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És a nossa Fé!

Memórias de Peyroteo (12)

(cont.)

 

«SOMA E… SEGUE

 

Pode dizer-se que foi depois do primeiro jogo oficial que começou, verdadeiramente, a minha carreira futebolística como avançado-centro do Sporting Clube de Portugal. Os primeiros treinos de conjunto, os jogos preparatórios que antecedem os campeonatos são em número suficiente para darem ao estreante um conhecimento tanto quanto possível exacto das qualidades e defeitos dos seus companheiros de equipa, ao mesmo tempo que estes se identificam com as tendências, qualidades e defeitos do estreante.

Sendo eu novato, as dificuldades estavam mais do meu lado do que dos restantes elementos da equipa, que já se entendiam perfeitamente, ao passo que o “novel avançado-centro” nem a si próprio se conhecia tanto quanto seria necessário para se enquadrar no conjunto sem alterar ou prejudicar o trabalho daqueles que, anterior- mente à sua inclusão, formavam uma equipa homogénea, possuidora de um padrão de jogo valioso, baseado em esquemas de jogadas estudadas e postas em prática durante anos consecutivos, e na variedade de tácticas adoptadas consoante a maneira de jogar dos adversários, também já deles conhecidos.

Para mim tudo era novo, desde a responsabilidade inerente ao desempenho do lugar de avançado-centro numa das nossas melhores equipas de futebol, até ao cuidado de actuar de modo a não prejudicar o bom rendimento individual dos meus companheiros. A todo o custo procurei evitar que a minha inclusão na equipa fizesse baixar a eficiência e o nível técnico do conjunto, e se é certo que nem sempre consegui o meu objectivo, não posso deixar dê dizer, por ser verdade, que pouco tempo foi necessário para -desempenhar a minha tarefa a contento de todos quantos directamente estavam ligados à equipa.

Com dificuldades? Sem dúvida! Quem as não teria í Mas estudei e trabalhei muito para as vencer! A par dos ensinamentos do treinador, sempre que se deparava ocasião propícia, conversava com os meus colegas acerca dos motivos por que se adoptara este ou aquele processo táctico, trocávamos impressões sobre a maneira de jogar dos nossos próximos adversários, estudávamos a melhor forma de os “bater” ou “anular”, enfim, procurei “instruir-me”, pedindo conselhos àqueles que sabiam mais do que eu, os quais, sempre de boa vontade, me ajudaram a levar de vencida as dificuldades que experimentei.

O Soeiro, o Mourão, Pireza, João Cruz, Rui Araújo, Aníbal Paciência, Jurado e mais tarde Armando Ferreira, estes foram os companheiros que, no princípio, mais directamente me auxiliaram. Citar os seus nomes é expressar-lhes a minha gratidão e reconhecimento pela leal amizade e camaradagem de que sempre deram as melhores provas, e acredite-se que, infelizmente, não é vulgar encontrar-se, numa só equipa, tão elevado número de sinceros, leais e bons camaradas.

Um facto que considero ter influído muito no êxito da minha vida desportiva, foi o de me interessar mais pelos adversários do que, propriamente, com os problemas relacionados com os jogadores da equipa de que fazia parte. Todos nós sabemos que o valor de um “team” de futebol não é mais do que o resultado do valor individual dos jogadores que o compõem; boas equipas sem bons jogadores, parece-me que não existem. Daí a minha atenção incidir mais sobre o valor individual do jogador ou jogadores com quem teria de lutar por virtude da nossa colocação no terreno, do que sobre a força global da equipa adversária, e isto porque cada jogador tem uma tarefa a desempenhar. Ora, mercê do estudo profundo que sempre fiz dos meus mais directos adversários, procurando conhecer os seus pontos fracos, muitas vezes os contrariei de modo a não permitir que dessem às suas equipas a colaboração que eles próprios e os seus treinadores esperavam e, com isso, não só cumpri melhor a minha missão, como prejudiquei um tanto o plano táctico da defesa contrária.

Mestre Sezabo, na sua inconfundível linguagem, expressava-se assim: “cada, cada, sinhores”, o que significava “cada um ao seu adversário”.

Os treinadores competentes, conhecedores, portanto, dos segredos do futebol, ao imporem aos seus pupilos a táctica a utilizar neste ou naquele encontro, não deixam de lembrar, também, que o estudo desse processo de jogo foi baseado, claro está, na habitual maneira de agir do antagonista. Ora, no decorrer do jogo tudo se poderá passar de modo diferente, pelo que os jogadores devem estar à altura de mudar de táctica se as circunstâncias de momento o aconselharem. Assim, se os seus pupilos, por sua vez, se entregarem ao estudo das tácticas do jogo e das características dos jogadores adversários, as dificuldades serão altamente atenuadas e o trabalho do treinador completa-se. Muitas vezes, com inteligência e saber, a nossa equipa foi buscar forças às fraquezas dos adversários e, quanto a mim, temos nestas simples considerações a explicação de muitas vitórias do “team” do Sporting, quando eu jogava no eixo do seu ataque: todos nós trabalhávamos com o corpo, com o cérebro e com a alma:

Corpo: - Persistência física, adquirida nos treinos intensivos a que nos submetíamos;

Cérebro; - Ouvir, compreender, interpretar e cumprir as instruções do treinador, além do estudo que fazíamos para bem conhecermos os nossos antagonistas;

Alma: - Vontade, abnegação, espírito de luta, orgulho, amor-próprio (brio), dignidade desportiva, respeito pela camisola que vestíamos.

Voluntariamente amarrado a esses princípios, fiz todo o possível por não os esquecer até final da minha carreira de futebolista. E tê-lo-ia conseguido? Suponho que sim, descontando-se, claro está, pequenas faltas cometidas e que são, afinal, próprias dos… homens.

Mas voltemos aos meus adversários…

Ao começar um jogo contra equipa mais ou menos estranha, a minha preocupação era a de experimentar o defesa que me cabia defrontar. Seria ele dos tais que me acompanhariam até fora do rectângulo se, no decorrer do encontro, me apetecesse beber uma laranjada no “bufete” do campo? Seria rápido na antecipação? Saltaria bem na disputa da bola pelo ar? Teria dois bons pés, ou um melhor do que o outro? Seria dos que fecha os olhos quando vai à bola? Jogará em subtileza ou em força?

Lutava com ele procurando “descobri-lo”, conhecê-lo e tentava explorar as suas fraquezas possíveis, sistema este que, por não se me afigurar mau, segui enquanto joguei futebol. Foi-me útil, e não só a mim como também aos meus companheiros de equipa, que, por seu lado, procediam de igual modo.

Resumindo; eu estudava o adversário ou adversários que me “guardavam” e a táctica de jogo da equipa, observando, também, a manobra dos outros jogadores quando em luta com os meus companheiros ; estes, necessariamente, faziam o mesmo relativamente ao que se passava comigo e com os meus opositores. Deste conjunto de circunstâncias resultava um melhor entendimento entre todos os sectores da nossa equipa e uma maior possibilidade de se jogar bem. Acentue-se, no entanto, que não é fácil, em dois ou três jogos, ficarmos a conhecer bem um jogador de futebol, quando ele, claro está, possui boa classe, sendo, até, possível nunca chegarmos a entendê-lo nas suas qualidades e defeitos. Mas essa verdade não deixa, por isso, de ser arma aproveitável para o jogador que com ele tiver de lutar. É de grande classe o nosso adversário? Pior para o desempenho da nossa tarefa. Há, então, que pôr na luta todas as nossas forças, de inteligência e saber, tentando ganhar alguns lances o que, com maior ou menor dificuldade, sempre se consegue. A questão está, depois, no aproveitamento desses deslizes do antagonista, que são, muitas vezes, mais provocados do que consentidos. Não esqueçamos que um e outro podem muito bem ser jogadores de classe semelhante…

Mesmo depois da minha longa carreira futebolística, reconheço não ter conseguido aprender tudo; muito ficou por saber! Ao contrário do que muita gente possa pensar, o futebol é um jogo difícil, como difícil é, também, conhecê-lo sob o ponto de vista técnico e táctico.»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 108- 111

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