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És a nossa Fé!

O fanatismo tornou-se virtude

Texto do leitor V. Guerreiro

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Os depoimentos dos arguidos sobre o que se passou em Alcochete são em tudo idênticos aos de um arguido que assassinou a ex-companheira (salvaguardando as devidas proporções, naturalmente). Reconhece que fez mal, que se deixou dominar pelo ciúme, que não suportou ter sido abandonado, que foi levado por um impulso e que está arrependido.

A invasão à Academia do Sporting foi um crime passional. Foi o resultado de amores doentios, de ciúmes, de frustração e de descontrolo emocional.

Desde miúdo que conheço bem os “fanáticos do futebol”, que era como se tratavam aqueles que pisavam o risco da má-criação. Mas nesse tempo havia a família que reprovava os excessos e os amigos que aconselhavam a contenção. Nesse tempo, os fanáticos eram socialmente censurados. Hoje, quem não é fanático fica aquém do desejado. Quem não vive os clubes 24 horas por dia, como um vício (palavras do arguido Tiago Neves), não tem autoridade moral para mandar bitaites. Quem convive com as derrotas sem partir qualquer coisa é um resignado e não ama o suficiente. Os fanáticos têm, assim, finalmente, caminho livre à sua frente, porque o fanatismo clubístico foi finalmente aceite e é normalizado diariamente na televisão. Deixou de ser uma maluquice e passou a ser uma virtude, um exemplo de dedicação a uma causa nobre.

Com a negligência do Estado, a ideologia Ultra (ultra fanática) encontrou nas claques um porto seguro para se instalar e angariar jovens incautos.

E é neste ambiente que surge um Presidente fanático, um Presidente adepto, um Presidente com uma paixão enorme, doentia, que arrasta consigo todos os que quiserem viver o nosso grande amor e a promessa de dias de glória. O mundo sabe que pelo teu amor eu sou doente, que não suporto a desilusão e a frustração, que não me resigno, que não compreendo as críticas injustas a quem dá tudo por amor, que não entendo como é possível alguém falhar um golo tão fácil, jogar tão pouco, que não aceito que não se esforcem como eu me esforço, apesar de ganhar muito menos do que vocês. Nesses momentos, é preciso fazer qualquer coisa de urgente, “dar um aperto”, chamar a atenção para “darem o máximo”, “pedir justificações”. Às vezes, perdemos a cabeça, exageramos, vamos longe de mais. Às vezes, lá aparece uma notícia de mais um crime passional.

Entretanto, o fanatismo continua o seu desfile obsceno nas televisões, nos blogues, nas bancadas dos estádios e nos comunicados de imprensa dos clubes.

 

Texto do nosso leitor V. Guerreiro, publicado originalmente aqui.

 

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