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És a nossa Fé!

Memórias de Peyroteo (27)

«ITÁLIA-PORTUGAL

 Itália, 4 - Portugal, 1

Génova, 27-2-1949

 

Formada por Barrigana; Virgílio, Feliciano e Serafim; Canário e Francisco Ferreira; Lourenço, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano - a equipa nacional de futebol desceu ao rectângulo para sofrer mais uma derrota. Ao fim dos 90 minutos o marcador acusava quatro para a Itália e um para Portugal!

Vitória justa? Punição merecida?

Ao terminar este jogo contra os italianos, recordei aquele outro encontro disputado anos antes, em Milão, contra a Suíça. Em ambos, as arbitragens tiveram preponderante influência nos resultados. O Sr. Mattea, árbitro do Portugal - Suíça, fez tudo quanto podia para “liquidar” o nosso grupo e com uma arbitragem cuja nota saliente foi a flagrante parcialidade a favor dos suíços, conseguiu o seu desejo.

Agora, a 27 de Fevereiro de 1949, no Estádio de Génova, o francês Sr. Sdez, imitou muito bem o seu colega… Não dirigiu o encontro - como lhe competia - preferindo trabalhar a favor da “squadra azzurra”…

Com esta referência não procuro, de modo algum, diminuir ó valor da equipa da Itália nem ofuscar o mérito da sua vitória, mas não me custa admitir que, com uma arbitragem imparcial, o grupo português não tivesse dado melhores provas do seu valor. Remámos contra a maré, até que a descrença nos invadiu, muito embora o público e os próprios críticos desportivos não se apercebessem do nosso desânimo.

A Itália apresentou um grupo equilibrado, um conjunto de bons elementos, atlèticamente bem preparados e bons conhecedores do sistema táctico WM. É inegável terem jogado melhor do que nós, portugueses, mas o resultado poderia ter sido outro…

Ao intervalo Portugal ganhava por 1-0.

No princípio do segundo tempo Barrigana não teve sorte em dois lances - e sofremos dois golos. Feliciano magoou-se e foi “destacado” para o lugar de extremo; esta alteração e a péssima arbitragem do Sr. Sdez abalaram a moral da equipa. Depois… tudo nos correu pelo pior!

A equipa italiana foi superior à nossa, merecendo a vitória sem discussão. Esteve em tarde feliz e mesmo sem a ajuda do árbitro teria ganho a partida, porque jogou mais e melhor.

Admito, sem reservas, que qualquer árbitro cometa erros, mas do- erro involuntário à evidente parcialidade, vai um Mundo de coisas! A parcialidade, nestes casos, cheira a uma coisa muito feia; desonestidade!

 

 

PORTUGAL - INGLATERRA

Portugal, 0 - Inglaterra, 10

Estádio Nacional, 25-5-1947

 

Precisamente na época de 1946/47, quando a Selecção Nacional era constituída por um lote de jogadores em óptima condição física, formando um conjunto de boa capacidade atlética-técnico-táctica, e por isso mesmo, conseguiu as duas primeiras grandes vitórias, que ficaram como mais uma página gloriosa na História do Futebol Por- tugês-batemos a Espanha, em Lisboa por 4-1 e ganhámos à Irlanda, em Dublin, por 2-0 - foi precisamente nessa época que sofremos a mais severa punição em jogos internacionais: Inglaterra, 10 - Portugal, 0.

Uma desilusão! Era lícito esperar-se que no desafio com os mestres ingleses a nossa equipa desse melhor conta de si, ainda que não se esperasse mais uma vitória da turma lusitana porque, na craveira do futebol mundial, os ingleses estavam muito acima de nós, mas como o futebol é um jogo, esse facto permitia acalentarmos esperanças, ainda que fossem vãs, de ganhar aos futebolistas da Velha Albion. Contudo, ninguém pensava na derrota por dez golos sem resposta nem nós, jogadores, julgávamos vir a sofrê-la, muito embora reconhecessemos o valor do adversário e soubéssemos qual a diferença de categoria individual e força de equipa que existia entre as duas turmas. Mesmo assim, não descemos ao rélvado do Jamor antecipadamente batidos, pois todos quantos jogam futebol sabem que nem sempre ganha o melhor…

Está ainda vivo na memória de todos nós aquele jogo em que o Tirsense bateu o Sporting, eliminando-o da Taça de Portugal, desafio em que, felizmente, não tomei parte.

Após os 90 minutos do “Portugal - Inglaterra”, a nossa derrota foi glosada em vários tons. Os “especialistas”, na crítica ao jogo, fizeram as suas considerações, algumas acertadas e comedidas, pondo o dedo na ferida: a incontestável diferença de classe futebolítica.

Também se afirmou que os ingleses jogaram excepcionalmente bem - talvez como poucas vezes o tivessem feito - e a equipa nacional portuguesa, já de si inferior, jogara muito menos do que podia, sabia e estava ao seu alcance. Mas, como sempre acontece, a par dos comentários acertados, fervilharam os boatos tendenciosos, mal intencionados, acerca do comportamento dos jogadores no estágio, em Venda do Pinheiro, chegando ao cúmulo de se dizer que os rapazes haviam feito exigências de dinheiro e, porque a Federação os não atendera, tinham entrado no rectângulo dispostos a jogar para perder, desinteressados do resultado.

Nada há mais falso! Garanto que não houve exigências de espécie alguma. O que se passou pode considerar-se simples e natural nos nossos acanhados meios de incompreensivelmente fingido profissionalismo futebolístico, conta-se em poucas palavras:

Todos nós conhecíamos o valor era “força” da equipa adver- sária, não ignorando as nossas possibilidades. Jogador por jogador, equipa por equipa, admitindo que cada um dos contendores jogasse o seu normal, fácil seria advinhar qual viria a ganhar a partida.

Aos leigos pode parecer que só isto era o suficiente para nos considerarmos batidos no rectângulo, uma vez, que já o estávamos psicologicamente. Mas não levemos as coisas ao exagero; pensemos que os jogadores internacionais não são uns inexperientes nestas andanças da bola. Ter-se na devida conta não só valor do adversário como o nosso próprio valor, não equivale a pensar-se em derrota pura e simples.

Ora, o conhecimento da incontroversa verdade quanto à maior valia da equipa inglesa (quem ousaria negá-la?) levou-nos a pensar não ser desacertado - sem pecado ou crime - pedir ao Seleccionador a sua intervenção, de modo a conseguir que os dirigentes federativos atribuíssem à equipa um “prémio de presença” em jogo internacional e o pedido foi feito por intermédio do nosso capitão de equipa. Portanto, sem mal intencionados atropelos, foi respeitada a escala hierárquica e a ideia teria morrido à nascença se o Seleccionador não estivesse de acordo. Mais tarde disse-nos já ter falado e que os dirigentes haviam prometido “estudar o assunto”. Não se falou mais no caso e aguardámos.

Onde está, pois, a exigência?

Os jogadores sabiam só terem prémio se ganhassem ou empatassem com os mestres ingleses. Em caso de derrota - que seria o mais provável - apenas receberiam cem escudos, ou seja, o valor de uma diária. Quero dizer: os jogadores recebiam, quando em estágio, cem escudos por dia e se perdessem o jogo com os ingleses só teriam direito ao equivalente a mais de um dia de estágio!

Exigência dos jogadores ou incompreensão alheia?

Se fosse de admitir que a organização do jogo acarretaria “déficit” para a Federação, nem sequer nos atreveríamos a pedir um “prémio de presença”. Mas todos nós sabíamos que muitos dias antes do desafio já a lotação do Estádio Nacional estava esgotada; por consequência, o nosso pedido ordeiro era de considerar.

Entretanto, a Federação começou a distribuir pelos jogadores os bilhetes por eles requisitados em tempo oportuno e desde logo verificámos haver reduções de tal ordem que alguns jogadores recebiam menos de metade dos bilhetes pedidos … para pagar!

Até certo ponto concordei com os “cortes” por saber que a serem atendidos todos os pedidos, a Federação teria de reservar mais de um milhar de entradas só para os sectores denominados “cabeceiras”. Mas a verdade é que, nalguns casos, houve exagero de tesourada, embora se argumentasse, para justificar as reduções, que a lotação se esgotara rapidamente…

A rapaziada exteriorizou o seu desgosto quando recebeu quase metade dos bilhetes requisitados, não só porque desejava servir todos quantos neles depositaram confiança em conseguir a almejada entrada no Estádio do Jamor e ainda porque os que ficavam sem bilhete só admitiam a hipótese de terem sido preteridos por outros mais amigos.

E assim começou a confusão.

Os menos calmos diziam que se todos nós fizéssemos o mesmo, rejeitariam os bilhetes, mas como as opiniões se dividiam, cada um ficou com a quantidade que lhe coube, e apresentamos ao seleccionador a reclamação que julgámos ser justa.

Disse-nos ter falado com os dirigentes mas o certo é que tudo ficou na mesma, salvo um ou outro caso isolado.

Mas o pior aconteceu quando a rapaziada verificou os lugares que lhe foram distribuídos, tanto de cabeceira como de bancada central ou lateral. Apesar de pagarmos como qualquer outro comprador, os lugares eram dos piores: os da bancada central eram junto da lateral e estas o mais próximo possível das cabeceiras! Mesmo ao “avançado-centro” distribuíram bilhetes “às pontas”!

Deste modo, os jogadores pagaram autênticas bancadas laterais ao preço da central e as “quase cabeceiras” pelo custo de bancadas laterais! E pagaram - é bom não esquecer isto.

Estava provado que as famílias e amigos dos jogadores não mereciam tão bons lugares como qualquer comprador de ocasião. Além de tudo isto, ainda apareceram, no estágio, algumas pessoas exibindo bilhetes dos melhores sectores…

Para reclamarmos procurámos qualquer dirigente federativo mas nenhum aparecia, ou se aparecia dava-nos respostas evasivas como esta: “-Vamos ver o que se pode fazer, mas vai ser difícil, porque na Federação há apenas umas dúzias de bilhetes marcados por pessoas que já sabem quais os lugares que lhes foram destinados; vamos a ver…”

Entretanto, começaram a chegar ao estágio os “clientes” dos jogadores e ao saberem que os bilhetes não chegavam para todos, mostravam-se aborrecidos, não acreditando no que dizíamos. Não havia forma de os convencer, chegando-se a trocar palavras pouco amáveis que tinham influência desastrosa no espírito de alguns jogadores em vésperas de tão importante desafio.

Após um dos últimos treinos alguns seleccionados foram à Federação, mas um funcionário superior informou não estar presente qualquer director, mas quando íamos a sair entrou um que amavelmente nos cumprimentou e seguiu para o seu gabinete mostrando assim não querer demorar-se em conversa conosco. Procurámos entrar novamente em contacto com o funcionário superior que nos atendera, mas isso levou seu tempo pois mandou recado pedindo-nos para esperar. Cerca de 15 minutos depois apareceu e com a maior naturalidade perguntou:

- “O que desejam?”

- “Teríamos muito empenho em  falar com o director que entrou há pouco. De resto o senhor já sabia o que pretendíamos…

- “Pois é, mas o director quê entrou há bocadinho já saiu!

- “Então o senhor sabia que desejávamos falar-lhe e não lhe disse nada?”

- “Não; não disse, porque me passou de ideia!

Estamos todos a entender, não é verdade? Decerto não teria havido receio de sermos portadores de qualquer doença contagiosa… Verificada a impossibilidade de entrarmos em contacto com os dirigentes que tratavam da distribuição de bilhetes, resolvemos fazer o nosso rateio e atender os amigos na medida do possível, não sem nos sentirmos descontentes e vexados com a forma pouco atenciosa como estávamos sendo tratados. Numa última tentativa recorremos ao seleccionador mas este, embora dando-nos razão e querendo ajudar, nada podia fazer. Estávamos em presença de um facto consumado.

Ora este estado de coisas não podia, de modo algum, contribuir para a boa e indispensável disposição dos jogadores e foi precisamente a má disposição em que se encontravam que motivou nova diligência recordando o pedido de “um prémio de presença”. Mais uma vez o Dr. Tavares da Silva nos disse ter falado, novamente, com os dirigentes federativos mas que até ao momento nada se resolvera. Nem sim, nem não - antes pelo contrário…

Na noite de sexta-feira anterior ao jogo, Álvaro Cardoso, capitão da equipa, recomendou que não mais se falasse em bilhetes nem em dinheiro. Todos nós nos devíamos entregar apenas à ideia de que no domingo iríamos defrontar uma poderosa equipa de futebol. A camisola das quinas estava acima de todas as questões e nós como desportistas só devíamos pensar em defende-la com todas as nossas forças e saber.

Todos cumprimos, mas a verdade é que não eram boas as relações existentes, nesse momento, entre jogadores e alguns dirigentes federativos. Não era bom o estado de espírito da equipa nacional.

No entanto, todos nós teríamos ficado satisfeitos se a Federação tivesse mostrado desejo, por mais insignificante que fosse, em resolver os nossos problemas. Bastaria para tanto que nos tivessem dado uma simples explicação acerca do motivo por que aos jogadores foram distribuídos , tão maus lugares. E é possivel que nesse capítulo a razão estivesse do lado dela - Federação. Mas não se dignaram dizer-nos uma única palavra de conforto moral; não lhe merecemos a consideração de qualquer resposta aos pedidos feitos por intermédio do Seleccionador, Dr. Tavares da Silva!

É vexatório,' não é? Mas foi assim; paciência!

É necessário esclarecer - repetindo - que ao solicitarmos um “prémio de presença” para o encontro Portugal - Inglaterra, tivemos o cuidado de salientar que se tratava de uma sugestão com a qual, evidentemente, a Federação podia não concordar, e sendo assim, não falaríamos mais no caso, exactamente para que um simples pedido não fosse tomado (?) por exigência.

Mas o silêncio que se fez em volta do nosso pedido não fazia crer nem supor que alguém lhe atribuíra foros de exigência. Dou a minha palavra de honra que isso nunca esteve no espírito dos jogadores e se qualquer dirigente nos tivesse informado da interpretação (errada aliás) que estavam dando ao nosso pedido, afirmo categoricamente que os jogadores não mais falariam nele.

Daqui resultou, como não podia deixar de ser, uma frieza dos seleccionados para com alguns dirigentes federativos; e comentava-se:

- “Eles não nos nos ligaram importância e, portanto, se vierem aqui ao estágio hoje ou amanhã (véspera e ante-véspera do jogo) não falaremos nos bilhetes nem no prémio, mas também não lhes ligaremos nenhuma…”

Era este o estado de espírito dos jogadores e não se pode dizer que fossem eles os principais culpados.»

 

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 170 – 176

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