a questão! - ainda não atingiu o conjunto de qualidades (especialmente poder de remate, poder atlético e endurance) que celebrizaram Peyroteo e o tornaram, a um tempo, o maior inimigo dos guarda-redes e o avançado mais policiado pelos jogadores de defesa.

Dez anos depois de ter “arrumado as botas de futebol” Fernando Peyroteo, à maneira dos grandes internacionais, decidiu-se a reunir em livro as suas memórias de futebolista e desejou, amavelmente, que fôssemos nós a escrever algumas palavras em jeito de prefácio.

Desejamos confessar a nossa satisfação pelo encargo e só lamentamos que este contributo em nada valorize o seu livro de memórias, que aliás está apresentado Por si próprio, dada a projecção do seu autor nas camadas desportivas nacionais, as quais não podem, decerto, deixar de aguardar com viva curiosidade uma obra recheada de sugestivas evocações da afortunada carreira futebolística do nosso mais notável avançado-centro. A nossa anuência, por isso mesmo, não possui outro significado que não seja manifestarmos de novo a nossa sincera e constante admiração pelo talento futebolístico de Peyroteo, o jogador português mais notável como avançado-centro que conhecemos até hoje - e desde os tempos já muito distantes “ das balizas às costas”!

As memórias de Peyroteo, por certo, não podem ser, acima de tudo, uma alta afirmação de pendor literário-desportivo, ò que aliás também acontece com os livros de memórias de alguns jogadores ingleses de grande nomeada, apesar de não poucas vezes, quanto a estes últimos, esses livros não terem dispensado a colaboração literária de jornalistas desportivos… E no caso de Peyroteo, foi ele próprio que delineou a obra e redigiu integralmente as páginas que vão decerto surpreender agradável mente o leitor, quanto mais não seja pelo magnífico repositório de factos, de episódios, de lembranças e de ideias originais que o enformem.

Dentro das suas caracteristicas particulares, que admiravelmente reflectem o temperamento e o espírito do autor, as memórias de Fernando Peyroteo são tão aliciantes que, não temos a menor dúvida, hão-de prender tão vivamente a atenção do leitor que o livro será lido numa verdadeira galopada. E para esse verdadeiro êxito muito há-de contribuir a circunstância de Fernando Peyroteo ter moldado o seu livro, de sorte que ele ganha aqui o aspecto de pura biografia e logo a seguir surge um aspecto novo, de evocação de factos e episódios vividos, a lembrança dum jogo, dum golo, dum pequeno incidente, duma saborosa anedota, de tudo um pouco, e sempre com uma nota atraente de cunho pessoal, sadio e jovial.

Este livro de Fernando Peyroteo resiste vitoriosamente a um confronto com os livros semelhantes publicados pelos mais notáveis jogadores de outros países. Nenhum conhecemos mais susceptivel de cativar o espírito dos afeiçoados do futebol e de o suplantar pela originalidade ou pela escolha de motivos capazes de provocar interesse, curiosidade ou, até, um bem humorado sorriso.

A figura de Peyroteo, como futebolista e, mais, como homem de desporto, não sai diminuída sob qualquer aspecto deste seu esplêndido livro que, estamos certo, constituirá o que, em síntese, costuma chamar-se um autêntico êxito de livraria.

Em resumo: a leitura deste curioso e valioso livro de memórias de Fernando Peyroteo há-de contribuir também para se perceber melhor a sua figura de avançado-centro de classe excepcional, as suas ideias pessoais sobre o jogo, os casos e os homens do futebol e, mais ainda, há-de fazer compreender que, realmente, há motivo para deplorar que ele não tivesse prolongado a sua portentosa carreira de jogador até ao limite das suas magníficas e invulgares faculdades futebolísticas!

Finalmente, há que agradecer-lhe a lembrança deste livro que permite reviver com frequência e amplidão a figura do avançado-centro n.º 1 de Portugal - até ao presente!

 

Cândido de Oliveira»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 9-12

 

<< Memórias de Peyroteo (32)

Coragem contra as claques (2)

1

«Frederico Varandas, honra lhe seja feita, decidiu declarar guerra a este fenómeno [claques] no Sporting. Mas esta é uma guerra que não deve ser só dele nem do Sporting. Este é o momento de quem tem algum poder deixar de assobiar para o lado. Olhar, de preferência com olhos de ver, para um fenómeno preocupante e perceber que é agora... ou depois pode ser demasiado tarde.

Há, também, outra possibilidade. A de serem os adeptos normais a colocarem as claques no seu devido lugar. Como ontem [domingo] à noite aconteceu em Alvalade: quando os cânticos à exaustão repetidos nas últimas semanas se fizeram ouvir, a resposta foi um coro de assobios que quase os abafou.»

Ricardo Quaresma (A Bola, 28 de Outubro)

 

2

«Concordo totalmente [com o presidente do Sporting]. Esta questão das claques do futebol é uma vergonha. E neste momento há que dizer que o presidente do Sporting, Frederico Varandas, teve uma actuação correctíssima, honesta, corajosa, digna. Ele agiu com coragem e agiu com princípios. Foi dizer: vamos pôr ordem nas claques, rescindir protocolos, limitar mordomias, impor regras, acabar com benesses. Muito bem.

Isto até lhe pode custar, de hoje para amanhã, a liderança. Mas ele agiu com coragem, com princípios. Ao contrário de presidentes de outros clubes, que fazem vista grossa.

Este problema não é sobretudo de futebol ou de desporto. É um problema de segurança das pessoas que vão aos estádios e é um problema de autoridade do Estado. Porque as claques são um verdadeiro estado dentro do Estado. Não respeitam nada nem respeitam ninguém.»

Luís Marques Mendes (SIC, 27 de Outubro)

Silas no espeto

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Leio hoje em "A Bola" um comentário que tenho de subscrever, do seu director (lampião) Vitor Serpa a dizer que "se (Varandas) continuar a fechar os ouvidos e os olhos a quem dele honestamente discorda, afinal, o que o separa de Bruno de Carvalho?".

Pese toda a recuperação da SAD realizada, os títulos alcançados e o trabalho bem feito em diferentes áreas, a dificuldade crescente de comunicação e envolvimento com os sócios, e o fecho em si mesmo do núcleo duro que gere o futebol, não conseguiu ultrapassar bloqueios e antecipar problemas, e a prova é que no caso dos despedimentos de Peseiro e de Keizer não havia alternativa pensada, preparada e adequada ao momento do clube e ao plantel que ia encontrar. 

Também hoje o "Record" anuncia que Silas tem tudo acertado para ser o novo treinador do Sporting, um treinador cujo curriculum se limita a um par de anos no Belenenses, onde conseguiu a maior derrota de (se calhar) todos os tempos desse clube com o Sporting,  e que nem sequer tem habilitação que lhe permita levantar-se do banco e dar instruções aos jogadores.

Pelos vistos o que dizemos aqui da necessidade de ter um treinador credenciado, experiente e agregador a tomar conta da equipa (coisa que teria de ser tratada com tempo e dinheiro), chame-se ele Jesualdo Ferreira, Scolari, Ranieri, Alegri ou outra coisa qualquer, não lhe diz muito, e prefere alguém à sua imagem, de Hugo Viana e de Beto, ou seja, mais uma boa pessoa, mais um jovem e inexperiente profissional.

Não está em causa a pessoa e o sportinguista Silas, as suas qualidades enquanto treinador, o beneplácito de que poderá gozar no imediato nos sócios e adeptos, mas a confirmar-se a notícia e na fornalha de Alvalade é quase uma certeza que Silas vai sair "bem passado". E se calhar não vai ser o único.

Obviamente não vai ser por minha culpa, estarei com ele como estava com Peseiro, Tiago, Keizer e estou ainda hoje com o Leonel. Até ao limite do possível.

SL

Palavras sábias de Aurélio Pereira

Excelente, a entrevista hoje publicada no jornal A Bola com Aurélio Pereira, o maior descobridor de talentos da história do futebol português. Incluindo dois jogadores distinguidos com a Bola de Ouro - Luís Figo e Cristiano Ronaldo.

Actual conselheiro para a formação leonina, esta figura quase mítica há meio século ligada ao nosso clube faz muitas afirmações que merecem destaque e reflexão.

Deixo aqui alguns trechos, com a devida vénia. A entrevista foi conduzida pela jornalista Marta Fernandes Simões, que aproveito para felicitar.

 

.............................................

 

«O foco é no jogador e nos seus comportamentos; o acompanhamento, quer social, quer escolar, somos nós que fazemos. Isso é um trabalho altamente complexo. Tomar conta dos filhos dos outros é muito pior do que os nossos. Temos de estar preparados para isso.»

 

«Há duas coisas que têm de caminhar lado a lado: o recrutamento e a área técnica. São dois pilares de uma academia, sem esses pilares conscientes não há trabalho de nível tão elevado. Temos nesta altura essa simbiose, está a crescer dia a dia. Falamos a mesma linguagem. O novo director técnico, o Miguel Quaresma, tem sido um homem certo no lugar certo.»

 

«Em 1988 iniciei um trabalho de recrutamento. Todos estes jogadores que estavam na selecção dos campeões europeus vieram para o Sporting aos 11/12 anos [Rui Patrício, Cédric, Fonte, William Carvalho, Adrien, João Mário, Moutinho, Nani, Quaresma e Ronaldo], foram precisos 30 anos para que isso acontecesse. E fartámo-nos de trabalhar. Essa malta veio para aqui aos 11/12 anos. Um do Algarve, outro de Arcos de Valdevez...»

 

«Temos um jogador fantástico e a partir da altura em que começam a aparecer empresários, pais para aqui e para acolá, a cabeça deixou de pensar. (...) É muito doloroso ver partir jogadores que ficariam por aqui se não fossem mal aconselhados, Joelson é um miúdo que está a crescer, é preciso algum cuidado.»

 

«Raramente um jogador que traz o pai para empresário, o que acontece também com o Neymar, dá certo. Porque a vontade que ele tem é de ganhar dinheiro primeiro que os outros. Os maus conselheiros, o pai quando se está a discutir contratos, é uma coisa impressionante.»

 

«Do Ronaldo esperamos tudo. Porque o Ronaldo já não é talento. É supertalento. É um jogador que nunca está satisfeito. Há dias mandei-lhe uma mensagem, de parabéns por um jogo, e a resposta dele foi "Estou top." Esta sempre top...»

 

«Daqui [pescoço] para baixo os jogadores são todos iguais. Daqui para cima é que são diferentes. Cabecinha. Paixão pelo treino, pelo jogo, pela profissão. São três coisas de um jogador deste nivel e ele [Ronaldo] ainda tem paixão pelo treino. Vejo quando ele está a jogar, ainda com a Lituânia, num momento ou outro, com os pés ainda faz aquilo que fazia quando tinha 12 anos.»

 

«No pólo EUL trabalhamos miúdos dos seis aos 13. São 190. É ali que tudo começa e ali apercebemo-nos que os prodígios de futebol são tudo miúdos africanos, os nossos irmãos africanos. É o futebol de rua que está a regressar aos bairros. Sem o futebol de rua não há jogadores fantásticos.»

 

«Aos 13 já há empresários a ver... começam logo cedo a serem pressionados e os pais depois vão atrás e é uma situação chata. Temos de ter cuidado naquilo que dizemos aos miúdos. Auto-estima e disciplina são fundamentais.»

 

«Hoje, qualquer miúdo com sete anos tem um empresário. É extraordinária a dificuldade que nós temos. Desde que tenha empresário e bom telemóvel, está tudo arrumado. Nós é que sofremos na pele. Pessoas que não têm dignidade, que levam jogadores para o estrangeiro que sabem que vão falhar na carreira. Raramente há um jogador que sai daqui aos 16 ou 17 anos que vá ter sucesso.»

 

«As pessoas de fora falam de formação mas não têm a mínima noção do que trabalhamos aqui, nomeadamente no acompanhamento dos jovens residentes. Foi o que fizemos e continuaremos a fazer.»

 

O que diz Nani

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Tenho sido muito crítico da orientação editorial do jornal A Bola, mas não ignoro que na redacção deste jornal existem jornalistas de inegável competência. Muitos deles, aliás, em oposição declarada à orientação do periódico, que já foi um dos mais prestigiados títulos da imprensa portuguesa.

Vem isto a propósito da excelente entrevista que A Bola hoje dá à estampa. Uma entrevista com Nani, conduzida pelo jornalista Paulo Alves, que para o efeito se deslocou aos Estados Unidos. O ex-capitão do Sporting, hoje profissional do Orlando City, equipa de que é o melhor marcador (oito golos em 19 jogos), abre o livro e diz o que pensa sobre a realidade leonina. Falando com a autoridade de ter sido quase tudo no futebol: um dos mais brilhantes frutos da nossa formação, um dos mais prestigiados internacionais portugueses de todos os tempos, campeão europeu pelo Manchester United, campeão europeu ao nível de selecções.

Um dos maiores craques de sempre com a marca leonina, aliás detentor de dois títulos no momento: Taça de Portugal e Taça da Liga. A milhares de quilómetros de distância, ele confessa: «Só há um clube onde me sinto em casa.»

O Sporting, claro.

 

................................................................................

 

Seguem-se excertos desta entrevista.

 

«[Há um ano] fui contactado, em primeiro lugar, pelo mister Peseiro e depois pelo presidente Sousa Cintra, e avaliei a situação. Tinha outras propostas de países mais distantes que me ofereciam muito mais dinheiro. Mas pensei e concluí que não estou a precisar de dinheiro, graças a Deus... (...) Precisava de voltar a casa, de respirar os nossos ares, recuperar energias. Já estava há muito tempo fora de casa.»

«[O Sporting] tem de ser um clube mais fechado. Todos os que estão lá dentro têm de querer a mesma coisa e correr para o mesmo lado. Quando isso acontecer o Sporting voltará a ser campeão.»

«Benfica e FC Porto são muito fortes nesses momentos vitais: se tiverem de passar por cima, eles não pensam duas vezes, vão e atropelam. Seja a ganhar por 1-0 ou a golear, mas ganham. É esse tipo de experiência que o Sporting também tem de ter. E isso tem de vir de dentro. Uma das falhas dos últimos anos é que, internamente, muitas pessoas que trabalham no Sporting são o problema do Sporting...»

«Nunca direi que não ao Sporting. (...) Disse um até já porque pertenço ao Sporting, cresci lá, permitiu-me que me formasse, abriu-me as portas do estrelato, foi ali que tudo começou e devo a minha lealdade eterna ao Sporting e estarei sempre disponível para ajudar seja no que for.»

«A Academia perdeu um pouco da mística que tinha, a organização não é a mesma. Lembro-me que no meu tempo não se facilitava a vida a ninguém nem com nada. Os responsáveis eram exigentes e muito rigorosos, faziam com que os jogadores estudassem, que se aplicassem nos treinos, puxavam por nós para sabermos o que queríamos para o nosso futuro.»

«Na época passada, quando voltei ao Sporting, tinha também uma proposta do FC Porto. (...) Era um bonito clube para jogar, ia competir na Champions, quem é que não gosta de estar na Champions? Mas tinha o Sporting também e não ia deixar os adeptos do meu clube tristes e revoltados comigo por causa de fazer três ou quatro jogos na Champions. Preferi ir para o Sporting, voltar a casa. Fui lutar por uma causa positiva, ajudar o clube a reerguer-se. Essa era a minha Champions pessoal.»

«Ganhar um título em representação do nosso país [Europeu de 2016] é o ponto mais alto da carreira de qualquer jogador, eu pelo menos penso assim. Muitos andam à procura disso há anos e não conseguem, e se calhar até têm outros troféus e títulos importantes, mas não tendo troféus pela selecção não é a mesma coisa.»

«Sempre gostei de fazer golos, desde miúdo que sempre assim foi. É claro que fico satisfeito, mas sempre fui muito mais um jogador criativo: criar lances ofensivos, dar assistências para golo, desbloquear o jogo para a minha equipa.»

«São importantes as convivências com pessoas ligadas a diversos meios, a diferentes realidades e culturas. O futebol não é só o que se vê cá fora, mas é preciso saber guardar aquilo que cada país nos oferece.»

«Houve dois treinadores que me marcaram muito: Paulo Bento e Alex Ferguson. Paulo Bento foi meu treinador ainda nos juniores e aí ele teve muitas conversas comigo e nunca, nunca me facilitou a vida. Mas era, e sabia disso, o jogador preferido dele. Ele chamava-me nomes, gritava comigo, mas olhava para mim como se fosse um filho dele. (...) Muitas vezes foi ele que me levou a casa, outras vezes pagava-me o táxi, estava sempre presente.»

 

Das reticências aos pontos de exclamação

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Tem-se falado várias vezes - incluindo nós, aqui no blogue - na linha editorial do jornal A Bola, fervorosamente (embora não assumidamente) pró-benfiquista.

Os mais condescendentes asseguram que não é questão intrínseca do diário da Queimada, mas apenas mera deriva da sua linha editorial. 

É certo que A Bola teve jornalistas de grande nomeada, vários dos quais escreviam primorosamente  e se distinguiram pela qualidade das suas reportagens, dos seus editoriais e das suas crónicas. Menciono, a título de exemplo, Carlos Miranda, Vítor Santos, Carlos Pinhão, Homero Serpa, Alfredo Farinha e Aurélio Márcio - vários dos quais tiveram descendentes, directos ou indirectos, também no exercício do jornalismo desportivo, como Leonor Pinhão, Rui Santos, João Alves da Costa e Vítor Serpa.

Acontece, porém, que o benfiquismo (fervoroso mas não assumido) deste jornal, outrora trissemanário em grande formato e hoje um diário tablóide, não surgiu de geração espontânea. Pelo contrário, já vem de longe.

Como as primeiras páginas que aqui trago bem comprovam. Na primeira, datada do dia 15 de Dezembro de 1986, noticia-se um Sporting-Benfica que terminou com o resultado 7-1. A segunda, do dia 15 de Maio de 1994, é também referente a um Sporting-Benfica, que terminou com o resultado 3-6.

Repare-se e compare-se. A diferença entre a secura informativa da primeira, marcada pelas reticências no antetítulo, e o júbilo extasiado da segunda, integralmente dedicada à partida de véspera, com três adjectivos ditirâmbicos numa mancha gráfica coroada com seis pontos de exclamação.

Estes dois exemplos, postos em contraste, equivalem a um editorial. Ou cem. Ou mil. Dizem-nos tudo sobre a rubra pigmentação do jornal A Bola.

Oliveira, a Oliveireirense e a capa d' A Bola, amanhã

"Verde foi meu nascimento

Mas de luto me vesti

Para dar a luz ao mundo

Mil tormentos padeci"

Uma quadra (lá está, o "brasileirismo" para o recinto onde se disputa um jogo de futsal, podemos considerar que o basquetebol, também, se disputa na quadra) que fala no meu fruto, o fruto da oliveira, a azeitona.

Uns serão azeiteiros (não acredito) outros ficaram com os azeites.

Parabéns, Oliveirense, grande jogo, grande vitória (amanhã têm um capa d' A Bola só para vós).

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