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És a nossa Fé!

Memórias de Peyroteo (20)

(cont.)

 

«VIII FRANÇA-PORTUGAL

França 1 - Portugal 0

 

Equipa de Portugal: - Azevedo; Cardoso, Feliciano e Serafim ; Amaro e Francisco Ferreira; Jesus Correia, Araújo, Peyroteo, Travassos e Rogério.

Em Paris, no Estádio de Colombes, a 23 de Março de 1947, perdemos o VIII França-Portugal.

Perder, fora de casa, por 1-0 não é derrota que deslustre; contudo, neste caso, bem melhor teria sido perder por dois ou três golos de diferença mas termos dado ao público e à crítica a sensação de que a equipa portuguesa, no seu conjunto e individualmente, sabia e podia fazer mais e melhor do que demonstrou nos 90 minutos de jogo.

Se pelos números do resultado se pode concluir que o grupo português deve ter jogado de modo semelhante ao adversário, o certo é que, quem assistiu ao jogo, ficou com a impressão de não possuírem os jogadores portugueses, mormente os avançados, categoria futebolística internacional. Isto, quanto mim, foi muito pior do que se tivéssemos perdido por maior diferença.

Esperava-se que a turma portuguesa jogasse de modo a conseguir um bom resultado e que a linha avançado fosse capaz de contrariar o sistema defensivo gaulês, batendo o esplêndido guarda-redes que era Da Rui. Afinal, a nossa defesa jogou razoavelmente e a ela e ao Azevedo se ficou devendo o magro resultado de 1 0. O sector atacante falhou rotundamente! Fez uma exibição confrangedora!

A propósito deste jogo, Ricardo Orneias escreveu no jornal parisiense “Record”, entre outras coisas, o seguinte:

“A nossa equipa não se impôs e causou enorme decepção. Apresentámos cinco estreantes, quer dizer, cinco internacionais que nunca tinham jogado no estrangeiro. E eles encararam este desafio com uma timidez terrível, da qual se não puderam libertar. Mas, em minha opinião, existem dois grandes responsáveis - os interiores. Durante toda a primeira parte eles foram quase inexistentes. E quando o nosso grupo teve a vantagem do vento não souberam organizar o jogo, salvo em raras ocasiões. Os dois extremos, Rogério e Jesus Correia, sofreram-lhes as consequências…”

E mais adiante…

“… Peyroteo foi o único a lutar.”

Enfim. Uma tarde cinzenta para o futebol nacional, e para Azevedo, Cardoso e Feliciano; Amaro Francisco Ferreira e Serafim; Jesus Correia, Araújo, Peyroteo, Travassos e Rogério.

Noutros jogos fomos mais felizes. Jogo é jogo. Paciência!

 

Que este jogo me tenha deixado só más recordações? Não. Há sempre uma faceta hilariante, um caso curioso a recordar… com saudade.

Viajando de comboio na companhia de Cândido de Oliveira, Ricardo Orneias e do Inspector dos Desportos, capitão António Cardoso, chegámos a Paris três dias antes da nossa equipa, que seguiu de avião,

Na 5.ª feira anterior ao jogo, fiz um treino. O Sr. Capitão António Cardoso quis acompanhar-me para assistir e fiscalizar. Entrou comigo para o relvado de Colombes e enquanto eu dava, a correr, umas voltas para aquecer os músculos, o “inspector” passeava de um lado para o outro…

Acabadas as voltas, fiz uns exercícios de ginástica, e depois, trabalhei com a bola: correr, parar rapidamente, controle do esférico, etc.

Entretanto, o Sr. Capitão continuava no seu passeio mas a certa altura pareceu-me ouvir a sua voz. Perguntei: - Disse alguma coisa, senhor Capitão?

Resposta: - Não ; não disse nada!

Continuei a treinar e momentos depois, ouvi, novamente, alguém falar alto. Ora se ali só estávamos os dois… inquiri:

- Falou comigo, Sr. Capitão?

- Não ; não falei consigo Peyroteo.

- Mas como se entende isto? Estou a ouvir falar alto!!!

O nosso bom amigo e Senhor Capitão António Cardoso aproximou-se um pouco e disparou esta, com a maior naturalidade deste Mundo:

- Deixe-me cá! Estou a estudada discursata que terei de fazer no banquete de domingo à noite!…

Ambos estávamos a treinar no Estádio de Colombes e, afinal, eu sempre ouvi falar alto!

Em abono da verdade se diga que todos os jogadores da equipa nacional encontraram sempre no ilustre Inspector dos Desportos, senhor Capitão António Cardoso, o mais leal amigo, o melhor camarada e o bom conselheiro. Sabendo impôr-se e colocando cada um no seu lugar, foi para nós, em todas as circunstâncias, um grande e bom amigo.

Recordo ainda um diálogo travado entre o Sr. Capitão Cardoso e Mestre Cândido de Oliveira, à nossa chegada a Paris. Ri a bom rir mas, infelizmente, por vários motivos, não posso contar, embora, também, não o possa esquecer.

Paris!… Paris!… Oh! França dos meus amores…

Chama-se um taxi que vai a passar e diz-se ao motorista:

- Leve-me à Rue de la Paix…

Resposta pronta:

- Chame outro. Essa rua fica-me para trás e eu não volto o carro. Não vê que vou em sentido contrário?

Nada ganharíamos em chamar o “Senhor Guarda” que, de resto, seria difícil encontrar!!!

Estas peripécias aborreciam o nosso companheiro, senhor Capitão Cardoso mas divertiam Mestre Cândido de Oliveira. E então, era ouvi-los e ríamos a bandeiras despregadas

Oh! Paris … Oh! França dos meus amores…

Bons tempos. Que saudades, meu Deus!…»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 136 - 138

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