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És a nossa Fé!

Octávio Ribeiro, director do Correio da Manhã

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No "Record" Octávio Ribeiro, director do "Correio da Manhã", escreve um texto execrável sobre Gelson. Ou melhor, a propósito de Gelson, pois, de facto, utiliza a situação protagonizada pelo jogador para dissertar, em modo totalmente populista, com requebros de análise sociológica verdadeiramente retirada de uma cloaca mental, de ignorante que é, sobre a escola pública, seus agentes, sobre a sociedade. E, já agora, secundariamente também sobre o Sporting.  

 

Antes, aqui, já o Francisco Vasconcelos e o Pedro Azevedo aludiram ao texto e o criticaram. O PA salienta, justamente, a bondade do carácter do jogador, notoriamente desafecto ao quadro até demoníaco que o director do CM dele traça, e o quanto isso significa de vergonhoso para o texto e seu autor. E o FV recorda-nos, muito justificadamente, que um texto destes de um jornalista com estas responsabilidades profissionais se articula com o quadro tétrico que o presidente Bruno Carvalho traçou há pouco tempo do estado da comunicação social. E este último aspecto deve ser sublinhado. Pois quando a esta se fazem críticas radicais logo surgem coros (como surgiram há tão pouco tempo) que as dizem inadmissíveis, pois anti-democráticas, adversas à liberdade de informação. E outros "contextualizam" (no sentido de "des-culpam") os constantes desatinos, atribuindo-os às difíceis condições de trabalho, ainda mais nesta era de grandes transformações no mundo da imprensa. E sempre nos recordam a existência de excelência no jornalismo, como se essa fosse capote para a indecência que grassa.

 

Jornalistas boçais e venais sempre houve, como ilustrava Eça de Queirós com o seu Palma Cavalão. Mas o problema é a extraordinária força que hoje tem a comunicação social na construção da opinião pública e o peso que esta tem na vida. Dos clubes, porque estamos aqui no És a Nossa Fé. E no resto todo. E por isso tanto é preciso reforçar a nossa crítica e, quando é o caso, a nossa indignação e o nosso repúdio. Pelos actos pessoais dos jornalistas. E, acima de tudo, pela situação generalizada em que a comunicação social vai indo. Pois não será com a tutela estatal (sempre com um vontadezita censória, diga-se), nem com os morosos e atarefados tribunais que se regula isto: é com a pressão dos clientes, com a recusa, com a denúncia, com o bruáá da rua. Ou seja, com a falta de consumo. Toque-se-lhes nas "bolsas" que eles mudarão de tom.

 

O perverso do texto do director do CM vem também de ele brandir ideias que, bola à parte, muitas pessoas até nem desgostam de ouvir, ou deixam passar, ou até mesmo concordam, nem que seja pela rama: os défices da escola pública, o corporativismo dos professores, a falta de valores das novas gerações, a criminalidade e marginalidade nos subúrbios, a "falta de civilização" (sic) nessas zonas, a qual, ok, não é bem atribuída à raça mas ainda assim deixando implícito que o factor racial não é totalmente alheio, etc., em suma, a inadequação dos pobres. O que pode permitir, até mesmo para os que não gostam do texto (sportinguistas ou não), aquela sensação de que "bem, o homem exagerou, coitado do miúdo, mas até disse algumas coisas acertadas ...".

 

É por isso que boto este postal, na senda dos textos do PA e do FV. Acima de tudo para referir isto: nem todos os pedagogos são democratas e nem os todos democratas são pedagogos. Mas todos os pedagogos (e é à pedagogia que Octávio Ribeiro alude) e todos democratas conscientes confluirão numa reacção diante do abjecto texto do director do "Correio da Manhã". Pois o homem pede um "castigo exemplar" para Gelson. E qualquer pedagogo, bem como qualquer democrata, sabe que um "castigo" nunca deve ser pensado e previsto como "exemplar". Ou seja, um castigo nunca é exemplar. Deve ser adequado ao contexto dos factos, este normalmente pouco ou nada repetível dada a radical imponderabilidade das coisas da vida. Sendo então único, nunca exemplo.

 

Em suma, quando o director do diário que mais vende em Portugal surge a apelar a um "castigo exemplar", e nos pérfidos e preconceituosos termos em que o faz, mostra-nos bem o quão a sua visão do mundo está afastada da democracia e da pedagogia, essa à qual de forma de forma tão canhestra e básica alude. Ribeiro é um mero ignorante "ditatorialista" ("fascista!", clamava-se quando eu era miúdo) .

 

E comprar um jornal com um director destes, consumir os produtos que anunciam num jornal com um director destes, colaborar assim com os lucros de uma empresa com um responsável destes, é, isso sim, ser anti-democrata, em última análise, cúmplice adverso à liberdade de imprensa. E podem estar certos que nenhum político que escreve nos jornais ou é "anunciado  na TV" (como dantes se propagandeavam os piores produtos), nenhum prestigiado académico que escreve nos jornais ou é "anunciado na TV", nenhum jurista que tenha sido director de jornais e que agora só escreva em jornais, que nenhum sindicato de jornalistas, surgirá agora a dizer que este tipo é um populista, adverso à liberdade de imprensa. Para apuparem o Bruno, para isso até deturpando-o, logo surgiram. Agora, entre eles, os que participam na comunicação social, jornalistas ou não, dela vivem, nela se reproduzem? Protegem-se. São, de facto, o Palma Cavalão. Em, imensas, versões clonadas.

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