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És a nossa Fé!

Superlativo, único, inimitável

Texto de Francisco Gonçalves

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Luanda, 19 de Novembro de 2013.

 

Tinha acabado, há poucos minutos, aquela que, para mim, foi a melhor exibição de Cristiano Ronaldo ao serviço da seleção nacional.

Na Friends Arena, nos arredores de Estocolmo, na Suécia, a selecção portuguesa acabara de vencer os suecos, por 3-2, e dessa forma, acabara de carimbar a passagem para a fase final do Mundial que iria realizar-se no ano seguinte, no Brasil.

Cristiano Ronaldo rubricou uma exibição épica e, por três vezes, disse ao estádio inteiro que estava ali para mostrar ao mundo que nem só de Descobrimentos vive a História de Portugal.

Aquele hat-trick foi, porventura, a melhor obra-prima que vi ser cinzelada, diante dos meus olhos. Como um cirurgião que maneja, habilmente, o bisturi, como um pintor que escolhe, criteriosamente, as cores que embelezam a sua tela, Cristiano Ronaldo emprestou àquele jogo toda a sua classe ímpar e encheu de orgulho todos os protugueses que, lá no Estádio em Estocolmo, ou no mundo inteiro, através da televisão, puderam confirmar a destreza única daquele que, hoje, é o melhor marcador mundial ao nível de selecções e o jogador europeu com mais internacionalizações.

 

Cristiano Ronaldo é superlativo. Cristiano é único. Cristiano Ronaldo é inimitável.

 

Assisti a esse momento inolvidável, via televisão, em Angola, com meia dúzia de amigos portugueses. O final do jogo trouxe uma euforia geral que foi aumentando à medida que as Cucas – muitas saudades da cerveja Cuca – iam encontrando aconchego nas gargantas de todos aqueles que não se pouparam a esforços para, ao seu jeito, apoiarem os nossos jogadores.

E o inevitável aconteceu: os constantes elogios ao nosso craque, nos quais vinham à baila a sua escola de formação, levou a que alguns benfiquistas, ali presentes, entendessem que havia espaço para comparações. Comparações estéreis, já se vê. Não havia necessidade, era um momento de festa, mas, diga-se, o despropósito da conversa não encontra culpas exclusivas naqueles benfiquistas.

Um dos benfiquistas presentes – amigo de longa data e do qual guardo momentos de indesmentível amizade – lembrou-nos o jogo da Coreia do Norte, do Mundial de 66, para enaltecer a qualidade de Eusébio e eu afiancei-lhe que o momento Coreia, de Cristiano Ronaldo, tinha acabado de acontecer.

As comparações iam-se acentuando e, no calor da conversa, são chamados à colação o número de golos de Eusébio, na selecção nacional (41 golos) – nessa noite de Estocolmo, Cristiano Ronaldo tinha acabado de igualar Pauleta, com 47 golos –, e as internacionalizações de Rui Costa (94 vezes internacional).

 

A argumentação e a contra-argumentação iam surgindo à mesma velocidade que a cerveja ia arrefecendo o calor daquela inofensiva refrega.

– O Rui Costa é dos jogadores portugueses mais internacionais! - asseverava o meu amigo benfiquista, todo entusiasmado com tal façanha e exigindo respeito pela singularidade daquele feito.

– Caro amigo, o Cristiano Ronaldo há de duplicar isso! – respondi-lhe, com a convicção de quem não tem certeza de nada, mas quer dar ênfase ao jogador formado em Alvalade.

– O Eusébio marcou 41 golos. Foi uma marca muito importante para o futebol português, ou não foi? – insistia o meu amigo benfiquista, numa tentativa de inverter o entusiasmo que pairava nos sportinguistas.

– O Cristiano Ronaldo há de triplicar isso! – arremessei eu, com a mesma convicção da resposta acerca das internacionalizações de Rui Costa.

 

E foi nesse momento que a coisa se deu. O meu amigo benfiquista olhou-me nos olhos, meio incrédulo, meio abananado, os olhos arregalados e os cantos da boca com uma ligeira baba que atribuí ao destempero da conversa. Cheguei a recear uma síncope, o que não vinha nada a propósito, dado tratar-se de um excelente amigo.

Os seus olhos foram franzindo como quem não está a enxergar bem e, após um momento de acalmia, disparou, muito baixinho, mas com muita convicção:

– O Cristiano Ronaldo vai duplicar as internacionalizões do Rui Costa e triplicar os golos de Eusébio?

– Podes ter a certeza. – retorqui, para não dar parte de fraco e, afinal, correndo bem, na manhã seguinte, ninguém se lembraria dos pormenores da conversa.

– E quanto queres apostar? – O tom de voz transportava, agora, uma carga formal, como se naquela proposta de aposta tivesse a prova – sim ou não – da genialidade de Cristiano Ronaldo.

A pergunta apanhou-me de surpresa, mas o momento não recomendava recuos e como, à época, Cristiano Ronaldo ainda tinha muitos anos pela frente, para marcar golos pela selecção – a confirmação do vencedor da aposta ainda iria demorar alguns anos –, respondi com toda a convicção possível para aquele momento de surpresa.

– Aposto o que tu quiseres, caro amigo.

– Fica apostado um jantar, em Lisboa. Quem ganhar escolhe o restaurante e não há constrangimentos na despesa! – impôs o meu amigo benfiquista.

Selámos a aposta com um aperto de mão e como bons amigos que éramos – continuamos a ser, obviamente –, continuámos a refrescar as gargantas, mantendo aquelas conversas que caracterizam os amigos divergentes nas opções clubísticas e que o tema selecção bem poderia dispensar.

 

Faltam seis jogos e oito golos.

Ai, vou jantar, vou. E quando chegar o menu, irei lembrar-me de que não há constrangimentos na despesa.

 

Texto do leitor Francisco Gonçalves, publicado originalmente aqui e aqui.

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