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És a nossa Fé!

Memórias de Peyroteo (9)

(cont.)

 

«O PRIMEIRO JOGO

Foi em 12 de Outubro de 1937, no Campo das Salésias, onde joguei, pela primeira vez oficialmente, ocupando o lugar de condutor do ataque da equipa do Sporting Clube de Portugal. Para começar bem, era o “Benfica-Sporting” do Torneio Triangular.

Se no meu primeiro treino de conjunto as pernas tremiam como varas verdes, não se calcula o estado de nervos com que pisei o relvado das Salésias.

Antes do jogo, na cabine, vendo a minha atrapalhação, colegas e directores brincavam comigo…

Os companheiros da equipa, habituados já aos grandes encontros entre os velhos e gloriosos rivais, encaravam o desse dia como um treino; os directores - em especial o Sr. Tomás Pereira - receitavam chá de tília, para acalmar os nervos. Brincavam todos, é o termo!

Resta-me a consolação de que, mais tarde, eram os directores a necessitar de chá de tília…

A verdade é que estava tão perturbado que foi necessário “Mister” Sezabo ligar-me os pés - trabalho que eu fiz sempre antes dos treinos.

Todos falavam, as piadas vinham de todos os lados e só um homem se mantinha calado: o treinador.

Quando faltavam apenas dez minutos para entrarmos no campo, “Mister” Sezabo fez diversas recomendações sobre a táctica a empregar e, a seguir, disse:

- “Muito atenção, sinhores. A avançado-centro jogar Férnando. Rapaz novo, não ter experiência dê jogo. Sinhores mais vélios ajudar para ele, bem dê clube. Não fazerem malandragem! Não ter graça nenhum 1 Brincadeira custar dez-per-cente para sinhores. Atenção dê jogo, sinhores”!

Depois, chamou-me:

- “Sinhor Férnando não perturbar com jogo. Não ter importância nenhum jogar mal. Não esquecer seus dificuldades a campo para emendar no “treining”. Eu ver uns e sinhor sentir outros dificuldades. Terça-feira corrigir um, dez, cinquenta vezes e tudo ficar bem. Atenção, sinhor: gajos ir dizer para si coisas muito feias. Não engolir a isca, Férnando. Fazer dê conta ter algodon nos ouvidos. Não esquecer principal papel dê avando-centro: Carèga Maria !!… (Compreenda-se atirar ao golo).

- “Bola junto dê poste, como fazer a treining. Agora, bom sorte para tudos. Atacar botas, estar na hora, sinhores”.

E voltando-se para os restantes…

-”Vamos, sinhores. Bom sorte a tudos!,. “

Ao entrar no campo tive a impressão de que o peso de todo o público estava sobre as minhas costas!

Por recomendação do treinador, atirei algumas vezes à baliza, antes de começar o desafio, para… sossegar os nervos. Fiz dois bons remates e foi remédio santo. Senti-me imediatamente à vontade. Daí por diante, esqueci o público. Só o jogo me dominava os sentidos.

Por carecer de interesse, agora, não relatarei como decorreu o prélio. Apenas breves apontamentos.

O Benfica marcou primeiro, por intermédio de Vaiadas, havia 21 minutos. A bola foi ao centro, recomeçámos e, sete minutos depois… golo do Sporting, Estava assinalada a minha presença! Era o meu primeiro golo em jogos oficiais. Quase chorei de alegria e fiquei sem fôlego. Mas tudo passou. Minutos volvidos, o Vasco Nunes fixou o resultado da primeira parte em 2-1 a favor dos “leões”.

Durante o intervalo, na cabine, o treinador disse ter gostado do meu trabalho e que o golo tinha sido muito bem marcado.

Raciocinei: pois sim; agora dizes isso mas na próxima terça-feira terei de executar cem vezes o que hoje fizer mal…

Na segunda parte Espírito Santo estabeleceu a igualdade, mas o Aníbal Paciência fez uma gracinha e conseguiu o 3-2.

Aos 32 minutos coube-me a vez de atirar a bola para as malhas da rede: 4-2!

Confirmamos a frase “O futuro está nas Colónias…” Espírito Santo, Paciência e eu a marcar os pontos!

O Guilherme ainda fez outro golo e a um minuto do final da partida, o Mourão estabeleceu o resultado: 5-3 a favor do Sporting.

Mal soou o apito do árbitro dando por terminado o jogo, correu para mim o Aníbal Paciência. Abraçou-me, deu-me os parabéns e eu pensei:

Exactamente como no primeiro treino de conjunto - parabéns do Paciência e sarabanda do treinador!

Mas enganei-me; “Mister” Sezabo também me felicitou, sorridente e alegre, declarando que esperava exibição pior.

Na verdade, embora não tivesse feito um grande jogo - nem outra coisa era de esperar em campo relvado, que pisava pela primeira vez, botas com pitons, que nunca usara e companheiros que quase não conhecia - se não fiz um grande jogo, repito, também não fiz aquilo a que se chama “figura de urso”! Do mal o menos.

Só posso dizer bem do comportamento dos meus colegas porque todos me auxiliaram na medida do possível; não fizeram “malandragem”. Agradeci-lhes no final do encontro e, agora, ainda com um grande abraço de reconhecimento, aqui ficam os seus nomes: Azevedo, Jesus e Galvão; Rui Araújo, Paciência e Manuel Marques; Heitor, Mourão, Vasco Nunes e João Cruz.

 

Ricardo Ornelas, em “Os Sports” de 13 Setembro de 1937, escreveu:

“Peyroteo tem recursos físicos excelentes e possui pontapé fácil, tenta passar para o melhor sítio e é oportuno em carga sobre o adversário (às vezes demasiado); entre o que lhe falta para ser uma força no lugar e de que o seu treinador se ocupará, podemos assinalar o jogo de cabeça; trata-se, no entanto, de elemento com bases sólidas para ser trabalhado”.

Pois não havia eu de passar para o melhor sítio!… Se fizesse o contrário…”dar-se dez-per-cente!…”

Aquele “às vezes demasiado” é que se escusava ter escrito.

Foi por isso que muitas vezes ouvi: - “O Orneias é o que o topou logo no primeiro dia. Até lhe chamou “carro de assalto”

Outros, então, leram assim: “às vezes propositado”.

E é que garantiam, afirmavam ter lido!

Veja o amigo e senhor Ricardo Orneias, o sarilho que me arranjou logo de entrada! Felizmente, já lá vai o mau tempo…

Lança Moreira escreveu:

“Dos estreantes, três no total (bem pouco para tanta ansiedade latente…) nenhum nos impressionou decisivamente. De óptimo aspecto físico, boa corrida, com pontapé que nos parece fácil e decidido, Peyroteo foi ainda assim quem deu sensação de ter sentido menos a estreia - e dois “tentos” no activo podem atestar o facto.

A crítica foi assinada por Domingos Moreira, faltando-lhe, no meio, o Lança…

A 19 anos de distância, pergunto-te: Então fui eu, ainda assim, quem deu a sensação de ter sentido menos a estreia? Lá dentro do campo os gatos são pardos. Podes ter a certeza, meu caro Lança Moreira, que nenhum dos estreantes a sentiu tanto como eu; sabes lá como aquilo foi!

Se a “carga” de nervos se transformasse em “descarga” eléctrica, tu e todos teriam sido fulminados!

E aquela dos “dois tentos no activo” é boa!…

Regista agora que no “passivo” já cá cantam 38 anos e 693 “tentos”.

Os anos são poucos em relação aos “tentos”, mas se trocasse os algarismos que grande azelha teria sido no futebol!…»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 86 - 90

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