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És a nossa Fé!

O jogo…

que no passado sábado fez trinta e oito anos.

(Sporting: 3 - Benfica: 1,  época 1981/1982)

No youtube pode encontrar um resumo deste jogo. (Ver aqui)

 

«Marques Pires apita para o jogo mais terrível da sua carreira. Os jogadores irrompem como feras acossadas e os primeiros dois minutos são disputados a alta velocidade como se a maratona se transformasse numa prova ao Sprint. Baroti e Allison, cada um em seu banco, permanecem silenciosos, como generais observando o movimento das tropas no campo de batalha. O ruído fica por conta das restantes quarenta mil gargantas.

Aos 12 minutos, numa bola junto da área do Sporting, Jordão toca para lá da linha de fundo. É pontapé de canto. Carlos Manuel marca com um pontapé sinuoso, que descreve uma curva larga, antes de se precipitar para a baliza. A bola sobrevoa Meszaros. Na linha de golo, Marinho cabeceia-a para longe, enquanto Humberto Coelho levanta os braços em festejo precoce. A trinta metros de distância, o fiscal de linha Rui Santiago levanta a bandeira e assinala ao chefe de equipa que a bola transpôs por completo a linha. Golo do Benfica.

«Garanto-lhe que a bola não entrou», exclama, ainda hoje, Marinho com indignação. «As minhas pernas estão dentro de campo e o corpo está alinhado na direcção do poste. Para mim, a validação do golo teve uma única explicação: o fiscal de linha tinha todos os adeptos do Benfica atrás de si, na bancada lateral. Assustou-se com os gritos e achou que foi golo.» A mesma percepção têm Meszaros, Lito e Eurico, jogadores próximos da jogada. Só Carlos Xavier intui que a bola terá cruzado a linha: «Em campo, fiquei com a ideia de que tinha entrado. E isso criou um ligeiro desnorte. Não é fácil entrar num jogo daqueles logo a perder na primeira ocasião do adversário.»

No Diário de Lisboa, Neves de Sousa sintetiza o sentimento geral de um derby que começa de forma tão peculiar, com um «tento que poucos viram [...], cortado de cabeça por Marinho, sem que alguém, em mundo terrestre, possa jurar pela saúde da mãezinha e com mão sobre a Bíblia, que o ex-futuro-próximo bracarense estava com a tolinha para além do risco de cal».

Eurico mora então em Ponte de Frielas e o árbitro Marques Pires gere uma pequena boutique, a Túlipa Negra, em Loures. Por acidente, encontram-se nos dias subsequentes ao jogo. «O próprio árbitro não sabia se a bola tinha entrado, mas o sinal do fiscal de linha fora categórico», lembra Eurico. «E o Marques Pires disse-me: “Por culpa desse lance, da dúvida se teria ajuizado bem, não andei seguro no resto da partida.” Julgo que esse lance interferiu com as restantes decisões porque o árbitro passou toda a primeira parte a remoer se teria validado um golo sem razão.»

Sete minutos mais tarde, com o Sporting a pressionar a equipa rival em busca da igualdade, dá-se novo lance controverso na área adversária. «O Frederico entrou de “carrinho” e derrubou-me», conta Lito. «A bola seguiu para o Manuel Fernandes que foi igualmente derrubado pelo Humberto. À segunda, o árbitro marcou mesmo penalty.»

Jordão tem agora a prova de fogo, o teste aos nervos. Pouco importam as grandes-penalidades falhadas no Inverno. Este é um dos penalties mais importantes da sua vida. E o avançado marca-o com muita calma, enganando Bento, o guarda-redes benfiquista. «Senti uma força enorme quando o Jordão empatou», acrescenta Carlos Xavier. «Acreditámos todos que éramos melhores e que ganharíamos o jogo.»

Com os nervos à flor da pele, as duas equipas precipitam-se para os balneários no intervalo. Da tribuna de honra, João Rocha despede-se por momentos dos convidados e desce à cabine. «O presidente chegou até nós, disse algumas palavras de circunstância e aumentou o prémio de jogo. Ali, naquela hora, no calor do momento», conta Nogueira.

Na segunda parte, o Sporting começa a assenhorear-se do jogo. Vem à superfície a superior preparação física dos jogadores e a capacidade de Virgílio, Ademar e Nogueira para controlar todo o meio-campo. Lito é, na opinião do Record, a «gazua que tudo abriu». O jogo fica mais partido. Menos jogadores recuperam quando as respectivas equipas perdem a posse de bola. Num contra-ataque rápido, Manuel Fernandes é lançado em profundidade. O capitão acelera até à bola ao mesmo tempo que o guarda-redes do Benfica desliza na sua direcção. O embate é inevitável. Bento chega uma fracção de segundo mais cedo e agarra a bola. O jogador do Sporting choca com o guarda-redes e toca-lhe com a bota na nuca. Segue-se uma cena que entra de rompante para a galeria do derby inesquecível da capital.

«O Bento sai desenfreado, como se estivesse louco, na direcção do Manuel Fernandes», conta Lito, o jogador mais próximo do lance. «Julgo que nem se lembrou que o jogo não fora interrompido. Ainda ouço o Manei a gritar-lhe: “Tem calma, tem calma!"» O guarda-redes do Benfica agride com um sopapo o avançado do Sporting dentro da área e depois cai em si, pontapeando a bola para fora e agarrando-se à cabeça. Muitos anos mais tarde, em 2003, Manuel Fernandes recapitulou o lance ao jornalista Luís Miguel Pereira: «Ele estava cego. Só me disse: “És sempre a mesma merda!” e bate-me na cara. Quando senti o toque, atirei-me para trás. Hoje posso confirmar que simulei um bocadinho. Percebi que aquela atitude podia “entregar-nos” um bocadinho o jogo.»

Como João Alves lembrará no próprio dia do jogo, Bento passara pelo mesmo num jogo traumático em Famalicão três anos antes, sofrendo então um pontapé que lhe rompera o couro cabeludo e o levara a desmaiar no aeroporto de Pedras Rubras. A recordação desse incidente terá sido mais forte. E é provável também que o guarda-redes internacional tenha ficado então convencido de que o árbitro assinalara grande penalidade pelo contacto original. Semanas mais tarde, ainda a quente, o capitão do Sporting reconhecerá: «Tive de me conter e lembrar-me que estava muito em jogo para não responder e não prejudicar a minha equipa.»

No final, Bento acusa de Manuel Fernandes de repetir golpe idêntico já tentado pela CUF em jogo contra o Barreirense: «Já estou farto de levar pontapés na cabeça. Ele fez um teatro dos diabos. No cinema, os actores também não se agridem e toda a gente fica com a sensação de que eles se agridem violentamente.» Marques Pires lamenta não ter tido opção e lembra para quem o quer ouvir que até é barreirense como o jogador expulso, mas não pode socorrer-se do bairrismo para salvar os compadres da terra. Nos dias seguintes, notícias fantasiosas sugerirão que a expulsão fora a estratégia do árbitro para eliminar a concorrência comercial da boutique de Bento à sua loja de decoração!

No outro extremo do campo, Eurico goza a performance. «Conheci bem os dois e garanto que não foi intencional o Manei deixar o pé para magoar o Bento, mas foi intencional ficar quietinho à espera do embate. Até parece que o estou a ouvir, com aquele grito muito dele: “Aiiiii!” Caiu «desmaiado» e depois, no solo, abria um olho para ver o que estava a acontecer e que sanção estava o Marques Pires a assinalar. É daquelas histórias que ficam para sempre. Ainda perguntou do chão para grande irritação dos adversários: “O gajo já expulsou o Bento?” E nós: “Já, já está. Podes levantar-te!”»

Também a Luís Miguel Pereira, Manuel Bento recordará, já sem amargura, a noite mais difícil da sua carreira - na sua versão, a avaliação do lance é afectada por um factor que não controlava: «Só me esqueci de uma coisa: o Marques Pires é sportinguista. Devia ter pensado nisso antes de me encostar ao Manei. Apesar de tudo, no dia seguinte, fui almoçar com o Manuel Fernandes e continuámos amigos como sempre fomos.»

O jogo define-se neste instante. Com menos um, forçado a gastar uma substituição para colocar o guarda-redes Jorge Martins em campo e ainda perante uma grande penalidade a desfavor, o Benfica cede. Com a mesma calma impassível, como se tivesse gelo a correr-lhe nas veias, Jordão bate o penalty para o lado esquerdo de Jorge, enquanto Bento percorre todo o relvado, na companhia de Júlio Borges, chefe do Departamento de Futebol do Benfica, vaiado como nunca fora na sua vida. Em A Bola, Carlos Pinhão sintetiza a estupefacção geral: «Um “Hara- -Kiri” de Bento Fez de um OK... um KO!»

Dezasseis minutos mais tarde, aos 78, Manuel Fernandes faz um passe maravilhoso para a direita, solicitando novo Sprint de Jordão. O avançado remata, Jorge defende sem nexo, mas atrapalha-se com Bastos Lopes. Sem nunca deixar de acelerar, Jordão continua a corrida e toca a bola para a baliza deserta. Está feito o resultado (3-1) no derby do «chá, porrada e alguma simpatia».

Festeja-se como nunca nos bastidores de Alvalade. Exausto pela montanha-russa de emoções, como se ele próprio tivesse devorado quilómetros sobre a relva, João Rocha segreda a Neves de Sousa: «Eu estava a precisar de uma coisa destas.» Em contrapartida, Jordão, o homem do jogo, escapa-se sem uma palavra, sem uma entrevista, enquanto os colegas celebram uma vitória épica. Do outro lado da barricada, Bento e o avançado brasileiro Jorge Gomes quase que se pegam nos corredores e a condenação do acto irreflectido é generalizada. Como grande senhor do desporto, Baroti cumprimenta todo o banco de suplentes do Sporting e reconhece o mérito da vitória - é, naquele momento, a transmissão da coroa do rei para o sucessor, mostrada por cinco câmaras de televisão.

Nos dias seguintes, o Benfica refugia-se numa fuga em frente. O derby dará que falar e antecipa uma era mais feia, de contestação aberta à arbitragem e incapacidade de isenção no comentário desportivo. O clube encarnado prepara um protesto, alegando que o árbitro, durante a refrega na área do Benfica, mostrara ao mesmo tempo o cartão vermelho a Nogueira, recuando de seguida na intenção. Marques Pires é chamado a explicar-se e lembra que, com o suor, os dois cartões - amarelo e vermelho - saíram de facto do bolso. Jorge Gomes chega a acusar o árbitro de «parecer esgazeado», sugerindo que «se Marques Pires tivesse ido a um controlo antidoping, teria dado positivo». A televisão chama Júlio Borges para uma longa exposição em directo sobre os casos do jogo - hoje, os especialistas em comunicação chamar-lhe-iam o spin da mensagem dominante. Rocha protesta e solicita idêntico tempo de antena.

No Atlântico Sul, inicia-se a Guerra das Malvinas, mas, em Portugal, nada mais importa para lá do jogo. Quando um navio de guerra britânico a caminho da Argentina se detém por algumas horas em Lisboa, os marinheiros pedem para conhecer Malcolm Allison. «Ficaram lá só um dia, mas fizeram questão de ir a Alvalade cumprimentar-me. Que emoção!», lembrou Allison a André Pipa. Uma vez mais, ao cumprimentar esses homens que em breve entrarão em combate, o treinador inglês reconhece que a vida tem problemas bem mais complexos do que um mero jogo de futebol.

Entretanto, mais de uma semana depois do derby, o Benfica organiza ainda uma conferência de imprensa inédita no Hotel Altis: pede a irradiação de Marques Pires e procura projectar num ecrã gigante os lances controversos do encontro. É a primeira aplicação genuína da imagem televisiva ao debate futebolístico, mas a exposição não corre bem. «A montagem dava-nos jogadores e bola bastante desfocados! Uma certa frustração percorre a sala», regista o repórter do Diário Popular.

Com sete pontos de avanço sobre a concorrência, o título de campeão nacional parece garantido, mas Alvalade está ainda para conhecer a última faceta de Malcolm Allison, o irreflectido.[*]»

 

[*]: Foram eliminadas as notas de rodapé que acompanham este texto.

In: ROSA, Gonçalo Pereira, 1975 - Big Mal & Companhia : a histórica época de 1981-1982, em que o Sporting de Malcolm Allison conquistou a Taça e o Campeonato. 1ª ed. Lisboa : Planeta, 2018. p.238-244

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