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És a nossa Fé!

Memórias de Peyroteo (21)

(cont.)

 

«IX PORTUGAL - FRANÇA

Portugal 2 - França 4

Estádio Nacional23/11/47

Golos: Araújo 1 -Peyroteo 1

 

Mais um resultado lisonjeiro para a equipa Nacional Portuguesa. Perdemos por 4-2 mas a verdade é que os gauleses, desta feita, poderiam ter vencido por maior diferença de golos. Mereciam-no. Foram, incontestavelmente, superiores em todos os pormenores do jogo. Além de jogarmos muito menos do que os franceses, a nossa equipa não actuou de modo a dificultar a acção dos antagonistas. Os erros tácticos cometidos pela equipa portuguesa foram às mãos cheias… Mas melhor será não entrar em pormenores acerca deste encontro porque isso levar-me-ia, certamente, a discordar da formação da equipa, da sua preparação, do estágio de dois dias á beira-mar e até da escolha do capitão. E o capitão… fui eu! É verdade!

Pela primeira e única vez me colocaram os “galões” de capitão e a escolha foi infeliz. O Comité de Selecção cometeu, além de outros, mais esse tremendíssimo erro. É que entre os seleccionados estavam dois capitães de clube - Amaro e Azevedo - sendo o primeiro o mais antigo elemento da turma nacional. Assim, por direito e por mérito próprios, o jogador “belenense”, deveria ser, indiscutivelmente, o capitão do grupo das quinas.

Quando o Dr. Virgílio Paula me informou de que o “Comité” resolvera nomear-me capitão da equipa, justificando a escolha pelo facto de eu ter um brilhante passado no grupo nacional, fiquei deveras surpreendido, mas respondi-lhe sem qualquer hesitação: desculpe, Doutor, mas não aceito o cargo. Se me permite, penso que o capitão da nossa equipa deve ser o Amaro. É, há muito, capitão do “Belenenses”; além disso é o mais antigo jogador do “team” nacional. Não deve, portanto, quebrar-se uma velhíssima tradição que, decerto, virá criar mau ambiente no nosso grupo, factor a considerar e a evitar… Repito: recuso-me a aceitar a distinção!…

 

O Doutor Virgílio Paula argumentou tratar-se duma resolução do “Comité” e, por isso, julgava aconselhável eu aceitar a nomeação. Prometeu, no entanto, trocar, novamente, impressões com os seus colegas, mas disse estar certo de que o “Comité” manteria a resolução tomada.

Sem perda de tempo, procurei o Amaro e o Azevedo e contei-lhes o sucedido, informando-os de que me recusara a capitanear a equipa. Conversámos sobre o assunto e no “bate-papo” entre os três, o Amaro contou-me… (???) e terminou dizendo: “Por tudo isto e ainda na contigência de arranjares algum sarilho com o “Comité”, o melhor que tens a fazer é aceitar”.

Mesmo depois de ouvir o Amaro, ainda mantinha a esperança de que os seleccionadores revogassem a decisão inicial, mas isso, infelizmente, não aconteceu. Na manhã de sábado - véspera do encontro- o Dr. Virgílio Paula disse-me apenas isto: “Nós mantemos a decisão. O Peyroteo capitaneará a equipa nacional. Se recusar, teremos de reunir a fim de indicarmos outro, podendo, no entanto, a sua atitude ser tomada como acto de indisciplina. Que resolve?”

Respondi-lhe que, sendo assim, não havia outra solução e finalizei com estas palavras: Acredite, Doutor, que tudo isto me penaliza e fere profundamente.

Ainda hoje pergunto a mim mesmo: O “Comité” de Selecção, sinceramente, nomeou-me “capitão” pelo facto de eu possuir um brilhante passado na equipa Nacional? Histórias para entreter crianças grandes 1…

O Amaro, se um dia escrever um livro de memórias, dirá aos seus leitores (e eu serei um deles) qual o motivo por que não foi ele o capitão da nossa equipa nacional de futebol neste jogo contra a França.

Dizer eu, aqui? “Deus mi livri; nesses fitas é que eu não cai” - como diria o meu criado preto, lá em Angola!

E este Portugal - França terminou com a nossa derrota por 4-2, merecendo os franceses ir mais além. Mas eu fico-me por aqui…»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 139 - 142

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