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És a nossa Fé!

O Ferguson do Sporting

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Já disse aqui que Rúben Amorim devia ficar no Sporting pelo menos até ao seu miudo entrar no liceu.

Pelas suas qualidades humanas, nas antípodas dos batoteiros malcriados doutras paragens, pela sua forma tranquila e determinada de ser e estar na liderança do grupo, pela defesa intransigente que faz do espírito de corpo "Onde vai um vão todos" e pelo seu enorme potencial enquanto treinador.

É mesmo por causa deste último item que Amorim deve ficar esse tempo todo, porque se é verdade que já demonstrou muita coisa, tem ainda imenso para crescer e evoluir, e capacidade e vontade para tanto. Isso pode ser fundamental para o Sporting dos próximos anos.

Amorim afirma, e eu assino por baixo, que o futebol do Sporting evoluiu substancialmente da época passada para esta, com muito mais controlo sobre o jogo e os adversários, conseguindo ganhar mais jogos por dois ou mais golos, criar maior perigo em situações de ataque organizado. Mas reconhece também que se marcaram poucos golos quer por falta de inspiração individual quer também por falta de sistematização ofensiva, e que apenas o upgrade permanente do modelo de jogo (as tais variantes de que fala) e a introdução de jogadores novos a fazer coisas diferentes impede a sua estagnação e o seu bloqueio por adversários preparados que muito o estudam e tentam anular.

 

Se bem se recordam, Amorim chegou na fase final da época de 2019/2020, apanhou com os cacos do que tinha sido a equipa vencedora do Jamor um ano antes, e focou-se no casting interno para o 3-4-3 que queria implantar, testando, escolhendo, dando guia de marcha aos restantes e deixando bem claro que tipo de reforços seriam necessários para o Sporting triunfar.

A época seguinte, já com um plantel ao seu jeito, foi de afirmação plena do seu modelo de jogo diferenciado e dalguma forma estranho à realidade nacional, com uma construção desde trás pelo guarda-redes e os três defesas que atraía o adversário e logo dava cabo dele através de lançamentos directos para os atacantes ou de contra-golpes venenosos pelos alas, com um verdadeiro predador lá na frente, Pedro Gonçalves, que em cada duas oportunidades marcava três.

Em caso de emergência, Amorim recorria ao plano B, anarquia total, médios para a defesa, Coates para ponta de lança, como dizia o Estebes "vamos lá cambada, todos à molhada, qu'isto é futebol total." E a coisa até funcionou, fomos campeões nacionais.

 

Nesta época o modelo de jogo teria forçosamente de ser diferente, os adversários já não iriam ao engano, havia a Champions para disputar e tentar a passagem à fase seguinte.

Então, mantendo a arrumação base dos jogadores em campo do 3-4-3, toda a equipa avançou no terreno e houve muito muito menos contra-ataque rápido e ataque à profundidade e muito mais ataque organizado, a equipa até preferia pausar o ataque para melhor eficácia do mesmo e melhor reacção a uma possível perda de bola.

Este atrevimento estratégico funcionou bem a nível interno na 1ª parte da época, com destaque para a vitória por 3-1 na Luz. A nível da Champions, a derrota pesada com o Ajax, que se repetiu depois com o Man.City, demonstrou que havia ainda muito para melhorar.A linha defensiva subida convidava a lançamentos em profundidade que desmanchavam a linha de fora de jogo, no ataque a equipa perdia-se em improvisações, faltavam movimentos estudados que colocassem jogadores vindos de trás frente ao golo.

Se no início da época todos dizíamos que o plantel era curto, que faltava pelo menos um defesa central de pé direito e um ponta de lança que soubesse jogar de cabeça, ainda mais curto se tornou, apesar de gratas surpresas como Sarabia e Matheus Reis, com lesões de uns, como Feddal, Porro e Pedro Gonçalves, desadaptações de outros a uma nova forma de jogar, como TT e Jovane, e aquisições falhadas, como Vinagre.

Além disso parecia que Coates tinha esgotado a sua quota de milagres na época anterior, não ficou um para amostra. 

Quando finalmente vieram os reforços Edwards e Slimani o Sporting já tinha hipotecado a vitória no campeonato, os 6 pontos perdidos no início de Janeiro demonstraram-se irrecuperáveis.

 

Sempre com base no tal 3-4-3 do primeiro dia de Amorim no Sporting, que muito exige dos dois médios para contrariar a superioridade numérica do adversário no miolo, podemos dizer que nesta época tivemos basicamente três formas de organização ofensiva :

Fórmula A - A do pivot ofensivo, com Paulinho deambulando entre o espaço do 3.º médio e o do ponta de lança, ajudando os dois médios nas recuperações, lançando os avançados interiores, aparecendo na área para tentar o golo. Foi aquele que prevaleceu na 1.ª parte da temporada e permitiu a passagem à fase seguinte da Champions. E foi aquele que nos deu a vitória na Luz, por um claro 3-1. Para mim esteve na base do melhor futebol praticado pelo Sporting.

Fórmula B -  A do "bulldozer" ofensivo, com Slimani a infernizar os defesas e Paulinho a alternar entre interior e segundo ponta de lança. Começou mal no Funchal e acabou ainda pior no dérbi lisboeta pelas razões que conhecemos. Mas num ou noutro jogo deu sinais bem positivos, com tempo e melhor conhecimento e articulação com Paulinho e Sarabia podia estar ali um tridente ofensivo bem interessante. E finalmente havia um avançado com razoável jogo de cabeça para acudir aos centros de Porro ou Nuno Santos.

Fórmula C - A dos três baixinhos lá na frente, com Sarabia (ou Tabata) a ser aquele vagabundo que costuma ser na selecção espanhola, que surgiu mais no final da temporada muito pela quebra de rendimento de Paulinho e falência de Slimani. Sem referência ofensiva, os centrais dos adversários ficam a marcar-se uns aos outros, dando espaço e tempo para trocas e combinações. 

 

Penso que será muito por aqui que Amorim irá prosseguir na próxima época, mantendo o 3-4-3 e as bases do modelo de jogo, cada vez mais interiorizado pelo plantel, e ajustando a organização ofensiva ao momento e aos avançados disponíveis, porque o resto está bem e recomenda-se.

Na baliza será Adán mais uns anitos e depois o Callai (até a altura é a mesma) quando estiver pronto. Na defesa, Coates e dois ajudantes que corram mais do que ele e que alternarão conforme o momento. Nas alas serão dois "piscineiros" colados à linha que saibam defender como defesas laterais e atacar como extremos clássicos. No meio-campo, dois todo-o-terreno com enorme capacidade nos duelos individuais e chegada à area contrária.

No ataque as palavras-chave são mobilidade e adaptabilidade. O Sporting não pode atacar da mesma forma perante diferentes tipos de adversários, os que jogam no campo inteiro e os que se fecham lá atrás, e não pode andar a centrar bolas para a cabeça do Edwards. Precisa dum ponta de lança forte no jogo aéreo, que definitivamente não é o Paulinho. E depois a constituição da linha atacante obriga toda a restante equipa a ajustar-se às suas características. No fundo, trazer de novo ao relvado o tal Sporting camaleónico que confundia os adversários, e antes deles derem conta, já foram.

Para já, ficando Paulinho, Edwards, Pedro Gonçalves e Tabata (este até acho que podia ser um dos dois médios, mas Amorim é que sabe), importa substituir Sarabia e Slimani. Mas se viesse mais alguém não seria demasiado, porque muitas vezes as vitórias e títulos são decididos por quem acabou de saltar do banco e pouco jogou durante a época.

Depois temos alguns projectos interessantes de avançado, mas apenas isso. 

 

Concluindo, Amorim pode e deve ser o Ferguson do Sporting.

E deve ter, da Direcção do Sporting, por um lado confiança total nas suas escolhas, por outro dotar o clube/SAD de profissionais que o consigam complementar, para termos, por exemplo, a equipa B de volta à 2.ª Liga a servir de retaguarda operacional ao plantel principal e uma capacidade de recrutamento diversificado, sempre percebendo bem a pessoa que está por detrás do jogador, para evitar um ou outro erro de casting que têm acontecido nos últimos tempos.

 

PS: Podem ler aqui a história de Ferguson no Man. United e apontar as semelhanças: https://pt.wikipedia.org/wiki/Manchester_United_Football_Club#A_Era_Ferguson

SL

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