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És a nossa Fé!

Memórias de Peyroteo (30)

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PORTUGAL - ESPANHA

Estádio Nacional 11-3-94

Resultado: 2-2

 

A 11 de Março de 1945, fiz o meu segundo jogo contra a Espanha e o sétimo na ordem cronológica de internacionalizações. Novamente empatámos a duas bolas mas, desta vez, não houve dúvidas e registou-se, justamente, que fui eu o autor dos dois golos da equipa portuguesa.

Este jogo Portugal - Espanha seria o primeiro encontro internacional a disputar no nosso magnífico Estádio Nacional e, como sempre, a população dos dois países viveu mais um grande acontecimento desportivo. Duas semanas antes do desafio já não havia bilhetes e os próprios jogadores se viram embaraçados para conseguir satisfazer as “encomendas” dos amigos. Para servir pessoas amigas que não acreditariam na minha impossibilidade de arranjar bilhetes, fui obrigado a socorrer-me de um contratador “amigo” que, por muito favor, me vendeu duas bancadas a cem escudos cada uma!…

O mesmo entusiasmo e espectativa dominavam os adeptos do futebol.

A nossa selecção perdeu uma boa oportunidade de ganhar à Espanha porque, desta vez, realmente, os espanhóis' nos enviaram uma equipa de fracos recursos, embora no país vizinho se dissesse que ela estava em óptimas condições, composta por elementos de classe e categoria comparáveis aos grandes Zamora, Langara, Regueiro, Quincoces, etc. Viriam a Lisboa jogadores capazes de realizar uma exibição demonstrativa do incontestável valor do futebol espanhol. Felizmente para nós tais afirmações não correspondiam à verdade, e digo felizmente porque, se assim fosse, teríamos sofrido uma das maiores derrotas. A nossa equipa não estava convenientemente preparada, bastando di2er que, em quase três meses de pseudo-preparação, nem uma só vez fizemos um treino no qual tivessem tomado parte os jogadores que defrontaram os espanhóis! E isto mais por culpa dos clubes a que pertenciam os jogadores convocados, do que por culpa do seleccionador. Assim foi e assim continua a ser. Mas adiante.

Empatámos um jogo que poderíamos ter ganho. Os espanhóis, jogando a medo, chegaram a estar a ganhar por 2-0! Calcule-se, pois, o que nós valíamos!!! Depois, mais pontapé, menos pontapé, mais corrida, menos corrida, lá conseguimos empatar… ,

Para alguns, joguei mal mas… fiz os dois golos da nossa equipa, cabendo-me ainda a sorte - que se transformou em glória inapagável dos anais do futebol português - de marcar o primeiro golo contra estrangeiros no Estádio Nacional.

Não quero alongar-me em considerações acerca da forma como a nossa equipa foi preparada para este jogo, já porque o tempo decorrido lhe fez perder o interesse, como também porque, referindo tudo em seus pormenores, teria de escrever um livro só para recordar os meus vinte jogos internacionais. Darei a vez aos jornalistas, transcrevendo o que alguns deles escreveram a meu respeito, a propósito do XV Portugal - Espanha em futebol:

 

Diário de Lisboa de 11-3-45:

“O avançado-centro com uma “cabeça” magistral fez o “goal”, o mais lindo “goal” da tarde. Uma ovação espantosa premeia o lance”

E mais adiante:

…”O avançado-centro leonino, num remate estupendo, conse guiu o 2,° golo e, com ele, o empate, sem quê a estirada de Eiza' guirre salve a situação.”

O jornal “O Século”, pela pena do seu redactor desportivo, ofereceu aos leitores o balanço dos meus sete jogos internacionais começando por escrever em título:

Sele jogos internacionais com oilo golos é o aclivo do popular avançado-centro Peyroteo, que neles foi o único português a marcar

“Fernando Peyroteo, avançado-centro do Sporting, autor das duas bolas marcadas no XV Portugal - Espanha é, hoje, sem dúvida alguma, o jogador verdadeiramente indispensável à equipa nacional. Sobre este assunto, não há a menor discordância nos meios futebolísticos.

É o avançado-centro ideal, no jogo moderno, em que a primeira missão ou mais alta qualidade a exigir do eixo do ataque é a de ter um grande poder de realização na zona de remate,

“Avançado-centro atlético, duro, combativo, com espírito de sacrifício para o choque insistente com os defesas e, sobre tudo isto, marcador de bolas, é, na verdade, uma exigência do futebol moderno, em todos os países. Zarra, Mundo, Campanal, Langara e outros grandes jogadores valorizaram-se por essas características. Em Portugal porém, depois de dois avançados-centro estilistas, de grande nomeada, Vítor Silva e Espírito Santo, apareceu um avançado-centro de tipo moderno, - verdadeira máquina de marcar bolas. E não tem sido pequena a sua tarefa na equipa do Sporting-e sobretudo na equipa de Portugal. Sem Peyroteo, tanto aquele clube como a equipa nacional perdem, com qualquer formação, sessenta a oitenta por cento do seu poder de ataque, a despeito de, hoje, ser lugar comum, em todas as equipas contrárias, este conceito: é preciso anular Peyroteo se queremos vencer…

“Realmente, tanto nos jogos de clube, como nos jogos internacionais, a preocupação dominante está em “marcá-io” estreitamente, de modo a evitar que ele consiga atirar à baliza. Nos jogos recentes, com o Atlético Aviación e com a equipa de Espanha, foi visível que o popular avançado-centro jogou sempre com “sentinela à vista” I Por vezes, a barreira de oposição era formada por dois ou três adversários. E isto, compreende-se bem, dificulta em extremo a sua missão, donde não ser difícil concluir-se, quando não marca, que nesse dia, Peyroteo se apagou um pouco… Mas, isso, nada tém de extraordinário. Aquilo que afinal surpreende é que, apesar de tão vigiado, de tão marcado e, às vezes, tão mal tratado pelos adversários, ele consiga ainda marcar tão elevado número de bolas.

“Anteontem foi autor dos dois pontos da equipa portuguesa - as duas bolas que fizeram o resultado. Mas a sua colaboração à equipa nacional espelha-se melhor nos sete jogos internacionais em que tomou parte.

A sua estreia de internacional realizou-se em Frankfurt, no jogo com a Alemanha, em que se empatou a uma bola - marcada por Fernando Peyroteo, Na semana seguinte, jogou-se em Milão o Suíça-Portugal, para o Campeonato do Mundo, em que se perdeu por 2-1 -sendo ele o marcador da única bola dos portugueses. No Portugal - França, em Paris, venceram os franceses por 3-2 - sendo as duas bolas marcadas por ele. Nos dois últimos Portugal - Espanha em que se empatou por 2-2, no domingo, e em 1941, das duas vezes foi ainda Peyroteo o único marcador. Dos sete jogos contra a Suíça - em Lausana e em Lisboa, - não marcou uma única vez, devendo, ainda, estar lembrada a severa marcação de que ele foi alvo por parte do famoso Minelli.

“Peyroteo é, assim, a pequena máquina de marcar bolas para o Sporting - e para a equipa nacional. Mas esta qualidade está ainda valorizada pela circunstância deste jogador nunca recorrer ao jogo violento ou irregular para marcar, É, ao mesmo tempo, um jogador correctíssimo e, tanto, assim que, há anos, recebeu o prémio da sua correcção desportiva, tendo sido enviado pelo “Século” a Londres para assistir ao maior espectáculo futebolístico do Mundo: a final da Taça de Inglaterra. Os desportistas portugueses, nessa altura, prestaram homenagem ao seu espírito desportivo, elegendo-o como <o jogador mais digno do magnífico prémio que este jornal instituiu para premiar o culto da ética desportiva. E agora, não há motivo algum para se dizer que ele não tem conservado as mesmas .excelentes qualidades desportivas.

“Peyroteo, em verdade, é um bom desportista e um magnífico avançado-centro, como já tivemos ocasião de verificar no jogo de anteontem.”

Penso que esta interessante resenha se deve a um grande mestre de futebol, cujo nome é de todos nós bem conhecido e que, ao tempo, tinha a seu cargo a secção desportiva do grande jornal O “Século”. Mas o mestre, falível como todos os homens, enganou-se ao afirmar que fui eu o marcador do golo português no nosso jogo contra a Alemanha, em Frankfurt; na verdade, esse golo foi marcado pelo Pinga. Tais enganos acontecem sem maldade, e por eles não vem mal ao Mundo!…

 

Cerca de dois meses depois deste jogo no nosso magnífico Estádio Nacional, seguimos para Espanha a fim de disputarmos novo prélio a 6 de Maio de 1945.

Não conhecia a cidade de La Coruna nem podia supor que o povo dessa linda terra era tão acolhedor, tão amigo dos portugueses e tão hospitaleiro. Os futebolistas que compunham a equipa nacional, atendendo à sua popularidade, foram alvo de carinhosas manifestações dé simpatia, mas o povo de La Coruna envolveu, no mesmo fraterno abraço, todos quantos acompanharam os nossos jogadores,

La Coruna estava em festa! Houve feira e touradas, nas quais tomaram parte os maiores matadores de Espanha. Respirava-se alegria, boa disposição, felicidade, Que boa gente, que bons amigos foram ali encontrar os portugueses nesta digressão por terras de Cervantes! Jamais a esquecerei, por tantas amabilidades e gentilezas que recebemos. Não me faltasse o espaço e muito teria de recordar, mas a finalidade deste livro é a de falar em futebol…

Perdemos por 4-2 o XVIII Portugal - Espanha em futebol.

A nossa equipa poderia ter vencido o encontro? É verdade que sim. Mas se o resultado nos tivesse sido favorável, seria lógico acreditar na nossa superioridade futebolística? Não e não! O futebol espanhol foi sempre e continua a ser superior ao nosso, e o facto de, neste jogo, as coisas poderem ter sido, talvez, resolvidas a nosso favor nos primeiros trinta minutos, em que os portugueses, jogando bem, perderam algumas ocasiões de fazer golos e, mesmo, depois do intervalo, quando o. marcador acusava 2-1 e F. Ferreira não transformou uma grande penalidade que nos daria o empate, tudo isso não chega para negar a incontestável superioridade dos nossos adversários.

Daqui não há que fugir: os espanhóis cedo compreenderam que o profissionalismo é indispensável ao progresso do jogo; sem jogadores inteiramente profissionais - orientados, claro está, por orgânica futebolística capaz - o futebol não passará de uma brincadeira de rapazes mais ou menos jeitosos para darem pontapés na bola. O problema- no país vizinho - foi encarado a sério e os resultados surgiram naturalmente - nem podia ser doutra maneira. Pena foi, porém, que na ilusão de que os modernos processos de jogo destruiriam a tradicional “fúria espanhola”, os técnicos espanhóis não tivessem acompanhado os progressos da táctica do jogo. Erro incompreensível e que Jevou a equipa nacional espanhola a sofrer tremendos desaires…

Por cá, a quando da realização do XVIII Portugal - Espanha, que jogámos na Corunha em 6 de Maio de 1945, continuava a pensar-se, como num sonho, que a guerra civil havia destruído o futebol espanhol e dava-se, como amostra, a fraca exibição da equipa que defrontámos dois meses antes no Estádio Nacional!!

Depois do jogo, vá de nos lembrarmos dos remates a razar a trave ou a bater nela, as defesas de sorte do guardião espanhol, uma grande penalidade que se perdeu e mais algumas que o maroto do árbitro não marcou, etc., etc… O costume… Quando, afinal, perdemos em La Coruna porque a equipa adversária nos foi superior e porque o futebol do País que defrontámos era e é - não tenhamos dúvidas nem ilusões! - melhor do que o nosso.

No que respeita à minha exibição nesse jogo, limito-me a dizer que, mais uma vez, fui o autor dos dois golos da equipa nacional portuguesa, e a transcrever parte de um artigo escrito por Cândido de Oliveira:

- “…Quem esteve na Corunha pôde confrontar, durante os 90 minutos, a classe dos cinco avançados espanhóis e dos cinco avançados portugueses e concluir: a diferença é flagrantemente favorável aos espanhóis. Peyroteo é, entre os portugueses, o único que pode ombrear com os espanhóis; os restantes, não”.

Javier Barroso, presidente da Federação Espanhola, afirmou: “Peyroteo simplesmente espantoso!” (Revista “Stadium”)

 

Portugal, 4 - Espanha, 1

 

Pela primeira vez na história do futebol dos dois países, Portugal venceu a Espanha ein jogo oficial por 4-1, em Lisboa, no dia 26 de Janeiro de 1947.

É certo que em encontros anteriores, o nosso grupo representativo poderia ter batido o da Espanha, mormente nos dois jogos realizados em Lisboa, empatados a duas bolas e, mais recentemente, no que se disputou na linda cidade de La Coruna, do qual os espanhóis sairam vencedores por 4-2. Mas, se de qualquer desses encontros a nossa equipa tivesse saído vencedora, não seria acertado atribuir a vitória à maior valia do futebol lusitano em confronto com o espanhol. Os nossos adversários apresentaram-se nesses encontros melhor preparados física e tecnicamente do que a grande maioria dos jogadores portugueses, e já me referi às razões que justificaram essa superioridade. Apenas num só ponto os portugueses deram clara indicação de supremacia: na táctica do jogo.

As equipas espanholas utilizaram processos tácticos antiquados, semelhantes aos que quase todas as equipas do Mundo adoptaram antes do advento do WM, apenas com a “variante” de fazerem recuar o médio centro e um médio lateral, entregando-se ambos à permanente vigilância ao avançado-centro português; no respeitante à tarefa imposta aos restantes componentes da equipa, o sistema táctico assentava em processos que o moderno WM destronara. Quer dizer: enquanto os médios, interiores e extremos espanhóis sofriam as consequências de uma marcação cerrada, imposta pelos modernos sistemas tácticos - quando se defende a própria baliza, claro está - os nossos interiores, alternadamente, os médios e extremos gozavam de relativa liberdade, o que, evidentemente, causava dificuldades à equipa espanhola. Só a comprovada inferioridade técnica e atlética de grande parte dos nossos jogadores em relação à dos espanhóis impediu a derrota destes.

Poderá agora objectar-se que, tendo as nossas equipas beneficiado de certa liberdade de movimentos, mercê das deficiências tác- ticas dos nossos adversários, não_ seria ilógico pensar-se e admitir-se a vitória da equipa portuguesa! É exacto; e por isso mesmo já disse que poderíamos ter ganho alguns dos jogos disputados imediatamente a seguir ao fim da guerra civil, quando os espanhóis estavam já mais ou menos bem preparados técnica e atlèticamente, mas inferiores a nós quanto aos sistemas tácticos baseados no moderno WM que os portugueses praticavam com razoável acerto e conhecimento. Mas a verdade é que a táctica está em tudo dependente do maior ou menor apetrechamento técnico dos jogadores, e os espanhóis, à maior capacidade táctica dos portugueses, opuseram sempre um muito superior conhecimento dos pormenores da técnica do jogo - boa finta, bom toque e domínio de bola, óptimo jogo de cabeça e, a culminar, remate fácil, rápido, fulgurante - tudo isto assente numa capacidade físico-atlética impressionante: boa corrida, bom tempo de entrada à bola (antecipação), bons no jogo alto e… fôlego de gato!

Sendo assim, aceite-se, com verdadeiro sentido das realidades futebolísticas, que a maior capacidade técnico-atlética dos jogadores espanhóis, anulava e vencia a melhor táctica dos portugueses, só não acontecendo isso quando a sorte e tantos outros imponderáveis do jogo penderam para o nosso lado.

As considerações que acabo de fazer acerca dos encontros disputados anteriormente pelas equipas de Portugal e da Espanha podem, à primeira vista, parecer descabidas neste momento em que mais apropriado seria apreciar o que se passou no XIX Portugal - Espanha, até mesmo porque, ao referir-me, a seu tempo, aos anteriores prélios, deveria ter abordado, também, e com maior clareza, o único ponto em que chegámos a ser superiores aos espanhóis: táctica de jogo. Porém, julguei ,mais aconselhável guardá-lo para agora, evitando, tanto quanto possível, repetições escusadas e, até, para que os elementos que me ajudarão a estabelecer certos pontos de contacto entre os jogos de então e os actuais, estejam mais vivos na memória de todos nós.

Ficou dito e, quanto a mim, sobejamente provado, que o futebol espanhol, no respeitante ao poder atlético e capacidade técnica dos seus jogadores, era muito superior ao nosso, superioridade que vinha sendo notada desde os tempos dos Zamoras, dos Regueiros, Langaras e tantos outros grandes futebolistas.

Durante muitos anos as duas equipas adoptaram processos tácticos idênticos, e como os espanhóis eram tecnicamente mais perfeitos, aliando à técnica, ou seja, à execução, um superior poder atlético, o prato da balança tinha, fatalmente, de pender para o seu lado. Mas à medida que o tempo foi passando e o futebol evoluindo, começou a notar-se que a anterior supremacia espanhola não era tão acentuada como em épocas mais distantes. É que os espanhóis acompanharam a evolução técnica do jogo e sempre cuidaram da preparação física dos seus atletas, mas mantiveram os mesmos processos tácticos, ao passo que os portugueses, melhorando um pouco no capítulo técnico do jogo, embora esbarrando com dificuldades de toda a ordem, não podendo, por isso, atingir o mesmo grau de perfeição técnica, valiam-se, de mistura com vontade e querer, de sistemas tácticos para dificultar a acção dos seus eternos rivais.

O futebol deu um grande passo em frente quando da alteração dás suas leis, relativamente ao “fora de jogo”, alteração que motivou o estudo e adopção do célebre WM de Chapman.

 

Abro aqui um parêntesis para esclarecer os leitores menos conhecedores, de que David Jack, antigo”jogador inglês e autor do livro intitulado “ Soccer”, afirma ter sido Buehatt o criador do WM e que Chapman apenas o passou dá teoria à prática.

Retomemos o fio da meada.

Algum tempo depois de já noutros países o WM ser um facto, os nossos orientadores técnicos e treinadores apadrinharam-no e as nossas equipas (qual delas a primeira?) passaram a utilizá-lo. A partir desse momento -com os espanhóis ainda arreigados às antigas tácticas - a selecção nacional portuguesa começou a impor-se e a baixar o nível de supremacia espanhola.

Cada equipa com suas qualidades e defeitos, entrámos no relvado do Estádio Nacional na tarde de 26 de Janeiro de 1947 para disputarmos o XIX Portugal - Espanha.

A Espanha perdeu e perdeu bem! O resultado de 4-1 dispensaria comentários ao jogo se os números, em futebol, não fossem, muitas vezes, enganadores, e, neste encontro, assim aconteceu. Derrotámos o adversário por 4-1, mas se no final do jogo o marcador acusasse um saldo a nosso favor de 6 ou 7 golos, não havia razão para se reclamar da justeza do resultado!

A turma espanhola era muito melhor do que as que defrontámos nos jogos empatados a duas bolas e, porventura, um tanto superior à apresentada na Corunha. Todos os jogadores se mostraram óptimos no controle da bola, no passe curto, jogo de cabeça, bom toque de bola e bons atletas. Mas num pormenor a equipa espanhola foi confrangedoramente inferior - pior até do que nos jogos anteriores: na “ Tácticà”. Começaram o jogo com a formação WM mas a breve trecho compreenderam não estarem à altura de prosseguir. Tentaram, depois, enquadrar-se no sistema táctico do adversário, o que de nada lhes valeu, evidentemente.

Em Espanha nenhuma equipa de clube utilizara, ainda, o WM e, sabido como é que as selecções nacionais são constituídas por elementos vindos das equipas de clube, como poderiam os jogadores espanhóis - por muito bons executantes que fossem - adaptar-se, em poucos minutos, a um processo de jogo que para eles era, apenas, conhecido em teoria? De maneira nenhuma - é a resposta. Foi um erro indesculpável do seleccionador espanhol.

Na meia dúzia de treinos que a equipa representativa da Espanha realizou, experimentou - ao que parece com bons resultados - o nosso já muito conhecido WM, impondo-o à equipa como se fosse para defrontar um conjunto desconhecedor do sistema ou de baixa valia!!! Os nossos amigos erraram no prognóstico, porque encontraram pela frente onze rapazes perfeitamente identificados e integrados no sistema que eles vinham experimentar!

O futebol não permite nem admite improvisações; os nossos adversários para este XIX encontro, não pensaram como nós e, por isso, desceram ao relvado com um sistema táctico improvisado, não tendo em consideração que os antagonistas, por mais experimentados, melhor saberiam tirar partido dessa improvisação… Uma táctica não pode assimilar-se de um momento para ó outro nem dela se tirará pleno rendimento, senão depois de um longo período de experiência e adaptação, maior ou menor conforme a inteligência e condição técnica dos jogadores da equipa.

Vistos os factos, analisados e ponderados à luz do que se passou neste Portugal - Espanha, provou-se a grande vitória dos modernos processos tácticos - WM e suas possíveis variantes - em contraposição aos antigos sistemas defensivos e atacantes. Este um dos aspectos curiosos do prélio de que vimos tratando.

E chegámos ao momento de tirar conclusões acerca dos jogos anteriormente disputados. Não é difícil concluir-se, pois, que os resultados conseguidos pela “equipa de todos nós” -e que não podem considerar-se maus de todo - não assentaram na maior valia do futebol português em relação ao do País vizinho, relativamente aos pormenores físico-atlético-técnicos do jogo. Apenas nos servimos de melhor processo de jogo e com ele pudemos disfarçar um pouco a nossa inferioridade atlético-técnica, mas daí a pensar-se em igualdade ou superioridade do nosso futebol em confronto com o dos espanhóis, vai um grandíssimo passo… Esta é a verdade, que suponho não poder sofrer contestação, pelo menos contestação séria…

Ora, ao referir-me a um anterior encontro entre as duas selecções, escrevi: Mas um dia virá em que os espanhóis encontrem pela frente uma equipa portuguesa atlético-técnico-tacticamente bem preparada. Se isso suceder, então os nossos vizinhos terão muito que contar… assim eles se mantenham agarrados aos antiquados processos de jogo!

Tal pensamento tornou-se, felizmente, em realidade, e a equipa de Espanha perdeu por 4-1, resultado lisongeiro para o nosso adversário, como já disse.

Pois é verdade; para este XIX Portugal - Espanha, foi possível, mercê de excepcional forma em que se encontravam os jogadores, formar-se uma selecção capaz de praticar bom futebol e de levar de vencida o nosso antagonista. Resumindo: Se em encontros anteriores a superioridade da equipa portuguesa foi notória no capítulo táctico do jogo, contra a superioridade atlético-técnica dos espanhóis, donde resultava, muito naturalmente, a supremacia do futebol do País vizinho em relação ao nosso, e uma vez a nossa equipa constituída por jogadores em óptima condição atlético-técnica comparável à dos adversários e tàcticamente a eles superiores, não foi algo difícil vencer por 4-1 essa equipa espanhola. E não foi só vencer: foi vencer e convencer, tanto os espanhóis como todos quantos assistiram a este encontro, da justeza do resultado conseguido pela nossa equipa nacional.

Desta feita pelo menos, o nosso futebol foi algo superior ao espanhol.

E assistiu-se, também, a uma esmagadora vitória dos modernos processos de jogo sobre os antigos…

 

E, agora, falemos um pouco de outros pormenores de equipa que, sem dúvida nenhuma, muito contribuíram para a boa exibição do conjunto português e que, por outro lado, destroçaram a equipa antagonista.

Desde há muito que os grupos espanhóis vinham adoptando o sistema de recuar um dos médios de ataque com o objectivo de reforçarem a guarda ao avançado-centro contrário, já de si confiada ao médio-centro. Por isso, não seria descabido admitir-se que, neste XIX Portugal - Espanha, o processo se manteria, muito embora estivéssemos prevenidos contra a hipótese de o adversário utilizar o WM como base de movimentação e colocação dos seus elementos no terreno. Mesmo assim, quanto a este pormenor, estávamos certos de que os espanhóis não confiariam a um só jogador o “policiamento” do eixo do ataque português e, por via disso, além do estudo e ponderação das forças e fraquezas do adversário, estudámos jogadas que facilitassem, quando bem executadas, a missão do ataque português. Assim, tendo em atenção o recuo do defesa central e de um dos médios de ataque da selecção espanhola, pensou-se em tirar todo o proveito possível da liberdade que tal plano de jogo daria, alternadamente, a cada um dos nossos interiores.

Os esquemas seguintes dão uma mais perfeita noção de como esperávamos que os espanhóis actuassem e do aproveitamento dessa circunstância:

o quadro n.° 1 indica-nos que toda a linha atacante da equipa portuguesa tem guarda à vista, excepto o nosso interior direito, que dispõe de liberdade total; vê-se, também, que o avançado-centro tem atrás de si o defesa-central e à frente o médio esquerdo adversários.

O quadro n.° 2 mostra-nos que o interior esquerdo português de posse da bola, a endossou ao seu companheiro da direita que correu na direcção da baliza contrária, ao mesmo tempo que o interior esquerdo, depois de ter passado o esférico ao seu companheiro, tomou, igualmente, o caminho das redes, deixando atrás dele o médio que o guardava. Entretanto, mais adiantado, o avançado-centro, no intuito de deixar terreno livre para a manobra do interior direito, desmarcou-se para este lado levando consigo o defesa-central - seu guarda permanente.

Por último, o quadro n.° 3, dá-nos o resultado final da jogada: vê-se que o médio esquerdo veio ao encontro do nosso interior direito e que este entregou a bola, rapidamente, ao seu colega da esquerda, mantendo o avançado-centro a mesma posição no flanco direito, obrigando o defesa central a não interferir na jogada, sob pena de falhar na missão que lhe foi imposta; e se o fizesse, deixaria o centro-avançado ém condições de receber o passe e alvejar a baliza.

Deste modo, ora Travassos, ora Araújo, dispuseram da liberdade suficiente para iniciarem e concluírem os ataques da equipa portuguesa, marcando, cada um, dois golos, mas toda a liberdade que lhes foi dada nasceu da preocupação da defesa espanhola que destacou os seus melhores elementos defensivos (2) para anularem a acção do avançado-centro português.

A ideia dos espanhóis, ao recuarem um dos seus médios, tinha como objectivo tirar ao avançado-centro adversário toda a possibilidade de rematar à baliza, contando e esperando que neste jogo, como nos outros, ele recebesse dos seus interiores passes longos, em profundidade que, invariàvelmente, seriam interceptados. Mas se já por três vezes caíramos nesse erro, não era de admitir a repetição e, por isso, se estudou o processo, aliás simples, de contrariar as intenções dos nossos adversários.

Os espanhóis sacrificaram dois elementos da defesa, pondo-os como sentinelas ao avançado-centro português; nós sacrificámos o nosso avançado-centro, impondo-lhe a tarefa de desorientar a defesa espanhola, desmarcando-se e levando atrás de si os seus dois guardas e deixando, por consequência, o terreno livre a Travassos e Araújo - autores dos quatro golos de Portugal. Tanto assim foi que, no final do encontro, o seleccionador, Dr. Tavares da Silva e o treinador Augusto Silva - dois bons amigos - felicitaram-me pela vitória e acrescentaram: - “Cumpriste o teu dever é certo, mas por teres sacrificado as tuas qualidades de bom rematador em favor do plano táctico da equipa, sem azedume nem egoísmo, aqui estamos a dar-te os merecidos parabéns. Da tua actuação resultou o óptimo rendimento dos nossos dois interiores (Travassos estava presente) que permitiu à equipa levar de vencida os espanhóis”.

Sem dúvida, cumpri o meu dever, esforçando-me por colaborar no bom rendimento da equipa; sabe bem, no entanto, verificar que que o nosso sacrifício é compreendido e apreciado.

O distinto jornalista José Olímpio - que não tenho o prazer de conhecer pessoalmente - escreveu o seguinte no jornal “A Bola” de, salvo erro, 27-1-947:

- “Olhe-se, por exemplo, os casos particulares de Zarra e de Peyroteo. Ao primeiro lance de olhos, ambos “fracassaram” (deixai o pobre do galicismo!) na sua missão especial: “marcar tentos”. No entanto, pondere-se nos diferentes resultados que a sua ida ao choque, deliberadamente, deu para suas equipas. Enquanto Zarra não conseguiu libertar, no verdadeiro instante, os seus interiores, graças à relativa perfeição “estratégica” do conjunto português, Peyroteo arrastou consigo toda a defesa espanhola. E disso beneficiaram os interiores”.

Depois, noutro lugar, o mesmo jornalista pergunta:

-”Onde estavam os interiores quando Peyroteo precisou deles?”

Pelo que ficou exposto, verificou-se que os interiores portugueses gozaram, alternadamente, de plena liberdade de manobra, e isso porque o médio espanhol a quem deveria caber a missão de guardar um dos nossos meias pontas, veio reforçar o “bloqueio” ao avançado-centro lusitano. Ora, dessa movimentação livre de Araújo e de Travassos nasceu a marcação dos quatro golos da nossa equipa. Deu resultado, portanto, o sistema táctico do conjunto da equipa das quinas, mas era lógico admitir, também, que os defensores espanhóis, mormente o médio que recuara, se apercebesse de que deveria cuidar um pouco mais do que até aí do nosso interior!!! E, na verdade, isso sucedeu. Assim, por ter sido hipótese prevista e esperada, assentou-se em que, a partir desse momento, melhor seria começar a utilizar-se o passe em profundidade ao avançado-centro, para terreno apropriado, visto dispor ele agora de maior liberdade. Esta uma hipótese, e, entre outras, mais esta: os interiores e médios lançariam os extremos e estes procurariam enviar a bola para o terreno central de modo a permitir a entrada do avançado-centro de frente para o esférico. Enfim, em tais circunstâncias, seria aconselhável procurar-se uma maior troca de passes de bola entre os cinco da frente, uma vez que os dois interiores já não dispunham da liberdade inicial de manobra. Por outras palavras: seria acertado procurar a colaboração do centro dianteiro de modo diferente daquele que em princípio se fez. E o que sucedeu? A esta pergunta respondeu já, por mim, José Olímpio. No entanto, quero acrescentar que, dentro do campo - e cá fora também - se começou cedo de mais a “viver”, a antegozar a certeza da vitória e se esqueceu o normal seguimento do jogo… É natural que assim tivesse acontecido; pois não era a primeira vez que se ganhava à Espanha?… E de que maneira!!!

Enfim, o que lá vai, lá vai, e o que é preciso é fazer desporto. Tudo o resto são… cantatas e paisagem…

A terminar, um episódio curioso: A Federação Portuguesa de Futebol, que estabelecera um prémio de 3.000$00 (três mil escudos) em caso de vitória da nossa equipa, acabou por aumentá-lo para 5.000$00 (cinco mil escudos)… Não teria sido por iniciativa própria, mas demonstrou boa vontade em atender uma “torcidazinba” feita pelos jogadores junto do Inspector dos Desportos Sr. Capitão António Cardoso, e deste nosso amigo - muito particularmente - aos dirigentes federativos… E ao fim e ao cabo, foram cinco mil escudos -o maior de todos os prémios que recebi em dezasseis anos de futebol! E sabem o que aconteceu? Para satisfazer os pedidos de bilhetes para este memorável XIX Portugal - Espanha, levantei na Federação a bagatela de quatro mil e quinhentos escudos de “papelinhos” de entradas no Estádio; depois, os amigos foram aparecendo, fui entregando os bilhetes e recebendo o dinheiro de cada um dos “clientes” - fora algumas borlas - escudos que fui gastando sem dar por isso… Quando me preparava para receber o chorudo prémio de cinco mil escudos, lembrei-me de que tinha de lá deixar quatro mil e quinhentos escudos. Quer dizer: o prémio não me serviu de proveito. 6 dinheiro recebido por “conta-gotas”, desaparece cómo o fumo dum cigarro. Não tive o prazer de receber, inteirinhos, os famigerados cinco mil escudos de prémio.

Sempre os bilhetes, meu Deus! Malvados bilhetes!!!»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 185 – 203

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