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És a nossa Fé!

Pós-Peseiro

  

Cada um terá os seus nomes: uns alvitrarão nomes surpreendentes, palpites sobre "the next big thing"; outros quererão blindar-se com a pertinência, no recurso a nomes algo seguros; alguns clamarão pelo regresso de Jesus, esquecendo que, por muito que seja credor do nosso respeito pelo trabalho feito e devido aos tratos de polé que sportinguistas lhe dedicaram, o seu projecto estava esgotadíssimo e era prejudicial ao clube; e haverá utópicos, almejando gente de remunerações bojudas, sob contrato, ou sem vontade ou necessidade de se meter na "boca do leão". Ora o grande problema não é o treinador, é mesmo esta "boca do leão", o ronco dissonante, o bafo pestilento, esfaimada a besta, cada vez mais trôpega.

Nasci em 1964. Nestes 54 anos o Sporting ganhou 7 títulos. Não tenho memória dos de 1966 e 1970. Ficam-me para 48 anos as memórias de 5 festas (e ainda lembro de cor a equipa titular de 1974). A minha filha está a acabar o liceu: nunca viu o Sporting campeão e até já sorri com os resmungos do pai. Esta escassez de títulos tem algum efeito na cabeça dos "leões"? Aquele óbvio "o Sporting não é candidato ao título"? Ixe, dizer isso é, para a turba alvaladiana, holigões brunistas ou doutores rogerianos, pior do que uma blasfémia, crime lesa-majestade, traição à pátria, até incesto pedófilo. 

Li há dias alguém do Real Madrid comentar a crise do seu clube, afirmando que num grande clube não há épocas de transição. Tem toda a razão. Acontece que o Sporting não é um grande clube. De futebol. É um grande clube desportivo, nos seus adeptos, no seu historial, no seu ecletismo. Nisso, no fundamental, é da nata do associativismo desportivo europeu. No futebol não é, pertence, com algum favor, à terceira divisão europeia. E está longe, muito longe, dos rivais nacionais. Gritarão, ralé das claques e prezadas famílias, que Porto e Benfica têm manipulado as competições. Sim. Mas a realidade é que são clubes de futebol muito mais fortes. 

A incompreensão disso, a ânsia até demencial da conquista do caneco levou a isto: desde os anos 90s uma série de presidentes empurrados pelos portadores de lenços brancos delapidaram por completo o riquíssimo património fundiário do clube, conduziram estranhíssimos e nada lucrativos negócios imobiliários. E na última década descuidaram e minaram o último grande património do clube, a sua escola de jogadores de futebol, sendo incapazes de desenvolver a única alternativa possível para um clube desta dimensão económica, o sector da prospecção (o que os ignorantes chamam scouting).

Enfim, neste pós-Peseiro (e após o terrível 2017/18) só há uma coisa a fazer: admitir que não se vai ser campeão, assumir isso, ter esse horizonte e querê-lo. Há alguns anos Jardim seguiu esse fito. E mostrou-o cabalmente num episódio: estando o Sporting junto ao Benfica na corrida para o título (apesar de não ser objectivo, de reclamar o treinador a preocupação "jogo a jogo"), no jogo anterior ao da Luz William Carvalho estava com quatro cartões, poderia ser poupado para não arriscar a suspensão para o grande confronto. Jardim não o fez, William jogou, foi punido e não foi à Luz. Porque, e muito bem, era "jogo a jogo". E é isso que é preciso. Assumir que esta é uma era (não um ano, trata-se de uma era) de transição.

E ao povo dos lenços brancos, que todo este caminho demencial e incompetente temos apoiado e sufragado? É dizer-lhe, dizer-nos, que nos assoemos às mangas. Ou à ponta dos dedos. E entretanto esperar que, devagar, haja quem coloque a jogar centrais formados no clube (há quantas décadas não se firma um?) e laterais, e avançados. E quem saiba ir buscar um Aloísio ou um Mozer ou Filipe, descobrir um Oblak ou Ederson. Pois, muito mais do que gritar "gatuno" e "este ano é que é", é preciso aprender com os adversários. A não nos encantarmos com Coates e Polgas, a não desperdiçarmos Leões, Carriços ou Cedrics.

E como é que se aprende com os adversários? O primeiro passo é simples, e até fácil: homenageando, em pleno estádio de Alvalade, o jogador Luís Boa Morte. Pois enquanto não houver a capacidade de colocar a ralé no exterior das decisões não haverá futuro vencedor, não haverá fim da "era da transição", nem desta história decadente. E não haverá verdadeira presidência, apenas prisioneiros de um passado tétrico e da abjecta marginalidade social. E da irracionalidade, discursiva e decisória.

Enfim, quem proponho para treinador pós-Peseiro? Para treinar este próximo futuro? Rui Jorge ou Luís Castro, se os empregadores os deixarem mudar. E nunca Jesus, por favor.

E para presidir este próximo futuro? Se a rábula com Luís Boa Morte foi péssimo sinal, com esta pérfida sucessão da entrevista presidencial ao Expresso e do despedimento de Peseiro - que esteve disponível para sair sem custos - Varandas amputa metade do seu "estado de graça" (os tradicionais 100 dias). Francamente, sem qualquer agoiro - o sucesso deste presidente é (parcela d)a minha felicidade - se continua com este estilo, melífluo e nada liso (nada condizente com um verdadeiro comandante de tropas, para glosar a pateta e patética retórica do doutor), julgo que no próximo Verão teremos mais umas eleições. Que venha homem.

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