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És a nossa Fé!

Memórias de Peyroteo (28)

«PORQUE NÃO FOMOS AO BANQUETE?

 

Na 6.ª feira ou no sábado - vésperas do jogo - o nosso bom amigo e treinador Augusto Silva, procedeu à distribuição dos convites para o banquete a realizar no Avenida Palace Hotel. Lembro-me de que ao recebê-lo, alguns jogadores, no número dos quais me incluo, disseram:

- “Esperem lá por mim! Não sei falar inglês e os dirigentes portugueses decerto não terão prazer em falar-nos. Pelo menos assim o têm demonstrado!…

Depois do jogo, já no autocarro que nos transportaria ao Rossio, apareceu um dirigente para nos “lembrar” que o banquete era às 21 horas no Avenida Palace Hotel e um dos jogadores disse-lhe;

- “Quando quisemos falar consigo, nunca estava na Federação e agora vem lembrar-nos de que há banquete! Mas não tenha dúvidas de que não vou lá!…”

O facto de termos perdido por dez a zero foi o suficiente para se pensar que os jogadores não compareceram ao banquete por terem sofrido tão pesada derrota. Afirmou-se também que a equipa combinara não comparecer 1 Aqui está outra afirmação infundamentada, injusta e, porventura, maldosa. Ninguém combinou coisa alguma a este respeito, nem a derrota influiu na decisão individual tomada pelos componentes da equipa nacional.

O que não nos pareceu acertado foi:

1- A Federação arrecadar seis ou sete centenas de contos e os obreiros dessa receita receberem cem escudos - menos do que qualquer arrumador ou alugador de almofadas.

2.° - Que nos tivessem vendido os piores bilhetes de entrada no Estádio - para as nossas famílias e amigos.

A verdade pura é esta: se os jogadores tivessem merecido um pouco de consideração a alguns dirigentes federativos; se fossem resolvidos favorável ou desfavoravelmente os seus pedidos; se, enfim, os dirigentes federativos não tivessem andado a fugir de nos falar ou de nos atender quando fomos à Federação, posso garantir que mesmo perdendo por vinte a zero, os rapazes teriam ido ao banquete.

Quando o misto “B. S. B.” perdeu por dez a quatro com o S. Lourenzo de Almagro, no final do encontro, momentos antes de entrarmos para o autocarro que nos conduziria à Baixa, estivemos em amena cavaqueira com os argentinos. E se houve banquete -não me recordo - não creio que os portugueses tivessem faltado todos.

Sei até que dois ou três jogadores portugueses acompanharam os argentinos numa autêntica noite de folia por esta nossa encantadora Lisboa.

 

Todos estes factos culminaram com um inquérito efectuado pela Direcção-Geral dos Desportos e os componentes da equipa nacional de futebol foram castigados com três jogos de suspensão pela falta de desportivismo demonstrada com a não comparência ao banquete.

Sem dúvida, a Direcção-Geral dos Desportos teve razão. Sucedesse o que sucedesse, a verdade é que os futebolistas ingleses de nada foram culpados. Por isso, e só por eles, toda a nossa equipa deveria ter comparecido ao banquete de confraternização. Mais tarde, o castigo foi anulado, servindo-nos isso de consolação para tanta… desconsolação sofrida.

Quando fui ouvido pelo instrutor do processo de inquérito, procurei desculpar-me e aos meus camaradas, mas nada consegui porque, na realidade, faltámos ao banquete.

O que aconteceria se, nesse tempo, como jogador que era, tivesse atacado alguns dirigentes do nosso futebol?

Nem quero pensar nisso!

Agora o que podem dizer é que prestei falsas declarações mas até neste ponto só me cabe meia culpa; a outra meia pertence ao Sporting onde fui aconselhado a não dizer toda a verdade e tudo quanto sabia - como medida de prudência porque eu fazia falta ao clube. Era melhor calar, compreendem?

E foi assim, meus amigos: juro que não houve exigências de dinheiro, e que não combinámos faltar ao banquete. Cada um resolveu como lhe deu na real gana e… apanhou três jogos de suspensão.

A história completa deste Portugal - Inglaterra ainda será feita - se alguém quiser ou puder fazê-la. Por minha parte, acabou-se!

No fim de contas todos nós tivemos maiores ou menores culpas, desde os jogadores ao público que impiedosamente nos assobiou!…

Seja em desconto dos nossos pecados.»

 

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 176 – 177

{ Blog fundado em 2012. }

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