O dia seguinte
Noite histórica ontem em Alvalade que vai ficar gravada a ouro na história do clube e na memória de sócios e adeptos. A maior vitória frente a um grande europeu nos últimos 60 anos.
A 18 de Março de 1964, o Sporting goleou o Manchester United de Bobby Charlton, Dennis Law e George Best, por 5-0, na segunda mão dos quartos-de-final da Taça dos Vencedores das Taças que viria a ganhar.
A 5 de Novembro de 2024, o Sporting goleou o Manchester City de Guardiola, Haaland, Foden, Bernardo Silva e Matheus Nunes por 4-1 na primeira fase da Liga dos Campeões.
Um feito só possível pela extraordinária capacidade duns jogadores, duma equipa, dum capitão, dum treinador, dum director desportivo e dum presidente que conseguiram, todos a remar para o mesmo lado, sem protagonismos descabidos, um feito inimaginável, seis anos depois do dia mais negro da história do Sporting, o dia do assalto a Alcochete.
Foi um jogo que não começou nada bem. O Man.City caiu em cima, destruiu a saída a jogar, provocou erros sucessivos junto à nossa baliza, marcaram um e falharam dois ou três. Pelo meio, uma perdida escandalosa de Gyökeres que, se fosse o Paulinho, logo diriam o pior.
O "tiki-taka" de Guardiola versão City foi nessa fase um regalo de ver, um bailado junto à nossa área com os jogadores sempre em movimento e a encontrar espaços de penetração.
Previa-se o pior em Alvalade. Mas, já quase no intervalo, num lance de laboratório, Quenda inflectiu no terreno e lançou com o pé de dentro Gyökeres, que se redimiu do falhanço anterior. O City abanou e logo a seguir Trincão falhou uma grande oportunidade.
De qualquer forma, o 1-1 ao intervalo não correspondia ao que tinha sido o jogo. O Man.City merecia estar em vantagem.
O jogo recomeçou e o Sporting marcou de rajada dois golos. O primeiro num lance colectivo de excelência logo na saída de bola, com Maxi e Pedro Gonçalves numa combinação perfeita e remate "à matador" do uruguaio do mate. O segundo em mais uma arrancada de Trincão, travado em falta já na grande área.
Com dois murros o City foi ao tapete, incrédulo com o que tinha acontecido, incapaz de reagir. O "tiki-taka" já não era o da 1.ª parte, falhavam os passes de penetração, não conseguiam recuperar no imediato a bola, sujeitavam-se aos contra-ataques do Sporting. Ainda tiveram um VAR que descobriu um penálti mais que discutível, um remate próximo de baixo para cima que parece resvalar no corpo e vai ao braço. Se calhar o melhor é cortar os braços ao Diomande, estão lá a fazer o quê ? Mas a verdade desportiva foi reposta pela trave.
E o City ainda mais se afundou. Rúben Amorim refrescou a equipa com três substituições, o lado esquerdo defensivo por onde o City canalizava muito jogo deixou de preocupar, no seguimento dum canto Catamo fez uma maldade e Matheus Nunes mais uma vez demonstrou que o lugar dele não é ali, recordo-me da tentativa falhada de Amorim ao colocá-lo a ala direito por ausência de Porro no primeiro ano.
Assim chegámos ao 4-1 com oportunidades para mais um ou dois, como por exemplo naquele outro falhanço de Gyökeres frente ao guarda-redes adversário.
E foi a festa em Alvalade, a comunhão com os jogadores, a volta de honra, o cântico "Eu fui a Braga..." cantado a plenos pulmões, Amorim lançado ao ar, toda a sua equipa a passar pelo "túnel". E, claro, já todos temos as maiores saudades e ele ainda não saiu, ainda tem de ir a Braga ganhar.
Melhor em campo: Gyökeres. Além do "hat-trick", intervenções decisivas a defender nas bolas paradas, uma sobre a linha que evitou um golo adversário. Depois dele todos os outros, a começar por Maxi Araújo.
Arbitragem: Forçado pelo VAR a marcar aquilo que não considerou ao vivo.
E agora? Braga, outro jogo muito difícil na corrida para o Marquês.
Uma palavra final sobre Frederico Varandas. Se a contratação de Rúben Amorim foi um golpe de génio, a gestão da sua saída foi de grande estadista, a recusa da saída imediata, a promoção do capitão Hjulmand como garante da continuidade, a conferência de imprensa conjunta, a homenagem em Alvalade antes do jogo que poderia ter um resultado humilhante, enfim, estamos muito bem entregues.
Hugo Viana está de saída para o Man.City, Rúben Amorim para o Man.United, alguns jogadores no final da época ou mesmo antes sairão também, mas o Sporting Clube de Portugal através do seu futebol nunca antes teve a exposição mundial deste momento, nunca antes esteve tão próximo da visão do fundador formulada em 8 de Maio de 1906: "Queremos que o Sporting seja um grande Clube, tão grande quanto os maiores da Europa."
PS: Os 5-0 ao Man.United passaram-me ao lado, mas estive em Alvalade nos 7-1 ao Benfica e agora nos 4-1 ao Man.City. Também vi a cores e ao vivo o grande Héctor "Chirola" Yazalde, e vejo agora o tremendo Viktor Gyökeres. Não me posso queixar.
SL
