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És a nossa Fé!

Reflexões sobre o Sporting (17)

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  Autor convidado: Leonardo Ralha

 

Reconciliar, reformar, reconquistar

 

De que serve discutir se a culpa é do ovo ou da galinha se o ovo cair estatelado no chão e a galinha assar no espeto?
Menos importante do que atribuir culpas a uns e outros por uma divisão que leva demasiados (apenas um já seria demasiado, mas infelizmente são muitos mais) sportinguistas a pensar, e a dizer, que outros sportinguistas não fazem falta nenhuma ao clube.
Seja qual for o desfecho das eleições de 8 de Setembro, não tão previsível quanto isso (por muito que dois candidatos liderem na mobilização e um terceiro conte com ajudas bem mais preciosas do que as consoantes dobradas), o próximo presidente do Sporting não será a escolha de grande parte dos eleitores. E isto descontando desde já o provável alheamento de parte dos apoiantes que restam àqueles que estão impedidos de se apresentarem a votos.
 
Cabe ao vencedor das eleições (com 20, 25, 30 ou mais de 50 por cento dos votos) agregar todos os sportinguistas, tendo em conta os contributos dos candidatos derrotados sem, por isso, abdicar do seu programa e dos seus princípios. Convirá apenas, a cada momento, perguntar-se a melhor forma de reconciliar em vez de excluir. Algo que passa, não raras vezes, mais pela forma do que pelo conteúdo.
Mas é também a cada sportinguista, sócio ou adepto, que cabe o dever de reconciliar. Aceitar opiniões diferentes e não virar costas ao clube, às suas equipas e aos seus atletas, está nas mãos e nas mentes de cada um. Apoiando, de forma crítica mas com benefício da dúvida, quem for escolhido nas urnas.
Havendo reconciliação, segue-se o imperativo de reformar práticas. Desde já no plantel principal de futebol, no qual pormenores que se revelam ‘pormaiores’ têm afastado o Sporting do título de campeão e da participação milionária na Liga dos Campeões. Basta ter em conta que uma vitória naquela terrível deslocação à Madeira bastaria para que, mal ou bem, a realidade do clube fosse agora completamente diferente.
 
Acima de tudo urge reformar o futebol profissional, estabelecendo claras distinções entre os papéis do presidente, do treinador, do capitão, ou ainda do team manager, do CEO e quejandos. E a comunicação entre todos necessita forçosamente de ser do famoso foro interno, em vez de servir para as recorrentes fugas de informação, através das quais os próprios e os seus próximos dinamitam adversários (quando não inimigos...) internos, em benefício das audiências televisivas e em detrimento dos melhores resultados desportivos.
A construção do plantel principal não mais poderá ser feita em cima do joelho ou a comando dos interesses deste ou daquele agente FIFA. Claro que nem todas as contratações resultam, e isto é válido para qualquer clube do mundo, mas no Sporting o scouting anda muito atrás dos rivais, capazes de potenciar jovens estrangeiros enquanto em Alvalade se tenta tapar os Doumbia com a excepção Slimani. O mesmo sucede nos mercados de Inverno, nos quais começa a ser tradição desperdiçar dinheiro em reforços incapazes de acrescentar valor. Assim tem sido desde que André Cruz, César Prates & Cia. chegaram no início de 2000.
 
Reformar mentalidades também passa por uma estratégia de integração dos maiores valores da formação de Alcochete no plantel principal. Olhando para os comandados por José Peseiro, é difícil perceber o que Domingos Duarte e Demiral têm a menos do que Marcelo, em que João Palhinha fica a dever a Misic e Petrovic, ou o que impediria uma utilização frequente de Francisco Geraldes numa longa temporada em que não se pode e não se deve pedir que Bruno Fernandes esteja sempre em topo de forma.
 
Apesar do recuo nas convocatórias para as selecções jovens da FPF, e da condução errática daquilo que se faz em Alcochete, continua a haver muito talento na formação. Na baliza, na defesa, no miolo, nas alas e até no ataque. Há que reformar a forma como esses adolescentes aprendem os valores do clube e fazer-lhes ver que terão direito às oportunidades concedidas nos rivais directos a Diogo Leite, André Pereira, Ruben Dias, Gedson Fernandes e João Félix. Caso contrário, lá teremos dentro de alguns anos Tiago Djaló, Bernardo Sousa e Joelson Fernandes a fazerem do Sporting de Braga o case study de aproveitamento da formação leonina, tal como hoje é, com Ricardo Esgaio, João Palhinha e Wilson Eduardo.
Recorrer à prata da casa não impede que se tenha grandes plantéis, capazes de vencer campeonatos. E liberta folga orçamental para suprir debilidades conjunturais da equipa. Tanto na masculina como na magnífica equipa feminina, que voltou a não aproveitar o defeso para recrutar uma meio-campista é uma ponta de lança com o poderio físico das recém-chegadas às rivais bracarenses.
 
Reconquistar o título no futebol masculino exige uma mentalidade vencedora que já existe em muitas modalidades. Mas passa também por não desistir da luta pela verdade desportiva, mantendo o esforço da anterior gerência para confrontar poderes instituídos que apontam para a bipolarização do futebol e, por arrastamento, do desporto nacional.
Mas reconquistar implica também escolher batalhas em vez de disparar para todos os lados (nomeadamente para os pés). Esse foi o maior erro estratégico do anterior presidente e, juntamente com aquilo a que as seguradoras chamam vícios intrínsecos, conduziram à ruína de um projecto desportivo que mobilizou milhões de adeptos e aumentou o número de sócios, fazendo aparecer um pavilhão e desaparecer dezenas de milhar de lugares vazios no estádio.
 
O Sporting que sair de 8 de Setembro precisa de repensar a sua afirmação. Não deve hostilizar nenhum órgão de comunicação social, mas não pode ser ingénuo: a manutenção da crise leonina é um produto apetecível para quem depende das audiências, abundando sportinguistas dispostos a trazer fósforos e gasolina onde quer que vão, num exercício que chega a configurar concorrência desleal aos comentadores afectos aos clubes rivais, e mais precisamente ao clube vizinho. Sendo as opiniões livres e qualquer tentativa de as coarctar própria de tiranos e de cobardes, há que garantir que o espaço público também tem lugar para quem defenda o clube, sempre com espírito crítico e desprovido de cartilhas, como alguns ‘paineleiros’ defendem o FC Porto e o Benfica.
 
Reconquistar o Marquês em Maio não é impossível quando se tem um plantel como o actual. Haja transpiração e inspiração nessa e em todas as outras modalidades, haja mobilização de todos os sportinguistas, haja blindagem do clube à rapina, haja vontade de lutar pela garantia de que todos os jogos são disputados em campos sem qualquer inclinação.
 
Poderá ser difícil, mas se fosse fácil seria para outros.
 

 

LEONARDO RALHA

Sócio n.º 92.939-0

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