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És a nossa Fé!

Memórias de Peyroteo (23)

(cont.)

 

«II IRLANDA-PORTUGAL

Portugal 2 -Irlanda 0

Dublin - 4/5/941

 

Tenho à minha frente o jornal “A Bola”, datado de 5 de Maio de 1947, onde leio:

1.° golo de Portugal:

“… o médio português passou a Peyroteo que, á entrada da grande área, a entregou a Jesus Correia. O extremo português desceu velozmente, bateu os adversários na corrida e, com um belo remate, obteve o primeiro golo de Portugal. Eram passados 13 minutos.”

2.° golo de Portugal:

“… Aos 33 minutos, Moreira apossou-se da bola e lançou Peyroteo que serviu Jesus Correia. A bola foi novamente a Peyroteo e Araújo recebendo-a do avançado-centro português fuzilou a baliza com um remate certeiro…”

 

Desta feita não marquei golos mas com dois “passes de morte” dei dois a marcar. E foi também neste jogo que tive o maior “falhanço” da minha vida futebolística.

Impressionou-me deveras:

Dois ou três minutos depois do jogo ter começado, Jesus Correia centra primorosamente; bola a meia altura, passa em frente do defesa central que me guardava. Corri na direcção oposta ao nosso extremo direito, fiquei sozinho, a bola veio ter comigo e eu, calmamente (?) levanto o pé para atirar à baliza mas o esférico passou-me… por entre as pernas!…

Que falhanço e que arrelia! Foi um fiasco mas a seguir, dois “passes mortais” e dois golos de Portugal serviram-me de consolação.

Este jogo representou a primeira vitória da equipa Nacional no estrangeiro. Vencemos jogando bem, mas 2-1 talvez traduzisse melhor a justeza do resultado.

 

Anoto, a título de curiosidade: nas duas memoráveis vitórias da nossa equipa - em Lisboa, contra a Espanha (4-1) e fora de casa, contra a Irlanda (2-0), não marquei nenhum golo. Quer dizer: só marquei quando a equipa portuguesa necessitava não perder por muitos golos de diferença ou precisava de um empate. Noutros jogos, marquei o golo da vitória, facto que me enchia de orgulho mas não de vaidade porque o golo é o produto do trabalho do conjunto. Sempre reconheci esta verdade e não estou arrependido.

 

Para a Irlanda tivemos a felicidade de viajar na agradável companhia de Cândido de Oliveira e Ricardo Orneias, distintos jornalistas, antigos seleccionadores nacionais de futebol e meus bons amigos.

De Lisboa a França de comboio; atravessamos, de barco, o Canal da Mancha, entre Calais e Dover, e o Mar da Irlanda até Dublin.

Viagem magnífica que Mestre Cândido de Oliveira aproveitou para nos contar algumas histórias do seu tempo de caçador de elefantes brancos e de dentista do Gandhi. A riqueza de pormenores e o ar de convicção com que nos contava os. episódios da sua vida, eram de modo a fazer acreditar quem o não conhecesse mas eu, minha mulher e Ricardo Orneias, sabíamos bem com que brincalhão estávamos conversando. Mas se nós não o levávamos a sério, o certo é que não aconteceu o mesmo com o farmacêutico duma localidade bem próximo de Lisboa que, na noite de um domingo, foi atacado de fortes dores de dentes tendo procurado o”dentista” Cândido de Oliveira! O nosso amigo bem tentou convencer o farmacêutico de que nada percebia de prótese dentária mas o doente tanto insistiu que Cândido de Oliveira foi obrigado a ver-lhe a boca, onde lobrigou um grande abcesso quase a rebentar. Tocou-lhe e foi o suficiente para o crédulo farmacêutico sentir imediato alívio. Desinfectada a. boca do doente, este lá se foi embora, não sem que Cândido de .Oliveira lhe recomendasse a necessidade absoluta e urgente de, no dia seguinte, procurar o dentista da terra porque, disse ele:” “o meu curso de dentista foi tirado na índia e não serve para exercer o “mister” em Portugal!”

Tudo isto resultou das histórias contadas, para entreter, ao serão, na farmácia da aldeia, conseguindo convencer o próprio farmacêutico de que fora o dentista de Gandhi e de outros homens célebres, na índia, onde, ao mesmo tempo, se dedicava, por desporto, à caça de elefantes brancos!…

Não sei se já nessa altura Mestre Cândido de Oliveira possuía carta de condutor de automóveis, mas a verdade é que o nosso antigo Seleccionador Nacional se entregou, durante toda a viagem, desde Lisboa a Paris e a Calais, a estudar mecânica automobilística. Munido de vários livros sobre a matéria, fechava-se no seu compartimento da carruagem-cama e até altas horas da noite estudava… estudava… Depois, de manhã cedo, ao pequeno almoço ou quando nos encontrávamos a cavaquear, pedia-me que o interrogasse sobre mecânica. Dava-me o livro para eu fazer perguntas e verificar se as respostas eram acertadas. Devo confessar que em questões de mecânica podia considerar-se um “ás” mas quanto à condução a coisa não lhe era tão fácil. Vejamos:

Se não estou em erro, o Sporting ia jogar às Salésias e Mestre Cândido de Oliveira era o orientador técnico da nossa equipa. Aproximava-se a hora do encontro e o Mestre não aparecia, facto que nos contrariava muito por conhecermos de sobejo a sua matemática pontualidade. Mas desta vez creio que chegou ao campo já depois de o jogo ter principiado, pelo que só o vimos durante o intervalo.

Procuramos saber o que se teria passado mas a resposta foi apenas esta: “nada de especial…

Contudo, após o jogo resolveu-se a contar-me o sucedido:

- “Vinha de Algés para Belém e para chegar mais depressa, meti o “Peugeot” (de série antiga) por um atalho. A certa altura tive necessidade de cuspir e cuspi sem reparar que o vidro estava corrido para cima; acto contínuo, tirei da algibeira o lenço para limpar o vidro, e quando procedia a este trabalhinho esqueci-me do volante! Claro que sucedeu o inevitável: atirei o carro contra um muro. Aqui está porque cheguei atrazado.”

Agora estudava mecânica automobilística e até chegou a fazer projectos acerca da possibilidade de fabricar pneus que dispensassem as câmaras de ar. Hoje já existem mas desconheço até que ponto o nosso Mestre de futebol contribuiu para a realização de tais fabricos…

Mestre Cândido de Oliveira - o homem que me deu a honra de me convocar, pela primeira vez, para fazer parte da turma nacional - é, embora não pareça, um brincalhão cheio de fina graça, espirituoso e óptimo cavaqueador.

 

A travessia do Canal Mancha foi encantadora, num bom barco e mar-chão. Outro tanto não podemos dizer da travessia do Mar da Irlanda.

Embarcámos cerca das 4 horas da manhã, no Cais do porto inglês de Holyhead. Madrugada fria; soprava forte ventania e o mar estava bastante agitado fazendo balouçar o barco como berço de criança.

Ao contrário de mim, que gosto de viajar com mar encrespado e não enjoo, Cândido de Oliveira sentia-se um tanto mal disposto, motivo por que procurou abrigo no compartimento mais ao fundo do navio, quase encostado à quilha, por lhe parecer que aí o balanço era menor!…

Eu, minha mulher e Ricardo Orneias fomos para o tombadilho superior, à frente da ponte de comando, sentámo-nos num banco, agazalhados até às orelhas. O vento frio ajudava a desenjoar…

E o caso é que estivemos entretidos, ao frio e ao vento, cantando as cantiguinhas mais em voga nesse tempo, contando anedotas e, de espaço a espaço, falando um pouco em futebol, até ao romper da manhã. Mestre Cândido só apareceu já com dia claro, à hora do pequeno almoço e contou-nos que durante a noite tinha visto peixes- voadores do tamanho de tubarões muito grandes! Claro que não procurámos “desmenti-lo” porque o enjoo podia muito bem tê-lo perturbado um pouco. Sim porque o enjoo é uma “doença” que transtorna o maior valente e os doentes não devem ser contrariados…

Nós, que não íamos no conto do… dentista, também não comemos a “isca” dos enormes peixes-voadores!…

 

O Seleccionador, Dr. Tavares da” Silva, atendendo às dificuldades criadas pela guerra, resolveu levar, acautelando possíveis faltas de géneros alimentícios, uma razoável quantidade de açúcar, compotas e vinhos engarrafados, tudo destinado a reforçar a alimentação dos jogadores, em caso de necessidade.

Não se enganou o nosso bom amigo e Seleccionador Nacional, porque, de facto, as refeições que nos serviam eram… insuficientes. Por isso, após o almoço e jantar, mandava distribuir pela rapaziada uma dose de compota e, ao café, racionava-se o açúcar, por ser pouco.

Havia duas pessoas encarregadas da distribuição. Da compota era o Ruben, funcionário da Federação Portuguesa de Futebol, e do açúcar, o Inspector dos Desportos, Sr. Capitão António Cardoso - por isso lhes chamávamos o “compoteiro” e o “açucafeiro”.

Os géneros alimentícios eram guardados pelo Ruben, no seu quarto fechado a “sete chaves”, mas o certo é que alguns rapazes conseguiram arranjar uma “oitava chave” e, de vez em quando, iam ao quarto do zeloso funcionário da Federação, “escamotear” um pouco de doce. O Ruben fazia um barulho dos diabos, irritava-se mas nunca chegou a saber quem eram os gulosos.

O mais curioso, porém, passou-se na Alfândega, em Dublin.

Quando os componentes da nossa equipa chegaram ao Aeroporto, houve que mostrar as “mercadorias” que faziam parte da bagagem. Tudo estava bem excepto este pormenor: as garrafas estavam empalhadas e logo o funcionário da alfândega, em óptimo francês, advertia:

- “Tenho muita pena mas as garrafas não podem sair, a não ser que os senhores deixem ficar a palha que as envolve”.

Alguém ali ao lado, comentou com um sorriso:

- “Se nos dão as garrafas é o essencial. Nós não comemos a palha…”

Amável e sorridente mas carregando o sobrolho, o funcionário alfandegário retorquiu, compassadamente:

- “Sim; nós também não comemos palha, mas se ela não for queimada imediatamente qualquer animal a pode comer. Temos de evitar que tal se dê pois ninguém nos garante que essa palha não seja portadora de micróbios nocivos à saúde dos animais!”

O portuguesinho espirituoso meteu a viola no saco! Embatucou!

Sairam as garrafas e a palha ficou para ser queimada em seguida.

E digam lá que os irlandeses não são cuidadosos até com a higiene alimentar dos seus gados!

 

A fechar estas notas que constituem para mim recordações inolvidáveis, lembro-me de que as horas que estivemos em Londres foram aproveitadas em magnífico passeio pela cidade, no automóvel de Ribeiro Carvalho, locutor da B. B. C. que, por fim, nos levou a falar para os ouvintes portugueses em programa especial daquela importante emissora oficial inglesa.»

 

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 143 - 147

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