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És a nossa Fé!

Memórias de Peyroteo (16)

(cont.)

 

« FRANÇA-PORTUGAL

Resultado: 3-2

Paris - 28-1-1940

 

Quando a equipa nacional partiu de Lisboa a caminho de Paris, em 24 de Janeiro de 1940, não se sabia, ao certo, quais os jogadores que alinhariam neste VI França-Portugal.

O Seleccionador Nacional, Cândido de Oliveira, só considerava “indiscutíveis” três jogadores: Azevedo, João Cruz e Peyroteo; ele próprio o afirmou no n.º 108 - página 18 - de “O Século Ilustrado”. Faço esta referência apenas para salientar que, naquele tempo, ser “indiscutível” na selecção portuguesa, não era qualquer coisa simples e sem valor, e ainda por ter conseguido o lugar à custa de muito trabalho, sacrifício, vontade, persistência e… muito suor. Sinto verdadeiro orgulho em afirmá-lo.

Cândido de Oliveira, conversando comigo acerca do jogo, disse-me:

- “Espírito Santo tem “cartel” em França e nós procuraremos, através da imprensa, chamar a atenção sobre ele. Suponho que assim e por isso, a atenção da defesa se fixará no Guilherme, de modo que tu ficarás com um pouco de folga, mas se esta táctica não resultar, entrará o Mourão. Quanto ao resto da equipa, veremos o que ditará o estado do terreno no dia do encontro, etc., etc.”

Os cálculos de Mestre Cândido de Oliveira saíram furados por que o Guilherme adoeceu.

Como sempre que era possível, ficámos os dois no mesmo quarto do hotel, e na noite da ante-véspera do jogo, o Guilherme começou a gemer; acordei e vendo-o a tremer de frio perguntei:

- “Que é isso, rapaz? Que tens tu?”

- “Estou cheio de frio e, certamente, com febre”.

Levantei-me de um salto e fui chamar o Dr. Virgílio Paula, dirigente federativo, “o homem da massa” e médico da equipa, o qual, observando o doente, diagnosticou um ataque de paludismo, e medicou convenientemente. Voltou ao seu quarto recomendando, no entanto, que voltasse a chamá-lo se o meu camarada e amigo continuasse com as tremuras.

Encontrei na mala do Guilherme uma camisola de lã encarnada - ou ele não fosse do Benfica - que lhe vesti; tirei da minha cama um forte cobertor e, com ele, reforcei os da cama do doente. Disse-lhe: Agora, amigo, vamos dormir que depois de amanhã há jogo. Respondeu-me: “Para mim não; estou liquidado. O Sr. Cândido, depois deste febrão todo, não me deixará jogar nem eu estarei em condições de o fazer”.

Com quanta tristeza, com que mágoa essas palavras foram pronunciadas! Sinceramente, tive pena do meu amigo. Durante a noite ainda fui tapá-lo duas ou três vezes ; suava por todos os poros e porque sentia calor, punha os pés de fora.

No dia seguinte, de manhã, acordou quase bem disposto mas fraco, debilitado pelos quarenta e um graus de febre. Levantou-se mais tarde e ao despir a camisola, notei que tinha o corpo todo encarnado. De princípio assustei-me, mas logo deduzi ser tinta da camisola que desbotou (bem se vê que não foi comprada na Casa Peyroteo!) Quanto à sua inclusão na equipa, o Guilherme não se enganou e compreende-se que assim fosse.

 

Os parisienses, entusiastas do futebol, viviam horas de emoção e expectativa, porque o VI França-Portugal despertara neles verdadeiro entusiasmo, e todos os jornais e revistas da especialidade faziam largas referências ao grande jogo a realizar no dia 28 de Janeiro de 1940. Onde estavam os jogadores portugueses encontrava-se, sempre, uma dúzia de jornalistas desportivos, fotógrafos e muitos curiosos. Em Paris, sim, todos sabiam da nossa presença, pediam-nos vaticínios sobre o resultado do jogo, tiravam-nos fotografias, solicitavam autógrafos e, à hora do almoço ou do jantar, lá estavam os fotógrafos com as provas para as vermos, escolhermos e… pagarmos, claro está!

No cinema, no Folies Bergère, no Casino de Paris, nos cafés, etc., quase toda a gente nos conhecia pelo grande grupo que formávamos e pelo “barulho” que fazíamos onde quer que chegássemos.

Antes e depois do jogo, os franceses foram de uma amabilidade cativante.

Chegou o dia do encontro. O Parque dos Príncipes - assim se denominava o Estádio parisiense - estava quase cheio e se não esgotou a lotação foi apenas por que as autoridades militares só permitiram a entrada a vinte ou vinte e duas mil pessoas. A França estava em guerra e receava-se um ataque aéreo; assim, quanto menos lá estivessem menos morreriam… Quer dizer: estivemos com as “bombas” por cima da cabeça sem de nada sabermos… Foi melhor assim e compreende-se bem porquê…

A nossa equipa entrou em campo dez minutos antes da hora marcada para início do jogo e recebeu uma grande ovação. O terreno estava horrível! Sentíamos os pitons das botas partirem a camada de gelo que se formara junto à relva… que quase não existia. Fazia um frio de rachar; frio que chegava até aos ossos, e nós com uma camisolinha de algodão mercerizado, com meia manga, branquinha como a neve que, aos montes, se via junto das pistas do campo. Fomos fotografados antes de entrarmos no rectângulo, foto que se reproduz nestas páginas. Repare* se bem em todos nós e, especialmente, no João Cruz e Albino, e veja-se se não estamos com caras de… três graus abaixo de zero!!!

Demos uns pontapés de ensaio para aquecer (seria possível?) e eu só pensava que, dentro de momentos, estaria três vezes em pé e quatro no chão… Pensava, por isso, na sensação “agradável” que sentiria quando, pela primeira vez, caísse de chapa sobre a água gelada que ficara no terreno depois dos pitons das botas quebrarem o gelo… Se alguém, fora do campo, pensou nessa hipótese, eu não fiquei em “hipóteses”; fui mesmo ao chão e quedei-me molhado e gelado…

Entra em campo a equipa francesa. Sobre os ombros trazem os jogadores uma capa de couro e, por baixo, uma camisola de lã - eu sei que era de lã porque, no final do prélio, troquei a minha pela do defesa francês Van Dooren.

Como nós, os franceses deram uns pontapés de ensaio e só quando formaram junto à tribuna para os habituais cumprimentos às entidades oficiais, é que se abeiraram da linha lateral e tiraram as capas com que se cobriam.

Começado o jogo, fora e dentro do campo, o entusiasmo era indescritível. Já ninguém sentia frio e, quanto a mim, o Van Dooren e o Jordan - defesas duros como ferro - encarregaram-se de me aquecer as costelas. E que bem eles o fizeram! De resto, também levaram a sua conta… Parece-me, até, que foi neste jogo que o Jordan levou uma “ombrada” tão insignificante que andou três metros para o lado, chocou com o árbitro, atirou-o ao chão e ele caiu também! O jogo prosseguiria - pois não houve falta - mas eu atirei a bola para fora e fui ajudar o árbitro a levantar-se e pedir-lhe desculpa do sucedido. Um aperto de mão entre os três protagonistas da cena e… vamos à luta.

O jogo prosseguia com bola cá, bola lá e foi numa dessas vezes de “bola cá” que sofremos o primeiro golo, havia 15 minutos. Foi o primeiro “calor” desde a nossa chegada a Paris. O segundo chegou aos 22 minutos e, portanto, 2-0!… A coisa prometia, mas a rapaziada lusitana, lutava, atirava-se aos franceses como gato a bofe - jogo duro, enérgico, viril mas correcto, não violento. Tivemos algumas “perdidas” mas não estávamos a jogar mal de todo e a prova é que a defesa francesa e o seu guarda* redes não estavam inactivos. E o intervalo chegou com o resultado de 2-0 contra nos.

Regressados à luta, nenhum lusitano pensava entregar-se porque se os adversários haviam feito 2 golos em 45 minutos, nós também poderíamos marcar dois tentos no mesmo espaço de tempo. Coragem, espírito de sacrifício, camaradagem, enfim, força de equipa não nos faltava. Mas ai que aos 34 ou 35 minutos sofremos terceiro golo! Perdidos nós, naquele momento? De maneira nenhuma! Lutar até ao apito final que é quando termina o jogo! Assim, aos 39 minutos, João Cruz recebe a bola, centra, Alberto Gomes capta-a, atira-a em profundidade e lá vou eu como um leão; luto com os dois defesas, levo a melhor, o remate parte e… golo de Portugal! Nada de cumprimentos, nada de abraços; continuamos a lutar porque não havia tempo a perder! Bola ao centro. Recomeçado o jogo o esférico chega ao Azevedo que o segura bem, corre, atira-o para um seu companheiro, vai de uns para os outros, chega aos meus pés, entro em corrida desenfreada para a baliza; trambulha um defesa francês, o outro nem tempo tem de me acompanhar, parte o remate com quanta força eu tinha e a bola embrulha-se nas redes: Go-o-o-o-lo de Portugal!

Foi o delírio. O público levantou-se como que impelido por uma mola; aplaude os portugueses, grita; estava francamente conosco. A equipa lusitana mandava rio terreno e a bola girava de uns para os outros sem os adversários lhe tocarem, mas a defesa francesa sabia do seu ofício e não era para brincadeiras! Atirava-se como doida e nós atacávamos em força, dentes cerrados. Embaraçada, receosa, vendo fugir-lhes a vitória com que já contavam, a defesa gaulesa começou a “queimar” tempo atirando a bola para fora. Nós íamos buscá-la, a correr, fazíamos os lançamentos sem perda de tempo e o público, compreensivo, aplaudia-nos, dava palmas, acenava, gritava incitando-nos.

 

Os minutos passaram e soou o apito para o final da “peleja”, como dizem os nossos irmãos brasileiros. Mais cinco minutos e sairíamos vencedores, estou certo disso.

Os jogadores franceses vêm ao nosso encontro, abraçam-nos e felicitam-nos. Van Dooren dá-me um grande abraço e pede para trocarmos as camisolas; dei-lhe a minha e tapei-me com a dele.

Jordan, - o outro defesa - abraça-me também. O público, de pé aplaude ainda, delira. Tinha assistido a um grande desafio de futebol e à nossa brilhante recuperação.

Perdemos, é certo, mas saímos do rectângulo de cabeça erguida, com a consoladora certeza do dever cumprido. A equipa portuguesa foi uma grande e boa equipa de futebol. Com terreno encharcado, temperatura a vários graus negativos, perder fora de casa pela diferença mínima, em jogo com a poderosa equipa da França, foi um bom resultado. Quem me dera que, à falta de melhor, assim pudesse ser sempre…!

 

Já falei da equipa. Quanto a mim, transcrevo algumas opiniões sobre a minha actuação que, aliás, teve reflexo pelo tempo adiante, na minha carreira desportiva:

Jornal “República” de 29-1-940:

“Peyroteo esteve ontem fortemente vigiado, mas, se pudéssemos ter o milagre de cinco avançados com as características do avançado-centro nacional, outro galo cantaria ao futebol cá da terra.”

Jornal parisiense “L’Auto”, de 29-1-940-por Lucien Gamblin, antigo capitão da equipa nacional francesa de futebol, agora jornalista desportivo e técnico de futebol:

“Du côté portugais, on eut plaisir à suivre les evolutions faciles de l’ailier droit Mourão qui avait la lourde tâche de remplacer Santo, le travail de Tarrière Pereira promu demi-centre, le l’arrière Simões, et surtout de l’athétique avant-centre Peyroteo, footballeur de grande classe qui ne s’avoue jamais battu et marqua les deux buts réussis par son équipe.”

“Diário de Lisboa” de 13-2-40, por Tavares da Silva:

“… Ao que parece, o mal é geral. Lemos outro dia acerca do desafio entre os exércitos da Inglaterra e da França que aqueles dominaram em todo o encontro, verificando-se o empate, por causa da ineficácia do seu sistema. Nós, a julgarmos, que os ingleses eram os mestres incontestados do “foot-ball”, superiores em todos os aspectos, os melhores do Mundo, e afinal sucede apenas isto: Peyroteo, o nosso famoso jogador, fez falta no “team” do exército de Inglaterra…”

Do jornal “Diário de Notícias” de 13-2-940:

Faltou um Peyroteo aos ingleses, diz a crítica do encontro França-Inglaterra, ontem disputado em Paris e que terminou empatado a uma bola:

“Paris, 11 - No conjunto o “foot-ball” britânico falhou, mais uma vez, junto às redes. Nas “blocagens” da bola, nas marcações dos jogadores e no jogo raso, os ingleses foram maravilhosos no meio campo, mas diante das redes faltou-lhes precisão e iniciativa no remate. Se contassem entre os seus avançados um Peyroteo o resultado poderia ter sido diferente. (E. T.).”»

 

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 120 - 126

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