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És a nossa Fé!

No meu tempo era com 'caricas'!

Adan vence Pizzi, nos penaltis, no subbuteo.

 

Saramago conta uma outra história:

«Devemos ter vivido na Rua Padre Sena Freitas uns dois ou três anos. Quando principiou a guerra civil espanhola era aí que residíamos. A mudança para a Rua Carlos Ribeiro terá sido em 38, ou talvez mesmo em 37. Salvo que esta minha por enquanto ainda prestável memória deixe vir à superfície novas referências e novas datas, é-me difícil, para não dizer impossível, situar certos acontecimentos no tempo, mas tenho a certeza de que este que vou relatar é anterior ao princípio da guerra em Espanha. Havia por essas alturas um divertimento muito apreciado nas classes baixas, que cada um podia fabricar em sua própria casa (tive pouquíssimos brinquedos, e, mesmo esses, em geral de lata, comprados na rua, aos vendedores ambulantes), o qual divertimento consistia numa pequena tábua retangular em que se espetavam vinte e dois pregos, onze de cada lado, distribuídos como então se dispunham os jogadores no campo de futebol antes do aparecimento das táticas modernas, isto é, cinco à frente, que eram os avançados, três a seguir, que eram os médios, também chamados halfs, à inglesa, dois atrás, denominados defesas, ou backs, e finalmente o guarda-redes, ou keeper. Podia-se jogar com um berlinde pequeno, mas, de preferência, usava-se uma esferazinha de metal, das que se encontram nos rolamentos, a qual era alternadamente empurrada, de um lado e do outro, com uma pequena espátula, por entre os pregos, até ser introduzida na baliza (também havia balizas), e assim marcar golo. Com estes pobríssimos materiais divertia-se a gente, tanto miúda como graúda, e havia renhidos desafios e campeonatos. Observado a esta distância parecia, e talvez o tivesse sido por alguns momentos, a idade de ouro. Mas não o foi sempre, como já se vai ver. Um dia, estávamos na varanda das traseiras, meu pai e eu, a jogar (recordo que, nesse tempo, as famílias de escassas posses passavam a maior parte do tempo nas traseiras das casas, principalmente nas cozinhas), eu sentado no chão, ele num banquito de madeira, como então se usavam e eram tidos por imprescindíveis, sobretudo para as mulheres, que neles costuravam. Por trás de mim, de pé, a assistir ao jogo, estava o António Barata. Meu pai não era pessoa para deixar que o filho lhe ganhasse, e, por isso, implacável, aproveitando-se da minha pouca habilidade, ia marcando golos uns atrás dos outros. O tal Barata, como agente da Polícia de Investigação Criminal que era, deveria ter recebido treino mais que suficiente quanto aos diferentes modos de exercer uma eficaz pressão psicológica sobre os detidos ao seu cuidado, mas terá pensado naquela altura que podia aproveitar a ocasião para se exercitar um pouco mais. Com um pé tocava-me repetidamente por trás, enquanto ia dizendo: «Estás a perder, estás a perder.» O garoto aguentou enquanto pôde o pai que o derrotava e o vizinho que o humilhava, mas, às tantas, desesperado, deu um soco (um soco, coitado dele, uma sacudidela de cachorrito) no pé do Barata, ao mesmo tempo que desabafava com as poucas palavras que em tais circunstâncias poderiam ser ditas sem ofender ninguém: «Esteja quieto!» Ainda a frase mal tinha terminado e já o pai vencedor lhe assentava duas bofetadas na cara que o atiraram de roldão no cimento da varanda. Por ter faltado ao respeito a uma pessoa crescida, claro está. Um e outro, o pai e o vizinho, ambos agentes da polícia e honestos zeladores da ordem pública, não perceberam nunca que haviam, eles, faltado ao respeito a uma pessoa que ainda teria de crescer muito para poder, finalmente, contar a triste história. A sua e a deles.»

 

In: Saramago, José – As pequenas memórias. Porto: Porto Editora, 2014. pp. 38 - 40

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