Os jarretas (37)

- Nunca se tinha visto coisa assim.
- Falas de quê?
- Da nossa vitória frente ao Benfica, claro. Por números que jamais tinham acontecido. Houve festa rija lá em casa. E na tua?
- Na minha não houve festa.
- Não me digas que não celebraste a vitória da nossa equipa...
- Festejei à minha maneira. Celebrei para dentro.
- E por fora?
- Mantive-me impassível. Aliás não queria incomodar os vizinhos.
- Eu estive-me nas tintas para isso. Até porque os meus vizinhos são todos do Sporting! E ao menos bebeste umas cervejolas?
- Não. Bebi meio copo de água com um comprimido de Alker Seltzer dissolvido. Estava sem sede e sentia alguma azia: devo ter abusado dos croquetes ao almoço. Já sabes que é o meu petisco favorito: ao menos nisto não mudei.
- Somos muito diferentes. As vitórias secam-me a garganta, preciso de umas geladinhas para acabar com a secura. Mas olha: nem te reconheço. Tu dantes festejavas tudo, até empates e derrotas!
- Tornei-me uma pessoa muito mais contida. Confesso-te que o meu sportinguismo arrefeceu. Este presidente conseguiu tirar-me o gosto de ver futebol em Portugal. Não vou ao estádio, deixei de usar cachecol, enjoei aqueles documentários sobre a natureza por estarem sempre a mostrar leões.
- A sério?!
- Sim. Vinho, só maduro. E até abdiquei de usar a via verde na auto-estrada.
- E Jesus?
- Nem me fales de religião. Perdi a fé. Tornei-me agnóstico.
- Muito me contas... Por esta é que eu não esperava. Olha lá: e nada mais te interessa?
- Interessa, sim. Este fim de semana, por exemplo, interessou-me derrotar o Atromitos.
- Atromitos?! Que é isso?
- O clube grego que perdeu com o Olympiacos. Fui logo pôr um like no facebook do Marco Silva. E já tenho cachecol com riscas verticais vermelhas e brancas. Havias de usar um também: é muito giro. No Natal, se quiseres, ofereço-te um.
